Saturday, February 28, 2015

Austeridade

Fines, sell-offs and subsidy cuts: life under cash-squeezed Isis (Financial Times):

The world’s richest jihadi group is not as flush as it once was, say Syrians who live under its rule. It has cut spending on fuel and bread subsidies, while increasingly shaking down locals for cash. Fighters themselves may be feeling the squeeze, too.

“Isis took some kind of financial hit . . . Some fighters’ salaries were cut, including my nephew,” said a man in the eastern city of Mayadeen, who says an apparent drop in the group’s revenues is making it difficult to cover the cost of its expansion in territory and membership since its lightning offensive last year.

Friday, February 27, 2015

Leonard Nimoy



Sim, isto é o mais cliché que há (ir buscar o "Caminho das Estrelas" a respeito da morte de Leonard Nimoy), mas a verdade a que não podemos fugir é com foi com esta série e papel que ele se tornou famoso (pelo menos para mim, já que a minha geração não teve oportunidade de ver a série original da Missão Impossível, onde ele também participava).

Eu até queria pagar 10 centimos pelo saco de plástico

Mas não consigo, porque esses sacos pura e simplesmente desapareceram do mercado (ou pelo menos do hipermercado ao pé da minha casa).

O que vendem agora (pelos tais 10 centimos) é um saco maior que não cabe no meu balde do lixo e que é muito pouco funcional para uma família unipessoal, ou mesmo unipessoal-unifelina (vou deitar o lixo fora com o saco quase vazio? Isso parece-me ainda mais poluente do que antes; acumular o lixo vários dias até encher o saco também não deve ser grande ideia).

Não acredites em tudo o que lês

Top 10 Bogus ISIS Stories, por Adam Johnson.

Grécia regressa à normalidade?

Athens: first anti-gov’t protest by far-left ANTARSYA turns ugly (Keep TalkingGreece):

The first anti-government rally in Athens turned ugly as anti-authoritarian protesters started to smash the windows of a pastry shop, two jewelry shops and an office, set four vehicles and several garbage bins on fire and damaged several bus stops.

 According to latest information, there was no intervention by riot police although squads were standing near by.

Earlier KTG wrote:

The first anti-government protest has been launched in Athens on Thursday afternoon. A month after the left-wing/nationalist SYRIZA-Independent Greeks coalition took office, a week after the Eurogroup agreement in Brussels.
 
With anti-EU banners and red party flags, members of  Anticapitalist Left Cooperation for the Overthrow (ANTARSYA) took to the streets in downtown Athens to protest the extension of continuation of loan agreements and Varoufakis’ Reform List with “austerity measures.”

Thursday, February 26, 2015

Os custos para a sociedade do combate ao tabagismo

O combate ao tabagismo costuma ser justificado em nome dos custos que os fumadores impõem ao resto da sociedade, nomeadamente o fumo passivo e os custos para o sistema de saúde (suportados por todos os contribuintes).

Eu até suspeito que esses custos sociais já estão largamente compensados: no caso do fumo passivo, porque tanto a legislação como sobretudo as normas sociais evoluiram no sentido do ato de fumar ser feito em zonas próprias (desdes bares e restaurantes com o simbolo azul até a alguma forma de pátio exterior em muitos locais de trabalho), onde os não-fumadores só vão se quiserem; no caso dos custos financeiros, porque os fumadores pagam pesados impostos sobre o tabaco e ainda por cima poupam dinheiro à segurança social (morrem suficientemente tarde para provavelmente descontarem os mesmos anos que o contribuinte médio, mas muitos suficientemente cedo para receberem menos de reformas).

Mas o que notícias como esta me fazem pensar é se neste momento as políticas de combate ao tabagismo já não terão mais custos para a sociedade do que o tabagismo propriamente dito.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Tuesday, February 24, 2015

"Camelpunk"

Interessante designação (inspirada em "steampunk") que Razib Khan aplica ao ISIS (e de certa forma também às monarquias do golfo).

"Anyone who reads science fiction won’t be entirely surprised by the juxtapositions of social media and slavery."

A intervenção do Estado aumenta a desigualdade económica?

Há quem diga que sim:

Less Economic Freedom Equals More Income Inequality, por Ronald Bailey (Reason)
 
Economic freedom and income inequality revisited: Evidence from a panel error correction model, por Nicholas Aspergis, Oguhzan Dincer e James Payne:

We investigate the causal relationship between income inequality and economic freedom using data from U.S. states over the period 1981 to 2004 within a panel error correction model framework. The results indicate bidirectional causality between income inequality and economic freedom in both the short and the long run. These results suggest that high income inequality may cause states to implement redistributive policies causing economic freedom to decline. As economic freedom declines, income inequality rises even more. In other words, it is quite possible for a state to get caught in a vicious circle of high income inequality and heavy redistribution.
O que eu suspeito - que a relação entre estatismo e desigualdade depende do tipo de intervenção: desconfio que altos impostos reduzem a desigualdade e que muita regulamentação aumenta a desigualdade.

