Tuesday, July 28, 2015

Varoufakis explica o seu "plano B"

No Financial Times:

To address this problem, our simple idea was to allow the multilateral cancellation of arrears between the state and the private sector using the tax office’s existing payments platform. Taxpayers, whether individuals or organisations, would be able to create reserve accounts that would be credited with arrears owed to them by the state. They would then be able to transfer credits from their reserve account either to the state (in lieu of tax payments) or to any other reserve account.

Suppose, for example, Company A is owed €1m by the state and owes €30,000 to an employee plus another €500,000 to Company B, which provided it with goods and services. The employee and Company B also owe, respectively, €10,000 and €200,000 in taxes to the state. In this case the proposed system would allow for the immediate cancellation of at least €210,000 in arrears. Suddenly, an economy like Greece's would acquire important degrees of freedom within the existing European Monetary Union.

In a second phase of development, which we did not have the time to consider properly, the system would be made accessible through
smartphone apps and identity cards, guaranteeing that it would be widely adopted.

The envisaged payments system could be developed to create a substitute for fully functioning public debt markets, especially during a credit crunch such as the one that has afflicted Greece since 2010. Organisations or individuals could buy credits from the tax office online using their normal bank accounts, and add them to their reserve account. These credits could be used after, say, a year to pay future taxes at a discount (for example, 10 per cent).

As long as the total level of tax credits was capped, and fully transparent, the result would be a fiscally responsible increase in government liquidity and a quicker path back to the money markets.

Monday, July 27, 2015

Ainda o "Plano B" de Varoufakis

As notícias sobre o Plano B de Varoufakis parecem-me algo confusas, mas, pelo que já deu para perceber, parece-me que era simplesmente o plano que há meses se fala de o Estado grego emitir "promissórias" dizendo "vale 100 euros (pagáveis quando for possível)" e usá-las para pagar despesas (nomeadamente salários e pensões), com a diferença de que em vez de imprimir papelinhos, iria-se criar uma plataforma virtual em que cada número de contribuinte teria uma password e seria associado a uma espécie de conta-corrente que seria creditada quando o Estado grego fosse fazer pagamentos a alguém (podendo depois os utilizadores transferir "euros virtuais" de uns para os outros). Atendendo a que o emprego anterior de Varoufakis era gerir um mercado de trocas de itens virtuais entre jogos de computador ("troco uma chave para abrir uma masmorra no jogo A por uma vida adicional no jogo B"), talvez a ideia tenha vindo daí.

Creio que o que está a chamar mais a atenção para o caso é a parte do hacking - como o programa da autoridade tributária grego era gerido por técnicos da troika e não pelo ministério das finanças grego, para obter a lista dos números de contribuinte para introduzir na plataforma virtual foi necessário um amigo do Varoufakis perito em informática "hackear" o programa da autoridade tributária, o que dá um ar de thriller a isto (embora no fim a ideia fosse obter informação que, em circunstâncias normais, qualquer governo teria acesso - a lista dos NIFs).

Agora a questão era se se iria conseguir que o "euro virtual" fosse aceite pelos agentes económicos como um meio de pagamento equivalente ao verdadeiro euro - mantenho a minha teoria sobre isso: o euro virtual iria manter uma cotação aproximada a 1 euro real enquanto fossem criados menos euros virtuais (via despesa pública) do que o necessário para pagar impostos (se um euro real e um "euro virtual" fossem igualmente válidos para pagar um euro de dívidas fiscais, e houvesse menos "euros virtuais" em circulação do que dinheiro a pagar de impostos, a cotação euro real / "euro virtual" iria ser próxima do 1: se o euro real valesse muito mais que o "euro virtual", na altura de pagar os impostos toda a gente tentaria trocar euros reais por virtuais para pagar os impostos em "euros virtuais" - p.ex., se o "euro virtual" fosse valorizado em meio euro, quem tivesse 100 euros a pagar de impostos iria preferir trocar 50 euros reais por 100 euros virtuais e usá-los para pagar o imposto do que pagá-lo com 100 euros reais - , fazendo subir a cotação do "euro virtual").

