No blog da Reason, Jesse Walker fala de um caso de um estudante norte-americano fã de "Masmorras e Dragões" (um jogo que creio largamente desconhecido em Portugal, mas que nos EUA tem muito uma conotação de um jogo para "cromos") que desapareceu em 1979 e a comunicação social propagou a ideia que tinha sido culpa do jogo (que ele teria deixado de distingur a fantasia da realidade e teria ido para o sistema de esgotos); depois ele reapareceu e chegou-se à conclusão que não tinha sido nada a ver com jogos.
Isso faz-me lembrar as especulações sobre as mortes da Praia do Meco e a praxe acadêmica.
Nota: eu acho a praxe uma parvoíce e até suspeito que o caso do Meco possa ter tido algo a ver com praxes (mas também pode ter sido simplesmente o resultado da tendências das pessoas entre os 12 e os 25 anos para fazer disparates); mas as provas concretas que têm dido divulgadas até agora parecem-me muito poucas para se poder fazer uma associação entre o acidente e a praxe ao nível que tem sido feito na comunicação social
Sunday, March 02, 2014
Pãnico moral
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Miguel Madeira
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Thursday, February 27, 2014
EUA - um país de pequenas empresas inovadoras?
America: Not a small business country (Flip Chart Fairy Tales):
Despite the popular myth of the American entrepreneur, America is not a small business country. As the Center for Economic and Policy Research noted in 2009:
By every measure of small-business employment, the United States has among the world’s smallest small-business sectors (as a proportion of total national employment).
Not much has changed since then. When compared to other advanced economies, the US doesn’t look that much more entrepreneurial than anywhere else.
America has a relatively low number of self-employed people and their numbers have fallen in recent years (...)
Compared to other developed countries, the US has relatively few people employed by small companies. (...)
America’s business start-up rate is lower than that of many OECD countries and has also fallen in recent years. (...)
The percentage of American startups with innovative products is fair-to-middling.
Are US startups making products the rest of the world wants to buy? Again, not really. The internationally trading startups are more likely to come from Europe. (...)
Whatever is behind the high productivity of the US economy, it doesn’t seem to be due to the quality or quantity of its small firms. There is almost no measure on which America’s small business sector stands out from those of other advanced countries. (...)
Uma coisa que me ocorre é que a tendência para associar os EUA ao "individualismo", "empreendedorismo" e afins é algo que, no fundo, também é relativamente recente - se pegarmos em livros escritos nos anos 50/60/70, a tendência era para apresentar os EUA (em contraponto com a Europa) como a terra das grandes empresas, do "consumo de massas", do "homem da organização", do "conformismo", etc. (eu uma vez folhei o "Confiança" de Fukuyama numa livraria e creio que ele até referia isso, penso que para ilustrar a sua tese de que o fazia os países enriquecer era exatamente a capacidade de os individuos cooperarem em organizações maiores que a família).
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Miguel Madeira
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Wednesday, February 19, 2014
Contra as patentes
"The main problem with the patent system is not software patents, low-quality patents, or patent trolls: it is the grant of “high quality” patents to actual companies that make products, who can use these patents as a protectionist bludgeon against their competitors.
Wenzel on patents in developing countries, by STEPHAN KINSELLABoldrin and Levine have found that the pharmaceutical industry historically grew “faster in those countries where patents were fewer and weaker.” Italy, for one, provided no patent protection for pharmaceuticals before 1978, but had a thriving pharmaceutical industry. Between 1961 and 1980, it accounted for about nine percent of all new active chemical compounds for drugs. After patents arrived, Italy saw no significant increase in the number of new drugs discovered there — contrary, one supposes, to the IP advocates’ predictions."
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Thursday, February 13, 2014
Propostas à esquerda: positivemoney.org
What We Need
1. Money should only be created through a democratic and transparent body working in the public interest.
2. Money should be created free of debt
3. Money should come into the real (non-financial) economy before it reaches financial markets and property bubbles
4. Banks should not be allowed to create money
In the short-term: Sovereign Money Creation
When we rely on banks to create most of our money, then the only way of getting more money into the economy – and allowing it to grow – is to encourage people to go further into debt. This is why UK government policy is focused on ‘getting banks lending again’ and encouraging people to borrow more for mortgages. But the financial crisis was caused by a huge build-up in private debt, so allowing that debt to increase even further could lead us into another crisis.In the Long Term:
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Wednesday, February 12, 2014
Classe média
A respeito das politicas de austeridade não terem, à primeira vista, aumentado significativamente a "pobreza", Hugo Mendes recorda que "que o risco de pobreza é medido a partir do rendimento mediano. Se o rendimento mediano cai, a linha de pobreza também cai. Pode acontecer que, se a classe média perder rendimentos ao mesmo ritmo que os mais pobres, o risco de pobreza não se altere, embora todos estejam a empobrecer: foi isso que aconteceu entre 2009 e 2011, uma vez que a linha de pobreza caiu de €5207 em 2009 para €5046 em 2010, e para €4994 em 2011".
Uma coisa que eu acho não ter grande jeito é a ideia de definir uma linha de "pobreza" em função do rendimento mediano (creio que a definição mais usual é considerar "pobreza relativa" como ter um rendimento abaixo de 60% do rendimento mediano). Eu percebo o raciocínio de adoptar uma definição "absoluta" de pobreza, em que se considera "pobre" quem não tenha rendimento necessário para se atingir um dado padrão de consumo considerado como "o mínimo aceitável"; também perceberia o raciocínio de se adoptar uma definição "relativa" de pobreza, em que se considerasse "pobre" quem tivesse um rendimento inferior a uma dada percentagem do rendimento médio da sociedade onde vivem, já que tal significaria que essas pessoas tinham acesso a uma proporção reduzida da riqueza total produzida nessa sociedade (alguns poderiam argumentar que tal não seria verdadeiramente uma medidade de "pobreza" mas sim de "desigualdade"; mas pronto, sempre mediria alguma coisa...). Já a "pobreza relativa" utilizada atualmente é que não mede verdadeiramente nada.
Para explicar melhor o que quero dizer - imaginemos uma sociedade com três pessoas, com os seguintes rendimentos:
Carolina - 1000 euros
Pedro - 500 euros
Lúcia - 200 euros
Nesta sociedade, uma pessoa (ou 33%) será "pobre", já que o rendimento mediano é de 500 euros e a Lúcia só ganha 200 (40% do rendimento mediano - menos que os 60%).
Agora, imaginemos que, por qualquer razão, a distribuição do rendimento passava a ser assim:
Carolina - 850 euros
Pedro - 500 euros
Lúcia - 350 euros
Pronto, a Lúcia saiu da pobreza, já que agora ganha 70% do rendimento mediano.
Mas imaginemos que a alteração na distribuição do rendimento tinha sido neste sentido:
Carolina - 1200 euros
Pedro - 300 euros
Lúcia - 200 euros
E, aqui, também acabou a "pobreza" - o rendimento mediano é agora de 300 euros, e com os seus 200 euros a Lúcia está agora a ganhar 66% da mediana.
Ou seja, duas alterações de sinal essencialmente contrário na distribuição dos rendimentos (uma no sentido de menos desigualdade, outra no sentido de mais desigualdade) levaram ambas ao "fim" da pobreza relativa.
[A esse respeito, ver estes dois posts de Chris Dillow: Inequality vs relative poverty e Relative poverty vs inequality]
Assim, podemos concluir que a "pobreza relativa" definida a partir da mediana, nem é útil para aferir realmente qual nível de vida dos mais desfavorecidos, nem para ter uma ideia da distribuição do rendimento entre os vários sectores da sociedade (já que, como vimos, padrões bastante distintos de distribuição do rendimento podem estar associadas à mesma taxa de "pobreza relativa"); mas então é útil para o quê?
Mas agora vamos a outro ponto onde queria chegar - não a definição de "pobreza" mas a de "classe média"; também muita gente (quanto tenta medir rigorosamente a "classe média" em vez de recorrer a definições impressionistas, estilo "tem mulher-a-dias") define "classe média" em função do rendimento mediano numa sociedade, mas não faria mais sentido definir a "classe média" em função do rendimento médio? Até porque não falamos em "classe mediana".
Antes de explicar o meu raciocinio, recomendo uma olhada pelos comentários a este post do Worthwhile Canadian Initiative, onde muitos leitores levantam o mesmo ponto que eu.
