Tuesday, November 02, 2010

O paradoxo do Euro

How The Surging Euro Is Further Evidence That The Euro Is Doomed, no BusinessInsider:


Even as central banks around the world aggressively seek to devalue their currencies, the euro has been a pillar of strength, clinging tenaciously to the $1.40 range against the dollar?


It's odd because a) There are neverending funding crises in several eurozone countries and b) a weak euro would greatly benefit those same periphery countries, not to mention export-happy Germany.

So why isn't the euro tanking? Only the naive would suggest that it's because the ECB seriously wants to keep its currency strong.

No, the strong euro is a further sign of deep dysfunction.

Here's the problem. In the US it's simple for Bernanke to weaken the dollar. He can buy US treasuries to reduce interest rates, thus reducing the temptation to hold dollars. It's pretty standard stuff.

But it doesn't work that way in Europe, in fact it does the opposite. The biggest downward force on the euro is the risk of a breakup, and so whenever Trichet intervenes in a market -- say, by buying Irish or Greek debt -- he's actually counteracting that gravitational force. In Europe, loose money is actually a euro positive because it reduces solvency pressure.

Eleições nos EUA - objectivos a atingir

- Reeleição de Russ Feingold no Wisconsin

- Vitória da Proposition 19 na Califórnia

As sondagens não são animadoras em nenhum dos casos

Monday, November 01, 2010

Baile de finalistas


Diga-se que meia hora depois o salão já estava perfeitamente normal.

Sunday, October 31, 2010

A procura de moeda e a taxa de juro (cont.)

Quer o Keynesianismo nas suas várias formas quer o monetarismo de Chicago continuam a perpetuar falácias prejudiciais.

Como exposto anteriormente, as pessoas alocam o seu rendimento entre Consumo, Investimento e Moeda. Do ponto de vista de um indivíduo, ele decidirá em simultâneo se quer aumentar o saldo monetário versus o que consome versus o que disponibiliza em crédito para terceiros (recebendo um juro) [adenda: ou fazer um investimento como capital].

O aumento ou diminuição da procura de moeda em si mesmo não tem de estar relacionado com variações na alocação relativa entre consumo e investimento. Estas variações afectarão o nível geral de preços, mas depois estabilizará. Assim, uma diminuição da procura de moeda aumenta o nível geral de preços, mas ao contrário da inflação provocada por um banco central, este efeito é comparativamente extremamente limitado e auto-corretivo, as pessoas podem diminuir os saldos monetários até certo ponto e assim a subida de preços assim induzida é limitada também nos seus efeitos; assim como o aumento de saldos monetários (aumentando o número de moeda debaixo de colchão) fará descer os preços, mas tal efeito faz aumentar o poder de compra das moedas já detidas o que por si serve de força contrária até um ponto de estabilização.

A outra falácia a ser exposta é que a taxa de juro não se relaciona diretamente com a dita produtividade do capital. Se um dado bem de capital (imaginemos uma máquina inventada com determinadas matérias e por uma determinada especialização de recursos humanos) por alguma razão aumenta significativamente a produtividade, o efeito que terá é o seu preço relativo (e dos seus custos de produção, as matérias com que é produzida, os salários médios) aumentar até ao ponto do lucro se tornar normal.

A taxa de juro é assim a concretização de uma preferência entre consumir hoje e ter uma capacidade adicional de consumir no futuro no valor do juro (ou dividendo, ou valorização de capital). O investidor/empresário procura apresentar projetos que parecem rentáveis dada a taxa de juro.

O paradoxo da poupança, sempre evocado aqui e ali, segundo o qual se as pessoas aumentarem a poupança, diminuem o consumo o que faz diminuir o rendimento pode ser assim solucionado:

- a poupança adicional é canalizada para investimento (a taxa de juro desce, o que aumenta o número de projetos agora rentáveis e antes não) aumentando a produtividade na produção de bens de consumo. O que se perdeu em procura agregada de consumo (diminuindo assim a produção de bens de consumo) hoje ganha-se em aumento da produção de bens de capital

e/ou

- a poupança adicional é canalizada para o aumento de saldos monetários (moedas debaixo do colchão), e o efeito é uma descida limitada de preços nominais, mas a relação entre consumo e investimento continua a estar relacionado com a taxa de juro.

