Saturday, June 10, 2006

"O professor sabe, o aluno não"

Continuando a tradição de comentar textos com atraso de uma semana, vou agora abordar a entrevista de Maria Filomena Mónica ao Expresso da semana passada

"Os alunos têm que perceber que os professores sabem mais do que eles (...)"

"[A escola] não pode ser [democrática]. Há na escola uma hierarquia de poder: o professor sabe, o aluno não".

Exemplos desses professores que sabem (enquanto os alunos não):

A minha professora de Biologia do 7º ano, que não sabia que as joaninhas comiam pulgões, e ainda ficou toda ofendida quando um aluno lhe tentou explicar que as joaninhas comem pulgões.

A minha professora de Português do 10º que, ao ensinar as crónicas de Fernão Lopes, disse que, durante a crise 1383-85, o Mestre de Aviz fugiu para Inglaterra - por sorte, essa matéria já tinha sido dada em História, pelo que a turma pode corrigi-la.

Mas, mesmo que "os professores saibam e os alunos não", como diz MFM, isso não é uma "hierarquia de poder" - será, quando muito, uma "hierarquia de conhecimento": o facto de A saber mais do que B não implica que B tenha que estar submetido à autoridade de A.

Uma analogia: é perfeitamente normal que, num escritório, um empregado saiba mexer melhor, digamos, no Excel do que outro, e que esse , quando há alguma coisa que não sabe fazer, peça ao primeiro para lhe explicar como é. Mas isso não implica que o segundo esteja sobre a autoridade hieráquica do primeiro (aliás, o segundo até pode ser chefe do primeiro).

Friday, June 09, 2006

Ainda sobre os sindicatos

Há mais uns pontos no post de AA que aproveito para comentar (embora já tenha feito isso em parte nos comentários).

"Os salários crescem naturalmente com a produtividade, como consequência natural da concorrência das empresas pela mão-de-obra disponível no mercado"

Não é forçoso que o aumento da produtividade aumente os salários. Em teoria, até poderiamos supor uma situação em que o aumento da produtividade do trabalho levasse a uma redução dos salários: havendo menos necessidade de mão-de-obra, o seu preço até poderia descer.

Podemos fazer uma analogia com o petróleo: apesar da actual alta, o preço real do petróleo continua inferior ao que era nos anos 70. Porquê? Por um lado, porque é tecnicamente possível extrair mais patróleo do que há umas décadas. Mas também é porque a economia actual consome relativamente menos petróleo que nesse tempo (consome-se mais petróleo em termos globais, mas menos petróleo por unidade de produto, i.e., hoje em dia, uma fábrica, para produzir, digamos, 100 cadeiras, usa menos petróleo - ou energia - que usava). Ou seja, a "produtividade do petróleo" aumentou, e isso contribuiu para a descida do seu preço.

Aliás, nos comentários, AA escreve que "numa economia espontânea, os salários não têm que ter relação proporcional ou (coisa que se pareça) com os lucros". Ora, a tese que os salários crescem com a produtividade tem implicito o pressuposto que a repartição relativa do produto entre "trabalho" e "capital" se mantém mais ou menos constante no tempo (se assim não fosse, o crescimento dos salários poderia ser muito diferente do crescimento da produtividade) - mas tal implicaria que (pelo menos a médio/longo prazo) os salários e os lucros evoluissem de forma mais ou menos proporcional.

"Os sindicatos dependem da associação quase-compulsiva dos seus membros, a quem impõem mafiosamente acções concertadas"

Tirando os bancários (aonde os sindicatos controlam o sistema de assistência médica), não vejo aonde é que a associação nos sindicatos é quase-compulsiva: ninguém é obrigado a sindicalizar-se; mesmo sindicalizados, ninguém é obrigado a fazer greve; e, caso um sindicato consiga obter benefícios da entidade patronal, todos os empregados (sindicalizados ou não, grevistas ou fura-greves) usufruem desses beneficios. Para "associação quase-compulsiva" não está mal. Mantendo a analogia "mafiosa", isso seria o equivalente a um padrinho que fornecesse "protecção" a todos os habitantes do bairro, mesmo ao que não pagassem por ela.

"É um imperativo social acabar com todos os seus privilégios."

