Thursday, February 27, 2014

EUA - um país de pequenas empresas inovadoras?

America: Not a small business country (Flip Chart Fairy Tales):

Despite the popular myth of the American entrepreneur, America is not a small business country. As the Center for Economic and Policy Research noted in 2009:

By every measure of small-business employment, the United States has among the world’s smallest small-business sectors (as a proportion of total national employment).

Not much has changed since then. When compared to other advanced economies, the US doesn’t look that much more entrepreneurial than anywhere else.

America has a relatively low number of self-employed people and their numbers have fallen in recent years (...)

Compared to other developed countries, the US has relatively few people employed by small companies. (...)

America’s business start-up rate is lower than that of many OECD countries and has also fallen in recent years. (...)

The percentage of American startups with innovative products is fair-to-middling.

Are US startups making products the rest of the world wants to buy? Again, not really. The internationally trading startups are more likely to come from Europe. (...)

Whatever is behind the high productivity of the US economy, it doesn’t seem to be due to the quality or quantity of its small firms. There is almost no measure on which America’s small business sector stands out from those of other advanced countries. (...)

Uma coisa que me ocorre é que a tendência para associar os EUA ao "individualismo", "empreendedorismo" e afins é algo que, no fundo, também é relativamente recente - se pegarmos em livros escritos nos anos 50/60/70, a tendência era para apresentar os EUA (em contraponto com a Europa) como a terra das grandes empresas, do "consumo de massas", do "homem da organização", do "conformismo", etc. (eu uma vez folhei o "Confiança" de Fukuyama numa livraria e creio que ele até referia isso, penso que para ilustrar a sua tese de que o fazia os países enriquecer era exatamente a capacidade de os individuos cooperarem em organizações maiores que a família).

Wednesday, February 19, 2014

Contra as patentes

"The main problem with the patent system is not software patents, low-quality patents, or patent trolls: it is the grant of “high quality” patents to actual companies that make products, who can use these patents as a protectionist bludgeon against their competitors.

(...) Patents are simply state-granted monopoly privileges that protect entrenched industries from competition. The US patent system alone imposes hundreds of billions of dollars of net cost on the economy every year. It restricts free speech.2 It reduces innovation.3 It distorts the market.4 It gives rise to cartels and barriers to entry.5 It impoverishes people.6 It gives rise to imperialism and corruption of free trade.7 It confuses and corrupts libertarians into supporting restrictions on free trade8 and multi-billion dollar taxpayer subsidies to private industry.9
The very idea of patents is evil to the core. Shame on any supposed advocate of human liberty, technology, innovation, or freedom that is in favor of this modern legal abomination. Down with patents
(...) As libertarian attorney Jacob H. Huebert explains in “The Fight against Intellectual Property,”
Boldrin and Levine have found that the pharmaceutical industry historically grew “faster in those countries where patents were fewer and weaker.” Italy, for one, provided no patent protection for pharmaceuticals before 1978, but had a thriving pharmaceutical industry. Between 1961 and 1980, it accounted for about nine percent of all new active chemical compounds for drugs. After patents arrived, Italy saw no significant increase in the number of new drugs discovered there — contrary, one supposes, to the IP advocates’ predictions."
Wenzel on patents in developing countries, by STEPHAN KINSELLA

Thursday, February 13, 2014

Propostas à esquerda:

What We Need

This is what we think needs to change to fix our broken money system:

1. Money should only be created through a democratic and transparent body working in the public interest.

We’d like to see the power to create money transferred to a democratic, accountable and transparent process, where everyone knows who has the power to create money, how much money they create, and how that money will be used. However this process is set up – whether it’s the Bank of England or a new committee that decides whether to create money, it must be accountable to Parliament and protected from abuse by vested interests. We also want to see safeguards that ensure that the right amount of money is created – not too much (causing bubbles and a financial crisis) and not too little (causing a recession).

