Tuesday, December 27, 2016

Liberdade, leis e opressão social

Ainda a respeito da polémica desencadeada por Ricardo Araújo Pereira, André Azevedo Alves argumenta no Observador que "[n]os dias que correm, defender a liberdade implica, cada vez mais, resistir à ofensiva do poderoso lobby LGBT. (...) Um bom exemplo desse ódio foram as reacções contra declarações do insuspeito Ricardo Araújo Pereira, em que este se terá queixado da crescente opressão do politicamente correcto nestes domínios".

Mas vamos lá ver - ao que me parece, o RAP não se queixou que fosse proibido (legalmente) fazer piadas a falar de mariconços (ou de coxos), mas sim que haveria um ambiente de pressão social que tornaria impossível ou muito difícil fazer isso. Da mesma maneira, nenhum dos comentadores (dos que eu li) que criticou RAP disse que deveria ser ilegal fazer anedotas que pudessem ser vistas como homofóbicas, apenas que os humoristas deveriam abster-se de o fazer (mesmo a Isabel Moreira, abertamente, foi isso que disse,  apesar das implicações mais ambíguas que se possam ver no texto dela).

Na mesma linha, a maior parte dos comentários feitos no post do Facebook de Miguel Vale de Almeida criticando o artigo de AAA (que AAA recomenda a leitura como ilustração prática da sua tese) são bastante violentos (inclusive dizendo que o Observador não devia publicar aqueles artigos), mas parece-me que só dois ou três falam em fazer queixa às autoridades.

Claro que isso levanta uma questão (que, na minha opinião, deveria ser mais discutida do que tem sido nestas polémicas sobre o "politicamente correto") - até que ponto um ambiente de pressão social generalizada não poderá ser quase tão opressivo como as leis do Estado (ou talvez até mais - afinal, não é raro que quando uma coisa seja proibida por lei mas não seja alvo de sanção social, a lei acabe na prática por ser ignorada: como aquela taxa que nos anos 80 se pagava pela televisão ou conduzir a mais 10 kms que o limite de velocidade; mesmo a proibição do aborto ou do consumo de haxixe - quando eram crimes - andavam perto disso, só ocasionalmente dando origem a processos)?

A respeito disso, Henry David Thoreau escrevia, n'A Vida sem Principio:

Mesmo admitindo que o norte-americano tenha se livrado do tirano político, ele ainda é escravo de um tirano económico e moral (...). Não consideramos este país a terra dos homens livres? Que significa ser livre do poder do rei Jorge e continuar escravo do rei Preconceito ?
Ou John Stuart Mill, em On Liberty:
Like other tyrannies, the tyranny of the majority was at first, and is still vulgarly, held in dread, chiefly as operating through the acts of the public authorities. But reflecting persons perceived that when society is itself the tyrant — society collectively over the separate individuals who compose it — its means of tyrannizing are not restricted to the acts which it may do by the hands of its political functionaries. Society can and does execute its own mandates; and if it issues wrong mandates instead of right, or any mandates at all in things with which it ought not to meddle, it practices a social tyranny more formidable than many kinds of political oppression, since, though not usually upheld by such extreme penalties, it leaves fewer means of escape, penetrating much more deeply into the details of life, and enslaving the soul itself. Protection, therefore, against the tyranny of the magistrate is not enough; there needs protection also against the tyranny of the prevailing opinion and feeling, against the tendency of society to impose, by other means than civil penalties, its own ideas and practices as rules of conduct on those who dissent from them; to fetter the development and, if possible, prevent the formation of any individuality not in harmony with its ways, and compel all characters to fashion themselves upon the model of its own. There is a limit to the legitimate interference of collective opinion with individual independence; and to find that limit, and maintain it against encroachment, is as indispensable to a good condition of human affairs as protection against political despotism.
Mas, a ser assim, acho que temos uma curiosa inversão dos alinhamentos tradicionais: usualmente era a esquerda que dizia que, mesmo que possa haver liberdade legal, o peso das tradições sociais e/ou da dependência económica (p.ex., o risco de ser despedido) pode limitar grandemente essa suposta liberdade (creio que era isso que consistiam as teses da Escola de Frankfurt e afins sobre "personalidade autoritária", "tolerância repressiva", "unidimensionalidade", etc.); já à direita é que era mais frequente dizer-se que desde que o Estado não te proíba, és livre (à partida diria que essa posição vinha acima de tudo dos liberais socialmente conservadores - que pretendem uma combinação de Estado não-intervencionista com uma sociedade em que os "valores tradicionais" sejam predominantes; já entre liberais socialmente "progressistas" - a começar talvez pelo Thoreau e o Mill e a acabar em muitos auto-proclamados "liberais espessos" - é mais comum a ideia de que as convenções sociais também podem ser opressivas; quanto a conservadores não-liberais, penso que não perdem muito tempo a discutir sobre se as convenções sociais são ou não restritivas da liberdade - suponho que o raciocinio deles seja algo "e se forem?"). Mas nas polémicas sobre o "politicamente correto" parece-me ser mais frequente ser a direita (e/ou os conservadores culturais, o que não é exatamente a mesma coisa) a queixar-se da alegada "tirania do politicamente correto" (mesmo, parece-me, em situações em que essa suposta "tirania" não vem do Estado), e cada vez mais se vê a esquerda a argumentar que desde que não haja nenhuma proibição oficial de dizer isto ou aquilo, não há problema nenhum (ou será que é exatamente por isso que esta questão da "pressão social" não é tão discutida como eu acho que deveria ser? Porque nenhum dos lados se sente confortável em evidenciar esta contradição?)

