Thursday, September 12, 2019

"Inteligência Emocional" - quase irrelevante?

Pelo menos no que diz respeito ao desempenho profissional.

Emotional intelligence can predict performance – but not as well as you might think, por Lorenzo Galli:

Have you heard recent claims about the power of emotional intelligence? Are you considering using an emotional intelligence assessment tool? Some say that emotional intelligence (EI) 1 is a good predictor of people’s job performance. The idea is that if you are more emotionally intelligent — which means that you can understand and regulate your emotions, and empathize with others — you will perform better. Many have been skeptical about this statement, which is why independent scientists tried to verify this relationship with a rigorous study. (...)

They found that emotional intelligence correlates moderately (0.29) with job performance as evaluated by supervisors. This means that emotional intelligence can predict only 8.4% of your people’s performance. This moderate degree of correlation between EI and job performance is not as strong, or practically useful, as most EI advocates usually claim. As a comparison, General Mental Ability — which correlates strongly with job performance (0.51) — can predict 26% of one’s performance at work.
O artigo faz mais algumas criticas ao conceito de "inteligência emocional", mas essas outras já não as acho muito relevantes (basicamente os autores também dizem que mesmo o pouco efeito da "inteligência emocional" desaparece totalmente quando se controla para outros traços da personalidade - como estabilidade emocional, responsabilidade e extroversão - mas isso não refuta que há uma conjunto de traços psicológicos que tem influência no desempenho profissional, apenas põe em causa a relevância de os juntar num agregado chamado "inteligência emocional").

Contexto - há dias Josie Cluer publicou um artigo, "Three traits more important than being clever – but we don’t teach them til you get to work", a n-ésima versão da teoria "na vida real a inteligência emocional e outros fatores psicológicos interessa muito mais que a inteligência propriamente dita"; em resposta, Rob Briner publicou uma porção de links para artigos e estudos (incluindo este) desmentindo essa tese.

Mas ocorre-me uma possibilidade talvez ainda mais radical - a invocação da "inteligência emocional" costuma vir acompanhada pela conversa de "a escola só se preocupa em desenvolver as capacidades intelectuais dos alunos, quando depois na vida profissional a inteligência emocional interessa mais"; mas, será que não é ao contrário? Será que não acaba por ser na vida real (ou pelo menos no trabalho) que a inteligência tradicional interessa mais, enquanto é exatamente na vida escolar (ou pelo menos na fase da vida associada à frequência da escola) que a "inteligência emocional" é mais necessária?

O meu raciocínio - parece-me que no mundo do trabalho é relativamente fácil trocar aptidões sociais e emocionais por aptidões técnicas, no sentido de, se alguém for bom no seu trabalho, as outras pessoas não se importarem com algumas "excentricidades" comportamentais que ele possa ter (no fundo, isto transposto para o mundo real); um possível exemplo: em tempos trabalhei num serviço em que, uns dias antes de para lá ir um novo trabalhador, a pessoa que o havia escolhido para aquele cargo fez uma espécie de briefing informativo aos seus futuros colegas dizendo "o gajo é um bocado esquisito, mas dá muito jeito para os computadores". Em compensação, na vida escolar um professor não tem grandes incentivos para aceitar as maluquices de um aluno, por mais intelectualmente brilhante que este seja. E, sobretudo se pensarmos, como disse atrás, "na fase da vida associada à frequência da escola" (ou seja, infância e adolescência) e não apenas na escola, a importância da "inteligência emocional" ainda mais relevante se torna - nessa fase da vida, praticamente tudo depende de conseguirmos manipular emocionalmente as outras pessoas (e não apenas pais, professores, educadores, etc. mas provavelmente mesmo os próprios colegas - ver, p.ex., este texto de Paul Graham onde ele refere que a frequente ausência de objetivos reais a serem atingidos torna a vida social dos adolescentes um puro "concurso de popularidade", em que o "ser popular" depende unicamente da habilidade para ser popular, e não de qualquer outra aptidão).

Além disso, a vida escolar frequentemente envolve uma muito maior arregimentação do que a vida profissional: na escola - ou pelo menos no ensino básico; no ensino superior tende a ser ao contrário - temos muito menos liberdade para escolher o que queremos fazer e mesmo a que horas o fazer, enquanto na vida adulta temos algum poder para escolher a nossa profissão ou mesmo o horário de trabalho (sobretudo se o mercado de trabalho estiver numa fase favorável aos trabalhadores) e muitas pessoas até têm horários flexíveis ; assim, sendo, é legítimo supor que as pessoas que ainda andam na escola precisem muito mais de "inteligência emocional", já que terão muito mais necessidade de controlar as suas emocões para se auto-motivarem para coisas como estudar para uma matéria que não os entusiasma ou levantarem-se a uma hora que vá contra o seu ciclo biológico natural (e, já agora, imagino que na vida profissional seja tão mais fácil alguém conseguir escolher a sua profissão, horário de trabalho ou até ter direito a um horário flexível quanto maior forem as suas competências técnicas específicas, o que pode ser mais um exemplo de alguém conseguir compensar com inteligência a baixa "inteligência emocional").

A este respeito, lembrei-me de um post que escrevi há uns nove anos, Há prejuizos sociais na educação (II)?, onde falei dos estudos feitos pela pedopsiquiatra germano-escocesa Sula Wolff acerca de crianças e jovens com inteligência normal (ou até acima do normal) mas com grandes problemas de ajustamento social, em que esta concluía que na maior parte dos casos esses problemas largamente desapareciam quando eles deixavam a escola, e citava a mãe de um dos seus pacientes:
"He didn't really enjoy being at school and trying to learn wahat other people wanted him to learn nor the way they tried to do it. He always wanted to go his own way. He hasn't basically changed. It's just easier when you are not at school. (...) [He] is a non-conformist and if press [him] too far, you'll disturb him." (...)

"[there are] a lot of individuals with basically nothing wrong with them but at the extreme of the personality... school adive to insist and conformity (...) really makes matters worse"
Agora, há aqui um ponto - realmente os tais estudos indicam que a "inteligência emocional" tem pouco impacto na performance dos empregados; mas as pessoas, na sua maioria, não trabalham para serem produtivos para o seu empregador: trabalham para ganhar dinheiro (o ser produtivo é apenas um meio para atingir esse fim). Portanto a grande questão deverá ser "a «inteligência emocional» aumenta a produtividade dos trabalhadores?" mas sim  "a «inteligência emocional» aumenta o salário dos trabalhadores?". Uma visão mais ortodoxa da economia diria que as coisas estão ligadas, e portanto qualquer efeito da "inteligência emocional" sobre a produtividade terá um efeito de nível similar sobre os salários; mas uma visão menos ortodoxa, que tenha em atenção coisas como os salários serem por vezes negociados, poderá ser mais otimista face às vantagens da "inteligência emocional": mesmo que não sejam muito mais produtivas, pessoas "inteligentes emocionalmente" tenderão (quase por definição) a ser melhores a negociar o seu salário do que "burros emocionais"; além disso, se existir um núcleo de empregos que só podem mesmo ser desempenhados por pessoas com alta "inteligência emocional" (p.ex. vendas), isso poderá aumentar os ordenados dessas pessoas mesmo fora desses ramos, já que o facto de terem essa saída profissional alternativa dá-lhes força na negociação de salários; finalmente, como é provável que pessoas com alta "inteligência emocional" tenham redes de contactos sociais maiores, mais facilmente saberão de bons empregos (e/ou melhor pagos) disponíveis.

Este estudo, The Effects of Education, Personality, and IQ on Earnings of High-Ability Men [pdf] (que linkei neste post de 2014 - este blogue está a tornar-se muito recursivo...), indica que (para o grupo restrito de pessoas estudadas) o rendimento tem uma correlação positiva com o "Quociente de Inteligência" mas negativa com traços de personalidade como "introversão" e "abertura (curiosidade intelectual)"; como escrevi no post, "rendimento ao longo da vida será positivamente relacionado com inteligência, mas negativamente relacionado com traços de personalidade (...) que, pelo menos a nível dos estereótipos populares, até costumam ser associados a inteligência". E o efeito positivo da extroversão até é maior do que o da inteligência, o que pode indicar que, quanto se trata de ganhar bem e não apenas de ser produtivo, fatores que podem ser classificados como parte da "inteligência emocional" até valem mais do que a inteligência propriamente dita.

A este respeito, ver também ainda este meu outro post, Contra as "soft skills", que acho que acaba por ser também relevante para isto.

Wednesday, September 11, 2019

Reduzir o horário de trabalho cria ou destrói emprego?

O João Miranda parece achar que destrói - eu diria que há dois fatores de sinal contrário.

Por um lado, efetivamente, se se reduzir o horário de trabalho mantendo o salário (ou seja, se se aumentar o salário por hora), haverá trabalhos que deixam de ser economicamente viáveis do ponto de vista do empregador, e por isso desaparecerão ou não chegarão a ser criados; mas, por outro, no caso dos trabalhos que continuam a ser economicamente viáveis, serão necessárias mais pessoas para os fazer, logo por aí serão criados empregos.

Com um exemplo talvez se perceba melhor - imaginemos uma empresa com 14 trabalhadores, fazendo 40 horas por semana (o seja, no total, trabalhando 560 horas por semana) e recebendo 615 euros cada um (o que dará um custo, contando com férias, subsídios, segurança social, etc, de uns 5,89 euros por hora, se estou a fazer bem as contas).

