Friday, March 31, 2017

O golpe a conta-gotas na Venezuela

Venezuela's ongoing coup process, por "Boz": 

The Venezuelan government has unconstitutionally shut down other branches of government that might check its power and refuses to hold constitutionally-mandated elections. It's an ongoing coup process that is spanning months and years rather than a single day event.

Have no doubt that Venezuela is experiencing an unconstitutional and undemocratic coup. "Coup" and "Golpe" are the words we should use.

Thursday, March 30, 2017

Relembrando a América permissiva dos anos 50

Há 7 anos, falei aqui de um artigo sobre sociedade permissiva dos EUA nos anos... 50 (em contraponto à narrativa convencional que atribui isso aos anos 60).

Há dias, vi algo que reforça essa ideia - o episódio "Hitch Hike" da série "Alfred Hitchcock Apresenta", inicialmente emitido a 21 de fevereiro de 1960 (para todos os efeitos, um produto dos anos 50); sem entrar muito em spoilers, praticamente toda a conversa dos jovens para o adulto no filme (o ser si próprio e não o que os outros querem; o conflito entre os "instalados" e os "excluídos", etc.) e o tema geral dos jovens rebeldes versus o adulto conservador (e preocupado sobretudo com a respeitabilidade social), e até o facto de o tom geral do telefilme até parecer ser mais simpático face aos jovens do que ao adulto, parecem saídos da imagem que temos dos "anos 60" (e ainda por cima, quando se fala em "anos 60", muita gente pensa não tanto em 1960-69, mas mais em algo como 1963-75, do assassínio de Kennedy à queda de Saigão).

E, para isso ser representado numa série de televisiva mainstream (com temas um bocado peculiares, é verdade, mas mesmo assim mainstream), parece-me significar que essas atitudes já deviam andar no "ar do tempo" da cultura popular da época.

Nunca terão tido gatos?

Parece que há por aí uma petição pela "família natural", cujo subscritores alegam que "a família – e isto é uma questão de direito natural, não é ideológico – é um homem e uma mulher e é daí que nascem os filhos. Não existe possibilidade científica de ser de outra maneira.

Mas como é que não há possibilidade científica de não ser de outra maneira? Basta uma mulher ficar grávida de um desconhecido (ou mesmo de um conhecido com quem não tenha um relacionamento do tipo a que se chama "família"), para termos uma família e filhos sem essa família ter um homem e uma mulher.

[Qualquer pessoa que tenha sido proprietário de gatas não-esterilizadas com acesso ao mundo exterior sabe que uma "família"  com crias não necessita de ter um macho e uma fêmea]

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Wednesday, March 29, 2017

A diferença entre o Iémen e a Rússia

Opinião que, aliás, vale para todas aquelas situações em que alguém argumenta "fazem protestos contra os EUA/Israel/etc., mas não fazem protestos contra o Irão/China/etc.":

I don’t mean to denigrate the legitimate grievances of the Russians who oppose Putin and his government. Yet I have to wonder what Western liberals think they can do about it: expressions of support for [anti-Putin demonstrators] are bound to have the opposite of their intended effect, much like Russian expressions of support for anti-Vietnam war protesters during the cold war era rebounded to the benefit of Lyndon Baines Johnson and Richard Nixon. Beyond that, what are our options? Shall we launch a regime change operation against the Kremlin, as we did in Iraq against Saddam Hussein, funding exile groups and eventually invading the country? That seems off the table to all but the crazies among us – although, let me tell you, the crazies are more numerous and powerful than one would hope.

On the other hand, there is something Americans can do to alleviate the situation in which the Yemenis find themselves. Our government is not only supporting the murderous assault on those children but is also contemplating even greater crimes on that blood-soaked soil. So where is the outrage? Where is the coverage? Where are the “liberals”?

[A Tale fo Two Protests, Justin Raimundo]

Wednesday, March 15, 2017

Flexibilidade laboral =/= produtividade

Deregulation Fantasies, por Chris Dillow:

[T]here’s no obvious benefit to deregulation.