[Já agora, a respeito de aparentes trocas de posição, recomendo o texto Brendan Eich and the New Moral Majority, por William Saleton, na Slate, sobre a demissão mais ou menos forçada de Brendan Eich de CEO da Mozilla, depois de se saber que ele tinha doado dinheiro para uma campanha para abolir o casamento homossexual; o autor afirma que os argumentos usados para pressionar Eich a se demitir foram os mesmos que durante décadas foram usados para justificar o despedimento de homossexuais: "ele não se integra", "os clientes e os outros empregados não se sentem à vontade", etc.]

Agora, acho que há duas questões (pelo menos) que se podem levantar acerca disso:

Primeiro, será possível uma situação em que há censura social mas não restrições legais? Ou será que, a partir do momento em que, numa dada sociedade, um dado comportamento (como a homossexualidade ou a homofobia) é socialmente repudiado, é uma questão de tempo até surgirem leis contra esse comportamento?

Segundo, será possível uma situação sem censura social, ou será que a diminuição da censura social sobre uma coisa está forçosamente ligada a mais censura social sobre outra (isto é, combater a censura social contra X implica praticar censura social contra Z)?

Para explicar melhor o que quero dizer, vamos pensar num exemplo que não corresponda a divisão ideológica no mundo real (para pudermos refletir objetivamente no assunto, sem sermos influenciados por clubismos políticos) - p.ex., usar óculos modelo aviador (ou então, para referir algo que foi realmente atacado há uns meses, cargo shorts - como é que isto se diz em português?).

Vamos imaginar que existia um ambiente de censura social generalizada contra o uso de óculos modelo aviador, que era opinião generalizada, frequentemente repetida em todo o sítio, que eram uns foleiros, que viviam mentalmente no princípio dos anos 80, que eram serial killers em potência, que nos lugares que que é "reservado o direito de admissão" eram impedidos de entrar, que nas entrevistas de emprego quem usasse esses óculos era imediatamente posto de parte, etc. e que era frequente alguém que usasse esses óculos, quando finalmente arranjasse um emprego, ser praticamente obrigado pelas colegas de trabalho (via sessões diárias de "quando é que mudas de óculos?") a mudar de óculos.

Agora vamos imaginar que, finalmente, um grupo de utilizadores desses óculos e de "aliados" decidem que é tempo de contra-atacar - consistindo esse contra ataque em artigos indignados nas redes sociais sempre que alguém escreve ou diz qualquer coisa contra os óculos modelo aviador, boicotes e listas negras contra as empresas que discriminam pessoas por usarem óculos modelo aviador, e provavelmente criando as palavras "oculosdeaviadorofóbico" e "imagengista" para designar os seus adversários (e, já que estamos numa de boicotes, boicotando os meios de comunicação que propagam a oculosdeaviadorofobia).

Face a esse contra-ataque, alguns poderiam queixar-se "já não se pode dizer nada"; mas essa perseguição (e repito que estou falando apenas de perseguição ao nível da sociedade civil, não de leis) aos oculosdeaviadorofóbicos teria por objetivo, exatamente, contrariar uma situação em que "já não se pode usar os óculos de que se gosta".

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Thursday, December 22, 2016

O Google e o Holocausto

Na ultima semana, eclodiu uma espécie de micro-escândalo porque clicar no Google "Did the Holocaut Happen" dava uma lista de links que tinha em primeiro lugar um link para um site neo-nazi dizendo que o Holocausto não tinha existido (digo "micro" porque ninguém ligou a isso, mas os que ligaram trataram o assunto como um escândalo).

Num site português que deu azo ao tal "escândalo" até vieram com uma conversa um bocado absurda a queixar-se de que a primeira resposta que o Google dava à pergunta "Did the Holocaut Happen" era um link negando o Holocausto. Eu digo que a conversa é absurda por uma razão - o Google não é o Quora, ou a secção de perguntas do Yahoo; o Google não dá "resposta" a perguntas - o Google é um motor de busca, que indica sites que contenham as palavras indicadas no campo de pesquisa; se o tal site neo-nazi tem efetivamente as palavras pesquisados, os resultados do Google são exatamente o que o utilizador estava a pedir - sites com as palavras "Did", "the", "Holocaust" e "Happen" (talvez o utilizador não tenha consciência do que está a pedir, e julgue que está a obter a resposta a uma pergunta - a mania que noto que alguns utilizadores têm de preencher o campo de pesquisa com uma pergunta formulada em "linguagem natural" levanta efetivamente essa suspeita - mas os utilizadores também têm que ter um mínimo de noção do que estão a fazer - se alguém vai a uma loja de ferramentas comprar pastéis de nata...).