Agora, vamos supor que o horário de trabalho baixava para 35 horas, o que quer dizer que o custo por hora para a empresa subia para 6,74 euros por trabalhador.

Nesta situação, o empresário pode achar "a este custo hora não vale a pena estar a pagar por 560 horas de trabalho por semana; mais vale reduzir um pouco a atividade - fechar um pouco mais cedo, ou talvez fazer os clientes esperarem um pouco mais nos picos de atividade, ou coisa parecida - e com 455 horas de trabalho por semana isto aguenta-se bem; portanto, como agora cada trabalhador vai trabalhar 35 horas, só preciso de 13 trabalhadores; vou ter que despedir uma pessoa"; mas também pode achar "a este custo hora não vale a pena estar a pagar por 560 horas de trabalho por semana; mais vale reduzir um pouco a atividade - fechar um pouco mais cedo, ou talvez fazer os clientes esperarem um pouco mais nos picos de atividade, ou coisa parecida - e com 525 horas de trabalho por semana isto aguenta-se bem; portanto, como agora cada trabalhador vai trabalhar 35 horas, só preciso de 15 trabalhadores; vou contratar mais uma pessoa mas mesmo assim a produção vai diminuir".

Ou seja, a redução do horário de trabalho (mantendo o salário constante) faz a hora de trabalho ficar mais cara, e em princípio fará as empresas quererem contratar menos horas de trabalho; mas como o que interessa (pelo menos para mim) não é o número de horas de trabalho empregadas, mas o número de pessoas empregadas, e como cada pessoa também vai trabalhar menos horas, não se pode determinar à partida se as empresas contratarem menos horas de trabalho as vai levar a contratarem menos ou mais pessoas (isso é algo que poderá ser estudado empiricamente, mas aprioristicamente nada se pode concluir, num sentido ou no outro).

Em termos mais gerais, uma redução do horário de trabalho das 40 para as 35 horas vai originar um aumento de 14,29% no custo horário do trabalho; se esse aumento do custo originar uma redução da procura de horas de trabalho maior que 12,5%, o desemprego irá aumentar (já que o efeito "menos horas de trabalho total" vai ser maior que o efeito "mais pessoas para o mesmo tempo de trabalho") - se pelo contrário a redução da procura de horas de trabalho for menor que 12,5%, o desemprego vai diminuir (pelo mecanismo inverso). Em "economês", eu diria que se a elasticidade procura-preço do trabalho for menor* que -0,87, uma redução do horário de trabalho vai diminuir o número total de empregos; se for maior que -0,87 (ou seja, se estiver entre -0,87 e zero) vai aumentar o total de empregos.

De qualquer maneira, o facto dos recentes aumentos do salário mínimo não terem, aparentemente, originado desemprego relevante indicia que, na economia portuguesa atual, aumentos dos custos salariais não causam grandes reduções nas contratações, ou seja, que a tal elasticidade procura-preço do trabalho não é muito significativa (exatamente as condições em que uma redução do horário de trabalho cria empregos).

*atenção que é um valor negativo, logo "menor" aqui significa mais significativo (ou "maior" em termos absolutos).

[Declaração de interesses, já que a conversa parece ter começado com uma proposta do BE]

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Suspensão do parlamento britânico anulada?

Scottish judges rule Boris Johnson's suspension of parliament unlawful (The Guardian).

Aparentemente há diferenças entre a lei escocesa e a inglesa que levaram a que um tribunal escocês tenha tomado uma decisão oposta à tomada antes por tribunais londrinos (mas atendendo que o parlamento britânico tem soberania tanto sobre a Inglaterra como sobre a Escócia, isso não será uma enorme confusão? Isto é, a suspensão ter sido legal numa parte da Grã-Bretanha e ilegal noutra?).


Sunday, September 08, 2019

O vento sueste (e sul) em ação


Quando o Reino Unido esteve à beira de estar à beira de uma guerra civil

“Breaking the parliamentary machine”: lessons of the 1914 crisis, por Robert Saunders, no New Statesman:

The crisis of 1914 far eclipsed Brexit, and brought Britain closer to revolution than at any time since the 17th century.

Como disse várias vezes, eu re-postar não indica necessariamente concordância.

Friday, September 06, 2019

Trumpistas adotam centralismo democrático

Republicans to scrap primaries and caucuses as Trump challengers cry foul (Politico):

Four states are poised to cancel their 2020 GOP presidential primaries and caucuses, a move that would cut off oxygen to Donald Trump’s long-shot primary challengers.

Republican parties in South Carolina, Nevada, Arizona and Kansas are expected to finalize the cancellations in meetings this weekend, according to three GOP officials who are familiar with the plans.
[Via Reason]

Thursday, September 05, 2019

Passos seguintes do Brexit

Esquema roubado ao Times (via Britain Elects) e ligeiramente alterado:

As cores são minhas - a amarelo o que já aconteceu, a azul o que suspeito que aconteça.

Wednesday, September 04, 2019

Tuesday, September 03, 2019

Afinal sempre há "manipulação" de sondagens

Eu nunca acreditei muito nessas histórias de sondagens manipuladas, até porque não é muito claro qual é a vantagem de manipular uma sondagem (umas pessoas vêm o partido A à frente e vão votar nele por causa disso, outras vêm o partido B com poucos votos e vão votar nele por causa disso - "Até gostei de algumas coisas que eles disseram; merecem mais que aqueles 2%", outras eram para votar no partido A mas afinal vão à praia porque afinal o voto deles não é necessário, outras eram para votar no partido B mas afinal vão à praia porque não vale a pena, etc. - no final, esse efeitos acabam por se anular).

Mas afinal parece que há efetivamente algo muito similar a manipulação de sondagens - ou pelo menos ocultação de sondagens que dão resultados que não são os esperados:

'Embarrassed' pollster ripped up poll that showed Labor losing election (Sydney Morning Herald):

A leading market research agency tore up a poll showing Labor was in a much worse position than widely believed because it was worried the results did not match other published polls.

In a revelation that sheds light on why the nation's pollsters failed to accurately predict the outcome of the election, Lonergan Research boss Chris Lonergan admitted junking the poll because he was "embarrassed" it was radically different to those of his competitors.
É verdade que não é um caso, aparentemente, que confirme os rumores de que as sondagens são manipuladas por razões políticas; aqui o que se passou foi que uma sondagem deu resultados muito diferentes das sondagens das outras empresas, e a empresa que a fez decidiu escondê-la (pensando algo como "isto deve estar errado e vamos cair no ridículo"). Mas o resultado é o mesmo - as sondagens que são publicadas acabam por não refletir realmente aquilo que as pessoas que respondem às sondagens dizem. Se todas as empresas fizerem isso (e atendendo a que até surgiram pessoas - aparentemente do ramo -  a defender a decisão dessa empresa, quer dizer que muita gente até acha isso o procedimento correto, o que indicia que talvez seja prática comum), podemos acabar com uma situação em que 10 sondagens dizem que o partido A vai ganhar e 15 dizem que o partido B vai ganhar, e só são publicadas as que dizem que o partido A vai ganhar, porque, em cada uma das sondagens que deram vitória ao partido B, os autores da sondagem - que nem sabem das outras 14 - fizeram uma reunião e concluíram "todas as outras sondagens estão a dar a vitória ao partido A; este resultado é impossível - é melhor não o publicarmos e em vez disso fazermos uma séria auditoria aos nossos métodos de trabalho para ver o que está a dar estes resultados malucos; e talvez despedir as pessoas que andaram mesmo a fazer os inquéritos, porque se calhar andaram foi a ver fotografias no Instagram em vez de fazer chamadas telefónicas e inventaram os resultados".

E, ao contrário da manipulação pura e dura, há muito mais um incentivo racional para um cenário destes - na maior parte dos ramos de negócio, é melhor fazer o mesmo que toda a gente e falhar como todos do que fazermos algo muito diferente dos outros só nós falharmos (o primeiro caso indica que fomos vitimas de uma problema sistémico, que afetou toda a gente, e tende a ser desculpado; já o segundo é indicativo de que somos maluquinhos ou incompetentes). Isso é frequentemente referido em questões como investimentos bolsistas (em que haverá uma tendência para investir nos mesmos títulos que toda a gente), mas faz todo o sentido que também influencie a decisão de divulgar ou não sondagens.

Uma versão do "political compass"

Tirado daqui.

Monday, September 02, 2019

A "esquerda comunista" e o Brexit

Para uma visão heterodoxa (face às várias ortodoxias concorrentes) do Brexit e da crise política britânica associada, dois textos da área da chamada "esquerda comunista" - Brexit: a quagmire for all factions of the ruling class, da Corrente Comunista Internacional, e British Bosses' Political Crisis, da Tendência Comunista Internacionalista (Communist Workers' Organization).

Para quem não faça ideia sequer do que eu estou a falar - "esquerda comunista" é o nome usado pelas correntes que se opuseram a Lenine ("O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo") na questão da participação nas eleições "burguesas" e nos sindicatos (basicamente o KAPD alemão e o Partido Comunista de Itália dirigido por Amadeo Bordiga), e pelos seus herdeiros ideológicos atuais. No caso britânico, tanto a secção local da Tendência Comunista Internacionalista (a Communist Workers' Organization) como a da Corrente Comunista Internacional têm a sua origem no grupo Solidarity, o organização-irmã no Reino Unido do grupo da revista Socialism ou Barbarie, em França.