O principal privilégio dos sindicatos é serem os únicos que podem declarar greve (bem, não são os únicos - há outras maneiras, mas mais complicadas, de proclamar greve). Eu até não veria com maus olhos um sistema em que qualquer trabalhador podesse entrar em greve se assim bem entendesse, sem estar dependente de burocratas sindicais, mas suponho que não seja isso que o AA preconiza.

Imagino (até por este comentário) que as objecções do AA ao sistema actual residam no facto de a) as empresas não poderem contratar trabalhadores para substituir grevistas; e b) as empresas não poderem despedir os trabalhadores só por estes fazerem greve. Mas, se for assim, quer dizer que a sua objecção não é aos "privilégios" dos sindicatos, mas aos "privilégios" dos trabalhadores. Afinal, suponho que, se cada trabalhador tivesse o direito de entrar em greve independentemente de sindicatos, o AA oporia-se à mesma a que ele tivesse os direitos/privilégios acima referidos.

Sindicatos, desemprego, etc.

Há uma semana, António Costa Amaral (AA) escreveu "Sindical-parasitismo" (assunto que também passou para o 19 meses depois).

O assunto já é velho de uma semana, e já deixei alguns comentários nos posts respectivos, mas agora venho abordar sobretudo a relação entre os sindicatos e desemprego.

AA argumenta que os sindicatos criam desemprego, já que ao fazerem com que o nível salarial seja mais elevado do que seria se não houvesse sindicatos, fazem também que seja "mais caro e arriscado empregar".

Se a única variável que os sindicatos podessem influenciar fosse o salário, isso seria logicamente correcto: ao aumentar o preço de um bem (neste caso, o trabalho, ou, mais exactamente, a capacidade de trabalho), isso iria reduzir a procura desse bem (bem, algumas excepções téoricas, mas acho que não se aplicam neste caso). Logo, quanto mais altos fossem os salários que os sindicatos conseguissem negociar com os empregadores, menos trabalhadores estes iriam querer contratar.

No entanto, há um factor que afecta esse raciocinio: é que os sindicatos tentam agir, não apenas sobre os salários, mas também sobre o tempo de trabalho (horários, férias, etc.), e a sua acção sobre o tempo de trabalho até pode aumentar o emprego.

Imagine-se uma empresa (ou sector de actividade) com 1.000 trabalhadores, trabalhando 40 horas por semana, com 5 semanas de férias por ano (ou seja, 1.880.000 horas de trabalho por ano).

Agora, vamos supor que o sindicato conseguia uma redução do horário de trabalho de 40 para 35 horas, sem redução de salário. Isso implicaria que, para a empresa, o custo-hora aumentasse 14,3%, já que o dinheiro que antes pagavam por 40 horas, têm agora que pagar por apenas 35. Como é óbvio, se a hora de trabalho ficou mais cara, a procura de horas de trabalho por parte das empresas vai diminuir. No nosso exemplo, vamos imaginar que a(s) empresa(s) chega(m) à concusão que, com o novo custo-hora, só faz sentido "comprar" 1.650.000 horas de trabalho. Quais vão ser as consequências disso em termos de emprego?

Antes, cada empregado trabalhava 1.880 horas/ano [40 horas/semana * (52 - 5) semanas]. Agora passa a trabalhar apenas 1.645 horas/ano. Logo, se a procura de trabalho passar de 1.880.000 horas/ano para 1.650.000 horas/ano, isso significa um aumento da mão-de-obra empregue de 1.000 para 1.003 trabalhadores. Ou seja, a acção dos sindicatos contribuiria para reduzir o desemprego.

Note-se que não é obrigatório que uma redução do tempo de trabalho reduza o desemprego (o efeito do aumento do custo-hora pode provocar uma redução tão grande na procura de trabalho que mais que anule o efeito de cada trabalhador passar a trabalhar menos horas), mas é possível que tenha essa consequência.

Já agora, há outra situação em que a acção dos sindicatos pode reduzir o desemprego, mesmo agindo apenas sobre os salários. A oferta de trabalho, por vezes, segue um padrão diferente do que acontece com outros produtos - em vez de uma redução de preço originar uma redução na oferta, acontece o oposto: como ganham menos, os trabalhadores passam a arranjar segundos empregos, a oferecer-se para fazer trabalho extraordinário, a pôr o filhos a trabalhar (ou, pelo menos, a fazer menos pressão para que estes continuem na escola), etc. Assim, os sindicatos, a fazerem com que os salários sejam mais elevados vão reduzir, é certo, a procura de trabalho, mas também podem estar a reduzir a oferta de trabalho, o que até pode levar a uma redução global do desemprego.

