Wednesday, April 12, 2017

Hitler e as armas químicas

Está tudo indignado com as declarações da Casa Branca de que "nem Hitler desceu tão baixo ao ponto de usar armas químicas"; mas em certo sentido é verdade - a Alemanha nazi não usou armas químicas em combate, até porque Hitler foi gaseado na I Guerra Mundial e ficou com uma aversão a armas químicas. Claro, em compensação, usaram-nas sobre civis aprisionados.

Tuesday, April 11, 2017

"Fake news": um não-assunto

De há uns tempos para cá, tornou-se moda dizer que as fake news difundidas pelas redes sociais foram respnsáveis pelo Brexit, pela vitória de Trump ou até que estarão a por em perigo a democracia (!).

Mas haverá alguma evidência disso? Há várias razões que me levam a pensar que a influência das fake news não passa, ela própria, de uma fake new.

Em primeiro lugar, quase não há qualquer indicio sólido que "fake news" terão afetado os resultados, do género "no dia X começou a ser partilhada a falsa história Y sobre Hillary Clinton, e nos dias a seguir todos os agregadores de sondagens mostraram um subida das intenções de voto em Trump"; em segundo lugar, quase não há referências a "fake news" concretas que possam ter afetado o resultado (durante a campanha, o que mais se falava era dos e-mails de John Podesta e do DNC divulgados pelo Wikileaks e da investigação do FBI - por mais polémicos que esses assuntos sejam, não eram "fake") - o mais parecido será o "pizzagate", que praticamente só começou a circular depois das eleições; em terceiro lugar, praticamente só se começou a falar em "fake news" após as eleições (dados do Google Trends):


Há efetivamente um pequeno aumento nos dias antes das eleições (nesses dias começaram a surgir noticias de que a cidade macedónia de Veles viveria de produzir fake news), mas o conceito só começa a receber atenção depois das eleições (e os artigos da wikipedia sobre o assunto só foram criados ou re-criados cerca de uma semana a seguir às eleições), o que indicia uma justificação criada à posteriori, não algo que tenha mesmo tido um impacto visível durante a campanha; durante a campanha, e mesmo nos dias a seguir às eleições, as criticas dos apoiantes de Clinton - p.ex., os artigos de Paul Krugman - dirigiam-se sobretudo à decisão do FBI de reabrir o inquérito ao caso do e-mail e apresentavam isso até como a causa da vitória de Trump; só depois é que se lembraram da história das fake news (talvez por a partir daí a estratégia dominante entre os Clintonistas ter passado a ser procurar uma aliança com o deep state contra Trump, logo tiveram que arranjar outra alvo que não o FBI).

E, de qualquer maneira, se olharmos para os movimentos das sondagens, são perfeitamente explicáveis sem precisarmos de ir buscar a explicação "fake news" - primeiro Hillary apresentava uma pequena vantagem sobre Trump (da ordem dos 3 pontos percentuais), depois quando foi a história do "grab them by the pussy" a vantagem ampliou-se, e depois reduziu-se quando do anúncio do reinicio da investigação do FBI; no final, Clinton ficou à frente por 2 pontos percentuais, mais ou menos o que as sondagem previam, pelo que o resultado final pode ser perfeitamente explicado com base na sucessões de histórias verdadeiras (umas mais favoráveis a Clinton, outras a Trump) que foram sendo divulgadas durante a campanha.

Finalmente, em quarto lugar, o que me parece ser o argumento definitivo - quer o Brexit, quer a votação em Trump, quer a votação na extrema-direita europeia (veja-se as eleições austríacas na mesma altura) tiveram o seu pico de apoio entre as pessoas mais velhas e nas zonas rurais e pequenas cidades; exatamente as mesmas que é suposto passarem menos tempo na internet (pela demografia, imagina-se mais facilmente o típico eleitor de Trump ou de Hofer no café do bairro a queixar-se que "os miúdos de hoje estão sempre agarrados à máquina e já não fazem desporto nem convivem" do que no Facebook até às 3 da manhã a partilhar links) - note-se que no caso de Brexit poderia efetivamente ser argumentado que os votantes pela saída serão os que mais lêem tablóides, mas não é esse ângulo de crítica às "fake news" que mais tem sido feito (o alvo é a internet e as redes sociais, não a imprensa sensacionalista).

Para justificar a teoria das "fake news", por vezes vêm-se com argumentos do estilo "uma grande percentagem dos eleitores de Trump acredita que..." (qualquer absurda ou escabrosa), mas isso não distingue causa e efeito: essas pessoas apoiam Trump porque acreditam em montes de coisas muito provavelmente falsas? Ou são as suas simpatias ideológicas pre-existentes que os levam a votar Trump, por um lado, e a ser fãs do Infowars, por outro?

Portanto, de onde é que vem a fascinação pela teoria das fake news? Ocorre-me várias hipóteses, não necessariamente exclusivas:

- Negação: recusam-se a acreditar que grande parte dos votantes simpatiza mesmo com as ideias e valores protagonizados por Trump, e por isso têm que se convencer a si próprios que a culpa é de estarem mal informados (ou seja, não querem acreditar que 40 e tal % dos votantes são mesmo deploráveis, preferindo acreditar que eles são é facilmente enganados)

- Recusa em reconhecer que Hillary Clinton era uma péssima candidata - recorde-se que ela perdeu as primárias Democratas de 2008 para um quase desconhecido, ia perdendo as de 2016 para um candidato que nem está inscrito no partido, e finalmente perdeu as gerais de 2016 para um semi-louco; sou só eu que noto um padrão?

- Interesse dos media estabelecidos em denegrir a concorrência, dando a entender que o melhor é as pessoas cingirem-se às fontes mainstream.


[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Monday, April 10, 2017

Os robots estão a destruir empregos? (post n+2 sobre o assunto)

Ainda a respeito desta questão, ocorre-me que talvez haja uma maneira de termos simultaneamente dois fenómenos que à partida parecem incompatíveis - desemprego tecnológico via substituição do trabalho humano por máquinas; e estagnação do crescimento da produtividade.

Imaginemos que para produzir 100 unidades de produto (p.ex., 100 kgs de peixe) é preciso 100 horas de trabalho e mais 100 unidades de capital (p.ex., maquinaria no valor de 100 mil euros).

Agora vamos comparar 3 cenários alternativos; em todos um gabinete de engenharia descobre/inventa um processo de produção mais eficiente, mas as implicações desse processo são diferente:

No cenário A, pelo novo processo são preciso apenas 50 horas de trabalho e 50 unidades de capital para produzir 100 unidades de produto.

No cenário B, serão precisos 50 horas de trabalho e 100 unidades de capital.

No cenário C, 50 horas de trabalho e 150 unidades de capital.

Em todos estes cenários, a produtividade aparente do trabalho aumenta 100%; quando à produtividade aparente do capital, aumenta 100% no cenário A, fica na mesma no cenário B, e diminui 33% no cenário C (convém ter em atenção que, na linguagem semi-corrente, "produtividade aparente do trabalho" e "produtividade aparente do capital" passam frequentemente a "produtividade do trabalho" e "produtividade do capital"; e, na linguagem corrente, "produtividade aparente do trabalho"/"produtividade do trabalho" fica mesmo só "produtividade"; e estes detalhes talvez não sejam tão irrelevantes assim).

Agora, vamos lá ver - em qual deste cenários a introdução da nova tecnologia levará a mais (se alguma) destruição de postos de trabalho? Se a produtividade aparente do trabalho duplica, a variação do número de horas trabalhadas irá ser (crescimento da produção% - 1)/2; isto é, se a produção aumentar 100% (ou seja, também duplicar), o nível de trabalho fica na mesma (é preciso metade dos trabalhadores para produzir o mesmo, mas como se passa a produzir o dobro, fica tudo na mesma); se aumentar 50%, passam 25% dos trabalhadores a estar a mais (onde antes eram precisos 100 horas para produzir 100 unidades, agora são precisas 75 horas para produzir 75 unidades)

No cenário A, em que é preciso menos trabalhadores e menos máquinas para produzir a mesma quantidade, os custos de produção descem para metade; no cenário B, não descem tanto, já que os custos com capital mantêm-se; no cenário C, os custos com trabalho diminuem e os com o capital aumentam - sabemos que no total diminuem, porque se não fosse assim o cenário C nunca seria sequer posto em prática, mas diminuem ainda menos que no B. Assumindo uma relação entre preços e custos, podemos concluir que os preços descem mais no cenário A, depois no B e finalmente no C salvo situações muito excecionais, quanto mais baixarem os preços, mais aumenta a procura e, logo, a produção. Assim, se a produção aumenta mais no cenário A do que no C, isso significa que a introdução da nova tecnologia vai destruir mais empregos no cenário C do que A.

Agora vamos ao outro ponto - em qual destes cenários a produtividade (aparente do trabalho...) crescerá mais? É verdade que em todos cresce 100%, desde que a nova tecnologia se aplique. Mas em qual dos cenários é maior o incentivo para aplicar a nova tecnologia? De novo, no A - um empresário, à partida, tem muito mais incentivo para adotar uma nova tecnologia se essa reduzir a metade todos os custos, do que se reduzir a metade os custos salariais mas manter ou até aumentar os custos com capital (e, além dos custos, por vezes nem sequer há capital disponível para modernizações que impliquem grandes investimentos - como é no cenário C, em que a nova tecnologia implicaria duplicar o valor do equipamento).

E agora temos o meu cenário de como se poderá ter ao mesmo tempo muito desemprego tecnológico e pequeno crescimento da produtividade - se o progresso tecnológico for bastante capital-intensivo (quanto mais capital-intensivo for o progresso tecnológico, mais demora a ser aplicado, por um lado, e mais empregos destrói quando é aplicado, por outro), o que no fundo talvez seja algo similar à velha história marxista do colapso final do capitalismo vítima do aumento da "composição orgânica do capital" (isto é, do progresso técnico capital-intensivo).

Mas será que este cenário pode pode corresponder à realidade na prática? Talvez (sobretudo, não nos esqueçamos que, para efeitos deste modelo, tanto faz que o investimento sejam em máquinas ou em licenças de software), mas tenho muitas dúvidas. Aliás, mesmo na teoria tenho dúvidas que isto faça sentido.

