Wednesday, January 18, 2017

A redução da TSU

Pelo que percebo lendo o decreto-lei[pdf]:

a) as empresas que tivessem trabalhadores a ganhar menos que 557 euros, e agora os aumentem para 557 euros vão pagar apenas 22,5% (em vez de 23,75%)

b) o mesmo para as empresas que aumentem o ordenado desses trabalhadores para... seja que valor for (600 euros, 1000 euros, 5000...)

c) já as empresas que contratem, agora, um novo trabalhador, e lhe paguem 557 euros, vão descontar 23,75%

Pode ser visto como um medida de apoio às empresas já existentes em detrimento de novas empresas, e também uma medida que favorece mais a preservação dos empregos já existentes do que a criação de novos empregos. [Creio que o Luís Aguiar-Conraria já tinha algures escrito qualquer coisa nesse sentido]

Por outro lado, é verdade que se fosse ao contrário (a TSU reduzida aplicada a todos os empregos a ganhar 557 euros, e a não ser aplicada aos empregos com salários superior), poderia ser vista como um incentivo a pagar salários baixos - ambas as hipóteses são problemáticas.

Wednesday, January 11, 2017

Quem paga o imposto sobre...

Esta questão voltou agora a colocar-se acerca do imposto de selo sobre as comissões que os bancos cobram sobre os pagamentos com cartão de débito. Mas é uma discussão recorrente - também ocorre por vezes acerca das Taxas Municipais sobre Direitos de Passagem.

Nesses casos há sempre grandes polémicas, pareceres jurídicos para aqui e para ali, pedidos para o governo esclarecer quem é que tem que pagar o imposto (os bancos ou os comerciantes? as empresas ou os clientes?); mas a verdade é que não interessa para nada quem é que a lei diz quem é que tem que pagar o imposto (antigamente eu diria "como qualquer aluno do 3º ano de Economia sabe"; mas como agora ad licenciaturas são de três anos, provavelmente até aprendem isso antes).

Explicando melhor  - imagine-se que o Estado lançava um imposto de 1 euro sobre, digamos, os cortes de cabelo.

Há partida temos duas hipóteses - ou a lei diz que é o cliente a pagar, ou diz que é o cabeleiro/barbeiro a pagar.

Se a lei disser que é o cliente a pagar, o cabeleireiro/barbeiro tem 3 hipóteses:

A1 - não faz mais nada além de aplicar a lei - cobra o preço que cobrava antes (p.ex., 9 euros), e cobra um euro adicional de imposto

A2 - faz umas contas, e conclui que o que perde com a redução da clientela (devido ao aumento do preço que o cliente tem que pagar) é maior do que perderia se mantivesse o mesmo número de clientes e baixasse o preço que recebe por clientes, e assim decide baixar o preço de 9 para 8 euros (continuando o cliente a pagar os 9 euros que pagava antes - 8 euros e mais 1 de imposto)

A3 - de novo, faz umas contas, e chega à conclusão que o melhor é mesmo uma situação intermédia - baixar o preço, mas menos que um euro (o que quer dizer que o preço a pagar pelo cliente aumenta alguma coisa, mas menos que um euro); neste cenário, nem a redução da clientela é tanta como no cenário A1, nem a redução do lucro por corte de cabelo é tanta como no cenário A2

Se a lei disser que é o cabeleireiro/barbeiro a pagar, ele tem também três hipóteses:

B1 - não faz mais nada além de aplicar a lei - cobra o preço que cobrava antes (os tais 9 euros), e depois desses 9 euros tira um para o imposto (ou seja, vai passar a ganhar menos 1 euros por corte de cabelo)

B2 - faz umas contas, e conclui que o que perde com a redução do lucro por corte de cabelo é maior do que perderia se subisse o preço, mesmo passando a ter menos clientes, e assim decide subir o preço para 10 euros (mantendo o lucro unitário que tinha antes)

B3 - de novo, faz umas contas, e chega à conclusão que o melhor é mesmo uma situação intermédia - subir o preço, mas menos que um euro (o que quer dizer que o lucro por corte de cabelo diminui alguma coisa, mas menos que um euro); neste cenário, nem a redução da clientela é tanta como no cenário B2, nem a redução do lucro por corte de cabelo é tanta como no cenário B1

Mas, agora, vamos pensar - em termos, tendo do que o barbeiro/cabeleireiro recebe, como do que o cliente paga, o caso A1 é exatamente igual ao B2 (o cliente paga 10 euros e o cabeleireiro/barbeiro recebe 9); o caso A2 também é exatamente igual ao caso B1 (o cliente paga 9 euros e o cabeleireiro/barbeiro recebe 8); e as várias variantes de A3 também correspondem a variantes de B3. Desta forma, podemos assumir que a clientela e os lucros do barbeiro/cabeleireiro serão as mesmas em A1 e B2, e também serão iguais em A2 e B1 (ou em A3 e B3).