My chart shows the point. It plots labour productivity in 2015 against a measure of employment protections in 2013-14: I’m taking a simple average of four OECD indices of protections again dismissals and regulation of temporary work.

It’s clear that, across 33 countries for which we have data, there is no correlation. It’s also clear that this fact is robust to outliers. Yes, the US has weak regulation and high productivity. But the UK and New Zealand have weak regulation and moderate productivity, which France and Belgium have high regulation but also high productivity.

You might think this is counter-intuitive. Common sense says that if firms can easily fire people then workers’ incentives to work hard are sharpened by a greater fear of the sack, whilst companies can more easily adjust their workforce to changes in market conditions.

These mechanisms, however, are offset by others, for example:

- If people fear the sack, they’ll not invest in job-specific skills but rather in general ones that make them attractive to future employers. They might also spend less time working and more time looking for a new job.

- A lack of protection will encourage people to change jobs more often, as it’s better to jump than be pushed. This can reduce productivity, simply because new workers often take time to adapt to their new company’s clients, IT systems and to new colleagues.

- If firms know they can fire at will they’ll devote less effort to screening or training, and so there might be worse matches between jobs and workers.

Deregulation might be good for bad employers who want to be petty tyrants, but it has no obvious aggregate benefit.

Tuesday, March 14, 2017

A Uber tem futuro?

No Observador, perguntam se «Com prejuízos gigantes, a Uber vai conseguir sobreviver a “dar borlas”?» (referindo-se a, pelos vistos, a Uber praticar preços abaixo de custo).

Eu iria mais longe - o modelo de negócio da Uber terá mesmo futuro? Afinal, qual é o grande valor acrescentado da Uber (nomeadamente que leve os seus motoristas - nomeadamente os que usam os seus carros particulares - a trabalharem para a Uber em vez de para sí próprios)?

A app para chamar os carros? Na sua essência não se distingue muito dos rádios das cooperativas de táxis, e suspeito que não seria muito difícil a uma associação de condutores arranjar também uma app com funcionalidades parecidas (aliás, penso que muitas empresas de táxis também têm apps); nem me admirava nada se daqui a algum tempo alguém desenvolvesse um software genérico que bastasse fazer o download e depois fazer uma pequena configuração (estilo definir nome da empresa, nome da app e algumas palavras-passe) para qualquer grupo de motoristas poder criar a sua própria app de chamar carros (e como em milhões de pessoas com ligação em internet há sempre alguma que está disposta a fazer um programa - mesmo que já haja um parecido - e vendê-lo barato ou mesmo dá-lo à borla, e como ao, contrário de outros produtos, no software é possível fazer um voluma quase infinito de cópias, rapidamente esse software teria um preço módico).

A garantia que o motorista não é um maníaco homicida e/ou violador? Provavelmente é um fator bastante importante (é o mesmo que leva a maior parte das pessoas a não pedir boleias - nem a dar, já agora), mas uma associação de motoristas com um mínimo de reputação (e que mantivesse o registo de quem tinha transportado que cliente, naquele dia e naquela hora) também ofereceria essa segurança, acho.

Suspeito que, paradoxalmente, um grande trunfo da Uber é a sua semi-ilegalidade: um motorista que se fosse transportar pessoas no seu carro por conta própria temeria apanhar com multas brutais ou coisa parecida, trabalhando para uma empresa sente-se mais seguro (pensando que mesmo que apanhe com multas, a Uber provavelmente irá pagá-las); da mesma forma, a publicidade necessária (que, é verdade, está acima das capacidades de um motorista individual, mas provavelmente já não o estaria de uma associação ou cooperativa) é complicada de fazer na semi-ilegalidade, mas na Uber o próprio facto de operar em vários países (e talvez legalmente nalguns) dá-lhe notoriedade.

No fundo, talvez tenhamos aqui uma situação parecida com o tráfico de droga, em que a sua ilegalidade contribui para que assuma um caracter quase monopolista (não é fácil um novo concorrente qualquer meter-se num negócio ilegal sem mais nem menos, sem ter contactos ou apadrinhamentos).

