Sunday, July 27, 2014

Os financiamentos do BES a partidos políticos

Banco empresta dinheiro a A, B, C e D; posteriormente A, B, C e D devolvem o dinheiro e mais os juros.

À primeira vista, parece-me ser exatamente o que um banco é suposto fazer.

Friday, July 25, 2014

Coisas que quase toda a gente concorda

"As pessoas não vão ter mais filhos por causa de beneficios fiscais, abonos e afins"

"O custo de vida (no geral e especificamente em creches e material escolar), desemprego e reduções salariais fazem as pessoas terem menos filhos"

A adesão da Guiné-Equatorial à CPLP

Lista de países-membros da Commonwealth e da Organização Internacional da Francofonia.

Tuesday, July 22, 2014

Tentativa de uma tipologia dos tipos de ficção

Pessoas normais em situações normais - ?
Pessoas normais em situações extraordinárias - romance de aventuras (várias variantes)
Pessoas extraordinárias em situações normais - drama, "literatura séria"
Pessoas extraordinárias em situações extraordinárias - ficção especulativa (FC, fantasia)

Desenvolvendo:

O tipo "pessoas normais em situações extraordinárias" corresponde às obras em que uma pessoa igual a qualquer outra de repente se vê envolvida (como testemunha, vítima, falso culpado, etc.) em conspirações, crimes, etc. Uma variante é um tipo de ficção infanto-juvenil (bastante comum nos filmes dos anos 80) em que um grupo de crianças ou de jovens adolescentes, até então levando uma vida perfeitamente normal, de repente se vê envolvida numa trama aventurosa (testemunhar um crime, encontrar um mapa do tesouro, ser visitado por extraterrestres, etc.).

O tipo "pessoas extraordinárias em situações normais" corresponde às obras em que não se passa nada de especial nos acontecimentos em que o personagem está envolvido e em que o interessante na história está mesmo no personagem em si - na sua vida interior, nos seus pensamentos e emoções, na forma como reage aos acontecimentos, etc. Grandes partes dos filmes classificados como "drama" e dos livros classificados como "ficção literária" seguem este esquema.

O tipo "pessoas extraordinárias em situações extraordinárias" , em que tanto os personagens como as situações são fora do vulgar, terá o seu exemplo mais puro nos filmes de ficção científica e de fantasia, ou na banda desenhada de super-heróis (que no fundo pode sempre ser vista como uma variante da FC ou da fantasia, conforme as origens do poder dos hérois seja técnica-biológica ou sobre-natural); no entanto, o romance de aventuras ou o policial também podem cair aqui, dependendo da forma como os protagonistas são apresentados (escala deslizante de anormalidade do protagonista num policial: cidadão comum que se vê envolvido num crime; polícia; detetive privado; criminoso contra criminosos piores que ele; superdetetive tipo "Sherlock/Poirot").

Diga-se que a fronteira entre o "pessoas normais em situações extraordinárias" e o "pessoas extraordinárias em situações extraordinárias" pode ser muito porosa: na FC/Fantasia os personagens principais, muitas vezes, por mais estranhos que sejam, são apresentados como o mais parecido que há - dentro da história - com pessoas normais (ou são humanos no espaço encontrando entidades extraterrestres, como no Caminho das Estrelas ou Espaço 1999, ou feiticeiros/deuses que só recentemente descobriram a sua natureza, como em Harry Potter ou Percy Jackson, ou são humanos com outro nome, como os hobbits de Tolkien, que me parecem mais "humanos normais" que os "humanos normais" propriamente ditos); e um personagem pode começar como "pessoa normal em situações extraordinárias" num livro/filme, e à medida que as sequelas vão avançando vão se tornando extraordinário (ou começa a ser percebidos como extraordinários pelos leitores/espetadores, mesmo que eles próprios não mudem - qualquer um dos livros de Os Cinco - nem sei porque me lembrei destes - seria "pessoas normais em situações extraordinárias", mas o conjunto dos livros acaba por dar uma aura de extraordinariadade aos próprios personagens).