Mas isso quer dizer que, se no cenário que diz que é o cliente que paga o imposto, A1 for mais lucrativo (para o barbeiro/cabeleireiro) que A2, então no cenário em que é o barbeiro/cabeleireio a pagar o imposto, B2 também é mais lucrativo que B1, e vice-versa - ou seja, se no primeiro cenário for mais lucrativo cobrar mesmo o imposto ao cliente, então no segundo cenário também é mais lucrativo repassar o imposto ao cliente via aumento de preços; e, inversamente, se no primeiro cenário for mais lucrativo o barbeiro/cabeleireiro suportar ele o imposto que era para ser pago pelo cliente, também é mais lucrativo no segundo cenário não aumentar o preço final e suportar ele efetivamente o pagamento do imposto. Da mesma maneira, se no primeiro caso a hipótese intermédia (baixar o preço menos que um euro) for a mais lucrativa, no segundo caso essa hipótese (agora, subir o preço menos que um euro) também o será

Em suma, é indiferente quem a lei diz que vai pagar o tal euro - pode ser o cliente, o barbeiro/cabeleireiro ou ser dividido entre os dois, mas essa divisão é independente do que for estabelecido por lei.

Um detalhe - neste meu exemplo o imposto é um valor absoluto (1 euro); se fosse uma percentagem a coisa alterava-se ligeiramente, já que o vendedor pagar, p.ex., 10% de impostos não é a mesma coisa que o cliente pagar 10% de imposto, já que no primeiro caso os 10% incidem sobre o preço final e no segundo sobre o preço antes de impostos - os seja, 10% pagos pelo vendedor é a mesma coisa que 11,111% pagos pelo comprador (ou, no geral, uma taxa "t" paga pelo vendedor é equivalente a uma taxa "t/(1-t)" paga pelo comprador); mas a ideia fundamental mantêm-se: a lei dizer se é o vendedor ou o comprador a pagar o imposto não têm influência sobre quem o vai efetivamente pagar (no máximo, poderá ter alguma influência no montante a ser pago).

Nas conversas do dia-a-dia é frequentemente expressa uma opinião vagamente parecida com o que escrevo acima: "é sempre o consumidor final a pagar"; mas isso também é um erro (ainda que provavelmente não seja um erro tão grande como assumir que quem vai pagar é quem a lei diz que vai pagar) - não é obrigatório que seja o consumidor final que vai pagar: se acharem que um aumento de preços vai originar uma grande redução da procura, os vendedores podem optar por baixar o preço nominal e suportarem eles o aumento do impostos (como nos exemplos A2 e B1 acima); o meu ponto é que, se o fizerem, vão fazê-lo de qualquer maneira (independentemente do que a lei diga). Numa regra geral, podemos dizer que o imposto vai recair sobretudo sobre quem tiver um comportamento mais rígido - se os consumidores comprarem quase a mesma quantidade do bem/serviço em questão, independentemente das subidas ou descidas de preços, os vendedores vão fazer recair o imposto sobretudo sobre os clientes; se, pelo contrário, uma pequena subida/redução de preço originar grandes reduções/aumentos da procura, os vendedores tenderão a assumir eles o imposto.

