A TVI diz que o BP diz que os bancos portugueses estão bem. A Business Insider diz que o BP diz que os bancos portugueses estão mal. Se alguém quiser pesquisar o relatório para chegar a alguma conclusão, está aqui (eu ainda tentei, mas desisti quando vi as centenas de páginas).
Tuesday, November 30, 2010
O que é que afinal diz o relatório do Banco de Portugal?
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Eric Cantona e a Banca de Reservas Fraccionarias
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Etiquetas: teoria dos ciclos na economia, Textos de Carlos Novais
Leslie Nielsen (1926-2010)
O lado mais disparatado do cinema/televisão dos anos 80 (ao ponto de algumas pessoas dizerem "os filmes com este homem são sempre uma anormalidade")? Sim, sem dúvida. Mas ao menos a ideia era mesmo essa.
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Monday, November 29, 2010
Opinião dos irlandeses sobre o acordo com o FMI e a UE
Ou, pelo menos, a opinião dos leitores do Irish times numa sondagem online sem qualquer critério científico (mas é o que há).
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Irlanda - toda a oposição contra o acordo
The Irish Times - THE €85 billion EU-IMF bailout package for Ireland announced last night was roundly condemned by the Opposition parties who are now all likely to vote against the Budget on December 7th.
Fine Gael, Labour and Sinn Féin attacked the intention to use the National Pension Reserve Fund to help provide a further €10 billion in further capital for the banks. In total, the banks could end up getting another €35 billion if their losses are bigger than expected.
The remaining €50 billion is to cover the State’s borrowing needs for the next three years. Opposition parties were highly critical of the 5.8 per cent average interest rate that will be charged by the EU and the International Monetary Fund.
(neste momento, o governo irlandês tem uma maioria de dois votos no parlamento, pelo que em principio não precisa da oposição)
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Sunday, November 28, 2010
O traficante de droga - "inimigo universal"?
Uma coisa curiosa é que, nas "guerras" entre policias e traficantes, como agora no Brasil (ou no México) não se vê ninguém (ou quase) a tomar o lado dos traficantes.
Afinal, grande parte da opinião publica e da opinião publicada é a favor da legalização das drogas, logo deveriam considerar os traficantes de droga como simples comerciantes que só usam a violência em auto-defesa contra a violência do Estado (ok, também há as guerras ente cartéis); mas não é isso que se passa - pelo contrário, muitos anti-proibicionistas até gostam de vestir os seus argumentos com um capa anti-traficantes ("com a legalização desapareciam os lucros dos traficantes").
Também muitas pessoas que até tendem a ser relativamente tolerantes com o pequeno crime (estilo "temos que ver a miséria em que essas pessoas vivem") já não o são com os traficantes, mesmo que estes muitas vezes contribuam para obras de caridade nos bairros onde vivem e que o tráfico de droga seja muito menos prejudicial a terceiros inocentes que um assalto de rua (o tráfico de droga só prejudica quem quer ser prejudicado).
Um possivel argumento (pelo menos para um anti-capitalista) para ser contra os traficantes é eles serem uma espécie de capitalistas, mas atendendo a que vivemos numa sociedade capitalista, isso não os faz pior que qualquer outro capitalista, logo não é razão para uma animosidade específica contra os traficantes.
Duas leituras recomendadas (como de costume, eu recomendar um texto não quer dizer necessariamente que concorde com ele):
- The Drug Pusher [pdf], por Walter Block (em Defending the Undefendable)
- Da essência e legitimidade do lucro no negócio do aborto clandestino, por Tiago Mendes (penso que grande parte do raciocínio pode se aplicar ao tráfico de droga)
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A crise irlandesa vista por robôs
[O eu postar este video não significa uma concordância total com tudo o que o robô vermelho diz].
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Saturday, November 27, 2010
Protestos em Dublin
The Irish Times - Approximately 50,000 people marched in Dublin this afternoon in a protest organised by the Irish Congress of Trade Unions (Ictu) against the Government’s austerity plan.