Nota: com "oferta de trabalho", refiro-me à oferta de trabalho pelos trabalhadores, e com "procura de trabalho" refiro-me à procura de trabalho pelas empresas (é que por vezes estes termos são usados ao contrário).

Nova música

Decidi mudar a música do blog. Agora é "Jail for Justice", de Anne Feeney:

Was it Cesar Chavez? Maybe it was Dorothy Day
Some will say Dr. King or Gandhi set them on their way
No matter who your mentors are it's pretty plain to see
That, if you've been to jail for justice, you're in good company

Have you been to jail for justice? I want to shake your hand
Cause sitting in and lyin' down are ways to take a stand
Have you sung a song for freedom? or marched that picket line?
Have you been to jail for justice? Oh, you're a friend of mine!

You law abiding citizens, come listen to this song
Laws were made by people, and people can be wrong
Once unions were against the law, but slavery was fine
Women were denied the vote and children worked the mine
The more you study history the less you can deny it
A rotten law stays on the books til folks like us defy it

The law's supposed to serve us, and so are the police
And when the system fails, it's up to us to speak our peace
It takes eternal vigilance for justice to prevail
So get courage from your convictions
Let them haul you off to jail!

(como é um ficheiro .mov não sei se se ouvirá em todos os computadores)

Thursday, June 08, 2006

Quem era al-Zarkawi?

Havia duas teorias acerca de al-Zarkawi: uma, de que era o lider da "insurgência" no Iraque; outra, de que era, quando muito, o líder de um grupusculo insignificante que não tinha nada a ver com a "resistência iraquiana".

Agora que ele foi eliminado, isso pode ser tirado a limpo: nos últimos tempos, estavam a morrer em combate cerca 2-3 soldados norte-americanos por dia no Iraque. Se os números baixarem nos próximos meses, podemos concluir que al-Zarkawi era realmente o comandante da "insurgência".

O que significa "socialismo"?

Recovering the Socialist Tradition, no Mutualist Blog (basta ler este)
The Myth of Socialism as Statism, no Porcupine Blog

Tuesday, June 06, 2006

A prisão domiciliária não bastará?

Será que, neste caso, fará sentido a pena de morte que os queixosos estão a exigir? Afinal, se o arguido ficar em prisão domiciliário para o resto da vida (como os seus tutores legais parecem concordar), não representará mais perigo para a sociedade. Quanto aos outros argumentos normalmente usados para justificar uma execução (dissuasão, dar um sinal que certos actos são moralmente errados, etc.) não se aplicam, já que a capacidade de raciocinio abstracto e o sentido moral dos possíveis prepertadores de ofensas similares é limitado.

Além disso, mesmo que o detido conseguisse, ocasionalmente, escapar de casa, duvido que tenha capacidade física para pôr em risco a vida (ou mesmo para infligir danos significativos à integridade física) de alguém (afinal, não estamos a falar de um acusado deste gênero).

Vento sueste

06.06.06

Será hoje o dia do apocalipse? (este post tinha ficado melhor se feito às 6 horas e 6 minutos)

Sunday, June 04, 2006

O aquecimento global

Parece haver uma discussão entre o Avesso do Avesso e o Insurgente sobre o aquecimento global (com umas questões paralelas à mistura).

A argumentação dos críticos do "Protocolo de Kyoto" costuma dividir-se em duas linhas: por um lado, negar que haja provas sólidas que o aquecimento global exista mesmo; por outro, afirmar que o aquecimento global pode ser determinado por outros motivos que não a acção humana (erupções vulcânicas, alterações na radiação solar, etc.) - já agora, espero que nenhum dos críticos use os dois argumentos ao mesmo tempo, porque eles não me parecem facilmente conciliáveis.

