Wednesday, August 13, 2014

A visão de uma tribo africana sobre pessoas poderosas e feitiçaria

Why Didn’t the Tiv have a State?, em Why Nations Failed?:

Tsav means “power”, particularly power over others. (...)

The people will tsav belong to an organization — the mbatsav.

Mbatsav has two meanings:

- Powerful people (it is the plural of tsav)

- A group of witches organized for nefarious purposes (robbing graves to eat the corpses)

Now this is a pretty interesting double meaning. Imagine if in English the word “politicians” simultaneously meant “people who contest for or control political offices” and “A group of witches organized for nefarious purposes (robbing graves to eat the corpses)”!

Friday, August 08, 2014

25 de abril sempre?

Nos últimos tempos, muita gente que conheço mudou os telemóveis da PT/Meo para a NOS (até eu tentei mudar, mas afinal tinha uma fidelização).

Será que isso ainda pode ser visto como "aliança entre filha de anti-colonialista africano e empresário que adquiriu a sua primeira empresa na sequência da nacionalizações e com o apoio da Comissão de Trabalhadores derrota família Espírito Santo e amigos"?

Monday, August 04, 2014

Sobre o BES

How to rip off a country, Espirito Santo style, por Frances Coppola.

Parece que o Banco de Portugal e a Comissão Europeia não se entendem:

But there is something of a puzzle here. The Bank of Portugal calls the new "good bank" Banco Novo, or "New Bank", and seems to expect it to remain intact for the foreseeable future. But the European Commission calls it the Bridge Bank, and describes it as a "temporary credit institution". The reason appears to be the different objectives of the two institutions: the Bank of Portugal is primarily concerned with preserving financial stability and ensuring that BES customers suffer as little disruption as possible, whereas the European Commission is primarily concerned with minimising the impact of this bailout on the fragile finances of the Portuguese state.

The problem is the approach to funding the "good bank". Banco Novo (or Bridge Bank) is to be provided with capital to the tune of E4.9bn from the Bank Resolution Fund. But the Resolution Fund actually doesn't have this money or anything like it. So the Portuguese state will lend it E4.4bn from funds already earmarked for bank recapitalisation - that's around 2/3 of the earmarked funds. Earmarked it may be, but it is still public debt: unless it can be refinanced with private sector money VERY fast, the Bank of Portugal's statement that capitalising the new bank "does not entail cost to the public purse" is not remotely realistic.

The Bank of Portugal describes this loan as "temporary and replaceable with bank loans". I would like to know how long is "temporary" and which banks would replace the loans. But the European Commission has a different view of the means by which the loan will be repaid:

Portugal's Resolution Fund will provide EUR 4,9 billion as capital to the Bridge Bank. To this end, the Resolution Fund will receive a EUR 4.4 billion loan from the Portuguese State. This loan will be primarily reimbursed by the proceeds of the sale of assets of the Bridge Bank.

It seems that the Commission expects the "good bank" to be broken up and sold piecemeal. Oh dear. Clearly there will have to be some negotiation about this.

But the funding of the "good bank", confused though it is, at least should be adequate to allow the new bank to operate. And if a buyer could be found for the whole thing, or a successful flotation achieved, then the loan could be paid off without breaking up the bank. This has to be the best solution for BES's customers. So the fact that the Commission has not recommended this just shows how narrow its focus is. Never mind the people affected, worry about state finances. Hmm.

Israel, a OLP e o Hamas

O apoio de Israel ao Hamas em meados dos anos 80, como estratégia para enfraquecer a OLP costuma ser apresentado como um exemplo de "algo que deu mau resultado". Mas será mesmo? Um comentador a este artigo de The American Conservative faz uma observação interessante:

I think Israel helping Hamas get started turned out *great* for them!

Imagine, Israel vs. the PLO in the 70s, 80s: a near-even death ratio, European sympathy with the Palestinians to the point that real terrorists could hijack planes and land them in places like Italy with the PM’s (Craxi’s) endorsement. Now, they just ignore the PLO, allow Hamas to take Gaza, take their own people out, and blow it to Hell every couple years. Nobody wants to appear sympathetic to Hamas, even though in their actions they are ostensibly less terroristic (or at least less successful terrorists) than the PLO, much less than the PFLP/DFLP/PLF. They’ve brought suicide bombs to a trickle and blow some cruddy homemade rockets out of proportion. And everyone is afraid of Hamas because they appear on TV with big beards and kalashnikovs screaming ‘Allah’.

Algo que interessa saber sobre o "banco bom"

Qual será o valor da sua situação liquida (ativos "bons" - depósitos - divida obrigacionista) antes da tal injeção de capital? Se for positiva, é muito mais provável que a venda do banco consiga pagar o empréstimo ao Estado do que se for negativa.