The protest started on Wood Quay at noon, before crossing over to the north quays to Ormond Quay, continuing on to Bachelors Walk and then onto O’Connell Street, arriving at the GPO at 1pm.
Addressing the crowd on a podium at the GPO, Irish Times columnist Fintan O’Toole said the Government was doing a deal with people who had not been elected.
He said the country was paying billions to bail out the banks and the Government had declared war on the poor. He said Irish people were not subjects, but citizens, and wanted their republic back.
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Ainda na frente irlandesa
O Sinn Feín ganhou uma eleições intercalares algures na Irlanda, reduzindo a maioria governamental para dois lugares.
Face às eleições gerais de 2007, o candidato do SF passou de 21 para 40% da votação.
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O primeiro panfleto da nova "Aliança de Esquerda Unida" irlandesa
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Friday, November 26, 2010
9 anos e 50 dias
27 de Dezembro de 1979 - 15 de Fevereiro de 1989 - intervenção soviética no Afeganistão
7 de Outubro de 2001 - .... - intervenção da NATO no Afeganistão
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Thursday, November 25, 2010
Factores que afectam a criatividade
How College Kills Creativity; Nothing Succeeds Like Failure, por Evan Goldstein, na Chronicle of Higher Education:
Jean-Paul Sartre said that the greatest gift a father can give his son is to die early. Sartre's remark, though harsh, isn't implausible. In a new book, Sudden Genius: The Gradual Path to Creative Breakthroughs (Oxford University Press), Andrew Robinson notes that a remarkable number of super-high achievers suffered the death of a parent at a young age. He cites a 1978 study of almost 700 historical figures that found that 25 percent of them—including J.S. Bach, Dante, Michelangelo, Leo Tolstoy, and Richard Wagner—lost at least one parent before the age of 10.[Via Marginal Revolution]
Robinson entertains the possibility of a correlation between tragedy and extreme creativity. Some psychologists believe that trauma can lead a child to turn inward and cultivate a taste for solitude. "The ability to be alone is critical," says Robinson, a former literary editor of the Times Higher Education Supplement, in an interview, noting that Mozart, who had an active social life, nonetheless withdrew for long stretches to focus on his work. "You don't write The Marriage of Figaro in six weeks if you go out and get drunk every night." Even in the sciences, where collaboration is common, Robinson says, major breakthroughs have been spearheaded by figures—Galileo, Newton, Darwin, and Einstein—with pronounced solitary streaks.
What are we to make of all of this? Not much, apparently. The notion that genius is nurtured by childhood adversity "is a tempting one," Robinson writes, but it crumbles under careful scrutiny. For every figure that fits the bill (Joseph Conrad was a bookish, withdrawn child whose parents died before he turned 12), another genius bucks the pattern (Henri Cartier-Bresson clashed with his wealthy parents, but they were supportive—and alive).
(...)
If the sources of genius remain something of a riddle, Robinson is emphatic about what does not contribute to creative excellence: higher education. The academy's emphasis on specialization and its "inherent tendency to ignore or reject highly original work that does not fit the existing paradigm" is an impediment to creativity, Robinson argues. He points to several intriguing studies. One, by Dean Keith Simonton, a professor of psychology at the University of California at Davis, suggests that creativity flourishes best among those with the equivalent of two years of an undergraduate education—no less, no more. Mihaly Csikszentmihalyi, a professor of psychology at Claremont Graduate University, has also looked at the relationship between education and innovation. In his 1996 book, Creativity: Flow and the Psychology of Discovery and Invention, he argued that formal education has historically had little effect on the lives of creative people. "If anything," Csikszentmihalyi wrote, "school threatened to extinguish the interest and curiosity that the child had discovered outside its walls."
Dá-me a ideia que isto refuta esta minha hipótes (ou talvez não - de acordo com um dos estudos, só acima do bacharelato é que a educação tem efeitos negativos) mas em compensação confirma esta (é a vantagem de escrever posts com teorias contraditórias).
