Tuesday, November 30, 2010

O que é que afinal diz o relatório do Banco de Portugal?

A TVI diz que o BP diz que os bancos portugueses estão bem. A Business Insider diz que o BP diz que os bancos portugueses estão mal.  Se alguém quiser pesquisar o relatório para chegar a alguma conclusão, está aqui (eu ainda tentei, mas desisti quando vi as centenas de páginas).

Eric Cantona e a Banca de Reservas Fraccionarias

(Banca de Reservas Fraccionarias é um termo que caracteriza o actual sistema monetário e bancário que permite que os depósitos à ordem sejam utilizados pelos bancos nas suas operações, colocando assim em risco a moeda depositada, e que ao mesmo tempo concede a capacidade dos bancos de conceder crédito fabricando do nada novos depósitos à ordem em vez de mobilizar depósitos já existentes - o que, segundo a teoria austríaca dos ciclos económicos, provoca as bolhas seguida das inevitáveis crises). Esta entrevista contém uma certa perspectiva de esquerda

Entrevista a Juan Torres López sobre la iniciativa de Eric Cantona

El conocido futbolista Eric Cantona ha convocado en Francia un movimiento popular para retirar el dinero de los bancos el próximo día 7 de diciembre (www.bankrun2010). Para conocer los posibles efectos de esta iniciativa entrevistamos a Juan Torres López, Catedrático de Economía, miembro del Comité Científico de ATTAC España y autor de los libros Desiguales. Mujeres y hombres en la crisis financiera (Icaria), con Lina Gálvez, y La crisis de las hipotecas basura. ¿Por qué se cayó todo y no se ha hundido nada? (Sequitur) con la colaboración de Alberto Garzón.

- ¿Qué efectos tendría una medida como esta que propone Cantona?

- Lógicamente depende de su seguimiento. Si se hiciera masivamente, los bancos no tendrían liquidez suficiente para devolver los depósitos a sus clientes porque la banca occidental opera con un sistema llamado de reservas fraccionarias. Esto significa que de todo el dinero que ingresa un cliente sólo conserva una pequeña parte (actualmente un 2% más algunos porcentajes adicionales dependiendo de la regulación de cada país). El resto lo usa para dar créditos. Por tanto, el dinero de los depósitos "no está" en el banco sino sólo en forma de anotaciones, así que en su totalidad no se podría retirar.

- ¿Eso quiere decir que los bancos no "conservan" el dinero de sus clientes sino que lo usan para crear más dinero?

- Efectivamente. El negocio de la banca es ese: crear medios de pago mediante la generación de deuda. Cada vez que dan un crédito con esa parte del depósito que no reservan crean dinero. No dinero legal (monedas y billetes) sino dinero bancario.


Juan Torres López es Catedrático de Economía Aplicada de la Universidad de Sevilla.www.juantorreslopez.com

Alberto Montero Soler (amontero@uma.es) es profesor de Economía Aplicada de la Universidad de Málaga y puedes leer otros textos suyos en su blog La Otra Economía.

Leslie Nielsen (1926-2010)








O lado mais disparatado do cinema/televisão dos anos 80 (ao ponto de algumas pessoas dizerem "os filmes com este homem são sempre uma anormalidade")? Sim, sem dúvida. Mas ao menos a ideia era mesmo essa.

Sunday, November 28, 2010

O traficante de droga - "inimigo universal"?

Uma coisa curiosa é que, nas "guerras" entre policias e traficantes, como agora no Brasil (ou no México) não se vê ninguém (ou quase) a tomar o lado dos traficantes.

Afinal, grande parte da opinião publica e da opinião publicada é a favor da legalização das drogas, logo deveriam considerar os traficantes de droga como simples comerciantes que só usam a violência em auto-defesa contra a violência do Estado (ok, também há as guerras ente cartéis); mas não é isso que se passa - pelo contrário, muitos anti-proibicionistas até gostam de vestir os seus argumentos com um capa anti-traficantes ("com a legalização desapareciam os lucros dos traficantes").