Tuesday, April 04, 2017

Os robots estão a destruir empregos? (post n+1 sobre o assunto)

Ultimamente tem-se discutido muito a questões sobre se a automatização está a destruir postos de trabalho - nos últimos dias tem sido apresentado o paper Robots and Jobs: Evidence from US Labor Markets, de Daron Acemoglu e Pascual Restrepo, como evidência que essa destruição está efetivamente a ocorrer.

Mas antes acho que é necessário clarificar alguns conceitos: primeiro, o que se quer dizer quando se fala em destruição de empregos pelos robots? Tanto podemos estar a falar da destruição de empregos concretos (isto é, haver empregos específicos que são destruídos pelos robots), como de destruição líquida de empregos (isto é, não apenas que os robots destroem alguns empregos, mas que esses empregos, no conjunto da economia, não são compensados por outros que surgem); para nos orientarmos, vou chamar à primeira situação "micro-destruição de empregos" e à segunda "macro-destruição de empregos".

Por outro lado, entre as pessoas que negam ou minimizam o problema da destruição de empregos, há duas grandes linhas de argumentação - há os que consideram que a automatização não vai causar problema nenhum, que desde a Revolução Industrial que há substituição do trabalho humano por máquinas e não estamos todos no desemprego por causa disso, e que os empregos que se destroem num lado são compensados com empregos que surgem noutros (o meu professor de matemática do secundário dava o exemplo da automatização, creio, da FIAT: segundo ele, desaparecerem muitos trabalhos nas linhas de montagem, mas como passou a produzir-se e vender-se mais carros, surgiram depois empregos nas oficinas de reparação automóvel que mais que compensaram a destruição de empregos nas fábricas); e há os que consideram que, pura e simplesmente, não parece estar a acontecer nenhuma automatização significativa (ver este meu post e os seis últimos parágrafos deste post do Pedro Romano). Dito de outra maneira (e usando a terminologia que inventei) - os primeiros consideram que a micro-destruição de empregos não irá originar macro-destruição; já os segundos contestam que esteja a existir mesmo micro-destruição, pelo menos a nível significativo.

E agora entra aqui o estudo de Acemoglu e Restrepo - o que esse estudo argumenta é que as industrias e regiões onde houve mais introdução de robots nas últimas décadas foram aquelas onde houve maior redução de emprego e/ou dos salários; isso parece refutar (sobretudo no que diz respeito às regiões) o argumento de que os robots, quando são introduzidos, não levam a uma destruição líquida de postos de trabalho; mas parece-me largamente irrelevante para o argumento de que não está a haver grande introdução de robots (imagine-se uma analogia - vamos supor que estamos a discutir se o vírus Lujo causa grande mortalidade; mesmo que uma alta percentagem de pessoas infetadas com o vírus morra, isso pode não ser muito relevante se muitas poucas pessoas forem infetadas).

Agora, o estudo também, ainda que de passagem, aborda a questão sobre se está a haver muita robotização: nas páginas 16 e 17, é referido que "In our sample of European countries, robot usage starts near 0.6 robots per thousand workers in the early 1990s and increases rapidly to 2.6 robots per thousand workers in the late 2000s. In the United States, robot usage is lower but follows a similar trend; it starts near 0.4 robots per thousand workers in the early 1990s and increases rapidly to 1.4 robots per thousand workers in the late 2000s", dando a entender que entre entre o principio dos anos 90 e o final dos "anos 0" terá havido grande crescimento da quantidade de robots utilizados (para aí uns 10% ao ano, se estivermos a falar de um período de uns 15 anos); no entanto, pelo menos na Europa, a partir daí parece ter havido estagnação do uso de robots (página 41) - o que é paradoxal, porque tem sido sobretudo desde então que mais tem estado na moda a conversa que os robots vão ficar com os nossos empregos:

Já nos EUA, o crescimento do número de robots parece ter-se mantido mais ou menos ao mesmo ritmo.

Friday, March 31, 2017

O golpe a conta-gotas na Venezuela

Venezuela's ongoing coup process, por "Boz": 

The Venezuelan government has unconstitutionally shut down other branches of government that might check its power and refuses to hold constitutionally-mandated elections. It's an ongoing coup process that is spanning months and years rather than a single day event.

Have no doubt that Venezuela is experiencing an unconstitutional and undemocratic coup. "Coup" and "Golpe" are the words we should use.

Thursday, March 30, 2017

Relembrando a América permissiva dos anos 50

Há 7 anos, falei aqui de um artigo sobre sociedade permissiva dos EUA nos anos... 50 (em contraponto à narrativa convencional que atribui isso aos anos 60).

Há dias, vi algo que reforça essa ideia - o episódio "Hitch Hike" da série "Alfred Hitchcock Apresenta", inicialmente emitido a 21 de fevereiro de 1960 (para todos os efeitos, um produto dos anos 50); sem entrar muito em spoilers, praticamente toda a conversa dos jovens para o adulto no filme (o ser si próprio e não o que os outros querem; o conflito entre os "instalados" e os "excluídos", etc.) e o tema geral dos jovens rebeldes versus o adulto conservador (e preocupado sobretudo com a respeitabilidade social), e até o facto de o tom geral do telefilme até parecer ser mais simpático face aos jovens do que ao adulto, parecem saídos da imagem que temos dos "anos 60" (e ainda por cima, quando se fala em "anos 60", muita gente pensa não tanto em 1960-69, mas mais em algo como 1963-75, do assassínio de Kennedy à queda de Saigão).

E, para isso ser representado numa série de televisiva mainstream (com temas um bocado peculiares, é verdade, mas mesmo assim mainstream), parece-me significar que essas atitudes já deviam andar no "ar do tempo" da cultura popular da época.

Nunca terão tido gatos?

Parece que há por aí uma petição pela "família natural", cujo subscritores alegam que "a família – e isto é uma questão de direito natural, não é ideológico – é um homem e uma mulher e é daí que nascem os filhos. Não existe possibilidade científica de ser de outra maneira.

Mas como é que não há possibilidade científica de não ser de outra maneira? Basta uma mulher ficar grávida de um desconhecido (ou mesmo de um conhecido com quem não tenha um relacionamento do tipo a que se chama "família"), para termos uma família e filhos sem essa família ter um homem e uma mulher.

[Qualquer pessoa que tenha sido proprietário de gatas não-esterilizadas com acesso ao mundo exterior sabe que uma "família"  com crias não necessita de ter um macho e uma fêmea]

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Wednesday, March 29, 2017

A diferença entre o Iémen e a Rússia

Opinião que, aliás, vale para todas aquelas situações em que alguém argumenta "fazem protestos contra os EUA/Israel/etc., mas não fazem protestos contra o Irão/China/etc.":

I don’t mean to denigrate the legitimate grievances of the Russians who oppose Putin and his government. Yet I have to wonder what Western liberals think they can do about it: expressions of support for [anti-Putin demonstrators] are bound to have the opposite of their intended effect, much like Russian expressions of support for anti-Vietnam war protesters during the cold war era rebounded to the benefit of Lyndon Baines Johnson and Richard Nixon. Beyond that, what are our options? Shall we launch a regime change operation against the Kremlin, as we did in Iraq against Saddam Hussein, funding exile groups and eventually invading the country? That seems off the table to all but the crazies among us – although, let me tell you, the crazies are more numerous and powerful than one would hope.

On the other hand, there is something Americans can do to alleviate the situation in which the Yemenis find themselves. Our government is not only supporting the murderous assault on those children but is also contemplating even greater crimes on that blood-soaked soil. So where is the outrage? Where is the coverage? Where are the “liberals”?

[A Tale fo Two Protests, Justin Raimundo]

Wednesday, March 15, 2017

Flexibilidade laboral =/= produtividade

Deregulation Fantasies, por Chris Dillow:

[T]here’s no obvious benefit to deregulation.

My chart shows the point. It plots labour productivity in 2015 against a measure of employment protections in 2013-14: I’m taking a simple average of four OECD indices of protections again dismissals and regulation of temporary work.

It’s clear that, across 33 countries for which we have data, there is no correlation. It’s also clear that this fact is robust to outliers. Yes, the US has weak regulation and high productivity. But the UK and New Zealand have weak regulation and moderate productivity, which France and Belgium have high regulation but also high productivity.

You might think this is counter-intuitive. Common sense says that if firms can easily fire people then workers’ incentives to work hard are sharpened by a greater fear of the sack, whilst companies can more easily adjust their workforce to changes in market conditions.

These mechanisms, however, are offset by others, for example:

- If people fear the sack, they’ll not invest in job-specific skills but rather in general ones that make them attractive to future employers. They might also spend less time working and more time looking for a new job.

- A lack of protection will encourage people to change jobs more often, as it’s better to jump than be pushed. This can reduce productivity, simply because new workers often take time to adapt to their new company’s clients, IT systems and to new colleagues.

- If firms know they can fire at will they’ll devote less effort to screening or training, and so there might be worse matches between jobs and workers.

Deregulation might be good for bad employers who want to be petty tyrants, but it has no obvious aggregate benefit.

Tuesday, March 14, 2017

A Uber tem futuro?

No Observador, perguntam se «Com prejuízos gigantes, a Uber vai conseguir sobreviver a “dar borlas”?» (referindo-se a, pelos vistos, a Uber praticar preços abaixo de custo).

Eu iria mais longe - o modelo de negócio da Uber terá mesmo futuro? Afinal, qual é o grande valor acrescentado da Uber (nomeadamente que leve os seus motoristas - nomeadamente os que usam os seus carros particulares - a trabalharem para a Uber em vez de para sí próprios)?

A app para chamar os carros? Na sua essência não se distingue muito dos rádios das cooperativas de táxis, e suspeito que não seria muito difícil a uma associação de condutores arranjar também uma app com funcionalidades parecidas (aliás, penso que muitas empresas de táxis também têm apps); nem me admirava nada se daqui a algum tempo alguém desenvolvesse um software genérico que bastasse fazer o download e depois fazer uma pequena configuração (estilo definir nome da empresa, nome da app e algumas palavras-passe) para qualquer grupo de motoristas poder criar a sua própria app de chamar carros (e como em milhões de pessoas com ligação em internet há sempre alguma que está disposta a fazer um programa - mesmo que já haja um parecido - e vendê-lo barato ou mesmo dá-lo à borla, e como ao, contrário de outros produtos, no software é possível fazer um voluma quase infinito de cópias, rapidamente esse software teria um preço módico).