Agora, voltando à questão das reservas fracionárias e a questão inicial posta pelo MM quanto à irrelevância do coeficiente de reservas.

Assim um sistema bancário tenha aproveitado ao máximo o multiplicador monetário e assim estando os depósitos no seu valor máximo permitido por determinado coeficiente de reservas, ele comporta-se como um sistema de reservas de 100% no caso de existir um aumento da procura de moeda… com uma diferença fundamental.

Cada um dos bancos fraccionários está especialmente sujeito a pedidos de transferência entre bancos, e se as reservas forem de 3%, bastarão 4% dos depósitos pedirem a transferência para o banco se tornar insolvente. Numa bolha, onde tudo parece correr bem, e onde a expansão de crédito aproveitada pelos mais espertos ou simplesmente com sorte, é canalizada para a compra de empresas e outros ativos (típico as OPAs com valores recorde, novos máximos no imobiliário, ações, etc.) existe o efeito simultâneo dos Bancos Centrais estarem a injetar reservas e o sistema bancário a expandir os depósitos via multiplicador (pela criação de depósitos no processo de concessão de crédito). No final da bolha, como o efeito da subida de preços se começa a generalizar (os bancos centrais monitorizam apenas os índices de preços no consumidor ignorando tudo o resto, aqui e ali começam a interrogar-se sobre os “asset bubbles”) os bancos centrais começam a diminuir o ritmo de injeção de reservas e a subir as taxas de juro, quando a bolha rebenta e começa o processo de deflação daqueles ativos que mais subiram, o crédito perde o seu colateral (falência de empresas, diminuição do preço das casas, etc) e como no atual sistema bancário o crédito é colateral dos depósitos, começa o movimento de transferências entre os bancos mais fracos para os percepcionados como menos fracos, corridas aos bancos, aumentando a incerteza e provocando o aumento da procura de moeda; sendo que a tal “moeda” mesmo num banco de maior qualidade, está dependente da pouca qualidade da carteira de crédito. Para além disso, os bancos emprestam dinheiro uns aos outros como operação normal de gestão de reservas excedentárias, e nesta situação eles próprios cortam o crédito uns aos outros, tentando recompor o seu nível de reservas para se defender de pedidos de transferências. E aí entram o bancos central e injetam em pânico mais moeda.

E a isto chamam armadilha de liquidez. Bem, é mais a armadilha dos economistas. Vão agora culpar abstratamente a “descida da procura agregada” e assim recomendar que o Estado recorra a crédito para estimular a economia e impedir a falências das empresas e bancos que mais tiraram partido da bolha de crédito.

Re: Re: A procura de moeda

MM escreve: “A baixa dos preços tem um efeito ambíguo sobre a procura de moeda”

Deve ser dito em primeiro lugar que a primeira força em jogo para provocar a descida de preços nominais é o próprio crescimento económico. Perante estabilidade monetária, o crescimento traduz-se na decida nominal de preços e isso mesmo foi observado no período da história de maior crescimento económico, no final do séc. 19, cerca de 1870 a 1900. De resto outra coisa não será de esperar, se imaginarmos uma quantidade fixa de moeda, o crescimento significa a baixa de custos unitários, o que torna possível a produção adicional (com os recursos agora libertados pela baixa de custos) que satisfaz precisamente o rendimento adicional proporcionado pela baixa de custos.

A tese do adiamento de consumo fica assim posta de lado, os preços baixam porque os custos baixam e a procura se mantém, ou seja, para os preços baixarem a procura no mínimo mantém-se mas libertando capacidade produtiva ou rendimento para produtos adicionais. Assim, não é de todo certo que se possa afirmar que se os preços baixam a procura de moeda sobe, e até pelo contrário. Se os preços baixam, o poder de compra dos atuais saldos monetários detidos em média pelas pessoas e empresas sobe, portanto, para manter a mesma proporção de poder de compra versus nível geral de preços, uma pequena parte quantitativa tem de ser agora utilizada, precisamente aquela parte marginal que confere agora a capacidade adicional de consumo – sendo isso a materialização do crescimento económico. E esta é assim uma descida de preços benigna.

Outra análise é o que se passa perante um crise económica e bancária e um aumento geral da incerteza. Os preços nominais dos produtos e ativos que mais subiram e foram inflacionados terão de descer (ações, imobiliário, bens de capital, etc.) e assim outras forças entram em concorrência.

