Wednesday, December 13, 2017

Economia comportamental (II)

Ainda sobre esta questão, Sandra Maximiano responde a Luís Aguiar-Conraria.

A crítica que ela faz ao exemplo dos doentes cardíacos parece-me fazer sentido, já que, pelo que leio, os incentivos incorporados eram tanto "comportamentais" como "neoclássicos".

No entanto, a respeito de outros pontos:

Por exemplo, os modelos neoclássicos assumem a existência de N agentes racionais, homogéneos nas suas preferências.
Se estou a perceber o que "homogéneos nas suas preferências" quer dizer, há alguma coisa no modelo neoclássico que implique que os "agentes" tenham que ser "homogéneos nas suas preferências"? É que já vi montes de argumentos, feitos em tom neoclássico, que me parecem ter implícito que diferentes indivíduos podem ter diferentes gostos - p.ex., quando se defende a seleção pelo preço dizendo que é "eficiente" porque quem está disposto a pagar mais é quem valoriza mais; a ideia que tenho é que o motivo porque muitos modelos neoclássicos assumem agentes homogéneos não é porque isso seja uma característica inerente ao modelo, mas para facilitar as contas.
Existe uma escola que advoga que os agentes não se comportam de forma neoclássica, por exemplo, têm preferências sociais e morais, mas o resultado das suas decisões não é necessariamente subótimo, sendo por isso racional. Por exemplo, há empresas que têm um comportamento que se não se coaduna com a maximização dos lucros “à la teoria neoclássica”, mas que no longo prazo sobrevivem, mostrando que o seu comportamento não é irracional. Considere, por exemplo, a REI, uma empresa americana que vende artigos de campismo e de desporto, e que mais uma vez não abriu portas no Black Friday porque considera que os funcionários têm direito a um fim de semana com a família. Este comportamento, aparentemente em desacordo como a maximização do lucro, atrai certos consumidores e pode no longo prazo trazer vantagens.
Isso será mesmo uma exceção ao modelo neoclássico? Ou será simplesmente que os donos da REI têm um dado conjunto de preferências (que inclui, entre outras coisas, querer que os seus empregados tenham tempo para estar com a família) e que agem racionalmente de forma a maximizar a utilidade que deriva de realizarem as suas preferências? É que aqui acho que é necessário distinguir duas coisas - ser "irracional" no sentido de não escolher a maneira mais adequada para atingir os fins que pretende; e ser "irracional" no sentido de pretender atingir fins "não-convencionais" (a mim parece-me que "irracional" só faz realmente sentido no primeiro caso; e a ideia de que as preferências são subjetivas até não me parece estranha ao pensamento neoclássico, pelo que me parece que ele pode viver facilmente com a segunda "irracionalidade").
Uma segunda escola de pensamento, advoga que os agentes económicos são inteligentes, fazem escolhas inteligentes, mas têm racionalidade limitada porque não têm toda a informação disponível. Neste caso, aplicar heurísticas e processos de escolha que são diferentes do processo de maximização pode fazer mais sentido e não vale a pena alterar o comportamento dos agentes por forma a que decidam melhor.
Esta parece mais ou menos o que eu escrevi no post anterior, com a diferença que aqui falam em informação limitada, e eu estava pensando mais em capacidade de processamento mental limitada.
Por último, existe uma escola de pensamento, popularizada por Daniel Kahnaman e Richard Thaler, que assume que os indivíduos são irracionais e que aplicam heurísticas nas suas decisões porque têm enviesamentos cognitivos e erram sistematicamente. Neste caso, assume-se que corrigir comportamentos é importante para que se gerem resultados melhores do ponto de vista do bem-estar.
Acho que há efetivamente um bom argumento que pode ser usado para, a partir do pressuposto de que os indivíduos são irracionais, achar que certas políticas públicas podem aumentar o bem-estar; e também há um péssimo argumento. O péssimo argumento é algo de género "se os indivíduos fossem totalmente racionais, tomariam as melhores decisões; infelizmente, eles são irracionais, logo há espaço para políticas para mudar os seus comportamentos para seu próprio bem" (parece-me que a Sandra Maximiano está a apresentar uma versão deste argumento); porque é que acho que este argumento é péssimo? Porque parece-me ter implícito que as pessoas são irracionais na sua vida privada, mas (se estivermos a falar de políticas estatais para contrabalançar essa irracionalidade) já são racionais na altura de votar e escolher as políticas que vão corrigir a irracionalidade privada - sinceramente, isso não me parece fazer sentido nenhum, já que, se alguma coisa, até há mais razões para as pessoas serem irracionais como votantes: a) a quantidade de informação que têm que processar é muito maior; b) o custo de não tomarem a decisão melhor é menor, já que a probabilidade do seu voto decidir o resultado final é bastante reduzida (veja-se que mesmo nas eleições parlamentares de Zanzibar de 1961, o eleitor que no circulo uninominal de Chake-Chake, Ilha de Pemba, votou no Partido Afro-Shirazi - dando-lhe, por 1538 contra 1537 votos, a vitória nesse círculo e elegendo o deputado que tornou, por 10 deputados contra 9,  o PAS o maior partido no parlamento - não decidiu eleição nenhuma, já que a seguir formou-se uma coisa ainda mais complicada que a geringonça); c) há grandes instintos "tribais" - o nosso partido contra o deles - na política que turvam ainda mais a racionalidade do ato de votar.