Saturday, August 02, 2014

A coisa mais politicamente incorreta que pode ser feita hoje em dia

O Estado meter dinheiro para salvar um banco - no ponto atual do debate político, tanto a esquerda como a direita vão-lhe cair em cima.

Friday, August 01, 2014

Mail que acabei de receber

It is confirmed. JP.Monfort, the first Human ever to present a Candidacy to the Presidency of the Sollar System, will ask U.S. President Barack Obama to run with him as Prime Minister of Planet Earth.

Unofficial sources confirm that President Barack Obama has not decided yet what he will do after his second mandate at the White House expires in January 2016. President Obama cannot run for a third term. (...)

In JP.Monfort’s candidacy to the Republic of the Sollar System, he shall need a running candidate to Prime Minister in every Planet of the Sollar System, including Planet Earth.

JP.Monfort continues to search for running candidates in every other planet of the Sollar System including Jupiter and Saturn. Any interested aliens can submit their expression of interest via intergalactic email (i-email).

[Isto deve ter por trás algum bizarro esquema de spam]

Thursday, July 31, 2014

Sugestão de leitura

Latin America’s military is making a comeback

Nabos torrescados pelo sol

Governo garante à UGT medidas compensatórias para famílias sem filhos.

Toda a ideia de fazer reformas "amigas da família" no IRS (como tem sido propalado nas últimas semanas), é, comparativamente, melhorar a atratividade da opção "ter filhos" face à opção "não ter filhos"; logo, se depois essas reformas são complementadas com medidas compensatórias para não discriminar as famílias sem filhos nada disto faz sentido.

Mais no geral: "incentivar" ou "discriminar positivamente" o comportamento X por norma significa penalizar ou discriminar negativamente o comportamento Z; um dos paradoxos na nossa era é que aceita sem problema de maior que o Estado incentive comportamentos, ao mesmo tempo que rejeita enfaticamente que o Estado penalize comportamentos ("Intolerância! Discriminação!"), mas uma coisa não implicará a outra?

Wednesday, July 30, 2014

"Nova bancarrota" na Argentina?

Nos ultimos tempos têm aparecido noticias a dizer que a Argentina está à beira de entrar de novo em incumprimento, ou em "bancarrota".

O que se passa é que está a ser julgado num tribunal norte-americano se os acordos (reduzindo ou mesmo anulando a dívida) que a Argentina fez com a maior parte dos seus credores após a ultima bancarrota são válidos ou não (o argumento para o "não" é de que o acordo só seria válido se tivesse sido feito com todos os credores, e portanto, como alguns credores não aceitaram a reestreturação, mesmo as dívidas aos credores que a aceitaram continuam válidas).

Assim, caso seja decidido que as dívidas continuam a existir, a Argentina voltará a entrar em bancarrota, já que não conseguirá pagá-las.

O meu ponto é que talvez não seja muito correto apresentar isso como uma nova bancarrota - é simplesmente de novo a velha bancarrota que já aconteceu no principio do século; ou seja, a causa do problema não são novas dívidas entretanto contraidas - são as velhas dívidas que supostamente tinham desaparecido na sequência da bancarrota original e que entretanto ressucitaram.

Acho que esta distinção é relevante em termos de percepção na opinião pública - dizer "nova bancarrota na Argentina" dá a ideia (pelo menos dava-me a mim, antes de ler os detalhes) de algo estilo "a Argentina não pagou as suas dívidas, voltou outra vez a endividar-se e agora já está outra vez a renunciar às dívidas que entretanto contraiu".

Tuesday, July 29, 2014

Sunday, July 27, 2014

Os financiamentos do BES a partidos políticos

Banco empresta dinheiro a A, B, C e D; posteriormente A, B, C e D devolvem o dinheiro e mais os juros.

À primeira vista, parece-me ser exatamente o que um banco é suposto fazer.

Friday, July 25, 2014

Coisas que quase toda a gente concorda

"As pessoas não vão ter mais filhos por causa de beneficios fiscais, abonos e afins"

"O custo de vida (no geral e especificamente em creches e material escolar), desemprego e reduções salariais fazem as pessoas terem menos filhos"

A adesão da Guiné-Equatorial à CPLP

Lista de países-membros da Commonwealth e da Organização Internacional da Francofonia.