2. Money should be created free of debt

3. Money should come into the real (non-financial) economy before it reaches financial markets and property bubbles

4. Banks should not be allowed to create money

In the short-term: Sovereign Money Creation

Sovereign Money (Cover)When we rely on banks to create most of our money, then the only way of getting more money into the economy – and allowing it to grow – is to encourage people to go further into debt. This is why UK government policy is focused on ‘getting banks lending again’ and encouraging people to borrow more for mortgages. But the financial crisis was caused by a huge build-up in private debt, so allowing that debt to increase even further could lead us into another crisis.
What we need right now is to have a way of getting extra money into the economy, but without relying on households borrowing even more. This can happen if the Bank of England creates money and transfers it to the government to be spent into the real economy (rather than the financial or property markets). Our Sovereign Money proposal explains how this could work, how it would lead to a boost in jobs and employment, and how it would make the current debt-fuelled recovery into a sustainable one.

In the Long Term:

Ultimately, we think that the economy would be more stable and society better off if we completely remove the power that banks have to create money. These ideas have been around since the 1930s, but we’ve done a lot of work to update them for the modern financial system. You can find out more below:

Wednesday, February 12, 2014

Classe média

A respeito das politicas de austeridade não terem, à primeira vista, aumentado significativamente a "pobreza", Hugo Mendes recorda que "que o risco de pobreza é medido a partir do rendimento mediano. Se o rendimento mediano cai, a linha de pobreza também cai. Pode acontecer que, se a classe média perder rendimentos ao mesmo ritmo que os mais pobres, o risco de pobreza não se altere, embora todos estejam a empobrecer: foi isso que aconteceu entre 2009 e 2011, uma vez que a linha de pobreza caiu de €5207 em 2009 para €5046 em 2010, e para €4994 em 2011".

Uma coisa que eu acho não ter grande jeito é a ideia de definir uma linha de "pobreza" em função do rendimento mediano (creio que a definição mais usual é considerar "pobreza relativa" como ter um rendimento abaixo de 60% do rendimento mediano). Eu percebo o raciocínio de adoptar uma definição "absoluta" de pobreza, em que se considera "pobre" quem não tenha rendimento necessário para se atingir um dado padrão de consumo considerado como "o mínimo aceitável"; também perceberia o raciocínio de se adoptar uma definição "relativa" de pobreza, em que se considerasse "pobre" quem tivesse um rendimento inferior a uma dada percentagem do rendimento médio da sociedade onde vivem, já que tal significaria que essas pessoas tinham acesso a uma proporção reduzida da riqueza total produzida nessa sociedade (alguns poderiam argumentar que tal não seria verdadeiramente uma medidade de "pobreza" mas sim de "desigualdade"; mas pronto, sempre mediria alguma coisa...). Já a "pobreza relativa" utilizada atualmente é que não mede verdadeiramente nada.

Para explicar melhor o que quero dizer - imaginemos uma sociedade com três pessoas, com os seguintes rendimentos:

Carolina - 1000 euros
Pedro - 500 euros
Lúcia - 200 euros

Nesta sociedade, uma pessoa (ou 33%) será "pobre", já que o rendimento mediano é de 500 euros e a Lúcia só ganha 200 (40% do rendimento mediano - menos que os 60%).

Agora, imaginemos que, por qualquer razão, a distribuição do rendimento passava a ser assim:

Carolina - 850 euros
Pedro - 500 euros
Lúcia - 350 euros

Pronto, a Lúcia saiu da pobreza, já que agora ganha 70% do rendimento mediano.

Mas imaginemos que a alteração na distribuição do rendimento tinha sido neste sentido:

Carolina - 1200 euros
Pedro - 300 euros
Lúcia - 200 euros

E, aqui, também acabou a "pobreza" - o rendimento mediano é agora de 300 euros, e com os seus 200 euros a Lúcia está agora a ganhar 66% da mediana.

Ou seja, duas alterações de sinal essencialmente contrário na distribuição dos rendimentos (uma no sentido de menos desigualdade, outra no sentido de mais desigualdade) levaram ambas ao "fim" da pobreza relativa.