A respeito da tese que o acontecimento global pode não estar a acontecer, parece ser amplamente rejeitada pela comunidade cientifica. É verdade que a maioria do comunidade científica também achava que o Sol girava à volta da Terra, mas não deixa de ser suspeito que os cientistas que trabalham em universidades (que recebem o seu ordenado de qualquer maneira) acreditem maioritariamente que o aquecimento global existe, enquanto que os críticos são patrocinados por think-tanks (cujo rendimento está dependente de donativos empresariais). O facto de os "negacionistas" do aquecimento global recorrerem a tácticas como apresentar gráficos falsificados também não abona muito a seu favor.

Agora, e o outro argumento, a de que o aquecimento global pode não ter a sua origem na actividade humana? Bem, a mim parece-me que esse argumento é absolutamente IRRELEVANTE. Vamos fazer umas analogias.

Numa reserva de caça há um incêndio que mata bastantes animais. Assim, a administração da reserva decide limitar o número de animais que podem ser abatidos. Faz sentido rejeitar essa medida argumentando "a redução do número de animais não foi causada pela caça, mas sim pelo incêndio. Logo, não há razão para reduzir a caça"?

Uma seca prolongada reduz bastante as reservas de água. Face aos apelos para se poupar água, faz sentido responder "a escassez de água não foi provocada pelo consumo, mas sim pela seca. Logo, não há razão para reduzir o consumo"?

Uma pessoa sai à rua, de Inverno, com um pullover; no entanto, o dia está invulgarmente quente. Faz sentido essa pessoa não despir o pullover, argumentando "a causa principal deste calor é estar um dia invulgarmente soalheiro, não é do pullover"?

A mim parece-me que não. Ou seja, mesmo que uma alteração no ambiente (em sentido lato) não tenha origem na acção humana, isso não é razão para os humanos não alterarem o seu comportamento, se isso for necessário para responder à alteração ambiental.

Voltando ao aquecimento ambiental - se concluirmos que a Terra está, efectivamente, a aquecer (seja porque razão fôr) e sabendo que, ceteris paribus, quanto mais CO2 haver na atmosfera, mais elevada será a temperatura (é uma dedução lógica - o CO2 absorve mais o calor que outros gases atmosféricos, logo, quanto mais CO2 na atmosfera, menos o calor terrestre se dispersa no espaço sideral), isso implica que, se quisermos contrariar esse aquecimento, temos que reduzir a quantidade de CO2 (e, eventualmente, outros "gases de estufa") na atmosfera, e, portanto, a emissão de CO2 (ou, em alternativa, aumentar a absorção de CO2 pelas plantas). E isto mesmo que o aquecimento seja provocado por outros factores: afinal, se temos o aquecimento do carro ligado e começamos a sentir muito calor, reduzimos o calor do aquecimento, mesmo que a causa principal do calor seja a temperatura exterior.

Recusar a limitação das emissões de CO2 com o argumento que o aquecimento global pode ser determinado por outros factores que não a acção humana é a mesma coisa que andar em Agosto com a roupa de Janeiro, e argumentar "a causa principal do calor que estou a sentir não é a blusa de flanela, o pullover e a gabardina que vesti - é o facto de em Agosto fazer, naturalmente, muito calor".

[Já agora, o "aquecimento global" poderá ser um bom argumento contra o anarquismo - seja ele socialista ou capitalista; afinal, reduzir as emissões de gases de estufa é algo que exige uma coordenação de esforços e sensível ao problema do free-rider, logo talvez seja díficil de atingir na ausência de uma autoridade central com poder coercivo; no entanto, é capaz de haver algumas soluções para esse problema]

Anarco-Comunismo: Leitura recomendada

Ainda a respeito da questão de como uma economia anarco-comunista pode funcionar, sugiro a secção "I.4. How would an anarchist economy function?" do Anarchist FAQ (o FAQ aborda todas as variantes do anarquismo clássico - individualistas, mutualistas, colectivistas, sindicalistas, comunistas, etc. - mas com predominância do anarquismo comunista).

Nomeadamente para os mais entusiastas da Escola Económica Austríaca, sugiro também as secções "I.1.1 Didn't Ludwig von Mises' "calculation argument" prove that socialism can not work?" e "I.1.2 Does Mises' argument mean libertarian communism is impossible?".

Anarco-Comunismo (III)

Depois de vermos como se poderá fechar uma unidade de produção "inviável" num regime anarco-comunista, vamos ver o oposto: como criar uma nova unidade de produção?

