Friday, February 10, 2017

Ainda o "border adjustment tax"

The shocking truth about border tax adjustments, por Scot Sumner (Econlog):

A US border adjustment tax would be a massive contractionary shock for the global economy. The only question is what type of shock. Here are three possibilities:

A. The dollar appreciates by 25%.
B. The dollar is unaffected.
C. The dollar appreciates by 12.5%.

In case A, trade is unaffected, but foreigners with dollar denominated debts would immediately see their debts rise by 25% in local currency terms. This could create a global financial crisis.

In case B, dollar debtors would be unaffected, but you would have a massive trade shock. The real (after tax) exchange rate for foreign countries would immediately appreciate by 25% relative to the US dollar. Over time, equilibrium would be restored through a painful process of reducing wages and prices in foreign countries, until the real exchange rate moved back to equilibrium.

In case C, you have a fairly sizable debt shock and a fairly sizable trade shock at the same time. Emerging market exporters would lose exports at exactly the same time that their dollar denominated debts rose by 12.5% in local currency terms. Not good.

I've been trying to wrap my mind around the question of why this border tax would be such a big shock. I think it might have something to do with the fact that money inflows to the US caused by the export of Boeing jets would receive a 20% subsidy, but money inflows to the US in repayment of dollar debts would not receive any subsidy. Perhaps someone who knows more about border taxes/subsidies can clarify this issue.

A parte do "I've been trying to wrap my mind around the question of why this border tax would be such a big shock. I think it might have something to do with the fact that money inflows to the US caused by the export of Boeing jets would receive a 20% subsidy, but money inflows to the US in repayment of dollar debts would not receive any subsidy" e o comentário (em parte incorreto) de um leitor dizendo que "I also think that the standard text book model assumes that all currency flows are driven by real trade flows: there is little emphasis on the capital and financial system. Given that capital flows are so large nowadays, I find the full currency adjustment theory somewhat unrealistic" parecem ir num sentido parecido ao do meu post - que o que complica tudo são os movimentos internacionais de capitais.

Tuesday, February 07, 2017

Trump é um "Velho Democrata"?

Henrique Raposo escreve hoje no Expresso que

Trump não é conservador, republicano ou federalista, é um “confederado” sulista à imagem de Andrew Jackson, o fundador do Partido Democrata. (...)

As divisões esquerda-direita nos EUA não se fizeram na linha religiosa ou na linha capitalista. Nos EUA, todos defendem o cristianismo e o capitalismo. A divisão foi estabelecida noutras linhas, a saber: federalismo “versus” maior autonomia dos estados; abertura comercial e cosmopolita “versus” ruralismo, isto é, sociedade (gesellschaft) “versus” comunidade (gemeinschaft). Logo na fundação, a “direita” federalista de Hamilton e Adams contestou a “esquerda” de Jefferson.

Os federalistas queriam uma união federal com centralidade jurídica (Supremo Tribunal) e financeira (Banco central), e aspiravam a uma América industrial, comercial, marítima, aberta ao exterior, e ligada aos valores universais. É por isso que os federalistas já tinham uma atitude crítica em relação à escravatura. À luz do direito natural, Hamilton e os Adams consideravam a escravatura como uma ofensa moral inaceitável.

Do lado oposto, o esclavagista Jefferson recusava o federalismo forte, defendia uma mera confederação de estados sem autoridade central e federal, sem Supremo ou Banco central; o objetivo era a perpetuação daquele idílio rural parado num tempo de cavalheiros e senhoras. Claro que este idílio era suportado pela escravatura – um pormenor. Ao fundar o Partido Democrata, em 1828, Andrew Jackson corporizou este espírito sulista, que rebentaria na sucessão antiLincoln.
Tendo razão nalguns pontos, acho que Henrique Raposo acaba por fazer uma grande confusão (talvez porque em muitos aspetos a política norte-americana dos séculos XVIII e XIX acaba por ser algo contra-intuitiva para os olhos europeus).