Já agora, a respeito dessa diferença entre "impostos" e "regulação" como formas de intervenção estatal, o post Economic freedom and the size of government, or does paying taxes boost freedom?, por Tyler Cowen, e o paper Economic Freedom and the Size of Government, por James Mahon, argumentado que altos impostos estarão associados com maior liberdade económic (a esse respeito, um comentador do post de Cowen escreve "High taxes may indicate the government has used the tax system to achieve certain policy ends, rather than keeping taxes low but achieving those ends through extensive regulation. For instance, a pollution tax versus detailed emissions and building regulations for your factory" e outro "Lets say that some law of electoral dynamics means that the government every rich democracy must do roughly the same amount of stuff. Then raising taxes as buying your desired outcome requires only one form compulsion. Whereas regulating it into existence involves myriads".)

Monday, February 23, 2015

Revisitando a "quebra tendencial da taxa de lucro"

Largamente sobre outro assunto, Krugman escreve "Corporate profits have soared as a share of national income, but there is no sign of a rise in the rate of return on investment. How is that possible? Well, it’s what you would expect if rising profits reflect monopoly power rather than returns to capital."

É possível; talvez até bastante provável. Mas também há outra maneira (e até mais simples) da proporção dos lucros no rendimento nacional aumentar sem a taxa de lucro aumentar (ou até diminuir):

lucros/capital = [lucros/produto]*[produto/capital]

Assim, se o stock de capital aumentar mais depressa que o produto (ou seja, se o rácio produto/capital diminuir), podemos ter ao mesmo tempo aumento da parte do capital no rendimento nacional e manutenção ou até redução na taxa de rentabilidade do capital.

Alterando ligeiramente a fórmula acima:

lucros/capital = [lucros/salários]*[salários/capital]

lucros/capital =[lucros/salários]/[capital/salários]

Transformando em linguagem fora de moda:

taxa de lucro = taxa de mais valia / composição orgânica do capital

Ou seja, com a substituição do trabalho por máquinas (ou talvez por imobilizado incorpóreo, como patentes e afins?) no processo de produção, aumentando o que alguém chamou "composição orgânica do capital", podemos ter ao mesmo tempo aumento da parte dos lucros no rendimento (por outras palavras: "aumento da taxa de mais-valia", "pauperização relativa dos trabalhadores") sem que a taxa de lucro aumente (ou até diminua?).

Não estou a dizer que seja exatamente este mecanismo a ocorrer, mas não me parece que possa ser excluido à partida.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

"Capital humano"

Branko Milanovic é contra a expressão "capital humano"; Nick Rowe é a favor; Noah Smith não é nem deixa de ser contra.

Um problema que vejo com a expressão "capital humano" é que o "capital humano" (ao contrário da capital a sério) não pode ser vendido, alugado, dado, confiscado, hipotecado, etc., etc, sem vender, alugar, dar, confiscar, hipotecar, etc. o  trabalho da pessoa que o possui, pelo que é mais uma subcategoria do fator "trabalho" do que do fator "capital".

Isso leva a uma importante diferença - é perfeitamente possível num processo de produção o capital físico pertencer a uma pessoa e o trabalho a outra: um taxista pode alugar um taxi para trabalhar, ou inversamente o dono de um taxi pode contratar um taxista; mas já não é possível alguém fazer o trabalho de um engenheiro usando os conhecimentos de engenharia de outra pessoa (sim, é possivel alguém sem conhecimentos de engenharia trabalhar seguindo as instruções de um engenheiro, mas aí o engenheiro também tem que trabalhar; por outro lado, o engenheiro pode explicar a outra pessoa como fazer o trabalho de forma a que ela possa trabalhar sozinha, mas nesse caso a outra pessoa passou a possuir efetivamente esse "capital humano").

O corolário dessa diferença é que a distribuição do "capital humano" é, em certo sentido, mais relevante do que a do capital propriamente dito: no caso do capital propriamente dito - se assumirmos mercados financeiros e laborais com poucos ou nenhuns custos de transação, pouco diferença faz, em termos da capacidade produtiva de uma economia, quem possui o capital propriamente dito (já que os donos do capital e quem vai trabalhar com esse capital podem sempre fazer uma negociação e, ou os capitalistas contratarem trabalho, ou os trabalhadores contratarem capital); já no caso do "capital humano" é bastante provável que 9 pessoas com o 12º ano e 1 pessoa com 10 licenciaturas tenham um potencial produtivo bastante diferente do que 10 pessoas com uma licenciatura cada uma.