Entretanto, parece que o Google fez qualquer coisa para que esse site deixasse de aparecer em primeiro; para as pessoas que se calhar estejam contentes com isso, pensem nas implicações: quanto mais a ordem dos resultados nas buscas do Google derivar de decisões humanas (vamos por este site para cima, vamos por aquele para baixo...) e menos de um algoritmo matemático funcionando automaticamente, mais poder tem que controle o Google para controlar aquilo que nós lemos ou deixamos de ler.

É verdade que se pode argumentar que o Google já tem esse poder - afinal, nenhum de nós sabe verdadeiramente se o motor de busca realmente segue o tal algoritmo (que é, creio, parcialmente secreto), pelo que já podem estar perfeitamente a dar-nos resultados pré-fabricados às pesquisas que fazemos, nomeadamente sobre assuntos que possam ser considerados sensíveis. Mas creio o Google começar a fazer isso abertamente em certos casos aumenta a possibilidade de uma manipulação generalizada - quando a manipulação é secreta, há sempre um certo cuidado de se evitar que se saiba (inclusive por via de whistleblowers), e portanto uma tendência para a fazer em dose reduzida; a partir do momento em que se admite que há uma ponderação humana na ordenação dos resultados, essa barreira psicológica, chamemos-lhe assim, desaparece.

Já agora, uma coisa que já há muito me irrita no Google: quando eu faço uma pesquisa sobre, digamos, AAAA, BBBB e CCCC, e aparecem-me entre os resultados links que referem só AAAA e CCCC (indicado que BBBB não é referido nesse site), obrigando-me a por BBBB entre aspas para ter mesmo só resultados em que BBBB apareça - vamos lá ver, se eu pesquisei pelas três palavras, é porque quero resultados com essas três palavras, não é? Não têm que me dar resultados só com duas e obrigarem-me a truques para ter os resultados que quero.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Wednesday, December 21, 2016

"Pobreza", "Islamismo", etc.

- A [característica X] está associada ao [comportamento Y]
- Grande parte, ou mesmo a maior parte, das pessoas com a [característica X] não têm o [comportamento Y]

Dá-me a ideia que, conforme a [característica X] é económica ou cultural, a discussão inverte-se completamente (em quem diz cada coisa).

Ainda o colégio eleitoral norte-americano

Some Additional Thoughts on the Faithless, por Steven Taylor (Outside the Beltway):

Prior to 2000, I thought that an electoral college/popular vote inversion would result in voters being shocked about an institution they paid little attention to and that would lead to serious calls to change it. But, of course, that proved to be incorrect. The bottom line is that a) we have an unhealthy reverence for anything that we can attribute to the Founding Fathers, b) those same Fathers made changing the system almost impossible, and c) the winners of any system have no incentive to change that system. (...)

As much as I think that the EC should be replaced with a popular vote system, I cannot see a pathway that leads to its demise save a situation in which the Republicans also fear winning the popular vote and losing the EC as well.  The thing is:  the electoral advantage in terms of actual voters belongs to Democrats:  consider that from 1992 to the present (almost a quarter century), the Republicans have only won the most popular votes once, and that was in 2004.  They lost in 1992, 1996, 2000, 2008, 2012, and in 2016.  And yet, in that same time-span, they have won the presidency twice.  Why?  Because of the electoral college.  They do not have any incentive to get rid of it.

"Estou muito atarefado" - símbolo de posição social

Research: Why Americans Are So Impressed by Busyness, por Silvia BellezzaNeeru Paharia e Anat Keinan (Harvard Business Review):

“What is a ‘weekend?’” Violet Crawley, the Dowager Countess of Grantham, famously asked during the first season of Downton Abbey, set in 1912. The joke, of course, is that the Dowager Countess is too aristocratic to even recognize the concept of a week divided between work and leisure. Consistent with this portrayal, Thorstein Veblen, one of the biggest theorists on status signaling, suggested in 1899 that living a leisurely life and not working (what he refers to as “conspicuous abstention from labor”) is the most powerful way to signal one’s status in the eyes of others. This makes sense: if you are very wealthy, you can afford as much leisure as you wish.

Fast-forward to the 21st century and hop across the Atlantic. In today’s America, complaining about being busy and working all the time is so commonplace most of us do it without thinking. If someone asks “How are you?” we no longer say “Fine” or “I’m well, thank you.” We often simply reply “Busy!” (...)

Busyness and lack of leisure are also being more celebrated in the media. Advertising, often a barometer of social norms, used to feature wealthy people relaxing by the pool or on a yacht (e.g., Cadillac’s “The Only Way to Travel” campaign in the 90’s). Today, those ads are being replaced with ads featuring busy individuals who work long hours and have very limited leisure time. For example, recall Cadillac’s 2014 Super Bowl commercialfeaturing a busy and leisure-deprived businessman lampooning those who enjoy long vacations.