Tuesday, July 22, 2014

Tentativa de uma tipologia dos tipos de ficção

Pessoas normais em situações normais - ?
Pessoas normais em situações extraordinárias - romance de aventuras (várias variantes)
Pessoas extraordinárias em situações normais - drama, "literatura séria"
Pessoas extraordinárias em situações extraordinárias - ficção especulativa (FC, fantasia)

Desenvolvendo:

O tipo "pessoas normais em situações extraordinárias" corresponde às obras em que uma pessoa igual a qualquer outra de repente se vê envolvida (como testemunha, vítima, falso culpado, etc.) em conspirações, crimes, etc. Uma variante é um tipo de ficção infanto-juvenil (bastante comum nos filmes dos anos 80) em que um grupo de crianças ou de jovens adolescentes, até então levando uma vida perfeitamente normal, de repente se vê envolvida numa trama aventurosa (testemunhar um crime, encontrar um mapa do tesouro, ser visitado por extraterrestres, etc.).

O tipo "pessoas extraordinárias em situações normais" corresponde às obras em que não se passa nada de especial nos acontecimentos em que o personagem está envolvido e em que o interessante na história está mesmo no personagem em si - na sua vida interior, nos seus pensamentos e emoções, na forma como reage aos acontecimentos, etc. Grandes partes dos filmes classificados como "drama" e dos livros classificados como "ficção literária" seguem este esquema.

O tipo "pessoas extraordinárias em situações extraordinárias" , em que tanto os personagens como as situações são fora do vulgar, terá o seu exemplo mais puro nos filmes de ficção científica e de fantasia, ou na banda desenhada de super-heróis (que no fundo pode sempre ser vista como uma variante da FC ou da fantasia, conforme as origens do poder dos hérois seja técnica-biológica ou sobre-natural); no entanto, o romance de aventuras ou o policial também podem cair aqui, dependendo da forma como os protagonistas são apresentados (escala deslizante de anormalidade do protagonista num policial: cidadão comum que se vê envolvido num crime; polícia; detetive privado; criminoso contra criminosos piores que ele; superdetetive tipo "Sherlock/Poirot").

Diga-se que a fronteira entre o "pessoas normais em situações extraordinárias" e o "pessoas extraordinárias em situações extraordinárias" pode ser muito porosa: na FC/Fantasia os personagens principais, muitas vezes, por mais estranhos que sejam, são apresentados como o mais parecido que há - dentro da história - com pessoas normais (ou são humanos no espaço encontrando entidades extraterrestres, como no Caminho das Estrelas ou Espaço 1999, ou feiticeiros/deuses que só recentemente descobriram a sua natureza, como em Harry Potter ou Percy Jackson, ou são humanos com outro nome, como os hobbits de Tolkien, que me parecem mais "humanos normais" que os "humanos normais" propriamente ditos); e um personagem pode começar como "pessoa normal em situações extraordinárias" num livro/filme, e à medida que as sequelas vão avançando vão se tornando extraordinário (ou começa a ser percebidos como extraordinários pelos leitores/espetadores, mesmo que eles próprios não mudem - qualquer um dos livros de Os Cinco - nem sei porque me lembrei destes - seria "pessoas normais em situações extraordinárias", mas o conjunto dos livros acaba por dar uma aura de extraordinariadade aos próprios personagens).

Mais complicado é o quadrante "pessoas normais em situações normais", em que os personagens não têm nada de especial e também não lhes acontece nada de especial; realmente há alguns estilos avulsos que talvez se enquadrem nesta categoria: sitcoms, telenovelas (se os protagonistas não forem milionários com disputas por heranças e filhos ilegitimos pelo meio), etc. O naturalismo, o realismo e o neo-realismo tentaram deliberadamente ser isso, mas não sei se conseguiram: p.ex., Os Maias (supostamente a obra-prima do realismo/naturalismo português) realmente gira à volta de pessoas normais (num certo meio social) levando a vida normal (de novo, nesse meio) da altura, mas o que é certo é que teve que introduzir um personagem principal extraordinário (Carlos da Maia é claramente apresentado como tendo tido uma educação e uma personalidade diferentes das outras pessoas) e também um acontecimento extraordinário (penso que não é nenhum spoiler referir o incesto involuntário); a respeito do neo-realismo / realismo socialista, muitas vezes formalmente corresponde à descrição "pessoas normais em situações normais", limitando-se a descrever a vida quotidiana das classes desfavorecidas, como em Esteiros, sem os personagens ou os acontecimentos terem nada de especial; no entanto, a particularidade é que suspeito que esses romances acabavam por ser lidos sobretudo por jovens idealistas da classe média, o que os tornava na prática - do ponto de vista dos leitores - obras sobre "pessoas extraordinárias em situações extraordinárias" (o mesmo pode ser dito de muitas obras anti-guerra, descrevendo os horrores da guerra sem heroísmos, como Nada de Novo na Frente Ocidental ou Platoon: como o destinatário dessas obras era sobretudo as pessoas que não tinham participado na guerra, acaba por funcionar, do ponto de vista do público, como pessoas em situações extraordinárias). E quando o romance neo-realista acabava com uma greve, uma ocupação, ou com o personagem principal, inicialmente apolítico, a juntar-se ao "Partido", aí entrava totalmente no terreno "situações extraordinárias". No fundo, suspeito que uma obra "pessoas normais em situações normais" em estado puro acabaria por ser demasiado entediante para o público.