[Um exemplo de uma situação em que, ao que tudo indica, o imposto era mesmo pago pelo vendedor - com o descida do IVA sobre a restauração, a sandes de fiambre que eu costumo comer todos os dias subiu de 0,81 cêntimos - 1 euro de preço final - para 0,89 cêntimos - 1 euro de preço final; isso quer dizer que quem estava a suportar a diferença entre o IVA de 23% e o de 13% era mesmo o vendedor, que estava a deixar de ganhar 8 cêntimos por sandes]

Por vezes, nestas discussões sobre quem realmente ganha ou perde com alterações de impostos surge o inevitável (sobretudo da parte dos autores da alteração) "Claro, tem que haver fiscalização" (lembro-se desta conversa quando um governo anterior baixou o IVA sobre os ginásios); mas fiscalizar o quê? O estabelecimento comercial que reage a uma descida do IVA subindo o preço nominal e deixando o preço de venda ao público na mesma não está a cometer nenhum crime (está simplesmente praticando o ato de gestão), logo o que é que se vai fiscalizar?

Uma nota final - neste momento, os leitores já estarão a pensar "Mas então, todas aquelas manifestações contra as alterações à TSU? Quer dizer que foram uma perca de tempo? Afinal, se é indiferente quem a lei diz que paga a taxa..."

Não exatamente - subir 7 pontos percentuais na TSU do trabalhador e baixar 7 pontos na TSU do empregador seria de facto irrelevante para os contratos de trabalho que fossem assinados a partir daí para a frente (já que empregadores e trabalhadores iriam estabelecer o valor nominal do salário tendo já em atenção as contribuições respetivas) - mas não o seria para os contratos de trabalho já estabelecidos (que imagino fossem a maioria esmagadora dos assalariados nesse momento), em que os trabalhadores que tinham assinado um contrato dizendo que iam ter um ordenado de 600 euros (esperado descontar 66 euros para a Segurança Social) iam ver-se, de repente, a descontarem mais 42 euros por mês (além de outros pontos, como a redução da contribuição patronal não ser de 7 pontos mas apenas de 5,75 - representando portanto um aumento total das contribuições em 1,25 pontos - e também a redução implícita do salário mínimo líquido que iria ocorrer).

Leitura adicional - Tax incidence (Wikipedia)

Monday, January 09, 2017

O relatório dos serviços secretos dos EUA sobre a "ingerência" russa

Is That All There Is? Intel Community Releases Its Russia 'Hacking' Report, por Daniel McAdams (Ron Paul Institute for Peace and Prosperity):

The much-anticipated Intelligence Community report backing up its claims that the Russians hacked the US elections in November has just been released. Titled "Declassified Intelligence Community Assessment of Russian Activities and Intentions in Recent US Elections," the report is long on speculation and short on any evidence for the claims it was supposed to prove. It even came with a warning label stating that though the conclusions are reached with "high confidence," that "does not imply that the assessment is a fact or a certainty; such judgements may be wrong." We who lived through the 2002 "high confidence" in Iraqi WMDs remember this possibility well. (...)

Perhaps most surprising about the report -- and perhaps as a result of the paucity of evidence for the claims of "hacking -- is that a full third of its length is dedicated to quite unsophisticated criticism of the Russian television station RT.

What's the $80-plus billion dollar per year US Intelligence Community's big beef with RT? One of its big complaints is that RT undermined US democracy when it "broadcast, hosted, and advertised third-party candidate debates..." We are to believe that Russia undermined our political system by giving voice to official yet minor US political parties? Democracy is undermined when the democratic process is highlighted? (...)

he Kremlin funds RT to the tune of $190 million per year, states the report, and its audience keeps growing. The report does not mention that the US government spends vastly more -- $780 million for 2017 -- on its worldwide propaganda effort through the government-funded Broadcasting Board of Governors. Do what we say but not what we do. But then again, as National Intelligence Director James Clapper told the Senate yesterday, pointing out US government hypocrisy is itself indicative of a Russian influence operation in action.

Another problem the US spy agencies have with RT is that it reports on the surveillance state created by those same spy agencies. The Report states, "RT's reports often characterize the United States as a 'surveillance state' and allege widespread infringements of civil liberties." So RT is guilty of being a Kremlin plot to undermine our freedom because it points out that the US government has already undermined our freedom?
[Via Antiwar.com]

Wednesday, January 04, 2017

Grécia limita o uso de dinheiro (versão "notas e moedas")

Greece bans cash: Tax-allowance possible only through payments via plastic money (Keep Talking Greece):

Greece is banning the use of cash the soft way. As of 1.1. 2017, taxpayers will be granted tax-allowance and tax deduction only when they have made payments via credit or debit cards. The new guidelines refer to employees, pensioners, farmers but also unemployed.
A intenção provavelmente não é essa (possivelmente é para combater a evasão fiscal), mas suspeito que uma maior generalização do uso de "dinheiro de plástico" tornará mais fácil a Grécia resistir a uma repetição dos acontecimentos do verão de 2015.