Sim, os Federalistas de Hamilton e John Adams (e os Whigs e Republicanos do século XIX, que continuaram a sua linha ideológica) eram os defensores da industrialização e do comércio, e eram também os mais críticos da escravatura (embora a atitude de Jefferson sobre a escravatura também fosse muito ambígua); mas não eram exatamente adeptos da "abertura ao exterior": Federalistas/Whigs/Republicanos eram o partido do protecionismo, e também eram os maiores céticos face à imigração - veja-se os Alien and Sedition Acts, do presidente John Adams, que tornava mais difícil aos estrangeiros naturalizarem-se e permitia ao presidente prender ou deportar estrangeiros que considerasse perigosos (medidas tomadas em parte por receio dos imigrantes franceses - numa altura de tensão entre os EUA e a França revolucionária -  e em parte porque os imigrantes apoiavam maioritariamente o partido jeffersoniano, e portanto os federalistas tinham interesse em tornar mais díficil que esses adquirissem a cidadania).

Costuma comparar-se Trump com Jackson, mas eu eu diria que , se o estilo é Jackson, o conteúdo é Hamilton (o programa de Trump é largamente o de Hamilton - nacionalismo, protecionismo, obras públicas, um estado simultaneamente pró-business e intervencionista). Nos anos 30 dizia-se que Roosevelt combinava objetivos jeffersonianos (populismo económico) com meios hamiltonianos (intervencionismo federal) - poderemos talvez dizer que Trump combina um forma jacksoniana com um conteúdo hamiltoniano?

Quando, ao longo do século XIX, começam a surgir conflitos por causa da imigração católica, continua a ser o Partido Democrático o mais pró-imigrante, com a reputação de ser o partido dos irlandeses, enquanto é nos partidos opostos aos Democratas, como os Whigs e sobretudo os Know Nothings, que surge a oposição à imigração, inclusive por considerarem que a imigração irlandesa fazia de um plano secreto de uma religião oposta aos princípios da democracia liberal para conquistar os Estados Unidos. Grande parte dos Know Nothings, anti-imigração e anti-católicos, juntam-se depois ao Partido Republicano de Lincoln (penso que muitos defendendo o fim da escravatura exatamente porque achavam que os escravos tiravam o trabalho aos brancos protestantes e deveriam ser recambiados para a Libéria) - ou seja, essa história de, de um lado os racistas xenófobos, do outro a abertura ao exterior, não é assim tão simples: durante grande parte da história dos EUA, o que temos é de um lado o racismo anti-negro, e do outro a xenofobia anti-católica (antes de acusarem os Democratas de serem o partido do "acid, amnesty and abortion", no final do século XIX os Republicanos acusavam-nos de ser o partido do "rum, romanism and rebellion").

Na verdade, eu até suspeito que o único aspeto constante da política norte-americana desde a criação do país é atitude face à imigração: os Democratas (incluindo o "Partido Republicano" de Jefferson) e o outro partido trocaram muitas vezes de posição em vários assuntos (autonomia dos estados, comércio internacional, politica externa, etc, etc), mas na imigração os Democratas quase sempre foram o partido pró-imigrante e o outro partido o mais restricionista.

Já agora, há um acontecimento na história dos EUA que não costuma ser visto nestes termos, mas que talvez possa ser considerado como um prenúncio da tal aliança sulista-yankees tradicionais, unidos contra os "outros": a Lei Seca (que tinha muito de subtexto anti-imigração à mistura), cujos maiores apoiantes parecem ter sido os Democratas sulistas e os Republicanos.

Thursday, February 02, 2017

O "border adjustment tax"

Atualmente, está a discutir-se nos EUA o "border adjustment tax". Pelo que percebo, é uma alteração ao imposto sobre os lucros no sentido de quando uma empresa compra produtos importados isso não contar como custo (o que significa que vão pagar mais impostos) e quando vende produtos para exportação isso não contar como proveitos (o que significa que vão pagar menos impostos).

Isso tem sido apresentado como sendo, na prática, um imposto sobre as importações e um subsídio sobre as exportações (e eu suponho que seja quase a mesma a coisa que implementar um IVA e usar a receita para baixar o IRC).

Tanto defensores como críticos da ideia têm dito que é uma coisa que até pode soar como protecionista, mas não o é realmente - o imposto de 20% sobre as importações e o subsidio de 20% sobre as exportações apenas vão fazer que o dólar valorize 25% (ou, dito de outra maneira, que as outras moedas desvalorizem 20%), deixando tudo na mesma em matéria de competitividade externa (pela conversa dos 20%, imagino que seja essa a taxa do imposto sobre os lucros).

Mas tenho dúvidas que seja mesmo assim (e, se fosse mesmo assim, qual era o interesse da medida?).