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O papel positivo da Mafia?
7 Ways the Mafia Made the U.S. a Better Place: 'Renegade History, por Thaddeus Russell:
Imagine an America without jazz. Imagine an America in which alcohol is still illegal. Imagine an America without Broadway, Las Vegas, or Hollywood. Imagine an America with no racial integration or freedom to be gay in public. In my new book, A Renegade History of the United States, I show that all you have to do is imagine American history without organized crime ... Here are 7 ways that gangsters made America a better place:[Via LewRockwell.com]
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"Bloco de Esquerda" irlandês
Left-wing groups unite to fight poll (Irish Times):
Independent Socialist MEP Joe Higgins will attempt to reclaim his Dublin West seat in the next general election, he announced today.Por outro lado, as sondagens parecem indicar um grande aumento da votação e representação do Sinn Féin, que provavelmente elegerá um deputado numas eleições intercalares hoje.
Richard Boyd-Barrett, a councillor for People Before Profit Alliance, and former Tipperary South TD Seamus Healy, will also contest the election under a new United Left Alliance.
The new grouping expects to field some 20 candidates. Dublin councillors Clare Daly and Joan Collins are also involved.
Mr Higgins said the Socialist Party, the People Before Profit Alliance and the Tipperary-based Workers and Unemployed Action Group had come together to provide a “left alternative to the establishment parties”.
Sinn Féin was accused of being prepared to “prop up” Fianna Fáil, Fine Gael and Labour in a coalition government, at the launch in a Dublin city centre hotel this morning. (...)
Mr Boyd-Barrett said it was time for people to take to the streets in protest and called for high participation in Saturday’s march. “We all need to get behind it and send the strongest possible message to this rotten government: get out now.”
Ou seja, parecem estar a desenhar-se na Irlanda duas potenciais "alternativas de esquerda" - a esquerda radical clássica da United Left Alliance (que penso poder se considerada como parecido com o "nosso" BE) e a esquerda nacionalista do Sinn Féin.
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O Estado sempre existiu?
Rui Albuquerque escreve que «O governo, os tribunais, os parlamentos ou câmaras representativas, em suma, a dinâmica do poder e a sua organização, chamemos-lhe o "estado" ou o "princípio governativo", existem desde sempre, em qualquer local onde encontremos sociedades humanas».
Ele já havia feito essa afirmação em tempos, assim volto a repetir o que escrevi na altura:
Ora sociedades sem estado já houve muitas: p.ex., indo ao post anterior, temos outra vez as sociedades melanésias descritas por Marshall Sahlins; ou os Nuer do Sudão; Bruce Benson também dá alguns exemplos neste seu paper [pdf], etc.
RA poderá argumentar que os "big man" melanésios, as "linhagens" nuer, etc. são o equivalente a "Estados", ainda que de tipo peculiar (já que não há a figura de uma poder central com o monopólio da autoridade suprema sob um dado território). Talvez.
Mas assim, as agencias de protecção numa sociedade anarco-capitalista (ou talvez o conjunto das agências de protecção), ou, já agora, uma confedaração voluntária de colectivos de trabalhadores anarco-sindicalistas também serão "Estados". E até podemos concluir que afinal já há o "Estado mundial" - de certa forma, o conjunto das instituições internacionais, alianças militares e diplomáticas, equilibrios de força entre as potências, etc. realmente configura uma espécie de sistema politico internacional que, pelo mesmo critério, será também uma espécie de "Estado".
Ou seja, se adoptarmos essa definição de "Estado", isso em nada altera os termos da discussão entre "anarquistas" e "arquistas" - afinal, se dizemos que o "Estado" sempre existiu e faz parte da natureza humana, e depois adoptamos uma definição de "Estado" que inclui grande parte dos modelos politicos propostos pelos chamados "anarquistas", então a possibilidade da realização no mundo real dos (ou de alguns dos) modelos-propostos-pelos-anarquistas não foi refutada.