Intrigued by this phenomenon, we decided to conduct a series of studies to examine how signaling busyness at work influences perceptions of status in the eyes of others. (...)

In general, we found that the busy person is perceived as high status

Against Busyness, por Chris Dillow:
A nice post at the HBR blog by Silvia Bellezza, Neeru Paharia and Anat Keinan describes how being busy is now celebrated as a symbol of high status.

This is not natural. Marshall Sahlins has shown that in hunter-gather societies (which were the human condition for nine-tenths of our existence) people typically worked for only around 20 hours a week (pdf). In pre-industrial societies, work was task-oriented; people did as much as necessary and then stopped. (...)

The backward-bending supply curve of labour was normal.

Tuesday, December 20, 2016

Bernie teria ganho?

Bernie Sanders Would Have Lost the Election in a Landslide, por Kevin Drum (Mother Jones)


Bernie Woulda Lost, por Kevin Drum

Uma passagem do texto de Gellman:
My guess would be that Sanders’s ideological extremism could’ve cost the Democrats a percentage or two of the vote. So, yes, a priori, before the campaign, I’d say that Hillary Clinton was the stronger general election candidate. And I agree with Drum that, just as lots of mud was thrown at Clinton, the Russians would’ve been able to find some dirt on Sanders too.

But here’s the thing. Hillary Clinton won the election by 3 million votes. Her votes were just not in the right places. Sanders could’ve won a million or two votes less than Clinton, and still won the election. Remember, John Kerrylost to George W. Bush by 3 million votes but still almost won in the Electoral College—he was short just 120,000 votes in Ohio.

So, even if Sanders was a weaker general election candidate than Clinton, he still could’ve won in this particular year.

Or, to put it another way, Donald Trump lost the presidential vote by 3 million votes but managed to win the election because of the vote distribution. A more mainstream Republican candidate could well have received more votes—even a plurality!—without winning the electoral college.

The 2016 election was just weird, and it’s reasonable to say that (a) Sanders would’ve been a weaker candidate than Clinton, but (b) in the event, he could’ve won.

Monday, December 19, 2016

Discutindo o PKK e Rojava

The New-Old PKK e A Commune in Rojava?, por Alex de Jong

Analysing the PKK: a reply to Alex de Jong, por Phil Hearse e Sarah Parker

Sunday, December 18, 2016

Friday, December 16, 2016

Intervenção na Síria


Tal como nas polémicas sobre o banco alimentar contra a fome, uns defendem o papel do estado e outros preferem o voluntariado.

Em defesa das "políticas da identidade"

No, “Identity Politics” Didn’t Elect Trump, por Kevin Carson (Center for a Stateless Society):

In all the damage assessments and recriminations following the presidential election, one theme I’ve seen way too much of is blaming Trump’s victory on “political correctness.” One person blamed the Left for “demonizing white men” for the past eight years instead of focusing on economic and class issues. Another clutched his pearls about what a dumb strategic move it was to dismiss most of Trump’s supporters as “deplorables.” And at Reason, human dumpster fire Robby Soave — whose shtik seems to be retyping old Reed Irvine and Dinesh D’Souza screeds with his name on them — literally lays the blame for Trump at the feet of campus speech codes, trigger warnings and safe spaces. (No, if anything defeated Clinton it was stay-at-home Democratic voters disgusted by a Democratic Party that embraced way too many of the same neoliberal — not genuinely libertarian — economic policies favored by Reason.)

(...)

But the cultural Right’s sense of grievance is utter nonsense. For people who complain so much about the “politics of victimhood,” they play the victim card better than anybody else.
Long ago, as a child, I can remember hearing old folks complain that “this country’s been going to pot ever since all these people started screaming about their ‘rights.'” And that’s still the attitude of those who talk about “taking our country back.”

Whatever they think of marginalized people demanding their rights, they sure aren’t modest about the rights they claim for themselves. They think they have the right to decide what languages people speak, what religious garb they wear, who they marry, and what bathrooms they go to. And when they talk about PC as an assault on their freedom, what they’re referring to is their freedom to prohibit other people from doing things they disapprove of. You can’t even say “Happy Holidays” to them without them whining about a “War on Christmas.” For all their mockery of “safe spaces” and “trigger warnings,” they’re the most emotionally fragile and easily offended people in existence. (...)

On top of all this, treating the concerns of marginalized people as secondary for the sake of anti-fascist unity is really stupid from a purely strategic point of view. The fight for basic human rights for justice by people of color, women, LGBT people and immigrants isn’t a ruling class strategy to divide the producing classes. Rosa Parks didn’t refuse to give up her seat, the people at Stonewall didn’t decide to stand up and fight, because they’d been paid by elites to do so. But racism, sexism and homophobia themselves really are ruling class weapons to divide us against each other. It isn’t marginalized people fighting for their dignity, their very existence, who are being “divisive” and playing into the hands of the capitalist ruling class. The divisive ones, the dupes of the ruling class, are the people who would vote for a fascist just out of spite for having to coexist with people they disapprove of. (...)