Vamos por partes - pelo lado das importações, se o dólar valoriza 25% e as compras ao estrangeiro passam a pagar um imposto de 20%, o custo, em dólares, que as empresas pagam quando importam um produto estrangeiro fica realmente na mesma: um produto importado com o valor nominal de 100 "estrangérios" (moeda hipotética que antes tinha uma cotação 1 estrangério = 1 dólar e depois vai ter uma cotação de 1,25 estrangérios = 1 dólar) antes custava 100 dólares, dos quais 20 depois iam ser abatidos nos impostos; depois vai custar 80 dólares (100 estrangérios), sem dedução fiscal - do ponto da vista da empresa importadora, fica tudo na mesma; assim, é de esperar que o volume das importações se mantenha, e que o seu valor nominal em dólares se reduza em 20% (mas o que os outros países recebem na moeda local fica igual).

Pelo lado das exportações, a ideia que vai ficar tudo na mesma parece estar a assumir que, deixando as exportações de estar sujeitas a imposto, os exportadores vão baixar o preço nominal das exportações na mesma proporção, o que é capaz de fazer sentido. Assim, antes uma empresa exportava bens no valor de 1000 dólares (dos quais 200 iam para imposto), e os compradores em Estrangeirabad pagavam 1000 estrangérios; depois a empresa vai exportar bens no valor de 800 dólares (livres de impostos) e os compradores vão pagar 1000 estrangérios por eles, ficando também tudo na mesma; de novo, é de esperar que o volume das exportações se mantenha, e que o seu valor nominal em dólares se reduza em 20%.

Assim, a balança comercial dos EUA ficava em termos físicos na mesma, e o seu saldo nominal em dólares decrescia 20% (correspondente à valorização de 25% do dólar).

Mas a história não fica só por aqui, já que a balança comercial tem que ser igual (ou, melhor simétrica) da balança de capital:

Exportações - Importações = Saídas de capital - Entradas de capital

(mais uns pozinhos de ambos os lados, mas acho que não afeta a ideia geral)

Se, num sistema de câmbios variáveis, o saldo da balança comercial fosse maior que o simétrico do saldo da balança de capital, isso quer dizer que haveria maior procura de dólares no mercado (para pagar as exportações e mais os investimentos nos EUA) do que oferta (resultante dos dólares que os norte-americanos gastam para pagar importações e investir no estrangeiro), fazendo o dólar subir até se equilibrarem as balanças, e vice-versa (atenção que aqui falo mais do desejo de exportar, importar, investir, etc., do que de exportações, importação, investimentos, etc. efetivamente realizados; a nivel do que acontece efetivamente, o valor da balança comercial é necessariamente igual ao simétrico do valor da balança de capital)

Um aparte - para efeitos disto que estou a dizer, acumular dólares em cofres colombianos conta como "entradas de capital" nos EUA.

Agora, a nível das operações de capital, no curto prazo iria haver uma confusão, com primeiro uma entrada massiva de capitais nos EUA para beneficiar da prevista valorização do dólar, e depois uma saída provavelmente também massiva, depois da valorização se consumar. Mas o que me interessa aqui é como as coisas vão funcionar depois do sistema estar a funcionar regularmente.

Se as taxas de juro, perfis de risco de países, etc., se mantiverem constantes, imagino que quem investe em mercados internacionais siga uma politica do tipo "40% no país A, 30% no país B, 10% no meu país", ou algo parecido (olhando para aquelas teorias de "carteira de mercado", e aplicando-as não à decisão "que títulos comprar", mas "em que países investir", parece-me natural que o resultado seja algo do género; e também já vi prospetos de fundos de investimento com conversas parecidas, não falando em países específicos, mas em mercados, estilo "20% em mercados emergentes"). Agora, se os investidores internacionais se comportarem assim, qual será o resultado dessa alteração de impostos e da suposta valorização do dólar?

A nível das entradas de capital, acho que acontece a mesma coisa - um investidor em Estrangeirabad que siga a política de investir em títulos norte-americanos (ou mesmo acumular dólares) digamos, 1/3, do seu rendimento anual, vai continuar a investir o que investia antes em estrangérios, mas em dólares o valor do seu investimento vai ser 20% menor (já que os, digamos, 100.000 estrangérios que ele investia todos os anos agora são 80.000 dólares e não 100.000).