Também muitas pessoas que até tendem a ser relativamente tolerantes com o pequeno crime (estilo "temos que ver a miséria em que essas pessoas vivem") já não o são com os traficantes, mesmo que estes muitas vezes contribuam para obras de caridade nos bairros onde vivem e que o tráfico de droga seja muito menos prejudicial a terceiros inocentes que um assalto de rua (o tráfico de droga só prejudica quem quer ser prejudicado).

Um possivel argumento (pelo menos para um anti-capitalista) para ser contra os traficantes é eles serem uma espécie de capitalistas, mas atendendo a que vivemos numa sociedade capitalista, isso não os faz pior que qualquer outro capitalista, logo não é razão para uma animosidade específica contra os traficantes.

Duas leituras recomendadas (como de costume, eu recomendar um texto não quer dizer necessariamente que concorde com ele):

- The Drug Pusher [pdf], por Walter Block (em Defending the Undefendable)

- Da essência e legitimidade do lucro no negócio do aborto clandestino, por Tiago Mendes (penso que grande parte do raciocínio pode se aplicar ao tráfico de droga)

A crise irlandesa vista por robôs



[O eu postar este video não significa uma concordância total com tudo o que o robô vermelho diz].

Friday, November 26, 2010

9 anos e 50 dias

27 de Dezembro de 1979 - 15 de Fevereiro de 1989 - intervenção soviética no Afeganistão

7 de Outubro de 2001 - .... - intervenção da NATO no Afeganistão

Thursday, November 25, 2010

Factores que afectam a criatividade

How College Kills Creativity; Nothing Succeeds Like Failure, por Evan Goldstein, na Chronicle of Higher Education:

Jean-Paul Sartre said that the greatest gift a father can give his son is to die early. Sartre's remark, though harsh, isn't implausible. In a new book, Sudden Genius: The Gradual Path to Creative Breakthroughs (Oxford University Press), Andrew Robinson notes that a remarkable number of super-high achievers suffered the death of a parent at a young age. He cites a 1978 study of almost 700 historical figures that found that 25 percent of them—including J.S. Bach, Dante, Michelangelo, Leo Tolstoy, and Richard Wagner—lost at least one parent before the age of 10.

Robinson entertains the possibility of a correlation between tragedy and extreme creativity. Some psychologists believe that trauma can lead a child to turn inward and cultivate a taste for solitude. "The ability to be alone is critical," says Robinson, a former literary editor of the Times Higher Education Supplement, in an interview, noting that Mozart, who had an active social life, nonetheless withdrew for long stretches to focus on his work. "You don't write The Marriage of Figaro in six weeks if you go out and get drunk every night." Even in the sciences, where collaboration is common, Robinson says, major breakthroughs have been spearheaded by figures—Galileo, Newton, Darwin, and Einstein—with pronounced solitary streaks.

What are we to make of all of this? Not much, apparently. The notion that genius is nurtured by childhood adversity "is a tempting one," Robinson writes, but it crumbles under careful scrutiny. For every figure that fits the bill (Joseph Conrad was a bookish, withdrawn child whose parents died before he turned 12), another genius bucks the pattern (Henri Cartier-Bresson clashed with his wealthy parents, but they were supportive—and alive).

(...)

If the sources of genius remain something of a riddle, Robinson is emphatic about what does not contribute to creative excellence: higher education. The academy's emphasis on specialization and its "inherent tendency to ignore or reject highly original work that does not fit the existing paradigm" is an impediment to creativity, Robinson argues. He points to several intriguing studies. One, by Dean Keith Simonton, a professor of psychology at the University of California at Davis, suggests that creativity flourishes best among those with the equivalent of two years of an undergraduate education—no less, no more. Mihaly Csikszentmihalyi, a professor of psychology at Claremont Graduate University, has also looked at the relationship between education and innovation. In his 1996 book, Creativity: Flow and the Psychology of Discovery and Invention, he argued that formal education has historically had little effect on the lives of creative people. "If anything," Csikszentmihalyi wrote, "school threatened to extinguish the interest and curiosity that the child had discovered outside its walls."
[Via Marginal Revolution]

Dá-me a ideia que isto refuta esta minha hipótes (ou talvez não - de acordo com um dos estudos, só acima do bacharelato é que a educação tem efeitos negativos) mas em compensação confirma esta (é a vantagem de escrever posts com teorias contraditórias).