Abandoning marginalized people is also strategically stupid because it was marginalized people themselves, alienated by Clinton’s neoliberalism, who were some of the most likely voters to stay home and vote third party. A lot of ardent Clinton supporters liked to frame the left-wing opposition to HRC as “privileged white males.” But the people doing this framing were themselves disproportionately the upper-middle-class white professional types who are the demographic core of establishment liberalism. To the extent that they adhered to any kind of racial or gender politics, it was the outmoded 1970s model of one-dimensional “identity politics” that focused exclusively on putting women and People of Color into the existing power structures, and ignoring class issues, rather than dismantling the power structures themselves.

Who’s Afraid of Identity Politics?, por Jonathan Dean (LSE Blogs):

Amidst the recriminations and collective shock in the face of Trump’s victory (and the myriad other reverses suffered by progressives in 2016), a consensus is emerging: the weakness of the left is attributable to its embrace of “identity politics”. Rather than focussing on the interests and priorities of the majority, the story goes, the left has for too long embraced a simplistic and sectional politics in which the interests of racial and sexual minorities have taken centre stage, at the expense popularity and electability. (...)

But what, precisely, is this “identity politics” that inspires such animosity? At a basic level, “identity politics” refers to any politics that seeks to represent and/or advance the claims of a particular social group. But in the narratives outlined above, it has a more specific meaning: in left circles, “identity politics” is, as Nancy Fraser pointed out back in 1998, used largely as a derogatory term for feminism, anti-racism and anti-heterosexism. The implication was – and very often still is – that gender, race and sexuality are identity-based in the sense that they are seen as flimsy, superficial and, to use Judith Butler’s memorable phrase, ‘merely cultural’. This, of course, is to be contrasted with its constitutive outside, class. Class relations, in the eyes of the identity politics critic, exhibit a depth, profundity and materiality that ‘mere identity’ lacks. Furthermore, the alleged universalism of class is contrasted with the narrow, sectional concerns characteristic of so-called identity politics.

But what, precisely, is wrong with this framing of the problem? For one, the implied distinction between “identity” (read: narrow, shallow, self-interested) and “class” politics (read: broad, deep, universal, authentic) misconstrues the character of these different strands of progressive politics, in at least three ways. First, all forms of politics arguably involve some kind of appeal to an identity, insofar as, to use the language of political theorist Michael Saward, they entail claims to speak for a politically salient constituency (and thus an “identity” of sorts). This applies as much to “class” as any other dimension of power and identity. Indeed, as Gurminder Bhambra has argued in a recent piece for The Sociological Review, these appeals to “class” are quintessential identity politics: they appeal to an identity category – the (presumed white) working class – whose interests have been shamefully neglected by elitist, out of touch leftists and liberals. The question is not, therefore, universalism or identitarianism, but whether or not we acknowledge the “identitarian” character of our political claims. Something akin to this is eloquently described by James Clifford in a 1999 essay entitled ‘Taking Identity Politics Seriously’, where he argues that ‘opposition to the special claims of racial or ethnic minorities often masks another, unmarked ‘identity politics’, an actively sustained historical positioning and possessive investment in Whiteness’. (...)


hird, a frankly bewildering inference made by Kinnock, Žižek et al is that the left in its various guises has spent its time of late doggedly pursuing the interests of women, sexual minorities and racial minorities. The reality, however, is that left-wing movements and political parties in the UK and US have an at best patchy track records on race, gender and sexuality, as recent scholarship by the likes of Janet Conway, Julia Downes, Lara Coleman and Abigail Bakan make clear. All the way from the moderate liberal left to the radical Marxist left, race, gender and sexuality continue to be cast as minority concerns at best, and “bourgeois distractions” at worst, while sexism and misogyny (including, but not limited to, the sexual abuse of women comrades) remain depressingly prevalent across a variety of left spaces. (...)

Let us, therefore, not be under any illusions about how these dismissals of “identity politics” function: they are, in effect, a kind of dog whistle to those on the left who might, for instance, agree that black lives matter, but ultimately believe that when push comes to shove it is the (white male) working class that matters more. As others have pointed out, this is tantamount to being called upon to sacrifice a range of constituencies – women, racial minorities, queers, immigrants (and at times perhaps also trans people, non-binary and gender non-conforming folk, sex workers) – on the altar of political expediency. Putting aside any doubts as to whether this would actually work in terms of galvanising electoral support, this is clearly a morally bankrupt form of politics.

Cooperativas e recuperação económica

Can Cooperative Businesses Save Communities?, por Matthew Robare (The American Conservative):

Nearly a decade after the beginning of the Great Recession, the economic recovery has been concentrated in a few sectors and a few places, mostly fields in technology and in coastal cities. Many Americans have been left behind in jobs with stagnating wages, while rising housing costs prevent them from moving. To stabilize their communities and rebuild the household wealth lost in the financial crisis, many Americans—particularly those in once decaying inner city neighborhoods—are turning to the model of co-operative businesses, which emphasize joint ownership by workers and democratic management.