Relembrando o que aconteceu:

- A Grécia suspendeu os pagamentos da dívida ao FMI
- O BCE limitou a linha de crédito aos bancos gregos
- Esperando que em breve os bancos ficasse sem dinheiro e/ou só com "novos dracmas", foi tudo levantar o dinheiro
- Com uma corrida aos bancos, e estes com os cofres mais vazios a cada minuto, o governo limitou os levantamentos bancários
- Após uma semanas com os levantamentos limitados (e com rumores que mesmo assim os bancos se estavam a esvaziar), o governo grego acabou por ceder

Agora imaginemos como seria se o uso do "dinheiro de plástico" estivesse mais generalizado na Grécia - seria possível limitar ou até suspender mesmo os levantamentos bancários sem isso  criar problemas de maior (já que as pessoas poderiam fazer os seus pagamentos com cartão); assim, a Grécia poderia (ou poderá?) resistir melhor a um corte de liquidez por parte do BCE.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Tuesday, December 27, 2016

Liberdade, leis e opressão social

Ainda a respeito da polémica desencadeada por Ricardo Araújo Pereira, André Azevedo Alves argumenta no Observador que "[n]os dias que correm, defender a liberdade implica, cada vez mais, resistir à ofensiva do poderoso lobby LGBT. (...) Um bom exemplo desse ódio foram as reacções contra declarações do insuspeito Ricardo Araújo Pereira, em que este se terá queixado da crescente opressão do politicamente correcto nestes domínios".

Mas vamos lá ver - ao que me parece, o RAP não se queixou que fosse proibido (legalmente) fazer piadas a falar de mariconços (ou de coxos), mas sim que haveria um ambiente de pressão social que tornaria impossível ou muito difícil fazer isso. Da mesma maneira, nenhum dos comentadores (dos que eu li) que criticou RAP disse que deveria ser ilegal fazer anedotas que pudessem ser vistas como homofóbicas, apenas que os humoristas deveriam abster-se de o fazer (mesmo a Isabel Moreira, abertamente, foi isso que disse,  apesar das implicações mais ambíguas que se possam ver no texto dela).

Na mesma linha, a maior parte dos comentários feitos no post do Facebook de Miguel Vale de Almeida criticando o artigo de AAA (que AAA recomenda a leitura como ilustração prática da sua tese) são bastante violentos (inclusive dizendo que o Observador não devia publicar aqueles artigos), mas parece-me que só dois ou três falam em fazer queixa às autoridades.

Claro que isso levanta uma questão (que, na minha opinião, deveria ser mais discutida do que tem sido nestas polémicas sobre o "politicamente correto") - até que ponto um ambiente de pressão social generalizada não poderá ser quase tão opressivo como as leis do Estado (ou talvez até mais - afinal, não é raro que quando uma coisa seja proibida por lei mas não seja alvo de sanção social, a lei acabe na prática por ser ignorada: como aquela taxa que nos anos 80 se pagava pela televisão ou conduzir a mais 10 kms que o limite de velocidade; mesmo a proibição do aborto ou do consumo de haxixe - quando eram crimes - andavam perto disso, só ocasionalmente dando origem a processos)?

A respeito disso, Henry David Thoreau escrevia, n'A Vida sem Principio:

Mesmo admitindo que o norte-americano tenha se livrado do tirano político, ele ainda é escravo de um tirano económico e moral (...). Não consideramos este país a terra dos homens livres? Que significa ser livre do poder do rei Jorge e continuar escravo do rei Preconceito ?
Ou John Stuart Mill, em On Liberty:
Like other tyrannies, the tyranny of the majority was at first, and is still vulgarly, held in dread, chiefly as operating through the acts of the public authorities. But reflecting persons perceived that when society is itself the tyrant — society collectively over the separate individuals who compose it — its means of tyrannizing are not restricted to the acts which it may do by the hands of its political functionaries. Society can and does execute its own mandates; and if it issues wrong mandates instead of right, or any mandates at all in things with which it ought not to meddle, it practices a social tyranny more formidable than many kinds of political oppression, since, though not usually upheld by such extreme penalties, it leaves fewer means of escape, penetrating much more deeply into the details of life, and enslaving the soul itself. Protection, therefore, against the tyranny of the magistrate is not enough; there needs protection also against the tyranny of the prevailing opinion and feeling, against the tendency of society to impose, by other means than civil penalties, its own ideas and practices as rules of conduct on those who dissent from them; to fetter the development and, if possible, prevent the formation of any individuality not in harmony with its ways, and compel all characters to fashion themselves upon the model of its own. There is a limit to the legitimate interference of collective opinion with individual independence; and to find that limit, and maintain it against encroachment, is as indispensable to a good condition of human affairs as protection against political despotism.
Mas, a ser assim, acho que temos uma curiosa inversão dos alinhamentos tradicionais: usualmente era a esquerda que dizia que, mesmo que possa haver liberdade legal, o peso das tradições sociais e/ou da dependência económica (p.ex., o risco de ser despedido) pode limitar grandemente essa suposta liberdade (creio que era isso que consistiam as teses da Escola de Frankfurt e afins sobre "personalidade autoritária", "tolerância repressiva", "unidimensionalidade", etc.); já à direita é que era mais frequente dizer-se que desde que o Estado não te proíba, és livre (à partida diria que essa posição vinha acima de tudo dos liberais socialmente conservadores - que pretendem uma combinação de Estado não-intervencionista com uma sociedade em que os "valores tradicionais" sejam predominantes; já entre liberais socialmente "progressistas" - a começar talvez pelo Thoreau e o Mill e a acabar em muitos auto-proclamados "liberais espessos" - é mais comum a ideia de que as convenções sociais também podem ser opressivas; quanto a conservadores não-liberais, penso que não perdem muito tempo a discutir sobre se as convenções sociais são ou não restritivas da liberdade - suponho que o raciocinio deles seja algo "e se forem?"). Mas nas polémicas sobre o "politicamente correto" parece-me ser mais frequente ser a direita (e/ou os conservadores culturais, o que não é exatamente a mesma coisa) a queixar-se da alegada "tirania do politicamente correto" (mesmo, parece-me, em situações em que essa suposta "tirania" não vem do Estado), e cada vez mais se vê a esquerda a argumentar que desde que não haja nenhuma proibição oficial de dizer isto ou aquilo, não há problema nenhum (ou será que é exatamente por isso que esta questão da "pressão social" não é tão discutida como eu acho que deveria ser? Porque nenhum dos lados se sente confortável em evidenciar esta contradição?)

[Já agora, a respeito de aparentes trocas de posição, recomendo o texto Brendan Eich and the New Moral Majority, por William Saleton, na Slate, sobre a demissão mais ou menos forçada de Brendan Eich de CEO da Mozilla, depois de se saber que ele tinha doado dinheiro para uma campanha para abolir o casamento homossexual; o autor afirma que os argumentos usados para pressionar Eich a se demitir foram os mesmos que durante décadas foram usados para justificar o despedimento de homossexuais: "ele não se integra", "os clientes e os outros empregados não se sentem à vontade", etc.]

Agora, acho que há duas questões (pelo menos) que se podem levantar acerca disso:

Primeiro, será possível uma situação em que há censura social mas não restrições legais? Ou será que, a partir do momento em que, numa dada sociedade, um dado comportamento (como a homossexualidade ou a homofobia) é socialmente repudiado, é uma questão de tempo até surgirem leis contra esse comportamento?

Segundo, será possível uma situação sem censura social, ou será que a diminuição da censura social sobre uma coisa está forçosamente ligada a mais censura social sobre outra (isto é, combater a censura social contra X implica praticar censura social contra Z)?

Para explicar melhor o que quero dizer, vamos pensar num exemplo que não corresponda a divisão ideológica no mundo real (para pudermos refletir objetivamente no assunto, sem sermos influenciados por clubismos políticos) - p.ex., usar óculos modelo aviador (ou então, para referir algo que foi realmente atacado há uns meses, cargo shorts - como é que isto se diz em português?).