E qual é o meu ponto? É que na linguagem corrente a expressão "classe média" é frequentemente usada em contextos como "no país A não há classe média, só muito ricos e muito pobres" ou "a classe média está a desaparecer" (indicando uma distribuição do rendimento menos igualitária). Mas tal só faz sentido se definirmos "classe média" como "pessoas com rendimentos próximos da média" - se definirmos "classe média" como "pessoas com redimentos próximos da mediana", num país em que haja uma meia dúzia de ricos e uma multidão de pobres, os pobres serão a mediana e serão "reclassificados" como "classe média" (que assim será a maioria esmagadora da população). Da mesma forma, uma alteração dos padrões de rendimento no sentido de uma transferência de rendimentos do "meio" para os mais ricos (aquilo a que toda a gente chama "a classe média está a desaparecer") leva a uma descida do rendimento mediano e até poderia levar a um "aumento" da "classe média", já que agora algumas pessoas que antes eram consideradas "pobres" agora já estão suficientemente próximas do rendimento mediano para serem consideradas "classe média" (é o que acontece com a Lúcia no meu exemplo acima).
Outra forma de ver a coisa - compara-se uma sociedade estilo "pirâmide", com muitos em baixo, alguns no meio e poucos em cima (o padrão dominante entre pelo menos o estabelecimento dos primeiros Estados e talvez o século XIX ou mesmo o XX) com uma sociedade estilo "pêra", com alguns em baixo, muitos no meio e poucos e cima (o que talvez seja mais ou menos a sociedade dominante no dito "mundo ocidental"). Quando se fala em "sociedade de classes médias", o que toda a gente quer dizer é o segundo caso; mas, se definirmos "classe média" em função do rendimento mediano, até é bastante possível que as sociedades "em pirâmide" tenham mais "classe média" (já que a base da pirâmide é suficientemente ampla para englobar a maioria da população, logo a linha do rendimento mediano passa por aí e tornam-se todos "classe média").
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Miguel Madeira
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Tuesday, February 11, 2014
Empresas geridas pelos trabalhadores e macroeconomia
Um passagem do artigo citado (páginas 84-85) neste post:
We close this section by sketching a hypothesis developed by David I. Levine and a number of co-authors (Levine and Tyson, 1990; Levine, 1993; Levine and Parkin, 1994; Levine, 1995). This is the hypothesis that participatory firms (by extension, LMFs) are disadvantaged for macroeconomic reasons in an economy consisting largely of KMFs. In brief, the argument runs as follows (an elaboration appears in Levine, 1993).
Suppose LMFs do not lay off workers when demand falls, because the workermembers prefer to absorb demand fluctuations through earnings rather than layoffs. The practice of avoiding layoffs will be quite costly to the firm if recessions are long and deep, and may even threaten the survival of the enterprise. On the other hand, suppose KMFs use a more conventional compensation scheme where nominal wages remain fixed over the business cycle, and reductions in demand are absorbed through layoffs. If KMFs are the dominant organizational form, their employment practices will aggravate the business cycle for familiar macroeconomic reasons, leading to longer and deeper recessions than in a world where LMFs are the dominant mode of organization. We thus have the possibililty of multiple equilibria: if KMFs are already dominant, an LMF may not be viable, but if LMFs were already widespread the resulting dampening of the business cycle could enable individual LMFs to thrive (and might even undercut the viability of KMFs).
Porque fui buscar isso - porque faz lembrar a minha teoria de que as empresas em autogestão, durante uma crise, terão menos problemas de rigidez nominal de salários, embora os autores, pelos vistos, consideram isso uma desvantagem a nível microeconómico.
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Monday, February 10, 2014
Friday, February 07, 2014
Está explicado porque às vezes eu tenho ideias estranhas
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Capitalistas a contratar trabalho vs. trabalhadores a contratar capital
Why Capital (Usually) Hires Labour, an Assesment of Proposed Explanations [pdf], por Greg Dow e Louis Putterman.
Um estudo sobre os motivos porque é mais frequente termos empresas geridas por capitalistas a contratar trabalhadores, do que empresas geridas por trabalhadores a contratar capital (p.ex., alugando máquinas, ou financiado-se via empréstimos).
Diga-se que, com "empresas geridas por capitalistas" (capital-managed firms - KMF) e "empresas geridas por trabalhadores" (labor-managed firms - LMF) os autores referem-se a um conceito mais lato do que empresas geridas por todos os capitalistas ou por todos os trabalhadores: uma empresa que parte do capital esteja sob a forma de ações sem direito a voto ou de obrigações, mas em que os sócios com direito a voto (p.ex., os detentores de ações com direito a voto) o sejam na sua qualidade de investidores, é uma KMF; da mesma forma, uma sociedade profissional (p.ex., de advogados) em que alguns trabalhadores ainda não tenham direito a voto (p.ex., advogados sem estatuto de sócios) e outros nunca vão ter (como as secretárias ou o pessoal da limpeza), mas em que os sócios com direito a voto (mantendo o exemplo, os advogados com estatuto de sócios) o sejam na sua qualidade de trabalhadores da empresa, é uma LMF.
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Etiquetas: estudos sobre cooperativas e afins
Thursday, February 06, 2014
Um inimigo da cultura
Este - fartou-se de vender obras de arte (Mirós, ainda por cima) durante a sua vida.
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Economistas e conservadorismo
O blogger Chris House escreve que os economistas tendem a ser mais conservadores que os académicos de outras áreas (via Noah Smith e Antonio Fatas):
It is not obvious why American college faculty members have such strong liberal political views. Many conservatives argue that it is due to discrimination in hiring and that the students receive a sharply biased education as a consequence. I don’t think that the intellectual capacities of conservatives are below that of liberals but I suppose it could be a possible explanation. My own guess is that it is due to selection on attitudes towards accepting received wisdom as truth. As I mentioned in a previous post, academics are encouraged to break new ground or even to overturn established ideas. Einstein is an excellent example of such a thinker. So are Stephen Hawking, John Maynard Keynes, Alfred Blalock, etc.* Deliberately setting out to tear down established parts of your field requires a certain mindset and this mindset might be more common with people who have liberal political views. (...) The 2005 study presented results on political views by department. As a field, economics ranks as one of the least stereotypically liberal, and most conservative, fields on campus. While I cannot think of a single Republican in my own department (and no, I’m not a Republican), it is quite common to hear faculty members emphasizing the benefits of limited regulation, the gains from trade, and the harm caused by market intrusions like minimum wages, capital taxation and import tariffs. I am quite sure that many of the economists in my department would be viewed as radical right-wing conservatives by members of other departments at Michigan.Suspeito que, sobretudo num contexto norte-americano, comparar a quantidade de "conservadores" num Departamento de Sociologia e num Departamento de Economia é um bocado comparar alhos com bugalhos - um sociólogo conservador (alguém como James Q. Wilson ou Robert Nisbet) normalmente é mesmo um conservador; mas supeito que a maior parte dos economistas classificados (ou mesmo auto-classificados) como "conservadores" não são conservadores coisa nenhuma - são liberais clássicos, que apenas são classificados como "conservadores" devido à bizarra terminologia política norte-americana; isso é relevante porque um economista liberal (mesmo que se chame de "conservador") não precisa de ter nenhuma das crenças e atitudes (prudência, preferência pela experiência sobre a razão, desconfiança pelas ideias abstractas, etc.) que os conservadores a sério são suposto terem (talvez muito pelo contrário: pelo menos a micro-economia neo-clássica e a macroeconomia das expectativas racionais - conotados com o liberalismo clássico, que nos EUA passa por "conservadorismo" - até recorrem muito mais ao racionalismo abstracto do que o keynesianismo), logo os problemas de estilo intelectual que noutras áreas podem afastar os académicos de posições conservadores não ocorrem com a Economia.
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Miguel Madeira
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Tuesday, February 04, 2014
Quem é anarquista?
Suponho que existem muitas perspectivas possíveis para o tema, eu proponho uma formulação:
A crença que é possível a cooperação social voluntária como norma de justiça universal e onde o poder de agir sobre os outros por meios violentos ou não consentidos, unilateralmente e sem legitimidade, está ausente, ou pelo menos, é minimizado e controlado.
Sim, existirão muitas formas de cada um definir "poder de agir sobre os outros por meios violentos ou não consentidos, unilateralmente e sem legitimidade". E isso distinguirá os diferentes anarquismos.
Eu creio que uma forma prática de distinguir diferentes "escolas" ou até perspectivas individuais, aqui, como em todo a filosofia ou ciência social é descrever uma posição sobre a moral e a ética definidas neste sentido:
Ética: aquilo que podemos fazer/não fazer sujeito à sanção violenta de terceiros (individual ou comunitária) e independentemente dos julgamentos morais possíveis (o dever fazer/não fazer).