A inflação só induzirá um aumento da procura em estágios disfuncionais (em hiperinflação dá-se a fuga para bens reais), em inflação antecipada, os preços limitam-se a subir. Os efeitos reais seriam neutros se fosse possível afirmar que pelo caminho não há beneficiários e perdedores, sendo certo que prejudica o cálculo económico.

(estou a editar e publicar este post utilizando o windows live writer, espero que corra bem).

Re: Re: Acumulação de moeda e reservas fraccionárias

Nos comentários ao seu post Re: Acumulação de moeda e reservas fraccionárias, o CN escreve "Na verdade, o sistema funciona com coeficiente zero, porque os bancos expandem os depósitos e quanto é necessário o banco central injecta mais reservas ou vice-versa, existindo confusão entre moeda adicional para suportar as trocas e moeda adicional para dar crédito adicional."

Curiosamente, isso acaba por ser mais ou menos (em termos de juízos de facto, não de juízos de valor) a posição que Paul Krugman, no século passado, defendeu em "Vulgar Keynesians", em que critica a facção dos keynesianos que defendia que a poupança era má, que redistribuir dinheiro a favor dos grupos sociais que mais consomem era bom, etc. (isto é, mais ou menos as posições que Krugman tem defendido nos últimos 2 ou 3 anos):
Consider, for example, the "paradox of thrift." Suppose that for some reason the savings rate--the fraction of income not spent--goes up. According to the early Keynesian models, this will actually lead to a decline in total savings and investment. Why? Because higher desired savings will lead to an economic slump, which will reduce income and also reduce investment demand; since in the end savings and investment are always equal, the total volume of savings must actually fall!
      
Or consider the "widow's cruse" theory of wages and employment (named after an old folk tale). You might think that raising wages would reduce the demand for labor; but some early Keynesians argued that redistributing income from profits to wages would raise consumption demand, because workers save less than capitalists (actually they don't, but that's another story), and therefore increase output and employment.

Such paradoxes are still fun to contemplate; they still appear in some freshman textbooks. Nonetheless, few economists take them seriously these days. There are a number of reasons, but the most important can be stated in two words: Alan Greenspan.
      
After all, the simple Keynesian story is one in which interest rates are independent of the level of employment and output. But in reality the Federal Reserve Board actively manages interest rates, pushing them down when it thinks employment is too low and raising them when it thinks the economy is overheating. (…)

But putting Greenspan (or his successor) into the picture restores much of the classical vision of the macroeconomy. Instead of an invisible hand pushing the economy toward full employment in some unspecified long run, we have the visible hand of the Fed pushing us toward its estimate of the noninflationary unemployment rate over the course of two or three years. To accomplish this, the board must raise or lower interest rates to bring savings and investment at that target unemployment rate in line with each other (…).

To me, at least, the idea that changes in demand will normally be offset by Fed policy--so that they will, on average, have no effect on employment--seems both simple and entirely reasonable.

Agora isso depende muito da ideia que se tenho sobre a forma como a procura de moeda interage com a taxa de juro:


O modelo "A" é basicamente o que penso ser a visão de Milton Friedman, em que (para um dado volume de rendimento e de preços), a procura de moeda seria constante (ou, na liguagem dele, a "velocidade de circulação da moeda" seria fixa.

O modelo "B" é a visão keynesiana usual, em que quanto maior a taxa de juro, menos riqueza as pessoas preferem ter sob a forma de moeda e mais sob a forma de activos financeiros.

O modelo "C" é uma variante do modelo "B", mas com a peculiaridade que, a certa altura, a "procura de moeda" tende para o infinito (a chamada "armadilha de liquidez").

E quais são as consequências de uma expansão da "oferta de moeda" pelo banco central em cada caso (imaginem um linha vertical "oferta de moeda" nesses gráficos, e agora imagem-na deslocando-se para a direita)?

Nos casos A e B (muito mais forte no caso A), o resultado será uma redução da taxa de juro, o que por sua vez irá aumentar o investimento e "estimular" a economia (depois as opiniões dividem-se sobre se esse estimulo vai originar crescimento económico sustentado, inflação ou um boom artificial que terá que ser corrigido com uma recessão mais tarde).

No caso C, o resultado de aumentar a moeda em circulação é, simplesmente, as pessoas acumularem mais moeda, sem isso em nada afectar os juros e a economia real.

