Thursday, February 04, 2016

Candidatos "elegíveis" e "não-elegíveis"

"Unelectable", por Chris Dillow:

There’s one increasingly common meme I find very irritating: the dismissal of politicians as “unelectable”. Corbyn has long been tagged such, as are most US presidential candidates. (...)

As Anne Perkins and Jacques Peretti have pointed out, Thatcher was regarded as “unelectable” in the 70s, by both Tory wets and the Labour party. Look how that turned out. Public tastes are unpredictable – especially given today’s anti-establishment attitudes. (...)

What I especially hate here is the pretence to knowledge, even in the face of contrary evidence. People who never foresaw a Tory majority or the rise of Corbyn continue to pretend that they have the foresight to declare Corbyn “unelectable” (...)

My second problem with talk of “unelectability” is that it betokens a sense of entitlement. It is usually outsiders who are “unelectable” – Thatcher, Corbyn, Sanders, whoever – and only rarely Establishment figures. There’s a presumption here that elections can only be won by particular types: youngish good-lookers who went to the right schools and universities and who don’t unsettle the Very Serious People. “Unelectable” can be used to close off debate (...)

Monday, February 01, 2016

Um assunto que é capaz de criar confusão à esquerda e à direita

Reino Unido dá luz verde à manipulação genética em embriões humanos

Talvez mais à esquerda, onde o sector pró-escolha tem uma grande sobreposição com o sector anti-OGM, e muitos podem ficar com um conflito interior sobre o assunto; já à direita, parece-me que o sector pró-vida e o sector pró-OGM estão mais separados, o primeiro ligado à direita "cultural" pró-valores tradicionais e o segundo mais ligado à direita "económica" pró-empresas (aliás, alguns direitistas "culturais" que ei conheço até são bastante anti-OGM).

Friday, January 29, 2016

"Quarta revolução industrial" e destruição de postos de trabalho

Há dias, foi noticia que um relatório do Fundo Económico Mundial dizia que "quarta revolução industrial pode causar a perda de cinco milhões de empregos em cinco anos nas principais economias mundiais".

Isso não porá em causa a minha opinião que a "revolução-tecnológica-que-vai-destruir-montes-de-empregos-por-causa-da-automatização, simplesmente... não existe"?

Vamos ver a notícia com mais pormenor:

Depois da primeira revolução (advento da máquina a vapor), da segunda (electricidade, linha de montagem) e da terceira (eletrónica, robótica) vem a quarta que combina diversos factores no trabalho, como a Internet e os dados que transformam a economia. Estas alterações resultam numa perda líquida de mais de cinco milhões de empregos nos 15 principais países desenvolvidos e emergentes, diz o FEM que analisou a situação em economias como a dos Estados Unidos, Alemanha, França, China e Brasil.
A população ativa dos Estados Unidos, Alemanha, França, China e Brasil em 2014 era de cerca de 1.150 milhões de pessoas (e esses são apenas 5 dos tais 15 países); assim, os 5 milhões de empregos destruídos corresponderão a pouco mais que 0,4% da população ativa. Sim, poderá ser trágico para grande parte dessas pessoas, mas para a economia no seu conjunto não me parece uma destruição de empregos por aí além.

Saturday, January 23, 2016

Sobre as presidenciais

As norte-americanas, que hoje não se pode falar das portuguesas.

De há uns anos para cá (sobretudo desde a reeleição Obama, mas já havia sinais desde a década passada) que a ala "responsável" e "moderada" da elite conservadora norte-americana andou a defender uma reforma do conservadorismo e do Partido Republicano que combinasse uma filosofia social conservadora com uma posição mais pragmática na política económica, sem grandes radicalismos individualistas ou anti-governo à Tea Party (os dois representantes do conservadorismo no New York Times, o David Brooks e o Ross Douthat, andavam quase sempre a dizer isso), reformando o Estado Social em vez de simplesmente querer reduzi-lo radicalmente, e que conseguisse solidificar a posição dos Republicanos entre a classe trabalhadora (sobretudo a branca, embora aqui a referência racial normalmente ficasse nas entrelinhas), em vez de ligar apenas aos mais abastados  (a dada altura os defensores desse programa foram chamados de "reformicons", os conservadores reformistas, mas penso que a etiqueta não pegou).

Parece que essa combinação de uma espécie de conservadorismo social, relativa moderação na economia e apelo à classe trabalhadora finalmente chegou, mas pelo vistos não com o corte de cabelo e maneiras à mesa (dos debates) com que esses intelectuais conservadores estavam à espera (possivelmente quereriam algo mais no molde da democracia-cristã europeia).

Tuesday, January 19, 2016

Jovens correm menos risco de bullying no desporto organizado do que na escola

Parece-me a única conclusão que se pode tirar deste relatório.

Não percebo é lá muito bem como é que "existe uma percentagem elevada de cerca de 10% de eventos de bullying em contexto desportivo e a existência de vítimas persistentes na ordem dos 2%"; penso que a definição de bullying implica que tenha uma vítima persistente, não (o que implicaria que as dus percentagens deveriam ser idênticas).