(...)
E, assim, em vez de se discutir se é possível uma sociedade sem Estado, passaríamos a discutir se é possível uma sociedade com um Estado sem uma autoridade suprema que reivindique o monopólio em ultima instância do uso da força. Mas não vejo qual a utilidade dessa mudança de terminologia, além de passarmos a ter que usar frases muito mais compridas e termos que reescrever a maior parte dos livros de filosofia politica, história e antropologia escritos nos últimos 200 anos.
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Continuando a conversa - 25/11 - III
Continuando a responder ao Rui Botelho Rodrigues:
3. Teoria comunal e teoria free-for-all
(...)
A aplicação ao free-for-all é talvez ainda mais indefensável, porque é um «cheque em branco» a toda a agressão. Se não existe distinção entre a justa propriedade sobre cada corpo, isto significa, como o Miguel disse, que todos têm o direito de agredir contra não-agressores. Ora, se argumentar pressupõe o princípio da não-agressão, esta teoria é completamente injustificável – na verdade, a única forma de a justificar seria pela agressão contínua. Mais: nenhum contrato de não-agressão é legítimo, visto que um contrato pode apenas regular a propriedade e a posse de cada indivíduo. Se tais conceitos são inexistentes numa sociedade free-for-all, a quebra de um desses contratos resulta no mesmo cenário de agressão total. Além disso, visto que a utilidade de definir limites à propriedade justa dos indivíduos é evitar conflitos, esta teoria falha completamente em termos utilitários (além de em termos morais) porque em vez de evitar conflitos fomenta-os.
E, já agora, porque é que argumentar pressupõe o principio da não-agressão? O eu estar a ser agredido (ou a agredir) não me impede de argumentar - veja-se os casos de sequestros políticos em que sequestrador e sequestrado passam o tempo (enquanto não vem o ou "resgate" ou a ordem de execução) a discutirem a suas respectivas posições (num contexto de agressão).
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Miguel Madeira
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Continuando a conversa - 25/11 - II
Continuando a responder ao Rui Botelho Rodrigues:
Aqui possivelmente o Rui terá razão, já que o meu conhecimento do georgismo não é em primeira mão, mas através de autores que privilegiam a variante "toda a gente tem igual direito aos recursos naturais" à variante "os recursos naturais pertencem à colectividade".2. Teoria Georgista.
«Parece-me que, à partida, a teoria georgista é tão compatível com cada pessoa possuir 1/6.800.000.000 de cada corpo como com cada pessoa possuir 100% de apenas um corpo.»
Se o objectivo do exercício presente é aplicar estas várias teorias sobre terra ou propriedade produtiva à propriedade sobre o próprio corpo, temos de lembrar que Henry George diz muito claramente que toda a terra devia ser propriedade colectiva, não que a terra deveria ser distribuída igualmente entre todos os indivíduos num determinado território. Assim, a única saída é a partilha colectiva de todos os corpos. O que é impossível de defender argumentativamente sem contradição performativa.
No entanto, esta critica de Henry George a Herbert Spencer parece indicar que mesmo George considerava o acesso à terra como um "direito igual de cada individuo" e não como um "direito da colectividade":
The fact is, that without noticing the change, Mr. Spencer has dropped the idea of equal rights to land, and taken up in its stead a different idea -- that of joint rights to land. That there is a difference may be seen at once. For joint rights may be and often are unequal rights.
The matter is an important one, as it is the source of a great deal of popular confusion. Let me, therefore, explain it fully.Mas de qualquer maneira, mesmo que o meu raciocinio não se aplique à "teoria georgista", continua a aplicar-se ao que poderiamos chamar a "teoria georgista modificada", isto é, à tal teoria (chamemos-lhe o que quisermos - "neo-georgismo", p.ex.) que acha que toda a gente tem igual direito ao usufruto dos recursos naturais.