A garantia que o motorista não é um maníaco homicida e/ou violador? Provavelmente é um fator bastante importante (é o mesmo que leva a maior parte das pessoas a não pedir boleias - nem a dar, já agora), mas uma associação de motoristas com um mínimo de reputação (e que mantivesse o registo de quem tinha transportado que cliente, naquele dia e naquela hora) também ofereceria essa segurança, acho.

Suspeito que, paradoxalmente, um grande trunfo da Uber é a sua semi-ilegalidade: um motorista que se fosse transportar pessoas no seu carro por conta própria temeria apanhar com multas brutais ou coisa parecida, trabalhando para uma empresa sente-se mais seguro (pensando que mesmo que apanhe com multas, a Uber provavelmente irá pagá-las); da mesma forma, a publicidade necessária (que, é verdade, está acima das capacidades de um motorista individual, mas provavelmente já não o estaria de uma associação ou cooperativa) é complicada de fazer na semi-ilegalidade, mas na Uber o próprio facto de operar em vários países (e talvez legalmente nalguns) dá-lhe notoriedade.

No fundo, talvez tenhamos aqui uma situação parecida com o tráfico de droga, em que a sua ilegalidade contribui para que assuma um caracter quase monopolista (não é fácil um novo concorrente qualquer meter-se num negócio ilegal sem mais nem menos, sem ter contactos ou apadrinhamentos).

Claro que poderemos perguntar-nos porque motivo os motoristas que trabalham para a Uber haveriam de querer trabalhar por conta própria (ou para uma cooperativa que apenas ficasse com a parte correspondente aos custos de manutenção da infraestrutura); a minha reposta seria "para ficarem com o dinheiro todo ou quase todo para eles, em vez de um parte ir para os lucros da Uber" - mas como pelos vistos a Uber tem prejuízo, se calhar os motoristas já não terão muito a ganhar em trabalhar por conta própria.

Já agora, recomendo este artigo n'O Insurgente do Rodrigo Adão Fonseca, e este no Center for a Stateless Society de Kevin Carson. Carson até refere que muitos motoristas da Uber já negociarão diretamente com os clientes («Every Uber driver I know carries personal business cards. And every Uber RIDER I know has described the experience of having the driver de-link future business transactions from Uber’s system by handing them one of those business cards and saying “if you need a ride, call me directly instead of using the app.”»), mas imagino que em Portugal (com as restrições que o RAF refere, em que os motoristas têm que usar carros específicos em vez dos seus próprios carros) tal não funcionaria.

Monday, March 13, 2017

Contra as "soft skills"

Há duas semanas, o Expresso/Economia falava sobre as chamadas soft skills, numa entrevista com o Secretário de Estado do Emprego, em que tanto entrevistador como entrevistado pareciam concordar que eram "decisivas"; mas "decisivas" para quem? Noto que, em termos de politicas públicas, o que interessa é a prmoção do bem estar geral, logo é relevante ver se as soft skills contribuem para o bem-estar geral, ou apenas para o bem-estar do indivíduo que as tem.

E o que suspeito é que as soft skills funcionam muito em contextos de soma quase nula: muitas vezes são úteis sobretudo para atividades como vendas, conseguir convencer outras pessoas numa reunião que a minha ideia é a melhor, etc. Ora, essas atividades acrescentam pouco ou nenhum valor ao conjunto da sociedade (e da economia real, mesmo que até possam ter efeitos no PIB medido) - se eu consigo convencer um cliente a comprar o produto da minha empresa, normalmente ele vai deixar de comprar de outra; se a minha opinião triunfa na reunião, outra deixa de triunfar - o que pode ser bom ou mau, conforme a minha ideia for melhor ou pior que as outras - em média, o efeito sobre a qualidade da decisão tomada será nulo (atenção que a capacidade de, numa reunião, conseguir pensar numa solução que tenha as vantagens das várias soluções em disputa sem os respetivos inconvenientes, e assim conseguir que as várias partes se ponham de acordo, já é, parece-me, mais uma qualidade predominantemente "hard skills", já que depende sobretudo da capacidade de descobrir uma solução técnica para as objeções apresentadas, não apenas de ter paleio para convencer os outros); admito que possa haver exceções em casos em que é melhor uma má decisão que nenhuma, e em que aí é realmente útil ter alguém com capacidade de convencer os outros a tomar uma decisão (mesmo que essa decisão seja má), mas acho que são exceções (sobretudo se pensarmos em termos do conjunto da economia).

De certa forma, isto é algo parecido com o que escrevi aqui: «Pessoas que prefiram o raciocínio lógico serão mais dadas a procurar soluções para os problemas, enquanto pessoas que prefiram as aptidões sociais valorizam mais o saber viver (e saber convencer os outros a saber viver) com os problemas; por exemplo, imagine-se que as pessoas que utilizam um dado sistema informático não gostam de algumas das coisas que trabalhar com esse sistema implica - uma pessoa mais virada para as aptidões relacionais reagirá a essa situação tentando convencer os outros que as vantagens do sistema suplantam os inconvenientes, que apesar de tudo é o melhor sistema disponível, etc. Já alguém mais virado para o raciocínio lógico reagirá à situação tentando aperfeiçoar o sistema, de forma a que deixe de haver razões de queixa. Assim, a preferência pelo raciocínio lógico tenderá a estar associada com maior progresso técnico.» (onde está "raciocínio lógico" ponha-se "hard skills" e "aptidões sociais/relacionais" ponha-se "soft skills" - a lógica do raciocínio é mais ou menos a mesma)

Aliás, até me arrisco a dizer que algumas soft skills podem ser consideradas "parasitárias" - como vimos atrás, muitas vezes pouco ou nada acrescentam ao bem-estar geral (a tal soma nula); mas é inegável que beneficiam o indíviduos que as tem (o vendedor que vende mais ganha mais comissões e provavelmente mais ordenado base; quem numa reunião consegue sempre convencer os outros ganha uma aura de liderança, potenciando promoções, etc.). Mas, se uma qualidade beneficia a pessoa que a tem, mas não aumenta a riqueza geral, a conclusão lógica é que o faz reduzindo a fatia do bolo das outras pessoas (ou seja, talvez possam dizer que muitas vezes as soft skills têm externalidades negativas*).



*Antes que alguém diga que se poderia então justificar um programa estatal para combater as soft skills, eu digo que isso era impossível; quase por definição, as pessoas com soft skills têm capacidade de adaptação, logo facilmente poderiam camuflá-las para evitar alguma espécie de imposto pigouviano que alguém pensasse lançar

Friday, March 03, 2017

O Brexit e a "Singapura da Europa"

Even after Brexit, the Singapore of Europe will remain a fantasy (Flip Chart Fairy Tales):

Singapore is like a porn star for the free-market right. They project all sorts of lurid fantasies onto it and get very excited. Every so often, an article appears breathlessly proclaiming the virtues of the island state and its rapid GDP growth. If only the stodgy old UK were a bit more like deregulated Singapore, we could have a bit of that too. You could make similar arguments for Luxembourg, another filthy rich state which has experienced relatively high per capita GDP growth, but no-one ever seems to suggest that joining the Euro and adopting Luxembourg’s stricter labour laws would be the answer to our economic woes. (...)

That’s because it wouldn’t, of course, but neither would trying to become Europe’s Singapore. Both countries are small city states with large financial services sectors and without the inconvenience of a wider hinterland. When PwC looked at the economies of various major cities, Singapore’s per capita GDP was below that of London and New York. Cities with large financial centres tend to be rich but you can’t build an entire country on the same basis. There aren’t enough and to go round.

Many of those who think the UK should be more like Singapore might be in for a shock if it really happened, for their fantasy star has another side. Forget the Nanny State, Singapore is more like Victorian Governess State. (...)

Even if the government achieves further reductions in public spending there will be little room for any significant tax cuts. There just isn’t the scope to attract business to the UK through low taxes. To do so would (...) require a complete dismantling of welfare and public service provision. Even George Osborne was never really up for that kind of state shrinkage, for the simple reason that the public wouldn’t wear it. The small state rhetoric pumped out over the last few decades by newspapers, MPs and think tanks has had remarkably little effect. Those favouring tax and spending cuts have always been a small though noisy minority. (...)

There are some who see Brexit as an opportunity to turn the UK into something like a Singapore of Europe, a low-tax low business regulation state. But this is a fantasy that is unlikely to be shared by most of the electorate. If there is one good thing to come out of Brexit it is the revival of the idea that, if enough people vote for something, they can make it happen, despite what pundits, politicians and the plutocrats of Davos say. After we leave the EU, some will, no doubt, push for radical tax cuts and deregulation. They probably won’t get very far. They will find their efforts frustrated by the Will of the People.

Thursday, March 02, 2017

Estimando o "Quantitative Easing para as pessoas"

Uma ideia que tem sido proposta (e que já referi há uns tempos aqui) é a de os bancos centrais porem o dinheiro em circulação, não através dos métodos que fazem agora (emprestando dinheiro aos bancos e/ou comprando títulos - nomeadamente títulos de divida pública), mas simplesmente distribuindo dinheiro diretamente pelas pessoas (o chamado "quantitative easing para as pessoas"/"dinheiro de helicóptero"; e acho que também poderíamos incluir o "crédito social", que defendia algo muit parecido há quase 100 anos atrás) - ou então emprestando esse dinheiro aos estados que por sua vez o distribuiriam pelos cidadãos (o que no final é quase exatamente - só com a nuance que vou referir no próximo parágrafo - a mesma coisa, ainda que contabilisticamente diferente).