Friday, January 15, 2016

O argumento islamofóbico a favor da imigração

The Islamophobic Case for Open Borders, por Nathan Smith (via Bryan Caplan):

If Islamophobia is taken literally to mean “fear of Islam,” I do fear Islam in the sense that I regard it as a source of error at best and a source of terror at worst. I believe the Islamic religion to be false, in key theological doctrines, in the general tenor of its ethical teachings, in its view of history, and in its view of how society ought to be organized. (...)

Since I believe Islam to be false, I would be a poor lover of my fellow men if I did not wish for it to disappear, that is, if I desired that millions of people remain forever imprisoned in a web of errors. (...)

Perhaps the fairest definition of an Islamophobia (fair in the sense that it makes the word something other than a mere term of abuse) is someone who thinks Islam is a net negative influence on human history, and is harmful to its adherents. (...) At any rate, if Islamophobes desire that there should be less Islam in the world, my argument that open borders will bring that about, is a reason for them to support it. (...)

In making predictions about open borders and religion, my chief basis for extrapolating is the principle of ASSIMILATION. While the speed of assimilation is debatable, it’s well-known that immigrants begin to learn about their adopted country as soon as they arrive, some faster than others, that children born in a country of foreign parents exhibit a mix of their parents’ culture and that of their new homeland, and that second- or third-generation immigrants come to resemble the fellow residents of their adopted country so much that for many purposes, they are indistinguishable. (...) We may expect a third-generation Mexican-American, say, to speak English and like American popular music, yet still to be a Catholic. (...)

Yet there’s actually a lot of religious switching, too, and it cumulatively dilutes away the religious distinctiveness of immigration-originated populations. (...)

In America, 77% of those raised Muslim, are still Muslim, according to Pew. That’s a fairly high retention rate, but Islam in the West still loses about one-fourth of each Muslim-born generation. At that rate of member loss, less than half of the descendants of Muslims would still be Muslim after three generations. Germany’s assimilation of Turkish migrants seems to illustrate how this process plays out. Less than 2% of the German population self-identifies as Muslim. Almost twice as many people in Germany are of Turkish descent, and there are also substantial numbers of Arabs. Since Turkey’s population is almost exclusively Muslim, it seems that Islam must have lost roughly half of the natural increase of its emigrants in Germany to apostasy. Germany is a relevant case study because its great Turkish immigration mostly occurred around half a century ago, so it’s had time for assimilation to play out across a couple of generations.

What about conversion the other way? (...)

Historically, Islam has never made major advances by migration, or by conversion from below, as Christianity has often done. Stagnation or decline has been its fate where it was politically subordinate. Islam spread by conquest, not missionary work. It is still strongest in the historic heartland where it was established by Arab conquerors in the 7th and 8th centuries. That’s not to say that the Middle East and North Africa became Muslim through forced conversions. Forced conversions to Islam were not the norm. Rather, first Arab, and later Turkish, conquerors, became the power elite, permitting Christianity, Judaism, and sometimes other religions, such as Hinduism in India, to persist among the subject populations. But non-Muslims enjoyed various disadvantages, such as paying a special tax called the jizya, could not proselytize, sometimes suffered political violence, sometimes had their children kidnapped to become janissaries, and in general, enjoyed few or no rights and comprehensively inferior treatment. In the very long run, this made it hard for Christian and other minority communities to flourish. Their vitality atrophied, and a slow trickle of conversions to Islam depleted their numbers. So Islam spread through conquest followed by a gradual, top-down conversion of subject peoples to the dominant faith. The exceptions to this rule, such as the seemingly peaceful conversion of Indonesia to (majority) Islam, tended to occur in relatively easy mission fields, where no higher religions had a strong presence.

There are, as far as I know, no historical examples of substantial Christian populations converting to Islam except under Muslim rule. I suspect that one reason why is Islam’s attitude to women. Islam is notoriously anti-feminist, confining women to the veil and the home, and thus preventing them from playing the crucial role as volunteers and community organizers that they play in Christian parishes. (...) Anyway, for whatever reason, Islam has never been competitive in a free religious marketplace, and I don’t think it ever will be.

Under open borders, I would expect most of the population of the Muslim world to emigrate to non-Muslim countries over the course of a few decades or perhaps a century. Since Muslims comprise less than one-fourth of the world population, though, migration alone would be very unlikely to lead to a Muslim majority in Western countries. Instead, open borders would lead to a world in which most Muslims live as immigrant minorities in countries where Christianity and/or the Enlightenment were historically the dominant religious influences. That’s a big change from the contemporary world, where Muslims constitute the majority in most of the countries where they live. And while my bits of data and my quick retrospective glance at history hardly constitute ironclad evidence, they point to a scenario in which Islam’s new status as a minority religion in most of the countries where it’s present will lead to a slow but steady dissolution of its membership and influence.

Thursday, January 14, 2016

O Inverno árabe era inevitável?

