Friday, May 29, 2009

"Os Anjos de Charlie" - reflexões avulsas

[Falo da série, não do filme]

Actualmente, a RTP Memória está a passar "Os Anjos de Charlie", que, aos 7 anos, era uma das minhas séries não-infantis favoritas (a par com o Caminho das Estrelas). Revendo a série, ocorrem-me várias coisas:

- A grande revolução tecnológica que foi o telemóvel: em montes de episódios, o enredo teria que ser completamente diferente se já existissem telemóveis (exemplo: num episódio a "Jill" vai a casa de alguém que as outras suspeitam seja a "vilã" do episódio e telefonam para essa casa a tentar avisá-la, mas é a suspeita que atende e diz que ela ainda não chegou; se a série fosse feita hoje, ligariam-lhe para o telemóvel e o episódio perdia o suspense todo).

- Falando de tecnologia, a diferença que a televisão a cores também faz: eu lembrava-me bem da cena da bola de ténis explosiva metida na máquina automática de lançar bolas, mas a unica coisa que eu vi, a p/b, foi uma mão a meter uma bola ligeiramente diferente junta das outras; com a televisão a cores é diferente: vê-se claramente uma bola vermelha no meio de bolas verdes.

- Durante muitos anos, li criticas referindo-se aos "Anjos" como uma série "idiota"; eu pensava "que disparate"; no entanto, revendo-a com 35 anos em vez de 7 (e no contexto da televisão do século XXI em vez dos anos 70 do século passado) por vezes tem umas passagens um bocado, enfim... (exemplo: num episódio, um contabilista condenado por fraude contrata um mercenário para fazer um "trabalho" e depois mata-o; vamos pensar nisso: contabilista vs. mercenário/assassino, humm...)

- É interessante rever a estética da televisão dos anos 70, nomeadamente das séries policiais/acção; veja-se, sobretudo, o uso da música de fundo nos momentos de maior tensão (há uns anos atrás, num curso de formação profissional que frequentei, o formador mostrou um excerto de um filme qualquer e depois comentou "Isto é mesmo anos 70", ao que uma das formandas respondeu "Pois é, a musiquinha"). A própria imagem é reconhecivel, embora isso deva ter mais a ver com a tecnologia (eu gosto bastante dessa ambiência "anos 70", diga-se de passagem).

- Como trabalha a minha memória: eu lembrava-me de duas ou três cenas da série, e, ao revé-la, há muitas cenas que me relembro no momento em que as vejo (o explosivo na tampa da garrafa, o miudo deficiente que agarra na pistola e dispara, a filha do traficante de droga que suspeita que o pai tenha mais que vinho na adega, etc.). No entanto, não me lembro do enredo geral de quase nenhum episódio (nem me re-lembro ao vê-los). Será assim que funciona a memória humana a relembrar filmes vistos há 28 anos atrás (e numa idade em que as funções cognitivas ainda não estão plenamente desenvolvidas)?

- Acerca da discussão sobre se a série era machista ou feminista - actualmente, é fácil encontrar artigos na Net defendendo que era feminista, mas suponho que haja aí uma selecção enviesada: 30 anos depois, apenas os fãs da série perdem tempo a discutir isso.

- Finalmente, uma ideia um bocado macabra que me ocorreu: será que a RTP decidiu re-exibir a série a pensar que uma das actrizes talvez faleça nos próximos tempos? [adenda escrita a 26/06/2009: infelizmente, já não é "talvez"]

2 comments:

Clyde said...

É só para vos dizer que reatámos os assaltos

Carlos Santos said...

Miguel, Respondendo ao Tiago M. Ramalho na linha dos comentários que surgiram produzi uma nota sobre o a compatibilidade dos ideais da revolução francesa que a direita por vezes pretende negar. EU creio que efectivamente a liberdade económica se entendida como libertarismo randiano é contrária à vida societária, e se esta é intrinseca À natureza humana, a liberdade económica tem de a respeitar. A partir daí se a sociedade entende como valor a justiça social, o libertarismo de Ayn Rand, que nega qualquer coacção sob o indivíduo, limita a própria capacidade dos libertários em sublevarem-se pela luta armada. Além da contradição lógica da ética randiana, porque o homem é um animal societário, há ainda a limitação que ela impõe na luta pelos seus ideiais. Assim, favorecer alguém por ser "geneticamente desfavorecido" na lógica distorcida do editorial do i, teria sentido: porque em liberdade própria da convivência social, homens livres teriam votado essa opção em eleições livres e universais (o exemplo da escravatura que o Tiago dá está viciado porque supõe uma democracia de tipo ateniense). Se achar que têm algum interesse, e sem pretender que seja entendido como Spam deixo-lhe duas referências:
a minha resposta de hoje ao TMR:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/05/yes-we-can-vs-o-patetico-editorial-do-i.html, referenciando-o a si;
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/05/o-socialismo-democratico-vs-o.html sobre o libertarismo randiano

Um abraço,
Carlos Santos