O problema são as saídas de capital - assumindo que tudo o mais se mantém igual (nível de preços, taxa de juros, etc.) à partida não vejo grande razão para que o valor nominal dos investimentos norte-americanos no estrangeiro diminua (sim, sai mais barato em dólares, p.ex., comprar uma casa, ou mesmo uma empresa, mas suspeito que, no agregado, isso levaria sobretudo a que os investidores dos EUA comprassem mais coisas, não que gastassem menos dinheiro em dólares - ou mesmo que o valor nominal em dólares baixasse, duvido que baixasse em 20%).

Mas então assim, se o saldo da balança de pagamentos se reduziria em 20%, mas o da balança de capital não se reduziria em 20% (porque só uma das suas parcelas ia ter a tal redução de 20%), isso não poderia decorrer dessa maneira: se as saídas de capital dos EUA se reduzem numa proporção inferior a 20%, isso quer dizer que o saldo nominal da balança de capital não se iria reduzir em 20%, mas numa proporção inferior (se for negativo) ou superior (se for positivo, como penso ser o caso).

Mas como nesse cenário da valorização de 25% do dólar, o total da oferta de dólares (importações + saídas de capital) seria maior (ou, dito de outra maneira, iria descer menos) que o total da procura de dólares (exportações + entradas de capital), dá-me a ideia que o dólar iria valorizar menos que 25%, e nesse caso iria sempre haver um aumento real das exportações e uma diminuição real das importações dos EUA (ou seja, sempre iria haver um pouco de efeito protecionista, ou  mercantilista).

O que os leitores (nomeadamente os que percebem mais e/ou mais interessados nestes temas) acham? Isto pode fazer algum sentido, ou há alguma falha no meu raciocínio (p.ex., eu assumi que o nível de preços e salários nos EUA não se alterava, mas não me admirava nada que, se se alterasse, isso mudasse tudo)?

Wednesday, February 01, 2017

O elenco do filme

Um comentário de um leitor ao post de Scott Sumner que citei ali atrás:

Interesting movie.

So, Trump plays Hitler, a true revolutionary out to destroy the old world order and to make his country great again.

Bannon stars as Goebbels, chief propagandist, defender of the master race while clearly not the best looking specimen himself.

Miller … probably Roehm then.

Mattis … stand-in for the Wehrmacht Generals. Competent officers all, dutifully advancing towards Stalingrad.

Tillerson … von Ribbentrop, engineering a pact with Russia to divide up the whole of Europe this time

Wonder who’ll play the role of Carl Schmitt to gut the rule of law.

The whole UK plays Italy… a solid, if a little incompetent ally with quite different values, but sadly caught up in the spirit of the times. They try to control their big wild ally but eventually get engulfed in the bonfire too.

Big question: who plays the US? The economic and military giant lurking far, far away, and whose massive, worldwide power our revolutionaries are underestimating? Can China handle the role? It doesn’t look like it… yet. But it’s ramping up fast… Stay tuned.

Proibindo a entrada nos EUA a pessoas preconceituosas e intolorentes

We need to keep “bad dudes” out of America, por Scott Sumner:

I saw Trump administration official Stephen Miller on a CBS interview, explaining that the recent travel ban was aimed at keeping out people with bigotry towards any sexual orientation, race, or class of people. So what kind of bigoted person does Stephen Miller have in mind? Steven Bannon? Or maybe this guy:
Trump’s other Steve: Stephen Miller’s rocket ride to power in the White House, por Andrew Romano (Yahoo News):
Miller went on to complain, in a column titled “Political Correctness Out of Control,” about the availability of condoms on the Santa Monica High School campus. He took issue with the administration’s acceptance of gays and lesbians, later writing that “just in case your son or daughter decides at their tender age that they are gay, we have a club … that will gladly help foster their homosexuality.” He griped that his fellow students weren’t being required to recite the Pledge of Allegiance, or to learn how heroic their predecessors were. Maybe American soldiers shouldn’t have killed Indians? Miller asked, sarcastically.

Tuesday, January 31, 2017

MacGyver (2016) - análise

Há uma grande diferença entre o "novo" MacGyver e o dos anos 80, que acho que muda muito o espírito da série: mais exatamente, falta aquela componente de herói humanitário, defensor dos fracos e oprimidos - mesmo quando estava em missões oficiais, o episódio acabava por girar menos em torno da missão, e mais a proteger os camponeses de uma aldeia próxima de um traficante de droga que os queria escravizar ou uma coisa do género (para não falar de todos os episódios em que ele não estava de serviço, mas a ajudar algum amigo ou ex-namorada ou a fazer alguma espécie de voluntariado social).