[A esse respeito, ver estes dois posts de Chris DillowInequality vs relative poverty e Relative poverty vs inequality]

Assim, podemos concluir que a "pobreza relativa" definida a partir da mediana, nem é útil para aferir realmente qual  nível de vida dos mais desfavorecidos, nem para ter uma ideia da distribuição do rendimento entre os vários sectores da sociedade (já que, como vimos, padrões bastante distintos de distribuição do rendimento podem estar associadas à mesma taxa de "pobreza relativa"); mas então é útil para o quê?

Mas agora vamos a outro ponto onde queria chegar - não a definição de "pobreza" mas a de "classe média"; também muita gente (quanto tenta medir rigorosamente a "classe média" em vez de recorrer a definições impressionistas, estilo "tem mulher-a-dias") define "classe média" em função do rendimento mediano numa sociedade, mas não faria mais sentido definir a "classe média" em função do rendimento médio? Até porque não falamos em "classe mediana".

Antes de explicar o meu raciocinio, recomendo uma olhada pelos comentários a este post do Worthwhile Canadian Initiative, onde muitos leitores levantam o mesmo ponto que eu.

E qual é o meu ponto? É que na linguagem corrente a expressão "classe média" é frequentemente usada em contextos como "no país A não há classe média, só muito ricos e muito pobres" ou "a classe média está a desaparecer" (indicando uma distribuição do rendimento menos igualitária). Mas tal só faz sentido se definirmos "classe média" como "pessoas com rendimentos próximos da média" - se definirmos "classe média" como "pessoas com redimentos próximos da mediana", num país em que haja uma meia dúzia de ricos e uma multidão de pobres, os pobres serão a mediana e serão "reclassificados" como "classe média" (que assim será a maioria esmagadora da população). Da mesma forma, uma alteração dos padrões de rendimento no sentido de uma transferência de rendimentos do "meio" para os mais ricos (aquilo a que toda a gente chama "a classe média está a desaparecer") leva a uma descida do rendimento mediano e até poderia levar a um "aumento" da "classe média", já que agora algumas pessoas que antes eram consideradas "pobres" agora já estão suficientemente próximas do rendimento mediano para serem consideradas "classe média" (é o que acontece com a Lúcia no meu exemplo acima).

Outra forma de ver a coisa - compara-se uma sociedade estilo "pirâmide", com muitos em baixo, alguns no meio e poucos em cima (o padrão dominante entre pelo menos o estabelecimento dos primeiros Estados e talvez o século XIX ou mesmo o XX) com uma sociedade estilo "pêra", com alguns em baixo, muitos no meio e poucos e cima (o que talvez seja mais ou menos a sociedade dominante no dito "mundo ocidental"). Quando se fala em "sociedade de classes médias", o que toda a gente quer dizer é o segundo caso; mas, se definirmos "classe média" em função do rendimento mediano, até é bastante possível que as sociedades "em pirâmide" tenham mais "classe média" (já que a base da pirâmide é suficientemente ampla para englobar a maioria da população, logo a linha do rendimento mediano passa por aí e tornam-se todos "classe média").

Tuesday, February 11, 2014

Empresas geridas pelos trabalhadores e macroeconomia

Um passagem do artigo citado (páginas 84-85) neste post:

We close this section by sketching a hypothesis developed by David I. Levine and a number of co-authors (Levine and Tyson, 1990; Levine, 1993; Levine and Parkin, 1994; Levine, 1995). This is the hypothesis that participatory firms (by extension, LMFs) are disadvantaged for macroeconomic reasons in an economy consisting largely of KMFs. In brief, the argument runs as follows (an elaboration appears in Levine, 1993).

Suppose LMFs do not lay off workers when demand falls, because the workermembers prefer to absorb demand fluctuations through earnings rather than layoffs. The practice of avoiding layoffs will be quite costly to the firm if recessions are long and deep, and may even threaten the survival of the enterprise. On the other hand, suppose KMFs use a more conventional compensation scheme where nominal wages remain fixed over the business cycle, and reductions in demand are absorbed through layoffs. If KMFs are the dominant organizational form, their employment practices will aggravate the business cycle for familiar macroeconomic reasons, leading to longer and deeper recessions than in a world where LMFs are the dominant mode of organization. We thus have the possibililty of multiple equilibria: if KMFs are already dominant, an LMF may not be viable, but if LMFs were already widespread the resulting dampening of the business cycle could enable individual LMFs to thrive (and might even undercut the viability of KMFs).