When men have equal rights to a thing, as for instance, to the rooms and appurtenances of a club of which they are members, each has a right to use all or any part of the thing that no other one of them is using. It is only where there is use or some indication of use by one of the others that even politeness dictates such a phrase as "Allow me!" or "If you please!"
But where men have joint rights to a thing, as for instance, to a sum of money held to their joint credit, then the consent of all the others is required for the use of the thing or of any part of it, by any one of them.
Now, the rights of men to the use of land are not joint rights: they are equal rights.
Were there only one man on earth, he would have a right to the use of the whole earth or any part of the earth.
When there is more than one man on earth, the right to the use of land that any one of them would have, were he alone, is not abrogated: it is only limited. The right of each to the use of land is still a direct, original right, which he holds of himself, and not by the gift or consent of the others; but it has become limited by the similar rights of the others, and is therefore an equal right. His right to use the earth still continues; but it has become, by reason of this limitation, not an absolute right to use any part of the earth, but (1) an absolute right to use any part of the earth as to which his use does not conflict with the equal rights of others (i.e., which no one else wants to use at the same time), and (2) a coequal right to the use of any part of the earth which he and others may want to use at the same time.
It is, thus, only where two or more men want to use the same land at the same time that equal rights to the use of land come in conflict, and the adjustment of society becomes necessary.
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Continuando a conversa - 25/11 - I
[Respondendo ao Rui Botelho Rodrigues, com quase seis meses de atraso]
O Miguel diz-nos que «segundo [a teoria Proudhom/Tucker/Carson] os recursos naturais devem ser propriedade (ou um nome parecido) de quem os "ocupa e usa" actualmente (em vez de do ocupante original ou a quem este tenha transferido a propriedade) - a regra de "a terra a quem a trabalha, a mina aos mineiros". Aplicando este raciocínio à propriedade de si mesmo, significaria que eu apenas poderia possuir o meu corpo enquanto eu habitasse o meu corpo, e que a propriedade absentista de corpos alheios seria considerada não-válida»; a mim parece-me que mesmo a dormir a mulher em questão está a "ocupar" o seu corpo (tal como, quando daqui a uns minutos eu for dormir, vou continuar a ocupar a minha casa).»
Como o Miguel bem escreveu, a teoria mutualista fala em «ocupação e uso», sendo ambos formas de acção. E como Mises nos lembra no primeiro parágrafo, da primeira página, do primeiro capítulo, da primeira parte da sua magnum opus «Human action is purposeful behavior. (...)»
Todas as formas de acção são, por definição, conscientes. Ou seja: o «actor» utiliza racionalmente meios para atingir fins determinados pelo uso da Razão, algo totalmente alheio à actividade inconsciente, como por exemplo, o sono. Se é verdade que existe o acto ou a decisão de «dormir», ou seja, a escolha consciente, racional e voluntária de descansar o corpo e a mente, uma vez adormecido o ser humano não está mais na posse total da sua Razão ou do seu corpo: está no domínio do inconsciente, ou seja, da não-acção. Mais importante: o próprio acto ou decisão de dormir inclui o conhecimento de que, durante o sono, existe uma suspensão da Razão e da Acção.
A teoria mutualista, que fundamentalmente confunde (ou aliás, funde) os dois conceitos de «propriedade» e «posse», fala, como o Miguel bem referiu, em ocupação e uso, não apenas em ocupação. Se é certo que é impossível conceber a ocupação total de um corpo humano por outro ser humano, é perfeitamente possível conceber o «uso» de um corpo humano por outro ser humano. Transportado para o exemplo, isto quer dizer que o corpo da pessoa adormecida (e logo, inconsciente e incapaz de «usar o próprio corpo») pode ser usado legitimamente (por exemplo mutilado, violado, morto) por um «usuário» necessariamente consciente e capaz de acção. Tal como um apropriador original de um pedaço de terra decide não habitar ou não usar a sua terra (e segundo a teoria mutualista, perde o direito a esse pedaço de terra para os próximos indivíduos a usar a terra), também um indivíduo que decide pôr o seu corpo em descanso – ou seja: abster-se de usar o próprio corpo – está, segundo os mutualistas, a declarar o seu corpo «sem dono» e a legitimar o uso do próprio corpo por terceiros. Mais do que isso, o primeiro usuário do corpo da pessoa adormecida obterá o direito de excluir a pessoa adormecida do uso do seu próprio corpo, já que a regra da «não-agressão contra justos proprietários» mantém-se no mutualismo. O que muda é a noção de «justiça».