Se estivermos a falar, não dos votantes, mas dos governantes mesmo (ou de todos os dirigentes de entidades privadas que se decidam a proteger as pessoas de si próprias - ao que me parece, as receitas "comportamentalistas" se calhar até têm sido mais usadas por privados bem-intencionados do que por Estados), também me parece haver motivos para supor que serão irracionais: além de toda a irracionalidade de qualquer ser humano, cargos de liderança tenderão a ser desproporcionalmente ocupados por pessoas com elevada autoconfiança e que tomam decisões sem grandes hesitações (afinal, os que hesitam e pensam muito antes de tomarem uma decisão tenderão mais frequentemente a perder oportunidades de serem nomeados ou eleitos para cargos - ou até a recusarem a ideia) e parece-me que essas pessoas, quase pode definição, serão mais dadas a tomar decisões "irracionais" (note-se que não me admirava que essas pessoas, se  estejam sobrerepresentadas nos cargos dirigentes, também estejam sobrerepresentadas entre os completos falhados, por um mecanismo semelhante a este).

Então qual é o bom argumento que eu acho que pode ser usado para propor políticas interventivas? Será o argumento "se os indivíduos fossem totalmente racionais, a política que vamos por em prática não faria qualquer efeito, porque eles ajustariam o seu comportamento; felizmente, eles são irracionais, logo a nossa política vai funcionar porque os indivíduos não se vão ajustar - ou  pelo menos não imediatamente - a ela"; um bom exemplo será todas aquelas discussões à volta da equivalência ricardiana, mas penso que também se aplicará às sobre ilusão monetária, ou talvez até mesmo à questão da rigidez nominal dos preços; indo à micro-economia, talvez possa ter alguma relevância para aquelas discussões de "quem devia pagar a taxa audiovisual eram as empresas, não os clientes".