Porque fui buscar isso - porque faz lembrar a minha teoria de que as empresas em autogestão, durante uma crise, terão menos problemas de rigidez nominal de salários, embora os autores, pelos vistos, consideram isso uma desvantagem a nível microeconómico.

Monday, February 10, 2014

Irlanda: Anarquia por 2000 anos

Agora legendado (Br)

Friday, February 07, 2014

Está explicado porque às vezes eu tenho ideias estranhas

No Algarve nada é normal.

Capitalistas a contratar trabalho vs. trabalhadores a contratar capital

Why Capital (Usually) Hires Labour, an Assesment of Proposed Explanations [pdf], por Greg Dow e Louis Putterman.

Um estudo sobre os motivos porque é mais frequente termos empresas geridas por capitalistas a contratar trabalhadores, do que empresas geridas por trabalhadores a contratar capital (p.ex., alugando máquinas, ou financiado-se via empréstimos).

Diga-se que, com "empresas geridas por capitalistas" (capital-managed firms - KMF) e "empresas geridas por trabalhadores" (labor-managed firms - LMF) os autores referem-se a um conceito mais lato do que empresas geridas por todos os capitalistas ou por todos os trabalhadores: uma empresa que parte do capital esteja sob a forma de ações sem direito a voto ou de obrigações, mas em que os sócios com direito a voto (p.ex., os detentores de ações com direito a voto) o sejam na sua qualidade de investidores, é uma KMF; da mesma forma, uma sociedade profissional (p.ex., de advogados) em que alguns trabalhadores ainda não tenham direito a voto (p.ex., advogados sem estatuto de sócios) e outros nunca vão ter (como as secretárias ou o pessoal da limpeza), mas em que os sócios com direito a voto (mantendo o exemplo, os advogados com estatuto de sócios) o sejam na sua qualidade de trabalhadores da empresa, é uma LMF.

Thursday, February 06, 2014

Um inimigo da cultura

Este - fartou-se de vender obras de arte (Mirós, ainda por cima) durante a sua vida.

Economistas e conservadorismo

O blogger Chris House escreve que os economistas tendem a ser mais conservadores que os académicos de outras áreas (via Noah Smith e Antonio Fatas):

It is not obvious why American college faculty members have such strong liberal political views. Many conservatives argue that it is due to discrimination in hiring and that the students receive a sharply biased education as a consequence. I don’t think that the intellectual capacities of conservatives are below that of liberals but I suppose it could be a possible explanation. My own guess is that it is due to selection on attitudes towards accepting received wisdom as truth. As I mentioned in a previous post, academics are encouraged to break new ground or even to overturn established ideas. Einstein is an excellent example of such a thinker. So are Stephen Hawking, John Maynard Keynes, Alfred Blalock, etc.* Deliberately setting out to tear down established parts of your field requires a certain mindset and this mindset might be more common with people who have liberal political views. (...) The 2005 study presented results on political views by department. As a field, economics ranks as one of the least stereotypically liberal, and most conservative, fields on campus. While I cannot think of a single Republican in my own department (and no, I’m not a Republican), it is quite common to hear faculty members emphasizing the benefits of limited regulation, the gains from trade, and the harm caused by market intrusions like minimum wages, capital taxation and import tariffs. I am quite sure that many of the economists in my department would be viewed as radical right-wing conservatives by members of other departments at Michigan.
Suspeito que, sobretudo num contexto norte-americano, comparar a quantidade de "conservadores" num Departamento de Sociologia e num Departamento de Economia é um bocado comparar alhos com bugalhos - um sociólogo conservador (alguém como James Q. Wilson ou Robert Nisbet) normalmente é mesmo um conservador; mas supeito que a maior parte dos economistas classificados (ou mesmo auto-classificados) como "conservadores" não são conservadores coisa nenhuma - são liberais clássicos, que apenas são classificados como "conservadores" devido à bizarra terminologia política norte-americana; isso é relevante porque um economista liberal (mesmo que se chame de "conservador") não precisa de ter nenhuma das crenças e atitudes (prudência, preferência pela experiência sobre a razão, desconfiança pelas ideias abstractas, etc.) que os conservadores a sério são suposto terem (talvez muito pelo contrário: pelo menos a micro-economia neo-clássica e a macroeconomia das expectativas racionais - conotados com o liberalismo clássico, que nos EUA passa por "conservadorismo" - até recorrem muito mais ao racionalismo abstracto do que o keynesianismo), logo os problemas de estilo intelectual que noutras áreas podem afastar os académicos de posições conservadores não ocorrem com a Economia.