Saturday, August 31, 2019

Analogia para o Brexit

Toda a situação com o Brexit é mais ou menos isto

- No referendo ao aborto, em Portugal, ganhava o sim (como ganhou)

- Na sequência do referendo, o PS apresentava na Assembleia da República, uma proposta para legalizar o aborto, mas apenas em clínicas privadas e sem ser subsidiado pelo Serviço Nacional de Saúde; essa proposta era rejeitada com os votos contra o BE, do PCP, do CDS, da maioria dos deputados do PSD e até de alguns do PS (é neste ponto que esta alegoria se começa a distinguir da realidade)

- O BE e o PCP apresentam propostas para o aborto ser legalizado, e efetuado de forma gratuita no SNS; essas propostas eram rejeitadas com os votos contra do PSD, do CDS e da maioria dos do PS.

- Esta situação arrasta-se durante anos, com votações ocasionais de propostas (sempre rejeitadas) na AR, e o aborto mantêm-se ilegal

- Um novo primeiro-ministro, ligada à ala esquerda do PS, decide que é altura de legalizar mesmo o aborto e apresenta uma proposta similar às do BE e do PCP; mas como sabe que grande parte do grupo parlamentar do PS não vai votar nela, em vez de apresentar uma lei, faz um decreto-lei

- O PSD e o CDS anunciam que vão pedir a ratificação do decreto-lei na AR; "fontes próximas" da direção do grupo parlamentar do PS dizem que muitos deputados do PS vão-se juntar à direita para chumbar o decreto-lei

- Para impedir o parlamento de chumbar o decreto-lei, o governo lança mão de uma manobra tecnicamente legal mas politicamente pouco ortodoxa: a ASAE faz uma inspeção surpresa ao Palácio de São Bento e conclui que a parte em que funciona o parlamento não tem condições de funcionamento devido a uma praga da gafanhotos (a parte onde vive o primeiro-ministro estava boa), tendo o parlamento que suspender o seu funcionamento (de forma que se esgotam os prazos para o parlamento submeter a votação o decreto-lei, que assim entra em vigor)

Em nem sei se este cenário seria sequer possível pela lei portuguesa, mas dá-me a ideia que é o mais parecido com a situação britânica.

Ainda a suspensão da democracia parlamentar no Reino Unido

Johnson suspends parliament to force a crash out Brexit, por Simon Wren-Lewis:

On Brexit at least (and who knows what may be next) UK democracy has been suspended. Yesterday the Prime Minister drastically reduced the number of days parliament will sit until we automatically crash out of the EU. On the critical issue of Brexit, the Prime Minister has become an unelected dictator. He intends to use his dictatorial power to restrict the supply of medicines and food to the British people. (...)

Like so much in the UK’s unwritten constitution, the Queens right to decide when parliament sits is a hangover from our history that has been allowed to remain because it was understood that the Queen would follow the advice of the Prime Minister (the last monarch that didn’t had his head cut off) and the Prime Minister would respect the will of the parliament. In the UK parliament is sovereign, but only because there were unwritten norms that assumed no government would be undemocratic enough to disobey. (...)

Does this affront to democracy matter if it is restricted to the issue of Brexit, where a referendum voted to leave? It matters because in that referendum the Leave side only talked about leaving with a deal. That is the mandate that this advisory referendum provided - to leave with a deal. So leaving with no deal does not even respect the referendum.result.
Umas notas:

- como já escrevi, acho que o melhor era um referendo final a duas voltas com três opções - sair sem acordo, sair pelo acordo negociado pela May e a UE e não sair

- penso que o grande problema desta suspensão do parlamento talvez não seja tanto esta suspensão especifica, mas sobretudo, num país sem constituição escrita e que depende muito de "normas de boa educação", ter-se estabelecido o principio que é aceitável um governo suspender o parlamento por razões políticas, para evitar perder uma votação








Friday, August 30, 2019

Mundo da tecnologia

Queria ler um artigo sobre um empresa no Winscosin que tinha chipado os seus empregados, mas apareceu-me isto (isto é fácil de ultrapassar, mas toda esta situação é interessante como símbolo do nosso mundo de alta tecnologia e dos controlos a ela associados)

Sugestão de solução para o Brexit

- O Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte dava a independência à Inglaterra (que assim ficaria automaticamente fora da UE)

- O RU retirava o pedido de saída da UE

- Eventualmente o RU poderia alterar a sua bandeira (talvez incluindo também a mão vermelha do Ulster e o dragão de Gales, além da combinação da cruzes de São Jorge, São Patrício e Santo André), pelo que a bandeira anterior, ficando livre, poderia ser reclamada pelo Reino de Inglaterra, se esta assim o quisesse

- Os bens do Reino Unido (incluindo as forças armadas) seria divididos proporcionalmente, ficando a maior parte para o novo Reino de Inglaterra

Vantagens:

- A Inglaterra saia da UE, e penso que não há grandes dúvidas que a maioria dos ingleses quer sair da UE mesmo num caso de hard brexit (com barreiras alfandegárias e outras a limitarem as exportações inglesas para a UE)

- Grande parte dos brexiters já deram a entender que, para terem o Brexit, estão dispostos a aceitar o fim da RU (que era exatamente o que aconteceria aqui)

- A franja céltica votou remain e ia tê-lo

- Pelo menos no caso dos escoceses, há fortes indicios que, para não terem o Brexit, estão dispostos a aceitar o fim da RU (que, de novo, era exatamente o que aconteceria aqui)

- resolvia-se o problema da Irlanda do Norte e da fronteira hard ou soft (nota - uma variante seria alguns bastiões protestantes continuarem sobre soberania inglesa, e aí haveria um fronteira entre eles e o resto da Irlanda do Norte)

- Não havia o problema de a Escócia ter que ser aceite pela UE: o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte (com as suas três nações constituintes - Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) continuaria simplesmente com o seu lugar na UE

Desvantagens:

- Isto era capaz de dar uma enorme confusão sobre quem ficaria com o lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU

- As armas nucleares inglesas provavelmente ficariam ilegais de acordo com o Tratado de Não Proliferação Nuclear

- O que é que se fazia com os territórios ultramarinos (Gibraltar, Falklands, etc.) e com as dependências da Coroa (Jersey, Man, Guernsey, etc.)?

Thursday, August 29, 2019

O Financial Times sobre a suspensão do parlamento britânico

Boris Johnson’s suspension of parliament is an affront to democracy (Financial Times - artigo aberto a não-assinantes, pelos vistos):

Boris Johnson has detonated a bomb under the constitutional apparatus of the United Kingdom. The prime minister’s request to the Queen to suspend parliament for up to five weeks, ostensibly to prepare a new legislative programme, is without modern precedent. It is an intolerable attempt to silence parliament until it can no longer halt a disastrous crash-out by the UK from the EU on October 31. The seat of British democracy, long admired worldwide, is being denied a say on the most consequential decision facing the country in more than four decades. So, too, are the British people — in whose name Mr Johnson claims to be acting. It is time for parliamentarians to bring down his government in a no-confidence vote, paving the way for an election in which the people can express their will.
Mas suspeito que a parte de levar o parlamento a destituir o governo e realzarem-se novas eleições é o plano dos Conservadores desde o princípio.

Réplica perfeita do comportamento humano?

Sex robots with 'coding errors' prone to 'violence and could strangle humans' (Daily Star).

Causas da morte de Epstein


Wednesday, August 28, 2019

Democracia parlamentar suspensa no Reino Unido?

Brexit: Boris Johnson anuncia suspensão do Parlamento até 14 de outubro (Sapo 24):

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciou hoje que o Parlamento vai ser suspenso durante a segunda semana de setembro e até 14 de outubro, duas semanas antes da data prevista para o ‘Brexit’, a 31 de outubro.

Trump pode obrigar as empresas norte-americanas a sair da China?

Trump Aides Say He Has Power to Force Companies From China, por Reade Pickert, Shawn Donnan e Mark Niquette (Bloomberg):

Two top White House officials said President Donald Trump has the authority to force American companies to leave China -- as he claims, and which trade experts question -- yet whether he invokes those powers is a another question.

Treasury Secretary Steven Mnuchin, speaking on “Fox News Sunday” from the Group of Seven meeting in Biarritz, France, said Trump would have the ability under the International Emergency Economic Powers Act, if he declared an emergency. White House economic director Larry Kudlow agreed, in an interview on CNN’s “State of the Union,” but said “there’s nothing right now in the cards” to do so.

Tuesday, August 27, 2019

EUA: auto-organização popular contra as deportações

When ICE Comes for Their Neighbors, These Community Defense Brigades Will Be Ready, por Elizabeth King (In These Times):

In the era of Trump, communities are organizing foot and bike patrols to protect their neighbors against immigration raids.

Monday, August 26, 2019

As "assembleias populares" em Porto Rico

Puerto Ricans Hold Town Assemblies To Figure Out Next Steps Following Rosselló's Exit, por Adrian Florido (NPR):

After Puerto Rico Gov. Ricardo Rosselló left office, the protesters who forced him out are trying figure out what's next. They're organizing "people's assemblies" on town squares across the island.

