A respeito da minha tese de que "[i]ndependentemente da opinião que tenhamos sobre o "direito de propriedade"(...) o "facto de propriedade" só existe, ou pelo reconhecimento mútuo da comunidade, ou por ser garantido por um poder supremo", RBR responde: "um Robinson Crusoe, sozinho numa ilha, apropriando e transformando recursos naturais e obviamente exercendo sobre eles controlo exclusivo. Será que o seu controlo exclusivo necessita de reconhecimento por um «poder supremo»? É evidente que não"
Vamos por outra questão - nessa ilha haverá coisas que foram transformadas/apropriadas por Robinson Crosué (e, portanto, serão sua "legitima" propriedade); haverá outras que ele (ainda) não utilizou e que, portanto, permanecem sem dono. Agoro pergunto eu - qual é a diferença entre os pertences de Crosué e as coisas que não pertencem a ninguém? Parece-me que absolutamente nenhuma - Crosué é livre de utilizar ambas em qualquer situação, se lhe apetecer, e sem ter que pedir autorização a ninguém. A diferença entre a "propriedade de Crosué" e a "não-propriedade" só seria relevante se aparecesse outra habitante na ilha (aí, ele seria livre de utilizar a "não-propriedade", mas não a "propriedade de Crosué").
Onde eu quero chegar com isso? Que o conceitos de "direitos de propriedade" só faz sentido quando é necessário arbitrar o uso de recursos escassos entre vários indivíduos; assim, usar como exemplo de direitos de propriedade a existirem sem reconhecimento social uma situação em que há apenas um individuo não é muito relevante.
Noutras palavras - a questão "o que é e o que não é propriedade de Robison Crosué" só passa a ter alguma importância prática quando aparece outra pessoa na ilha (vamos chamar-lhe Sexta-feira); e, a partir do momento em que há também um Sexta-feira, os direitos de propriedade de Crosué estão (mais ou menos) dependentes que o Sexta-feira concorde com eles (vamos imaginar que há uma única fonte de agua potável na ilha, e como Crosué já lá foi buscar água, ele, à luz da doutrina do homesteading, considera-se o dono da fonte e acha que Sexta-feira só pode lá ir buscar água com a sua autorização; será que Sexta-feira concordará? e, se ele não concordar, que valor tem a "propriedade" de Crosué sobre a fonte?).
Tuesday, June 01, 2010
A propriedade e o reconhecimento social
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Miguel Madeira
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Ainda a ética argumentativa (III)
RBR:
A teoria mutualista não é defensível, porque não é universalizável. O problema começa no que se considera uso. E se o uso exige acção – como podemos assumir – esta teoria aplicada ao corpo humano justificaria que uma mulher que estivesse a dormir (e logo, inactiva) fosse abusada sexualmente e morta por um homem, sem nenhuma violação ética da parte do homem. Afinal, a mulher não estava a usar o seu corpo e o homem apenas se apropriou momentaneamente do recurso não-usado.O que eu escrevi «segundo [a teoria Proudhom/Tucker/Carson] os recursos naturais devem ser propriedade (ou um nome parecido) de quem os "ocupa e usa" actualmente (em vez de do ocupante original ou a quem este tenha transferido a propriedade) - a regra de "a terra a quem a trabalha, a mina aos mineiros". Aplicando este raciocínio à propriedade de si mesmo, significaria que eu apenas poderia possuir o meu corpo enquanto eu habitasse o meu corpo, e que a propriedade absentista de corpos alheios seria considerada não-válida»; a mim parece-me que mesmo a dormir a mulher em questão está a "ocupar" o seu corpo (tal como, quando daqui a uns minutos eu for dormir, vou continuar a ocupar a minha casa).
A teoria georgista não está bem aplicada à propriedade no próprio corpo. Porque o facto de todos termos igual direito a todos os recursos quer dizer que eu sou dono de uma parte de todos os corpos do mundo e vice versa. Ou seja: todos temos propriedade em todos os corpos.Parece-me que, à partida, a teoria georgista é tão compatível com cada pessoa possuir 1/6.800.000.000 de cada corpo como com cada pessoa possuir 100% de apenas um corpo.
A teoria comunal ou free-for-all é igualmente indefensável. Porque defendê-la exige a sua negação: isto é, exige que quem argumenta exclua outros de usar o corpo para o mesmo (ou outro) propósito no decurso dessa acção. Ou seja: implica que quem argumenta estabeleça propriedade sobre o próprio corpo.A teoria comunal NÃO É a teoria free-for-all (a menos que com "comunal" o RBR pretenda dizer algo diferente do que eu pretendo) - num bem comunal (como eu entendo a palavra), em principio eu não posso usá-lo sem autorização do proprietário (a comunidade); no caso de free-for-all, qualquer pessoa pode usá-lo a qualquer momento sem pedir autorização a ninguém.
No exemplo em causa, quer dizer que as minhas cordas vocais (ou, já agora, os meus dedos, que são provavelmente a minha principal ferramenta argumentativa) podem ser usadas por qualquer pessoa sem pedir autorização a ninguém; ou seja - eu posso usar as minhas cordas vocais e dedos sem ter que pedir a ninguém (os outros também poderão tentar, se o conseguirem...).
Diga-se que, em termo de direitos pessoais, a regra do free-for-all, parecendo que não, produz resultados muito parecidos com o de "cada individuo é proprietário de si mesmo"; em teoria, parecem o oposto - a regra de que cada um é o seu proprietário implica que ninguém pode usar de violência contra outrem salvo em defesa própria ou de terceiros; a regra do free-for-all implicaria que qualquer um poderia usar violência contra qualquer outro; mas, se cada um pode usar violência contra quem lhe apetecer, também pode entrar em acordos (formais ou informais) do género "eu não te agrido e tu não me agrides " (ou "eu não te agrido e tu não agrides ninguém que eu ache digno de protecção"). Na prática o resultado é o mesmo - uma sociedade em que a regra é "se agredires alguém, estás sujeito à retaliação; se te agredirem, tens o direito a retaliar". A primeira diz que eu tenho o direito natural a não ser agredido (e a usar a força contra quem me agrida), a segundo que eu teria o direito natural(?) a agredir qualquer pessoa (e a estabelecer pactos de amizade e/ou não-agressão com outros), mas o resultado prática parece-me quase idêntico.
No que diz respeito à propriedade de bens extra-corporais é que as conclusão são bastante diferentes - enquanto a primeira abordagem considerará que existe um direito natural à propriedade, a segundo considerará que os direitos de propriedade são um resultado dos tais "pactos de não-agressão" ("eu não mexo nessa videira que tu plantaste, e tu não mexes neste terreno onde eu crio galinhas"), o que quer dizer que podem ser revogados (se não a qualquer momento, pelo menos por cada geração - afinal, estão periodicamente a entrar novas pessoas na sociedade, que não têm que estar sujeitas a pactos que elas não subscreveram).
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Ainda a "ética argumentativa" (II)
A respeito de os filhos não serem propriedade dos pais, Carlos Novais escreve que "Os filhos não são propriedade dos pais porque eles próprios são seres humanos com a capacidade de uso da razão e da argumentação".
Mas isso não deitará por terra todo o argumento de tentar deduzir os direitos de propriedade em geral a partir do direito de propriedade sobre si mesmo? Afinal, a partir do momento em que se admite que a propriedade de sí próprio é uma propriedade "especial", com regras diferentes da propriedade "normal" (estilo - eu posso vender o meu videogravador, mas não me posso vender a mim; os meus pais são proprietários do dinheiro que ganharam com o seu trabalho, mas não são proprietários dos 3 seres humanos que produziram, etc.), isso não significa que então também é perfeitamente possivel aceitar que os indivíduos podem ser proprietários do seu corpo e continuar a achar ilegítimas outras formas de propriedade?
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Ainda a "ética argumentativa"
[Respondendo ao Rui Botelho Rodrigues e ao Carlos Novais]
"Primeiro, esse computador, não sendo seu, é certamente de alguém. Esse alguém certamente lhe cedeu (de uma forma ou outra) o seu uso, e logo – tal como uma pessoa que arrenda uma casa – o Miguel tem controlo exclusivo sobre o recurso no decorrer da argumentação. Mas mais importante: não será seu o corpo que usa para argumentar? Não será necessário que o Miguel tenha controlo sobre o próprio corpo para produzir um argumento?."