Mais complicado é o quadrante "pessoas normais em situações normais", em que os personagens não têm nada de especial e também não lhes acontece nada de especial; realmente há alguns estilos avulsos que talvez se enquadrem nesta categoria: sitcoms, telenovelas (se os protagonistas não forem milionários com disputas por heranças e filhos ilegitimos pelo meio), etc. O naturalismo, o realismo e o neo-realismo tentaram deliberadamente ser isso, mas não sei se conseguiram: p.ex., Os Maias (supostamente a obra-prima do realismo/naturalismo português) realmente gira à volta de pessoas normais (num certo meio social) levando a vida normal (de novo, nesse meio) da altura, mas o que é certo é que teve que introduzir um personagem principal extraordinário (Carlos da Maia é claramente apresentado como tendo tido uma educação e uma personalidade diferentes das outras pessoas) e também um acontecimento extraordinário (penso que não é nenhum spoiler referir o incesto involuntário); a respeito do neo-realismo / realismo socialista, muitas vezes formalmente corresponde à descrição "pessoas normais em situações normais", limitando-se a descrever a vida quotidiana das classes desfavorecidas, como em Esteiros, sem os personagens ou os acontecimentos terem nada de especial; no entanto, a particularidade é que suspeito que esses romances acabavam por ser lidos sobretudo por jovens idealistas da classe média, o que os tornava na prática - do ponto de vista dos leitores - obras sobre "pessoas extraordinárias em situações extraordinárias" (o mesmo pode ser dito de muitas obras anti-guerra, descrevendo os horrores da guerra sem heroísmos, como Nada de Novo na Frente Ocidental ou Platoon: como o destinatário dessas obras era sobretudo as pessoas que não tinham participado na guerra, acaba por funcionar, do ponto de vista do público, como pessoas em situações extraordinárias). E quando o romance neo-realista acabava com uma greve, uma ocupação, ou com o personagem principal, inicialmente apolítico, a juntar-se ao "Partido", aí entrava totalmente no terreno "situações extraordinárias". No fundo, suspeito que uma obra "pessoas normais em situações normais" em estado puro acabaria por ser demasiado entediante para o público.

Thursday, July 17, 2014

"Famílias"

Esta passagem deste post da Shyznogud - «Aumento do rendimento das pessoas (irrita-me a conversa de "aumento de rendimento das famílias", nestas temáticas sou muito individualista)» - fez-me lembrar de um assunto que há tempos andava para fazer um post: uma tendência para, no discurso político, usar "famílias" como uma forma alternativa de dizer "pessoas" ("impostos sobre as famílias", "as famílias portuguesas têm vindo a perder poder de comprar", etc.).

Já agora, recomendo o artigo «Only lazy politicians use the phrase 'hard working families'» (é uma página com montesde artigos e é preciso ir à procura); embora o autor se concentre mais na questão dos "hard working", também aborda a parte do "families".

"Pirataria" prejudica indústria cinematográfica?

Se calhar não:

Um economista analisou os downloads ilegais e as receitas de 150 blockbusters lançados no período de sete anos e concluiu que a pirataria não é prejudicial a Hollywood.

Koleman Strumpf é o autor de um estudo que promete ser polémico. O economista afirma que a pirataria não prejudica os interesses do cinema. «Não há evidências nos meus dados empíricos que mostrem que a partilha de ficheiros tenha um impacto significativo nas receitas dos cinemas», explica Strumpf. A partilha de ficheiros pirata reduziu as receitas de primeiro mês dos filmes em 200 milhões de dólares, entre 2003 e 2009. Este valor corresponde a menos de 1% do que os filmes na realidade faturaram, explica o BGR [Exame Informática]
.