Thursday, December 15, 2016

Tráfico de seres humanos, exploração laboral e seuxal

Há tempos, o Público tinha um artigo sobre o tráfico de seres humano em Portugal e o este ser maioritariamente destinado à exploração laboral (isto é, trabalho mais ou menos escravo, pelo que me parece):

Os casos de tráfico de seres humanos mais registados em Portugal estão relacionados com a exploração laboral, nomeadamente no sector agrícola, disse à Lusa a directora do Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH).

"Em Portugal, como noutros países, o que tem sido mais registado e também mais identificado é o tráfico para fins de exploração laboral, nomeadamente no sector agrícola", disse Rita Penedo, em entrevista à agência Lusa, a propósito do Dia Internacional contra o Tráfico de Pessoas, que se assinala no sábado. (...)

Apesar disso, os jornalistas não resistiram em mudar o assunto para os casos de exploração sexual:

Relativamente à União Europeia (UE) mais de 15 mil pessoas foram vítimas de tráfico humano em 2013/2014, mas "o número real é susceptível de ser substancialmente mais elevado", reconhece o último relatório da Comissão Europeia sobre o tema.

O último relatório da Comissão Europeia sobre os progressos realizados em matéria de luta contra o tráfico de seres humanos conclui que, entre 2013 e 2014, o período mais recente objecto de análise, 15.846 mulheres, homens, meninas e meninos foram vítimas de tráfico na UE, mas apenas 6.324 pessoas tiveram contacto oficial com a polícia ou com o sistema de justiça penal.

De acordo com o relatório, o tráfico de seres humanos para efeitos de exploração sexual continua a ser a forma mais comum (67 por cento das vítimas), seguindo-se o tráfico para exploração laboral (21 por cento).

Mais de três quartos das vítimas registadas eram mulheres, percentagem que sobe para 95 por cento no caso da exploração sexual, "uma das tendências que aumentou mais acentuadamente", segundo o relatório.

"Estamos particularmente preocupados com as mulheres e crianças, sobretudo para exploração sexual", reconhece a coordenadora da União Europeia contra o tráfico de seres humanos.

Em entrevista à Lusa, via telefone, a propósito do Dia Mundial Contra o Tráfico, que as Nações Unidas assinalam a 30 de Julho, Myria Vassiliadou assinala que, por outro lado, "a maioria dos traficantes e certamente todos os clientes são homens".

Imagino que essa conversa do "certamente todos os clientes são homens" se refira à exploração sexual - não vejo porque razão as pessoas que são escravizadas em plantações agrícolas não hão de poder estar a trabalhar para uma mulher em vez de para um homem.

Agora, qual o porquê de em Portugal o tráfico humano ser predominantemente laboral, mas no conjunto (suponho que da União Europeia) seja predominantemente sexual?

Isso talvez se prenda com algo que também me parece misterioso - os relatórios da OIT[PDF] sobre trabalho forçado a nível mundial dizem que há 3 vezes mais casos de exploração laboral do que de exploração sexual - "Of the total number of 20.9 million forced labourers, 18.7 million (90%) are exploited in the private economy, by individuals or enterprises. Out of these, 4.5 million (22%) are victims of forced sexual exploitation, and 14.2 million (68%) are victims of forced labour exploitation in economic activities, such as agriculture, construction, domestic work or manufacturing". Já o relatório da ONU[PDF] sobre tráfico de pessoas diz que 53% dos casos são para exploração sexual - "Looking first at the broader global picture, some 53 percent of the victims detected in 2011 were subjected to sexual exploitation, whereas forced labour accounted forabout 40 per cent of the total number of victims for whomthe form of exploitation was reported". Atendendo que, à partida, não há grande diferença entre os conceitos de "tráfico humano" e de "trabalho forçado" (há algumas - mulheres casadas à força é tráfico humano mas não é trabalho forçado; presos obrigados a trabalhar é trabalho forçado, mas não é tráfico humano - mas não me parece que possam afetar tanto as estatísticas), essa diferença é algo surpreendente.

Parece que a explicação mais provável seja que os países que criminalizam a prostituição (como os EUA ou a Suécia) provavelmente considerem todos os casos de prostituição (ou pelos menos de prostituição de imigrantes) como "tráfico humano", mesmo no caso da prostituição não coerciva, que não é "trabalho forçado" (possivelmente muitas vezes as leis sobre tráfico humano, depois de falarem de coação, violência, fraude, etc. têm cláusulas adicionais incluindo "com o objetivo de cometer algum crime previsto no capítulo tantos do código penal") - assim, explicará que haja poucos casos de tráfico humano para exploração sexual em Portugal (já que cá a prostituição não é ilegal).

Um artigo adicional sobre um exemplo da tendência para se misturar as duas coisas.