O papel positivo da Mafia?

7 Ways the Mafia Made the U.S. a Better Place: 'Renegade History, por Thaddeus Russell:

Imagine an America without jazz. Imagine an America in which alcohol is still illegal. Imagine an America without Broadway, Las Vegas, or Hollywood. Imagine an America with no racial integration or freedom to be gay in public. In my new book, A Renegade History of the United States, I show that all you have to do is imagine American history without organized crime ... Here are 7 ways that gangsters made America a better place:
[Via LewRockwell.com]

"Bloco de Esquerda" irlandês

Left-wing groups unite to fight poll (Irish Times):

Independent Socialist MEP Joe Higgins will attempt to reclaim his Dublin West seat in the next general election, he announced today.


Richard Boyd-Barrett, a councillor for People Before Profit Alliance, and former Tipperary South TD Seamus Healy, will also contest the election under a new United Left Alliance.

The new grouping expects to field some 20 candidates. Dublin councillors Clare Daly and Joan Collins are also involved.

Mr Higgins said the Socialist Party, the People Before Profit Alliance and the Tipperary-based Workers and Unemployed Action Group had come together to provide a “left alternative to the establishment parties”.

Sinn Féin was accused of being prepared to “prop up” Fianna Fáil, Fine Gael and Labour in a coalition government, at the launch in a Dublin city centre hotel this morning. (...)

Mr Boyd-Barrett said it was time for people to take to the streets in protest and called for high participation in Saturday’s march. “We all need to get behind it and send the strongest possible message to this rotten government: get out now.”
Por outro lado, as sondagens parecem indicar um grande aumento da votação e representação do Sinn Féin, que provavelmente elegerá um deputado numas eleições intercalares hoje.
Ou seja, parecem estar a desenhar-se na Irlanda duas potenciais "alternativas de esquerda" - a esquerda radical clássica da United Left Alliance (que penso poder se considerada como parecido com o "nosso" BE) e a esquerda nacionalista do Sinn Féin.

O Estado sempre existiu?

Rui Albuquerque escreve que «O governo, os tribunais, os parlamentos ou câmaras representativas, em suma, a dinâmica do poder e a sua organização, chamemos-lhe o "estado" ou o "princípio governativo", existem desde sempre, em qualquer local onde encontremos sociedades humanas».

Ele já havia feito essa afirmação em tempos, assim volto a repetir o que escrevi na altura:

Ora sociedades sem estado já houve muitas: p.ex., indo ao post anterior, temos outra vez as sociedades melanésias descritas por Marshall Sahlins; ou os Nuer do Sudão; Bruce Benson também dá alguns exemplos neste seu paper [pdf], etc.

RA poderá argumentar que os "big man" melanésios, as "linhagens" nuer, etc. são o equivalente a "Estados", ainda que de tipo peculiar (já que não há a figura de uma poder central com o monopólio da autoridade suprema sob um dado território). Talvez.

Mas assim, as agencias de protecção numa sociedade anarco-capitalista (ou talvez o conjunto das agências de protecção), ou, já agora, uma confedaração voluntária de colectivos de trabalhadores anarco-sindicalistas também serão "Estados". E até podemos concluir que afinal já há o "Estado mundial" - de certa forma, o conjunto das instituições internacionais, alianças militares e diplomáticas, equilibrios de força entre as potências, etc. realmente configura uma espécie de sistema politico internacional que, pelo mesmo critério, será também uma espécie de "Estado".

Ou seja, se adoptarmos essa definição de "Estado", isso em nada altera os termos da discussão entre "anarquistas" e "arquistas" - afinal, se dizemos que o "Estado" sempre existiu e faz parte da natureza humana, e depois adoptamos uma definição de "Estado" que inclui grande parte dos modelos politicos propostos pelos chamados "anarquistas", então a possibilidade da realização no mundo real dos (ou de alguns dos) modelos-propostos-pelos-anarquistas não foi refutada.

(...)

E, assim, em vez de se discutir se é possível uma sociedade sem Estado, passaríamos a discutir se é possível uma sociedade com um Estado sem uma autoridade suprema que reivindique o monopólio em ultima instância do uso da força. Mas não vejo qual a utilidade dessa mudança de terminologia, além de passarmos a ter que usar frases muito mais compridas e termos que reescrever a maior parte dos livros de filosofia politica, história e antropologia escritos nos últimos 200 anos.