Adenda 1: este artigo do Varoufakis parece confirmar que se tratava realmente a implementação em formato virtual do tal sistema das "promissórias"

Adenda 2: Parece haver muito mais noticias sobre isto com títulos estilo "Varoufakis pretendia piratear dados dos contribuintes" do que com títulos "Varoufakis pretendia criar moeda paralela virtual", o que indica que é mesmo a parte do "hacking" que está a chamar a atenção (aliás, suspeito que se não fosse a história do hacking a apimentar a coisa, o assunto mal teria aparecido nos jornais, já que o resto da notícia tem a ver com uma questão bastante técnica - a ideia de uma moeda paralela virtual - que a maior parte da imprensa nem acharia apelativa).
[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

O "imperialismo" chinês no Equador

, por "boz":

Today's NYT contains a lengthy and well researched article about China's presence in Ecuador, tying the issues within that one country to China's global expansion.(...)

A lot of these criticisms of China's global policies look like the criticisms academics like Rafael Correa have made of the US and Europe in the past.

O "plano B" de Varoufakis

Varoufakis reveals cloak and dagger 'Plan B' for Greece, awaits treason charge, por Ambrose Evans-Pritchard

Esta descrição parece fazer mais sentido do que o confuso artigo do Ekathimerini.

Sunday, July 26, 2015

Diplomacia económica

"Político do país A, durante o expediente, intercede junto de político do país B para conseguir negócios no país B para uma empresa do país A" - diplomacia económica (se correr bem, é motivo para o político do país A se autoglorificar em entrevistas, conferências de imprensa e campanhas eleitorais)

"Político do país A, nos seus tempos livres, intercede junto de político do país B para conseguir negócios no país B para uma empresa do país A" - tráfico de influências (motivo para a justiça de qualquer dos países lhe abrir um inquérito)

Friday, July 24, 2015


The end of capitalism has begun, por Paul Mason

Interview: Paul Mason’s guide to a post-capitalist future (Prospect)

[W]e’re seeing the spontaneous rise of collaborative production: goods, services and organisations are appearing that no longer respond to the dictates of the market and the managerial hierarchy. The biggest information product in the world – Wikipedia – is made by volunteers for free, abolishing the encyclopedia business and depriving the advertising industry of an estimated $3bn a year in revenue.

Almost unnoticed, in the niches and hollows of the market system, whole swaths of economic life are beginning to move to a different rhythm. Parallel currencies, time banks, cooperatives and self-managed spaces have proliferated, barely noticed by the economics profession, and often as a direct result of the shattering of the old structures in the post-2008 crisis.

You only find this new economy if you look hard for it. In Greece, when a grassroots NGO mapped the country’s food co-ops, alternative producers, parallel currencies and local exchange systems they found more than 70 substantive projects and hundreds of smaller initiatives ranging from squats to carpools to free kindergartens. To mainstream economics such things seem barely to qualify as economic activity – but that’s the point. They exist because they trade, however haltingly and inefficiently, in the currency of postcapitalism: free time, networked activity and free stuff. It seems a meagre and unofficial and even dangerous thing from which to craft an entire alternative to a global system, but so did money and credit in the age of Edward III.

Thursday, July 23, 2015

Tuesday, July 21, 2015

Condições para beneficiar de uma desvalorização monetária

Things you need to successfully devalue your way to prosperity, por Raja Korman:

1.A large tradeable sector.

2.Sizeable unutilized capacity in that tradeable sector.

3.Ideally, tradeable capacity focused on manufacturing, where gains in market share and employment from a weaker exchange rate can be immediate, rather than commodities (priced in USD).

4.Limited passthrough from a weaker exchange rate into higher input costs in said tradeable sector.

5.Limited foreign exchange asset-liability mismatches in your government, financial, corporate and household sectors.

6.A population that does not see exchange rate stability as a key nominal anchor that stabilizes inflation expectations.

7.If you have 1, 2, and 3 above, robust global demand conditions.

8.Not necessary, but enormously helpful–positive terms of trade shocks (one key to Latin and Russian current account performance after their late 90s floats was the impact of China on global commodity prices).