Moral: aquilo que devemos fazer/não fazer, independentemente de podermos não-fazer/fazer, e onde a sanção ou aceitação passará por meios não violentos como as práticas de exclusão/inclusão social (quem o entender).A importância da Ética revela-se no diferente entendimento sobre o que é o uso da força em legítima defesa (para os anarquistas não-pacifistas). Porque o anarquismo não implica necessariamente pacifismo, embora eu diria, que um pacifista será sempre necessariamente um anarquista, quer o admita ou não. Por outro, existe o tipo de anarquista pacifista armado e que reconhece a arma de defesa como meio legítimo.
Quanto à Moral, o anarquista desejará que cada pessoa e comunidade voluntária possa viver como quer e deseja, e assim haverá em primeira ordem, um dever moral de tolerância.
PS: Mas eu por exemplo, acho que existe pouca tolerância sobre comunidades mais conservadoras e tradicionalistas (como a Igreja) embora estes devam (e eu faço muito por recomendar) concentrar-se nas formas sociais pacíficas de inclusão/exclusão sociais de fazerem valer o seu conservadorismo (coisa que o estado moderno praticamente invalida ao não admitir ou em muito dificultar a discriminação voluntária).
Será inevitável, claro, falar de direito honesto de propriedade individual ou partilhada, e ainda do direito de livre associação e dissociação de uma comunidade.
A democracia tem um problema com o anarquista, o qual eu, repetindo-me, acho, que só pode ser resolvido pela expressa menção em qualquer ordem constitucional formal ou informal, que existe o direito de secessão, o que permite pressupor, que não sendo exercido, existe uma elevada presunção de se constituir uma comunidade voluntária. Nem vejo outra forma prática de legitimar uma qualquer ordem constitucional.
Creio que existem coisas comuns aos vários anarquismos: crítica da banca tal como ela é permitida operar, e que deságua num excesso (artificialmente induzido) de financeirização e concentração de poder, do militarismo, a tolerância por escolhas, a crítica ao corporativismo, a crítica a elites artificiais (cada um julgará a sua como "artificial") e que tomam conta e perpetuam o sistema (e sistema aqui, será a estrutura que mais impede ou dificulta o caminho para a ordem desejada, neste caso, a anárquica).
E deixo aqui uma citação de Tolkien:
2My political opinions lean more and more to Anarchy (philosophically understood, meaning the abolition of control not whiskered men with bombs) — or to ‘unconstitutional’ Monarchy. I would arrest anybody who uses the word State (in any sense other than the inaminate real of England and its inhabitants, a thing that has neither power, rights nor mind); and after a chance of recantation, execute them if they remained obstinate! If we could go back to personal names, it would do a lot of good. Government is an abstract noun meaning the art and process of governing and it should be an offence to write it with a capital G or so to refer to people … The most improper job of any many, even saints (who at any rate were at least unwilling to take it on), is bossing other men. Not one in a million is fit for it, and least of all those who seek the opportunity … There is only one bright spot and that is the growing habit of disgruntled men of dynamating factories and power-stations; I hope that, encouraged now as ‘patriotism’, may remain a habit! But it won’t do any good, if it is not universal.” - J.R.R. Tolkien, letter to his son, 1943 (from The Letters of J.R.R. Tolkien).
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Monday, February 03, 2014
Federalismos
Emenda: ao contrário do que escrevo abaixo, afinal o Bloco não defendeu um "salário mínimo europeu"
Texto original:
Em todas estas polémicas entre supostos defensores e supostos adversários do "federalismo" como solução para a UE, há uma coisa que nunca ficou bem clara: o que é que querem exactamente dizer com "federalismo"?
Em teoria, o que distingue um Estado federal de uma confederação ou de uma simples aliança entre Estado é que os estados federados não podem abandonar unilateralmente a federação; diga-se que nem sempre os nome coincidem com as coisas - a Etiópia é uma confederação (constitucionalmente qualquer estado etíope pode declarar a independência) mas chama-se "República Democrática Federal da Etiópia", enquanto a Suíça é uma federação mas chama-se "Confederação Suíça".
Já agora, a diferença entre um estado federal e um estado unitário é que um estado federal não pode abolir unilateralmente a autonomia dos estados federados, enquanto um estado unitário, por mais autonomia que dê às suas regiões, provincias, etc., pode sempre abolir essa autonomia (na prática, essa diferença consubstancia-se em que, num estado federal, é suposto que os estados federados tenham alguma forma de participação nas revisões constitucionais [pdf], seja através da revisão ser votada não só no parlamento federal mas também nos parlamentos dos estados, seja tendo que ser aprovado nalgum orgão federal mas composto por representantes dos estados federados).
Diga-se que a diferença entre uma confederação, uma federação e um estado unitário não tem necessariamente a ver com a maior ou a menor centralização - podemos ter um estado unitário cujas provincias tenham mais autonomia que os estados de uma federação (há quem argumente que é o caso de Espanha), e também podemos ter uma confederação cujo estados membros tenham menos autonomia que os estados de um federação (talvez fosse o caso da antiga URSS, embora aí não é muito claro se se tratava de um confederação centralizada, ou se era mais uma confederação super-descentralizada governada por um partido único super-centralizado). O que distingue uma confederação, um federação e um estado unitário é sobretudo a questão "quem tem poder para mudar as regras do jogo?".
E agora regressamos à questão do federalismo europeu; a verdade é que, no sentido estrito do termo, não me parece existir praticamente "federalistas" - pode haver uma caso ou outro, mas até agora ainda não vi/li/ouvi ninguém defender que os países membros da UE deveriam deixar de poder abandonar a UE (o que é o sinal distintivo de um estado federal); na verdade, quando se fala em "federalismo" o que toda a gente quer dizer (seja adversários ou defensores) é, simplesmente, reforço das compentências da UE face aos estados nacionais.
E agora vamos ao ponto a que eu quero chegar - a recente descoberta do Bloco de Esquerda de que é contra o federalismo, e que o PS e o PSD (imagino que o LIVRE também esteja incluído) serão a favor. Se definirmos "federalismo" no sentido rigoroso do termo, ninguém é a favor do "federalismo"; se usarmos o termo simplesmente no sentido de "reforço das competências das instituições europeias", parece-me que o Bloco é (ou, pelo menos, era) dos mais "federalistas" dos partidos portugueses - afinal, penso que foi o primeiro partido a defender os eurobonds, a harmonização fiscal e acho que há tempo até defendia um salário mínimo europeu).
[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]
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Miguel Madeira
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Tuesday, January 28, 2014
Igualdade e natureza humana
No Portugal Contemporâneo, Joaquim Couto e Carlos Guimarães Pinto estão entretidos a discutir se as tendências igualitárias são intrinsecas à natureza humana.
Dois posts de Joaquim Couto:
Analisados os argumentos em debate, subsiste uma dúvida que nem Marx, nem Engels, nem o CGP esclareceram: se o Homo Sapiens viveu numa espécie de comunismo primitivo durante a maior parte da sua existência e se os genes dos que contrariavam o igualitarismo não sobreviveram, porque é que o comunismo não se tornou no sistema político e económico predominante e de maior sucesso?e
Tem alguma relevância tentar compreender se o Homo Sapiens é geneticamente igualitário ou se, pelo contrário, convive bem com a desigualdade desde que haja sentido de equidade e de justiça?
Para mim tem imensa relevância porque gosto de pensar que a minha visão libertária do mundo corresponde, o melhor possível, à chamada natureza humana. (...)
Se sonharmos com um futuro contrário à natureza humana (utopia), temos de armar a guilhotina, porque só pela força o vamos conseguir impor. Foi isso que aconteceu aos diversos socialismos que varreram o mundo, deixando dezenas de milhares de mortos pelo caminho.
Se o nosso sonho porém for ao encontro da natureza humana, como eu penso que o libertarianismo (e provavelmente o catolicismo) vai, então podemos remeter a guilhotina para um museu de horrores e contemplar um futuro em que cada um seja livre de buscar a sua própria felicidade (reparem como não há igualdade na felicidade...).
Como libertário, eu penso que estou em sintonia com a natureza humana e com o sucesso do Homo Sapiens na Terra. Caso contrário teria de rever toda a minha filosofia de vida.