Aqui pode-se aceder a uma versão preliminar em PDF do estudo - Using Markets to Measure the Impact of File Sharing on Movie Revenues; o autor aliás tem também um estudo sobre o assunto parecido - The Effect of File Sharing on Record Sales: An Empirical Analysis, publicado em 2007.

Uma nota final - parece-me que o ordenado do autor é pago por um donativo da família Koch à Universidade do Kansas, ou coisa parecida (mais provavelmente, pelos rendimentos do donativo, feito anos antes de ele ser contratado); atendendo ao historial de envolvimento dos irmãos Koch em ativismo político ultra-liberal, admito que isso possa levantar algumas dúvidas sobre a credibilidade do estudo; no entanto, como o autor fundamenta a sua posição com base em dados e cálculos que imagino sejam facilmente replicáveis, acho que se não aparecer ninguém a dizer que os cálculos estão errados poderemos assumir que estão certos (e de qualquer maneira nem sei qual a posição dos irmãos Koch sobre a propriedade intelectual).

Sunday, July 13, 2014

A saída do "Fórum Manifesto" do BE

O "Forum Manifesto" decidiu desvincular-se do Bloco de Esquerda; não implicando isto uma desvinculação automática dos seus membros, as notícias que correm é que Ana Drago provavelmente irá abandonar o BE.

Para começar, caso alguns leitores não saibam bem o que é o Fórum Manifesto, uma pequena súmula histórica: nos últimos meses de 1991, após o falhado golpe contra Gorbachov e o comunicado do PCP apoiando os golpistas, o essencial dos militantes "renovadores" do PCP abandonaram o partido (confesso que não sei exatamente se foram sobretudo saídas voluntárias ou se também houve muitas expulsões), que de qualquer forma já estava num processo de abandono de militantes críticos; desse processo nasceu a Plataforma de Esquerda, que em breve começou a colaborar com o PS. A facção da PE (incluindo figuras como Miguel Portas ou Daniel Oliveira) que recusou essa linha de aliança com o PS organizou-se em torno de um jornal, o "Manifesto" (suspeito que o nome foi escolhido para imitar il manifesto) - lembro-me de, nas manifestações anti-propinas, esse jornal ser distribuído (não sei se ainda terei guardado algum lá por casa). Nas eleições europeias de 1994, falou-se numa coligação entre o PSR, o MDP/CDE e o grupo do Manifesto, mas o PSR acabou por concorrer sozinho, e o MDP/CDE mudou o nome para Politica XXI, passando a integrar o "antigo" MDP/CDE + o Manifesto (penso não estar em erro se disser que a criação da Politica XXI foi uma espécie de OPA amigável ao MDP/CDE por parte do Manifesto, que passou a ser largamente dominante na nova encarnação do partido). Em 1999, a Politica XXI, junto com o PSR e a UDP, criou o Bloco de Esquerda; mais tarde (creio que até por imposição da lei dos partidos), PSR, UDP e Politica XXI dissolveram-se como partidos, sendo substituídos respetivamente pela Associação Política Socialista Revolucionária, pela Associação União Democrática Popular (creio que esta manteve a sigla) e pelo Fórum Manifesto. Dentro do Bloco, a Política XXI / Fórum Manifesto é (ou era...) conotada como a ala mais moderada e mais aberta a acordos com o PS; a impressão que tenho é que, a partir de certa altura, passou a ser também a facção mais abertamente eurocética e mais dada a admitir a hipótese da saída do euro (mas admito que esta minha caracterização da evolução recente do Fórum Manifesto seja bastante discutível). Até à ultima convenção, o Fórum Manifesto era parte integrante da "maioria governante" do Bloco (e até era acusado pela Ruptura/FER - a "oposição de esquerda", que veio a dar origem ao MAS - de estar sobre-representada nos orgãos dirigentes), mas em 2012, se alguns dos seus membros continuaram a integrar ou a apoiar a "moção A", muitos outros participaram na "moção B".