Imaginemos, agora, que um membro (ou um grupo de membros) da federação quer criar um restaurante. Aí, ele pode apresentar a sua proposta (provavelemente com um orçamento de previsão de custos) à assembleia geral da federação para ver se é aprovada. No caso (repito, bastante provável) de a federação ser uma "federação de federações", ele poderá apresentar a sua proposta às assembleias das várias sub-federações (e, possivelmente, também à assembleia da "federação geral") até alguma a aprovar.

Refira-se, a respeito das sub-federações que estas podem ter várias bases: podem basear-se numa divisão geográfica, profissional ou, pura e simplesmente, em afinidades pessoais.

Saturday, June 03, 2006

Anarco-Comunismo (II)

Continuando com a minha exposição de como uma sociedade anarco-comunistas poderia funcionar (contra a opinião de Carlos Novais e Murray Rothbard que "economically, anarcho-communism is an absurdity"), vamos tentar ver como alguns aspectos típicos de uma economia moderna poderiam funcionar numa sociedade anarco-comunista.

P.ex., como se avaliaria o desempenho de uma "unidade de produção" e o que aconteceria se se achasse que não era satisfatório?

Imaginemos, p.ex., um restaurante. Num sistema anarco-comunista, o restaurante serviria as refeições de graça (pelo menos, aos membros da federação em que o restaurante estivesse integrado). No entanto, seria feita à mesma a "contabilidade" dos custos do restaurante (tendo a atenção as matérias-primas consumidas, os equipamentos utilizados, o número de trabalhadores, etc.) - da mesma forma que, dentro de uma empresa, também se faz a "contabilidade analítica" dos vários "centros de custo" da empresa.

Assim, se os membros da federação (ou da sub-federação de que o restaurante dependesse) achassem que o "custo" de manter esse restaurante não compensasse o beneficio que ele trazia à comunidade (esse beneficio não seria muito dificil de avaliar, já que os membros da federação são também os potenciais clientes) e que os recursos consumidos seriam melhor aproveitados para outros projectos, poderiam decidir "fechar" o restaurante (o que significa que os trabalhadores do restaurante, se não quiserem ser "transferidos de serviço", têm um bom incentivo para prestarem o melhor serviço e consumindo o mínimo de recursos).

Neste cenário, que alternativas teriam os trabalhadores do restaurante?

Uma hipótese será, pura e simplesmente, aceitarem o fecho do restaurante e mudarem de trabalho, possivelmente para outro "colectivo de trabalhadores" da federação.

Outra hipotese será uma separação do restaurante face à federação, passando a ser uma unidade autónoma; nessa situação, é possível que os trabalhadores do restaurante tivessem que pagar à federação parte do valor do equipamento do restaurante (p.ex., se o restaurante representar 0,2% dos bens controlados pela federação e os seus trabalhadores forem 0,1% dos membros da federação, talvez faça sentido que tenham que pagar o equivalente a metade do valor do restaurante). Claro que é um bocado problemático como é que os trabalhadores irão "pagar" à federação - que "moeda" usarão para isso? [o anarco-comunismo é muito vago acerca de como se processará o "comercio internacional" entre federações distintas]

Uma variante da hipotese anterior é o restaurante transferir-se para outra federação que o aceite (de novo, isso talvez implicasse que a nova federação pagasse alguma coisa à anterior).

Refira-se, já agora, que, nem a federação (quer a nova quer a velha) nem o "colectivo dos trabalhadores" do restaurante são "proprietários" do restaurante - num regime anarco-comunista (e na maior parte das outras versãos do socialismo anarquista) os "meios de produção" pertencem à "comunidade" no seu todo, e as "federações", "confederações", "associações", "colectivos", "sindicatos", etc. são considerados apenas "usufrutuários".

No caso (bastante provável) de a federação ser, ela própria, uma "federação de federações", temos mais um cenário possível - muito possivelmente, o restaurante não estará sob "tutela" da "federação-geral" mas de uma das sub-federações. Assim, se a sub-federação respectiva decidir encerrar o restaurante, os trabalhadores deste podem sempre procurar outra sub-federação que queira manter o restaurante a funcionar.