Parece-me que o Joaquim Couto não se apercebe da contradição em que está a cair - se o facto de o comunismo não ser o sistema social dominante na história humana demonstra que não a natureza humana não é comunista/igualitária, exactamente o mesmo se aplica ao "libertarianismo" - podemos discutir muito sobre como foi a pré-história humana, mas não há duvida que a história (pós-invenção da escrita) foi feita de escravatura, servidão, camponeses a pagaram tributos (às vezes de 2/3 da produção) a imperadores e senhores feudais, guildas profissionais e limitarem o acesso a profissões, etc., etc. O único período na história a haver algo parecido com o liberalismo (imagino que seja isso que que o Joaquim Couto quer dizer com "libertarianismo") foi na Europa Ocidental e na América do Norte no século XIX - antes disso vigorava a redistribuição forçada de baixo para cima, e a partir do século XX passou a vigorar (nessas regiões - no resto do mundo creio que continuou a ser o modelo tradicional) a redistribuição forçada de cima para baixo (o chamado "Estado Social").
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Miguel Madeira
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Wednesday, January 22, 2014
anarquistas
O Jeffrey Tucker está a pedir contribuição para uma lista de anarquistas (sim, a maior parte, "property rights anarchists" embora com variantes várias) "proeminentes", se alguém se lembrar de alguém adequado de língua portuguesa... A lista está assim: Prominent Anarchists living or dead (please add them alphabetically!) Edward Paul Abbey Mikhail Bakunin Randy Barnett Tom Bell Bruce Benson Nikolai Berdyaev Alexander Berkman Jeff Berwick Amanda Billyrock Étienne de La Boétie Bob Black Peter Boettke Murray Bookchin Gunther Bornkamm Julie Borowski Greg Boyd Walter Block Antonio Buehler Bryan Caplan Art Carden Kevin Carson Doug Casey Gerard Casey Gary Chartier Charlie Chaplin Roy Childs Frank Chodorov Noam Chomsky Jesus Christ Alexandre Christoyannopoulos Voltairine de Cleyre James Corbett Christopher Coyne Scott Crow Leon Frank Czolgosz Daniel D’Amico Dorothy Day Graham Dugas Frank Van Dun Howard Ehrlich Vernard Eller Jacques Ellul Ralph Waldo Emerson Lorenzo Kom'boa Ervin Paul Feyerabend Jim Fleming Doug French David Friedman Patri Friedman David Galland Luigi Galleani Jerry Garcia William Gillis William Godwin Emma Goldman Paul Goodman David Gordon David Graeber Anthony Gregory Walter Grinder John Hagel David Hart Woody Harrelson John Hasnas Martin Hengel Jeff Herbener Auberon Herbert Karl Hess Ezra Heywood Robert Higgs Thomas Hodgskin Hans-Hermann Hoppe Scott Horton Steven Horwitz Jacob Huebert Michael Huemer Jörg Guido Hülsmann Anne Hutchinson Anthony de Jasay Charles Johnson Peter Joseph Angela Keaton Soren Kierkegaard Daniel Klein Bruce Koerber Adam Kokesh Samuel Edward Konkin III Peter Kropotkin Gustav Landauer Wolfi Landstreicher Donald Lavoie Peter Leeson Robert LeFevre Leonard Liggio Roderick Long John Joseph Lydon John Henry Mackay James J. Martin Emmanuel Charles McCarthy Wendy McElroy Anna Martin Peter Maurin Gustave de Molinari Stefan Molyneux Alan Moore Johann Most Erich Mühsam Robert Murphy Satoshi Nakamoto Jan Narveson Andrew Napolitano Saul Newman Albert Jay Nock Michael Ohanian Franz Oppenheimer David Osterfeld Lucy Parsons Pelagius Ernestine Perkins Fredy Perlman Richard Perkins Catherine Pickstock Pierre-Joseph Proudhon David Prychitko John Pugsley Paul Émile de Puydt Ralph Raico Justin Raimondo Kenneth Rexroth Sheldon Richman Rudolf Rocker Lew Rockwell Larken Rose Murray Rothbard Mary J. Ruwart, PhD Nicola Sacco J Neil Schulman George Selgin Butler Shaffer George H. Smith L Neil Smith Vernon Smith Joseph Sobran Rebecca Solnit Jesus Huerto de Soto Herbert Spencer Lysander Spooner Porter Stansberry Ben Stone Max Stirner Edward Stringham William Graham Sumner Morris and Linda Tannehill Peter Andreas Thiel Mark Thornton Henry David Thoreau J.R.R. Tolkien Leo Tolstoy Jerome Tuccille Benjamin Tucker Jeffrey Tucker Kevin Tucker Ross Ulbricht Laurence Vance Bartolomeo Vanzetti Brett Veinotte James L. Walker Colin Ward Josiah Warren Carl Watner Cody Wilson Robert Anton Wilson Claire Wolfe Jarret B. Wollstein Thomas E. Woods Jr. Robert Paul Wolff John Zerzan Zhuangzi Neil Roberts
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Monday, January 20, 2014
Acerca d'«Os Filhos do Rock»
Um dos personagens é um caso claro de Not Even Bothering with the Accent
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O Blasfémias e a co-adopção
é curioso como o Blasfémias está cheio de posts sobre a discussão sobre a co-adopção, mas sem, aparentemente, os seus bloggers tomarem partido sobre a co-adopção propriemente dita (no caso específico da Helena Matos, parece-me comprovar a minha tese de que ela parece mais empenhada em criticar as posições da esquerda do que em apresentar as posições dela).
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Miguel Madeira
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Friday, January 17, 2014
As classes sociais nos EUA face à guerra do Vietname
Hardhats for Peace, College Kids for War, por Jesse Walker (Reason):
The incident itself, in which rampaging New York construction workers beat up hippies and demanded that City Hall raise the American flag, is a piece of historical trivia; most Americans born after it have little inkling that it occurred, and even the people who were around at the time are likely to be hazy on the details. But the image of a pro-war worker in a hardhat punching a privileged protester is enshrined in our cultural memory. It's what the late '60s and early '70s were supposed to look like: college kids who hated the Vietnam War and blue-collar patriots who loved the flag. (...)
In Hardhats, Hippies, and Hawks, her new study of social class and public opinion during the war, the CUNY sociologist Penny Lewis doesn't destroy that image so much as she adds all the missing images that complicate it. (...)
For one thing, the picture changes radically if you stop focusing on public movements and instead look at public sentiments. Throughout the Vietnam era, Lewis demonstrates, studies of public opinion showed that "working-class people were never more likely than their middle-class counterparts to support the war, and in many instances, they were more likely to oppose it." Americans with just a grade school education were more likely to favor withdrawal than Americans who had gone to college; only at the very high end of the education ladder, among people with advanced degrees, did dovishness begin to creep up in popularity again.
The movement also changed over time. Antiwar activists broadened their base. The "prairie power" wing of the New Left brought more working- and lower-middle-class students to the marches and teach-ins. Black and Mexican protest groups, which tended not to be as middle-class as their white counterparts, called for withdrawal. Some unions turned against the war, though the majority stood by the Pentagon. Antiwar action even took hold in parts of the military itself, sometimes in the form of traditional activism and sometimes just in the form of skin-saving disobedience. (That last item may seem unimportant, but it arguably did much more to influence the actual conduct of the war than any marches on the homefront.)
(...)
The very figure of the hardhat is itself a stereotype. Lewis doesn't mention it, but by the 1970s several hardhats were hippies—not in the sense of living in country communes or trying to drop out of mainstream society, but in the sense of growing their hair longer, listening to rock music, maybe smoking a little pot, and otherwise behaving in ways that might have gotten them beaten up at the Hard Hat Riot. While Lewis neglects that cultural convergence, she does delve into the complicated, contradictory strands of working-class politics in this period, crediting the historian Jefferson Cowie with the observation that white workers in the '70s were "vigorously left, right, and center." (She misattributes the line—Cowie was quoting Michael Harrington.) This is a favorite topic for scholars of recent American history, who are frequently fascinated by the fact that rank-and-file labor militance was on the rise at the same time that figures like George Wallace were able to find a blue-collar audience.
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"Bullying" vs "porrada na escola"
No Estado Sentido, Fernando Melro Santos escreve que "bullying [é] aquela prática de andar à porrada na escola, agora tão obsoleta".
Acho que o FMS está a confundir conceitos - "bullying" não é a velha "prática de andar à porrada na escola"; "bullying" é a (também velha) prática de haver um aluno que é regularmente vitima de gozos e de "partidas" de mau gosto por parte dos outros (seria interessante comparar a incidência relativa do "bullying" e da "porrada" por vários meios sociais e geográficos; quase que apostaria que o "bullying" cresce e a "porrada" decresce com a urbanização); o "bullying" pode degenerar em "andar à porrada", mas normalmente só quando a vítima reage (os casos de "bullying" que passam a "andar a porrada" não devem ser muitos, já que suspeito que uns dos critérios para a "escolha" da vítima de "bullying" é exactamente a aparente baixa probabilidade de esta reagir de uma maneira que faça o "bullying" passar a "porrada").