Diga-se que este sistema de pôr dinheiro em circulação tem um potencial problema - no sistema tradicional, é fácil o banco central, se for necessário, reduzir a massa monetária em circulação: é só vender parte dos títulos acumulados, ou então conceder novos empréstimos a um ritmo inferior ao que os empréstimos anteriores vão sendo pagos; já num sistema em que o banco central emita dinheiro dando-o (em vez de emprestando-o ou comprando alguma coisa com ele) não é muito claro como se poderia reduzir a quantidade de dinheiro (diga-se que, na variante em que formalmente o banco central empresta ao estado, e que depois este distribui o dinheiro pelas pessoas, é mais fácil a redução - o banco central simplesmente empresta menos ao estado do que este devolve dos empréstimos passados, e nesse ano o estado lança um imposto em vez de distribuir o subsídio; a grande diferença aqui é que um estado tem autoridade para cobrar impostos e um banco central não).

Mas agora a questão é quanto isso representaria, esse dinheiro distribuído por cada pessoa?

Indo ao site do Banco Centra Europeu, temos as estatísticas, tanto da moeda em circulação (isto é, notas + moedas), como do chamado M1 (isto é, notas+moedas+depósitos à ordem). Estes são os valores em dezembro de cada ano (em billions de euros, o que eu presumo queira dizer milhares de milhões de euros):

moeda em circulação M1 = moeda em circulação + depósitos à ordem dif dif M1
2016 1073 7189 38 591
2015 1035 6598 68 690
2014 967 5908 57 512
2013 910 5396 46 310
2012 864 5086 22 304
2011 842 4782 46 98
2010 796 4684

De dezembro de 2015 a dezembro de 2016, a quantidade de notas e moedas em circulação terá aumentado em 38 mil milhões de euros; se esse aumento fosse feito distribuindo esse dinheiro pelos 340 milhões de habitantes da zona euro, seria o equivalente a pagar a cada europeu um subsidio mensal de 9 euros (hum, não é lá muito impressivo...). De 2010 a 2016, o subsidio oscilaria entre cerca de 5 euros/mês (em 2012) e 16 euros/mês (em 2015).

No entanto, estes valores seriam muito maiores se o "QE para as pessoas" fosse conjugado com outra medida (que ultimamente tem sido defendida por muitos economistas, talvez até mais na direita do que na esquerda) - proibir os bancos de concederem empréstimos a partir dos depósitos à ordem; tal iria fazer com que o M1 fosse idêntico à moeda em circulação (já que seria exatamente igual ter o dinheiro na carteira ou num depósito à ordem), o que levaria a que o BCE tivesse que emitir muito mais dinheiro para compensar o facto de os bancos já não poderem eles criar moeda pelo método de emprestar dinheiro depositado à ordem. Isto é capaz de ser um pouco mais complicado, mas numa versão simplificada poderemos assumir que assim o BCE iria imprimir (e distribuir) dinheiro equivalente ao aumento do M1 - nesse caso, em 2016 equivaleria a um subsidio por pessoa de 144 euros/mês (oscilando entre 24 euros em 2011 e 169 euros em 2015).

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Wednesday, March 01, 2017

A ocultação da palavra "direita"

No Diário de Noticias, Nuno Garoupa refere o facto de os partidos de direita portugueses não se assumirem como tal:

Ninguém imagina os partidos DA esquerda jurarem que não são partidos DE esquerda. Mas os partidos DA direita insistem todos os dias que não são partidos DE direita. Assunção Cristas já confessou o seu centrismo, Passos Coelho afirmou recentemente que o PSD nunca foi um partido de direita. Quarenta anos depois do 25 de Abril, a fazer fé no que nos dizem as lideranças do PSD e do CDS, não há partidos de direita na Assembleia da República.
O que questiono é se isso será uma excentricidade portuguesa, ou se será uma tendência geral, pelo menos na Europa ocidental - veja-se que o partido conservador sueco se autodenomina “os Moderados”, p.ex, e em francês até há a palavra “sinistrisme” (para designar o hábito dos partidos de direita terem nomes como “Rassemblement des Gauches Républicaines”). O politólogo René Remond até referiu que nas eleições presidenciais francesas de 74 o único candidato se se dizer de direita foi o Le Pen, e que em 81 nenhum se dizia de direita. Tenho também a ideia que no Parlamento Europeu o PPE e o Grupo Liberal chegaram a ter disputas para ver qual dos dois se sentava no centro (o que dá a entender que nenhum queria estar na direita).

E sobretudo ter "direita" no nome quase só acontece com movimentos considerados por toda a gente como de extrema-direita, como o Movimento Social Italiano - Direita Nacional (neofascista) ou o Grupo das Direitas Europeias no Parlamento Europeu (que agrupava os deputados da Frente Nacional francesa, do MSI-DN e da União Nacional grega, do ex-ditador Papadopoulos) - embora nesse aspeto talvez o uso de "esquerda" em nomes de organização não seja muito diferente.

De qualquer forma, atendendo à história política nos últimos 200 e tal anos, não é assim tão estranho que os movimentos considerados de direita recusem eles próprios a etiqueta.

Imagine-se que um rei absoluto, na sequência de agitação liberal, decide outorgar uma carta constitucional, com um parlamento com poderes reduzidos (estilo Jordânia ou Koweit), gerando a oposição por um lado de absolutistas (talvez agrupados em volta de um irmão do rei) e por outro de parlamentaristas, defendendo um parlamento com vastos poderes. É de esperar que neste cenário os defensores da "Carta" se assumam abertamente como pertencendo ao mesmo campo que os absolutistas? Provavelmente não (os parlamentaristas, esses sim, é que irão dizer que cartistas e absolutistas é tudo a mesma coisa e que a Carta foi só atirar areia para os olhos) - irão enfatizar que a Carta representou um grande avanço face ao regime absolutista (se antes fossem conselheiros do rei irão dizer "aceitamos quase todas as vossa exigências", e se fossem oposicionistas dirão "temos quase tudo o que queríamos") e que os parlamentaristas não passam de exaltados (alguns até tentarão colar os parlamentaristas aos absolutistas, num argumento do género "só nos defendemos o equilibrio dos poderes, contra os absolutistas que defendem o poder total do rei e os parlamentaristas que defendem o poder total do parlamento; estão a ver como os extremos se tocam?").

Uns anos mais tarde, via reforma ou revolução, o parlamento, eleito por sufrágio restrito, passa a ser o centro do poder (se o rei foi corrido ou foi posto a animar bailes de gala pouca diferença faz para aqui) e começa a emergir um movimento oposicionista defendendo o sufrágio universal; de novo a questão - os defensores do parlamento eleito por sufrágio restrito vão se assumir como sendo o mesmo lado dos seus antigos adversários, os defensores do poder real? E de novo claro que não (os democratas é que vão dizer que é tudo o mesmo, que são diferentes formas de uma elite controlar o poder nas costas do povo) - vão dizer que o sistema parlamentar, mesmo com sufrágio limitado, é completamente diferente do poder estar nas mão do rei, e que só extremistas exaltados vão comparar as duas coisas (alguns até tentarão colar os democratas aos monárquicos, num argumento do género "toda a gente votar, sem qualquer filtro de propriedade e qualificações, é abrir caminho ao poder de demagogos que vão acabar por destruir as instituições parlamentares e voltar a governar sozinhos como os reis de antigamente; estão a ver como os extremos se tocam?").

Mas finalmente é instituído o sufrágio universal e aí, com as pessoas de baixos rendimentos a poder votar, vão aparecer movimentos mais ou menos socialistas, defendendo a repartição das riquezas. Nessa altura os democratas liberais vão se considerar como estando sendo o mesmo lado que os adversários do sufrágio universal? De novo, provavelmente não (os socialistas, eles sim, irão fazer a analogia, dizendo que durante décadas se lutou pela democracia política e agora a luta é pela democracia económica) - os democratas liberais vão é tentar negar que haja algo em comum entre a defesa do liberalismo económico e o conservadorismo anti-democrático, e que as tentativas dos socialistas para misturar as duas coisas não passam de demagogia (alguns até tentarão colar os socialistas aos defensores da ordem hierárquica, num argumento do género "Foram séculos para deixamos de ser peças de uma sociedade rigidamente hierarquizada, definidos pelo nosso lugar numa ordem de classes, para passarmos a ser indivíduos independentes, colaborando voluntariamente no mercado, com liberdades civis e igualdade perante a lei, sem o Estado dar privilégios a alguém em especial; e agora, em nome da igualdade, querem de novo por o individuo submetido à sociedade e ao Estado, como antigamente; estão a ver como os extremos se tocam?").

Pondo as coisas de outra maneira - ao longo dos últimos 200 e tal anos, "direita" significou coisas que são aberrações perante os valores atualmente em vigor no mundo ocidental: reis absolutos, ou pelo menos a mandar mais que os parlamentos; privilégios para a nobreza; sufrágio censitário; escravatura; religiões oficiais (sim, alguns países, incluindo os progressistas escandinavos, ainda a têm, mas fazem tudo para não se lembrarem que têm); desigualdade legal entre homens e mulheres (é verdade que a questão do sufrágio feminino é mais complicada - muita vezes era a direita católica que defendia a extensão do direito de voto às mulheres); ausência de ajuda estatal aos mais pobres; colonialismo... Basicamente o mundo ocidental como o conhecemos foi obra de correntes que na altura era consideradas "esquerda" com a oposição do que então se chamava "direita" (mesmo que muitas vezes tenha sido a direita a finalmente tomar a decisão - como Bismark a criar a segurança social, Disreali o sufrágio universal, De Gaulle a dar a independência à Argélia - foi ao fim de anos em que a "esquerda" era a favor e a "direita" contra); assim, a "esquerda" gosta de enfatizar que é "esquerda", para se afirmar como a herdeira de todos os movimentos "progressistas" da história (talvez a começar pelas revoltas de escravos na Antiguidade, ou pelos movimentos dos "plebeus" em Roma antiga), e muita "direita" prefere evitar o nome, exatamente porque acha que não faz sentido juntar no mesmo saco quem defende um aumento mais gradual do salário mínimo e, digamos, o rei Fernando I das Duas Sicílias.