"Defender esta norma por argumentação exige que quem argumenta exerça controlo total, não-momentâneo, sobre o seu corpo, já que a sua existência depende da não-apropriação por parte de outros do corpo que argumenta quando não está a argumentar" (RBR)
Mas mantém-se que Argumentar com o seu próprio corpo implica controlo absoluto sobre o seu corpo senão não existe Argumento (CN)Não necessito de ter controlo total e/ou permanente do meu corpo para poder argumentar (e repito que o próprio facto de nós estarmos aqui a argumentar prova isso).
Primeiro, esse computador, não sendo seu, é certamente de alguém. Esse alguém certamente lhe cedeu (de uma forma ou outra) o seu uso, e logo – tal como uma pessoa que arrenda uma casa – o Miguel tem controlo exclusivo sobre o recurso no decorrer da argumentação.Mas não tenho poder absoluto e permanente sobre esse computador (tal como um escravo cujo dono lhe diga "Desde que cumpras a tua quota de produção e não te danifiques, podes fazer o que quiseres nas tuas horas vagas" não tem controlo absoluto sob o seu corpo).
Esse é o que chamo argumento da constatação da força. Por esse argumento poderíamos dizer que os escravos não tinham direitos naturais porque se constata que já existiam proprietários e não têm a força ou capacidade para o contrariar. (CN)Bem, se o argumento contra a escravatura fosse "a escravatura vai contra a lei natural porque alguém não consegue fazer determinada coisa se for escravo", o facto que, no mundo real, os escravos podem fazer isso deitaria abaixo o argumento.
O que eu me parece é que na "ética argumentativa" há uma certa confusão entre os conceitos de propriedade e de posse.
Se o argumento é que para argumentar eu preciso de deter a posse, isto é, o controlo físico, do meu corpo, isso é verdade, mas não é lá muito relevante: afinal, penso que nenhuma ideologia à face da terra pretende abolir o conceito de posse (imagino que até na Coreia do Norte as pessoas tenham as "suas" casas, os "seus" instrumentos de trabalhos, etc., mesmo que não sejam os seus proprietários).
Mas se o argumento for de que para argumentar é necessário ter a propriedade do próprio corpo (isto é, o direito absoluto, permanente, irrevogável e eventualmente transferível de decidir o que fazer - ou o que não fazer - com esse corpo), penso que a simples observação do mundo real demonstra que isso não é necessário para a argumentação.
A menos que enfraqueçamos um pouco a definição de "propriedade", no sentido de considerarmos qualquer direito especifico de um individuo sobre um dado bem como uma forma de "propriedade" (p.ex., um inquilino - privado ou de um bairro social - terá uma espécie de propriedade sobre a "sua" casa), mesmo que limitada ou transitória; mas, se for assim, então qualquer sistema socio-económico respeita a "propriedade" (de novo, imagino que na Coreia do Norte as pessoas tenham a "sua" casa, ou pelo menos o "seu" quarto), logo isso deixa de servir como um argumento a favor do anarco-capitalismo (já que, de acordo com essa definição alargada de propriedade, quase todas as sociedades existentes reconhecem a propriedade, com maiores ou menores limitações).
Pondo a coisa de outra maneira - a tese que "Para poder argumentar eu preciso de ter a [X] do meu corpo, e o respeito pela [X] implica o anarco-capitalismo como o sistema mais de acordo com o direito natural" só faz sentido se o significado de "X" mudar a meio da frase (uma variante do que alguém - suponho que um ancap - chamou a "falácia da sandes de fiambre") - se "X" significar algo como "controlo absoluto e permanente", a primeira parte é falsa; se "X" significar apenas "algum controlo, mesmo que temporário e/ou sujeito a limites por um poder superior, incluindo a revogação", então a segunda parte será falsa.
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Monday, May 31, 2010
Ainda sobre Dennis Hopper
Há primeira vista, muitos dos filmes que Hopper interpretou parecem em contradição com as suas posições politicas na vida real.
No entanto, há um forte caso a favor de, nomeadamente, Easy Rider, ser um filme conservador (contra a opinião de muitos conservadores americanos...)- ver, p.ex., They Blew It: The Secret of "Easy Rider", ou esta passagem de Bill Kauffman:
I don't really have to convince you that Easy Rider is a reactionary picture, do I? The only characters that are depicted as unqualifiably virtuous are the homesteading family, living on their own acreage, raising their own food, teaching their own young... The only American Dream worth the snores is based in liberty and a community- (or family-) oriented independence, which the filmakers associate with the country's founders. Dennis Hopper (an admittedly unorthodox Kansas Reoublican) and Peter Fonda (a gun-loving libertarian) did not make a movie glorifying tripping hippies and condemning the southern gun culture; rather, as an exasperated Fonda explained, "My movie is about the lack of freedom. My heroes are not right, they're wrong. Liberty's become a whore, and we're all taking the easy ride."E, já agora, mais este texto - Dennis Hopper, the reactionary radical, por Daniel McCarthy (um "paleoconservador" norte-americano).
I go on about what I am sure is now a ludicrously unfashionable movie because Easy Rider was groping toward a truth that might have set America free. The hippies and the small-town southerners gathered in the diner; the small farmers and the shaggy communards: they were on the same side. The side of liberty, of locally based community, of independence from the war machine, the welfare state, the bureaucratic prison whose wardens were McNamara, Rockefeller, Bundy, and the wise men and wealthy men who had never grasped Paul Goodman's point─or perhaps they had grasped it all too well, and wrestled it into submission─that "[i]t is only the anarchists who are really conservative, for they want to conserve sun and space, animal nature, primary community, experimenting inquiry.
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Sunday, May 30, 2010
Sunday, May 23, 2010
Krugman, o "libertarianism" e os derrames de petróleo (II)
Em resposta às criticas que lhe foram feitas a propósito deste artigo, Krugman responde:
I pointed out that the libertarian alternative to regulation — just use tort law to make people pay for the damage they cause — doesn’t work in practice, because when push comes to shove politicians will shield the rich and powerful from paying the real cost. Commenters say, but isn’t that an equally strong reason to believe that regulation won’t work either?Nesta resposta, Krugman parece-me estar a usar um double standard para avaliar dos méritos da regulação vs. indemnização - para considerar a solução "regulação" como boa, basta-lhe estar ter reduzido a poluição; mas como a solução "indemnização" não resolve completamente os problemas causados pela poluição, é má . Mas também se podia fazer o raciocínio exactamente inverso - afinal, o sistema de indemnizações também reduz bastante os problemas de poluição (se a BP e a Exxon não tivessem que pagar indemnizações de certeza que haveria muitos mais derrames de petróleo do que há); e o sistema de regulação também não resolve completamente os problemas (afinal, continua a haver poluição).
Well, here’s the thing: regulation demonstrably does work where tort law doesn’t. Consider the environmental issue: in reality, the perpetrators of oil spills never pay most of the cost; but in reality, environmental regulation has led to much cleaner air and water. (Look up the history of Los Angeles smog or the fate of Lake Erie if you don’t believe me.)
So why does regulation work? If polluters can buy off the system ex post, after a disaster, why don’t they manage to totally corrupt regulation ex ante? There’s a lot to say about that, and I’m sure there’s a literature I haven’t read.A impressão que me dá é que Krugman está a dizer que não sabe bem porque é que a regulação funciona (um resposta simples seria a de que talvez não funcione melhor que o sistema alternativo, apenas parecendo melhor devido ao tal double standard que o economista adoptou) .
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Wednesday, May 19, 2010
Re: Rothbard e os derrames de petróleo
Considerar o texto de Rothbard à luz da sua defesa de uma prática jurídica de indemnizações/negociação com base no direito civil / direitos de propriedade, como por exemplo, uma fábrica emitir poluição sobre uma Vila, e tendo por base o princípio do "homesteading" da qualidade do ar, etc.
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Etiquetas: Textos de Carlos Novais
Tuesday, May 18, 2010
Sugestões de leitura
Freedom of speech must be defended, even for homophobes, no Harry's Place:
The Crown Prosecution Service (CPS) has dropped all charges against homophobic Christian street preacher, Dale McAlpine, shortly after gay rights campaigner Peter Tatchell offered to testify in defence of his right to free speech. (...)The Gifted Underachiever - Marching to a Different Drummer?:
“Although I disagree with Dale McAlpine and support protests against his homophobic views, he should not have been arrested and charged. Criminalisation is a step too far." (...)“Nearly everyone holds opinions that someone else might find offensive. If offending others is accepted as a basis for prosecution, most of the population of the UK would end up in court. (...)", said Mr Tatchell.