Claro que poderemos perguntar-nos porque motivo os motoristas que trabalham para a Uber haveriam de querer trabalhar por conta própria (ou para uma cooperativa que apenas ficasse com a parte correspondente aos custos de manutenção da infraestrutura); a minha reposta seria "para ficarem com o dinheiro todo ou quase todo para eles, em vez de um parte ir para os lucros da Uber" - mas como pelos vistos a Uber tem prejuízo, se calhar os motoristas já não terão muito a ganhar em trabalhar por conta própria.

Já agora, recomendo este artigo n'O Insurgente do Rodrigo Adão Fonseca, e este no Center for a Stateless Society de Kevin Carson. Carson até refere que muitos motoristas da Uber já negociarão diretamente com os clientes («Every Uber driver I know carries personal business cards. And every Uber RIDER I know has described the experience of having the driver de-link future business transactions from Uber’s system by handing them one of those business cards and saying “if you need a ride, call me directly instead of using the app.”»), mas imagino que em Portugal (com as restrições que o RAF refere, em que os motoristas têm que usar carros específicos em vez dos seus próprios carros) tal não funcionaria.

Monday, March 13, 2017

Contra as "soft skills"

Há duas semanas, o Expresso/Economia falava sobre as chamadas soft skills, numa entrevista com o Secretário de Estado do Emprego, em que tanto entrevistador como entrevistado pareciam concordar que eram "decisivas"; mas "decisivas" para quem? Noto que, em termos de politicas públicas, o que interessa é a prmoção do bem estar geral, logo é relevante ver se as soft skills contribuem para o bem-estar geral, ou apenas para o bem-estar do indivíduo que as tem.

E o que suspeito é que as soft skills funcionam muito em contextos de soma quase nula: muitas vezes são úteis sobretudo para atividades como vendas, conseguir convencer outras pessoas numa reunião que a minha ideia é a melhor, etc. Ora, essas atividades acrescentam pouco ou nenhum valor ao conjunto da sociedade (e da economia real, mesmo que até possam ter efeitos no PIB medido) - se eu consigo convencer um cliente a comprar o produto da minha empresa, normalmente ele vai deixar de comprar de outra; se a minha opinião triunfa na reunião, outra deixa de triunfar - o que pode ser bom ou mau, conforme a minha ideia for melhor ou pior que as outras - em média, o efeito sobre a qualidade da decisão tomada será nulo (atenção que a capacidade de, numa reunião, conseguir pensar numa solução que tenha as vantagens das várias soluções em disputa sem os respetivos inconvenientes, e assim conseguir que as várias partes se ponham de acordo, já é, parece-me, mais uma qualidade predominantemente "hard skills", já que depende sobretudo da capacidade de descobrir uma solução técnica para as objeções apresentadas, não apenas de ter paleio para convencer os outros); admito que possa haver exceções em casos em que é melhor uma má decisão que nenhuma, e em que aí é realmente útil ter alguém com capacidade de convencer os outros a tomar uma decisão (mesmo que essa decisão seja má), mas acho que são exceções (sobretudo se pensarmos em termos do conjunto da economia).

De certa forma, isto é algo parecido com o que escrevi aqui: «Pessoas que prefiram o raciocínio lógico serão mais dadas a procurar soluções para os problemas, enquanto pessoas que prefiram as aptidões sociais valorizam mais o saber viver (e saber convencer os outros a saber viver) com os problemas; por exemplo, imagine-se que as pessoas que utilizam um dado sistema informático não gostam de algumas das coisas que trabalhar com esse sistema implica - uma pessoa mais virada para as aptidões relacionais reagirá a essa situação tentando convencer os outros que as vantagens do sistema suplantam os inconvenientes, que apesar de tudo é o melhor sistema disponível, etc. Já alguém mais virado para o raciocínio lógico reagirá à situação tentando aperfeiçoar o sistema, de forma a que deixe de haver razões de queixa. Assim, a preferência pelo raciocínio lógico tenderá a estar associada com maior progresso técnico.» (onde está "raciocínio lógico" ponha-se "hard skills" e "aptidões sociais/relacionais" ponha-se "soft skills" - a lógica do raciocínio é mais ou menos a mesma)