Ou seja, se o caso C exisitir na realidade (e é discutível que o exista), o banco central poderá fartar-se de expandir a moeda que o "estimulo" sobre a economia será nenhum ou quase.

Re: A procura de moeda

Sobre este assunto, o CN escreve:

Um aumento de procura de moeda não deve ser visto como uma procura de X unidades adicionais de moeda, mas sim como um aumento de reserva de poder de compra. Ora, o primeiro efeito que um aumento da procura de moeda tem é a de proceder a uma baixa de preços nominais. E este efeito é curioso. Dado que o objectivo final é o aumento de poder de compra detido sob a forma de unidades de moeda, o aumento da procura de moeda tem o efeito cumulativo de descer os preços nominais e assim aumentar o poder de compra da anterior quantidade de moeda o que faz com que ex-post, o número de unidades de moeda necessário para atingir um dado poder de compra final-objectivo será menor que o ex-ante esperado (dado o nível geral de preços ex-ante e ex-post). E este é também um argumento contra a deflaçãofobia nas doutrinas económicas correntes, à medida que os preços vão caindo, o poder de compra dos saldos monetários prévios vai aumentando até um ponto onde o incentivo a serem utilizados é cada vez maior. Existe um efeito auto-correctivo que note-se com grande importância, não existe na inflação quantitativa de moeda (operada em norma em consonância entre os regime políticos e o sistema monetário).
A baixa dos preços tem um efeito ambíguo sobre a procura de moeda: por uma lado, preços baixos originam (para a mesma procura real de moeda) menor procura nominal (pelos mecanismo apresentados pelo CN); mas, por outro, preços a baixar originam maior procura real de moeda (já que, se a inflação é negativa, acumular moeda torna-se um melhor investimento) - note-se a distinção que faço entre "preços baixos" e "preços a baixar".

Ou seja, a longo prazo uma deflação em principio vai originar menor procura nominal de moeda, mas a curto prazo até a pode aumentar (mutatis mutandis para a inflação - sobretudo se for muito alta, o primeiro efeito da inflação será levar a pessoas a quererem se livrar da moeda que têm em mãos o mais depressa possível).

Saturday, October 30, 2010

O realismo crítico dialéctico

Indeed dialectical critical realism may be seen under the aspect of Foucauldian strategic reversal of the unholy trinity of Parmendean/Platonic/Aristotlean provenance; of the Cartesian-Lockean-Humean-Kantian paradigm, of foundationalisms (in practice, fideistic foundationalisms) and irrationalisms (in practice, capricious exercises of the will-to-power or some other ideologically and/or psycho-somatically buried source) new and old alike; of the primordial failing of western philosophy, ontological monovalence, and it's close ally, the epistemic fallacy with it's ontic dual; of the analytic problematic laid down by Plato, which Hegel served only to replicate in his actualist monovalent analytic reinstatement in transfigurative reconciling dialectical connection, while in his hubristic claims for absolute idealism he inaugurated the Comtean, Kiekegaardian and Nietszhean eclipses of reason, replicating the fundaments of positivism through its transmutation route to the superidealism of a Baudrillard. (Plato, etc. p.215)
[Por Roy Bhaskar - via A Very Public Sociologist]

Ouro e o Banco de Portugal (Expresso)

O Expresso noticia a valorização das actuais reservas de cerca de 382,5 toneladas de ouro (cotação de fecho 1359 Usd/onça), mas do que não fala é que Vítor Constâncio até 2006 vendeu cerca de 300 toneladas de ouro a um preço médio que estimo de memória perto 1000 Usd/onça menos do que a actual cotação (ou seja 360 Usd/onça). Voltarei aqui para fornecer a valorização perdida decorrente da venda dessas 300 toneladas a 360 Usd/onça em vez de as continuar a deter agora com valor de mercado de 1360 usd/onça).

Recordo que a "press release" da, creio, última venda deste bloco de 300 toneladas (o preço estaria perto dos 400 Usd/onça) se dizia qualquer coisa como: tirar partido do movimento especulativo no ouro. Viu-se, subiu mais quase 1000 Usd/onça.