Continuando a conversa - 25/11 - III

Continuando a responder ao Rui Botelho Rodrigues:

3. Teoria comunal e teoria free-for-all

(...)

A aplicação ao free-for-all é talvez ainda mais indefensável, porque é um «cheque em branco» a toda a agressão. Se não existe distinção entre a justa propriedade sobre cada corpo, isto significa, como o Miguel disse, que todos têm o direito de agredir contra não-agressores. Ora, se argumentar pressupõe o princípio da não-agressão, esta teoria é completamente injustificável – na verdade, a única forma de a justificar seria pela agressão contínua. Mais: nenhum contrato de não-agressão é legítimo, visto que um contrato pode apenas regular a propriedade e a posse de cada indivíduo. Se tais conceitos são inexistentes numa sociedade free-for-all, a quebra de um desses contratos resulta no mesmo cenário de agressão total. Além disso, visto que a utilidade de definir limites à propriedade justa dos indivíduos é evitar conflitos, esta teoria falha completamente em termos utilitários (além de em termos morais) porque em vez de evitar conflitos fomenta-os.

Mantenho o que escrevo - a teoria do "free-for-all" pode ser um "cheque em branco" à agressão, mas também é um "cheque em branco" à auto-defesa. Mas como para a maior parte das pessoas a vantagem de não ser agredido provavelmente ultrapassa as vantagens de agredir, é expectável que estabeleçam  (explicita ou tacitamente) acordos entre si em que se comprometem a não-agredir em troca de não serem agredidos.

O RBR diz que esses contratos não são legítimos, mas e daí? Se o João e o Aníbal se comprometem mutuamente a não se agredirem um ao outro, o que é que significa exactamente dizer que esse contrato "não é legitimo"? Que não há nenhuma força exterior que possa fazer cumprir o contrato caso um deles agrida o outro? Mas há - a partir do momento em que o João agride o Aníbal, isso quer dizer que o João não cumpre os acordos de não-agressão que estabelece, e a partir daí está sujeito a ser agredido, tanto pelo Aníbal (se este ainda estiver vivo...), como mesmo pelas outras pessoas (afinal, a razão dos indivíduos para não se agredirem seria não serem agredidos; a partir do momento em que o João mostrou que é capaz de agredir outros mesmo sem ter sido vítima de uma agressão prévia, isso quer dizer que os outros já não tem nenhuma razão específica para não agredirem o João).

E, já agora, porque é que argumentar pressupõe o principio da não-agressão? O eu estar a ser agredido (ou a agredir) não me impede de argumentar - veja-se os casos de sequestros políticos em que sequestrador e sequestrado passam o tempo (enquanto não vem o ou "resgate" ou a ordem de execução) a discutirem a suas respectivas posições (num contexto de agressão).

Continuando a conversa - 25/11 - II

Continuando a responder ao Rui Botelho Rodrigues:

2. Teoria Georgista.

«Parece-me que, à partida, a teoria georgista é tão compatível com cada pessoa possuir 1/6.800.000.000 de cada corpo como com cada pessoa possuir 100% de apenas um corpo.»

Se o objectivo do exercício presente é aplicar estas várias teorias sobre terra ou propriedade produtiva à propriedade sobre o próprio corpo, temos de lembrar que Henry George diz muito claramente que toda a terra devia ser propriedade colectiva, não que a terra deveria ser distribuída igualmente entre todos os indivíduos num determinado território. Assim, a única saída é a partilha colectiva de todos os corpos. O que é impossível de defender argumentativamente sem contradição performativa.
Aqui possivelmente o Rui terá razão, já que o meu conhecimento do georgismo não é em primeira mão, mas através de autores que privilegiam a variante "toda a gente tem igual direito aos recursos naturais" à variante "os recursos naturais pertencem à colectividade".