Sunday, August 25, 2019

Reino Unido : suspender a democracia parlamentar por 5 semanas

Boris Johnson seeks legal advice on five-week parliament closure ahead of Brexit (The Guardian / The Oberver):

Boris Johnson has asked the attorney general, Geoffrey Cox, whether parliament can be shut down for five weeks from 9 September in what appears to be a concerted plan to stop MPs forcing a further extension to Brexit, according to leaked government correspondence.

Saturday, August 24, 2019

Presidente sul-americano a incentivar queimadas na floresta

Evo justifica las quemas: 'Las pequeñas familias, si no chaquean, ¿de qué van a vivir?' (EL DEBER, Noticias de Bolivia y el Mundo):

Plataformas medioambientales piden la derogación de las normas que autorizan el desmonte y las quemas. El presidente Evo Morales dice que si bien hay "necesidad" de quemar la tierra, está dispuesto a debatir

Thursday, August 22, 2019

Raízes da "nova direita" brasileira

The New Brazilian Right, por Nick Burns (American Affairs*), uma análise aparentemente aprofundada das ideias e percursos de Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo e de um Bruno Tolentino (de que eu nunca tinha ouvido falar).

O artigo apresenta Ernesto Araújo como uma espécie de William F. Buckley brasileiro, tentando unir liberais e conservadores, e isso fez-me lembrar algo que já me tinha passado pela cabeça: embora seja frequente (a começar pelos próprios) apresentar Bolsonaro como parte do mesmo fenómeno que Trump, Salvini ou Orbán, a mim parece-me que Bolsonaro em muito aspetos é mais uma variante, não do trumpismo, mas do conservadorismo norte-americano pré-Trump - o governo Bolsonaro parece uma versão extremada da combinação "fusionista" de liberalismo económico, conservadorismo social e militarismo, enquanto Trump e os seus congéneres europeus parecem (pelo menos na retórica) nem valorizar muito o liberalismo económico. Aliás, a sociologia dos fenómenos parece confirmar isso - enquanto Trump tem o seu maior apoio entre a classe operária branca, no Brasil parece ter sido a elite instruída que mais apoiou Bolsonaro (pelo menos em termos relativos).

*A American Affairs é uma revista mais ou menos nacional-conservadora

Wednesday, August 21, 2019

A questão da fronteira Irlanda do Norte / Irlanda

The Irish Border and Backstop Explained, por  Dmitry Grozoubinski.

Efeitos inesperados da co-gestão

Companies Might Be Smarter With Workers in the Boardroom, por Noah Smith (Bloomberg):

Referred to as co-determination, this policy -- which has been proposed in the U.S. by Senator Elizabeth Warren -- is often touted as a way to give workers more power to demand better wages and benefits. But its primary benefit might be improving corporate productivity.

A number of economic studies have found this surprising effect. For example, there’s evidence that the 1976 reform boosted total factor productivity at companies subject to the new law. Worker board representation also probably improved shareholder value -- an ironic outcome for a policy that reduces shareholder control. Economists generally cite greater worker input as the reason for these improvements.

Now, a new paper by economists Simon Jäger, Benjamin Schoefer and Jörg Heining sheds even morelight on the issue. Studying a 1994 German reform that abolished mandatory worker  representation for some new smaller companies but locked it in permanently for older ones, the authors found that the companies that were forced to keep workers on the board ended up investing more in fixed capital (buildings, machines, etc.), and becoming more capital-intensive. This added capital, they concluded, raised value added per worker.

Interestingly, Jäger et al. did not find that co-determination had much effect on wages. They were unable to detect any change in the difference between the compensation of lower-end workers and top management, or in the division of income between shareholders and labor. In other words, they found that the main effect of worker representation was not to redistribute the corporate pie, but simply to expand it.

Saturday, August 17, 2019

Manifesto Sindical: “Pela Liberdade e pelo Direito à Greve”

Publicado originalmente na edição do Expresso de 17-08-2019, aqui.
 
No preâmbulo da Constituição da República Portuguesa, onde é exaltado que no dia 25 de Abril de 1974 a resistência do povo português representou uma viragem histórica na sociedade portuguesa.
É ainda aí referido que só foi possível elaborar uma Constituição que correspondesse às aspirações do país devido à Revolução que restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais

A finalizar, menciona ainda o seguinte: “A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno”.

Desde o passado dia 12 de Agosto que temos vindo a observar a luta dos motoristas contra o poder da ANTRAM, a qual tem conseguido condicionar as decisões do Governo.

Por tudo o que se tem passado, não aceitamos que o Governo de Portugal restrinja a liberdade dos Trabalhadores quando estes lutam por melhores condições de trabalho, tal como não iremos ficar impávidos e serenos perante a tentativa do Executivo de restringir o direito à greve, protegendo quem tem mais apoios, inclusive estatais, (Entidades patronais) em detrimento daqueles que lutam dia a dia para o seu sustento e da sua família (Trabalhadores).

Acresce que estamos a falar de trabalhadores que ergueram um novo sindicato em 2018, sem experiência sindical ou politica, e que apenas exigem melhores condições de trabalho, para que sejam cumpridos os desígnios da Assembleia Constituinte que escreveu a Constituição da República Portuguesa, nomeadamente, entre outros direitos, que todos os portugueses sejam tratados por igual, que a lei também seja aplicada às entidades privadas, que o direito à resistência seja protegido quando são atacados os seus próprios direitos, que seja garantido o direito à inviolabilidade da integridade moral, física e do domicilio, e à liberdade e segurança individuais.

Por considerarmos que todos estes direitos foram colocados em causa por um Governo que no presente caso demonstrou várias vezes querer impor à força a manutenção dos lucros exorbitantes das entidades privadas, nomeadamente e em particular da empresa de transportes Paulo Duarte, da Galp e da Vinci, em detrimento de melhores condições de trabalho, estamos dispostos a lutar contra todas as forças que recusem os princípios basilares da nossa Constituição acima mencionados.

E tal como nela está previsto, nenhum trabalhador pode aceitar continuar a receber salários que não garantam uma existência condigna e o trabalho tem que ser prestado em condições socialmente dignificantes, por forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da actividade profissional com a vida familiar.

Com certeza a grande maioria dos portugueses se reveem nestas palavras, pois actualmente vivemos numa sociedade onde ganhar o salário mínimo é o normal e caso alguém se revolte contra isso recebe uma resposta do tipo “se não queres, há mais quem queira”, onde não conseguimos ter tempo suficiente e de qualidade para os nossos filhos, para que estes possam receber os nossos valores e princípios, onde quem luta por melhores condições de trabalho é impedido de o fazer por governos totalitários ou por outros cidadãos que, por estarem tão oprimidos, têm medo de lutar pelos seus direitos e acabam por prejudicar quem tem a coragem de o fazer.

Por tudo o acima exposto, queremos  continuar a defender a garantia de liberdade dos trabalhadores e lutaremos contra quem queira restringir o direito à greve e consequentemente o direito de quem quer lutar por melhores condições de trabalho, sociais e familiares.

Vamos continuar a combater as desigualdades sociais que observamos a crescer dia após dia.
Portugal merece melhor e os portugueses não podem continuar adormecidos.

Será caso para dizer, citando Eduardo Galeano “na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”.

António Mariano – Dirigente da SEAL; Aurora Lima – Dirigente do S.T.O.P.; Bruno Fialho – Dirigente do SNPVAC; Carlos Ordaz – Elemento da CT SPdH/Groundforce; Egídio Fernandes – Dirigente do SIEAP; João Reis – Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Sector Automóvel – STASA; Manuel Afonso – Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores de Call-center; João Pascoal – Movimento Mudar Bancários

[Copiado d'O Estivador]

Thursday, August 15, 2019

Há 50 anos, em Woodstock

Wednesday, August 14, 2019

Os filhos dos "Millenials", à beira de comçarem a entrar na adolescência

Meet Generation Alpha, the 9-year-olds shaping our future, por Ursula Perano:

They're tech heavy, extremely connected and the most senior among them is about 9 years old. Say hello to Generation Alpha. (...) According to McCrindle, a social research agency in Australia, Generation Alpha got its start in 2010, at a rate of 2.5 million births per week. They are primarily the children of Gen Y — Millennials born between 1980 and 1995.

Tuesday, August 13, 2019

O fim do direito à greve

A Lei Da Greve Até Pode Continuar A Existir Formalmente…, por Paulo Guinote:

mas na prática morreu. Como naqueles regimes em que existem formalmente eleições, mas em que os resultados calham sempre à casa, neste momento só existirão greves, no sector público ou privado, quando não perturbar quem manda nos cordelinhos dos serviços máximos e da requisição civil (ou dos militares)

Friday, August 09, 2019

O Reino Unido pode sair da UE a 31 de outubro se o parlamento não quiser?

Can Boris Johnson ignore parliament and force a no deal Brexit?, por Meg Russell e Robert Hazell
(Constitution Unit at the Department of Political Science at University College London).

Para uma visão mais cética, Nothing Compares 2 GNU, por "Phil" (A Very Public Sociologist).

Tuesday, August 06, 2019

A suspensão da democracia parlamentar no Reino Unido por uns tempos - post não-sei quantos sobre o assunto

Brexit: Legal bid to prevent Boris Johnson shutting down parliament (BBC):

A group of politicians has started a legal action aimed at preventing Boris Johnson shutting down parliament to force through a no-deal Brexit.
Sinceramente, pelo que tenho lido acerca do Boris Johnson, não parece nada o tipo de pessoa para fazer o que seria um quase-golpe de Estado (parece-me demasiado bonacheirão e inconstante para isso).