Note-se que o mesmo fenómeno não funciona para a "esquerda" - coisas como o comunismo ou mesmo o Terror jacobino não foram tão associadas à "esquerda" como, p.ex., o "Ancién Regime" à "direita". Nunca houve uma altura em que ser de "esquerda" fosse visto quase como sinónimo de defender o comunismo soviético - afinal, os bolcheviques subiram ao poder derrubando o socialista Kerensky, pouco depois já estavam em guerra com os anarquistas, e acabaram nos anos 20/30 a perseguir-se uns aos outros, com as fações vencidas a dizer que aquilo não era "o verdadeiro socialismo". Da mesma maneira, nunca se estabeleceu uma equivalência entre o Terror e a Revolução Francesa (como poderia ser, se os Girondinos, tão influentes nos princípios da Revolução, também foram guilhotinados?), tendo sido durante muito tempo usual (nomeadamente entre os defensores da Revolução) fazer a distinção entre o "89" e o "92". Pelo contrário, durante muito tempo "direita" significava, praticamente por definição, os defensores do poder monárquico; depois os defensores do sufrágio censitário, etc.

O resultado é que por regra a direita moderada tem quase sempre o cuidado de por um "centro-"  ou pura e simplesmente dizer-se só de "centro" (ou usar a ambígua expressão "o centro e a direita") para não se confundir com a radical; já a extrema-direita, sobretudo a mais abertamente anti-democrática e/ou anti-parlamentar, não raro cultiva o estilo "não somos de direita nem de esquerda; rejeitamos ideologias falsas que só servem para dividir a nação".

Monday, February 27, 2017

Salários portugueses quase ao nível chinês?

Manufacturing wages in Portugal have plunged from $6.30 an hour to $4.50 last year, bringing wage levels below those in parts of eastern Europe and only leaving them 25 per cent higher than in China. (Financial Times, via Marginal Revolution)

Friday, February 10, 2017

Ainda o "border adjustment tax"

The shocking truth about border tax adjustments, por Scot Sumner (Econlog):

A US border adjustment tax would be a massive contractionary shock for the global economy. The only question is what type of shock. Here are three possibilities:

A. The dollar appreciates by 25%.
B. The dollar is unaffected.
C. The dollar appreciates by 12.5%.

In case A, trade is unaffected, but foreigners with dollar denominated debts would immediately see their debts rise by 25% in local currency terms. This could create a global financial crisis.

In case B, dollar debtors would be unaffected, but you would have a massive trade shock. The real (after tax) exchange rate for foreign countries would immediately appreciate by 25% relative to the US dollar. Over time, equilibrium would be restored through a painful process of reducing wages and prices in foreign countries, until the real exchange rate moved back to equilibrium.

In case C, you have a fairly sizable debt shock and a fairly sizable trade shock at the same time. Emerging market exporters would lose exports at exactly the same time that their dollar denominated debts rose by 12.5% in local currency terms. Not good.

I've been trying to wrap my mind around the question of why this border tax would be such a big shock. I think it might have something to do with the fact that money inflows to the US caused by the export of Boeing jets would receive a 20% subsidy, but money inflows to the US in repayment of dollar debts would not receive any subsidy. Perhaps someone who knows more about border taxes/subsidies can clarify this issue.

A parte do "I've been trying to wrap my mind around the question of why this border tax would be such a big shock. I think it might have something to do with the fact that money inflows to the US caused by the export of Boeing jets would receive a 20% subsidy, but money inflows to the US in repayment of dollar debts would not receive any subsidy" e o comentário (em parte incorreto) de um leitor dizendo que "I also think that the standard text book model assumes that all currency flows are driven by real trade flows: there is little emphasis on the capital and financial system. Given that capital flows are so large nowadays, I find the full currency adjustment theory somewhat unrealistic" parecem ir num sentido parecido ao do meu post - que o que complica tudo são os movimentos internacionais de capitais.

Tuesday, February 07, 2017

Trump é um "Velho Democrata"?

Henrique Raposo escreve hoje no Expresso que

Trump não é conservador, republicano ou federalista, é um “confederado” sulista à imagem de Andrew Jackson, o fundador do Partido Democrata. (...)

As divisões esquerda-direita nos EUA não se fizeram na linha religiosa ou na linha capitalista. Nos EUA, todos defendem o cristianismo e o capitalismo. A divisão foi estabelecida noutras linhas, a saber: federalismo “versus” maior autonomia dos estados; abertura comercial e cosmopolita “versus” ruralismo, isto é, sociedade (gesellschaft) “versus” comunidade (gemeinschaft). Logo na fundação, a “direita” federalista de Hamilton e Adams contestou a “esquerda” de Jefferson.

Os federalistas queriam uma união federal com centralidade jurídica (Supremo Tribunal) e financeira (Banco central), e aspiravam a uma América industrial, comercial, marítima, aberta ao exterior, e ligada aos valores universais. É por isso que os federalistas já tinham uma atitude crítica em relação à escravatura. À luz do direito natural, Hamilton e os Adams consideravam a escravatura como uma ofensa moral inaceitável.

Do lado oposto, o esclavagista Jefferson recusava o federalismo forte, defendia uma mera confederação de estados sem autoridade central e federal, sem Supremo ou Banco central; o objetivo era a perpetuação daquele idílio rural parado num tempo de cavalheiros e senhoras. Claro que este idílio era suportado pela escravatura – um pormenor. Ao fundar o Partido Democrata, em 1828, Andrew Jackson corporizou este espírito sulista, que rebentaria na sucessão antiLincoln.
Tendo razão nalguns pontos, acho que Henrique Raposo acaba por fazer uma grande confusão (talvez porque em muitos aspetos a política norte-americana dos séculos XVIII e XIX acaba por ser algo contra-intuitiva para os olhos europeus).

Sim, os Federalistas de Hamilton e John Adams (e os Whigs e Republicanos do século XIX, que continuaram a sua linha ideológica) eram os defensores da industrialização e do comércio, e eram também os mais críticos da escravatura (embora a atitude de Jefferson sobre a escravatura também fosse muito ambígua); mas não eram exatamente adeptos da "abertura ao exterior": Federalistas/Whigs/Republicanos eram o partido do protecionismo, e também eram os maiores céticos face à imigração - veja-se os Alien and Sedition Acts, do presidente John Adams, que tornava mais difícil aos estrangeiros naturalizarem-se e permitia ao presidente prender ou deportar estrangeiros que considerasse perigosos (medidas tomadas em parte por receio dos imigrantes franceses - numa altura de tensão entre os EUA e a França revolucionária -  e em parte porque os imigrantes apoiavam maioritariamente o partido jeffersoniano, e portanto os federalistas tinham interesse em tornar mais díficil que esses adquirissem a cidadania).

Costuma comparar-se Trump com Jackson, mas eu eu diria que , se o estilo é Jackson, o conteúdo é Hamilton (o programa de Trump é largamente o de Hamilton - nacionalismo, protecionismo, obras públicas, um estado simultaneamente pró-business e intervencionista). Nos anos 30 dizia-se que Roosevelt combinava objetivos jeffersonianos (populismo económico) com meios hamiltonianos (intervencionismo federal) - poderemos talvez dizer que Trump combina um forma jacksoniana com um conteúdo hamiltoniano?

Quando, ao longo do século XIX, começam a surgir conflitos por causa da imigração católica, continua a ser o Partido Democrático o mais pró-imigrante, com a reputação de ser o partido dos irlandeses, enquanto é nos partidos opostos aos Democratas, como os Whigs e sobretudo os Know Nothings, que surge a oposição à imigração, inclusive por considerarem que a imigração irlandesa fazia de um plano secreto de uma religião oposta aos princípios da democracia liberal para conquistar os Estados Unidos. Grande parte dos Know Nothings, anti-imigração e anti-católicos, juntam-se depois ao Partido Republicano de Lincoln (penso que muitos defendendo o fim da escravatura exatamente porque achavam que os escravos tiravam o trabalho aos brancos protestantes e deveriam ser recambiados para a Libéria) - ou seja, essa história de, de um lado os racistas xenófobos, do outro a abertura ao exterior, não é assim tão simples: durante grande parte da história dos EUA, o que temos é de um lado o racismo anti-negro, e do outro a xenofobia anti-católica (antes de acusarem os Democratas de serem o partido do "acid, amnesty and abortion", no final do século XIX os Republicanos acusavam-nos de ser o partido do "rum, romanism and rebellion").

Na verdade, eu até suspeito que o único aspeto constante da política norte-americana desde a criação do país é atitude face à imigração: os Democratas (incluindo o "Partido Republicano" de Jefferson) e o outro partido trocaram muitas vezes de posição em vários assuntos (autonomia dos estados, comércio internacional, politica externa, etc, etc), mas na imigração os Democratas quase sempre foram o partido pró-imigrante e o outro partido o mais restricionista.

Já agora, há um acontecimento na história dos EUA que não costuma ser visto nestes termos, mas que talvez possa ser considerado como um prenúncio da tal aliança sulista-yankees tradicionais, unidos contra os "outros": a Lei Seca (que tinha muito de subtexto anti-imigração à mistura), cujos maiores apoiantes parecem ter sido os Democratas sulistas e os Republicanos.

Thursday, February 02, 2017

O "border adjustment tax"

Atualmente, está a discutir-se nos EUA o "border adjustment tax". Pelo que percebo, é uma alteração ao imposto sobre os lucros no sentido de quando uma empresa compra produtos importados isso não contar como custo (o que significa que vão pagar mais impostos) e quando vende produtos para exportação isso não contar como proveitos (o que significa que vão pagar menos impostos).

Isso tem sido apresentado como sendo, na prática, um imposto sobre as importações e um subsídio sobre as exportações (e eu suponho que seja quase a mesma a coisa que implementar um IVA e usar a receita para baixar o IRC).

Tanto defensores como críticos da ideia têm dito que é uma coisa que até pode soar como protecionista, mas não o é realmente - o imposto de 20% sobre as importações e o subsidio de 20% sobre as exportações apenas vão fazer que o dólar valorize 25% (ou, dito de outra maneira, que as outras moedas desvalorizem 20%), deixando tudo na mesma em matéria de competitividade externa (pela conversa dos 20%, imagino que seja essa a taxa do imposto sobre os lucros).