Vamos imaginar que existia um ambiente de censura social generalizada contra o uso de óculos modelo aviador, que era opinião generalizada, frequentemente repetida em todo o sítio, que eram uns foleiros, que viviam mentalmente no princípio dos anos 80, que eram serial killers em potência, que nos lugares que que é "reservado o direito de admissão" eram impedidos de entrar, que nas entrevistas de emprego quem usasse esses óculos era imediatamente posto de parte, etc. e que era frequente alguém que usasse esses óculos, quando finalmente arranjasse um emprego, ser praticamente obrigado pelas colegas de trabalho (via sessões diárias de "quando é que mudas de óculos?") a mudar de óculos.

Agora vamos imaginar que, finalmente, um grupo de utilizadores desses óculos e de "aliados" decidem que é tempo de contra-atacar - consistindo esse contra ataque em artigos indignados nas redes sociais sempre que alguém escreve ou diz qualquer coisa contra os óculos modelo aviador, boicotes e listas negras contra as empresas que discriminam pessoas por usarem óculos modelo aviador, e provavelmente criando as palavras "oculosdeaviadorofóbico" e "imagengista" para designar os seus adversários (e, já que estamos numa de boicotes, boicotando os meios de comunicação que propagam a oculosdeaviadorofobia).

Face a esse contra-ataque, alguns poderiam queixar-se "já não se pode dizer nada"; mas essa perseguição (e repito que estou falando apenas de perseguição ao nível da sociedade civil, não de leis) aos oculosdeaviadorofóbicos teria por objetivo, exatamente, contrariar uma situação em que "já não se pode usar os óculos de que se gosta".

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Thursday, December 22, 2016

O Google e o Holocausto

Na ultima semana, eclodiu uma espécie de micro-escândalo porque clicar no Google "Did the Holocaut Happen" dava uma lista de links que tinha em primeiro lugar um link para um site neo-nazi dizendo que o Holocausto não tinha existido (digo "micro" porque ninguém ligou a isso, mas os que ligaram trataram o assunto como um escândalo).

Num site português que deu azo ao tal "escândalo" até vieram com uma conversa um bocado absurda a queixar-se de que a primeira resposta que o Google dava à pergunta "Did the Holocaut Happen" era um link negando o Holocausto. Eu digo que a conversa é absurda por uma razão - o Google não é o Quora, ou a secção de perguntas do Yahoo; o Google não dá "resposta" a perguntas - o Google é um motor de busca, que indica sites que contenham as palavras indicadas no campo de pesquisa; se o tal site neo-nazi tem efetivamente as palavras pesquisados, os resultados do Google são exatamente o que o utilizador estava a pedir - sites com as palavras "Did", "the", "Holocaust" e "Happen" (talvez o utilizador não tenha consciência do que está a pedir, e julgue que está a obter a resposta a uma pergunta - a mania que noto que alguns utilizadores têm de preencher o campo de pesquisa com uma pergunta formulada em "linguagem natural" levanta efetivamente essa suspeita - mas os utilizadores também têm que ter um mínimo de noção do que estão a fazer - se alguém vai a uma loja de ferramentas comprar pastéis de nata...).

Entretanto, parece que o Google fez qualquer coisa para que esse site deixasse de aparecer em primeiro; para as pessoas que se calhar estejam contentes com isso, pensem nas implicações: quanto mais a ordem dos resultados nas buscas do Google derivar de decisões humanas (vamos por este site para cima, vamos por aquele para baixo...) e menos de um algoritmo matemático funcionando automaticamente, mais poder tem que controle o Google para controlar aquilo que nós lemos ou deixamos de ler.

É verdade que se pode argumentar que o Google já tem esse poder - afinal, nenhum de nós sabe verdadeiramente se o motor de busca realmente segue o tal algoritmo (que é, creio, parcialmente secreto), pelo que já podem estar perfeitamente a dar-nos resultados pré-fabricados às pesquisas que fazemos, nomeadamente sobre assuntos que possam ser considerados sensíveis. Mas creio o Google começar a fazer isso abertamente em certos casos aumenta a possibilidade de uma manipulação generalizada - quando a manipulação é secreta, há sempre um certo cuidado de se evitar que se saiba (inclusive por via de whistleblowers), e portanto uma tendência para a fazer em dose reduzida; a partir do momento em que se admite que há uma ponderação humana na ordenação dos resultados, essa barreira psicológica, chamemos-lhe assim, desaparece.