(...)
PS: O facto de o Miguel achar que quando vai dormir a sua casa não fica «desocupada e sem uso» (excluindo talvez a cama) segundo a perspectiva mutualista, quer apenas dizer que o Miguel, como a maior parte dos mutualistas e fellow-travellers, não testa as suas convicções até aos seus limites lógicos.
Porque razão os mutualistas e afins hão de ter que adoptar a definição "miseana" de "uso"? E, ao admitir que quando eu durmo talvez se possa considerar que a cama está "em uso", RBR acaba por aceitar que eu não preciso de estar consciente para estar a usar alguma coisa; bem, talvez o que o RBR queira dizer seja algo como "para mim, a cama não está em uso de maneira nenhuma; mas no máximo ainda poderia admitir que o MM achasse - dentro dos pressupostos absurdos que ele parece defender - que a cama está em uso", mas mesmo que seja assim, não nos esquecemos que a tese do Hoppe é que o acto de defender um sistema de direitos de propriedade diferente do que ele defende é logicamente incoerente. Ora, acreditar que:
a) os direitos de propriedade (ou, pelo menos, os direitos de propriedade sobre recursos naturais) só são legítimos se o proprietários usar/ocupar pessoalmente a propriedade em questão
b) dormir ou mesmo estar em coma é um forma de uso
c) logo, eu sou o proprietário inaliénavel do meu corpo físico (logo posso usá-lo como bem quer e me apetece, p.ex., como instrumento para propagandear as minhas ideias)
até poderá ser estúpido, mas é logicamente coerente - a conclusão c) deriva sem falhas das premissas a) e b).
Já agora, , diga-se que grande parte dos mutualistas só aplica essa regra a recursos naturais, logo o que estaria em causa não seria a propriedade da cama, mas sim do terreno sobre qual a cama assenta.
Mas convém notar que me parece haver diferença importante de natureza entre a teoria Rothbard/Hoppe da propriedade e a teoria Proudhon/Tucker da propriedade: creio que a teoria R/H vê a regra "um recurso natural pertence ao primeiro que o utilizar, ou a quem esta, directa ou indirectamente, a transfira" como a encarnação do "direito natural"; pelo contrário, a teoria P/T vê a regra "um recurso natural pertence a que o utilizar/ocupar" não tanto como o "direito natural" mas simplesmente como um expediente prático para fazer cumprir a regra "cada um tem direito ao fruto do seu trabalho e ninguém tem o direito de se apossar do fruto do trabalho de outro". No fundo, o raciocínio é que, se eu cultivo batatas num terreno, eu tenho que ser "dono" desse terreno como forma de garantir a minha propriedade sobre as batatas; pelo contrário, se eu possuo um terreno, outra pessoa cultiva lá batatas e eu uso o meu direito de propriedade para lhe exigir uma renda, o direito da outra pessoa ao produto do seu trabalho está a ser violado (afinal, as batas são o fruto apenas do trabalho dele; o terreno também foi necessário, mas existiria de qualquer maneira mesmo que eu não existisse).
[Aliás, dá-me a ideia que a teoria lockeana da propriedade, se nas suas conclusões é parecida com a R/H, nos seus pressupostos filosóficos é semelhante à P/T]
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Miguel Madeira
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Etiquetas: anarquismo: socialismo vs. capitalismo