A Elsevier versus o Sci-Hub

Elsevier: "It's illegal to Sci-Hub." Also Elsevier: "We link to Sci-Hub all the time", por Cory Doctorow (Boing Boing):

Yesterday, I wrote about science publishing profiteer Elsevier's legal threats against Citationsy, in which the company claimed that the mere act of linking to Sci-Hub (an illegal open-access portal) was itself illegal.

You'll never guess what happens next.

Elsevier's own journals turn out to be full of links to Sci-Hub.

Monday, August 05, 2019

Voar de avião prejudica necessariamente o ambiente?

Greta, It’s OK to Fly, por Tyler Cowen (Bloomberg):

Greta Thunberg, the 16-year-old Swedish climate activist, recently announced that she will cross the Atlantic Ocean by boat to attend a United Nations global warming summit in New York. She does not believe in flying in airplanes, for the obvious reason that air travel is a contributor to the carbon emissions problem.

I am here with a simple message: Greta, it is OK to fly. Indeed, I encourage you to fly. (...)

But flying isn’t the worst offender when it comes to sources of carbon emissions. Some critics suggest flying accounts for 5% of the world’s carbon emissions, but most estimates put aviation’s share at closer to 2%. Whatever the exact number may be, it is hardly the major problem. (...)

If that isn’t enough for Thunberg, she could ask the airline to let her fly only if there are extra seats on the flight.  (...)

Or think more broadly about how to choose one’s symbolic commitments to combat climate change. Buying a carbon offset, verifiable by an independent third party, seems like a good practical step.
[Eu linkar um artigo não indica necessariamente concordância]

Saturday, August 03, 2019

Causa-efeito entre problemas económicos e estilos de vida desestruturados (II)

Stop Blaming America’s Poor for Their Poverty, por Noah Smith (Bloomberg):

In Japan, people work hard, few abuse drugs, crime is minimal and single mothers are rare. The country still has lots of poverty.
What Noah Smith Gets Wrong about Poverty, por Kevin Williamson (National Review):
Noah Smith has offered a stale slab of conventional wisdom under the hectoring headline: “Stop Blaming America’s Poor for Their Poverty.” The essay compounds sloppy thinking with tedious writing, but it reflects a common line of thinking, the defects of which are worth taking the time to understand.
Why Kevin Williamson is wrong about poverty and bad behavior, por Noah Smith (Noahpinion):
Kevin Williamson of the National Review took issue with my post. In a strongly worded rebuttal, he calls my piece "a stale slab of conventional wisdom", "sloppy thinking", "tedious writing", a "mishmash of tendentious platitudes and misunderstood truisms", and "sloppy analysis, if it counts as analysis at all." Yet despite this vitriol, Williamson fails to substantively rebut any of the points I made. In some cases, his arguments contain logical errors; in others, he simply misunderstands my argument.
Beyond victims and villains, por Scott Sumner (Econlog):
I would suggest replacing the victims and villains approach to poverty with a utilitarian approach. One implication might be to adopt low wage subsidies, which both encourage people to work and also boost the welfare of those who do work. This type of economic policy can make the economy more productive by encouraging employment, and also make it more equitable by boosting the incomes of the poor. I believe that both the US and Japan could benefit from this approach.

Friday, August 02, 2019

Re: Identidade: uma palavra incontornável e perigosa


N' A Destreza das Dúvidas, José Carlos Alexandre escreve sobre as chamadas "políticas da identidade"; alguns comentários meus (pegando nos que fiz no post e desenvolvendo nalguns pontos):

No ocidente,durante quase todo o século XX, os partidos situaram-se num espectro daesquerda à direita – comunistas, socialistas, social-democratas,democratas-cristão, liberais, conservadores. O desejado grau de intervenção do Estado e o empenho na igualdade ou na liberdade individual serviam para situar os partidos (e as pessoas) mais à esquerda ou mais à direita.

O próprio facto de os conservadores estarem à direita dos liberais [e mesmo os democratas-cristãos por vezes são considerados como estando à direita dos liberais – no PE o grupo Liberal e o grupo do PPE foram trocando de lugares ao longo dos anos], apesar dos primeiros serem mais estatistas e (sobretudo) menos individualistas de que os segundos parece demonstrar que não era o “desejado grau de intervenção do Estado e o empenho na igualdade ou na liberdade individual” que distinguia a direita da esquerda, mas sim outra coisa qualquer (se quisermos um critério em que consigamos pôr anarquistas, comunistas e socialistas de um lado e democratas-cristãos, conservadores e fascistas do outro, com liberais no meio, para mim o mais certeiro será mesmo “a culpa é da sociedade” versus “a vida - pelo menos nesta existência terrena - é dura”; Rousseau contra Hobbes; já essa tal conversa de “igualdade versus liberdade” , e sobretudo a parte da “liberdade” não faz grande sentido porque só é válida no sub-intervalo que vai de comunistas a liberais, mas não nem à esquerda desse intervalo – os anarquistas são mais libertários que os comunistas – nem à direita – democratas-cristãos, conservadores e fascistas são menos libertários que os liberais).

Poderá se dizer que a conversa da igualdade versus liberdade é uma "simplificação", mas a mim parece-me uma "simplificação" que complica mais do que simplifica: numa cultura anglo-saxónica, talvez passe como simplificação (e dá-me a ideia que há realmente uma fração desproporcionada de pessoas com uma formação anglo-saxónica entre quem vem com essa ideia), mas numa cultura latina só gera uma enorme confusão, porque na tradição política dos países latinos (e/ou de dominação cultural francesa) a palavra "direita" evoca sobretudo Salazar, Franco (e o "campo nacional" da Guerra de Espanha), os "absolutistas" do século XIX, a Action Française, o catolicismo ultramontano, os fascismos e autoritarismos do período entre guerras, as juntas militares da América Latina do tempo da Guerra Fria, a defesa da "Argélia Francesa" ou do "Portugal do Minho a Timor", etc. ou na melhor das hipóteses alguns políticos democráticos que apresentavam como principal cartão de visita serem "líderes fortes acima de partidos e ideologias" e que eram frequentemente acusados pela oposição de serem "autoritários" (como De Gaulle ou mesmo o nosso Cavaco Silva). Basicamente, se formos pegar na tipologia que divide a direita entre "legitimista" (tradicionalista, monárquica, católica...), "bonapartista" (populista, culto do líder carismático...) e "orleanista" (liberal), eu diria que as tradições dominantes no mundo latino são (ou pelo menos eram até há muito pouco tempo) a "legitimista" e a "bonapartista", enquanto a "orleanista" era secundária; logo, uma definição de "direita" que usa como referência a menos relevante das direitas (a liberal) acaba por gerar é confusão (definir direita de uma certa maneira e depois dizer que quase todas as direitas que existiram são exceções é tudo menos simplificar).

A credibilidade do socialismo marxista caiu nas ruas da amargura quando deixou de ser possívelignorar ou disfarçar o que se passava em regimes grotescos como a UniãoSoviética. Há muito que a própria social-democracia começou a ser questionada. (…)A esquerda começou então a voltar-se para as reivindicações identitárias.”

Se alguma coisa, acho que foi ao contrário – quanto questões como os direitos das mulheres, dos jovens ou das minorias étnicas ou sexuais começaram a entrar na moda foi naquele período que vai basicamente do assassinato de Kennedy à queda de Saígão (e que é muitas vezes chamado de “anos 60”, embora seja mais 63-75) , um período em que o “estado social” parecia estar de pedra e cal e mesmo o comunismo soviético, apesar de Praga, estava a ganhar terreno pelo mundo inteiro, com os “dominós” a caírem sucessivamente, e mesmo os esquerdistas dissidentes andavam embeiçados por Cuba, China ou Vietname em vez de rejeitarem mesmo o “socialismo realmente existente”; suspeito que até foi a força (e não a crise) do estado social nessa altura que levou a esquerda mais radical a se virar para as “políticas identitárias”/”causas fraturantes”: como a classe operária* estava aparentemente contente, e de qualquer maneira até De Gaulle e Nixon eram uma espécie de “social-democratas”, tiveram que ir à procura de outros nichos de mercado.

A identidade é um conceito moderno.

As dúvidas sobre a identidade serão um conceito moderno; mas “identidade” no sentido de pertença a grupos específicos (que é o sentido usado em “políticas de identidade”) até me parece do mais pré-moderno que há, em que as pessoas viam-se largamente em função de coisas como a aldeia, a família alargada, o clã, a tribo, a profissão, etc; em larga medida, as revoluções industrial e francesa o que fizeram foi quebrar essas micro-comunidades para deixar só o individuo (ou quando muito a família nuclear) e a humanidade (ou quando muito o Estado-Nação).

Martin Luther King lutava por uma sociedade que tratasse os negros exactamente da mesma forma que tratava os brancos, em que a cor da pele não contasse. Não foi essa a corrente que prevaleceu.