Aliás, até me arrisco a dizer que algumas soft skills podem ser consideradas "parasitárias" - como vimos atrás, muitas vezes pouco ou nada acrescentam ao bem-estar geral (a tal soma nula); mas é inegável que beneficiam o indíviduos que as tem (o vendedor que vende mais ganha mais comissões e provavelmente mais ordenado base; quem numa reunião consegue sempre convencer os outros ganha uma aura de liderança, potenciando promoções, etc.). Mas, se uma qualidade beneficia a pessoa que a tem, mas não aumenta a riqueza geral, a conclusão lógica é que o faz reduzindo a fatia do bolo das outras pessoas (ou seja, talvez possam dizer que muitas vezes as soft skills têm externalidades negativas*).



*Antes que alguém diga que se poderia então justificar um programa estatal para combater as soft skills, eu digo que isso era impossível; quase por definição, as pessoas com soft skills têm capacidade de adaptação, logo facilmente poderiam camuflá-las para evitar alguma espécie de imposto pigouviano que alguém pensasse lançar

Friday, March 03, 2017

O Brexit e a "Singapura da Europa"

Even after Brexit, the Singapore of Europe will remain a fantasy (Flip Chart Fairy Tales):

Singapore is like a porn star for the free-market right. They project all sorts of lurid fantasies onto it and get very excited. Every so often, an article appears breathlessly proclaiming the virtues of the island state and its rapid GDP growth. If only the stodgy old UK were a bit more like deregulated Singapore, we could have a bit of that too. You could make similar arguments for Luxembourg, another filthy rich state which has experienced relatively high per capita GDP growth, but no-one ever seems to suggest that joining the Euro and adopting Luxembourg’s stricter labour laws would be the answer to our economic woes. (...)

That’s because it wouldn’t, of course, but neither would trying to become Europe’s Singapore. Both countries are small city states with large financial services sectors and without the inconvenience of a wider hinterland. When PwC looked at the economies of various major cities, Singapore’s per capita GDP was below that of London and New York. Cities with large financial centres tend to be rich but you can’t build an entire country on the same basis. There aren’t enough and to go round.

Many of those who think the UK should be more like Singapore might be in for a shock if it really happened, for their fantasy star has another side. Forget the Nanny State, Singapore is more like Victorian Governess State. (...)

Even if the government achieves further reductions in public spending there will be little room for any significant tax cuts. There just isn’t the scope to attract business to the UK through low taxes. To do so would (...) require a complete dismantling of welfare and public service provision. Even George Osborne was never really up for that kind of state shrinkage, for the simple reason that the public wouldn’t wear it. The small state rhetoric pumped out over the last few decades by newspapers, MPs and think tanks has had remarkably little effect. Those favouring tax and spending cuts have always been a small though noisy minority. (...)

There are some who see Brexit as an opportunity to turn the UK into something like a Singapore of Europe, a low-tax low business regulation state. But this is a fantasy that is unlikely to be shared by most of the electorate. If there is one good thing to come out of Brexit it is the revival of the idea that, if enough people vote for something, they can make it happen, despite what pundits, politicians and the plutocrats of Davos say. After we leave the EU, some will, no doubt, push for radical tax cuts and deregulation. They probably won’t get very far. They will find their efforts frustrated by the Will of the People.

Thursday, March 02, 2017

Estimando o "Quantitative Easing para as pessoas"

Uma ideia que tem sido proposta (e que já referi há uns tempos aqui) é a de os bancos centrais porem o dinheiro em circulação, não através dos métodos que fazem agora (emprestando dinheiro aos bancos e/ou comprando títulos - nomeadamente títulos de divida pública), mas simplesmente distribuindo dinheiro diretamente pelas pessoas (o chamado "quantitative easing para as pessoas"/"dinheiro de helicóptero"; e acho que também poderíamos incluir o "crédito social", que defendia algo muit parecido há quase 100 anos atrás) - ou então emprestando esse dinheiro aos estados que por sua vez o distribuiriam pelos cidadãos (o que no final é quase exatamente - só com a nuance que vou referir no próximo parágrafo - a mesma coisa, ainda que contabilisticamente diferente).