Devo dizer que as operações de venda têm sido comuns a todos os Bancos Centrais e é irónico observar que tendo vendido quantidades substanciais de ouro na última década, a cotação do ouro não tem parado de subir. A minha explicação é que, depois dos Bancos Centrais terem chegado a deter cerca de 2/3 de todas a quantidade de ouro disponível no mundo (acima do solo), e tendo passado agora para menos de 1/3, foi precisamente o efeito conjugado da inflação monetária contínua, da expansão de crédito que provoca as bolhas e as crises bancárias, e paradoxalmente o facto de mais ouro estar em termos quantitativos na posse de privados, que facilitou o retomar do seu papel imutável de bem real de troca, cuja distribuição agora se tornou novamente possível pela generalidade da população, havendo já pontos de distribuição de ouro amoedado e em barra via máquinas na via pública.

A prova que os economistas na sua grande maioria não percebem bem o que é moeda é a sua total incompreensão sobre a utilidade do ouro e cuja explicação é na verdade simples: o serviço que o ouro (e outros equivalentes mas comparativamente de menor qualidade, como a prata) providencia é somente a sua quantidade ser o mais fixo e estável (nem decrescendo nem crescendo) que se conhece relativamente a qualquer outra substância ou elemento existente na natureza, é isso que lhe dá o valor como moeda, como bem real que facilita as trocas, e a sua selecção não-racionalizada ao longo dos séculos a tal se deve. Foi preciso os Estados terem a necessidade de recorrer à inflação de papel para financiar os défices em especial provocados pelas Primeira Guerra Mundial e a doutrinas económicas cheia de falácias sobre a utilidade de uma moeda elástica gerida claro por economistas (como se soubessem o que fazem, como se pode ver com a hiper-inflação dos anos 70 e o acentuar das bolhas e crises contínuas) para legislarem o roubo do ouro detido pela população e declarar a proibição do seu uso como moeda. Suponho que a isto se chama, "deixou de funcionar".

O sistema bancário claro, desde os primeiros bancos que arranjou esquemas para conseguir inflacionar o papel moeda e os registos de depósitos que deveriam corresponder a reservas realmente detidas (daí o termo depósito, e o contrato de depósito civil é muito claro), de modo a poder fabricar crédito sem ter que captar poupança monetária prévia e a isso se devem as grandes bolhas e crises bancárias antes do século 20. Foi o complexo poder-político-banqueiros que sempre conspirou contra o ouro e nem que intuitivamente mesmo os economistas de esquerda deveriam perceber que o ouro está do lado das populações e é precisamente a melhor barreira contra a financiarização da economia que tende a concentrar poder financeiro à volta da capacidade de criação de crédito sem poupança monetária anterior, e que beneficia os primeiros receptores de novas quantidades de moeda: bancos e grandes credores, ambos os quais os que mais protegidos são quando as inevitáveis crises económicas e bancárias têm lugar... e ajudados como? sendo os primeiros receptores das injecções de mais moeda e crédito por parte das autoridades monetárias e perante o acordo nervoso do regime de esquerda e direita que tem horror a pensar das consequências: o total descrédito de todo o regime do estado moderno.

Monarquia e democracia, descentralização e centralização

A respeito desta discussão entre Rui Botelho Rodrigues e Manuel Rezende, penso que os que fazem a associação "monarquia = descentralização; democracia = centralização" estão a confundir correlação e causa.

Sim, é verdade que há uns séculos atrás os Estados eram mais descentralizados e normalmente eram monárquicos, mas creio que não eram descentralizados por serem monárquicos - afinal, há uns 400 anos atrás, a Suíça quase-democrática e a monarquia electiva e parlamentar polaca (em que a percentagem da população com direito a voto se calhar era maior que na I República portuguesa) eram provavelmente dos Estados mais descentralizados da Europa; em compensação, a centralização francesa (que os "contra-revolucionários" atribuem à Revolução) é largamente obra dos Bourbons, a começar por Louis XIV, que abriram o caminho para Robespierre e Napoleão (um dado curioso - a revolta dos "bonnet rouge" contra os impostos de Luís XIV e a "conspiração de Pontacallec"  contra a Regência ocorreram mais ou menos na mesma zona onde viria a ocorrer a chouannerie).

Então qual é o motivo que faz parecer existir essa associação "monarquia = descentralização; democracia = centralização"? Eu suspeito que é o progresso técnico-científico, que por um lado favorece a democracia (já que cria um ambiente de desconfiança perante a tradição e autoridade) e por outro a centralização (já que torna mais eficientes os meios de transporte e comunicação, tornando mais fácil gerir tudo a partir da capital).