Não sei se nessa suposta diferença entre correntes não haverá uma certa confusão entre juízos de valor e juízos de facto. Basicamente, há quatro opiniões possíveis sobre esses assuntos relacionados com discriminação de grupos:

a) As pessoas X [mulheres, negros, LGBT, neurodiversos, etc] não são tratadas como as outras e deviam ser

b) As pessoas X não são tratadas como as outras nem devem ser

c) As pessoas X são tratadas como as outras e devem ser

d) As pessoas X são tratadas como as outras e não deviam ser

(a + b) e (c + d) concordam nos juízos de facto e (a + c) e (b + d) concordam nos juízos de valor.

Um problema aqui é que os “c” tendem a achar que os “a” são “d” disfarçados (“Só eles é que ligam alguma coisa a raças; dizem que são anti-racistas mas eles é que estão a querer dividir as pessoas em raças”) e os “a” acharão que os “c” são “b” disfarçados (“Vêm com essa conversa que são colorblind para terem uma desculpa para fingir que não vêm o racismo que domina a nossa sociedade”). Ora, muita dessa conversa de que o MLK queria uma coisa e os atuais anti-racistas, feministas, etc. querem outra não será uma ilusão? Isto é, se forem todos “a” mas um observador externo achar que havia muito racismo há umas décadas mas não tanto hoje em dia (ou seja, esse observador se se considerar “a” em respeito a 1965 mas “c” no mundo atual), ele achará que os anti-racistas de 1965 eram “a” e os atuais são “d”, vendo uma diferença ideológica onde ela não existe realmente.

E parece-me que grande parte dos movimentos anti-racistas, feministas, atuais, mesmo os mais radicais, não apresentam as diferenças entre raças, sexos, etc. como algo normativamente desejável (veja-se a popularidade recente nesses meios da expressão “pessoas racializadas”, que me parece ter implícito reforçar a ideia que a raça é algo que é imposto pela sociedade e não algo de natural), mas sim como algo que existe, e que para ser combatido implica mobilizar o lado oprimido contra o opressor (tal e qual como no marxismo tradicional se defende a “consciência de classe”, apela-se à mobilização dos trabalhadores e se criam organizações com “Operário/Proletário/dos Trabalhadores” no nome, não porque se queira perpetuar a divisão da sociedade em classes, mas como um meio para acabar com ela*).

a esquerda deixou de pensar em políticas sociais ambiciosas que pudessem ajudar os pobres, pobres que incluem milhões de “homens brancos”, a antiga “classe trabalhadora”, gente considerada agora “deplorável” e que, muitas vezes em desespero, vota em Trump e quejandos. O Affordable Care Act de Obama – susceptível de muitas críticas, é certo - foi uma excepção neste cenário.”

E (ficando nos EUA) o Medicare 4 All, o aumento do salário mínimo, a universidade gratuita, as propostas de co-gestão e de reforço dos sindicatos, a job gurantee, etc, etc, etc, mesmo o Green New Deal, pelo que tenho lido, é mais um programa de “subornos” destinado a obter clientela eleitoral para as políticas ambientais do que um programa ambiental em sentido estrito. Indo para a Europa, quais são as principais bandeiras da esquerda? A principal é o “combate à austeridade”, e outra quem tem vindo a ganhar tração é o Rendimento Básico Incondicional.

Eu até diria que hoje em dia a esquerda internacional quase que só fala de duas coisas: economia e ambiente (nem que seja porque nas chamadas “políticas da identidade” se calhar já foi atingido quase tudo o que era para se atingir); já a direita é que vive obcecada pelas guerras culturais; eu vejo isso na internet – os sites de esquerda que eu costumo ler falam principalmente de economia ou da luta de classes tradicional; os de direita vivem quase completamente obcecados por assuntos como “revista académica feminista publicou artigo sobre a masculinidade dos icebergs”, casas de banho, “boas festas” vs. “feliz natal”, “ideologia do género”, etc. (claro que isso racionalmente faz sentido: o programa económico da esquerda é popular, o cultural nem tanto – logo é natural que a esquerda tenda a enfatizar a economia e a direita a cultura).

Mas admito que pode haver aqui um problema cronológico – talvez o Fukuyama tenha escrito o seu livro largamente antes da projeção atual de Bernie Sanders, Corbyin, Elizabeth Warren, Alejandra Ocasio-Cortez, e já agora da “geringonça” em Portugal (e, mesmo que na prática tenha sido só por 9 meses, da vitória do Syriza na Grécia), que, cada qual à sua maneira, representaram um regresso de uma esquerda socialista ou quase na economia e não apenas progressista nos costumes (mas de qualquer maneira dá-me a ideia que desde a crise de 2008 que houve um regresso à infra-estrutura na esquerda, ou até antes disso)

E também pode ser idiossincrasia da minha parte - como as minhas leituras de esquerda na internet são largamente uma combinação de economistas de centro-esquerda (Krugman, Chris Dillow, Noah Smith, Simon Wren-Lewis, etc.) e de organizações ou sites de extrema-esquerda (International Viewpoint / IV Internacional, Libcom, Corrente Comunista Internacional, etc.) que (por mais importância que dêem às "causas fraturantes") acham que em última instância será sempre a luta do proletariado que vai derrubar o capitalismo, é natural que tanto uns como os outros (ainda que por razões completamente diferentes) falem bastante de economia e/ou de luta de classes. Se eu costumasse ler regularmente o Everyday Feminism ou o Bully Bloggers se calhar poderia ter uma opinião diferente (nota - de qualquer maneira, dando uma volta pelo Everyday Feminism, encontro logo um artigo dizendo "Because race shouldn’t matter, but it does matter", que era exatamente o que disse ali atrás sobre o que me parece ser a posição dominante nos meios anti-racistas, feministas, etc. mais radicais).

[Um aparte acerca dos “deploráveis” – achar que não se deve considerar machistas, racistas e homofóbicos como “deploráveis” porque alguns podem pertencer à classe trabalhadora parece-me não fazer grande sentido; por essa ordem de ideias não se podia qualificar negativamente nada, porque corríamos sempre o risco de apanhar alguém da classe trabalhadora nessa qualificação negativa; p.ex., aposto que na Europa os pais que mandam mutilar genitalmente as filhas também pertencem largamente à classe trabalhadora]

* Um dia alguém há de me explicar porque é que o “obreirismo” da esquerda tradicional também não conta como “política de identidade”

Thursday, August 01, 2019

A praga dos podcasts

Have We Hit Peak Podcast?, por Jennifer Miller (New York Times):

It’s no wonder that the phrase “everyone has a podcast” has become a Twitter punch line. Like the blogs of yore, podcasts — with their combination of sleek high tech and cozy, retro low — are today’s de rigueur medium, seemingly adopted by every entrepreneur, freelancer, self-proclaimed marketing guru and even corporation. (Who doesn’t want branded content by Home Depot and Goldman Sachs piped into their ears on the morning commute?) There are now upward of 700,000 podcasts, according to the podcast production and hosting service Blubrry, with between 2,000 and 3,000 new shows launching each month. In August William Morrow will publish a book by Kristen Meinzer, a co-host of the popular “By the Book” podcast. Its title: “So You Want to Start a Podcast.”
E para uma visão (que me parece) oposta, Peak Podcast and the Purpose of Online Publishing, por Robert Sharp.

Tuesday, July 30, 2019

Causa-efeito entre problemas económicos e estilos de vida desestruturados

Paul Krugman:

What Wilson argued, however, was that social dysfunction was an effect, not a cause. His work, culminating in the justly celebratedbook “When Work Disappears,” made the case that declining job opportunities for urban workers, rather than some underlying cultural or racial disposition, explained the decline in prime-age employment, the decline of the traditional family, and more.

How might one test Wilson’s hypothesis? Well, you could destroy job opportunities for a number of white people, and see if they experienced a decline in propensity to work, stopped forming stable families, and so on. And sure enough, that’s exactly what has happened to parts of nonmetropolitan America effectively stranded by a changing economy.

Friday, July 26, 2019

Comparando AOC com Trump

AOC explained: A digital performer enters the political stage, por Martin Gurri:

From one perspective, Alexandria Ocasio-Cortez is the second coming of Donald Trump.  By this I mean that she surfed the same structural forces to Congress that swept Trump into the White House.  These forces can be characterized, very roughly, as the escape of information from institutional control and the desire of an angry public to overturn the established order.  AOC, like Trump, communicates digitally, and thus directly, with the public, somersaulting over institutional gate-keepers like the media and Democratic Party elders.  And as with Trump, AOC’s digital voice has struck a chord with the millions who follow her online.

Politically, of course, she’s the anti-Trump

Taxas de juro negativas e positivas

Joe Weisenthal: "People saying that negative rates aren't natural. I'd argue that in the state of nature, negative rates are the norm (paying people to store and preserve your stuff). Positive rates are the weird deviation."

Thursday, July 25, 2019

Wednesday, July 24, 2019

Entretanto, no Brasil

Policiais interrompem reunião que planejava ato contra Bolsonaro em Manaus (Folha de São Paulo, cópia aberta aqui):

Três agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) entraram na sede do Sinteam (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Amazonas) durante reunião de movimentos sociais que organizam um protesto na visita do presidente Jair Bolsonaro (PSL) nesta quinta-feira (...)

A presidente do Sinteam, Ana Cristina Rodrigues, disse que "na história do movimento sindical do Amazonas, em que um presidente visita o estado, é a primeira vez que agentes federais vêm para interromper uma reunião e tomar informações a respeito do que está ocorrendo nela".