Porque é que eu digo que este é um bom argumento? Porque não implica que os decisores sejam mais racionais que o comum dos mortais: o raciocínio "esta política vai ter efeito porque os indivíduos são irracionais e não vão alterar os seus atos" funciona perfeitamente mesmo que os próprios decisores não percebam que a política não funcionaria com indivíduos racionais (se calhar até funciona melhor, porque aplicam a política com mais convicção); e já agora, parece-me que se aplicará não só à irracionalidade tipo Kahnaman/Thaler mas também à irracionalidade tipo "informação limitada" ou "capacidade de processamento mental limitada".
Um exemplo interessante de como a economia comportamental pode afetar a teoria económica relaciona-se com a teoria da oferta de trabalho. De acordo com a teoria neoclássica, os indivíduos escolhem o tempo de trabalho e o tempo de lazer em função das suas preferências e da taxa salarial. Existem dois efeitos importantes, o chamado efeito substituição, que nos diz que os indivíduos trabalham mais, abdicando de horas de lazer, se a taxa salarial aumentar. Existe também o chamado efeito rendimento que mostra que quanto mais rendimento se tem mais se substitui o trabalho por lazer. Em geral o efeito substituição é dominante, explicando o facto da curva de oferta de trabalho ser positiva, até ao momento em que o efeito rendimento domina e a curva eventualmente sofre uma inflexão. Esta teoria é esteticamente bonita, mas tem dificuldade em explicar porque é que o efeito substituição é dominante e até quando é dominante. Mais, a teoria mostra que os indivíduos devem trabalhar menos se o salario baixar, um facto que não é observado na realidade, muito pelo o contrário.
Mostra? Imagine-se um modelo neoclássico em que a "função utilidade" é U = T*ln(R), sendo T o tempo livre e R o rendimento (sim, o que dará utilidade não será tanto o rendimento, mas sim os bens que podem ser adquiridos com ele, mas acho que isso em nada afeta o resultado e torna a conta mais simples; e, para os mais puristas, esta "função utilidade" não pretende medir a utilidade, mas apenas comparar a utilidade entre diferentes combinações de T e R); imagine-se que o individuo tem 100 unidade de tempo disponíveis (que pode usar para trabalhar ou para outra coisa qualquer), e que S é o salário por unidade de tempo; assim, a "função utilidade" poderia ser reescrita como U = T*ln[S*(100-T)]. Maximizando a utilidade (dU/dT=0), acho que o resultado será (se eu não me enganei nas contas) S = e^[T/(100-T)]/(100-T). É verdade que, se estamos a tentar determinar como uma variação do salário leva a uma variação do tempo trabalhado, o lógico seria resolver a equação em ordem a T; mas eu NÃO SEI resolver essa equação em ordem a T e só a consigo resolver em ordem a S - mas, de qualquer forma, penso que mesmo resolvendo em ordem a S, dá para ver que o equilíbrio será que uma maior escolha por tempo livre corresponderá a um maior salário (ou, inversamente, uma escolha por trabalhar mais corresponderá a um menor salário). Isto, como digo, se não me enganei nas contas, o que é bem provável (mas, mesmo que tenha, de certeza que haverá "funções utilidade" hipotéticas em que uma redução de salário leva as pessoas a trabalhar mais).

Em termos gráficos, daria uma curva assim:















Um possível contra-argumento será algo como "Miguel, o que você fez foi torturar os números e as variáveis até confessarem; provavelmente andou a inventar «funções utilidade» até lhe aparecer uma que desse os resultados que queria"; realmente foi, mas não acho que isso invalide as conclusões.

De qualquer maneira, nem precisaríamos de recorrer a um exemplo - afinal, é a própria Sandra Maximiano diz que a teoria neoclásica admite que em certas situações o efeito rendimento pode ultrapassar o substituição; se alguma coisa, acho são os neoclássicos que tendem a assumir que o efeito substituição predomina sobre o efeito rendimento que estão a intoduzir premissas ad hoc, que até podem ser empiricamente verdadeiras, mas sem uma fundamentação teórica sólida (como, aliás, a Sandra diz, quando afirma que a teoria "tem dificuldade em explicar porque é que o efeito substituição é dominante"); ou seja, parece-me que a questão do horário de trabalho poderá ser um problema para os economistas neoclássicos realmente existentes, mas não para a economia neoclássica enquanto modelo teórico.
A teoria comportamental, através de experiências laboratoriais e de campo têm mostrado que os indivíduos têm objetivos a alcançar no que respeita ao nível de rendimento desejado, ou seja, têm um alvo em mente, que em geral aumenta ao longo do tempo. Este alvo varia dependendo dos salários dos colegas pois por muito que o nosso salário seja, este sabe sempre a pouco se ganharmos menos que os nossos pares. Dada a existência de um rendimento alvo, se os salários se diminuírem é natural que a oferta de trabalho aumente para que o alvo continue a ser atingido. Mais, se o rendimento alvo aumentar, a oferta de trabalho aumenta mesmo sem aumentos salarias. O aumento de salários pode reduzir a oferta de trabalho apenas se esse aumento permitir que se atinja o rendimento objetivo com menos horas trabalhadas, o que tem acontecido em algumas economias desenvolvidas, onde aumentos salariais têm sido acompanhados com menos horas de trabalho semanais.
Eu até concordo com quase tudo o que é aqui dito, mas o problema é que me parece que a teoria comportamental não é precisa aqui para nada ou quase. Imagino que se escrevia:
Têm-se demonstrado que que os indivíduos têm objetivos a alcançar no que respeita ao nível de rendimento desejado, ou seja, têm um alvo em mente. Dada a existência de um rendimento alvo, se os salários se diminuírem é natural que a oferta de trabalho aumente para que o alvo continue a ser atingido. O aumento de salários pode reduzir a oferta de trabalho apenas se esse aumento permitir que se atinja o rendimento objetivo com menos horas trabalhadas, o que tem acontecido em algumas economias desenvolvidas, onde aumentos salariais têm sido acompanhados com menos horas de trabalho semanais.
As conclusões são quase as mesmas e já temos um cenário que me parece perfeitamente compatível com a visão neoclássica - o tal "rendimento alvo" mais não é que um caso extremo da ideia neoclássica da utilidade marginal decrescente (ter um "rendimento alvo" parece-me ser, simplesmente, ter um ponto a partir do qual a utilidade marginal de mais um euro de rendimento cai bruscamente, e foi mais ou menos isso que eu andei a tentar representar por uma função, ali acima).