Friday, October 29, 2010

Austrian Capital-based Macroeconomics:

da autoria de Roger Garrison, com o GoogleDocs, é melhor expandir a janela.

Thursday, October 28, 2010

Regulamentação e "enviesamentos cognitivos"

Not All Biases Are Created Equal, por "The Streetwise Professor":

Matt Ridley (...) reminds us that regulators can have cognitive biases too.

This is a pretty unexceptional point. But it raises the question. If both individual decision makers in markets and regulators are both subject to cognitive biases, isn’t it kind of a push?

I say no. Decisively no. For two reasons.

First, the feedback mechanisms are different. Individual decision makers are subject to market feedback, and this feedback is often quick and ruthless. For instance, an individual trader who uses a biased decision rule is likely to lose money, and often a lot of money. (...)

In contrast, politicians and regulators face very weak feedback, and often no feedback or perverse feedback. (...) [A] regulator that makes a boneheaded decision is largely immune from being fired, and may well be working for Goldman by the time the bad consequences of his or her decision comes to light.

Second, regulatory and legislative mistakes are often systemic in their effects, whereas individual decision errors are less likely to be so.  A regulatory or legislative mistake affects everybody subject to the regulation or law. (...)

In contrast, although herding behavior (correlated cognitive biases) can occur, and may contribute to bubbles and runs and other undesirable outcomes, a lot of individual biases tend to cancel out. (...)

In other words, laws and regulations tend to put all the eggs in one basket.
Eu acho que, pelo menos enquanto existir Estado e capitalismo, há muito boas razões para o Estado interferir com "o livre funcionamento dos mercado" (redistribuição da riqueza, comcorrência imperfeita, etc); mas a razão "proteger os individuos dos seus próprios enviesamentos cognitivos" é uma muito má razão.

Boa piada e estranha

negócios.pt: "Quadros do Banco de Portugal dizem que Estado quer financiar-se com emissão de moeda

...Ou seja, o Estado não pode usufruir do corte de custos que venha a impor ao BdP, já que, para o Estado, essa receita permitiria reduzir o défice e as necessidades de financiamento públicas. O que, indirectamente, corresponderia a uma emissão de moeda, já que os proveitos têm origem na autoridade monetária, violando a proibição de financiamento monetário."

Bem, é só olhar para o balanço do Banco de Portugal ou de qualquer balanço de um Banco Central, o activo é na sua maioria, composto por Dívida Pública comprada obviamente por pura emissão de moeda "out-of-thin-air".

Isso não é financiamento com emissão monetária? Bem, imagino a resposta tipo: isso são o resultado de operações de política monetária em "open market". A contrafacção de moeda sofisticou-se.

Re: Acumulação de moeda e reservas fraccionárias

Depois do post do MM Acumulação de moeda e reservas fraccionárias escrevi primeiro sobre o significado da procura de moeda e agora vou aprofundar a análise:

Podemos visualizar dois casos extremos:

1. Sistema bancário com Reservas de moeda a 100%

2. Sistema bancário com Reservas de moeda a 0% (situação cada vez mais verdadeira, dado que na prática as reservas são já muito baixas e como se pôde ver nesta crise, quando os bancos ficam sem reservas, os bancos centrais "apoiam" o sistema bancário com a emissão da moeda em falta, ou seja, na prática, o sistema funciona como se nenhuma reserva fosse necessária).

No primeiro, se a quantidade total de moeda física for 100, e a procura de moeda aumentar, o que acontece sob condições de estabilidade quantitativa (caso do ouro em que a quantidade produzida anualmente tem pouco impacto)? A quantidade continua a ser 100. Então, o que significa dizer que a procura de moeda aumenta? Os preços baixam e o poder de compra dos mesmos 100 aumentam e assim, a procura de moeda traduz-se num aumento do poder de compra da mesma quantidade inalterada de 100 relativamente ao nível geral de preços.

No segundo caso, o que se passa ou deixa de passar depende se o Banco emite mais moeda e/ou crédito ou não. A teoria vigente é que os bancos centrais devem aumentar a oferta quantitativa de moeda no sentido de responder à procura de moeda de forma a que os preços permaneçam estáveis (isto é, sem inflação nos preços do consumidor), fruto da deflaçãofobia.