Mas tenho dúvidas que seja mesmo assim (e, se fosse mesmo assim, qual era o interesse da medida?).

Vamos por partes - pelo lado das importações, se o dólar valoriza 25% e as compras ao estrangeiro passam a pagar um imposto de 20%, o custo, em dólares, que as empresas pagam quando importam um produto estrangeiro fica realmente na mesma: um produto importado com o valor nominal de 100 "estrangérios" (moeda hipotética que antes tinha uma cotação 1 estrangério = 1 dólar e depois vai ter uma cotação de 1,25 estrangérios = 1 dólar) antes custava 100 dólares, dos quais 20 depois iam ser abatidos nos impostos; depois vai custar 80 dólares (100 estrangérios), sem dedução fiscal - do ponto da vista da empresa importadora, fica tudo na mesma; assim, é de esperar que o volume das importações se mantenha, e que o seu valor nominal em dólares se reduza em 20% (mas o que os outros países recebem na moeda local fica igual).

Pelo lado das exportações, a ideia que vai ficar tudo na mesma parece estar a assumir que, deixando as exportações de estar sujeitas a imposto, os exportadores vão baixar o preço nominal das exportações na mesma proporção, o que é capaz de fazer sentido. Assim, antes uma empresa exportava bens no valor de 1000 dólares (dos quais 200 iam para imposto), e os compradores em Estrangeirabad pagavam 1000 estrangérios; depois a empresa vai exportar bens no valor de 800 dólares (livres de impostos) e os compradores vão pagar 1000 estrangérios por eles, ficando também tudo na mesma; de novo, é de esperar que o volume das exportações se mantenha, e que o seu valor nominal em dólares se reduza em 20%.

Assim, a balança comercial dos EUA ficava em termos físicos na mesma, e o seu saldo nominal em dólares decrescia 20% (correspondente à valorização de 25% do dólar).

Mas a história não fica só por aqui, já que a balança comercial tem que ser igual (ou, melhor simétrica) da balança de capital:

Exportações - Importações = Saídas de capital - Entradas de capital

(mais uns pozinhos de ambos os lados, mas acho que não afeta a ideia geral)

Se, num sistema de câmbios variáveis, o saldo da balança comercial fosse maior que o simétrico do saldo da balança de capital, isso quer dizer que haveria maior procura de dólares no mercado (para pagar as exportações e mais os investimentos nos EUA) do que oferta (resultante dos dólares que os norte-americanos gastam para pagar importações e investir no estrangeiro), fazendo o dólar subir até se equilibrarem as balanças, e vice-versa (atenção que aqui falo mais do desejo de exportar, importar, investir, etc., do que de exportações, importação, investimentos, etc. efetivamente realizados; a nivel do que acontece efetivamente, o valor da balança comercial é necessariamente igual ao simétrico do valor da balança de capital)

Um aparte - para efeitos disto que estou a dizer, acumular dólares em cofres colombianos conta como "entradas de capital" nos EUA.

Agora, a nível das operações de capital, no curto prazo iria haver uma confusão, com primeiro uma entrada massiva de capitais nos EUA para beneficiar da prevista valorização do dólar, e depois uma saída provavelmente também massiva, depois da valorização se consumar. Mas o que me interessa aqui é como as coisas vão funcionar depois do sistema estar a funcionar regularmente.

Se as taxas de juro, perfis de risco de países, etc., se mantiverem constantes, imagino que quem investe em mercados internacionais siga uma politica do tipo "40% no país A, 30% no país B, 10% no meu país", ou algo parecido (olhando para aquelas teorias de "carteira de mercado", e aplicando-as não à decisão "que títulos comprar", mas "em que países investir", parece-me natural que o resultado seja algo do género; e também já vi prospetos de fundos de investimento com conversas parecidas, não falando em países específicos, mas em mercados, estilo "20% em mercados emergentes"). Agora, se os investidores internacionais se comportarem assim, qual será o resultado dessa alteração de impostos e da suposta valorização do dólar?

A nível das entradas de capital, acho que acontece a mesma coisa - um investidor em Estrangeirabad que siga a política de investir em títulos norte-americanos (ou mesmo acumular dólares) digamos, 1/3, do seu rendimento anual, vai continuar a investir o que investia antes em estrangérios, mas em dólares o valor do seu investimento vai ser 20% menor (já que os, digamos, 100.000 estrangérios que ele investia todos os anos agora são 80.000 dólares e não 100.000).

O problema são as saídas de capital - assumindo que tudo o mais se mantém igual (nível de preços, taxa de juros, etc.) à partida não vejo grande razão para que o valor nominal dos investimentos norte-americanos no estrangeiro diminua (sim, sai mais barato em dólares, p.ex., comprar uma casa, ou mesmo uma empresa, mas suspeito que, no agregado, isso levaria sobretudo a que os investidores dos EUA comprassem mais coisas, não que gastassem menos dinheiro em dólares - ou mesmo que o valor nominal em dólares baixasse, duvido que baixasse em 20%).

Mas então assim, se o saldo da balança de pagamentos se reduziria em 20%, mas o da balança de capital não se reduziria em 20% (porque só uma das suas parcelas ia ter a tal redução de 20%), isso não poderia decorrer dessa maneira: se as saídas de capital dos EUA se reduzem numa proporção inferior a 20%, isso quer dizer que o saldo nominal da balança de capital não se iria reduzir em 20%, mas numa proporção inferior (se for negativo) ou superior (se for positivo, como penso ser o caso).

Mas como nesse cenário da valorização de 25% do dólar, o total da oferta de dólares (importações + saídas de capital) seria maior (ou, dito de outra maneira, iria descer menos) que o total da procura de dólares (exportações + entradas de capital), dá-me a ideia que o dólar iria valorizar menos que 25%, e nesse caso iria sempre haver um aumento real das exportações e uma diminuição real das importações dos EUA (ou seja, sempre iria haver um pouco de efeito protecionista, ou  mercantilista).

O que os leitores (nomeadamente os que percebem mais e/ou mais interessados nestes temas) acham? Isto pode fazer algum sentido, ou há alguma falha no meu raciocínio (p.ex., eu assumi que o nível de preços e salários nos EUA não se alterava, mas não me admirava nada que, se se alterasse, isso mudasse tudo)?

Wednesday, February 01, 2017

O elenco do filme

Um comentário de um leitor ao post de Scott Sumner que citei ali atrás:

Interesting movie.

So, Trump plays Hitler, a true revolutionary out to destroy the old world order and to make his country great again.

Bannon stars as Goebbels, chief propagandist, defender of the master race while clearly not the best looking specimen himself.

Miller … probably Roehm then.

Mattis … stand-in for the Wehrmacht Generals. Competent officers all, dutifully advancing towards Stalingrad.

Tillerson … von Ribbentrop, engineering a pact with Russia to divide up the whole of Europe this time

Wonder who’ll play the role of Carl Schmitt to gut the rule of law.

The whole UK plays Italy… a solid, if a little incompetent ally with quite different values, but sadly caught up in the spirit of the times. They try to control their big wild ally but eventually get engulfed in the bonfire too.

Big question: who plays the US? The economic and military giant lurking far, far away, and whose massive, worldwide power our revolutionaries are underestimating? Can China handle the role? It doesn’t look like it… yet. But it’s ramping up fast… Stay tuned.

Proibindo a entrada nos EUA a pessoas preconceituosas e intolorentes

We need to keep “bad dudes” out of America, por Scott Sumner:

I saw Trump administration official Stephen Miller on a CBS interview, explaining that the recent travel ban was aimed at keeping out people with bigotry towards any sexual orientation, race, or class of people. So what kind of bigoted person does Stephen Miller have in mind? Steven Bannon? Or maybe this guy:
Trump’s other Steve: Stephen Miller’s rocket ride to power in the White House, por Andrew Romano (Yahoo News):
Miller went on to complain, in a column titled “Political Correctness Out of Control,” about the availability of condoms on the Santa Monica High School campus. He took issue with the administration’s acceptance of gays and lesbians, later writing that “just in case your son or daughter decides at their tender age that they are gay, we have a club … that will gladly help foster their homosexuality.” He griped that his fellow students weren’t being required to recite the Pledge of Allegiance, or to learn how heroic their predecessors were. Maybe American soldiers shouldn’t have killed Indians? Miller asked, sarcastically.

Tuesday, January 31, 2017

MacGyver (2016) - análise

Há uma grande diferença entre o "novo" MacGyver e o dos anos 80, que acho que muda muito o espírito da série: mais exatamente, falta aquela componente de herói humanitário, defensor dos fracos e oprimidos - mesmo quando estava em missões oficiais, o episódio acabava por girar menos em torno da missão, e mais a proteger os camponeses de uma aldeia próxima de um traficante de droga que os queria escravizar ou uma coisa do género (para não falar de todos os episódios em que ele não estava de serviço, mas a ajudar algum amigo ou ex-namorada ou a fazer alguma espécie de voluntariado social).

Já na série de 2016, ele limita-se a ser um agente dos serviços de espionagem, a combater os inimigos do estado norte-americano (o que até pode provocar nalguns espetadores uma reação "who cares? uns ou outros, o que é que interessa?") - em muitos aspetos, o enredo faz lembrar mais os episódios da Missão Impossível do que do MacGyver original (eu ia escrever que a única grande diferença face à Missão Impossível é o nesta os heróis frequentemente usarem máscaras, mas atendendo a que o amigo dele agora vai fazer máscaras para a Phoenix, nem sei se também não começarão a agir muitas vezes disfarçados); já que estou fazendo analogias com outras séries de ação, diria que série dos anos 80 seria menos "Missão Impossível" e mais "Soldados da Fortuna "/"A-Team", no que diz respeito às tarefas e inimigos que os heróis enfrentavam (esses também faziam a maior parte das vezes de protetores de pessoas comuns contra algum vilão de quem elas não se conseguiam defender sem ajuda).