Aplicando ao caso grego - não se verificam os pontos 1, 5 e 6, mas talvez se verifiquem os pontos 3 (para o que interessa aqui - produtos cujo preço é na moeda local versus produtos cujo preço é em dólares - o turismo é similar à indústria; se houver uma diferença até será no sentido do preço em moeda local ser ainda mais relevantes para o turismo do que para a indústria), 4 (o sector turístico não tem grande consumo de matérias primas) e 7 (acho que a procura global por destinos turísiticos mediterrânicos não-muçulmanos está a aumentar); quantos aos pontos 2 e 8, não faço ideia (aliás, nem percebo muito bem o que o ponto 8 quer dizer).

Monday, July 20, 2015

Wednesday, July 15, 2015

O que vai acontecer se os bancos gregos abrirem nos próximos dias

Fecham no dia seguinte (ou talvez um pouco depois do almoço).

Como improvisar bancos

We can all get by quite well without banks - Ireland managed to survive without them, por Patrick Cockburn  e Money in an Economy Without Banks - the Case of Ireland, por Antoin Murphy.

Resumo breve - em 1970 houve uma greve bancária que durou meses; com os bancos fechados (e num mundo sem multibancos e transferencias eletrónicas de dinheiro), os cheques (incluindo "cheques" improvisados) tornaram-se a moeda corrente:

Undated cheques, often endorsed over to others but never cashed, became a form of currency. When the supply of cheques dried up, people wrote new ones on any available piece of paper, sometimes adding a postage stamp to give it an official appearance. There was talk of some cheques being written on beer mats and lavatory paper. It was a system that worked because it drew on local knowledge and trust. The people exchanging cheques and IOUs knew each other well, and if they did not, they could soon find the necessary information to assess each other’s credit-worthiness. At that time there were 11,000 pubs in Ireland and 12,000 shops that became substitutes for the banks. Antoin E Murphy, who carried out a study on the strike’s effects, found the public’s ability to assess risk “was based on a vast pool of information available to transactors on the credit-worthiness of other transactors”.

[via Jesse Walker]

Aliás, parece que nos últimos meses os cheques pré-datados tem estado também a tornar-se uma espécie de moeda na Grécia.

Tuesday, July 14, 2015

Dívida grega insustentável por causa das últimas duas semanas?

Andam a circular noticias de que um relatório confidencial do FMI dirá que "Greece will need debt relief far beyond what euro zone partners have been prepared to consider due to the devastation of its economy and banks in the last two weeks (..) European countries would have to give Greece a 30-year grace period on servicing all its European debt, including new loans, and a very dramatic maturity extension, or else make explicit annual fiscal transfers to the Greek budget or accept "deep upfront haircuts" on their loans to Athens".

Custa-me a acreditar que uma crise de duas semanas, em que não houve qualquer destruição da capacidade produtiva (eventualmente alguns investimentos não se terão realizado), e em que não há nenhuma razão para a economia não regressar ao normal ("normal" pelos padrões da Grécia de 2015) a partir do momento em que volta a haver dinheiro líquido nos bancos, tenha consequências tão grandes a longo prazo que seja responsável por tornar insustentável dívida que antes era sustentável.

Seria interessante que se pudesse realmente ler o que diz o relatório do FMI, em vez de estarmos limitados ao que as "fontes" que tiveram "acesso confidencial" ao relatório retransmitem.

Adenda: está aqui o relatório, em PDF


Os problemas do euro?

Greece again, por John Cochrane:

There are two original sins in the euro, neither having to do with fiscal union. The first is that each country has its own banks, and each government uses its banks as piggybanks to stuff with government debt. European bank regulators and Basel regulations treat sovereign debt as risk free. Then, if the government defaults, the whole banking system is dragged down with it. The second is the endlessly repeated fallacy that government default means the country must change the units of its currency. If Chicago defaults on its debts, nobody thinks it must introduce a new currency, or that Chicago's banks will fail.

A currency union needs a banking union, or at least banks that are not stuffed with government debt. A currency union needs to let sovereigns default without changing currencies or paralyzing the banking and payments system. A currency union needs a banking union.