Já agora, a respeito do horário de trabalho, se alguma coisa eu até suspeito que a curva inversa é a norma e não a exeção: não só pela tendência histórica para o crescimento dos salários vir usualmente de mão dada com a redução do trabalho - tanto diário/semanal (redução do horário) como anual (mais dias de férias) ou até "existencial" (sobretudo via entrada mais tardia no mercado de trabalho, embora aí possa ser também uma componente de procura e não apenas de oferta) - como pelas referências que, nalguma literatura, se encontram às queixas dos empregadores, sobretudo no princípio da Revolução Industrial e/ou nas economias mais atrasadas, de que os trabalhadores reagiam aos aumentos salariais trabalhando menos e mantendo o rendimento final constante. A única exceção talvez seja a do trabalho assalariado feminino (que ao longos das últimas décadas tem vindo a aumentar), mas mesmo aí creio que é mais o resultado de um choque cultural quase "one-time" que alterou bruscamente a curva de oferta de trabalho feminina a dada altura. Note-se que isto que estou a escrever só se aplica a aumentos permanentes e generalizados dos salários: se os salários numa dada profissão ou numa empresa específica aumentarem, muito provavelmente irá haver mais pessoas a querer trabalhar nessa profissão ou empresa (em vez de noutras); e se houver um aumento salarial numa dada estação do ano ou num dado ano, e se esse aumento for percecionado como ocasional, também será de esperar que as pessoas trabalhem mais nessa estação ou nesse ano, deixando o descanso para as alturas de baixos salários (este parágrafo já pouco ou nada tem a ver com a questão da economia comportamental, mas os meus leitores regulares já devem ter percebido que a curva invertida da oferta de trabalho é um dos meus temas recorrentes).

Economia comportamental (I)

No Observador, Luís Aguiar-Conraria escreve sobre a "economia comportamental", nomeadamente referindo que não teve tantos resultados práticos como se esperava.

Uma ideia que pode em parte explicar isso: os estudiosos da economia comportamental estão constantemente a descobrir supostos "bias" que farão as nossas decisões não serem perfeitamente racionais, mas eu suponho que o "bias" fundamental é "tradicionalismo" - na maior parte das decisões seguir uma regra pré-estabelecida em vez de estar constantemente a calcular qual a solução mais ótima; e até diria que este "bias" pode ser facilmente integrado na teoria neoclássica: é só assumir que o próprio ato de resolver problemas de otimização tem um custo para que a meta-solução ótima seja, não estar sempre a determinar a solução ótima ("Daqui a dois meses a televisão vai voltar a passar os episódios de «A Quinta Dimensão» - em função disso, quantas latas de conserva de atum eu devo comprar amanhã?"), com o esforço mental permanente que isso implica, mas sim só determinar soluções ótimas periodicamente, e no intervalo entre essas reformulações seguir o que foi anteriormente decidido [ou seja, resolver um problema de otimização do tipo "Z(t) é o custo anualizado de usar a mesma estratégia durante t dias, sem a adaptar a mudanças externas; R é o custo de estar a resolver um problema de otimização; qual é o valor t que minimiza Z(t)+365*R/t?" - a versão neoclássica tradicional assume R=0 e logo t=0].

Um dos exemplos que o LA-C dá (da medicação dos doentes cardíacos) faz-me até pensar no caso da minha medicação para a hipertensão - um comprimido por dia, que normalmente tomo junto com uma caneca de leite de manhã; mas não foram nem uma nem duas as vezes que, ao tomar um caneca de leite a outra hora do dia, lá vai mais um comprimido também (com o hábito "tomar um comprimido para a tensão a seguir a beber leite" a levar a melhor às instruções "tomar um comprimido por dia"); um exemplo da "tradição" a agir?