Diga-se que este sistema de pôr dinheiro em circulação tem um potencial problema - no sistema tradicional, é fácil o banco central, se for necessário, reduzir a massa monetária em circulação: é só vender parte dos títulos acumulados, ou então conceder novos empréstimos a um ritmo inferior ao que os empréstimos anteriores vão sendo pagos; já num sistema em que o banco central emita dinheiro dando-o (em vez de emprestando-o ou comprando alguma coisa com ele) não é muito claro como se poderia reduzir a quantidade de dinheiro (diga-se que, na variante em que formalmente o banco central empresta ao estado, e que depois este distribui o dinheiro pelas pessoas, é mais fácil a redução - o banco central simplesmente empresta menos ao estado do que este devolve dos empréstimos passados, e nesse ano o estado lança um imposto em vez de distribuir o subsídio; a grande diferença aqui é que um estado tem autoridade para cobrar impostos e um banco central não).

Mas agora a questão é quanto isso representaria, esse dinheiro distribuído por cada pessoa?

Indo ao site do Banco Centra Europeu, temos as estatísticas, tanto da moeda em circulação (isto é, notas + moedas), como do chamado M1 (isto é, notas+moedas+depósitos à ordem). Estes são os valores em dezembro de cada ano (em billions de euros, o que eu presumo queira dizer milhares de milhões de euros):

moeda em circulação M1 = moeda em circulação + depósitos à ordem dif dif M1
2016 1073 7189 38 591
2015 1035 6598 68 690
2014 967 5908 57 512
2013 910 5396 46 310
2012 864 5086 22 304
2011 842 4782 46 98
2010 796 4684

De dezembro de 2015 a dezembro de 2016, a quantidade de notas e moedas em circulação terá aumentado em 38 mil milhões de euros; se esse aumento fosse feito distribuindo esse dinheiro pelos 340 milhões de habitantes da zona euro, seria o equivalente a pagar a cada europeu um subsidio mensal de 9 euros (hum, não é lá muito impressivo...). De 2010 a 2016, o subsidio oscilaria entre cerca de 5 euros/mês (em 2012) e 16 euros/mês (em 2015).

No entanto, estes valores seriam muito maiores se o "QE para as pessoas" fosse conjugado com outra medida (que ultimamente tem sido defendida por muitos economistas, talvez até mais na direita do que na esquerda) - proibir os bancos de concederem empréstimos a partir dos depósitos à ordem; tal iria fazer com que o M1 fosse idêntico à moeda em circulação (já que seria exatamente igual ter o dinheiro na carteira ou num depósito à ordem), o que levaria a que o BCE tivesse que emitir muito mais dinheiro para compensar o facto de os bancos já não poderem eles criar moeda pelo método de emprestar dinheiro depositado à ordem. Isto é capaz de ser um pouco mais complicado, mas numa versão simplificada poderemos assumir que assim o BCE iria imprimir (e distribuir) dinheiro equivalente ao aumento do M1 - nesse caso, em 2016 equivaleria a um subsidio por pessoa de 144 euros/mês (oscilando entre 24 euros em 2011 e 169 euros em 2015).

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Wednesday, March 01, 2017

A ocultação da palavra "direita"

No Diário de Noticias, Nuno Garoupa refere o facto de os partidos de direita portugueses não se assumirem como tal:

Ninguém imagina os partidos DA esquerda jurarem que não são partidos DE esquerda. Mas os partidos DA direita insistem todos os dias que não são partidos DE direita. Assunção Cristas já confessou o seu centrismo, Passos Coelho afirmou recentemente que o PSD nunca foi um partido de direita. Quarenta anos depois do 25 de Abril, a fazer fé no que nos dizem as lideranças do PSD e do CDS, não há partidos de direita na Assembleia da República.
O que questiono é se isso será uma excentricidade portuguesa, ou se será uma tendência geral, pelo menos na Europa ocidental - veja-se que o partido conservador sueco se autodenomina “os Moderados”, p.ex, e em francês até há a palavra “sinistrisme” (para designar o hábito dos partidos de direita terem nomes como “Rassemblement des Gauches Républicaines”). O politólogo René Remond até referiu que nas eleições presidenciais francesas de 74 o único candidato se se dizer de direita foi o Le Pen, e que em 81 nenhum se dizia de direita. Tenho também a ideia que no Parlamento Europeu o PPE e o Grupo Liberal chegaram a ter disputas para ver qual dos dois se sentava no centro (o que dá a entender que nenhum queria estar na direita).

E sobretudo ter "direita" no nome quase só acontece com movimentos considerados por toda a gente como de extrema-direita, como o Movimento Social Italiano - Direita Nacional (neofascista) ou o Grupo das Direitas Europeias no Parlamento Europeu (que agrupava os deputados da Frente Nacional francesa, do MSI-DN e da União Nacional grega, do ex-ditador Papadopoulos) - embora nesse aspeto talvez o uso de "esquerda" em nomes de organização não seja muito diferente.

De qualquer forma, atendendo à história política nos últimos 200 e tal anos, não é assim tão estranho que os movimentos considerados de direita recusem eles próprios a etiqueta.

Imagine-se que um rei absoluto, na sequência de agitação liberal, decide outorgar uma carta constitucional, com um parlamento com poderes reduzidos (estilo Jordânia ou Koweit), gerando a oposição por um lado de absolutistas (talvez agrupados em volta de um irmão do rei) e por outro de parlamentaristas, defendendo um parlamento com vastos poderes. É de esperar que neste cenário os defensores da "Carta" se assumam abertamente como pertencendo ao mesmo campo que os absolutistas? Provavelmente não (os parlamentaristas, esses sim, é que irão dizer que cartistas e absolutistas é tudo a mesma coisa e que a Carta foi só atirar areia para os olhos) - irão enfatizar que a Carta representou um grande avanço face ao regime absolutista (se antes fossem conselheiros do rei irão dizer "aceitamos quase todas as vossa exigências", e se fossem oposicionistas dirão "temos quase tudo o que queríamos") e que os parlamentaristas não passam de exaltados (alguns até tentarão colar os parlamentaristas aos absolutistas, num argumento do género "só nos defendemos o equilibrio dos poderes, contra os absolutistas que defendem o poder total do rei e os parlamentaristas que defendem o poder total do parlamento; estão a ver como os extremos se tocam?").

Uns anos mais tarde, via reforma ou revolução, o parlamento, eleito por sufrágio restrito, passa a ser o centro do poder (se o rei foi corrido ou foi posto a animar bailes de gala pouca diferença faz para aqui) e começa a emergir um movimento oposicionista defendendo o sufrágio universal; de novo a questão - os defensores do parlamento eleito por sufrágio restrito vão se assumir como sendo o mesmo lado dos seus antigos adversários, os defensores do poder real? E de novo claro que não (os democratas é que vão dizer que é tudo o mesmo, que são diferentes formas de uma elite controlar o poder nas costas do povo) - vão dizer que o sistema parlamentar, mesmo com sufrágio limitado, é completamente diferente do poder estar nas mão do rei, e que só extremistas exaltados vão comparar as duas coisas (alguns até tentarão colar os democratas aos monárquicos, num argumento do género "toda a gente votar, sem qualquer filtro de propriedade e qualificações, é abrir caminho ao poder de demagogos que vão acabar por destruir as instituições parlamentares e voltar a governar sozinhos como os reis de antigamente; estão a ver como os extremos se tocam?").