Uma coisa que ainda não percebi (e se calhar até é sigilo bancário) é se os bancos gregos estão particularmente expostos à dívida pública grega - à partida, numa união monetária, e se os bancos fossem bem geridos, não haveria razão para os bancos do país A possuirem mais dívida pública do Estado de A do que os bancos dos outros países. O lógico seria os bancos de qualquer país da zona monetária terem uma carteira de investimentos incluindo dívida de todos os Estado, distribuída de forma a maximizar a relação rentabilidade-risco (ou seja, a percentagem do seu capital que um banco finlandês tem investido em dívida pública grega não deveria ser muito diferente da percentagem de capital que um banco grego tem em dívida pública grega) - ou se houvesse alguma relação, até deveria ser de os bancos gregos investirem menos em dívida pública grega do que os bancos dos outros países; o motivo - em caso de falência do Estado grego muitos dos negócios em que os bancos gregos estão envolvidos irão ser afetados (devedores que irão à falência e não podem pagar as dívidas; depositantes que ficarão perto da falência e terão que levantar o dinheiro do banco para não passarem fome, etc.), logo para reduzir o risco global (e numa lógica de não pôr os ovos no mesmo cesto) os bancos gregos deveriam investir menos em dívida pública grega do que, p.ex., os bancos belgas.

Monday, July 13, 2015

As ideias das esquerdas gregas

Através de João Pereira da Silva,  cheguei a este artigo[pdf] de Christos Laskos, John Milios and Euclid Tsakalotos (este último é o atual ministro das finanças grego), onde os autores (que imagino representem algo muito próximo do pensamento dominante no governo grego) basicamente defendem a posição "europeísta revolucionária" contra as posições a favor da saída do euro da "ala esquerda" do Syriza (nomeadamente de Stathis Kouvelakis e Costas Lapavitsas[pdf])

Os autores parecem-me marxistas ortodoxos do século XIX (considerando que o fundamental é a luta de classes e que as fronteiras nacionais são pouco mais que uma distração, e também com alguma desconfiança face ao Estado); já os que eles criticam parecem-me marxistas-leninistas do século XX (isto é, aquilo em que a maior parte das pessoas pensa quando houve a palavra "marxismo"), defendendo a ligação entre a luta anti-capitalista e as lutas de libertação nacional. 

Algo que dá que pensar - alguma imprensa internacional noticiou a nomeação de Tsakalotos dizendo isto:

"European Monetary Union has created a split between core and periphery, and relations between the two are hierarchical and discriminatory," he wrote in a paper on the website of the Alliance for Workers' Liberty, a British socialist group.
O paper é este texto (já agora, a AWL é uma organização semi-trotskista britânica, que considera que a URSS era "coletivista burocrática", ao contrário tanto dos trotskistas clássicos - que acham que era um "estado operário deformado" - como do Socialist Workers Party britânico - que acha que era "capitalista de estado"). E o que é relevante aqui é que não é Tsakatolos a dizer isso - é uma citação de Lapavitsas et al.[pdf], que Tsakatolos se dedica a criticar nos parágrafos seguintes, considerando ser uma ideia inspirada pela "teoria de dependência" (os autores parecem considerar a teoria da dependência errada, achado-a contraditória com o crescimento económico da China e outros países do Extremo-Oriente; acho que eles estão a ser muito rápidos a jogar essa teoria fora - na verdade, creio que a atual crise do euro e as análises que têm sido feitas delas até tem muito material para uma síntese entre a teoria da dependência e a macroeconomia mais mainstream). O que terá levado a imprensa a apresentar Tsakatolos como defendendo a posição oposta à que ele realmente defende nesse debate? O estilo gráfico do artigo, sem nada que à primeira vista permita distinguir citações de trechos originais não ajuda, mas suspeito que parte da culpa está nas espetativas que o século XX criou acerca do que alguém apresentado como um  "marxista ortodoxo" é suposto acreditar.

Algo que me parece mais difícil de conciliar com as teses deste texto (que anda quase todo à volta de dizer que o conflito é trabalhadores contra capitalistas e não países periféricos contra países do centro) é a participação de Tsakatolos num governo de coligação com os nacionalistas de direita Gregos Independentes.

Uma nota final: os acontecimentos da última semana são capazes de estar a dar razão à outra facção.

Saturday, July 11, 2015

Mais um trilema impossível?

Uma ideia que me ocorreu - para os países periféricos da zona euro provavelmente é impossível (na ausência de solidariedade internacional significativa) ter estas três coisas ao mesmo tempo:

- romper com a austeridade
- permanecer no euro
- ter um sistema bancário com reservas fracionárias

A Grécia tentou, mas ao fim de 15 dias acabou por desistir do primeiro ponto; se não fizessem isso, provavelmente em breve teriam, ou que começar a emitir moeda própria, ou reformarem radicalmente o sistema bancário (transformando os depósitos não cobertos por reservas noutra coisa que não depósitos).