Mas, se o principal "bias" for "tradicionalismo", isso pode indiciar que políticas (sejam elas públicas ou privadas) feitas a pensar nos "bias" podem ter pouco efeito a médio/longo prazo, ou talvez mesmo a curto: é só esperar algum tempo para os indivíduos se ajustarem que as novas políticas deixam de fazer efeito; mais - se a mudança for demasiado visível, pode incentivar os indivíduos a mudar os seus planos mais depressa que o que tinham inicialmente projetado, e ai o efeito da política esvazia-se logo.

Diga-se que os subsídios de férias e natal podem ser uma exceção ao que estou a dizer - aí o pagamento por duodécimos é capaz de poupar realmente trabalho de planificação às empresas (e, inversamente, o pagamento concentrado em dois pode poupar trabalho de planificação aos empregados), independentemente de estarem ou não habituados a ele (se fosse só pelo tal tradicionalismo, isso explicaria porque muitos trabalhadores preferem receber concentrado, mas não porque muitas empresas preferem pagar em duodécimos), pelo que talvez alguns dos seus efeitos económicos se prologuem mesmo no tempo (mas de qualquer maneira mantêm-se o principio de o "bias" estar associado a querer poupar o trabalho intelectual necessário). E, por outro lado, nunca ouvi dizer que nos países em que o ordenado é pago em 12 (ou em 52) prestações haja algum reivindicação dos trabalhadores no sentido de ser pago em 14, logo se calhar é mesmo só uma questão de hábito.

Ainda a respeito de haver custos na resolução de problemas de otimização, o próprio facto de a maior parte dos alunos das disciplinas de micro-economia não terem nota 20 nos exames é indicativo: se alunos previamente selecionados por uma aptidão intelectual para esse tipo de raciocínio provavelmente acima da média, e depois especialmente treinados para resolver esse tipo de problemas, não conseguem resolver todos corretamente (e tendo frequentemente mais de uma hora para o fazerem), quer dizer que há alguma dificuldade em resolver problemas de otimização, não sendo algo que possa ser resolvido sem custos (incluindo o custo de oportunidade de não poder pensar noutra coisa enquanto se está a pensar nisso). Caso a micro-economia neoclássica tenha ganho algum Prémio "Nobel" (e suponho que tenha ganho), isso também será um indício de que a resolução de problemas de otimização tem uma dificuldade potencial (suficiente para merecer que alguém que se dedique a essa área ganhe um "Nobel").

O esquecer que o ato de pensar tem custos, e que há a opção entre pensar mais ou pensar menos, parece-me, aliás, estar na base de algumas outras simplificações excessivas em que por vezes certos neoclássicos caem: além do de frequentemente assumirem que os agentes estão sempre a otimizar, outro exemplo são as teorias do crescimento exógeno, em que o progresso tecnológico é (ou era) assumido como caído do céu, esquecendo o trabalho intelectual necessário, quer para inventar novas tecnologias, quer para ficar a saber que elas existem, quer para tomar a decisão de as adotar ou não.

Wednesday, December 06, 2017

12 anos do Vento Sueste

Este blogue começou a 5 de dezembro de 2005, fez ontem 12 anos.

Como de costume, relembro aqui alguns dos posts do último ano:

  • Proteccionismo e liberalismo, sobre a combinação (à Donald Trump) de liberalismo na economia interna com protecionismo face ao mercado externa 
  • Quem paga o imposto sobre... , sobre a questão da "incidência económica do imposto" (sobretudo pretendendo demonstrar que é irrelevante se a lei diz que é o comprador ou o vendedor que tem que pagar o imposto)

Thursday, November 30, 2017

A ação extra-parlamentar

On Extra-parliamentary Action, por Chris Dillow:

What can parliamentary politics achieve? Not much, says Paul Mason (...)

Here, I side mostly with Mason and McDonnell against Finkelstein. In many of the main social changes of my lifetime, parliament has played a relatively minor role. For example:

- Brexit. Most MPs wanted us to remain in the EU. We got out because Cameron called the referendum in part because of pressure from Ukip, and Leave won because of the work of people who weren’t MPs. If you want an example of effective extra-parliamentary political action, you should look at Farage more than any leftist.