Mas ao usarem o índice de preços no consumidor como medida, resulta em ignorar o que se passa com os preços de activos e de bens de capital; além disso reina uma confusão entre procura de moeda e a procura de crédito.

O aumento da procura de moeda a dar-se (normalmente por aumento da incerteza) em substância é a procura do aumento do poder de compra detido em moeda relativamente ao nível geral de preços (não um aumento da quantidade de moeda por si mesmo) e assim, na medida em que os preços baixam esse aumento da procura de moeda é satisfeito. O que equilibra a procura de moeda é o nível geral de preços.

A segunda, em substância, é a procura de poupança anterior (capital) necessária para suportar os investimentos enquanto estes são deficitários (curiosamente, este défice no limite é constituído precisamente pelo conjunto de salários a pagar antes da obtenção de receitas - o capital é assim uma expressão de salários a pagar por antecipação de receitas em relação às quais nem são certas e frequentemente não são suficientes levando a perdas, a mão de obra é a primeira beneficiária do capital ao contrário do que é intuído). O que equilibra a procura de crédito com a poupança prévia é a taxa de juro.

Mas voltando à questão inicial: podemos visualizar esse caso extremo (que como vimos é até muito parecido com o actual sistema monetário) se pensarmos na existência de um único Banco e numa única moeda.

Numa armadilha de liquidez, as pessoas procuram moeda e assim a poupança traduz-se numa alternativa quer à poupança como investimento quer ao consumo. Esse é o pesadelo Keynesiano (que é interpretado mais como uma causa do que como uma consequência). Isto faz sentido num sistema em que a moeda física (como o ouro) pode existir com expressão fora do sistema bancário. O argumento evocado é que desta forma quer o consumo quer o investimento caiem (mas a resposta austríaca é que em si mesmo a procura de moeda não constitui um problema estrutural, o consumo e investimento real ceteris paribus não tem de alterar-se se a única alteração é o aumento da procura de moeda).

Mas num sistema monetário de reservas parciais (em especial se forem zero) toda a moeda é ao mesmo tempo crédito, ou seja, na própria lógica do edifício que suporta o actual sistema, onde a moeda não deve "estar parada" (razão pelo qual vários economistas com fobia de tal coisa, tenham proposto formas de acabar totalmente com as moedas e notas, forçando que toda a moeda esteja nos bancos em depósitos à ordem...e um dia creio que a isso vão chegar...coisas da vontade geral) a "moeda" é sempre crédito, por isso, no seu próprio edifício onde a causa das crises é essa procura de moeda ou armadilha de liquidez, algo não bate certo.

E para bater certo vão ter de socorrer-se da teoria que pretendem ignorar, porque é a própria expansão de crédito permitido pelas reservas parciais (sistema que a doutrina económica vigente suporta para não haver "dinheiro parado", porque isso é tirar crédito à economia) que leva a que uma bolha se forme e que quando rebenta põe em causa a solvabilidade e liquidez dos bancos com reservas parciais o que induz a uma procura de moeda, que hoje em dia, se traduz por pedidos de transferências pelos clientes de um banco considerado perto de falir para outros bancos que por alguma razão consideram mais seguros, ao mesmo tempo claro, que a economia tem de andar para trás para liquidar investimentos e negócios sem sustentação. Como os bancos centrais e o regime político têm pânico de falências bancárias, com toda a certeza irão sempre inflacionar o sistema para responder à falta de reservas/moeda necessários para os bancos poderem responder a pedidos de transferência, chamando a isto "armadilha de liquidez".

As negociações do Orçamento?

Wednesday, October 27, 2010

PDF protegidos

Porque é que algumas pessoas se dão ao trabalho de divulgar documentos sob a forma de PDF "protegidos" (que não se podem copiar nem imprimir)?

É que é mais ou menos que sair de casa, não trancar a porta mas dar-me ao trabalho de a atar com um cordel para ninguém a conseguir abrir.

Stop Worrying and you will not be worried

Num artigo da muito interessante Business Insider com o nome de "There's No Proof That Easy Money Causes Asset Bubbles, So Stop Worrying About The Wrong Problem"

"Adam Posen, a member of the Bank of England's Monetary Policy Committee, argues in a new speech that easy monetary policy, such as we are experiencing right now in the U.S., doesn't cause asset price bubbles as many like to suggest."