Debate sobre a anarquia - James Scott, David Friedman e Robert Ellickson



[Via Jesse Walker]

A opinião de David Friedman (filho de Milton) sobre a discussão - Two Visions of Anarchy–My Exchange With James Scott

Saturday, December 10, 2016

História económica de outro ponto de vista íntimo

A respeito deste post de Jorge Costa n'O Insurgente, tenho a ideia que os meus pais (nascidos em 1943 e 1947, vivendo em Moçambique entre 1968 e 1975, e no Algarve antes e depois disso) costumam dizer que isto era um “atraso de vida” e que o grande desenvolvimento que viram foi a partir dos anos 70.

[Talvez fosse interessante alguém fazer um estudo do crescimento económico *por região* ao longo dessas décadas; talvez isso explicasse muito coisa, talvez até da geografia política do país]

Friday, December 09, 2016

Evolução de opiniões sobre a liberdade de expressão

A respeito deste post de José Carlos Alexandre, fui tentar ver qual a evolução das opiniões ao longo do tempo sobre a liberdade de expressão.

Talvez o mais relevante fosse ir ver os dados para Portugal ou então para o conjunto do mundo "ocidental", mas o mais prático é ir mesmo ver para os Estados Unidos, usando o General Social Survey (para Portugal ou para o "Ocidente" talvez se pudesse usar o World Values Survey, mas eu não sei mexer nisso).

Para quem não sabe, o GSS é um inquérito com montes de perguntas que é feito, normalmente, de 2 em 2 anos nos EUA.

Monday, December 05, 2016

11 anos do Vento Sueste

Este blogue começou há 11 anos, a 5 de dezembro de 2005.

Assim, como de costume, vou fazer uma recapitulação de alguns posts publicados ao longo deste ano:

  • O Inverno árabe era inevitável?, sobre se os sistemas eleitorais adotados (proporcional na Tunísia, maioritário no Egito, misto na Líbia) poderão ter tido consequências no desfecho de cada uma das revoluções (que só na Tunísia deu origem a uma democracia) 

Os limites da redistribuição a favor dos "perdedores" do comércio livre

Desperately Searching For A New Strategy, por Tim Duy:

The dry statistics on trade aren’t working to counter Trump. They make for good policy at one level and terrible policy (and politics) at another. The aggregate gains are irrelevant to someone suffering a personal loss. Critics need to find an effective response to Trump. I don’t think we have it yet. And here is the hardest part: My sense is that Democrats will respond by offering a bigger safety net. But people don’t want a welfare check. They want a job. And this is what Trump, wrongly or rightly, offers.
[Via Economist's View]

A título ilustrativo da posição pró-comércio livre e pró-redistribuição, temos, por exemplo, este artigo do Luís Aguiar-Conraria, Contra um mundo infestado de Trumps.

Pode ser que eu ainda escreva alguma coisa sobre isto, mas provavelmente não (já que não tenho muita certeza que esses problemas tenham realmente solução...).

Sunday, December 04, 2016

Afinal, talvez as sondagens tenham mesmo falhado

Talvez contrariando o que escrevi aqui e aqui, parece que afinal terá mesmo havido um erro na elaboração das sondagens para as eleições norte-americana: ao que consta, a maior parte das sondagens escolheram a amostra de acordo com as habilitações académicas e de acordo com a etnia, mas não de acordo com as habilitações académicas e etnia - isto é, entrevistaram um número proporcional de eleitores sem formação universitária e um número proporcional de eleitores brancos, mas não um número proporcional de eleitores brancos sem formação universitária, tendo esse grupo sido sub-representado nas sondagens (imagino que as minorias étnicas com formação universitária também tenham estado sub-representadas, mas, ao contrário do que se passa entre os brancos, penso que nas minorias étnicas não há grande diferença de comportamento eleitoral entre os com e sem formação universitária).

Pollsters Probably Didn’t Talk To Enough White Voters Without College Degrees, por Nate Silver

Survey weighting and that 2% swing, por Andrew Gelman

Ainda a "classe trabalhadora" norte-americana - recordações dos anos 70 (III)

Ainda sobre este assunto, um artigo de 1972, Unions vs. Workers in the Seventies: The Rise of Militancy in the Auto Industry, por Martin Glaberman (um ex-operário da industria automóvel e ativista da "tendência Johnson-Forest", uma dissidência do "shachtmanismo", que por sua vez foi a dissidência do trotskismo que também deu origem ao neoconservadorismo):

The Detroit Free Press published the following report in August 1970:
Some 46 percent of General Motors’ hourly workers are below age 35. They have never known a depression, they have had more schooling than the man who lived through the last one, and they aren’t impressed by the old Spartan idea that hard, repetitive work is a virtue. They are less responsive to authority than even the men who seized the flint GM plants in the historic 1936-1937 sit-down strikes.
That is precisely the background against which discontent is surfacing throughout the industry today, discontent that has reached its most advanced stage in the auto industry.
The formation of the CIO in the 1930s settled once and for all the idea that owners or managers or stockholders had the right to run their plants any way they saw fit. (...)

When Ford fell to the union in 1941, both the check-off and full time for union committeemen were incorporated into the contract. But the apparent victories only created more problems. Workers wanted full time for union representatives to get them out from under company pressures and discrimination. Getting elected steward often got you the worst job in a department and stuck away in a corner where you couldn’t see what was happening.