Faz 5 anos que presidente tunisino abandonou o poder., e durante uns meses falou-se de "Primavera árabe", há medida que as ditadures egipcia e libia iam sendo derrubadas e a Síria, Iemén e Barén eram atingidos por protestos massivos.

Hoje em dia (tirando exatamente a Tunísia, apesar do terrorismo), a Primaver árabe parece ter-se tornado um Inverno, com uma nova ditadura no Egito, e a Síria, Líbia e Iemén destruídos pela guerra civil. Mas seria inevitável?

Algo que atualmente parece ter voltado a fazer parte da sabedoria convencional é a ideia que uma eleição livre num país árabe levará quase de certeza os islamitas ao poder (e tanto a nova ditadura egípcia como a guerra civil síria foram o resultado de golpes militares feitos com o pretexto de que os governos islamitas eleitos estariam a caminhar para um nova ditadura); há primeira vista, isso parece fazer sentido, olhando para os resultados eleitorais das primeiras eleições tunisinas e egípcias (a Líbia é um caso mais complexo), em que os islamitas foram os vencedores.

Mas vamos ver com melhor pormenor:

- Na Tunísia, nas primeiras eleições os islamitas tiveram apenas 37% dos votos, e sem maioria parlamentar tiveram que fazer uma coligação tripartida com dois partidos seculares de centro-esquerda; se não fosse isso, talvez a polarização entre o campo islamita e o secular tivesse sido maior, e talvez a crise que ocorreu com o assassínio de dois políticos de esquerda radical por terroristas salafitas (e que levou à demissão do primeiro-ministro islamita e à criação de uma espécie de governo de independentes) tivesse dado origem a um golpe de estado, como no Egito. Diga-se que a Tunísia provavelmente teve a sorte de ter logo à partida adotado um sistema eleitoral proporcional e ainda por cima pelo pelo método de Hare-Niemeyer, mais favorável às minorias do que o de Hondt (se as primeiras eleições tunisinas tivessem sido pelo sistema maioritário - como no Egito - ou mesmo pelo método de Hondt, os islamitas teriam obtido uma maioria esmagadora no parlamento).

- No Egito, na primeira volta das eleições presidenciais de 2012 os três primeiros candidatos (o islamita Morsi, Ahmed Shafik, conotado com o regime anterior, e Hamdeen Sabahi, apoiado por uma aliança de nasseristas, liberais e esquerdistas) tiverem todos pouco mais que 20% (um ponto interesante: Sabahi, que ficou em terceiro, foi o mais votado no Cairo, em Alexandria e em Port Said - talvez os manifestantes que derrubaram Mubarak vivessem mesmo num mundo muito diferente do que o típico egípcio); na segunda volta, Morsi ganhou por 52% contra 48%. Diferenças tão pequenas dão-me a ideia que bastaria uma mudança de pormenor (como candidatos diferentes para cada campo, ou até se tivesse feito um tempo diferente no dia da votação) para os resultados serem outros; algo que não me admirava nada era que se Sabahi tivesse passado à segunda volta talvez tivesse ganhado (afinal, é de esperar que um oposicionista laico gerasse menos reações negativas de partes do eleitorado do que um islamita ou algém visto como próximo de Mubarak, logo se Morsi e Shafik quase empataram um contra o outro, não seria muito difícil que Sabahi pudesse ganhar contra qualquer deles)

- Finalmente a Líbia: nas eleições de 2012, a relativamente secular Aliança das Forças Nacionais teve 48% dos votos (com 15% de brancos e nulos, isso era mais do que maioria absoluta), enquanto as várias listas islamitas provavelmente nem chegaram a 15%. O problema na Líbia foi que 80 deputados foram eleitos em voto por lista (a votação que deu o resultado atrás referido) e 120 foram eleitos por um sistema de candidatos uninominais - a dada altura os deputados eleitos nominalmente aliaram-se aos islamitas e tentaram impedir a realização de novas eleições, o que foi o pretexto para o golpe militar e a guerra entre dois parlamentos riviais (tenho a ideia que nesta altura já serão pelo menos 4 governos em luta).

Vendo isto tudo, interrogo-me se muitos dos problemas que seram origem ao tal Inverno não poderiam ter sido evitados se esses países tivessem adotado por um sistema parlamentar com voto proporcional (como na Tunísia), em vez de presidencialismos (como no Egito) ou deputados eleitos em votação nominal (como na Líbia). Sobretudo em sociedades bastante divididas (o exemplo egípcio parece indicar que haverá pelo menos 3 campos nos países árabes - os islamitas, a oposição secular e os apoiantes dos ditadores seculares - e nenhum parece ter o apoio esmagador da população: por alguma razão na Líbia e na Síria nenhum dos lados consegue derrotar os outros em combate) um sistema parlamentar proporcional é o que mais obriga as várias partes a se entenderem (em contraste com o principio o-vencendor-leva-tudo implícito no presidencialmo e/ou em sistemas eleitorais não-proporcionais).