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Escolaridade obrigatória e liberdade
Na Quadratura do Circulo de ontem à noite, toda a gente bateu na proposta da JP de reduzir a escolaridade obrigatória para o 9º ano por esta defender isso com o argumento da "liberdade"; segundo os comentadores, esse argumento serviria para acabar com a escolaridade obrigatória, não para a reduzir.
Se estivermos a falar de "liberdade das famílias", se calhar têm razão; mas se estivermos a falar de "liberdade individual", é perfeitamente possivel, em seu nome, defender a redução da escolaridade obrigatória para o 9º ano sem defender a sua abolição - é só assumir que alguém que já tem o 9º ano tem mais capacidade (seja pela idade, seja por ter mais conhecimentos) para tomar decisões por si do que alguém que ainda nunca foi à escola, e portanto é o primeiro já deve ter acesso a certas liberdades que ainda estejam vedadas ao segundo.
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Thursday, January 16, 2014
O paradoxo das eleições europeias
As grandes questões da politica a seguir pela União Europeia são decididas nas eleições nacionais. As eleições para o Parlamento Europeu acabam por ter relevância sobretudo para a politica interna de cada estado-membro.
The real effects of the European elections may be felt in London and Edinburgh rather than in Brussels (The Monkey Cage):
While the role of the European Parliament (EP) has grown significantly in the past decades, and particularly with the 2009 Lisbon Treaty, the European Parliament remains the weakest link in the E.U. power triangle. Although it has now become a co-lawmaker, the political agenda is still mainly set by the European Commission and approved by the European Council. Consequently, as the late Peter Mair already noted in a seminal article (pay wall) in 2000, the paradox of E.U. politics is that if you want to influence the European level, you have to vote in national elections. After all, it is at the national level that the members of the European Council and the European Commission are decided. In that sense, the 2013 German parliamentary elections were probably more important for E.U. politics than the 2014 European elections will be.
In a similar paradox, the importance of the European elections will not so much be at the European level, but at the national level of some E.U. member states. Journalists and politicians use the European elections often as a barometer of public opinion.
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Tuesday, January 14, 2014
A propósito da escolaridade
Conversa da minha mãe com o meu melhor amigo da altura, quando tinhamos ambos 11 anos (ele era dos melhores alunos da turma na 4ª classe, mas tornou-se um péssimo aluno - tanto em notas como em comportamento - no 1º ano do ciclo):
Meu amigo - Eu quero ser electricista
Minha mãe - Mas não queres estudar mais?
Meu amigo - Quero, mas quero estudar aquilo que quero
Nesse tempo o ensino obrigatório era até ao 6º ano, mas ele ainda ficou mais uns anos na escola, no ensino noturno; nessa altura, outro dos meus amigos, que também chumbou no 1º ano do ciclo, deixou de estudar e foi procurar emprego na construção civil (acabou por fazer vida como talhante), mas esse já devia ter uns 15 ou 16 anos na altura.
Atenção que eu não estou a defender que crianças de 11 anos possam deixar a escola e/ou escolher o que querem aprender, mas por outro que direito temos nós de forçar jovens como esses meus amigos de infância a estudarem coisas que eles não querem estudar (ainda mais que, nessa altura, as coisas que eu preferia estudar também não eram as que eram dadas na escola)?
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Sunday, January 12, 2014
A proposta da JP de redução da escolaridade obrigatória
Pelos blogs que tenho lido, parece haver uma indignação generalizada contra a proposta da "Juventude Popular" de voltar a colocar a escolaridade obrigatória no 9º ano.
É curioso como as coisas mudam - uma ideia (escolaridade obrigatória até ao 9º ano) que até há pouco tempo era a lei vigente, passou em para aí dois anos a ser vista como algo de "monstruoso".
Já agora, relembro alguns posts que escrevi sobre o assunto:
Sobre a escolaridade obrigatória (Agosto de 2006)
Os alunos que não querem tirar o 12º ano (Abril de 2009)
Ainda a escolaridade obrigatória e Continuando com a escolaridade obrigatória (Abril / Maio de 2009)
Há prejuízos sociais na educação? - II (Setembro de 2010)
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Saturday, January 11, 2014
Os quadros de Miró e Crivelli
Qualquer quadro, pintando em qualquer lugar por qualquer pintor de qualquer nacionalidade, deve ficar para todo o sempre em Portugal caso, por qualquer motivo, entre em território nacional - findo o Império, é a hora de Portugal abraçar a sua vocação imanente: tornar-se a galeria de arte do mundo inteiro.
Talvez nem fosse má ideia que nos aeroportos houvesse funcionários a revistar as bagagens dos turistas e imigrantes, a fim de descobrir se, quando entram no país, trazem algum quadro com eles (nessas situações, impõe-se que, com a máxima urgência, o quadro em questão seja declarado património de interesse nacional, antes que os visitantes decidam sair de Portugal levando quadro de volta).
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Wednesday, January 08, 2014
"Homem caucasiano"
Ontem, no "CSI", um personagem falava (a respeito de um assassinado) em "white male", que nas legendas se transformou em "homem caucasiano".
Pelo que sei, o uso da expressão "caucasiano" ("caucasian") para designar aquilo que vulgarmente se chama "branco" (ambas as expressões não têm grande base científica - nem a população em questão é de cor branca, nem tem especialmente nada a ver com o Cáucaso) era um hábito tipicamente norte-americano (a palavra "caucasóide" foi inventada na Europa mas caiu em desuso, vindo a ressuscitar nos EUA como "caucasiano"). Mas pelos visto a palavra "deu a volta", e agora é em Portugal que "white" é traduzido para "caucasiano"...
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Tuesday, December 31, 2013
Testes psicotécnicos
3 Dangers Of Using Personality Tests To Screen Workers, na Business Insider:
In a report published in the University of Pennsylvania’s Journal of Labor and Employment Law, Susan J. Stabilet, a professor of law at St. John’s University, outlined a variety of issues—from flawed test results to possible discrimination—surrounding personality tests in the workplace.The Use of Personality Tests as a hiring Tool: is the Benefit Worth the Cost?[PDF), por Susan J. Stabilet:
Here are the three most relevant reasons you might want to steer clear of this hiring trend:
1. It can screen out great candidates. The idea is to figure out if someone’s personality “fits” a specific job position or not, but Stabilet says that although this may work for some professions, it won’t work for most of them. For example, if someone is applying for a firefighter position, the employer wants to know if that person has the potential of breaking down during an emergency. In other professions, however, it can be more difficult to determine the most efficient personality for the specific job. For example, what personality makes someone a good computer programmer? This is difficult to answer.
Additionally, the tests will likely give those with “mainstream” personality types a more positive reading, while creative, think-outside-the-box candidates “who may potentially become leaders and do extraordinary things for an employer may be weeded out,” Stabilet says.
2. Results may be flawed. In these types of tests, there’s always a chance that potential employees may simply respond how they think the employer wants. Therefore, the test results won’t be a true representation of their personalities.
In addition, “what is true of personality traits is also true of emotional states that may be revealed by test questions,” Stabilet explains. “It may be assumed that an unhappy home life will interfere with effectiveness at work, but this has not been generally demonstrated; indeed, some men may throw themselves into their work as a compensation for their frustration at home. Therefore, making assumptions about what emotional states should be sought is dangerous.”
Many of the most popular personality tests weren’t created to be used in the hiring process. For example, the Myers-Briggs test was developed for training and development, not hiring; therefore, its usage to screen candidates is questionable. The Myers-Briggs Type Indicator (MBTI) is a personality inventory commonly used in organizational settings in private industry, the federal government and the U.S. military.
3. There are privacy risks and the potential for discrimination. Since these questions are usually asked in a way where the significance of the answers are unclear, candidates may reveal ”private thoughts, beliefs and emotions, through his or her responses to questions,” Stabilet says. Companies that decide to administer these tests should keep in mind that employees should be given the choice to opt out.
Experts also fear that these tests may discriminate against certain groups, because candidates will answer questions depending on how comfortable they feel in the situation.
Although the law does not make it illegal for employers to administer personality tests during the hiring process, companies should seriously consider the number of issues, from validity and reliability of these tests to concerns about invasion of privacy and possible discrimination against minorities.