No entanto, esta critica de Henry George a Herbert Spencer parece indicar que mesmo George considerava o acesso à terra como um "direito igual de cada individuo" e não como um "direito da colectividade":
The fact is, that without noticing the change, Mr. Spencer has dropped the idea of equal rights to land, and taken up in its stead a different idea -- that of joint rights to land. That there is a difference may be seen at once. For joint rights may be and often are unequal rights.
The matter is an important one, as it is the source of a great deal of popular confusion. Let me, therefore, explain it fully.

When men have equal rights to a thing, as for instance, to the rooms and appurtenances of a club of which they are members, each has a right to use all or any part of the thing that no other one of them is using. It is only where there is use or some indication of use by one of the others that even politeness dictates such a phrase as "Allow me!" or "If you please!"

But where men have joint rights to a thing, as for instance, to a sum of money held to their joint credit, then the consent of all the others is required for the use of the thing or of any part of it, by any one of them.
Now, the rights of men to the use of land are not joint rights: they are equal rights.

Were there only one man on earth, he would have a right to the use of the whole earth or any part of the earth.

When there is more than one man on earth, the right to the use of land that any one of them would have, were he alone, is not abrogated: it is only limited. The right of each to the use of land is still a direct, original right, which he holds of himself, and not by the gift or consent of the others; but it has become limited by the similar rights of the others, and is therefore an equal right. His right to use the earth still continues; but it has become, by reason of this limitation, not an absolute right to use any part of the earth, but (1) an absolute right to use any part of the earth as to which his use does not conflict with the equal rights of others (i.e., which no one else wants to use at the same time), and (2) a coequal right to the use of any part of the earth which he and others may want to use at the same time.

It is, thus, only where two or more men want to use the same land at the same time that equal rights to the use of land come in conflict, and the adjustment of society becomes necessary.
Mas de qualquer maneira, mesmo que o meu raciocinio não se aplique à "teoria georgista", continua a aplicar-se ao que poderiamos chamar a "teoria georgista modificada", isto é, à tal teoria (chamemos-lhe o que quisermos - "neo-georgismo", p.ex.) que acha que toda a gente tem igual direito ao usufruto dos recursos naturais.

Continuando a conversa - 25/11 - I

[Respondendo ao Rui Botelho Rodrigues, com quase seis meses de atraso]

O Miguel diz-nos que «segundo [a teoria Proudhom/Tucker/Carson] os recursos naturais devem ser propriedade (ou um nome parecido) de quem os "ocupa e usa" actualmente (em vez de do ocupante original ou a quem este tenha transferido a propriedade) - a regra de "a terra a quem a trabalha, a mina aos mineiros". Aplicando este raciocínio à propriedade de si mesmo, significaria que eu apenas poderia possuir o meu corpo enquanto eu habitasse o meu corpo, e que a propriedade absentista de corpos alheios seria considerada não-válida»; a mim parece-me que mesmo a dormir a mulher em questão está a "ocupar" o seu corpo (tal como, quando daqui a uns minutos eu for dormir, vou continuar a ocupar a minha casa).»

Como o Miguel bem escreveu, a teoria mutualista fala em «ocupação e uso», sendo ambos formas de acção. E como Mises nos lembra no primeiro parágrafo, da primeira página, do primeiro capítulo, da primeira parte da sua magnum opus «Human action is purposeful behavior. (...)»

Todas as formas de acção são, por definição, conscientes. Ou seja: o «actor» utiliza racionalmente meios para atingir fins determinados pelo uso da Razão, algo totalmente alheio à actividade inconsciente, como por exemplo, o sono. Se é verdade que existe o acto ou a decisão de «dormir», ou seja, a escolha consciente, racional e voluntária de descansar o corpo e a mente, uma vez adormecido o ser humano não está mais na posse total da sua Razão ou do seu corpo: está no domínio do inconsciente, ou seja, da não-acção. Mais importante: o próprio acto ou decisão de dormir inclui o conhecimento de que, durante o sono, existe uma suspensão da Razão e da Acção.