Tuesday, February 04, 2014

Quem é anarquista?

Pode esta auto-classificação ou classificação por terceiros ser definida ou delimitada de alguma forma?

Suponho que existem muitas perspectivas possíveis para o tema, eu proponho uma formulação:

A crença que é possível a cooperação social voluntária como norma de justiça universal e onde o poder de agir sobre os outros por meios violentos ou não consentidos, unilateralmente e sem legitimidade, está ausente, ou pelo menos, é minimizado e controlado.

Sim, existirão muitas formas de cada um definir "poder de agir sobre os outros por meios violentos ou não consentidos, unilateralmente e sem legitimidade". E isso distinguirá os diferentes anarquismos.

Eu creio que uma forma prática de distinguir diferentes "escolas" ou até perspectivas individuais, aqui, como em todo a filosofia ou ciência social é descrever uma posição sobre a moral e a ética definidas neste sentido:
Ética: aquilo que podemos fazer/não fazer sujeito à sanção violenta de terceiros (individual ou comunitária) e independentemente dos julgamentos morais possíveis (o dever fazer/não fazer).
Moral: aquilo que devemos fazer/não fazer, independentemente de podermos não-fazer/fazer, e onde a sanção ou aceitação passará por meios não violentos como as práticas de exclusão/inclusão social (quem o entender).
A importância da Ética revela-se no diferente entendimento sobre o que é o uso da força em legítima defesa (para os anarquistas não-pacifistas). Porque o anarquismo não implica necessariamente pacifismo, embora eu diria, que um pacifista será sempre necessariamente um anarquista, quer o admita ou não. Por outro, existe o tipo de anarquista pacifista armado e que reconhece a arma de defesa como meio legítimo.

Quanto à Moral, o anarquista desejará que cada pessoa e comunidade voluntária possa viver como quer e deseja, e assim haverá em primeira ordem, um dever moral de tolerância.

PS: Mas eu por exemplo, acho que existe pouca tolerância sobre comunidades mais conservadoras e tradicionalistas (como a Igreja) embora estes devam (e eu faço muito por recomendar) concentrar-se nas formas sociais pacíficas de inclusão/exclusão sociais de fazerem valer o seu conservadorismo (coisa que o estado moderno praticamente invalida ao não admitir ou em muito dificultar a discriminação voluntária).

Será inevitável, claro, falar de direito honesto de propriedade individual ou partilhada, e ainda do direito de livre associação e dissociação de uma comunidade.

A democracia tem um problema com o anarquista, o qual eu, repetindo-me, acho, que só pode ser resolvido pela expressa menção em qualquer ordem constitucional formal ou informal, que existe o direito de secessão, o que permite pressupor, que não sendo exercido, existe uma elevada presunção de se constituir uma comunidade voluntária. Nem vejo outra forma prática de legitimar uma qualquer ordem constitucional.

Creio que existem coisas comuns aos vários anarquismos: crítica da banca tal como ela é permitida operar, e que deságua num excesso (artificialmente induzido) de financeirização e concentração de poder, do militarismo, a tolerância por escolhas, a crítica ao corporativismo, a crítica a elites artificiais (cada um julgará a sua como "artificial") e que tomam conta e perpetuam o sistema (e sistema aqui, será a estrutura que mais impede ou dificulta o caminho para a ordem desejada, neste caso, a anárquica).