My concern is with the common perception of underachievement when it occurs in a gifted population as a problem, a pathology, a situation to be altered. The literature does not address in any depth just WHY underachievement is perceived of as a problem. Phrases such as "not working to potential", "not fulfilling ones responsibility to society", or "wasting a life" abound, without specifying just what is meant by those phrases or without demonstrating how the import of the statements is applicable to the student or students so labeled. (...)From Two States to One, por Ran HaCoehen, no AntiWar.com:
It has been my experience that these students are not particularly concerned about their underachievement except for the fact that it may make their parents and other significant people unhappy. They are concerned about their choices in life, their need to explore a variety of options regarding their lives and their ability to reconcile their current life experience with their perceptions of the future. They appear to have a strong need to determine their own futures. (...)
Different drummers produce different music. Marching to a different drummer may produce a different, more interesting, more exciting, more integrated person when that person is given the opportunity to complete the march
Critical Israelis – the last of the Mohicans – know that there are two Jewish states in the Land of Israel: the state of Israel, and the Occupied Territories. The former is rather democratic, the latter is a dictatorship. The former is ruled by a government and police who impose law and order, the latter is a Wild East ruled by the military and terrorized by settlers. A crime on this side of the Green Line is a patriotic deed beyond it. (...)
But the right-wing Israeli governments – and all Israeli governments are right-wing or worse – have never liked this way of looking at things, symbolized by the Green Line. The Green Line makes the wrong impression: someone might err to think that the territory beyond it isn’t ours. So Israel, the older Jewish state, has been doing its best to erase the line.(...)
But what is happening now is that the two Jewish states are turning into one not in the predicted way.
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Saturday, May 15, 2010
Rothbard e os derrames de petróleo
A respeito do Exxon Valdez, Murray Rothbard escreveu Why Not Feel Sorry for Exxon?
To say that the oil spill has been blown up to hysterical dimensions is a grave understatement. Hysteria abounds everywhere, and everywhere the term "disaster" is freely used. Even Pat Buchanan, who of all the media commentators I thought would be most resistant to the wiles of environmentalism, used that term. (...)
Who suffered the loss of the oil spill? None other than the Exxon Corporation, which lost ten million gallons of crude oil; in addition to the $5 million this loss represents, Exxon will be forced to pay cleanup costs, as well as compensation to the economic losses incurred by the fishing industry in Alaska. And so the only loser is Exxon, suffering from the negligence of its allegedly drunken sea captain. So is everyone feeling sorry for Exxon, as I do? Hell no; to the contrary, Exxon has been reviled every day by virtually everyone in the media and in public life. Contrary to government when it commits an accident or similar "externality," Exxon, as a private corporation, must pay the costs it inflicts on others.Não é correcto considerar a Exxon como o único prejudicado pelo acidente - como o acidente do Exxon Valdez destruiu recursos mais valiosos do que as indemnizações que ela pagou, quer dizer que provocou prejuízos a terceiros; mas, qual é a minha base para dizer que os prejuzizos foram maiores que a comnpensação paga? Simpes - preferência revelada: se, como Rothbard escreve, havia uma grande indignação contra a Exxon, isso quer dizer que a maior parte das pessoas valorizava mais o ambiente natural do Alasca do que a indemnização que a companhia teve que pagar (se não fosse assim, muita gente iria "feel sorry for Exxon").
Note the difference between the berserker reaction to the Valdez oil spill, and the response to the last great oil spill in 1978, off the French coast, when the Amoco Cadiz let loose no less than 60 million gallons of crude oil into the Atlantic – the worst oil spill in history. There was no hysteria, no screaming headlines, no bellyaching on television. The courts quietly forced Amoco to pay $115 million to compensate for costs of the accident, and that was that. The reactions were different because, in the meantime, the virus of environmentalism has deeply infected our culture. Arguing on the basis of private firms paying the costs of liabilities they impose upon others is all very well, but, as we see in the smears against Exxon, it is not enough.No fundo, isso apenas quer dizer que, devido à influência do ambientalismo (da mesma forma que montes de mudanças culturais alteraram o valor que damos a determinadas coisas), as pessoas passaram a valorizar mais "a Natureza", logo (aplicando a tal "Teoria Subjectiva do Valor" que imagino Rothbard fosse fã...) a Natureza passou a ser mais valiosa, logo há umas décadas a "opinião pública" contentaria-se com uma dada indemnização e actualmente, mesmo com a indemnização, considera que a empresa continua "em dívida". Bem, e depois? Como eu digo, isso pode ser visto como simplesmente uma alteração de preferências dos consumidores (é verdade que influenciada pela publicidade ambientalista, mas há tantas preferências influenciadas pela publicidade...)
Resumindo, poderemos considerar que (pelo menos do ponto de vista de quem considere o gosto pela natureza como uma simples preferência subjectiva) a indignação generalizada contra desastres ambientais (ou, pelo menos, contra desastres ambientais afectando bens do propriedade pública) é sempre justificada (justifica-se a sí própria!) - se o público (no fundo, o "proprietário" dos bens danificados) está indignado, quer dizer que valoriza/valorizava bastante esses bens, logo que dizer que o prejuízo causado é elevado; e, se , mesmo após o pagamento dos danos, a indignação continua, isso quer dizer que o pagamento não compensou os danos (afinal, se a indignação continua, isso quer dizer que a maior parte das pessoas continuariam a preferir a situação "ausência de acidente" à situação "acidente + indemnização paga", o que significa que acham que os prejuízos - incluindo o prejuizo psicológico provocado, digamos, pela morte dos patos - foram maiores que a indemnização).
É claro que se poderá contra-argumentar que, então, uma ausência de indignação contra um desastre ambiental também será sempre justificada, seguindo exactamente o mesmo raciocínio; mas não é o caso, porque normalmente os ambientalistas não consideram a preservação da natureza como uma simples preferência subjectiva, logo um ambientalista pode achar que uma dada destruição ambiental é gravíssima mesmo que ninguém mais se preocupe com isso; e, já agora, em certos casos um ambientalista pode não se preocupar minimamente com uma situação que a opinião pública ache uma "tragédia ambiental" (esses casos devem ser bastante raros, mas ocorre-me um: a caça à baleia nas Ilhas Feróe - circulam pelo mundo e-mails indignados sobre essa caçada anual - suspeito que em parte por uma razão estética, já que as baleias são reunidas numa baía antes de serem mortas, e portanto o mar fica vermelho de sangue - mas muitas organizações ambientalistas não vêm problema nenhum nessa caçada, já que é uma espécie que não corre risco de extinção).
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Krugman, o "libertarianism" e os derrames de petróleo
Paul Krugman escreve Why Libertarianism Doesn’t Work, Part N
Se há coisa que eu estou longe de ser é um "libertarian" à americana (ao contrário de um libertário à europeia), mas este argumento de Krugman não faz sentido nenhum: basicamente, ele está a dizer que a solução "libertarian" não funciona porque... o Estado (através de uma lei) limita a responsabilidade das companhias petrolíferas???Thinking about BP and the Gulf: in this old interview, Milton Friedman says that there’s no need for product safety regulation, because corporations know that if they do harm they’ll be sued.
Interviewer: So tort law takes care of a lot of this ..Meanwhile, in the real world:
Friedman: Absolutely, absolutely.
In the wake of last month’s catastrophic Gulf Coast oil spill, Sen. Lisa Murkowski blocked a bill that would have raised the maximum liability for oil companies after a spill from a paltry $75 million to $10 billion. The Republican lawmaker said the bill, introduced by Sen. Robert Menendez (D-NJ), would have unfairly hurt smaller oil companies by raising the costs of oil production. The legislation is “not where we need to be right now” she said.And don’t say that we just need better politicians. If libertarianism requires incorruptible politicians to work, it’s not serious.
Quanto há conversa que "don’t say that we just need better politicians. If libertarianism requires incorruptible politicians to work, it’s not serious", recordo o que Krugman escreveu na sua coluna bi-semanal no NYT:
Yet there is a common thread running through Katrina and the gulf spill — namely, the collapse in government competence and effectiveness that took place during the Bush years. (...)Não poderíamos então dizer ""don’t say that we just need better politicians. If Krugmanism requires incorruptible politicians to work, it’s not serious""? Afinal, se a solução liberal de a protecção ambiental ser feita não por regulamentos mas por processos em tribunal sobre danos causados não funciona porque os políticos ao serviços dos interesses empresariais vão fazer leis limitando a responsabilidade das empresas, então a solução estatista de combater a poluição com regulamentos também não vai funcionar, EXACTAMENTE pela mesma razão (são também esses políticos que vão fazer esses regulamentos e, directa ou indirectamente, zelar pela sua aplicação).