The costs of making bad hiring decisions and the difficulties of getting meaningful information from reference checks of prospective employees have led many employers to use personality tests1 as part of their hiring process. Employers choose from a wide variety of tests in an effort to both weed out job candidates with undesirable traits, such as dishonesty, or tendencies toward violence or tardiness, and to judge the "fit" between the prospective employee and the job by seeking to identify prospective employees possessing personality traits likely to predict success in the job in question. Since the development of the first modem personality tests in the early part of this century, personality assessment has grown to a $400 million-a-year industry. While some employers are convinced that personality tests are akin to astrology and tell no more than an interviewer could learn during a standard interview, other employers swear by them and are convinced that they are hiring better workers as a result of their use.Eu pessoalmente costumava chumbar tanto nos psicotécnicos (nomeadamente nos "psico-") como na entrevistas, logo imagino que qualquer possivel método de recrutamento de pessoal "discrimine" contra mim...
The widespread use of personality tests as a means of determining which employees to hire raises a number of issues, ranging from the validity and reliability of the tests to concerns about invasion of privacy and discrimination against minorities. These issues raise the question whether the benefits of personality tests outweigh the costs of employing them. This article explores that question, considering whether personality tests are effective hiring tools, as well as the privacy and discrimination concerns implicated by their use. Neither of these concerns has been adequately addressed by the law, which does very little to regulate the use of personality tests.
Uma ideia que me ocorre acerca do suposto "perigo" dos testes psicológicos serem enviesados a favor das pessoas mais "normais" - isso provavelmente é mais uma "feature" do que um "bug": vamos imaginar que as pessoas "normais" tendem a ter um desempenho profissional "normal" (salve a redundância), e que as pessoas "estranhas" são mais dadas a ter um desempenho profissional "estranho" (seja para cima ou para baixo, ou talvez eventualmente a mesma pessoa "estranha" tenha um desempenho excepcionalmente bom numas tarefas e excepcionalmente mau em outras); vamos também imaginar que o desempenho de uma equipa de trabalho tende a ser determinado pelo desempenho do trabalhador menos produtivo (o caso mais extremo será um trabalho "linha de montagem" em que cada trabalhador faz uma tarefa e depois passa ao seguinte que faz outra tarefa e assim por diante - nesse caso não haverá dúvida que a velocidade do processo total de trabalho é determinada pela velocidade do trabalhador mais lento; mas penso que, em maior ou menor grau, este principio aplica-se a qualquer grupo de trabalho em que os membros tenham funções diferenciadas e em que seja necessário todas as tarefas serem executadas para o trabalho estar concluído) - nesse cenário faz todo o sentido que as organizações perfiram pessoas "normais": os trabalhadores excepcionalmente maus prejudicam o trabalho e os supostamente excepcionalmente bons pouco ou nenhum benificio adicional trazem.
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Monday, December 30, 2013
Re: As consequências sociais da austeridade
Pedro Magalhães descobriu algo surpreendente acerca dos efeitos sociais da austeridade em Portugal - pelos vistos foram muito menos graves do que noutros países (Grécia, Irlanda, Itália, Chipre e Espanha).
Ele (e eu) tem alguma dificuldade em perceber o porquê. No entanto, ocorrem-me algumas hipoteses:
Talvez o ajustamento português (em parte por culpa da Constituição) tenha sido mais à base do aumento da receita e menos à base da redução da despesa que nos outros paises, e isso tenha levada a menores custos sociais (os aumentos de impostos tendem a abrangir toda a gente, enquanto cortes na despesa tendem a concentrar-se um grupos especificios, o que pode causar mais trantorno social)?
Talvez, na medida em que houve cortes na despesa, esses tenha sido essencialmente os tão criticados "cortes cegos" (a redução remuneratória, os cortes no subsidios de férios e natal) em vez da tão desejada "reforma do Estado" (com extinções de serviços, despedimentos, etc.), o que de novo é menos traumático em termos sociais (cortar 5% do vencimento a toda a gente é menos dado a fazer pessoas cairem na pobreza do que despedir 5% do pessoal)?
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O que me ocorreu a propósito dos atentados em Volgogrado
Confesso - para quem cresceu vendo documentários e filmes sobre a II Guerra Mundial (quando era novo, era rara a altura em que não houvesse uma série - documental ou de ficção - sobre essa guerra em exibição na RTP), "Volgogrado" soa um bocado estranho.
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Tuesday, December 24, 2013
Jesus Is an Anarchist, by James Redford
dos arquivos fundos do anti-state.com
Jesus Is an Anarchist, by James Redford
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Competição e autonomia
Na discussão entre o Hugo Mendes e o Alexandre Homem Cristo sobre a queda dos resultados educativos na Suécia, o segundo aventa a hipótese de que a causa mais provável esteja na autonomia ("não enquadrada") das escolas, e não tanto na competição.
Mas o ponto da competição entre escolas não é exactamente competição entre modelos educativos diferentes? Logo não me parece que faça grande sentido separar a "competição" da "autonomia"; ou melhor, não é muito difícil ter "autonomia" sem "competição" - a escola em que eu cresci (1979-1991) era mais ou menos isso - um sistema de ensino público, em que os alunos iam para a escola da sua área de residência ou do emprego dos pais (a partir do 10º ano, para a escola em que houvesse a área que queriam), e em que as escolas eram largamente auto-geridas (e em que, na sala de aula, cada professor ensinava à sua maneira e muitas vezes escolhia - face à extensão dos programas - qual a matéria a dar).
Mas o oposto, "competição" sem "autonomia" é dificil de perceber o que seria (bem, podemos imaginar um sistema em que uma autoridade central decidisse programas e métodos diferentes para escolas diferentes, e depois essas diferentes escolas fossem competir umas com as outras com base nessas diferenças centralmente determinadas; podemos realmente imaginar isso, mas parece-me um sistema absurdo).
É verdade que AHC não fala em acabar com a autonomia, mas em "enquadrá-la" (ou seja, limitá-la); mas defender a limitação da "autonomia" implica, na prática, defender a limitação da "competição" (mas é interessante como, pelos vistos, na moderna mentalidade liberal, "competição" parece ter uma maior carga positiva que "autonomia", para acharem que o maior problema no "cheque-educação" sueco estar na "autonomia" e não na "competição").
Mas isto chama uma questão mais profundo - é que os chamados defensores da "liberdade na educação" não são realmente nada entusiastas da "autonomia" (e daqui para a frente, neste post, jã não estou a falar especificamente do AHC, nem conheço o seu pensamento acerca de muitos assuntos que vou referir); pelo menos no que se refere à escola pública, muitas vezes essa área politica parece ser a maior defensora da centralização, via mega-agrupamentos, directores nomeados, fim da gestão democrática, guiões hiper-detalhados determinando metas de aprendizagem, (por vezes até vêm com conversas de "livro único"), etc., etc. Na verdade, por vezes até parece que o tal "centralismo burocrático estalinista do Ministério da Educação" tem como problemas fundamentais os concursos nacionais de professores e as regras determinando em que escolas os alunos se podem matricular, e em tudo o resto o centralismo já não faz mal.
O que me leva a pensar que o ponto fundamental de muitos dos defensores da "liberdade da educação" não é tanto que que numa esquina uma escola tipo Summerhill e noutra uma para "Tiger Moms", mas sobretudo que as escolas possam facilmente expulsar (ou negar a matricula a) alunos e despedir professores.
[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]
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Friday, December 20, 2013
Omissões
O Rodrigo Moita de Deus e o Afonso Azevedo Neves deixaram de lado vários pontos importantes (ou mesmo vitais) para a compreensão da matéria em apreço:
- o Comité de Apoio à Reconstrução do Partido Marxista-Leninista (CARP-ML) resulta de cisão do Comité Marxista-Leninista de Portugal (CML de P), que é, por sua vez, uma dissidência do CM-LP
- após a fundação da UDP, aderiram a esta (ou ao Partido Comunista Português (Reconstruído) - PCP(R) - que era a mesma coisa) o Partido de Unidade Popular (PUP) e a maior parte da Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa (OCMLP); o Partido de Unidade Popular (PUP) é o resultado de uma cisão no Partido Comunista de Portugal (Marxista-Leninista) (PCP-ML), que foi o novo nome que o CM-LP adoptou para aí a partir de 1970; a Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa (OCMLP) é o resultado da fusão entre os colectivos organizados em torno dos jornais clandestinos "O Grito do Povo" e "O Comunista"; "O Comunista" surgiu também de uma cisão do CM-LP
[fundamentalmente, as várias cisões e dissidências que o CM-LP e depois o PCP-ML foram tendo entre 1964 e 1974 acabaram por se juntar na UDP]
- A Frente de Esquerda Revolucionária (FER) surgiu da fusão entre a Liga Socialista dos Trabalhadores (LST), a Esquerda Revolucionária (ER) e a Organização Comunista Politica Operária (OCPO), embora esta ultima tenha abandonado a FER cerca de duas semanas após a sua criação; a Liga Socialista dos Trabalhadores (LST) surgiu de uma cisão do PSR (fundamentalmente a partir dos antigos militantes do ex-PRT); embora não pertença à árvore genealógica do BE (porque saiu da FER muito antes desta integrar o BE, ou mesmo de existir BE*), convém notar que a Organização Comunista Politica Operária (OCPO) resulta de uma cisão do Partido Comunista (Reconstruído) - PC(R), que era a mesma coisa que a UDP.