- Gay rights. Isle of Wight MP Andrew Turner recently resigned after making homophobic remarks. When I was a young man, however, an election campaign was based successfully upon homophobia. This huge change, from gays being stigmatized and homophobes accepted, to the exact opposite was achieved mostly without parliamentary intervention but by changes in social attitudes. Yes parliament legalized homosexuality in 1967, but that alone did not remove anti-gay sentiment.

- The decline in crime. This is unlikely to be mainly due to government policy, simply because (pdf) crime has dropped in many countries with different policies. Instead, socio-technical changes are more responsible. Stuff is harder to steal, and young people play computer games rather than hang around on street corners.

- Greater gender equality. As Jeremy Greenwood has shown, this is due more to technical change than legislation. The greater availability of contraception not only gave women control over their fertility but also helped destigmatize pre-marital sex. And household technologies freed women up to enter the labour force.

Now, I’m not saying that parliament is irrelevant. It did play some role in the changes I’ve mentioned. The Equal Pay Act helped increase gender equality, for example, and the repeal of section 28 helped destigmatize homosexuality. Both, however, followed extra-parliamentary campaigns. And of course, increased inequality since the 1970s is due at least in part to parliamentary politics such as anti-union legislation and lower top tax rates. Remember, though, that those policies were themselves the product of extra-parliamentary action by right-wing think-tanks aimed at changing ideology.

Wednesday, November 29, 2017

Os robots estão-nos a tirar empregos? (post n^n sobre o assunto)

Job Loss in Manufacturing: More Robot Blaming (Center for Economic and Policy Research):

It is striking how the media feel such an extraordinary need to blame robots and productivity growth for the recent job loss in manufacturing rather than trade. We got yet another example of this exercise in a NYT Upshot piece by Claire Cain Miller, with the title "evidence that robots are winning the race for American jobs." The piece highlights a new paper by Daron Acemoglu and Pascual Restrepo which finds that robots have a large negative impact on wages and employment.

While the paper has interesting evidence on the link between the use of robots and employment and wages, some of the claims in the piece do not follow. (...)

Actually, the paper doesn't provide any help whatsoever in solving this mystery. Productivity growth in manufacturing has almost always been more rapid than productivity growth elsewhere. Furthermore, it has been markedly slower even in manufacturing in recent years than in prior decades. According to the Bureau of Labor Statistics, productivity growth in manufacturing has averaged less than 1.2 percent annually over the last decade and less than 0.5 percent over the last five years. By comparison, productivity growth averaged 2.9 percent a year in the half century from 1950 to 2000. (...)

While the piece focuses on the displacement of less educated workers by robots and equivalent technology, it is likely that the areas where displacement occurs will be determined in large part by the political power of different groups. For example, it is likely that in the not distant future improvements in diagnostic technology will allow a trained professional to make more accurate diagnoses than the best doctor. Robots are likely to be better at surgery than the best surgeon. The extent to which these technologies will be be allowed to displace doctors is likely to depend more on the political power of the American Medical Association than the technology itself.

Finally, the question of whether the spread of robots will lead to a transfer of income from workers to the people who "own" the robots will depend to a large extent on our patent laws. In the last four decades, we have made patents longer and stronger. If we instead made them shorter and weaker, or even better relied on open source research, the price of robots would plummet and workers would be better positioned to capture the gains of productivity growth as they had in prior decades. In this story it is not robots who are taking workers' wages, it is politicians who make strong patent laws.

Tuesday, November 28, 2017

Re: Esquerda e Direita (I)

Rui Albuquerque escreveu (há quase dois meses, mas o que era para ser uma pequena resposta foi-se desenvolvendo...) no Delito de Opinião sobre "Esquerda e direita".

Note-se que ele farta-se de escrever passagens clarificando que com "direita" se refere a apenas alguma direita (enquanto com "esquerda" é mesmo a esquerda toda), portanto se calhar o post até seria mais correto chamado de "Esquerda e liberalismo" (já que no fundo não incide sobre a diferença entre a esquerda e a direita, mas entre a esquerda e uma facção - provavelmente até minoritária - da direita).