Já na série de 2016, ele limita-se a ser um agente dos serviços de espionagem, a combater os inimigos do estado norte-americano (o que até pode provocar nalguns espetadores uma reação "who cares? uns ou outros, o que é que interessa?") - em muitos aspetos, o enredo faz lembrar mais os episódios da Missão Impossível do que do MacGyver original (eu ia escrever que a única grande diferença face à Missão Impossível é o nesta os heróis frequentemente usarem máscaras, mas atendendo a que o amigo dele agora vai fazer máscaras para a Phoenix, nem sei se também não começarão a agir muitas vezes disfarçados); já que estou fazendo analogias com outras séries de ação, diria que série dos anos 80 seria menos "Missão Impossível" e mais "Soldados da Fortuna "/"A-Team", no que diz respeito às tarefas e inimigos que os heróis enfrentavam (esses também faziam a maior parte das vezes de protetores de pessoas comuns contra algum vilão de quem elas não se conseguiam defender sem ajuda).

Friday, January 27, 2017

Beneficios e custos da NAFTA para os EUA

What did NAFTA really do?, por Dani Rodrik (via Tyler Cowen):

Remember first that many advocates of NAFTA made at the outset some wildly optimistic claims about what NAFTA was going to achieve. The most extravagant of the studies, and the one that probably was the most widely circulated, was one produced at the Peterson Institute for International Economics (then just the Institute for International Economics). This study argued that NAFTA would be a net job creator for the U.S., thanks to a projected improvement in the U.S. balance of trade.(...)

This argument was always a red herring: trade agreements are not supposed to create net employment; they simply reshuffle employment. NAFTA neither subtracted, nor added substantial number of jobs to the U.S. economy. At best, it made the U.S. economy more efficient by reallocating workers to jobs that are more productive.

And certainly this happened. But the overall efficiency gains are quite small, much smaller than what the trade volume effects would lead you to believe. A recently published academic study by Lorenzo Caliendo and Fernando Parro uses all the bells-and-whistles of modern trade theory to produce the estimate that these overall gains amount to a “welfare” gain of 0.08% for the U.S. That is, eight-hundredth of 1 percent! (...)

A gain, no matter how small, is still a gain. What about the distributional impacts?

The most detailed empirical analysis of the labor-market effects of NAFTA is contained in a paper by John McLaren and Shushanik Hakobyan. They find that the aggregate effects were rather small (in line with other work), but that impacts on directly affected communities were quite severe. (...)

In other words, those high school dropouts who worked in industries protected by tariffs prior to NAFTA experienced reductions in wage growth by as much as 17 percentage points relative to wage growth in unaffected industries. I don’t think anyone can argue that a 17 percentage drop is small. As McLaren and Hakobyan emphasize, these losses were then propagated throughout the localities in which these workers lived.

So here is the overall picture that these academic studies paint for the U.S.: NAFTA produced large changes in trade volumes, tiny efficiency gains overall, and some very significant impacts on adversely affected communities.(...)

So is Trump deluded on NAFTA’s overall impact on manufacturing jobs? Absolutely, yes.

Was he able to capitalize on the very real losses that this and other trade agreements produced in certain parts of the country in a way that Democrats were unable to? Again, yes. 

Wednesday, January 25, 2017

Proteccionismo e liberalismo

A respeito da politica económica de Trump, Vital Moreira escreve que esta é "um mix de política económica pouco comum. Tradicionalmente, o nacionalismo económico externo é o reflexo de políticas intervencionista na ordem económica interna, enquanto o liberalismo económico interno coabita tendencialmente com uma política comercial externa igualmente liberal. Trump baralha as coisas e inaugura uma nova receita: ultraliberalismo interno e nacionalismo externo, ou seja, um ultraliberalismo nacionalista."