But full time for stewards did more than relieve union representatives from company pressure-it ended up by relieving representatives from workers’ pressure. The steward is less available than he was before, and you have to have your foreman go looking for him should you happen to need him .

The check-off produced a similar situation. Designed to keep the company from pressuring weaker workers to stay out of the union even though they were sharing in its benefits, the check-off ended up reducing worker pressure on the union officials.

No longer does the steward have to listen to workers’ complaints each month as he goes round collecting the dues. Once a month the dues are delivered in one huge check from the company to the union and the worker never sees his dues payment. (...)

And with the Reuther administration the union moved to participate directly in the management and discipline of workers in production. All through the fifties, with intensive automation and decentralization going on in the auto industry, the union collaborated in crushing the numerous wildcat strikes, in getting rid of the most militant workers, in establishing labor peace in the industry. (...)

The situation has not improved since then. GM complains that the number of grievances in its plants has grown from 106,000 in 1960 to 256,000 in 1699 or 60 for each 100 workers.

What are these specific local grievances? They involve production standards: the speed of a line, the rate on a machine, the number of workers assigned to a given job, the allowable variations in jobs on a given line. They involve health and safety standards : unsafe machines, cluttered or oily floors, rates of production which prevent the taking of reasonable precautions, the absence or misuse of hoists or cranes, protection from flames or furnaces, protection from sharp, unfinished metal, protection from welding or other dangerous chemicals or flames, the right to shut an unsafe job down until the condition is changed.

They involve the quality of life in the plant: the authoritarian company rules which treat workers like a combination of prison inmate and kindergarten child, the right to move about the plant, the right to relieve yourself physically without having to get the foreman’s permission or the presence of a relief man, the right to reasonable breaks in the work, the right to a reasonable level of heat in the winter or reasonable ventilation in the summer. And on and on.

The grievances that crowd the dockets of General Motors and of other companies cover the total range of life in the factory. The fact that they are called grievances helps to conceal what they really are-a reflection of the total dissatisfaction of the workers in the way production is run and of the des ire of the workers to impose their own will in the factory.

The UAW and the Ford Motor Company recently have been discussing the problem of boredom on the assembly line. The only reason they are discussing it at all-it is by no means a new development-is because more and more workers are refusing to accept factory discipline as a law of nature.

And it is not boredom but power which is at stake.

The same worker who for eight hours a day attaches belts to a motor and can’t wait to get out of the plant will spend his weekends tinkering with his car and consider it rewarding work. The difference is in who controls the work.

It might be worth noting a couple of things. All workers are exploited to one degree or another. But office workers on the whole do not have to walk past armed guards going to and from work and have a certain amount of freedom in scheduling their work on the job. The coffee break is not a blue-collar institution. (...)

The reorganization, technological change and decentralization that characterized the fifties and culminated in the depression gave way to a new expansion which brought significant numbers of young workers into the industry in the U.S. These are workers who couldn’t care less about what the union won in 1937. They are not more backward (as the union bureaucrats like to pretend) but more advanced. They are attuned to the need to change the nature of work, to the need of human beings to find satisfaction in what they do. It is this new and changing working class that was the basis for the new level of wildcat strikes, for a doubled rate of absenteeism, for an increased amount of violence in plants. It is a new working class that no conceivable contract settlement can control or immobilize. (...)

The complaints against the young workers who make up a crucial force in the factories indicate that the wildcats of the past may be replaced, or at least supplemented, by something new.

The tightly knit structures of the big industrial unions leave no room for maneuvering. There is no reasonable way in which young workers can use the union constitution to overturn and overhaul the union structure. The constitution is against them; the money and jobs available to union bureaucrats are against them. And if these fail, the forces of law and order of city, state and federal governments are against them. (...)

The impossibility of transforming the unions has been argued by a number of observers. Clark Kerr has noted, without disapproval, that “unions and corporations alike are, with very few exceptions, one-party governments.” That is the phrase usually reserved for Stalinist or fascist totalitarian governments. But it is not overdrawn. (...)

And all of this is what young workers are revolting against.
Este é um daqueles artigos que, mais de 40 anos depois de ter sido escrito, parece ter saído completamente furado: os jovens da classe trabalhadora que em 1972 faziam greves selvagens e protestavam contra a opressão no local de trabalho acabaram largamente (sobretudo os brancos) por se tornarem votantes de Reagan (no percurso descrito aqui) e possivelmente até de Trump, não a dar origem a novas formas de organização e a lutas mais radicais.

Aliás, os EUA parecem-me dos países onde o radicalismo do final dos anos 60 - princípio dos 70 parece ter entrado menos na classe operária, não tendo havido (apesar das greves selvagens) quase nada comparável à greve geral de 1968 em França, à agitação laboral generalizada da Grã-Bretanha e ou de Itália (com a força sindical dos trotskistas na primeira e dos "autónomos" e dos "comités de base" na segunda), ou, já agora, a participação da cintura industrial de Lisboa no PREC.

Saturday, December 03, 2016