Mas, de qualquer maneira, fiz no Vias de Facto, uma mistura de resposta e de comentário, ponto por ponto a ponto:

Re: Esquerda e Direita (II)
Re: Esquerda e Direita (III)
Re: Esquerda e Direita (IIIa) - ainda o Estado, a Propriedade e "direitos naturais"
Re: Esquerda e Direita (IV)
Re: Esquerda e Direita (V)
Re: Esquerda e Direita (VI)

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Smartphones e capacidades "cognitivas"

Smartphones and Cognition: A Review of Research Exploring the Links between Mobile Technology Habits and Cognitive Functioning, por Henry H. Wilmer, Lauren E. Sherman e Jason M. Chein:

While smartphones and related mobile technologies are recognized as flexible and powerful tools that, when used prudently, can augment human cognition, there is also a growing perception that habitual involvement with these devices may have a negative and lasting impact on users’ ability to think, remember, pay attention, and regulate emotion. The present review considers an intensifying, though still limited, area of research exploring the potential cognitive impacts of smartphone-related habits, and seeks to determine in which domains of functioning there is accruing evidence of a significant relationship between smartphone technology and cognitive performance, and in which domains the scientific literature is not yet mature enough to endorse any firm conclusions. We focus our review primarily on three facets of cognition that are clearly implicated in public discourse regarding the impacts of mobile technology – attention, memory, and delay of gratification – and then consider evidence regarding the broader relationships between smartphone habits and everyday cognitive functioning. Along the way, we highlight compelling findings, discuss limitations with respect to empirical methodology and interpretation, and offer suggestions for how the field might progress toward a more coherent and robust area of scientific inquiry.


[Via Marginal Revolution]

O que me chamou a atenção neste estudo (que, aliás, é um estudo sobre os estudos) é o género de capacidades cognitivas que, pelos vistos, normalmente se estuda a respeito do impacto dos smartphones - atenção, memória e capacidade de diferir a satisfação (quase tudo capacidades, sobretudo a primeira e a última, com uma grande associação a ideias como esforço ou disciplina); nenhuma referência a coisas como rapidez de raciocínio, p.ex. É só a mim que a maneira como esses estudos são feitos (e o que é estudado) me parece ter algum moralismo e uma atitude "estes miúdos de hoje em dia..." (ao concentrarem-se nos efeitos dos smartphones nas capacidades cognitivas sobre as quais mais facilmente se faz juízos de valor moral)?

Sunday, November 26, 2017

Trabalhar "sem incentivos"

No twitter, Carlos Guimarães Pinto escreve "Sem ponta de sarcasmo, há algo que n invejo nos professores: saberem que a sua progressão salarial depende exclusivamente da idade e ambiente político. Deve ser frustrante estar preso num ambiente profissionsl em q o mérito n vale nada" e "Tive um único emprego em que a parte fixa era mais de 80% do salário e onde as hipóteses de ser despedido eram quase nulas. Despedi-me ao fim de 5 meses. Não percebo como alguém aguenta uma vida de trabalho assim, sem incentivos."

Nem sei se isto não irá contra a netiqueta (fazer um post no blogger a comentar post no twitter, que têm mais o estatuto de comentários informais), mas atendendo que eu estou mais ou menos no estatuto de ter um emprego em que a parte fixa é 100% do salário e onde as hipóteses de ser despedido são quase nulas, senti vontade de escrever algo sobre isso, nomeadamente sobre a questão de porque é que algumas pessoas não aguentam uma vida de trabalho assim, e outras sentem-se perfeitamente bem ou até preferem dessa maneira.

Fazendo uma auto-análise, não será difícil perceber porque é que eu gosto de ter hipóteses quase nulas de ser despedido - sendo um caso extremo de personalidade INTP / Enneagrama tipo 5 (e não é preciso alguém acreditar nos modelos teóricos subjacentes a essas classificações para facilmente identificar o tipo de pessoa descrito...), entrevistas de emprego são complicadas para mim, logo um eventual despedimento seria problemático (logo, um emprego "seguro" é vital para mim); pelas mesmas razões, eu provavelmente seria largamente desadequando num cargo de chefia (que é o que normalmente significa "promoção"), logo também seria pouco provável (pelo menos, da perspetiva da boa gestão) que eu fosse promovido a um cargo desses; e depois (e talvez seja isso o principal...) eu ganho mais do que grande parte ou a maior parte das pessoas com quem em me relaciono quotidianamente no trabalho, o que possivelmente (nem que seja a nível do meu subconsciente) me leva a imaginar-me como estando no topo das remunerações - noto que é de pessoas que ganham menos do que eu que surge mais a conversa do "devia-se premiar mais os melhores".