For the Bush administration was, to a large degree, run by and for the extractive industries — and I’m not just talking about Dick Cheney’s energy task force. Crucially, management of Interior was turned over to lobbyists, most notably J. Steven Griles, a coal-industry lobbyist who became deputy secretary and effectively ran the department. (In 2007 Mr. Griles pleaded guilty to lying to Congress about his ties to Jack Abramoff.)
Given this history, it’s not surprising that the Minerals Management Service became subservient to the oil industry — although what actually happened is almost too lurid to believe. According to reports by Interior’s inspector general, abuses at the agency went beyond undue influence: there was “a culture of substance abuse and promiscuity” — cocaine, sexual relationships with industry representatives, and more. Protecting the environment was presumably the last thing on these government employees’ minds. (...)
Yet antigovernment ideology remains all too prevalent, despite the havoc it has wrought. In fact, it has been making a comeback with the rise of the Tea Party movement. If there’s any silver lining to the disaster in the gulf, it is that it may serve as a wake-up call, a reminder that we need politicians who believe in good government, because there are some jobs only the government can do.
Para uma opinião mais interessante e logicamente coerente sobre esse assunto (embora referindo-se a um caso específico diferente - um acidente numa mina), Corporate Welfare Queen Kills 25, por Kevin Carson.
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Friday, May 14, 2010
Os alegados abusos numa famíia de Vila do Conde
Surgem notícias indicando que essa história pode não corresponder à verdade. Mas, independentemente de ser verdade ou não, o ponto que quero levantar é outro. É que ainda antes de se terem feito investigações sobre o caso (para confirmar ou não as alegações), foram reveladas informações sobre os pais acusados que tornaram a sua identidade, para todos os efeitos, pública (sinceramente, não me lembro se algum jornal chegou mesmo a divulgar os seus nomes, mas a riqueza de pormenores sobre as suas vidas é tanta que, suponho, seja facílimo identifica-los).
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Thursday, May 13, 2010
A colição Conservadores-LibDems - a normalização do sistema partidário britânico?
A nova coligação em Londres pelos padrões europeus não teria nada de especial - no resto da Europa é mais ou menos assumido que, por "default", os conservadores(/democratas-cristãos/gaullistas) e os liberais coligam-se se puderem, e só procuram outros aliados se haver alguma razão específica para essa coligação não funcionar.
A situação britânica, em que (até anteontem) era mais ou menos assumido que os partidos Trabalhista e Liberal seriam aliados naturais é que era um anacronismo histórica: na maior parte do mundo, a colaboração entre socialistas e liberais contra os conservadores (e/ou forças mais à direita) foi um fenómeno do final do século XIX/principio do século XX (tendo talvez o último extertor nas Frentes Populares dos anos 30), não do principio do século XXI (um exemplo - o Partido Radical francês, de aliado de socialistas e comunistas na Frente Popular a facção organizada dentro da UMP sarkozysta).
Pode ser argumentado que os Liberais Democratas e os Conservadores britânicos não são exactamente o equivalente aos liberais e democratas-cristãos continentais - se em matéria de "costumes" e liberdades civis as posições são semelhantes de ambos os lados do Canal da Mancha, já não é o mesmo na economia: enquanto os liberais continentais continuam "liberais económicos", os liberais britânicos tornaram-se uma espécie de versão moderada da social-democracia; e enquanto (pelo menos até pouco tempo) os democratas-cristãos permanecerem fiéis à "Doutrina Social da Igreja" e à "economia social de mercado" (ou os gaullistas franceses a ataques periódicos de nacionalismo económico), os Tories nas últimas décadas abandonaram a suas tradições proteccionistas e paternalistas por um liberalismo económico radical. Mas essas diferenças não serão mais consequência do que causa dos diferentes alinhamentos partidários?
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Wednesday, May 12, 2010
Se os extra-terrestres chegassem à terra
Jared Diamond (citado por Razib Khan):
…I find it mind-boggling that the astronomers now eager to spend a hundred million dollars on the search for extraterrestrial life never thought seriously about the most obvious question: what would happen if we found it, or if it found us. The astronomers tacitly assume that we and the little green monsters would welcome each other and settle down to fascinating conversations. Here again, our own experience on Earth offers useful guidance. We’ve already discovered two species that are very itnelligent but less technically advanced than we are-the common chimpanzee and pygmy chimpanzee. Has our response been to sit down and try to communicate with them? Of course not. Instead we shoot them, dissect them, cut off their hands for trophies, put them on exhibit in cages, inject them with AIDS virus as a medical experiment, and estroy or take over their habitats. That response was predictable, because human explorers who discvered technically less advanced humans also regularly responded by shooting them, decimating their popualtiosn with new diseases, and destroything or taking over their habitats.
Any advanced extraterrestrials who discovered us would surely treat us in the same way….
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Monday, May 10, 2010
Irá a viagem do Papa ser travada pelos deuses nórdicos?
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Chavez elogia antigo ditador militar ("de direita") venezuelano
La.clase :
El 25 de abril, el Presidente Chávez dio rienda suelta a los elogios al dictador fascista Marco Pérez Jiménez, ante la estupefacción de aquellos que han creído en la pretendida posición socialista del gobierno nacional. "Yo creo que el general Pérez Jiménez fue el mejor presidente que tuvo Venezuela en mucho tiempo, fue mejor que Rómulo Betancourt, mejor que toditos ellos. ¡Ah, lo odiaban porque era militar! Yo fui a visitarlo allá en Madrid... seguro que ahorita van a atacarme... digan de mí lo que les dé la gana... a Dios lo que es de Dios y al César lo que es del César".
Chávez enumeró algunas obras realizadas por la dictadura y dijo que de no haber sido por Pérez Jiménez no se habrían construído. Asimismo, elogió un proyecto de la dictadura de construir un ferrocarril para transportar carbón de Perijá hacia Guayana.
Perez Jimenez foi ditador da Venezuela de 1952 a 1958, tendo o seu governo sido marcado pela violenta repressão contra os sindicatos e partidos de esquerda e pela entrega dos recursos naturais do país às multinacionais (algum dos meus leitores leu "Banco", de Henri Charriére, a continuação de "Papillon"?).
Diga-se que o "peréz-jimenismo" de Chavez não é novidade, já que até o havia convidado para a sua tomada de posse.
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Saturday, May 08, 2010
Em defesa da aristocracia socialista
O objectivo do socialismo não é transformar toda a gente em proletários, é transformar toda a gente numa espécie de aristocratas (i.e., pessoas que não tenham que trabalhar para sobreviver e cuja actividade produtiva seja motivada pelo seu prazer nessa actividade e não pela necessidade material).
Textos recomendados:
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Wednesday, May 05, 2010
Conflitos de terras na India
India's Dirty War, por Megha Bahree, na Forbes (via Reason Hit & Run):
This is India's dirty war: a brutal struggle over valuable real estate that pits the Naxalites against some of the nation's most powerful commercial interests. What began 43 years ago as a small but violent peasant insurrection in Naxalbari, a West Bengal village, is now a full-fledged conflict led by the banned Communist Party of India (Maoist) across 20 of the country's 28 states (see map below), affecting 223 districts. The fight is over land, much of it in the interior, that has rich deposits of coal and bauxite. On one side of the struggle are the rebels--perhaps 10,000 of them armed and out in the field every day, and a militia of 100,000 who can be called up on short notice. Driven by a violent ideology, the Naxalites claim to be fighting for the land rights of the poor, especially farmers and small indigenous tribes who know only an agrarian way of life. On the other side are the wealthy families behind Tata Steel, Jindal Steel & Power and Vedanta Resources (run by mining mogul Anil Agarwal), who want to develop the untapped resources. (The three companies rank 345, 1,131 and 923 on the Global 2000 list.) Caught in the middle of the conflict between Maoists and billionaires are thousands of villagers.E, a esse respeito, The Economically Illiterate Have No Property Rights, por Kevin Carson, no Center for a Stateless Society:
(...)