Finalmente, hásempre a possibilidade de, caso o fecho do restaurante seja bastante polémico, que a federação (ou a sub-federação) acabe por se dividir em duas, agrupando os elementos contra e a favor. Nesta situação será necessários dividir também os bens geridos pela federação e, em principio, o mais natural é que o restaurante fique sob a tutela na nova federação constituido pelos que se opunham ao seu fecho.

Dia Nacional do Gato

Re: Anarco-comunismo

Na Causa Liberal, Carlos Novais cita Murray Rothbard, no Libertarian Forum:

"Economically, anarcho-communism is an absurdity. The anarcho-communist seeks to abolish money, prices, and employment, and proposes to conduct a modern economy purely by the automatic registry of "needs" in some central data bank. No one who has the slightest understanding of economics can trifle with this theory for a single second.(...)

The fact that the abandonment of rationality and economics in behalf of "freedom" and whim will lead to the scrapping of modern production and civilization and return us to barbarism does not faze our anarcho-communists and other exponents of the new "counter-culture."

[Anarcho-Communism, Libertarian Forum, Janeiro 1970]

Em primeiro lugar, é preciso definir exactamente o que se quer dizer com "anarco-comunismo": literalmente, Rothbard está correcto quando diz que o anarco-comunismo pretende abolir o dinheiro e os preços. No entanto, não devemos confundir "anarco-comunismo" com "anarco-socialismo" (i.e., aquilo a que quase toda a gente chama, simplesmente, "anarquismo"): o socialismo anarquista tem várias correntes e, ao contrário dos anarco-comunistas, há outras (colectivistas, mutualistas, etc.) que defendem uma sociedade com dinheiro e preços.

Mas, falando especificamente do anarco-comunismo, como é suposto esse sistema funcionar? Provavelmente, cada autor anarquista dará uma descrição diferente de como a sociedade anarquista funcionaria (ou que não há um modelo pronto-a-vestir de como ela seria), mas a ideia geral do anarco-comunismo parece-me ser esta: temos vários grupos de produtores, que se associam ente si; os bens produzidos (ou parte deles) por cada grupo são postos à disposição da "federação", podendo ser utilizados/consumidos pelos "sócios" (os bens abundantes serão distribuidos pelo sistema do "sirvam-se à vontade"; os bens escassos - talvez todos - serão racionados entre e pelos interessados).

Se a opinião dominante na "federação" for que um grupo de produtores está a contribuir menos para a federação do que a receber, podem cortar os laços com esse grupo; inversamente, se um grupo achar que está a ser "explorado" pelos outros, pode sempre tornar-se independente (no fundo, é mais ou menos o que descrevi aqui)

Claro que a ausência de dinheiro e preços levanta (pelo menos) dois problemas:

a) Como verificar se um grupo está a contribuir de menos ou de mais para a "comunidade"? Como se compara as sardinhas e carapaus pescadas pelo "Colectivo dos trabalhadores da traineira Estrela do Mar" com os bens de produção consumidos pela traineira e mais os bem de consumo consumidos pelos pescadores sem ter um "equivalente universal", como o dinheiro?

b) Como é que os pescadores podem decidir, por exemplo, qual o melhor combustivel para utilizar se os diversos combustiveis não tiverem um "preço"? Como é que é possível ver qual a combinação mais eficiente de factores de produção sem preços?

No entanto, há uma solução para esse problema - é as federações estabelecerem uma espécie de "preços" (dentro de aspas, já que os produtos são distribuidos gratuitamente) para os vários produtos (tomando em atenção o seu custo de produção, eventuais externalidades negativas ou positivas, etc.) - o que aqui se chama "sistema de pontos". Se relembrarmos as clássicas "funções da moeda" (meio de pagamento, reserva de valor, unidade de valor), trata-se de criar uma espécie de substituto para a função "unidade de valor".

Poder-se-á perguntar como as federações conseguem estabelecer esses "pseudo-preços", mas devemos lembrar-nos que essas federações são organizações democráticas e voluntárias, logo, se alguêm ou um conjunto de alguêns (p.ex., o tal colectivo de pescadores) não concordar com o "pseudo-preço" atribuido ao quilo de cavala, tem duas opções: pode apresentar uma proposta na assembleia geral da federação para alterar esse "preço"; ou pode abandonar a federação (passando a funcionar isoladamente, juntando-se a outra federação, etc.).