[o fundador e principal ideólogo da Organização Comunista Politica Operária (OCPO), Francisco Martins Rodrigues, foi também o fundador e/ou um dos principais ideólogos do CM-LP, do Comité de Apoio à Reconstrução do Partido Marxista-Leninista (CARP-ML) e da UDP]
*eu ia escrever "antes de alguém sonhar com o BE", mas seria incorrecto, já que a própria criação da FER foi o resultado de alguém ter tentado criar um "BE" 10 anos mais cedo (penso que o PSR também tinha sido convidado para a fusão, mas não se mostrou interessado).
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Thursday, December 19, 2013
Portugal com a maior quebra da produtividade da OCDE?
Segundo o Público, "a produtividade do trabalho (medida como o produto por pessoa empregada) também caiu em Portugal de forma muito forte no terceiro trimestre do ano. De acordo com a OCDE, a descida deste indicador foi de 1%. Apenas mais três países registaram quebras: a Suécia, com 0,2%, e a Áustria e a França, com 0,1%."
Confesso que, quando comecei a ler a notícia ("Portugal foi o país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que registou durante o terceiro trimestre deste ano uma descida mais acentuada das remunerações por unidade produzida e da produtividade do trabalho."), pensei que houvesse algum engano; porquê? Porque as "remunerações por unidade produzida" são equivalentes a [total das remunerações]/[total de unidades produzidas]; e a "produtividade" (no contexto deste estudo) é equivalente a [total de unidades produzidas]/[total de trabalhadores].
Isso quer dizer que:
[remuneração por unidade produzida]=[total das remunerações]/[total de unidades produzidas] ↔
↔ [remuneração por unidade produzida]={[total das remunerações]/[total de trabalhadores]}*{(total de trabalhadores]/[total de unidades produzidas]} ↔
↔ [remuneração por unidade produzida]=[remuneração média]/[produtividade]
Ou seja, é muito dificil a "remuneração por unidade produzida" e a "produtividade" descerem ao mesmo tempo (e sobretudo terem ambos uma grande quebra)- tal implica que, não só que a produtividade desça, mas que as remunerações desçam ainda mais (se as remunerações por unidade desceram 1,4% e a produtividade desceu 1%, então os salários terão que ter descido 2,4%); por isso quando li o título até pensei que fosse alguma confusão do jornalista (que o que tivesse descido não tivesse sido "os salários e a produtividade", mas sim os "salários face à produtividade" ou coisa parecida), mas lendo a noticia toda, parece que foi mesmo isso: tanto os custos unitários do trabalho como a produtividade desceram (ver adenda).
Os salários descerem não tem nenhum mistério - é o que e suposto ocorrer durante uma recessão e sob uma politica de austeridade; já a quebra da produtividade é mais misteriosa (talvez a queda dos salários tenha tornado viáveis actividades económicas pouco produtivas - que antes nem se chegavam a realizar - fazendo assim baixar a produtividade média?)
Já agora, seria útil saber se essa queda é comparada com o segundo trimestre deste ano, ou se é com o terceiro trimestre do ano anterior.
Adenda - achei a informação no site da OCDE; aqui temos um PDF com os dados por país.
Pelo que vejo na página 4 do PDF, os custos unitários do trabalho desceram 0,4%, a produtividade desceu 1%, e os salários por unidade de trabalho desceram 1,4% (o que faz sentido: 1% + 0,4% = 1,4%). Eu dá-me a ideia que a noticia do público confude os "custos por unidade produzida" (que desceram 0,4%, quando a noticia refere 1,4%) com os "custos por unidade de trabalho" (que, esses sim, desceram 1,4%).
E trata-se de uma comparação trimestre a trimestre, pelo que percebo.
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Monday, December 16, 2013
A crise irlandesa foi culpa das agências de rating?
Segundo três economistas suiços, sim [pdf].
[Como já escrevi várias vezes, eu linkar um artigo não implica necessariamente concordância]
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Saturday, December 14, 2013
As classes sociais de acordo com a BBC
A BBC tem uma espécie de "modelo" das "classes sociais" no Reino Unido, com um "calculador" para se determinar a que "classe" cada um pertence (via The Heresiarch):
Agora vou fazer um exercicio que não faz sentido - responder às questões do tal "calculador" (não faz sentido porque tem lá questões sobre ordenados, e os ordenados britânicos são maiores que os portugueses); pelos vistos eu seria "traditional working class" (multiplicando por 3 as respostas nas questões que têm a ver com dinheiro, seria "technical middle class", o que é capaz de ser mais correcto).Elite: This is the most privileged class in Great Britain who have high levels of all three capitals. Their high amount of economic capital sets them apart from everyone else.
Established Middle Class: Members of this class have high levels of all three capitals although not as high as the Elite. They are a gregarious and culturally engaged class.
Technical Middle Class: This is a new, small class with high economic capital but seem less culturally engaged. They have relatively few social contacts and so are less socially engaged.
New Affluent Workers: This class has medium levels of economic capital and higher levels of cultural and social capital. They are a young and active group.
Emergent Service Workers: This new class has low economic capital but has high levels of 'emerging' cultural capital and high social capital. This group are young and often found in urban areas.
Traditional Working Class: This class scores low on all forms of the three capitals although they are not the poorest group. The average age of this class is older than the others.
Precariat: This is the most deprived class of all with low levels of economic, cultural and social capital. The everyday lives of members of this class are precarious.
Suspeito também que muitos dos autodesignados "precários" correspondem mais aos "emergente service workers" do que ao "precariat".
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Friday, December 13, 2013
Macro e micro
Tem havido, na internet anglófona, uma discussão sobre se, nos cursos de Economia, se se deve começar primeiro pela micro ou se se deveria começar pela macro.
Provavelmente isto tem a ver com alguma grande diferença entre o sistema univesitário português e norte-americano, mas eu creio que comecei primeiro pela macroeconomia (no ano lectivo de 1991/92, no ISEG, o primeiro semestre da cadeira de Análise Económica I era macroeconomia e o segundo era microeconomia).
Mas o ponto que quero levantar até é outro - porque não ensinar microeconomia e macroeconomia na mesma altura, em vez de uma ter que ser depois da outra (aliás, olhando para o atual plano de estudos do ISEG - pdf - vejo que, do 2º ano para a frante, macro e micro são ensinadas em paralelo)?
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Thursday, December 12, 2013
Monday, December 09, 2013
O site do Diário da República
Adenda: afinal, embora esteja sob o título "Serviços por Assinatura", os não-assinantes continuam a poder clicar nos links como "I SÉRIE DO DR" e fazer lá pesquisas simples.
Post original:
Neste momento, o site do Diário da República está reduzido a uma inutilidade.
Poderá ser apenas um problema técnica, mas há algo que me parece "ter água no bico" - veja-se a secção dizendo "Serviços por assinatura", onde parece incluir montes de coisas que até agora não necessitavam de assinatura (até agora, qualquer pessoa podia fazer uma busca por diploma especifico, ou por um diário de qualquer dia das últimas décadas, e a assinatura só era necessária se quisesse procurar por diplomas sobre um assunto especifico, como decretos-leis contendo a expressão "Barlavento Algarvio")
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Os vários Mandelas
Mandela the Revolutionary, por "Phil":
As I write, the obituary portraits are being updated and given the requisite spin. For official politics it will be Saint Mandela, the liberal hero. For the hard right it will be Mandela the terrorist, the man who waged a brutal war against the authorities. And for the far left, it's Mandela the sell-out - the leader who oversaw neoliberalism in South Africa and the supplying of arms to anyone who could pay. The figure of Mandela is contested because he is, perhaps, all these things. And more.
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Friday, December 06, 2013
8 anos de Vento Sueste
Hoje, este blog faz 8 anos.