Friday, January 27, 2017

Beneficios e custos da NAFTA para os EUA

What did NAFTA really do?, por Dani Rodrik (via Tyler Cowen):

Remember first that many advocates of NAFTA made at the outset some wildly optimistic claims about what NAFTA was going to achieve. The most extravagant of the studies, and the one that probably was the most widely circulated, was one produced at the Peterson Institute for International Economics (then just the Institute for International Economics). This study argued that NAFTA would be a net job creator for the U.S., thanks to a projected improvement in the U.S. balance of trade.(...)

This argument was always a red herring: trade agreements are not supposed to create net employment; they simply reshuffle employment. NAFTA neither subtracted, nor added substantial number of jobs to the U.S. economy. At best, it made the U.S. economy more efficient by reallocating workers to jobs that are more productive.

And certainly this happened. But the overall efficiency gains are quite small, much smaller than what the trade volume effects would lead you to believe. A recently published academic study by Lorenzo Caliendo and Fernando Parro uses all the bells-and-whistles of modern trade theory to produce the estimate that these overall gains amount to a “welfare” gain of 0.08% for the U.S. That is, eight-hundredth of 1 percent! (...)

A gain, no matter how small, is still a gain. What about the distributional impacts?

The most detailed empirical analysis of the labor-market effects of NAFTA is contained in a paper by John McLaren and Shushanik Hakobyan. They find that the aggregate effects were rather small (in line with other work), but that impacts on directly affected communities were quite severe. (...)

In other words, those high school dropouts who worked in industries protected by tariffs prior to NAFTA experienced reductions in wage growth by as much as 17 percentage points relative to wage growth in unaffected industries. I don’t think anyone can argue that a 17 percentage drop is small. As McLaren and Hakobyan emphasize, these losses were then propagated throughout the localities in which these workers lived.

So here is the overall picture that these academic studies paint for the U.S.: NAFTA produced large changes in trade volumes, tiny efficiency gains overall, and some very significant impacts on adversely affected communities.(...)

So is Trump deluded on NAFTA’s overall impact on manufacturing jobs? Absolutely, yes.

Was he able to capitalize on the very real losses that this and other trade agreements produced in certain parts of the country in a way that Democrats were unable to? Again, yes. 

Wednesday, January 25, 2017

Proteccionismo e liberalismo

A respeito da politica económica de Trump, Vital Moreira escreve que esta é "um mix de política económica pouco comum. Tradicionalmente, o nacionalismo económico externo é o reflexo de políticas intervencionista na ordem económica interna, enquanto o liberalismo económico interno coabita tendencialmente com uma política comercial externa igualmente liberal. Trump baralha as coisas e inaugura uma nova receita: ultraliberalismo interno e nacionalismo externo, ou seja, um ultraliberalismo nacionalista."

Mas essa combinação, entre liberalismo interno e protecionismo externo será assim estranha? Não me parece - também é, p.ex., a doutrina da Frente Nacional francesa (contra a globalização, mas a favor de baixos impostos). E até para aí 1945-50, também era mais ou menos a doutrina do Partido Conservador britânico e do Partido Republicano dos EUA, internamente contra as reformas sociais estilo New Deal e ao mesmo tempo protecionistas (ou, no caso britânico, defensores da "comércio livre imperial" - comércio livre com as colónias, protecionismo para com o resto do mundo); veja-se como, mesmo em 1950, a jovem conservadora Margaret Roberts se apresentava como candidata a candidata a deputada, defendendo ao mesmo tempo os baixos impostos e, aparentemente, a "preferência imperial":

What Margaret said that evening was already distinctive, at least in tone. She began with an attack on the failure of three and a half years of socialism to deliver material rewards. She urged the Government to do what 'any good housewife will do' by examining their accounts. She put her faith in tax cuts to boost production and (more dubiously) to lower prices. She spoke of the need to renew link with the Empire 'to fight the economic war' (a reference to the doomed Imperial Preference tariff system).
Da mesma forma, mesmo já no pós-guerra, nos EUA a ala economicamente mais liberal (no sentido internacional da palavra) e anti-New Deal do Partido Republicano, à volta do senador Robert Taft, era a que mais defendia o protecionismo, enquanto era Eisenhower, mais "centrista", que defendia o comércio livre; mesmo Barry Goldwater, o candidato republicano de 1964, com a reputação de ser um radical pelo "small government" (ou um extremista "em defesa da liberdade"), creio que era a favor do protecionismo (pelo menos o seu candidato a vice era-o de certeza).

Um aparte - há um assunto em que todos os "liberais económicos" atrás referidos até eram bastante estatistas: greves e sindicatos; mas haver defensores do liberalismo económico a defenderem que o Estado deve intervir para restringir a ação dos sindicatos é tão comum que acho que não afeta a sua qualificação como "liberais internos".

Mesmo nos tempos mais modernos, continuando a falar dos EUA, a combinação protecionismo+desregulação interna também era mais ou menos o programa de Pat Buchanan nas eleições de 1992, 1996 e 2000, ou de "financiadores de campanhas" como o industrial do têxtil Roger Miliken.

Vendo as coisas pelo lado contrário, os 30 anos a seguir à II Guerra Mundial foram um período de crescimento da intervenção económica do estado em geral, por um lado, e de redução das barreiras ao comércio internacional (dentro, claro, do "bloco ocidental") - tal até era designado por "Keynes at home, Smith abroad".

Fazendo uma análise talvez um bocado marxista, explicando as ideias pelos interesses económicos, até pode fazer sentido que por vezes a defesa do liberalismo económico interno venha junto com a defesa do protecionismo - basicamente, sectores produtores de bens transacionáveis com baixo valor acrescentado são os que são mais ameaçados, tanto pela concorrência estrangeira, como pela regulamentação laboral e ambiental (e se calhar também são os que têm menos a ganhar com o aumento da procura, pelo que também têm menos razão para apoiar politicas keynesianas); em compensação, os sectores de alta tecnologia provavelmente conseguem mais facilmente suportar os custos das regulamentações e também são os que mais beneficiam da globalização; quanto ao sector dos serviços está por natureza protegido da concorrência externa (não tendo assim necessidade de proteções adicionais), e é o que mais tem a ganhar com o aumento da procura interna (logo, com politicas keynesianas), e, já agora, também é pouco afetado pela regulação ambiental.

Outra possível razão é que, no mundo real, a defesa do liberalismo económico vem muitas vezes misturado com a "ética do trabalho" - "cobrar impostos a quem trabalha para dar a vadiagem" ou "regras ambientais que não deixam trabalhar quem quer produzir"; como o protecionismo até vem normalmente com a mensagem "temos que produzir mais" (e muitas vezes destinado exatamente aqueles setores com mais conotação de trabalho pesado - agricultura, indústria tradicional - em detrimento de setores com a conotação de "pipis que querem é estar atrás do balcão ou sentados à secretária" - como muitos dos serviços) acaba por até ser atrativo para pessoas que noutros assuntos até são bastante liberais (provavelmente também é a razão porque muitas pessoas são mais contra o RSI do que contra os subsídios à agricultura - e, nos subsídios agrícolas, criticam sobretudo os subsídios para reduzir a produção - ou porque preferem subsídios às empresas que contratam em vez de subsídios de desemprego: economicamente todos são distorcedores e causadores de ineficiências, e também são todos resultado de coação - sendo financiados por impostos cobrados à força - mas muitas pessoas - a maioria? - acham que é moralmente diferente "subsidiar para trabalhar/produzir" e "subsidiar quem não trabalha/produz").

Friday, January 20, 2017

O Prémio Nobel da Paz a Obama foi justificado

Agora que o mandato de Obama acabou, é popular dizer-se que o Prémio Nobel da Paz que ele recebeu não teve grande fundamento, que ele fez montes de intervenções no estrangeiros e mandou matar muita gente (essa crítica parece-me implícita, p.ex., neste post n'O Insurgente).

Mas o que toda a gente se esquece é, não dos mortos que acontecerem, mas dos muitos mais que se evitaram:


[Via Greg Mankiw; o original deveria estar neste site, mas deve ter desaparecido]

Finalmente Trump toma posse

E pode-se começar a discutir mesmo as políticas dele em vez de especulações sobre o que ele vai ou não fazer ou sobre as suas supostas associações com A ou B (a alt-right, Putin, etc.).

Wednesday, January 18, 2017

A redução da TSU

Pelo que percebo lendo o decreto-lei[pdf]:

a) as empresas que tivessem trabalhadores a ganhar menos que 557 euros, e agora os aumentem para 557 euros vão pagar apenas 22,5% (em vez de 23,75%)

b) o mesmo para as empresas que aumentem o ordenado desses trabalhadores para... seja que valor for (600 euros, 1000 euros, 5000...)

c) já as empresas que contratem, agora, um novo trabalhador, e lhe paguem 557 euros, vão descontar 23,75%

Pode ser visto como um medida de apoio às empresas já existentes em detrimento de novas empresas, e também uma medida que favorece mais a preservação dos empregos já existentes do que a criação de novos empregos. [Creio que o Luís Aguiar-Conraria já tinha algures escrito qualquer coisa nesse sentido]

Por outro lado, é verdade que se fosse ao contrário (a TSU reduzida aplicada a todos os empregos a ganhar 557 euros, e a não ser aplicada aos empregos com salários superior), poderia ser vista como um incentivo a pagar salários baixos - ambas as hipóteses são problemáticas.

Wednesday, January 11, 2017

Quem paga o imposto sobre...

Esta questão voltou agora a colocar-se acerca do imposto de selo sobre as comissões que os bancos cobram sobre os pagamentos com cartão de débito. Mas é uma discussão recorrente - também ocorre por vezes acerca das Taxas Municipais sobre Direitos de Passagem.

Nesses casos há sempre grandes polémicas, pareceres jurídicos para aqui e para ali, pedidos para o governo esclarecer quem é que tem que pagar o imposto (os bancos ou os comerciantes? as empresas ou os clientes?); mas a verdade é que não interessa para nada quem é que a lei diz quem é que tem que pagar o imposto (antigamente eu diria "como qualquer aluno do 3º ano de Economia sabe"; mas como agora ad licenciaturas são de três anos, provavelmente até aprendem isso antes).

Explicando melhor  - imagine-se que o Estado lançava um imposto de 1 euro sobre, digamos, os cortes de cabelo.