Pegando no post anterior, uma implicação disto é que para incentivar a acumulação de capital propriamente dito talvez o que interesse seja sobretudo a taxa marginal marginal (já que a acumulação de capital pode ser feita recorrendo sobretudo às pessoas com mais rendimentos - por definição, são quem pode poupar mais dinheiro), enquanto para incentivar a acumulação de "capital humana" seja mais relevante a taxa marginal média (como o "capital humano" não pode ser acumulado por umas pessoas para ser usado por outras, a sua aquisição tem, em principio, que ser mesmo distribuída por grande parte da sociedade).

Já agora, outra questão em que há uma diferença ente capital propriamente dito e "capital humano" é a que referi aqui - como o "capital humano" não pode ser hipotecado separadamente do dono, é mais difícil financiar a aquisição de "capital humano" via empréstimos.

Taxas médias e marginais de imposto

A respeito de impostos (nomeadamente do imposto sobre o rendimento) costuma-se falar em "taxas médias" (a proporção do total do rendimento que vai para imposto) e "taxas marginais" (o valor que vai para imposto de cada euro adicional que se ganha).

No entanto, acho que pode ser relevante definir mais alguns conceitos:

  • taxa média média: a média das taxas médias de imposto que as várias pessoas pagam (o Dia da Libertação dos Impostos apresenta-se como sendo algo parecido a isso, embora não o seja)
  • taxa média marginal: a taxa média paga pelo individuo com maior rendimento
  • taxa marginal média: a média das taxas marginais que as várias pessoas pagam
  • taxa marginal marginal: a taxa marginal paga pelo individuo com maior rendimento (dá-me a ideia que é esta taxa marginal que é usada para calcular os "índices de liberdade económica" e indicadores do género)
É, creio, ponto assente na ciência económica que os incentivos dependem das taxas marginais, não das taxas médias; mas o que será mais relevante: a taxa marginal marginal (como me parece implícito em muito do que é escrito sobre o assunto), ou a taxa marginal média? Num cenário em que se considere que o que interessa é incentivar um pequeno grupo de pessoas com altos rendimentos (que se considere serem altamente produtivas, como trabalhadores ou como investidores) o mais relevante será a taxa marginal marginal; numa situação em que se considere que o que interessa é incentivar um grande número de pessoas, já a taxa marginal média será o mais importante.

Um exemplo de uma questão em que a diferença entre a taxa marginal marginal e a taxa marginal média é importante: a flat tax, que provavelmente (quase de certeza, se a ideia fosse ser neutra em termos de receita) levaria a uma diminuição da taxa marginal marginal e a um aumento da taxa marginal média.

Uma nota final - talvez em vez da taxa marginal média, um indicador mais relevante fosse mesmo a taxa marginal mediana (a taxa marginal paga pelo contribuinte mediano), mas não quis estragar o meu jogo de palavras...

Sunday, February 22, 2015

Friday, February 20, 2015

Se a Grécia sair do euro

The harsh realities of the Greece-Eurozone game of chicken (Sober Look):

The damage to the euro area

First of all it's important to point out that the so-called "Grexit" is equivalent to a complete failure to pay on obligations by the Greek government, its banks, corporations, and households. While everyone is focused on the €315 billion Greece owes to the Eurozone, the IMF, and others, the damage to the euro area would actually be much greater. (...)

The damage to Greece

(...)

Greek businesses will demand bags of drachmas for any goods and services they offer. And there is little chance that foreigners will accept drachmas for shipments of food, fuel, etc. With Greek government euro accounts frozen abroad after the default, access to hard currency will be cut off as the Bank of Greece will be forced to sell off its gold holdings. It's a humanitarian crisis in the making.

Thursday, February 19, 2015

A Grécia cedeu?

Greece just blinked, por Mike Bird (Business Insider):

Eurogroup president Jeroen Dijsselbloem says he has just received a request from Greece for a six-month loan extension.

The main question now is the detail of what Greece has submitted. It's it's a request for an extension of the existing bailout then it's a massive climb-down for the radical new government.

Controles de capitais na Grécia (II)?

The leak about capital controls in Greece is a sure sign the ECB is falling apart, por Tomas Hirst (Business Insider):

A report in a German newspaper today that the European Central Bank (ECB) discussed capital controls for Greece, which was subsequently denied by the ECB, highlights deep tensions within the institution.

Controles de capitais na Grécia?

Segundo o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, o BCE quer que a Grécia imponha controles de capitais:

In central bank circles it was discussed why the Greek government had not yet introduced capital controls. "The Governing Council and the Governing banking supervisors would be better if there were capital controls to prevent bleeding of the banks," it was said in ECB circles. The Council of the Central Bank also discussed the question of whether and how long the Greek banks in general are still solvent. ELA-emergency loans may only be granted to temporarily illiquid but solvent banks in principle.