Mas finalmente é instituído o sufrágio universal e aí, com as pessoas de baixos rendimentos a poder votar, vão aparecer movimentos mais ou menos socialistas, defendendo a repartição das riquezas. Nessa altura os democratas liberais vão se considerar como estando sendo o mesmo lado que os adversários do sufrágio universal? De novo, provavelmente não (os socialistas, eles sim, irão fazer a analogia, dizendo que durante décadas se lutou pela democracia política e agora a luta é pela democracia económica) - os democratas liberais vão é tentar negar que haja algo em comum entre a defesa do liberalismo económico e o conservadorismo anti-democrático, e que as tentativas dos socialistas para misturar as duas coisas não passam de demagogia (alguns até tentarão colar os socialistas aos defensores da ordem hierárquica, num argumento do género "Foram séculos para deixamos de ser peças de uma sociedade rigidamente hierarquizada, definidos pelo nosso lugar numa ordem de classes, para passarmos a ser indivíduos independentes, colaborando voluntariamente no mercado, com liberdades civis e igualdade perante a lei, sem o Estado dar privilégios a alguém em especial; e agora, em nome da igualdade, querem de novo por o individuo submetido à sociedade e ao Estado, como antigamente; estão a ver como os extremos se tocam?").

Pondo as coisas de outra maneira - ao longo dos últimos 200 e tal anos, "direita" significou coisas que são aberrações perante os valores atualmente em vigor no mundo ocidental: reis absolutos, ou pelo menos a mandar mais que os parlamentos; privilégios para a nobreza; sufrágio censitário; escravatura; religiões oficiais (sim, alguns países, incluindo os progressistas escandinavos, ainda a têm, mas fazem tudo para não se lembrarem que têm); desigualdade legal entre homens e mulheres (é verdade que a questão do sufrágio feminino é mais complicada - muita vezes era a direita católica que defendia a extensão do direito de voto às mulheres); ausência de ajuda estatal aos mais pobres; colonialismo... Basicamente o mundo ocidental como o conhecemos foi obra de correntes que na altura era consideradas "esquerda" com a oposição do que então se chamava "direita" (mesmo que muitas vezes tenha sido a direita a finalmente tomar a decisão - como Bismark a criar a segurança social, Disreali o sufrágio universal, De Gaulle a dar a independência à Argélia - foi ao fim de anos em que a "esquerda" era a favor e a "direita" contra); assim, a "esquerda" gosta de enfatizar que é "esquerda", para se afirmar como a herdeira de todos os movimentos "progressistas" da história (talvez a começar pelas revoltas de escravos na Antiguidade, ou pelos movimentos dos "plebeus" em Roma antiga), e muita "direita" prefere evitar o nome, exatamente porque acha que não faz sentido juntar no mesmo saco quem defende um aumento mais gradual do salário mínimo e, digamos, o rei Fernando I das Duas Sicílias.

Note-se que o mesmo fenómeno não funciona para a "esquerda" - coisas como o comunismo ou mesmo o Terror jacobino não foram tão associadas à "esquerda" como, p.ex., o "Ancién Regime" à "direita". Nunca houve uma altura em que ser de "esquerda" fosse visto quase como sinónimo de defender o comunismo soviético - afinal, os bolcheviques subiram ao poder derrubando o socialista Kerensky, pouco depois já estavam em guerra com os anarquistas, e acabaram nos anos 20/30 a perseguir-se uns aos outros, com as fações vencidas a dizer que aquilo não era "o verdadeiro socialismo". Da mesma maneira, nunca se estabeleceu uma equivalência entre o Terror e a Revolução Francesa (como poderia ser, se os Girondinos, tão influentes nos princípios da Revolução, também foram guilhotinados?), tendo sido durante muito tempo usual (nomeadamente entre os defensores da Revolução) fazer a distinção entre o "89" e o "92". Pelo contrário, durante muito tempo "direita" significava, praticamente por definição, os defensores do poder monárquico; depois os defensores do sufrágio censitário, etc.

O resultado é que por regra a direita moderada tem quase sempre o cuidado de por um "centro-"  ou pura e simplesmente dizer-se só de "centro" (ou usar a ambígua expressão "o centro e a direita") para não se confundir com a radical; já a extrema-direita, sobretudo a mais abertamente anti-democrática e/ou anti-parlamentar, não raro cultiva o estilo "não somos de direita nem de esquerda; rejeitamos ideologias falsas que só servem para dividir a nação".