It's no mystery why things have gotten worse. "India's boom period has coincided with maximum dissent and dissatisfaction in rural India," says Ajai Sahni, executive director for the Institute for Conflict Management, a New Delhi think tank. Over the last decade the Indian government has been trying by legal and other means to lock up the land for public projects like power plants and, more recently, for private enterprises like Tata. (Under the Indian constitution nontribal people are prohibited from directly acquiring land in certain parts of the country, so the government must obtain it on their behalf and sell it to the companies.) That trend has put the state more and more in conflict with the Maoist rebels, and it has ratcheted up paramilitary operations against them. The government has also squared off more frequently against those who have farmed the land for centuries, using various legal entitlements--and, villagers often claim, resorting to fraud or force--to gain possession of the property. Other times the state simply seizes the land, labeling any resistance rebel-inspired. Hundreds of thousands of people have been dispossessed and displaced. Many now live in what could become permanent refugee camps, where they are prey to both sides of the proxy war and easy converts to radicalism.
But especially noteworthy is the reaction from the sorts of people on the Right who talk most about “free markets.” One reader at Forbes, for example, commented that “the Maoists are no better,” because “for the most part its activities are criminal.”E, sem ter nada directamente a ver com isto, um artigo de há 4 anos atrás de Chris Dillow.
And then this clincher from the same reader: “Also Can in India afford to hold back Industries that will give employment to thousands directly (many more indirectly) because 1750 families have to be moved? Is that Justice? Proper Rehabilitation and compensation is a must. The activists will better serve the locals by ensure that they get proper compensation and are rehabilitated appropriately instead of opposing industries blindly.”
Another Forbes reader writes: “The overly populist tone of the article pitting billionaires against Maoists is a little simplistic. If you are sitting on substantial deposits of iron ore, coal, bauxite or other precious minerals, I think the government has a right to acquire that land, but only after paying you adequate compensation.”
Another reader comment sounds oddly familiar, given some of the usual suspects’ responses to my own work published in free market periodicals: “Who would have thought, Forbes publishing an article supporting Communists/Socialists and basically Terrorists….” The Indian government, he says, “should do what USA and China does all the time, apply Emminent Domain in such cases and get it over with. Trying to convince farmers/NGOs/Communists to give up land for factories is a futile excerise.”
Meanwhile, at Reason, a reader responds to Walker’s “upshot” by saying: “There is no upshot. Maoists are not for property rights.”
So what it all boils down to is that, when the beneficiaries of theft are large corporations, the victims are peasants with traditional land tenure rights, and the people who resist it are Maoists, property rights don’t apply.
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Tuesday, May 04, 2010
Anti-americanismo e anti-bushismo
O blog "Era uma vez na América" convidou-me para escrever um post - escolhi como tema a questão (aparentemente fora de moda...) do "anti-americanismo" vs. "anti-bushismo".
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Cidadãos pela laicidade
Petição «Cidadãos pela Laicidade»
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Monday, May 03, 2010
A estratégia dos EUA no Afeganistão em Power Point
Um powerpoint apresentado numa reunião das forças da NATO sobre o Afeganistão. Segundo o general encarregue da apresentação, “When we understand that slide, we’ll have won the war” .
[Via Flip Chart Fairy Tales]
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Sunday, May 02, 2010
Pirataria e Progresso
A respeito das alegadas declarações de Mariano Gago, Tiago Moreira Ramalho escreve:
Mesmo que a pirataria tenha sido fonte de progresso (não é líquido que tenha sido, no entanto, assumamos que sim, para facilitar), a questão é que o «progresso», ou um certo tipo de «progresso», ao contrário do que o sr. Gago, ministro de Portugal, parece pensar, não é um valor absoluto. Se para que haja «progresso» tenham de se cometer injustiças, como permitir que se roube via Internet, então não sei se é esse o tipo de «progresso» que a humanidade precisa.Uma questão simples - o TMR acha que os direitos de propriedade intelectual devem durar eternamente para todo o sempre (estilo - se os descendente de Virgilio fossem identicáveis, continuar a pagar-lhes direitos de autor sempre que alguém re-editasse a Eneida)? Se sim, tudo bem (isto é, "tudo mal" para mim, mas há uma coerência lógica). Mas a verdade é que, ao que me parece, a maior parte dos defensores da propriedade intelectual costumam defendé-la só para um dado período de tempo, e tal posição só me parece fazer sentido se a propriedade intelectual for defendida com argumentos utilitários do que com argumentos de principio: pelo menos eu consigo imaginar argumentos utilitários para a propriedade intelectual limitada no tempo (estilo "a propriedade intelectual é necessária para estimular a criação e sustentar os criadores, mas não se justifica por mais de 100 anos, já que o incentivo adicional que resultaria desses direitos durarem 100 anos em vez de 80 seria tão pouco que não compensava os custos representados pela obra permanecer de uso restrito mais 20 anos"); quase não consigo imaginar argumentos de "direitos naturais" para a propriedade intelectual limitada no tempo (só consigo imaginar num caso muito específico - alguém que seja contra a herança de qualquer maneira).
E onde é que eu quero chegar com esta conversa? Simples - é que se a "propriedade intelectual" como existe actualmente é fundada em argumentos utilitários (ser "benéfico para a sociedade"), então a sua violação também pode ser justificada com argumentos utilitários.
TMR também escreve:
Não há diferenças substantivas entre roubar um filme através da Internet ou roubar um filme numa loja especializada. Podem dar o pino, que não encontram uma única diferença em termos éticos.Quer entre os defensores da PI, como entre radicais de esquerda anti-PI (como eu, de certa maneira) é frequente essa analogia entre propriedade intelectual e propriedade física, mas está errada - se eu roubar um filme numa loja, o dono perde um bem que tinha; pelo contrário, se eu fizer um download de um filme na internet, ninguém fica pior do que ficaria se eu não fizesse rigorosamente nada. No fundo, vamos comparar estas opções:
A1 - eu roubo um filme numa loja
A2 - eu compro um filme numa loja
A3 - eu no faço nada e não vejo o filme
vs.
B1 - eu faço um dowload ilegal dum filme
B2 - eu pago pelo filme
B3 - eu não faço nada e não vejo o filme
No primeiro caso, a opção A1 é sempre pior para o dono da loja do que a A2 e a A3; no segundo, a B1 é prejudicial para o dono em relação à B2, mas não o prejudica em nada em relação à B3
[Publicado também no Vias de Facto; podem comentar lá]
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Etiquetas: Propriedade Intelectual?
Comparações arrojadas
Este é daqueles posts que um Krugman pode escrever sem criar nenhum escândalo, mas provavelmente a maior parte das pessoas não poderia.
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Saturday, May 01, 2010
Re: O Mito dos Sindicatos
João Miranda escreve que:
E também não foram os sindicatos que contribuíram para o aumento dos salários. Numa economia de mercado, os salários são determinados pela oferta e pela procura. O preço de equilíbrio entre a oferta e a procura não aumentou por causa da acção dos sindicatos mas sim por causa do aumento da produtividade dos trabalhadores e do aumento da procura de trabalhadores qualificados à medida que cada vez mais empresários passaram a ter acesso a métodos de produção cada vez mais sofisticados.Sempre que os sindicatos conseguem obrigar um patrão a reduzir o horário de trabalho ou aumentar os dias de férias (ou, já agora, a não contratar estrangeiros ou trabalhadores de minorias étnicas, para darmos exemplos mais politicamente incorrectos de reivindicações sindicais em certos países e certas épocas) estão a reduzir a oferta de trabalho, logo a contribuir para que o preço (salário) que equilibra a oferta com a procura suba.
Outro ponto: desde quando é que métodos de produção mais sofisticados implicam trabalhadores mais qualificados? A mim parece-me que é exactamente ao contrário: quanto mais sofisticada a tecnologia, mais "user-friendly" costuma ser. Um exemplo - o que dá mais díficil: escrever à maquinaem ou num programa de processamento de texto (com corrector ortográfico, formatação automática de parágrafos, possibilidade de apagar qualquer erro que se faça, etc.)? E mais outro - o que é mais fácil de manejar: o Windows XP ou o MS-DOS?
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Friday, April 30, 2010
Sugestões de leitura
The Bell Curve Flattened, na Slate (um artigo de 1997 sobre o livro The Bell Curve):
The debate on publication day was conducted in the mass media by people with no independent ability to assess the book. Over the next few months, intellectuals took some pretty good shots at it in smaller publications like the New Republic and the New York Review of Books. It wasn't until late 1995 that the most damaging criticism of The Bell Curve began to appear, in tiny academic journals. What follows is a brief summary of that last body of work. The Bell Curve, it turns out, is full of mistakes ranging from sloppy reasoning to mis-citations of sources to outright mathematical errors. Unsurprisingly, all the mistakes are in the direction of supporting the authors' thesis.[vagamente a esse respeito, o meu post de 2008, Inteligência e rendimento]
Common Versus Government Property, por Kevin Carson,em The Freeman:
Ostrom also denied that there was anything inherently unstable about commons and argued that they were actually well governed by traditional regulations that specified individual grazing rights. (Garrett Hardin himself later expressed regret that he had not titled his famous essay “The Tragedy of the Unmanaged Commons” and repudiated much of the use that had been made of it.)Uma nota minha - um grande problema em toda essa conversa da "tragédia dos comuns" é que se mistura frequentemente dois assuntos distintos - o conceito de "tragédia dos comuns" tal como foi formalizado refere-se especificamente a situações de ausência de direitos de propriedade; mas não é raro falar-se em "tragédia dos comuns" acerca dos problemas que possam surgir na propriedade colectiva (propriedade colectiva e não-propriedade são coisas diferentes, talvez até bastante diferentes).