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Thursday, July 09, 2015

Bernie Sanders e a "Segunda Emenda"

Bernie Sanders Gets His Gun, por John Stoehr, em The American Conservative:

The senator from Vermont identifies himself as the only democratic socialist in the U.S. Congress. He has called for breaking up the big banks, for easing drug laws, and for expanding social-insurance programs. In May, he introduced a bill that would impose a tax on Wall Street transactions to make college tuition obsolete.

But Sanders is also an ardent defender of the Second Amendment. This, according to elite liberals’ opinion, does not compute. The implication of their argument is that Sanders is at odds with the values and priorities of the Democratic base. Indeed, Slate’s Mark Joseph Stern appeared downright worried that his economic populism might seduce unsuspecting liberals: “Before liberal Democrats flock to Sanders, they should remember that the Vermont senator stands firmly to Clinton’s right on one issue of overwhelming importance to the Democratic base: gun control.” (...)

Sanders’s record on gun legislation is somewhat mixed. He used to be a National Rifle Association candidate of choice, but these days, given his support for tepid gun-control measures, he’s persona non grata with the NRA. Even so, Sanders has been opposed for the most part to greater government oversight of ownership and sale of firearms. During his long tenure in Congress—for 16 years in the House of Representatives before being elected to the Senate in 2006—Sanders opposed universal background checks, and after the Sandy Hook killings in 2012 he said that even the strongest gun-control law would not have prevented a massacre of innocents.

What got Mark Joseph Stern’s back up was Sanders’s support of tort reform in favor of firearms manufacturers. In 2005, he voted for the Protection of Lawful Commerce in Arms Act, which immunized gun makers against liability claims. As Stern writes: “It is one of the most noxious pieces of pro-gun legislation ever passed. And Bernie Sanders voted for it.” (...)

Fact is, the real issue in the gun debate is geography. Bernie Sanders knows it. Vermont is a rural state with relatively weak gun laws and relatively low rates of gun violence. Guns are normal. Meanwhile, most liberal Democrats, especially the ones who write for Slate and MSNBC, live in populous urban centers located on the east and west coasts, where in their experience having a gun makes no sense at all.

I’m not bothered by hypocrisy. What bothers me about this mainstream liberal reaction to Bernie Sanders’s record on gun legislation is what it says about mainstream liberalism, especially its understanding of the values of the white working class, a bloc of voters that the Democratic Party still needs in order to advance a majoritarian agenda.

As a close friend of Sanders told National Journal: “He doesn’t really care about guns. But he cares that other people care about guns. He thinks there’s an elitism in the antigun movement.” And he’s right.

Uma coisa que me ocorre é que até que ponto o alinhamento político nos EUA sobre a questão das armas (basicamente, "direita" contra o "gun control", "esquerda" a favor) não passará de um simples acidente - afinal no resto do mundo não há (ou não havia até há poucos anos) esse alinhamento (frequentemente até era mais a esquerda a defender a ideia do "povo em armas"), e penso que mesmo nos EUA é relativamente recente (creio que as primeiras leis de "gun control" nos EUA após da Guerra da Secessão foram feitas por inspiração do Ku Klux Klan, e na década de 1960 essas propostas vinham muitas vezes de Republicanos "lei e ordem", como Ronald Reagan).

Wednesday, July 08, 2015

A Grécia conseguiria sair do euro se quisesse?

Can Greece Leave?, por John Cochrane:

Is Grexit even possible?

It strikes me that the best Greece can do with a Drachma is to create a two-currency system, sort of like Cuba or Venezuela, or at best Argentinal (...).

If the government brings back the Drachma  as a way to pay pensions, government salaries, and bank accounts, Euros will still circulate in Greece.

18% of Greek GDP is tourism. That number may be understated -- I don't know if it includes tourist spending at restaurants, stores, transport, and other places that mix tourists and locals. Tourists will spend Euros, not Drachmas. So hotels, gas stations, restaurants, grocery stores, clothes stores, airlines, car rentals, etc. will likely still gladly take euros and euro credit cards, and from locals as well as tourists. (...)