Bem, e após esta longa introdução, o que tenho eu a dizer da nova cisão? Pelo menos uma coisa - que no caso da Ana Drago, se ela realmente sair do Bloco, não percebo muito bem como, em seis meses, alguém passa de membro da direção de um partido a ex-aderente do partido (sem sequer passar pela posição intermédia, de se candidatar contra a atual direção); isto é, se alguém se manteve anos na direcção e a apoiar a lista maioritária, parte-se do principio que não tinha diferenças significativas com a direção e as que tinha achava possivel tentar mudar as coisas a partir de dentro, em vez de apoiar uma candidatura alternativa; de repente (ou em seis meses) chega à conclusão que, não só as suas divergências com a direção são muito grandes, como até as divergências com o conjunto do aderentes do partido serão tão grandes que nem sequer vale a pena apresentar uma moção e listas oposicionistas (ainda mais que vai haver uma convenção daqui a quatro meses)? Sinceramente, parece-me a atitude de alguém que está à espera que as coisas lhe caiam no colo já feitas ("Se os órgãos dirigentes não concordam com as minhas ideias, não tento mudar as coisas, vou-me embora"), ou de quem vê a política mais como acordos e negociações de bastidores de que como uma luta aberta pelas suas ideias (o que, confesso, não era nada a ideia que eu tinha da Ana Drago), e portanto acha que, se não consegue convencer a "elite" do partido, então não há nada a fazer... (para falar a verdade, até ontem eu estava convencido que muito provavelmente a Ana Drago iria derrotar a atual direção na próxima convenção do BE).

Em tempos, Albert Hirschman escreveu que os descontentes com uma organização tinham 3 caminhos possíveis: "exit", abandonar a organização; "voice", fazer oposição interna; e "loyalty", permanecer esperando que as coisas melhorem. Dá-me ideia que grande parte do Fórum Manifesto passou diretamente da "loyalty" ao "exit" sem passar pela "voice" (isto é, podem ter feito "voice" nos órgãos dirigentes, mas junto dos militantes de base portaram-se quase sempre como membros leais da maioria).

Para um contraste (e mantendo-nos na área do FM), veja-se o caso de Daniel Oliveira - há muitos anos que expressou posições criticas da direção do Bloco; apoiou uma lista oposicionista; e, finalmente, chegou à conclusão que o melhor era sair. Concorde-se ou não com as posições de DO, é um percurso lógico e coerente. Já a Ana Drago, se realmente sair do Bloco (ainda tenho alguma esperança que ela venha desmentir a notícia), irá ser um percurso sem lógica nenhuma.

Adenda: confirma-se a saída de Ana Drago

Tuesday, July 08, 2014

Os berberes e o Estado

Há pouco mais de um ano, linkei para um post de Daron Acemoglu e James Robinson sobre a inexistência tradicional de Estado entre os berberes do Atlas marroquino.

Os autores voltam a abordar o tema, e daí generalizando para a questão sobre porque é que certos povos não têm (ou não tinham) Estado:

But there are difficulties in interpreting many of these facts and the rich patterns about the state. Why didn’t the Berbers have a state? It could have been that really they wanted a state but couldn’t figure out how to construct it, or perhaps just didn’t have a model of what a state looked like. Many scholars working in development economics, for example, argue that if a society lacks institutions or policies which would promote development then this must be because they don’t really understand how to make the policies or institutions work in their own specific context.

James Scott, on the other hand, would argue that the most plausible explanation for the absence of a Berber state was that the Berbers did not want a state (because the disruptions that the state would inevitably create in their lives) and had managed to create mechanisms to stop it forming. Scott’s general arguments about the state, which we review in the next two posts, are powerful and provocative images of what the state is and does and how people react to it. After we develop his arguments, we will discuss a whole series of empirical examples to interrogate his ideas.

O "James Scott" a que eles se referem é ao autor de "Seeing like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed" (aqui uma discussão no blogue do Cato Institute sobre esse livro).