(...)
But in fact–a fact ignored by those on both the left and right who equate “private property” to individual property and contrast “property” with the commons–the commons were a form of property rights. And the eviction of peasants from the commons was not simply an efficiency loss; it was a case of the State expropriating property rights.
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As sondagens de hoje
Será que ainda vai ser um governo PSD a nacionalizar a banca e a suspender o pagamento da dívida externa?
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Thursday, April 29, 2010
Vestuário imodesto e terramotos - um estudo empírico
Há dias, o hojatoleslam Kazem Sedighi, um religioso iraniano, disse que as mulheres que se vestem "imodestamente" contribuem para os terramotos.
Jen McCreigh, uma estudante universitária norte-americana, decidiu realizar uma experiência para testar essa hipótese. As conclusões.
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Default bancário - correcção
Este meu post de ontem era excessivamente catastrofista - o risco médio de default dos bancos portugueses é de cerca de 3% (em vez dos 30% que tinha escrito inicialmente).
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A saída do euro
A opinião dominante entre os economistas é de que é quase impossível um país abandonar o euro - a ideia é que, se um país anunciar que vai sair do euro, toda a gente (antes dos euros serem trocados por "novos escudos" ou "novos dracmas") vai transferir correr ao banco transferir o seu dinheiro para contas noutro país (e hoje em dia isso é relativamente simples) provocando o colapso do sistema bancário.
No entanto, Paul Krugman hoje levanta uma questão - e se a crise bancária acontecer antes?
But now I’m reconsidering, for a simple reason: the (...) argument is a reason not to plan on leaving the euro — but what if the bank runs and financial crisis happen anyway? In that case the marginal cost of leaving falls dramatically, and in fact the decision may effectively be taken out of policymakers’ hands.Agora, uma autocrítica - eu fui um adepto entusiasta da adesão ao euro, e estava convencido que era o primeiro passo para a criação dos "Estados Unidos Socialistas de Europa" (eu era um trotskista entusiasta na altura). Hoje em dia, continuo a achar que uma confederação socialista europeia ou, pelo menos, uma união económica com um orçamento comum significativo seria a melhor solução; mas estou cada vez mais convencido que tal é politicamente impossível, logo a segundo melhor opção talvez seja mesmo o regresso às moedas nacionais (repare-se que a economia portuguesa paraticamente parou de crescer desde a adesão ao euro). Se for assim, talvez a crise orçamente e bancária que está à porta seja uma benção disfarçada.
Actually, Argentina’s departure from the convertibility law had some of that aspect. A deliberate decision to change the law would have triggered a banking crisis; but by 2001 a banking crisis was already in full swing, as were emergency restrictions on bank withdrawals. So the infeasible became feasible.
Think of it this way: the Greek government cannot announce a policy of leaving the euro — and I’m sure it has no intention of doing that. But at this point it’s all too easy to imagine a default on debt, triggering a crisis of confidence, which forces the government to impose a banking holiday — and at that point the logic of hanging on to the common currency come hell or high water becomes a lot less compelling.
[Publicado também no Vias de Facto; podem comentar lá, se quiserem]
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A crise como profecia auto-cumprida?
O Miguel Botelho Moniz e o Rui L. Castro, de uma ou outra forma, perguntam-se se as pessoas que acham que a crise foi criada artificialmente pelos mercados especulativos vão aproveitar a oportunidade de negócio e comprar dívida do Estado português.
Não sei se esse argumento fará grande sentido - creio que o que muitas pessoas acreditam é que a crise é uma profecia auto-cumprida: que a expectativa de "default" da Grécia e de Portugal (e eventualmente de Espanha, Irlanda e Itália) está a fazer subir os juros da dívida grega e portuguesa (para compensar o risco percebido), e que é exactamente essa subida dos juros (motivada pelo risco de default) que está à beira de realmente provocar o default.
Ora, para uma pessoa que pense assim, não faz sentido investir em dívida pública portuguesa - esse racioinio diz que são as expectativas dos mercados que estão a causar os problemas financeiros, mas não nega que, a partir desse momento, os problemas financeiros e o risco de default existem realmente.
Uma analogia - imagine-se que eu tenho dinheiro num banco (numa sociedade sem garantia estatal de depósitos),e acho que os negócios do banco são fundamentalmente sólidos, mas toda a gente mete na cabeça que o banco está à beira da falência e vai levantar o seu dinheiro. Faria sentido neste caso eu manter o meu dinheiro no banco (oua até reforçar a conta)? Não; a partir do momento em que toda a gente vai levantar o seu dinheiro, o banco vai rebentar, por melhores que sejam (ou fossem) as suas contas, logo tenho é que me apressar para levantar também o meu.
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Wednesday, April 28, 2010
Felix Salmon sobre Roubini sobre a Grécia
One member of the audience, though, had a really good question: what happens to the European system of sovereign guarantees of interbank lending? When those sovereign guarantees aren’t worth much any more, Euribor is likely to spike, since suddenly there’s a lot more credit risk involved in interbank lending. And there are hundreds of trillions of euros of debt contracts linked to Euribor, which could suddenly get very expensive and take control of short-term interest rates out of the hands of the ECB.O texto é muito maior do que isto, mas esta foi a parte (que não é da responsabilidade, nem do Felix Salmon, nem do Nouriel Roubini) que me despertou mais atenção.
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Não é só o Estado que pode ficar sem dinheiro
Nos últimos meses, dias e horas têm-se falado muito do "rating" da República Portuguesa, da "consolidação orçamental", do PEC, etc., etc.
Mas parece que há outro sector que os mercados internacionais também acham à beira da falência (talvez ainda mais do que o Estado):
[gráfico roubado ao Bussiness Insider]
Ou seja, os investidores acham que há
E, claro, se um banco português falir (ou andar lá perto), aí é que o Estado português vai também à falência (lembram-se do aval e garantias afins?).
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Monday, April 26, 2010
Leituras
Do women today have more libertarian freedom than in 1880?, por Tyler Cowen:
I'd like to make a simple but neglected point: negative liberty and positive liberty are not separable.Chimpanzees Prefer Fair Play To Reaping An Unjust Reward, em The Primate Diaries (via Gene Expression):
Here is one simple scenario. Let's say the government tells me I have to buy and place a five-foot ceramic grizzly bear statue on my front lawn. How bad an act of coercion is that? If I have an upper-middle class income, it's an inconvenience and an aesthetic blight but no great tragedy. If I have a Haitian per capita income, it is a very bad act of coercion and it will impinge on my life prospects severely. I either give up some food or they send me to jail.
However, chimpanzees in this study went beyond the basic tenets of the social contract and demonstrated what could be considered the foundation of social solidarity. In 95 trials chimpanzees that received a grape were significantly more likely to refuse the high-value reward when their group mate only received a carrot (p = 0.008). Even those who benefitted from inequality recognized that the situation was unfair and they refused to enjoy their own reward if it meant someone else had to suffer.Tolerance and HIV (pdf), via Marginal Revolution:
We empirically investigate the effect of tolerance for gays on the spread of HIV in the United States. Using a state-level panel dataset spanning the mid-1970s to the mid-1990s, we find that tolerance is negatively associated with the HIV rate. We then investigate the causal mechanisms potentially underlying this relationship. We find evidence consistent with the theory that tolerance for homosexuals causes low-risk men to enter the pool of homosexual partners, as well as causes sexually active men to substitute away from underground, anonymous, and risky behaviors, both of which lower the HIV rate.Tea Party: Pro-Torture, Pro-War, Pro-Freedom?, por James Bovard:
Many “tea party” activists staunchly oppose big government, except when it is warring, wiretapping, or waterboarding. A movement that started out denouncing government power apparently has no beef with some of the worst abuses of modern times.