O trilema do Brexit

"Exame de Português confrontou alunos com excerto de Os Lusíadas que não consta do programa"

E depois? É o que eu penso quando vejo noticias destas; se considerarmos que o objetivo é ensinar as pessoas a interpreta textos, até poderiam por no exame um autor que não constasse do programa.

Tuesday, July 23, 2019

O nacionalismo húngaro e a romantização da Ásia Central

Hungarian Nationalism And The Ghosts Of Turan, por Razib Khan

Hungary is unique in Europe because the people speak a language that is only related to two groups in western Siberia, the Mansi, and Khanty. Most linguists place these Ugric languages as a distant sister clade to the Finno-Permic group. But it seems incontrovertible that the modern Magyar people are culturally descended from a group of people who were in close association with various Turkic nomads (e.g., the Khazars) in the lower Volga region. Their migration westward seems to have recapitulated the movement of the ancient Huns, who were likely Turkic. Additionally, not only did the Magyar tribes absorb Turkic tribes as they moved out of Khazar territory but in later centuries gave they refuge to Turkic groups fleeing the Mongols.

The Turanism described in the article is a real thing, but much of it seems to consist of the co-option of the lifestyle of the Altaic nomadic peoples, Turks, and Mongols, to add glamor to Hungarian history. In fact, the inclusion of groups such as Scythians and Sarmatians (Indo-European Iranians) indicates that what is common is not descent or ethnolinguistic affinity, but a lifestyle. It’s the lifestyle and ethos that Christopher Beckwith writes about in Empires of the Silk Road. (...)

This reality, that what Turanism celebrates is the idealization of brutal martial past, mitigates the fact that genetically modern Magyars descend overwhelmingly from the conquered, not the conquerors. The conquest elites did have an eastern affinity. But the best recent data indicates that modern Hungarians are only a few percent enriched for this ancestry. Rather, the ancestors of modern Hungarians probably are Slavic peasants as well as the post-Roman peoples of Pannonia.
The Call of the Drums - Hungary’s far right discovers its inner barbarian, por  Jacob Mikanowski (Harper's Magazine):
The Great Kurultáj, an event held annually outside the town of Bugac, Hungary, is billed as both the “Tribal Assembly of the Hun-­Turkic Nations” and “Europe’s Largest Equestrian Event.” When I arrived last August, I was fittingly greeted by a variety of riders on horseback: some dressed as Huns, others as Parthian cavalrymen, Scythian archers, Magyar warriors, csikós cowboys, and betyár bandits. In total there were representatives from twenty-­seven “tribes,” all members of the “Hun-­Turkic” fraternity. The festival’s entrance was marked by a sixty-­foot-­tall portrait of Attila himself, wielding an immense broadsword and standing in front of what was either a bonfire or a sky illuminated by the baleful glow of war. He sported a goatee in the style of Steven Seagal and, shorn of his war braids and helmet, might have been someone you could find in a Budapest cellar bar. A slight smirk suggested that great mirth and great violence together mingled in his soul.

Inside, I watched a procession of riders—Azeris, Avars, Bashkirs, Chuvashes, Karakalpaks—take turns galloping around the amphitheater, a vast oval of trampled earth. Then, after each brother nation had been announced, the Battle of Pozsony began. Four hundred and fifty-four years after Attila’s death, in 907, a Frankish army came charging out of Bavaria into the heart of the nascent Hungarian kingdom. The Hungarians beat them with an old nomad trick: they fooled the Franks into thinking they were on the retreat, wheeled around at the last second to spring a trap on their unsuspecting foes, and showered them with arrows when they were too close to escape. The original bloodbath took place over the course of three days, but that day at the festival the Hungarian troops needed to wrap things up in thirty-five minutes. (...)

This is the key to the political message behind the Kurultáj: that the truth of the Hungarian past has been suppressed, obscuring the Hungarian people’s origins as a nomadic race of pagan warriors, born for conquest but forced into submission by treacherous neighbors, liberal ideologues, even Christianity itself. Given its nationalist orientation, it’s no surprise that the Kurultáj was established in close association with Jobbik, Hungary’s one­time ultra-nationalist political party. (It has since slightly tempered its message.) Today, the festival’s patron is Fidesz, the party of Prime Minister Viktor Orbán, which now occupies the rightmost spot on the political spectrum. Fidesz gives the event around a million euros a year, which is the reason admission is free and why, in the absolute middle of nowhere, it takes an hour of waiting in traffic to get in. (...)

By the end of the nineteenth century, the search for Hungary’s Hunnic past had gradually coalesced into a theory called Turanism. (The name ultimately derives from Old Persian, in which Turan meant something like “the land of darkness” and designated a fringe region of the Sassanid Empire inhabited by unruly nomads.) Part political movement and part religious revival, Turanism was big-­tent nationalism in the style of pan-­Slavism and pan-­Germanism, born of Hungary’s nineteenth-­century imperial ambitions. It held that the Hungarian people hailed from Asia, were related to Turks and other Central Asian peoples, and that their nomadic and pagan history should serve as the basis for Hungary’s cultural life and foreign policy, rather than being subordinate to the concerns of their nominal Austrian Hapsburg overlords.

After Austria-­Hungary’s defeat in World War I, Turanism became an ideology of resentment, serving as inspiration to Hungarian fascist movements. It offered a way for Hungarians to become equal competitors in the racialized violence of the inter­war years—in a world in which Nazis were proclaiming their historic mission as leader of the Aryan nations, it made sense for Hungary to cast a wide net in search of friends. In the Turanist imaginary, Bulgaria, Turkey, and Japan were all possible allies whose support could be used to claw back the greatness (and territory) that had slipped away after Hungary’s defeat. Beginning with the postwar communist takeover of Hungary, however, Turanism was banned. (...)

Since Orbán and Fidesz came to power for a second time, in 2010, Turanism has been made into something of an official ruling ideology, with little room for dissent.(...)

Under Orbán, Hungary has also pursued something like a Turanist foreign policy, seeking strategic partnerships with the governments of Kazakhstan, Turkey, and Azerbaijan. At a meeting of Turkic-­speaking states held in Kyrgyzstan last fall, the prime minister declared that “Hungarians consider themselves late descendants of Attila, of Hun-­Turkic origin.” That same day, Zsolt Bíró, the Kurultáj founder and head of the Hungarian Turan Foundation, was on hand to lead Hungary’s delegation at the World Nomad Games in Kyrgyzstan. (The Hungarian team, whose specialty is mounted archery, won 12 medals—an impressive showing, though far behind Kyrgyzstan’s 103.)
Aparentemente, esse festival (o "Kurultáj")[1] teve a participação de azeris, avares, basquires, búlgaros, bálcaros, buriates, chuvaches, gagaúzes, cabardinos, carachais, caracalpaques, cazaques, madjars, quirguizes, cumiques, mongóis, nogais, uzbeques, madzsares[2], tártaros, turcos, tuvanos, uigures, iacutos e, claro, húngaros. .

Uma coisa que me desperta a atenção nisto é que se por um lado o governo húngaro até gosta de cultivar a imagem de defensor da Europa e da Cristandade contra uma suposta invasão islâmica, por outro parece ter adotado uma ideologia que até vê a Hungria como mais asiática do que europeia e que considera como aliados naturais muitos povos que até são atualmente muçulmanos.

Um aparte - nomeadamente nas redes sociais, há quem diga que a Hungria é contra a imigração islâmica porque terá a memória da dominação pelos turcos muçulmanos; mas Viktor Orbán não deve ter nenhuma memória da opressão turca - ele é protestante, e os protestantes húngaros eram aliados dos turcos nos tempos das guerras entre o Império Otomano e a Aústria (em compensação os tártáros muçulmanos da Polónia - os antepessados do Charles Bronson... - combatiam ao lado da Aústria católica).

Diga-se que em praticamente todos os livros que falam do assunto que passei os olhos é apresentado como um facto que existirá um grupo linguístico chamado "uralo-altaico", que se subdividiria em "línguas urálicas" (que se sub-subdividiria em línguas fino-úgricas - finlandês, húngaro, estónio, lapão, etc. - e samoiedo) e "altaicas" (línguas turcas, mongóis e tungúsicas, e talvez até mesmo o coreano e o japonês); em compensação, na internet (nomeadamente na wikipédia) o "uralo-altaico" é apresentado como uma hipótese totalmente abandonada e mesmo o "altaico" como algo largamente abandonado; o que concluo disso é que no século XX (quando os livros foram escritos) era considerado ponto assente um "parentesco" (se não biológico - a ideia de que os finlandeses seriam mongóis louros de olhos azuis nunca deve ter sido muito levada a sério - pelo menos cultural) entre húngaros, finlandeses, turcos, mongóis e mais uma carrada de povos da Ásia central e da Sibéria, e que no século XXI terá sido abandonada (abandono esse que já se vê na internet); de qualquer maneira, isso significa que a teoria dos nacionalistas húngaros de que serão parentes dos turcos e dos mongóis não será assim tão exótica como o artigo da Harper's dá a entender, já que isso seria quase o consenso no século passado.

Já agora, ver também Os nazis mongóis - combinação absurda?