Já agora, uma coisa que já há muito me irrita no Google: quando eu faço uma pesquisa sobre, digamos, AAAA, BBBB e CCCC, e aparecem-me entre os resultados links que referem só AAAA e CCCC (indicado que BBBB não é referido nesse site), obrigando-me a por BBBB entre aspas para ter mesmo só resultados em que BBBB apareça - vamos lá ver, se eu pesquisei pelas três palavras, é porque quero resultados com essas três palavras, não é? Não têm que me dar resultados só com duas e obrigarem-me a truques para ter os resultados que quero.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Wednesday, December 21, 2016

"Pobreza", "Islamismo", etc.

- A [característica X] está associada ao [comportamento Y]
- Grande parte, ou mesmo a maior parte, das pessoas com a [característica X] não têm o [comportamento Y]

Dá-me a ideia que, conforme a [característica X] é económica ou cultural, a discussão inverte-se completamente (em quem diz cada coisa).

Ainda o colégio eleitoral norte-americano

Some Additional Thoughts on the Faithless, por Steven Taylor (Outside the Beltway):

Prior to 2000, I thought that an electoral college/popular vote inversion would result in voters being shocked about an institution they paid little attention to and that would lead to serious calls to change it. But, of course, that proved to be incorrect. The bottom line is that a) we have an unhealthy reverence for anything that we can attribute to the Founding Fathers, b) those same Fathers made changing the system almost impossible, and c) the winners of any system have no incentive to change that system. (...)

As much as I think that the EC should be replaced with a popular vote system, I cannot see a pathway that leads to its demise save a situation in which the Republicans also fear winning the popular vote and losing the EC as well.  The thing is:  the electoral advantage in terms of actual voters belongs to Democrats:  consider that from 1992 to the present (almost a quarter century), the Republicans have only won the most popular votes once, and that was in 2004.  They lost in 1992, 1996, 2000, 2008, 2012, and in 2016.  And yet, in that same time-span, they have won the presidency twice.  Why?  Because of the electoral college.  They do not have any incentive to get rid of it.

"Estou muito atarefado" - símbolo de posição social

Research: Why Americans Are So Impressed by Busyness, por Silvia BellezzaNeeru Paharia e Anat Keinan (Harvard Business Review):

“What is a ‘weekend?’” Violet Crawley, the Dowager Countess of Grantham, famously asked during the first season of Downton Abbey, set in 1912. The joke, of course, is that the Dowager Countess is too aristocratic to even recognize the concept of a week divided between work and leisure. Consistent with this portrayal, Thorstein Veblen, one of the biggest theorists on status signaling, suggested in 1899 that living a leisurely life and not working (what he refers to as “conspicuous abstention from labor”) is the most powerful way to signal one’s status in the eyes of others. This makes sense: if you are very wealthy, you can afford as much leisure as you wish.

Fast-forward to the 21st century and hop across the Atlantic. In today’s America, complaining about being busy and working all the time is so commonplace most of us do it without thinking. If someone asks “How are you?” we no longer say “Fine” or “I’m well, thank you.” We often simply reply “Busy!” (...)

Busyness and lack of leisure are also being more celebrated in the media. Advertising, often a barometer of social norms, used to feature wealthy people relaxing by the pool or on a yacht (e.g., Cadillac’s “The Only Way to Travel” campaign in the 90’s). Today, those ads are being replaced with ads featuring busy individuals who work long hours and have very limited leisure time. For example, recall Cadillac’s 2014 Super Bowl commercialfeaturing a busy and leisure-deprived businessman lampooning those who enjoy long vacations.

Intrigued by this phenomenon, we decided to conduct a series of studies to examine how signaling busyness at work influences perceptions of status in the eyes of others. (...)

In general, we found that the busy person is perceived as high status

Against Busyness, por Chris Dillow:
A nice post at the HBR blog by Silvia Bellezza, Neeru Paharia and Anat Keinan describes how being busy is now celebrated as a symbol of high status.

This is not natural. Marshall Sahlins has shown that in hunter-gather societies (which were the human condition for nine-tenths of our existence) people typically worked for only around 20 hours a week (pdf). In pre-industrial societies, work was task-oriented; people did as much as necessary and then stopped. (...)

The backward-bending supply curve of labour was normal.