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Sunday, April 25, 2010
Sobre a clonagem
Uma discussão interessante no blogue Marginal Revolution sobre o desejo do economista Bryan Caplan (mais famoso pela sua crítica à escola económica austríaca) de ser clonado ("Yes, I wish to clone myself and raise the baby as my son. Seriously. I want to experience the sublime bond I'm sure we'd share. I'm confident that he'd be delighted, too, because I would love to be raised by me")
Alguns comentários dos leitores:
- Interesting that thus far, the two "arguments" against Bryan's position--"icky" and "kids should come from mom and dad"--are reminiscent of the arguments against gay marriage. Probably just a coincidence...A minha opinião sobre a clonagem humana - a minha objecção não é tanto à clonagem de humanos em sim, mas ao que seria necessário fazer para atingir: até ser possível desenvolver um processo de clonagem humana que funcionasse, seria necessário fazer experiências e ir gradualmente corrigindo as falhas do processo. Ora, isso significaria fazer experiências com seres (mais ou menos) humanos, a maioria dos quais iriam ser uma espécie de aberrações genéticas.
- Generally speaking, people who would like to clone themselves tend to be arrogant and lacking in common sense. Their children will tend to also be arrogant and lacking in common sense. The interpersonal dynamics between cloner and clonee would likely be disastrous.
- Would it be possible to clone yourself as a member of the opposite sex? This would only work for men, of course. You could substitute your Y chromosome for a copy of your X chromosome. Would sex with this female-you be illegal? Major ickyness ensues.
- I think it'd be downright creepy after 20 years to see the 20-year-old near-version of your mate and life partner - consider all of the bizarre sexual feelings that would emerge. Good luck keeping your eyes off of your 22-year-old "daughter", who happens to be genetically identical and looks almost identical to your wife did when you met her. [a propósito da possibilidade de num casal tanto o marido como a mulher se clonarem]
- This cloning shtick sounds like a way for a guy to stick his wife with raising some illegitimate kid he fathered with a stripper -- assuming the wife is particularly dim-witted.
- Bryan is really a strange person. I hope he doesn't traumatize his other kids with this cloning story.
- Bryan has a clone. Someone with Bryan's DNA kills someone. There is no other physical evidence. Neither has an alibi. The jury can't convict because there's only a 50% chance that the person charged did the crime, and that's not proof beyond a reasonable doubt. (Secretly the lab prepared another Bryan and trained him to be an assassin, you see.)
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Saturday, April 24, 2010
Friday, April 23, 2010
Ministério Público investiga autódromo do Algarve
Sol:
O Ministério Público e a Polícia Judiciária de Aveiro interceptaram conversas de Armando Vara com Laurentino Dias, em que o administrador do BCP tenta convencer o secretário de Estado do Desporto a pressionar Francisco Bandeira (vice-presidente da CGD), a financiar com urgência a Parkalgar, proprietária do Autódromo do Algarve.[Via O Insurgente]
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Tuesday, April 20, 2010
Benefícios da Pirataria*
Copying, Superstars, and Artistic Creation, por Francisco Alcalá e Miguel Gonzalez-Maestre
Benefits of piracy, por Chris Dillow
*versão eMule/Rapidshare, não versão Somália
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Etiquetas: Propriedade Intelectual?
Sunday, April 18, 2010
"A Oitava Praga"
Um filme giro (é capaz de haver nalgum clube de vídeo) - quer para quem queira simplesmente distrair com um típico filme de terror de baixo orçamento (na clássica variante "Humanidade ameaçada por animais mutantes"), quer para quem queira um filme pró-agricultura biológica, anti-OGM, anti-ganância empresarial (embora - um ponto fraco do filme - não anti-capitalista) e vagamente anti-militarista.
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Saturday, April 17, 2010
Privatizações e estagnação económica
Em The Portuguese Economy, Ricardo Reis aventa a hipótese das privatizações (ou, pelo menos, da forma como foram feitas) serem responsáveis pelo baixo crescimento económico da última década:
For maximizing efficiency and welfare, there is only one thing worse than a public monopoly: a government-protected private monopoly.O autor esclarece logo ao principio que não está a defender uma economia planificada cheia de empresas públicas, e imagino que ser linkado por um blogue como o Vento Sueste deva ser das últimas coisas que ele quereria....
Já agora, a solução que propus há uns tempos para a questão dos "monopólios naturais".
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Friday, April 16, 2010
Boeing Apache Helicopter kills Iraqi journalists and civilians
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Uma possível "corrida aos bancos" na Grécia?
Worrying about a Greek bank run, por Felix Salmon
Bank Runs in Greece Trigger Needed “Hunkering Down.”, por David Kotok
[Via Marginal Revolution]
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Wednesday, April 14, 2010
Trabalho comunitário em troca do subsidio de desemprego?
Este comentário do João Miranda é brilhante (muito melhor que os meus no mesmo post, admito).
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Tuesday, April 13, 2010
Outra forma de ver as eleições húngaras
Os liberais foram varridos do mapa.
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Friday, April 09, 2010
Keynesianismo e "Austrianismo" (V)
O que eu me dá a ideia é que, nesta polémica, nem Krugman nem os "austríacos" percebem bem a posição do "adversário".
- Krugman parece-me achar que a "escola austríaca" é apenas a "escola de Chicago" sem equações e derivadas e, portanto, está à espera que os "austríacos" digam que o aumento da procura nuns sectores implica uma redução noutros (como os economistas com que ele está habituado a discutir acabam por dizer implicitamente); ao ver que os austríacos dizem que nos booms há simultaneamente aumento da procura de bens de consumo e de investimento, isso parece-lhe uma cedência escondida ao keynesianismo, em vez de um aspecto fundamental (acho eu) da teoria
- Já os austríacos parecem confundir o keynesianismo com uma doutrina que diz que aumentar a procura (nomeadamente através de deficits) gera sempre crescimento económico (em vez de só o originar em condições muito específicas); claro que o facto de por vezes alguns auto-proclamdos keynesianos parecerem defender na prática essa ideia também ajuda à confusão
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Keynesianismo e "Austrianismo" (IV)
Nesse mesmo post, William Anderson escreve:
What Krugman fails to understand about booms is that they are not sustainable. The occur precisely because of malinvestments caused by government monetary (and sometimes fiscal) policies. Furthermore, government compounds the problem by trying to prop up the failed sectors, throwing good resources into a financial black hole, instead of permitting the failed sectors to be liquidated or transferred to other uses and to let the proper proportions of the economic fundamentals to get back into balance.Mas os keynesianos não acreditam que um boom induzido (pelas politicas monetárias ou fiscais) pode ser prolongado indefinidamente. Os keynesianos defendem que só é possivel estimular a economia até ela chegar ao "pleno emprego" (isso não significa necessariamente um desemprego de 0%; frequentemente é usado para designar uma taxa de desemprego que não origine um aumento da inflação), e que a partir daí qualquer redução do desemprego em breve desaparecerá, obtendo-se é um aumento da inflação (ver este post anterior).
However, with Keynesians, because all factors of production are homogeneous, there is no need to get factors into balance, since they always are in balance, anyway. Thus, in the Keynesian view, we just need stimulus forever.
Now, there is one problem that Krugman has created for himself, and it is this: If factors of production behave the way he says they do, and if booms always can be sustained through government spending, then why are there financial bubbles?
Já agora, nem percebo o que é a questão da homogeneidade ou não homogeneidade dos factores interessa para aqui - a mim parece-me que, mesmo que os factores de produção fossem homogéneos, não seriam possível expandir uma economia até ao infinito apenas imprimindo notas.
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Etiquetas: teoria dos ciclos na economia
Keynesianismo e "Austrianismo" (III)
Continuando a analisar o blogue Krugman-in-Wonderland:
Paul Krugman once again attacks Austrian Economics, using what I see as a series of non sequiturs, not to mention contradicting his own Keynesian beliefs. He declares:Não, William Anderson, essa passagem de Krugman não contradiz o seu keynesianismo (já agora, gostava de saber onde W.A foi buscar a ideia que o keynesianismo implica factores homogéneos), pelo simples facto que o que Krugman está a dizer é "se a economia funcionasse como os austríacos dizem [ou melhor, como Krugman julga que os austríacos dizem], isto deveria acontecer assim...", não está a dizer como as coisas deveriam acontecer de acordo com a teoria dele (Krugman).