Há partida temos duas hipóteses - ou a lei diz que é o cliente a pagar, ou diz que é o cabeleiro/barbeiro a pagar.

Se a lei disser que é o cliente a pagar, o cabeleireiro/barbeiro tem 3 hipóteses:

A1 - não faz mais nada além de aplicar a lei - cobra o preço que cobrava antes (p.ex., 9 euros), e cobra um euro adicional de imposto

A2 - faz umas contas, e conclui que o que perde com a redução da clientela (devido ao aumento do preço que o cliente tem que pagar) é maior do que perderia se mantivesse o mesmo número de clientes e baixasse o preço que recebe por clientes, e assim decide baixar o preço de 9 para 8 euros (continuando o cliente a pagar os 9 euros que pagava antes - 8 euros e mais 1 de imposto)

A3 - de novo, faz umas contas, e chega à conclusão que o melhor é mesmo uma situação intermédia - baixar o preço, mas menos que um euro (o que quer dizer que o preço a pagar pelo cliente aumenta alguma coisa, mas menos que um euro); neste cenário, nem a redução da clientela é tanta como no cenário A1, nem a redução do lucro por corte de cabelo é tanta como no cenário A2

Se a lei disser que é o cabeleireiro/barbeiro a pagar, ele tem também três hipóteses:

B1 - não faz mais nada além de aplicar a lei - cobra o preço que cobrava antes (os tais 9 euros), e depois desses 9 euros tira um para o imposto (ou seja, vai passar a ganhar menos 1 euros por corte de cabelo)

B2 - faz umas contas, e conclui que o que perde com a redução do lucro por corte de cabelo é maior do que perderia se subisse o preço, mesmo passando a ter menos clientes, e assim decide subir o preço para 10 euros (mantendo o lucro unitário que tinha antes)

B3 - de novo, faz umas contas, e chega à conclusão que o melhor é mesmo uma situação intermédia - subir o preço, mas menos que um euro (o que quer dizer que o lucro por corte de cabelo diminui alguma coisa, mas menos que um euro); neste cenário, nem a redução da clientela é tanta como no cenário B2, nem a redução do lucro por corte de cabelo é tanta como no cenário B1

Mas, agora, vamos pensar - em termos, tendo do que o barbeiro/cabeleireiro recebe, como do que o cliente paga, o caso A1 é exatamente igual ao B2 (o cliente paga 10 euros e o cabeleireiro/barbeiro recebe 9); o caso A2 também é exatamente igual ao caso B1 (o cliente paga 9 euros e o cabeleireiro/barbeiro recebe 8); e as várias variantes de A3 também correspondem a variantes de B3. Desta forma, podemos assumir que a clientela e os lucros do barbeiro/cabeleireiro serão as mesmas em A1 e B2, e também serão iguais em A2 e B1 (ou em A3 e B3).


Mas isso quer dizer que, se no cenário que diz que é o cliente que paga o imposto, A1 for mais lucrativo (para o barbeiro/cabeleireiro) que A2, então no cenário em que é o barbeiro/cabeleireio a pagar o imposto, B2 também é mais lucrativo que B1, e vice-versa - ou seja, se no primeiro cenário for mais lucrativo cobrar mesmo o imposto ao cliente, então no segundo cenário também é mais lucrativo repassar o imposto ao cliente via aumento de preços; e, inversamente, se no primeiro cenário for mais lucrativo o barbeiro/cabeleireiro suportar ele o imposto que era para ser pago pelo cliente, também é mais lucrativo no segundo cenário não aumentar o preço final e suportar ele efetivamente o pagamento do imposto. Da mesma maneira, se no primeiro caso a hipótese intermédia (baixar o preço menos que um euro) for a mais lucrativa, no segundo caso essa hipótese (agora, subir o preço menos que um euro) também o será

Em suma, é indiferente quem a lei diz que vai pagar o tal euro - pode ser o cliente, o barbeiro/cabeleireiro ou ser dividido entre os dois, mas essa divisão é independente do que for estabelecido por lei.

Um detalhe - neste meu exemplo o imposto é um valor absoluto (1 euro); se fosse uma percentagem a coisa alterava-se ligeiramente, já que o vendedor pagar, p.ex., 10% de impostos não é a mesma coisa que o cliente pagar 10% de imposto, já que no primeiro caso os 10% incidem sobre o preço final e no segundo sobre o preço antes de impostos - os seja, 10% pagos pelo vendedor é a mesma coisa que 11,111% pagos pelo comprador (ou, no geral, uma taxa "t" paga pelo vendedor é equivalente a uma taxa "t/(1-t)" paga pelo comprador); mas a ideia fundamental mantêm-se: a lei dizer se é o vendedor ou o comprador a pagar o imposto não têm influência sobre quem o vai efetivamente pagar (no máximo, poderá ter alguma influência no montante a ser pago).

Nas conversas do dia-a-dia é frequentemente expressa uma opinião vagamente parecida com o que escrevo acima: "é sempre o consumidor final a pagar"; mas isso também é um erro (ainda que provavelmente não seja um erro tão grande como assumir que quem vai pagar é quem a lei diz que vai pagar) - não é obrigatório que seja o consumidor final que vai pagar: se acharem que um aumento de preços vai originar uma grande redução da procura, os vendedores podem optar por baixar o preço nominal e suportarem eles o aumento do impostos (como nos exemplos A2 e B1 acima); o meu ponto é que, se o fizerem, vão fazê-lo de qualquer maneira (independentemente do que a lei diga). Numa regra geral, podemos dizer que o imposto vai recair sobretudo sobre quem tiver um comportamento mais rígido - se os consumidores comprarem quase a mesma quantidade do bem/serviço em questão, independentemente das subidas ou descidas de preços, os vendedores vão fazer recair o imposto sobretudo sobre os clientes; se, pelo contrário, uma pequena subida/redução de preço originar grandes reduções/aumentos da procura, os vendedores tenderão a assumir eles o imposto.

[Um exemplo de uma situação em que, ao que tudo indica, o imposto era mesmo pago pelo vendedor - com o descida do IVA sobre a restauração, a sandes de fiambre que eu costumo comer todos os dias subiu de 0,81 cêntimos - 1 euro de preço final - para 0,89 cêntimos - 1 euro de preço final; isso quer dizer que quem estava a suportar a diferença entre o IVA de 23% e o de 13% era mesmo o vendedor, que estava a deixar de ganhar 8 cêntimos por sandes]

Por vezes, nestas discussões sobre quem realmente ganha ou perde com alterações de impostos surge o inevitável (sobretudo da parte dos autores da alteração) "Claro, tem que haver fiscalização" (lembro-se desta conversa quando um governo anterior baixou o IVA sobre os ginásios); mas fiscalizar o quê? O estabelecimento comercial que reage a uma descida do IVA subindo o preço nominal e deixando o preço de venda ao público na mesma não está a cometer nenhum crime (está simplesmente praticando o ato de gestão), logo o que é que se vai fiscalizar?

Uma nota final - neste momento, os leitores já estarão a pensar "Mas então, todas aquelas manifestações contra as alterações à TSU? Quer dizer que foram uma perca de tempo? Afinal, se é indiferente quem a lei diz que paga a taxa..."

Não exatamente - subir 7 pontos percentuais na TSU do trabalhador e baixar 7 pontos na TSU do empregador seria de facto irrelevante para os contratos de trabalho que fossem assinados a partir daí para a frente (já que empregadores e trabalhadores iriam estabelecer o valor nominal do salário tendo já em atenção as contribuições respetivas) - mas não o seria para os contratos de trabalho já estabelecidos (que imagino fossem a maioria esmagadora dos assalariados nesse momento), em que os trabalhadores que tinham assinado um contrato dizendo que iam ter um ordenado de 600 euros (esperado descontar 66 euros para a Segurança Social) iam ver-se, de repente, a descontarem mais 42 euros por mês (além de outros pontos, como a redução da contribuição patronal não ser de 7 pontos mas apenas de 5,75 - representando portanto um aumento total das contribuições em 1,25 pontos - e também a redução implícita do salário mínimo líquido que iria ocorrer).

Leitura adicional - Tax incidence (Wikipedia)

Monday, January 09, 2017

O relatório dos serviços secretos dos EUA sobre a "ingerência" russa

Is That All There Is? Intel Community Releases Its Russia 'Hacking' Report, por Daniel McAdams (Ron Paul Institute for Peace and Prosperity):

The much-anticipated Intelligence Community report backing up its claims that the Russians hacked the US elections in November has just been released. Titled "Declassified Intelligence Community Assessment of Russian Activities and Intentions in Recent US Elections," the report is long on speculation and short on any evidence for the claims it was supposed to prove. It even came with a warning label stating that though the conclusions are reached with "high confidence," that "does not imply that the assessment is a fact or a certainty; such judgements may be wrong." We who lived through the 2002 "high confidence" in Iraqi WMDs remember this possibility well. (...)

Perhaps most surprising about the report -- and perhaps as a result of the paucity of evidence for the claims of "hacking -- is that a full third of its length is dedicated to quite unsophisticated criticism of the Russian television station RT.

What's the $80-plus billion dollar per year US Intelligence Community's big beef with RT? One of its big complaints is that RT undermined US democracy when it "broadcast, hosted, and advertised third-party candidate debates..." We are to believe that Russia undermined our political system by giving voice to official yet minor US political parties? Democracy is undermined when the democratic process is highlighted? (...)

he Kremlin funds RT to the tune of $190 million per year, states the report, and its audience keeps growing. The report does not mention that the US government spends vastly more -- $780 million for 2017 -- on its worldwide propaganda effort through the government-funded Broadcasting Board of Governors. Do what we say but not what we do. But then again, as National Intelligence Director James Clapper told the Senate yesterday, pointing out US government hypocrisy is itself indicative of a Russian influence operation in action.

Another problem the US spy agencies have with RT is that it reports on the surveillance state created by those same spy agencies. The Report states, "RT's reports often characterize the United States as a 'surveillance state' and allege widespread infringements of civil liberties." So RT is guilty of being a Kremlin plot to undermine our freedom because it points out that the US government has already undermined our freedom?
[Via Antiwar.com]