So, the Drachmaized Greece that I see is not the cleanly devalued newly competitive powerhouse that some on the left seem to envision.  Instead I see a two-currency economy. Pensioners and government workers and anyone unlucky enough to still have a Greek bank account get Drachmas. Hotel owners, restaurant owners, and exporters get euros, above or under the table.
Ver também Sair do euro aumentaria a competitividade grega?

Quer a ideia de John Cochrane que quem iria usar dracmas seriam os funcionários públicos e os pensionistas, quer a minha que iriam ser sobretudo os assalariados cuja remuneração seria fixada em dracmas, implicarão que quem terá mais a perder com a saída do euro seria exatamente a base social do Syriza (talvez os eleitores do ANEL-Gregos Independentes tenham mais a ganhar? Se for o caso, talvez possa explicar o facto de nas últimas semanas o ANEL ter parecido ser mais duros com os credores do que a direção do Syriza).

Sunday, July 05, 2015

Porque não se fala em PRexit?

Greece vs Puerto Rico and what's "systemic.", por John Cochrane:

 How is a Greek default different from a Puerto Rican default?

Answer: because Puerto Rico doesn't have its own banking system. It can't shut down banks. Banks in Puerto Rico are not loaded up on Puerto Rico debt, so depositors are not in danger if the state government defaults.

Puerto Rico, like Greece, uses a common currency. But there is no question of PRexit, that people wake up one morning and their dollar bank accounts are suddenly PR Peso bank accounts. So they have no reason to run and get cash out
   No, Puerto Rico Isn’t Greece, por Paul Krugman:
There are obvious parallels between the crisis in Puerto Rico and the disaster in Greece — a poor economy overshadowed by a huge wealthier economy to the north, budget problems, declarations that the debt is unpayable. And I don’t want to minimize the problems and pain in San Juan. But it’s important to understand that the depth of the pain is just not of the same order of magnitude, and not just because Puerto Rico’s banks are secured by a national safety net, although that helps. (...)

Greek real consumption per capita has plunged, whereas Puerto Rico’s has actually risen. (...)

What’s supporting that consumption? Some of it surely involves private remittances from Puerto Ricans working on the mainland and sending money home. But it’s also fiscal federalism: as Puerto Rico’s economy has stumbled, its payments to Washington have dropped while its receipts from federal social insurance programs have risen, so that the island is in effect receiving aid on a scale that would be inconceivable in Europe.
A respeito do artigo de Cochrane, diria que a vantagem de Porto Rico não ter bancos próprios não é só esses bancos não estarem particularmente expostos à dívida porto-riquenha, mas também não haver o perigo de, por uma qualquer zanga entre Porto Rico e o governo federal dos EUA, o FED deixar de financiar os bancos porto-riquenhos.

Saturday, July 04, 2015

O que em breve o governo grego terá que fazer

Se ganhar o "não" no referendo, e perante a crise bancária, a Grécia terá de certeza que fazer uma destas 3 coisas:

- Sair do euro (ou, no mínimo, lançar uma moeda paralela ao euro)

- Decretar que todos os depósitos bancários acima de certo limite são convertidos em ações dos bancos respetivos

- Decretar que todos os depósitos bancários acima de certo limite são convertidos nalguma forma de aplicação financeira a prazo não mobilizável antes do fim do prazo (o mais natural seriam obrigações dos bancos, mas também pode ser algo do estilo das "contas de investimento" propostas na Islândia)

O objetivo da segunda ou da terceira medida é resolver o problema de como, sem acesso a um banco central que possa emprestar dinheiro em caso de pânico, manter um sistema financeiro em que o valor dos depósitos é muito superior ao dinheiro que os bancos têm em caixa.

