Wednesday, December 31, 2014

Esquerda caviar?

Uma passagem de "Um Piano nas Barricadas: Autonomia operária (1973-1979)", de Marcello Tarì:

Em Milão os colectivos autónomos começam a mover-se num terreno mais ofensivo no que toca às auto-reduções e a levar a cabo expropriações nos supermercados.

A história dos exproprios milaneses – a partir do que ocorreu nos supermercados de Quarto Oggiaro e da Via Padova em 1974 – é magistralmente evocada em Insurrezione, o romance auto-biográfico de Paolo Pozzi, à época chefe de redacção de “Rosso”, que, para além da narrativa divertida, permite também apreciar os seus aspectos “técnicos”: enquanto a maioria dos expropriadores roubava as mercadorias, um grupo ocupava-se a cortar a linha telefónica da loja e outro permanecia do lado de fora, armado com cocktails molotov para o caso de se aproximarem viaturas da polícia e de ser necessário cobrir a saída dos companheiros (Paolo Pozzi, Insurrezione, DeriveApprodi, Roma, 2007). Mas a autonomia não roubava apenas massa, carne e azeite, como pretendiam os marxistas-leninistas, mas também whisky, caviar, salmão e todas as mercadorias de luxo que, segundo uma moral partilhada também pelos grupos, não faziam ou não deveriam fazer parte da vida proletária. Os exproprios, a “reapropriação” no sentido praticado pelos autónomos, não eram simplesmente acções de alto significado político-social, aludiam a uma riqueza finalmente partilhada, a uma necessidade que era destruída na satisfação de um desejo, a um tomar pela força parte daquela outra força que o capital te roubava cada dia; e à noite, depois da expropriação, fazia-se a festa partilhando o caviar e o champanhe francês: apropriavam-se as mercadorias para aniquilar o seu maléfico poder simbólico.

1 comment:

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... said...

E nunca esquecendo aqueles americanos do início do século XX com a demanda por "bread and roses", o que motiva ações de esquerda até os dias que correm.
DdAB