My view is that the fatal flaw in Austrian economics is that it can’t explain unemployment — or, worse, that it thinks that it can explain unemployment, but is deluding itself. The Austrian view is that unemployment in a slump results from the difficulty of “adaptation of the structure of production” — workers are unemployed as resources are painfully transferred out of an overblown investment-goods sector back into production of consumption goods.Krugman has wrongly attacked Austrian Economics before, using this same argument and then calling the Austrian Theory of the Business Cycle a "hangover theory." However, as Robert Murphy has explained, the ATBC is not a theory that claims that good times automatically must lead to bad times; instead, it is a theory that concentrates upon malinvestments that occur during and boom and must be liquidated.
But this immediately raises the question, why isn’t there similar unemployment during the boom, as workers are transferred into investment goods production?
Unfortunately, Krugman's claim that Austrians cannot explain why there should not be high unemployment during a boom (because assets are being pulled in a direction away from what consumers would prefer through their purchases) actually contradicts his own Keynesianism. Remember, under Keynesian theory, all factors, including labor, pretty much are homogeneous, so labor automatically would transfer into the booming sectors, and Krugman's so-called refutation is built upon an assumption that labor is fixed and cannot move elsewhere.
Mas a parte mais relevante é esta:
Here is another Murphy quote regarding why there would not be unemployment in other sectors:Mas esse é que é realmente o busílis da questão - Bob Murphy está a dizer que nos "booms" não há aumento do desemprego porque o aumento do investimento não é compensado por uma diminuição do consumo; mas isso... mais não é que o Bê-Á-Bá do keynesianismo (que a expansão monetária gera um aumento da procura agregada - que está a entrar por uma porta qualquer - o que por sua vez gera uma expansão económica).
On the other hand, other sectors don't need to contract, because (unlike the scenario of genuine savings) nobody is cutting back on consumption. This is precisely why the Fed-induced boom is unsustainable — real resources have not been released from consumer sectors in order to fuel the expansion of the capital sectors.
Ou seja, Bob Murphy está a dar razão a Krugman - que, pelo menos durante os "booms", os austríacos são keynesianos; afinal, a sua visão do que acontece durante um boom é praticamente idêntica à visão keynesiana (nesse aspecto, ambas as correntes acreditam que durante algum tempo é possível aumentar a procura agregada - isto é, aumentar a procura de uns sectores sem diminuir a procura dos outros - por oposição aquelas correntes que giram mais em torno da "Escola de Chicago" - monetarismo, expectativas racionais, ciclos económicos reais, etc. - que têm mais ou menos implicita que qualquer politica que leve ao aumento da procura num lado implicará, quase imediatamente, uma redução noutro).
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Miguel Madeira
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Etiquetas: teoria dos ciclos na economia
Keynesianismo e "Austrianismo" (II)
António Costa Amaral, a respeito de Krugman, os keynesianos e a "escola austríaca", recomenda esta blogue.
Há lá algumas coisas que gostaria de comentar, a começar por esta:
Krugman, on the other hand, believes that it is good for government to hold down the rates, but then apply regulation to stop potential bubbles. Here he is in his own words:
But did I call for low interest rates? Yes. In my view, that’s not what the Fed did wrong. We needed better regulation to curb the bubble — not a policy that sacrificed output and employment in order to limit irrational exuberance.This is more telling -- and more contradictory to the Keynesian arguments than what Krugman will admit, for he is hinting that low interest rates can lead to a bubble, which is what Austrians would call malinvestments (or maybe malinvestments on steroids). However, he believes that government can head off such malinvestments through regulation.
This is very interesting, for on one hand, he claims that it is all aggregate demand, but on the other hand, he is saying that forcing down interest rates can have consequences if government does not try to regulate away the excesses. However, he cannot have it both ways. Indeed, he is accusing us of employing back-door Keynesianism, but then tries to do the same with Austrian theory.
Não existe nehuma contradição entre o keynesianismo (e a teoria da procura agregada) e a ideia que a baixa da taxa de juro pode provocar "bolhas". Vou explicar como surge uma expansão artificial num modelo keynesiano:
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Miguel Madeira
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Porque dormimos e sonhamos?
Why Do We Sleep? e Why Do We Dream? (comentário - neste texto é referido que "children don't start reporting experiencing dreams until about the age of 5", mas acho que me lembro de sonhar aos 4 anos).
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Miguel Madeira
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Thursday, April 08, 2010
Keynesianismo e "Austrianismo"
Paul Krugman escreve sobre a "escola económica austríaca":
The Austrian view is that unemployment in a slump results from the difficulty of “adaptation of the structure of production” — workers are unemployed as resources are painfully transferred out of an overblown investment-goods sector back into production of consumption goods.e
But this immediately raises the question, why isn’t there similar unemployment during the boom, as workers are transferred into investment goods production?
(...)
In practice, Austrians seem to be Keynesians during booms without knowing it; they realize that high demand produces a boom, but don’t realize that this contradicts their own theory of slumps.
Why do periods when the economy is investing more correspond to booms, while periods when it’s investing less correspond to slumps? That’s easy to understand in Keynesian terms — but the whole Austrian claim is that they’re an alternative to Keynesianism. Yet I have never seen a clear explanation of this central point.
Há muito que tenho a opinião que, no que diz respeito ao ciclos económicos, o "austrianismo" pode ser considerado nada mais do que o keynesianismo virado de cabeça para baixo (ou talvez seja o keynesianismo o austrianismo virado de cabeça para baixo, já que penso que a teoria austríaca dos ciclos económicos é anterior à keynesiana).
What happens, instead — or at least that’s how I read it — is that Austrians slip Keynesianism in through the back door. Implicitly, they associate booms and slumps with rising or falling aggregate demand — utterly unaware that their own theory doesn’t actually make room for such a thing as aggregate demand to exist, or at least to affect overall employment. So Austrians are basically Keynesians in denial — self-hating Keynesians? — pretending to themselves that they’re not using ideas that are in fact essential to their story.
No fundo, austríacos e keynesianos concordam (parece-me) em dois pontos fundamentais:
1 - a nível micro, os preços não se ajustam instantaneamente de forma a equilibrar a oferta e a procura de cada produto; o equilíbrio vai sendo atingido aos poucos, por um processo de tentativa-e-erro dos agentes (enquanto "Chicago" tende a acreditar no equilíbrio instantâneo)
2 - a nível macro, a variação da quantidade de moeda origina, a curto e médio prazo, variações da actividade económica real (enquanto para "Chicago" origina apenas variações no nível de preços - no fundo, isto é uma consequência lógica do ponto anterior)
Um exemplo concreto - tanto keynesianos como austríacos concordarão que uma expansão da oferta monetária levará a um aumento temporário da actividade económica, enquanto para "Chicago" levará apenas a uma subida de preços (em principio, o keynesiano acha que essa expansão é boa e o austríaco que é má, mas o juízo de facto não muda muito).
Inclusive, há um dos "comentários dos leitoes" que suspeito ter sidoescrito para defender a posição austríaca mas que na essência pode perfeitamente ser subscrito por um keynesiano:
Why do periods when the economy is investing more correspond to booms, while periods when it’s investing less correspond to slumps?Uma nota final acerca do argumento (levantado também nessa discussão) de que o keynesianismo implicaria que o capital fosse homogéneo - isso é um perfeito disparate; p.ex., na minha cadeira de Politica Económica e Planeamento, o que eu aprendi foi, basicamente, um modelos keynesiano com capital heterógeneo; nos modelos mais "macro" o capital e o trabalho são assumidos como homogéneos apenas para simplificar a explicação, mas a lógica do modelo funciona à mesma com factores heterógeneos.
With a fixed money supply, more investing means less consumption, not a slump. With a variable (Keynesian) money supply, more investing and more consumption can occur simultaneously (but not indefinitely). Eventually, reality sets in, in the form of a slump. See the past decade for evidence.
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Wednesday, April 07, 2010
O jornalismo tradicional, a internet e os crimes de guerra no Iraque
A respeito simultaneamente disto e disto, este artigo - But How Could Wikileaks Break A Story Without Traditional Newspaper Backing?
And yet, we keep being told that if newspapers fail, no one will be left to do investigative journalism?
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Sunday, April 04, 2010
Sugestões de leitura
Beware of Greeks Getting Gifts?, por Paul Krugman, sobre a possibilidade do default da dívida de um Estado poder ser uma "profecia auto-cumprida"
The Children of George Metesky, na Reason, por Jesse Walker, sobre os terroristas solitários não ligados a uma ortodoxia ideológica
E um tema mais leve: Increasing Number Of Parents Opting To Have Children School-Homed, na Onion (via Free Range Kids)
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Miguel Madeira
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