[1] enquanto escrevia este post estava-me a a tentar lembrar de onde conhecia este nome; entretanto lembrei-me: foi (com uma grafia ligeiramente diferente) num livro sobre o Gengis Khan, em referência à assembleia dos chefes tribais mongóis

[2] parece ser uma tribo do Usbequistão tão obscura que mal se encontra referências a ela além desse festival; provavelmente é convidada por causa do nome (tal como os madjars do Casaquistão), que sendo parecido com "magiar" serve para dar apoio à teoria de que os húngaros são parentes dos povos turcos e mongóis

EUA alarga deportações sumárias

De acordo com novos regulamentos[pdf], o ICE (o SEF norte-americano) vai passar a ter poder para deter e expulsar dos EUA (sem ter que ir a tribunal nem nada) qualquer estrangeiro que tenha entrado nos EUA nos últimos dois anos e em qualquer área do país (até agora, isso só se aplicava a quem tivesse entrado nas últimas duas semanas e estivesse a menos de 100 milhas da fronteira). Sim, supostamente isso só se aplica a quem tenha entrado ilegalmente, mas é o acusado que tem que provar que entrou legalmente (ou que está nos EUA há mais de dois anos), num processo em que os agentes do ICE são ao mesmo tempo acusadores e juizes, sem intervenção dos tribunais, e em que alguém pode ser expulso dos EUA antes que tenha tempo de provar que o novo decreto não se aplica a ele. Como alguém escreveu no Twitter, "[f]or those of you that have brown, black, mocha, olive, or yellow skin, now you'll need ID to buy groceries. Those from Norway, Finland, or carrying a Tiki Torch need not be concerned".

Há quem diga que isso pode permitir até deportar cidadãos norte-americanos que não consigam rapidamente provar que são cidadãos, ainda mais tendo em consideração casos como este.

A esquerda armada dos EUA

‘If others have rifles, we’ll have rifles’: why US leftist groups are taking up arms (The Guardian):

Armed antifascists groups say they want to protect events from malicious and potentially armed groups – an increasingly common phenomenon

Monday, July 22, 2019

Socialistas, liberais e fascistas


- "Vocês não passam todos de materialistas decadentes que só falam em direitos e não em deveres"
- "Vocês não passam todos de defensores dos ricos, em busca de desculpas para justificar a desigualdade e os privilégios"
- "Vocês não passam todos de coletivistas que querem acabar com o carácter único de cada individuo"

Ou, numa versão com mais referências bibliográficas:


Ainda a respeito disso, Re: Pequeno esclarecimento.

Friday, July 19, 2019

Trump vai ser reeleito, mesmo voltando a ficar em segundo lugar

How Trump could lose by 5 million votes and still win in 2020, por David Wasserman (NBC).

Trump’s Electoral College Edge Could Grow in 2020, Rewarding Polarizing Campaign ("Re-election looks plausible even with a bigger loss in the national popular vote"), por Nate Cohn (New York Times)

Trump’s Electoral College Advantage Growing ("He could lose the popular vote by an even larger margin in 2020---and still coast to re-election"), por James Joyner (Outside the Beltway).

O "conservadorismo nacional"

The New Conservative Nationalism Is About Subverting Individual Liberty, por Stephan Slade (Reason):

The several hundred attendees of this week's National Conservatism conference have a different vision for American politics. The event brought together a variety of speakers to discuss and defend, in explicit terms, the need for a new nationalism. (...)

Practically speaking, the nationalist agenda is largely focused on the need for a federal "industrial policy." For Breitbart's John Carney, that means tariffs, and lots of them. Americans need to be willing to pay higher prices to protect the jobs of their fellow citizens, according to Brog. For American Affairs founder Julius Krein, "protectionism is not sufficient….It's not radical enough." The Manhattan Institute's Oren Cass laid out a plan involving research and development subsidies, infrastructure investments, preferential tax rates for favored firms, punitive taxes on companies that move jobs overseas, "trade enforcement" to make other countries play according to our rules, and more. "We should have a National Institutes of Manufacturing just as we have a National Institutes of Health," he said.

What do all of these proposals—and the many others offered at the conference, from censoring porn to cracking down on opioids to preventing trans girls from playing on girls' sports teams—have in common? There is a tendency among the new nationalists to frame their movement as standing in opposition to supranationalism. Yoram Hazony, author of The Virtue of Nationalism, laments in particular what he sees as a push toward a homogenous "new world order" in which umbrella institutions such as the European Union and the United Nations override the rightful sovereignty of states.

Yet the true object of the nationalists' ire is much closer to home: They cannot abide individual Americans making social and economic choices they do not like. For consumers, the question might be whether to buy foreign or domestic. For a business owner, it might be where to open a factory. For a parent, it might be whether or not to attend drag queen story hour at the local library. Regardless, the new nationalists have decided not only that there is a right answer from a moral perspective but that government should force you to choose correctly.

"Today we declare independence," Hazony said, "from neoliberalism, from libertarianism, from what they call classical liberalism. From the set of ideas that sees the atomic individual, the free and equal individual, as the only thing that matters in politics."
Eu diria que este programa (dirigismo económico para apoiar algumas empresas nacionais contra a concorrência estrangeira + dirigismo em questões de "moral e bons costumes") é o que em Portugal (e provavelmente em grande parte da Europa continental) grande parte das pessoas associariam quase instintivamente com "conservadorismo"; em larga medida eram os EUA (e em menor escala o Reino Unido) que, nos significados atribuídos tanto a "conservadorismo" como a "liberalismo", eram os outliers.

Thursday, July 18, 2019

Mais difícil suspender a democracia parlamentar no Reino Unido

Brexit: MPs back bid to block Parliament suspension (BBC):

MPs have backed a bid to stop a new prime minister suspending Parliament to force through a no-deal Brexit.

A majority of 41 approved an amendment that blocks suspension between 9 October and 18 December unless a Northern Ireland executive is formed.

Wednesday, July 17, 2019

O budismo não é fofinho

Buddhism Has Never Been Pacifistic, por Razib Khan. Já agora ver também A Radical Realist View of Tibetan Buddhism at the Rubin, por Ian Johnson.

Eu em tempos (por culpa de Aldous Huxley) cheguei a acreditar na ideia que o budismo teria sido a única religião sem guerras santas.

Tuesday, July 16, 2019

A direita e a esquerda da New Age / Pensamento Positivo

Jesse Walker: "The long American spiritual tradition that gave us Marianne Williamson—and Donald Trump"

Já agora, o texto (embora só de raspão fale no assunto) faz-me pensar que nestas primárias Democratas há uma espécie de bloco pós-hippie - Sanders, Williamson e Gabbard (esta última mais por nascimento do que por escolha).

Monday, July 15, 2019

Quem tem poder para suspender a democracia parlamentar no Reino Unido? O primeiro-ministro ou a rainha?

The Queen Is the Reason Boris Johnson Would Struggle to Suspend Parliament, por Robert Hutton and Kitty Donaldson (Bloomberg):

Boris Johnson is threatening to suspend Britain’s Parliament to force through a no-deal Brexit if he becomes prime minister -- and some politicians are planning to fight him in court.

But he would face a bigger problem: Queen Elizabeth II could stop him first. (...)

The power to prorogue -- as it is formally called -- lies not with the prime minister but with the monarch. As with her other powers, it is usually deployed at the request of the prime minister. That’s why some academics, such as Vernon Bogdanor of King’s College London, think the Queen “would follow the advice of her prime minister.”

But others disagree.

“The question constitutional experts are all debating is whether the Palace could say ‘No,’” said Catherine Haddon of the Institute for Government. “It’s all something of a gray area in our system.”

Friday, July 12, 2019

Gestão democrática dos serviços públicos

We must trust the public to run their own utilities, por Gareth Thomas (deputado do Partido Trabalhista britânico):

‘We Own It’ published an interesting proposal earlier this week for the future democratic public ownership of the water industry. I share their critique of the current ownership of the industry, which is failing to invest at the speed necessary to tackle leakage. Customers currently have little power and there are few signs that the industry has grasped the scale of the climate crisis. Water bills have rocketed since privatisation, while there have been huge dividend payments to the often remote and unaccountable owners.

But I support a different method for securing genuine democratic public ownership. I want employees, John Lewi-style or consumers co-op style, to directly own the water business in their area. I don’t see why consumers should only be regularly consulted and stay once or twice removed from control of water firms.
Vagamente relacionado, um post meu de há dez anos, Os "monopólios naturais".

Friday, July 05, 2019

Declaração de interesses

Eu em princípio vou ser candidato (como penúltimo da lista dos suplentes do círculo de Faro) pelo Bloco de Esquerda às próximas eleições. Portanto, se já antes tudo o que eu escrevia tinha um claro enviesamento, agora ainda mais.

Monday, July 01, 2019

Nos EUA, 54% o crescimento da bolsa é devido a transferência de riqueza a favor das acionistas

E apenas 24% devido a crescimento da economia, e isto desde 1989:

How the Wealth Was Won: Factors Shares as Market Fundamentals, por Daniel L. Greenwald, Martin Lettau, Sydney C. Ludvigson (NBER Working Paper No. 25769, doi:10.3386/w25769):

We provide novel evidence on the driving forces behind the sharp increase in equity values over the post-war era. From the beginning of 1989 to the end of 2017, 23 trillion dollars of real equity wealth was created by the nonfinancial corporate sector. We estimate that 54% of this increase was attributable to a reallocation of rents to shareholders in a decelerating economy. Economic growth accounts for just 24%, followed by lower interest rates (11%) and a lower risk premium (11%). From 1952 to 1988 less than half as much wealth was created, but economic growth accounted for 92% of it.