E diz assim Adam Posen:

"For monetary policy to be the source of a bubble, the relative price of one part of the economy (here financial and real estate assets) has to be pumped up by a blunt instrument that usually affects all prices in the economy. And it has to do so in such a way that the relative price shift either does not raise expectations of a countervailing shift in monetary policy in the near future"

Portanto... diz-se que as bolhas de activos não são provocadas por expansão monetária porque para isso era preciso ter a expectativa que as taxas de juro não subissem mais tarde.

Ora mas... os economistas em geral e os bancos centrais em particular nunca deram grande coisa pela possibilidade das bolhas serem sua culpa (expansão monetária/crédito) só reagindo sim ao índice de preços no consumidor (o qual o facto de ser relativamente modesto durante uma bolha de preços de activos é explicado precisamente porque existe ... uma bolhas de activos e a subida de preços não se dá assim nos produtos finais ao consumo mas... nesses activos!), mas o engraçado é que... ao afirmar que não deve ser culpa da expansão monetária contribui para a expectativa que os bancos centrais não reagem por natureza (expectativa o qual diz que é condição necessária para existir bolha....), enfim, confusos?


Depois cita exemplos das condições de pós-bolha (Japão, claro), que evidentemente, dado a inflação anterior provoca as tendências deflacionista posteriores (e que são um processo de cura, não a doença), mas o que motiva a confusão reinante, dado que o diagnóstico é confundir a deflação (consequência com a causa (o processo de inflação anterior).

Também afirma que no caso da bolha no Japão a expansão monetária não é justificação suficiente para explicar a bolha, que é necessário existir expectativa da subida de preços....

Mas é a expansão monetária que alterando o equilíbrio de preços e da relação entre poupança e investimento (taxa de juro artificialmente baixa) provoca uma contínua sobre-expectativa de preços, que alimenta a expansão de crédito para investir e comprar activos adicionais.

No final do processo, e da bolha rebentar, aparece outra vez este Adam Posen a dizer que não há prova que é culpa da expansão monetária porque agora a taxa de juro é zero e não existe crescimento nem inflação.

Mas sem essa expansão original, a "expectativa" mesmo que existisse como variável independente, faria subir a taxa de juro ao ponto que a análise de investimento daria como inválida a sua rentabilidade, o que faria a bolha de expectativas parar nos primeiros estágios.

Ei, mas não há problema, Stop Worrying and you will not be worried.

Monday, October 25, 2010

Sobre a direita keynesiana

Keynesian Cons, por Sheldom Richman, no American Conservative.

Este texto vai de acordo com uma teoria que tenho há algum tempo: de que a "economia do lado da oferta" é um truque para os governos conservadores fazerem uma política keynesiana (tentar estimular a economia através de deficits) fingindo que não o estão a fazer.

Ralph Nader sobre a esquerda, a direita e a aliança estado/grande capital

Where Left and Right Converge, no Wall Street Journal:

Earlier this year, Barney Frank and Ron Paul convened the Sustainable Defense Task Force, consisting of experts "spanning the ideological spectrum." They recommended a 10-year, $1 trillion reduction in Pentagon spending that disturbed some in the military-industrial complex.


Other members of Congress were surprised by this improbable combination of lawmakers taking on such a taboo subject. But the spiral of bloated, wasteful military expenditures documented by newspapers has reached the point where opposites on the political-ideological spectrum were willing to make common cause.

A convergence of liberal-progressives with conservative-libertarians centering on the autocratic, corporate-dominated nature of our government may be growing. To be sure, there are obstacles to a synthesis of anticorporatist views becoming a political movement.
[Via Sheldom Richman, no Freeman Online]

Esclarecimento sobre o abono de familia

Andam por aí montes de artigos de jornais e conversas de café dizendo que as famílias que ganhem mais do que 600 e pouco euros vão deixar de ter abono de família.

Antes que alguém perca mesmo o abono por acreditar nisso e achar que não vale a pena fazer os papéis, venho (nos meus limites) avisar que isso É MENTIRA.

Esse valor de 600 e tal euros (mais exactamente, 1.5 vezes o indexante de apoios sociais, o que actualmente dá 628,83 euros) refere-se, não ao rendimento da família, mas ao rendimento da família a dividir por [número de dependentes +1].

P.ex., uma família com 2 filhos só perde o abono se ganhar mais do que 1.886,49 euros por mês (1.886,49 = 628,83/[2+1]).