Quem está mais à esquerda: Hillary Clinton ou Barak Obama? Com "mais à esquerda" leia-se, claro, "menos à direita", já os Democratas, em termos portugueses, devem corresponder para aí ao PSD (no entanto, ao longo deste post, irei usar a expressão "esquerda").
Por um lado, muita gente à direita parece considerar Hillary como uma "radical", tendo perante Obama uma atitude de "não é tão mau como a outra" ou pelo menos de "tem uma imagem menos radical".
Por outro lado, muita gente à esquerda parece apoiar Obama exactamente por achar Hillary demasiado "centrista" e conivente com as politicas de Bush.
Ou seja: afinal, quem é a "ala esquerda" e a "ala direita"?
Segundo o
projecto Voteview, será Obama -
Obama é o 11º senador mais à esquerda, sendo Hillary a 20º; já agora, John McCain,
considerado injustamente como um "moderado"/"traidor", é o 8º mais à direita (explicando de uma forma simplificada, o Voteview dispõe os congressistas num eixo unidimensional de acordo com os seus votos, usando um algoritmo matemático de maneira a que os congressistas que votam de forma mais parecida fiquem mais próximos no eixo).
Mas o que me parece é que na economia Hillary estará uns milímetros à esquerda de Obama (e economistas de esquerda, como
Krugman, que antes pareciam
tender para Edwards, agora estão do lado de Hillary), enquanto nas "outras questões" (nomeadamente a guerra do Iraque) Obama estará uns milímetros à esquerda de Hillary. Aliás, consta que
há muitos anos que a divisão nos Democratas tende a ser entre uma ala "liberal", mais preocupada com a politica externa e/ou as "questões fracturantes", e outra ala mais preocupada com questões socio-económicas.
E, efectivamente, parece que
as melhores votações de Obama foram entre os eleitores que consideram o Iraque o problema principal, e as de Hillary entre os mais preocupados com a economia ou o sistema de saúde.
Em suma, mais do que um estar à esquerda do outro, talvez possamos considerar que Obama é ligeiramente mais liberal/menos não-liberal (tanto em economia como em politica externa) do que Hillary (talvez por isso alguns "libertarians" o considerem
o menos mau dos principais candidatos ou mesmo como uma especie de
"left-libertarian").
O
esquema do "Electoral Compass" parece ir nesse sentido, sendo a Hillary mais "left-wing" e o Obama mais "social progressive". Já o
OnTheIssues parece ir em sentido contrário:
Hillary e
Obama aparecem iguais na economia, e Clinton à esquerda nos "social issues" (incluindo a defesa), mas essas classificações parecem-me suspeitas:
1) há uns meses, Hillary, agora classificada como "hard-core liberal", era classificada como "populist" (de esquerda na economia, de direita nos "social issues")
2) Na rubrica "Sair do Iraque" (tópico 17), Hillary aparece como mais radical que Obama (na verdade, Hillary até surge como mais radical que
Nader!), quanto tudo o que li acerca isso indica que Obama é mais a favor de sair depressa do Iraque que Hillary.
[E agora o que vou escrever daqui para a frente é pura especulação da minha parte]
Talvez seja por isso que Obama consegue recolher apoios tanto entre o sector mais activista do Partido Democrata (estilo
MoveOn.org, em principio a "ala esquerda" do partido), que, entre outras coisas, lhe dá
as vitórias nos caucus, como entre os eleitores independentes, supostamente "centristas":
No caso dos "activistas"Democratas, provavelmente eles não diferem significativamente de um "Democrata médio" em questões económicas, mas estarão muito mais à esquerda nas "outras questões" (nomeadamente na guerra do Iraque) - logo Obama terá bons resultados entre eles.
No caso dos independentes, é possível que muitos sejam "liberais sociais e conservadores fiscais", i.e., tolerantes nos costumes, seculares, pró-liberdades civis, não-militaristas, mas não adeptos de grandes despesismos públicos - logo, também preferirão Obama a Hillary (no entanto, conquistar eleitores independentes pode não ser tão bom como tudo isso -
no próximo post, escrevo sobre isso).
E talvez a
frente popular obamista que se vê na internet portuguesa seja também o reflexo disso: uma mistura de esquerdistas mais preocupados com o anti-imperialismo (e as "questões fracturantes" em geral) e de direitistas mais preocupados com questões económicas.
Já o apoio (que, a esta hora, já deve ter sido transferido para McCain), em Portugal, de uma certa direita mais ou menos militarista que o vê como o novo almirante do Ocidente sai desta grelha (afinal, a imagem de marca de Obama é a sua oposição à guerra do Iraque) mas também pode ser explicado - Obama (ao contrário de Kucinich, Gravel, Paul, Nader ou talvez mesmo Edwards) é só muito ligeiramente anti-guerra, logo é aceitável para esse sector; se essa direita for também moderada ou mesmo progressista em questões de "costumes", grande parte dos candidatos republicanos estão de fora; Hillary também é excluida pelas suas posições económicas; assim, sobra Obama, Giuliani e talvez McCain (como já repararam, estou a contar com os candidatos todos, mesmo os que desistiram). E se calhar nos oceanos onde navegam este sub-tipo de apoiantes de Obama também se encontra facilmente entusiastas de Giuliani e McCain, indiciando que se trata efectivamente de um ecossistema favorável a essas espécies.