[Tradução do Business Insider]
No entanto, o BCE nega que tal ideia tenha sido discutida.

O paradoxo disto, claro, é que aparecerem rumores de que, para impedir a fuga de dinheiro dos bancos gregos, vão ser criados limites ao levantamento de dinheiro acaba por contribuir para ainda mais levantamentos.



Se daqui a uns anos se tentar corrigir isso, vai-se dizer que em Moçambique não respeitam os direitos de propriedade

Usurpadores de terras em Moçambique (Visão):

Milhares de camponeses do Corredor de Nacala, Norte de Moçambique, estão a ser expropriados ilegalmente das suas terras em nome de megaprojetos de agronegócio nas mãos de empresas internacionais, incluindo portuguesas. A história é revelada esta quinta-feira, dia 18, pela organização não-governamental (ONG) espanhola GRAIN e pelo português OBEGEF - Observatório de Economia e Gestão de Fraude.

As duas instituições são parceiras na denúncia de um esquema que, de acordo com José Pedro Martins, do OBEGEF, "indicia tráfico de influências" envolvendo altos responsáveis da FRELIMO. "O nosso interesse nesta história", assume João Pedro Martins à VISÃO, "tem a ver com o envolvimento de empresas portuguesas ou com ligações a Portugal

Wednesday, February 18, 2015

Editorial do New York Times sobre a Grécia

Give Greece Room to Maneuve, pelo "Editorial Board" do NYT:

However much the eurozone ministers may find it difficult to make concessions to a nation they perceive as profligate and ungrateful, they must come to grips with the fact that cutting Greece some slack now is the only good choice they have.

O que é austeridade?

No post anterior escrevi que não é muito claro o que quer dizer "acabar com a austeridade"; a principal razão é que o próprio conceito de austeridade é algo ambíguo.

Só existe uma política que toda a gente concorda que é austeridade:

- reduzir o deficit através da redução da despesa pública

Fora isso, há montes de situações que (muitas vezes ao serviço do interesse da retórica) que podem ou não ser austeridade.

- Reduzir o deficit via aumento de impostos é austeridade? Do ponto de vista do efeito sobre a procura agregada a diferença não é muita (ainda que se pode argumentar que reduzir o consumo público reduz um bocadinho mais a procura do que cortar subsídios ou subir impostos); de um ponto de vista ético pode fazer uma grande diferença, caso se considere que impostos são similares a roubo. Na prática parece-me que tanto keynesianos e "austerianos" saltam entre as duas definições conforme mais jeito der (se a economia está em recessão, o keynesiano vai procurar uma definição de austeridade que diga que há uma política de austeridade; se a economia estiver em expansão, vai procurar uma definição que diga que não há austeridade - e o "austeriano" vai fazer o contrário)

- Se se reduzir os impostos e/ou aumentar a despesa pode-se dizer que já não há austeridade? Ou a austeridade só acaba quando se regressar ao nível que se estava antes de começar a política de austeridade? Há quem diga que os efeitos macro-económicos das politicas orçamentais dependem mais da variação do saldo orçamental do que do valor em si (reduzir o deficit/aumentar o superavit - deprime a economia; aumentar o deficit/reduzir o superavit - estimula a economia), pelo que se poderia argumentar que qualquer politica de relaxamento orçamental é uma politica expansionista (se for assim, talvez nem exista o conceito de "reduzir a austeridade")

A Grécia tramou o PS?

Desconfio que a situação grega, aconteça o que acontecer, vai pôr o PS e António Costa em maus lençóis.

Na hipótese mais provável, de a Grécia não conseguir nada e ter, se não que sair do euro, pelo menos que congelar as contas bancárias (ou então ceder completamente ao resto da UE e ficar tudo na mesma), vai ser muito díficil a António Costa, quando chegar a campanha eleitoral falar em acabar com a austeridade, mudar a política europeia, etc. Vai ter que explicar como pretende triunfar onde os gregos falharam, e não vai ser fácil.

Na hipótese menos provável, de a Grécia conseguir efetivamente mudar as condições do programa e acabar ou reduzir a austeridade (nota: não é muito claro o que significa exatamente "acabar com a austeridade"), isso irá beneficiar sobretudo o Bloco de Esquerda, o partido português mais associado ao Syriza.

Ou seja, o PS está numa situação de "perde-perde"; talvez até ganhe as eleições, mas de certeza sem maioria absoluta.

Um ponto adicional (que até poderia afetar o que escrevo acima se não fosse as eleições serem já este ano): se a Grécia conseguir negociar um acordo favorável com a UE, aposto que em breve a Internacional Socialista, o Grupo Socialista no Parlamento Europeu e/ou a Aliança Progressista vão começar a fazer convites.