Agora, um ponto de ordem - convém distinguir entre "promoções" e "aumentos salariais" (frequentemente chamadas "progressões", em funcionariopubliquês) - pelo menos para mim, "promoção" é quando alguém vai exercer um cargo mais elevado, enquanto um aumento pode ser simplesmente permanecer no mesmo cargo mas ganhando mais; é que de vez em quando aparecem comentadores a dizer que só na função pública há promoções por antiguidade, mas não há promoções por antiguidade na função público - penso que as promoções na FP sempre foram por concurso, o que durante muitos anos foi automático (e continua largamente a ser no caso dos professores, acho) foram as "progressões", que são exatamente a mesma coisa que as "diuturnidades" que creio que existem também nalgumas empresas privadas (exemplo - pdf).

Mas agora, o ponto do "mérito" valer nada - na verdade, em nenhuma organização as pessoas são promovidas pelo "mérito"; as pessoas são promovidas pela "perceção do mérito", o que é algo ligeiramente diferente (isto para não entrarmos sequer na questão do que significa realmente "mérito"...); isto aliás, também se aplica a outras questões como a das quotas (frequentemente opostas com o argumento "as pessoas devem ser nomeadas pelo mérito"; mas, salvo raríssimas exceções - p.ex., fusões empresariais em que passa a haver duas pessoas para cada cargo e é preciso escolher qual fica - é quase impossível nomear as pessoas para cargos com base no "mérito" porque se as pessoas ainda não desempenham esse cargo, como é que se sabe o seu "mérito"? A mim parece-me que a conversa "as pessoas devem ser nomeadas pelo mérito" na realidade quer dizer "as pessoas devem ser nomeadas pelo mérito que demonstraram noutros cargos e que temos esperança que se vá manifestar também no novo cargo").

Agora, abstraindo da minha experiência pessoal, que é capaz de não ser representativa (eu talvez não seja uma pessoa estatisticamente muito normal), eu diria que o gostar-se ou não dos aumentos salariais derivarem da "perceção do mérito" depende da confiança que alguém tenha em a "perceção do mérito" refletir o "mérito", e sobretudo da sua capacidade em a influenciar: alguém que esteja convencido que é fácil medir-se o mérito achará naturalmente que as pessoas devem ganhar mais pelo mérito; já alguém que veja a medição do mérito como um processo algo aleatório (e há montes de razões para alguém poder achar isso*) preferirá sistemas mais mecânicos e impessoais - e curiosamente acho que ambos os lados considerarão que o "seu" sistema é o que lhes dá maior controlo sobre a sua vida:

- Os que acreditam na medição do mérito acharão que com aumentos baseados no mérito controlam mais a sua vida, porque assim podem fazer alguma coisa para serem promovidos (tentarem trabalhar mais e/ou melhor)

- Os que acreditam que a medição do mérito é largamente aleatória acharão que com aumentos "mecânicos" é que controlam mais a sua vida, porque sabendo quando e que aumentos vão ter, podem melhor planear a sua vida (estilo "no ano 2027 vou ser aumentado, portanto 2023 vai ser o ano ideal para mudar de carro e ao fim de quatro anos e ao fim de quatro anos pagar uma pintura nova"), enquanto aumentos "aleatórios" (isto é, dependentes da opinião de outra pessoa) podem estragar o plano todo e fazê-los sentirem-se como se andassem à deriva numa jangada (há uma cena na série "House. M.D." em que alguém diz ao protagonista "Because when it comes to being in control, Gregory House leaves our faith healer kid in the dust. And that's why religious belief annoys you. Because if the universe operates by abstract rules, you can learn them and you can protect yourself. If a supreme being exists, he can squash you anytime he wants." - um raciocinio semelhante pode levar alguém a preferir um sistema de progressão na carreira baseado em regras abstratas em vez de num "ser supremo" que decide quem é aumentado e quem não é)

*uma poderá ser a pessoa não ter mesmo mérito, mas recusar-se a admiti-lo; todavia poderá haver razão mais benévolas.