A titulo comemorativo, relembro alguns posts que publiquei neste último ano:
Um Estado ou o inverso de um Estado?, sobre a definição de "Estado" e a organização social das tribos do Atlas marroquino
O bitcoin e concorrência entre várias moedas
Direita e Esquerda (post N+1 sobre o assunto), mais um post sobre a diferença entre direita e esquerda
Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism, Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism (II) e Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism (III), uma análise ao artigo Impossibility of anarcho-capitalism [pdf], de Tony Hollick
Re: dicionário elementar, Exemplos de conservadores defendendo a intervenção do Estado na moral social e Ainda a esquerda anarquista pró(?)-propriedade privada, em resposta ao post de Rui Albuquerque n'O Insurgente, esquerda e direita: dicionário elementar (2)
Os economistas e a crise, sobre o papel que os economistas tiveram (ou não...) na crise financeira de 2008
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Miguel Madeira
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Thursday, December 05, 2013
Senhas para refeições (ou "RSI em gêneros") e controle de capitais
Food stamps are just capital controls for poor people (New Statesman):
The Guardian's Patrick Butler reports that food stamps are to replace the cash payments currently received by vulnerable people in short-term financial crisis (...).
In classic economics-blogging style, here's another news story. Cyprus is to impose capital controls (...)
The link is that both measures won't have the absolute effect that their promotors might hope; rather, they impose a huge, uncontrollable and grey-market tariff on attempts to do what people are used to being able to do freely.
The Cypriot capital controls are the more obvious example of this. For the next week, a euro in Cyprus is worth less than a euro elsewhere. How much less, we don't know, and there will probably never be a clear market rate – especially if the controls are lifted in early April, which the people of Cyprus will surely be hoping will happen.
Nonetheless, if a Cypriot finds themselves urgently needing to get a large number of euros out of the country – say, to close a purchase on a house in the French Riviera – it's relatively obvious what they have to do. Offer someone in the "real" eurozone a quantity of euros in Cyprus to spend the money for them. The premium offered depends on the risk that the capital controls will not be lifted, as well as the value our outsider places on euros which can only be spent in Cyprus, but it's fairly doable from a technical point of view. (...)
Those effects are basically the same as what we will see if food stamps become widespread. It's best to think of food stamps as a separate currency; one which can only be used buy a certain list of items. Just like the Cypriot euro, it has "capital controls" – you can't just walk up to a bureau d'exchange and hand food stamps in and get pound sterling in return. But just like the Cypriot euro, there are ways – easy ways – of getting around them.
The legal way – analogous to the complicated deal to hand over money in two nations – is as simple here as offering someone a £20 food stamp for a £12 bottle of gin. Given most people buy food, that's a relatively good deal for the person who ends up with £8 profit; they essentially get a portion of their groceries paid for by someone in crippling financial need. (...)
In the end, then, what is the outcome of food stamps? All things considered, they don't force people in financial difficulty to spend their money on "necessities" rather than "luxuries" (with the two categories odiously defined by government, rather than the individuals themselves). Instead, they impose a tariff on purchases of "luxuries" for those people.
The same economic effect could be had more directly by requiring shops to display two prices for booze and fags: a regular price, and a higher price for "poor people".
http://www.newstatesman.com/economics/2013/03/food-stamps-are-just-capital-controls-poor-people
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Wednesday, December 04, 2013
Tuesday, December 03, 2013
Luta de classes vs. "causas fracturantes"?
Class vs. “Identity Politics,” Intersectionality, Etc.: Some General Observations, por Kevin Carson (Center for a Stateless Society):
Those of us involved in various justice movements of the Left sometimes argue among ourselves as though the struggles for class, racial and gender justice existed in a zero-sum relationship.
Many people in the workers’ and economic justice movements complain — rightly so in my view — that “identity politics” in far too many cases became a substitute for class struggle, with racial and gender justice movements led by upper middle-class managerial-professional types focusing almost entirely on equal representation in the professions and boardrooms at the expense of economic justice. This approach is commonly derided as “black, female, etc., faces in high places.”
We can see this in the recent high profile coverage of the version of feminism promoted by Yahoo CEO Marissa Mayer and Facebook COO Sheryl Sandberg. Mayer, notably, was hailed as a triumph of feminism at the very time when she’d been showing her contempt for working mothers by eliminating Yahoo’s work-at-home arrangements.
On the CNN special “Black in America” several years ago, Soledad O’Brien cited, as evidence of the fulfilment of MLK’s dream, the fact that “Some are Secretary of State; some are CEO” — a source of some dismay for those of us whose fondest dream is to strangle the last Secretary of State with the entrails of the last CEO
But some of the above-mentioned critics from the economic justice movement go even further, blaming gender and racial “identity politics” as a distraction from the class struggle. The struggle for labor rights and economic justice should take precedence over racial and gender justice, they say, because racism and sexism have been subsumed to a large extent within the class struggle. And to the extent that structural racism and sexism, homophobia and transphobia continue to be real problems, the victims of such oppression should throw in with the economic justice movement and treat winning the class struggle as their immediate priority — after which the working class will return the favor by shifting its fraternal efforts to the racial and gender justice fronts.
This goes too far — way too far. First of all, it’s not just a question of priority. It’s a matter of people not being actively horrible to one another. The most radical members of one social justice movement are frequently the most bigoted and hateful voices against victims of other forms of oppression. A good example is the slew of radical feminist writers at The Guardian, the American RadFem (and, ahem, corporate trademark lawyer) Cathy “Bug” Brennan, and Rosanne Barr — all of whom have assaulted transgender people with the most vile, toxic abuse imaginable. RadFems also commonly take a dismissive and patronizing attitude toward sex workers, ignoring their own agency and preferences in the quest to criminalize sex work “for their own good.”
Second, for those who mercifully do at least recognize in principle the validity of other struggles against oppression, it’s important to recognize that these struggles are not in a zero-sum relationship with one another. They are complementary and cumulative. (...)
Differential levels of oppression and exploitation are a lever for maintaining the system of exploitation by the privileged classes. An economic justice movement that fights for the rights and empowerment of workers, without specifically addressing the special needs of the victims of racial and gender oppression in its ranks, is a gravely weakened and divided movement.
Access to underpaid and exploited minority, female and unskilled labor undermines the bargaining power of white, male, skilled labor. Industrial managers in early 20th century labor struggles, who deliberately chose unemployed blacks as scabs to break strikes, understood this. So did big farmers in the South who exploited racial divisions to break the tenant farmers’ union. So, on the other side, did the Wobblies and CIO, who eschewed the racial segregation that so weakened the AFL’s craft unions.
Intersectionality undermines the ruling class’s “divide and conquer” strategies of labor market segmentation as a strategy for weakening the bargaining power of labor. The workers’ movement, as such, by giving additional aid to the most disadvantaged and oppressed segment of the labor force, increases the power of labor as a whole.
Meanwhile, there is a sense in which the struggle for economic and material justice, for everyone’s control over the means of livelihood, is of central importance to racial and gender justice movements. The reason is that even primarily non-economic forms of injustice, like racial and gender oppression, depends to a considerable extent on control over access to the means of material subsistence.
Much of the leverage not only for class and economic oppression, for oppression on the basis of race, gender, sexual preference and gender identity as well, comes from the ability to obstruct access to the means of independent livelihood, and to withhold or take away the prerequisites of comfortable subsistence. the extent to which they are in what Friedrich Engels called the “realm of necessity,” as opposed to the “realm of freedom.” (...)
Let’s consider a few examples. When the price of land falls precipitously as a result of vacant land no longer being held out of use by artificial land titles, and vernacular building technologies like cheap, snap-together, modular housing designs become widely available without obstruction from local building codes, discrimination in rental housing will likely be significantly less important than it is now. The larger the share of our necessities of life that can be met through self-provisioning in the informal and household sector rather than paying for them with money earned through wage employment, the less will be the proportional effect of job discrimination on our access to the means of subsistence. If freed slaves after the Civil War had received “forty acres and a mule” from broken up plantations, and had been in widespread possession of the means of armed self-defense, the material balance of power would have been far different from that which allowed the reimposition of white rule after 1877. (...)
The less a person’s material dependence on others for survival, the more it becomes feasible for her to pick and choose her interactions with others, and interact only on terms of dignity and equality. When the majority of people in a society — including oppressed racial and gender groups — obtain the lion’s share of their material subsistence needs independently of the will or whim of others, and are in the habit of seeing themselves as free economic agents in independent control of their own means of livelihood, the spillover effects will color their relations with one another in other areas of life as well.
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Monday, December 02, 2013
Leis e magia
The Magic of the Law, um artigo no Overthinking It expondo a tese de que a magia na ficção acaba por ser muito semelhante ao Direito (nos comentários, a conversa depois evoluiu para uma discussão sobre o padrão-ouro e a economia no mundo do Harry Potter).
Já agora diga-se que, na minha opinião, a personagem "Rumplestiltskin/Gold" na série Era uma vez... parece feita de propósito para ilustrar a tese do artigo...
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Miguel Madeira
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