Não sei é se o anarco-colectivismo, em que há mesmo preços (estabelecidos pelo mesmo sistema) e dinheiro a circular não será mais prático...

Tuesday, May 30, 2006

Será que há solução (II)?

Entretanto, ocorreu-me uma possível solução para o problema: ser como fazíamos no ISEG, em que os alunos inscreviam-se nas turmas depois dos horários estarem feitos - assim, os professores já não "escolheriam" os alunos (mas há muitos detalhes que teriam que ser bem pensados nesta ideia, especialmente tendo em atenção que o que funciona para jovens adultos pode não funcionar para crianças ou adolescentes).

Outra possivel solução seria deixar de haver aulas, os alunos passarem a funcionar em auto-gestão (com a bibilioteca da escola à disposição), e a única função dos professores fosse prestar esclarecimentos/tirar dúvidas aos alunos. A vantagem deste sistema é que não era preciso haver turmas: cada professor teria um horário para estar na escola, e cada aluno (ou grupo de alunos) poderia escolher o professor que quisesse para pedir algum esclarecimento, logo iriam ter com o professor que achassem mais competente a explicar o assunto em causa (a menos que este já tivesse uma longa fila de alunos para serem atendidos). Claro que isto teria um preço: não se poderia recorrer à avaliação continua num sistema destes (teria que ser baseada em testes e/ou discussões de trabalhos). E tem mais outra desvantagem: é que a maior parte das pessoas iria achar isso uma ideia completamente lunática (eu até me inclino para achar que seria o sistema de educação ideal, mas se calhar estou a delirar).

Será que há solução (I)?

Como disse, não sei se haverá solução para o problema de, nas escolas, os melhores professores ficarem com os melhores alunos e vice-versa.

Uma coisa tenho certeza - as soluções "liberais" para os problemas da educação não resolveriam este: imagine-se que implementavamos um sistema de "vouchers", em que as familias receberiam dinheiro para pôr os alunos na escola que bem entendessem. Vamos supor que algumas escolas (chamemos-lhe "escolas A") tinham a politica de entregar os melhores alunos aos melhores professores; outras (as "escolas B") faziam ao contrário: entregavam os piores alunos aos melhores professores.

Resultado previsivel: a nível da procura, os pais dos melhores alunos iam inscrever os filhos em "escolas A" e os dos piores em "escolas B" (ambos procurando que os filhos tivessem o melhor ensino possível); a nivel da oferta, é legitimo esperar que os melhores professores preferissem ensinar em "escolas A" (afinal, se actualmente preferem ensinar os melhores alunos, é natural que continuassem a preferir ensinar os melhores alunos). Conclusão: os melhores alunos e professores iriam para as "escolas A" e os piores alunos e professores para as "escolas B" - ou seja, o problema mantinha-se.

É possivel imaginar uma situação em que, devido aos melhores professores estarem nas "escolas A", até os pais do maus alunos os inscrevessem nelas (pensando "É melhor ser ensinado pelo pior dos melhores, do que pelo melhor dos piores"), mas isso iria dar ao mesmo - assim acabaria por só haver "escolas A" (as tais que põem os piores alunos com os piores professores).

E se, como é proposto nalguns modelos de "privatização" da escola, as escolas tiverem o "direito" de escolher os seus alunos, então, ainda pior - não seria mais que a institucionalização aberta do que hoje é feito pela calada.

A ministra tem razão

A ministra de Educação fez vários considerandos sobre o estado das escolas e, entre outras coisas, disse: "[os professores] não são orientados para os casos mais difíceis. Os melhores professores ficam com os melhores alunos e os docentes com pior estatuto na casa levam com as turmas mais difíceis".

Eu, com a minha experiencia de ex-estudante, ex-professor, filho de uma professora e amigo de vários professores, digo que a ministra tem razão neste ponto - nas escolas os professores tentam todos ficar com as "melhores turmas" e são os professores com mais "peso" na escola que conseguem ficar com elas.

Aliás, em tempos estava a falar com uma senhora que é esposa de um professor - ela estava a gabar o marido, a dizer que é muito exigente, que os alunos dele saem muito bem preparados, etc. e a dada altura disse " na turma dele, só quer os melhores alunos da escola!" (ao que alguém comentou "Ah, assim é fácil!").