[Tanto a segunda como sobretudo a terceira poderiam estar submetidas a uma cláusula estipulando que, caso o BCE volte a mandar dinheiro, esses títulos podem ser reconvertidos em depósitos]

Eu por mim preferia a terceira solução. Mas seria conveniente que o valor a ser convertido já tivesse sido congelado nos bancos e que o governo anunciasse previamente que, se ganhar o "não", era esse o "plano B" caso a troika não cedesse. É verdade que isso iria reduzir bastante a possibilidade de o "não" ganhar (muita gente saber que, nesse caso, o dinheiro que tinham no banco iria ser convertido em obrigações que só iriam vencer daqui a uns anos), mas por outro lado acho que iria dar mais força negocial ao governo grego saber-se que já havia um plano para manter o sistema bancário a funcionar sem sair do euro mesmo sem apoios do BCE (e, no caso de vitória do "não", esse plano ter sido implicitamente sufragado pelo povo grego), em vez da conversa completamente confusa "vai tudo correr bem" do Tsipras e do Varoufaki.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Resultados de independências

Independence Day: Any Reason to Celebrate?, por Bryan Caplan:

Can anyone tell me why American independence was worth fighting for?

Most libertarians interpret the Revolutionary War as a libertarian crusade. But when you ask about specific libertarian policy changes that came about because of the Revolution, it's hard to get a decent answer.

In fact, with 20/20 hindsight, independence had two massive anti-libertarian consequences: It removed the last real check on American aggression against the Indians, and allowed American slavery to avoid earlier - and peaceful - abolition.

If libertarians have little reason to celebrate American independence, who does? Leftists? They ought to take the Indian and slavery issues seriously, too. I guess getting rid of titles of nobility and such was a step toward greater equality, but a step worth shedding blood over?

How about conservatives? They're likely to say "This war created our country - of course it was worth it!" But without the war, conservatives would still have a country to get misty-eyed over - it would just be Britain instead of America. If you're going to love whatever country you're born in, it's hard to see the point of fighting to make a new one.

A respeito do parágrafo final, uma coisa que me ocorre: em tempos no Facebook estava a decorrer uma discussão sobre quem eram os grande portugueses, e claro falava-se de D. Afonso Henriques; mas bastaria a História ter corrido ligeiramente diferente para D. Afonso Henriques ser lembrado, não como o criador do nosso país, mas como alguém que tentou destruir o nosso país.

Thursday, July 02, 2015

Possível perfil de um regime militar na Grécia

De vez em quando lêem-se artigos à esquerda insinuando que a troika/as instituições não se importariam se o governo Syriza fosse afastado por um golpe de Estade e susbstituido por algo como uma junta militar.

No entanto, suspeito que, neste momento, a haver um regime militar na Grécia, mais facilmente seria um regime nacionalista radical e pró-russo (quiça com alguns tiques "bolivarianos") do que um regime pró-troika. Ou seja, algo mais parecido com os regimes militares árabes dos tempos da Guerra Fria do que com a maior parte dos regimes militares latino-americanos da mesma época.

Note-se que não estou a dizer que é provável um regime militar na Grécia neste momento - estou apenas a dizer que um regime militar nacionalista "anti-imperialista" é mais provável que um regime pró-troika.

Sugestão de leitura: Greece November 2011: “The Coup D’ Etat that Did Not Happen….” Part I e Part II, onde se refere os boatos de ligações entre grupos de oficiais do exército, setores ultraconservadores da Igreja e grupos de extrema-direita e da ala nacionalista da Nova Democracia (os atuais Gregos Independentes).

A Grécia das Caraíbas

The tragedy of Puerto Rico, America’s very own Greece, por Felix Salmon:

Puerto Rico, like Greece, is the poor southern cousin of a politically-motivated monetary union which was not designed with such populations in mind. Like Greece, it is burdened with a massive debt it can’t realistically pay back. Like Greece, it is therefore going to default. And like Greece, that default is going to prove extraordinarily painful, in large part because of the constraints being imposed from the north. (...)

Puerto Rico’s case is different from most other debt defaults. After all, debtors generally have some protections. Most bankruptcy laws, for instance, protect debtors’ assets and incomes from being seized, at least temporarily. And in the case of sovereign nations like Greece, it’s almost impossible for any court, foreign or domestic, to force the country to pay monies it doesn’t want to pay.

Puerto Rico, by contrast, is stuck in the worst of all worlds. It has to abide by the rulings of New York courts, should bondholders file suit. And at the same time, it’s not allowed to file for — and receive the protections of — bankruptcy. (US municipalities, like Detroit, can file under Chapter 9 of the American bankruptcy code; Puerto Rico, which is a territory, cannot.) As a result, Puerto Rico is at the mercy of the courts, which will take one look at the island’s unambiguous bond contracts and declare that it has to pay its debts, in full.