Mas essa combinação, entre liberalismo interno e protecionismo externo será assim estranha? Não me parece - também é, p.ex., a doutrina da Frente Nacional francesa (contra a globalização, mas a favor de baixos impostos). E até para aí 1945-50, também era mais ou menos a doutrina do Partido Conservador britânico e do Partido Republicano dos EUA, internamente contra as reformas sociais estilo New Deal e ao mesmo tempo protecionistas (ou, no caso britânico, defensores da "comércio livre imperial" - comércio livre com as colónias, protecionismo para com o resto do mundo); veja-se como, mesmo em 1950, a jovem conservadora Margaret Roberts se apresentava como candidata a candidata a deputada, defendendo ao mesmo tempo os baixos impostos e, aparentemente, a "preferência imperial":

What Margaret said that evening was already distinctive, at least in tone. She began with an attack on the failure of three and a half years of socialism to deliver material rewards. She urged the Government to do what 'any good housewife will do' by examining their accounts. She put her faith in tax cuts to boost production and (more dubiously) to lower prices. She spoke of the need to renew link with the Empire 'to fight the economic war' (a reference to the doomed Imperial Preference tariff system).
Da mesma forma, mesmo já no pós-guerra, nos EUA a ala economicamente mais liberal (no sentido internacional da palavra) e anti-New Deal do Partido Republicano, à volta do senador Robert Taft, era a que mais defendia o protecionismo, enquanto era Eisenhower, mais "centrista", que defendia o comércio livre; mesmo Barry Goldwater, o candidato republicano de 1964, com a reputação de ser um radical pelo "small government" (ou um extremista "em defesa da liberdade"), creio que era a favor do protecionismo (pelo menos o seu candidato a vice era-o de certeza).

Um aparte - há um assunto em que todos os "liberais económicos" atrás referidos até eram bastante estatistas: greves e sindicatos; mas haver defensores do liberalismo económico a defenderem que o Estado deve intervir para restringir a ação dos sindicatos é tão comum que acho que não afeta a sua qualificação como "liberais internos".

Mesmo nos tempos mais modernos, continuando a falar dos EUA, a combinação protecionismo+desregulação interna também era mais ou menos o programa de Pat Buchanan nas eleições de 1992, 1996 e 2000, ou de "financiadores de campanhas" como o industrial do têxtil Roger Miliken.

Vendo as coisas pelo lado contrário, os 30 anos a seguir à II Guerra Mundial foram um período de crescimento da intervenção económica do estado em geral, por um lado, e de redução das barreiras ao comércio internacional (dentro, claro, do "bloco ocidental") - tal até era designado por "Keynes at home, Smith abroad".

Fazendo uma análise talvez um bocado marxista, explicando as ideias pelos interesses económicos, até pode fazer sentido que por vezes a defesa do liberalismo económico interno venha junto com a defesa do protecionismo - basicamente, sectores produtores de bens transacionáveis com baixo valor acrescentado são os que são mais ameaçados, tanto pela concorrência estrangeira, como pela regulamentação laboral e ambiental (e se calhar também são os que têm menos a ganhar com o aumento da procura, pelo que também têm menos razão para apoiar politicas keynesianas); em compensação, os sectores de alta tecnologia provavelmente conseguem mais facilmente suportar os custos das regulamentações e também são os que mais beneficiam da globalização; quanto ao sector dos serviços está por natureza protegido da concorrência externa (não tendo assim necessidade de proteções adicionais), e é o que mais tem a ganhar com o aumento da procura interna (logo, com politicas keynesianas), e, já agora, também é pouco afetado pela regulação ambiental.

Outra possível razão é que, no mundo real, a defesa do liberalismo económico vem muitas vezes misturado com a "ética do trabalho" - "cobrar impostos a quem trabalha para dar a vadiagem" ou "regras ambientais que não deixam trabalhar quem quer produzir"; como o protecionismo até vem normalmente com a mensagem "temos que produzir mais" (e muitas vezes destinado exatamente aqueles setores com mais conotação de trabalho pesado - agricultura, indústria tradicional - em detrimento de setores com a conotação de "pipis que querem é estar atrás do balcão ou sentados à secretária" - como muitos dos serviços) acaba por até ser atrativo para pessoas que noutros assuntos até são bastante liberais (provavelmente também é a razão porque muitas pessoas são mais contra o RSI do que contra os subsídios à agricultura - e, nos subsídios agrícolas, criticam sobretudo os subsídios para reduzir a produção - ou porque preferem subsídios às empresas que contratam em vez de subsídios de desemprego: economicamente todos são distorcedores e causadores de ineficiências, e também são todos resultado de coação - sendo financiados por impostos cobrados à força - mas muitas pessoas - a maioria? - acham que é moralmente diferente "subsidiar para trabalhar/produzir" e "subsidiar quem não trabalha/produz").