Também em reuniões de professores não é raro, nas conversas informais, ouvirem-se comentários do género "espero para o ano ficar com aquela turma, que é uma turma muito jeitosinha..." (o que, no fundo, é natural - faz todo o sentido que os professores não queiram alunos/turmas díficeis).

Não sei é se há solução para este problema...

(nota: como se depreende, o meu título refere-se apenas a este aspecto - os outros são mais díficies de avaliar: p.ex., não faço a menor ideia se os professores valorizam mais os seus conhecimentos cientificos do que os resultados dos alunos, como também foi dito)

Monday, May 29, 2006

O massacre de Haditha

Alguns artigos sobre o massacre de Haditha:

U.S. braces for 'Iraq's My Lai'
Marines al-Haditha 'massacre' aftermath
Marines in Iraq 'massacre' may face the death penalty
What May Come of the Haditha Massacre?
Iraqis' Accounts Link Marines to the Mass Killing of Civilians
ABC News: New Witness Describes Alleged Iraq Atrocity
Iraqis numb to killings probe that shocks US
Remembering site of alleged Iraq massacre
War crimes: My Lai is a lesson from history
American Gangsterism

(fonte: Antiwar.com)

Ainda sobre o Estado Novo e o fascismo

Como eu disse no post anterior, há um contexto em que a questão "o Estado Novo era fascista?" se torna relevante.

Nos anos 30, houve uma grande polémica à esquerda (nomeadamente marxista) sobre o significado do fascismo - a posição oficial da Internacional Comunista era que "o fascismo é a ditadura aberta do burguesia" e aplicavam a palavra a qualquer ditadura de direita; outros pensadores (como Trotsky e Ernst Bloch) tinham uma tese menos simplista: para eles, o fascismo alimentava-se da revolta da classe média (provocada, em parte, pela crise económica), revolta esse que o "grande capital" conseguia canalizar contra a esquerda e a classe operária.

Essas diferentes interpretações levavam a diferentes estratégias anti-fascistas: a primeira, apresentando o fascismo, simplesmente, como a "ditadura da burguesia", conduziu à politica das "frentes populares" (i.e. alianças entre comunistas, socialistas e liberais) - se o fascismo era, apenas, a ala autoritária do burguesia, isso significava que, para o combater, o "proletariado" (i.e., a esquerda) devia, para já, fazer uma aliança com a "ala democrática do burguesia" (i.e., os Radicais franceses, os republicanos espanhóis, etc.).

Pelo contrário, a tese que dizia que o fascismo se alimentava da revolta da classe média, implicava um caminho oposto: se a classe média está revoltada contra o "sistema", a melhor maneira de combater o fascismo seria apresentar também uma posição anti-sistema para, assim, fazer-lhe directamente concorrência no seu "mercado" - a melhor forma de combater a extrema-direita seria pela extrema-esquerda.

O que é que isso tem a ver com a questão do Estado Novo ser ou não fascista? É que a tese do "Estado Novo fascista" é uma consequência directa da posição da Internacional Comunista: o salazarismo é o protótipo da ditadura elitista e conservadora (ao contrário da sintese conservadora/revolucionária de Mussolini e Hitler). Pelo contrário, de acordo com a teoria "trotskista" do fascismo, Salazar, definitivamente, não era fascista (ele não subiu ao poder baseado em nenhuma "classe média enraivecida").

Esta dicotomia continua a ter utilidade nos dias de hoje, nomeadamente sobre qual a melhor maneira de lidar com os movimentos de extrema-direita que surgem por aí - se os virmos como uma simples versão mais hard da direita tradicional (aliás, uma série de posts que eu escrevi sobre o fascismo há uns tempos talvez tenham se aproximado demais desse simplismo), a conclusão é que a "esquerda" tem que moderar o discurso, "que está a assustar as pessoas e a levá-las para a extrema-direita". Pelo contrário, se tomarmos em atenção que a extrema-direita, muitas vezes, tem uma componente populista e anti-sistema, isso quer dizer que a esquerda se diluir no "centrão" só lhes vai dar mais força (reforça a atitude "vamos votar Le Pen que os outros são todos iguais") e que a melhor maneira de os combater é, pelo contrário, apresentando propostas de ruptura pela esquerda.