E deixo aqui uma citação de Tolkien:
2My political opinions lean more and more to Anarchy (philosophically understood, meaning the abolition of control not whiskered men with bombs) — or to ‘unconstitutional’ Monarchy. I would arrest anybody who uses the word State (in any sense other than the inaminate real of England and its inhabitants, a thing that has neither power, rights nor mind); and after a chance of recantation, execute them if they remained obstinate! If we could go back to personal names, it would do a lot of good. Government is an abstract noun meaning the art and process of governing and it should be an offence to write it with a capital G or so to refer to people … The most improper job of any many, even saints (who at any rate were at least unwilling to take it on), is bossing other men. Not one in a million is fit for it, and least of all those who seek the opportunity … There is only one bright spot and that is the growing habit of disgruntled men of dynamating factories and power-stations; I hope that, encouraged now as ‘patriotism’, may remain a habit! But it won’t do any good, if it is not universal.” - J.R.R. Tolkien, letter to his son, 1943 (from The Letters of J.R.R. Tolkien).

Monday, February 03, 2014


Emenda: ao contrário do que escrevo abaixo, afinal o Bloco não defendeu um "salário mínimo europeu"

Texto original:

Em todas estas polémicas entre supostos defensores e supostos adversários do "federalismo" como solução para a UE, há uma coisa que nunca ficou bem clara: o que é que querem exactamente dizer com "federalismo"?

Em teoria, o que distingue um Estado federal de uma confederação ou de uma simples aliança entre Estado é que os estados federados não podem abandonar unilateralmente a federação; diga-se que nem sempre os nome coincidem com as coisas - a Etiópia é uma confederação (constitucionalmente qualquer estado etíope pode declarar a independência) mas chama-se "República Democrática Federal da Etiópia", enquanto a Suíça é uma federação mas chama-se "Confederação Suíça".

Já agora, a diferença entre um estado federal e um estado unitário é que um estado federal não pode abolir unilateralmente a autonomia dos estados federados, enquanto um estado unitário, por mais autonomia que dê às suas regiões, provincias, etc., pode sempre abolir essa autonomia (na prática, essa diferença consubstancia-se em que, num estado federal, é suposto que os estados federados tenham alguma forma de participação nas revisões constitucionais [pdf], seja através da revisão ser votada não só no parlamento federal mas também nos parlamentos dos estados, seja tendo que ser aprovado nalgum orgão federal mas composto por representantes dos estados federados).

Diga-se que a diferença entre uma confederação, uma federação e um estado unitário não tem necessariamente a ver com a maior ou a menor centralização - podemos ter um estado unitário cujas provincias tenham mais autonomia que os estados de uma federação (há quem argumente que é o caso de Espanha), e também podemos ter uma confederação cujo estados membros tenham menos autonomia que os estados de um federação (talvez fosse o caso da antiga URSS, embora aí não é muito claro se se tratava de um confederação centralizada, ou se era mais uma confederação super-descentralizada governada por um partido único super-centralizado). O que distingue uma confederação, um federação e um estado unitário é sobretudo a questão "quem tem poder para mudar as regras do jogo?".

E agora regressamos à questão do federalismo europeu; a verdade é que, no sentido estrito do termo, não me parece existir praticamente "federalistas" - pode haver uma caso ou outro, mas até agora ainda não vi/li/ouvi ninguém defender que os países membros da UE deveriam deixar de poder abandonar a UE (o que é o sinal distintivo de um estado federal); na verdade, quando se fala em "federalismo" o que toda a gente quer dizer (seja adversários ou defensores) é, simplesmente, reforço das compentências da UE face aos estados nacionais.

E agora vamos ao ponto a que eu quero chegar - a recente descoberta do Bloco de Esquerda de que é contra o federalismo, e que o PS e o PSD (imagino que o LIVRE também esteja incluído) serão a favor. Se definirmos "federalismo" no sentido rigoroso do termo, ninguém é a favor do "federalismo"; se usarmos o termo simplesmente no sentido de "reforço das competências das instituições europeias", parece-me que o Bloco é (ou, pelo menos, era) dos mais "federalistas" dos partidos portugueses - afinal, penso que foi o primeiro partido a defender os eurobonds, a harmonização fiscal e acho que há tempo até defendia um salário mínimo europeu).

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]