A teoria mutualista, que fundamentalmente confunde (ou aliás, funde) os dois conceitos de «propriedade» e «posse», fala, como o Miguel bem referiu, em ocupação e uso, não apenas em ocupação. Se é certo que é impossível conceber a ocupação total de um corpo humano por outro ser humano, é perfeitamente possível conceber o «uso» de um corpo humano por outro ser humano. Transportado para o exemplo, isto quer dizer que o corpo da pessoa adormecida (e logo, inconsciente e incapaz de «usar o próprio corpo») pode ser usado legitimamente (por exemplo mutilado, violado, morto) por um «usuário» necessariamente consciente e capaz de acção. Tal como um apropriador original de um pedaço de terra decide não habitar ou não usar a sua terra (e segundo a teoria mutualista, perde o direito a esse pedaço de terra para os próximos indivíduos a usar a terra), também um indivíduo que decide pôr o seu corpo em descanso – ou seja: abster-se de usar o próprio corpo – está, segundo os mutualistas, a declarar o seu corpo «sem dono» e a legitimar o uso do próprio corpo por terceiros. Mais do que isso, o primeiro usuário do corpo da pessoa adormecida obterá o direito de excluir a pessoa adormecida do uso do seu próprio corpo, já que a regra da «não-agressão contra justos proprietários» mantém-se no mutualismo. O que muda é a noção de «justiça».

(...)

PS: O facto de o Miguel achar que quando vai dormir a sua casa não fica «desocupada e sem uso» (excluindo talvez a cama) segundo a perspectiva mutualista, quer apenas dizer que o Miguel, como a maior parte dos mutualistas e fellow-travellers, não testa as suas convicções até aos seus limites lógicos.

Porque razão os mutualistas e afins hão de ter que adoptar a definição "miseana" de "uso"? E, ao admitir que quando eu durmo talvez se possa considerar que a cama está "em uso", RBR acaba por aceitar que eu não preciso de estar consciente para estar a usar alguma coisa; bem, talvez o que o RBR queira dizer seja algo como "para mim, a cama não está em uso de maneira nenhuma; mas no máximo ainda poderia admitir que o MM achasse - dentro dos pressupostos absurdos que ele parece defender - que a cama está em uso", mas mesmo que seja assim, não nos esquecemos que a tese do Hoppe é que o acto de defender um sistema de direitos de propriedade diferente do que ele defende é logicamente incoerente. Ora, acreditar que:

a) os direitos de propriedade (ou, pelo menos, os direitos de propriedade sobre recursos naturais) só são legítimos se o proprietários usar/ocupar pessoalmente a propriedade em questão

b) dormir ou mesmo estar em coma é um forma de uso

c) logo, eu sou o proprietário inaliénavel do meu corpo físico (logo posso usá-lo como bem quer e me apetece, p.ex., como instrumento para propagandear as minhas ideias)

até poderá ser estúpido, mas é logicamente coerente - a conclusão c) deriva sem falhas das premissas a) e b).

Já agora, , diga-se que grande parte dos mutualistas só aplica essa regra a recursos naturais, logo o que estaria em causa não seria a propriedade da cama, mas sim do terreno sobre qual a cama assenta.

Mas convém notar que me parece haver diferença importante de natureza entre a teoria Rothbard/Hoppe da propriedade e a teoria Proudhon/Tucker da propriedade: creio que a teoria R/H vê a regra "um recurso natural pertence ao primeiro que o utilizar, ou a quem esta, directa ou indirectamente, a transfira" como a encarnação do "direito natural"; pelo contrário, a teoria P/T vê a regra "um recurso natural pertence a que o utilizar/ocupar" não tanto como o "direito natural" mas simplesmente como um expediente prático para fazer cumprir a regra "cada um tem direito ao fruto do seu trabalho e ninguém tem o direito de se apossar do fruto do trabalho de outro". No fundo, o raciocínio é que, se eu cultivo batatas num terreno, eu tenho que ser "dono" desse terreno como forma de garantir a minha propriedade sobre as batatas; pelo contrário, se eu possuo um terreno, outra pessoa cultiva lá batatas e eu uso o meu direito de propriedade para lhe exigir uma renda, o direito da outra pessoa ao produto do seu trabalho está a ser violado (afinal, as batas são o fruto apenas do trabalho dele; o terreno também foi necessário, mas existiria de qualquer maneira mesmo que eu não existisse).

[Aliás, dá-me a ideia que a teoria lockeana da propriedade, se nas suas conclusões é parecida com a R/H, nos seus pressupostos filosóficos é semelhante à P/T]