Thursday, July 17, 2014

"Famílias"

Esta passagem deste post da Shyznogud - «Aumento do rendimento das pessoas (irrita-me a conversa de "aumento de rendimento das famílias", nestas temáticas sou muito individualista)» - fez-me lembrar de um assunto que há tempos andava para fazer um post: uma tendência para, no discurso político, usar "famílias" como uma forma alternativa de dizer "pessoas" ("impostos sobre as famílias", "as famílias portuguesas têm vindo a perder poder de comprar", etc.).

Já agora, recomendo o artigo «Only lazy politicians use the phrase 'hard working families'» (é uma página com montesde artigos e é preciso ir à procura); embora o autor se concentre mais na questão dos "hard working", também aborda a parte do "families".

"Pirataria" prejudica indústria cinematográfica?

Se calhar não:

Um economista analisou os downloads ilegais e as receitas de 150 blockbusters lançados no período de sete anos e concluiu que a pirataria não é prejudicial a Hollywood.

Koleman Strumpf é o autor de um estudo que promete ser polémico. O economista afirma que a pirataria não prejudica os interesses do cinema. «Não há evidências nos meus dados empíricos que mostrem que a partilha de ficheiros tenha um impacto significativo nas receitas dos cinemas», explica Strumpf. A partilha de ficheiros pirata reduziu as receitas de primeiro mês dos filmes em 200 milhões de dólares, entre 2003 e 2009. Este valor corresponde a menos de 1% do que os filmes na realidade faturaram, explica o BGR [Exame Informática]
.

Aqui pode-se aceder a uma versão preliminar em PDF do estudo - Using Markets to Measure the Impact of File Sharing on Movie Revenues; o autor aliás tem também um estudo sobre o assunto parecido - The Effect of File Sharing on Record Sales: An Empirical Analysis, publicado em 2007.

Uma nota final - parece-me que o ordenado do autor é pago por um donativo da família Koch à Universidade do Kansas, ou coisa parecida (mais provavelmente, pelos rendimentos do donativo, feito anos antes de ele ser contratado); atendendo ao historial de envolvimento dos irmãos Koch em ativismo político ultra-liberal, admito que isso possa levantar algumas dúvidas sobre a credibilidade do estudo; no entanto, como o autor fundamenta a sua posição com base em dados e cálculos que imagino sejam facilmente replicáveis, acho que se não aparecer ninguém a dizer que os cálculos estão errados poderemos assumir que estão certos (e de qualquer maneira nem sei qual a posição dos irmãos Koch sobre a propriedade intelectual).

Sunday, July 13, 2014

A saída do "Fórum Manifesto" do BE

O "Forum Manifesto" decidiu desvincular-se do Bloco de Esquerda; não implicando isto uma desvinculação automática dos seus membros, as notícias que correm é que Ana Drago provavelmente irá abandonar o BE.

Para começar, caso alguns leitores não saibam bem o que é o Fórum Manifesto, uma pequena súmula histórica: nos últimos meses de 1991, após o falhado golpe contra Gorbachov e o comunicado do PCP apoiando os golpistas, o essencial dos militantes "renovadores" do PCP abandonaram o partido (confesso que não sei exatamente se foram sobretudo saídas voluntárias ou se também houve muitas expulsões), que de qualquer forma já estava num processo de abandono de militantes críticos; desse processo nasceu a Plataforma de Esquerda, que em breve começou a colaborar com o PS. A facção da PE (incluindo figuras como Miguel Portas ou Daniel Oliveira) que recusou essa linha de aliança com o PS organizou-se em torno de um jornal, o "Manifesto" (suspeito que o nome foi escolhido para imitar il manifesto) - lembro-me de, nas manifestações anti-propinas, esse jornal ser distribuído (não sei se ainda terei guardado algum lá por casa). Nas eleições europeias de 1994, falou-se numa coligação entre o PSR, o MDP/CDE e o grupo do Manifesto, mas o PSR acabou por concorrer sozinho, e o MDP/CDE mudou o nome para Politica XXI, passando a integrar o "antigo" MDP/CDE + o Manifesto (penso não estar em erro se disser que a criação da Politica XXI foi uma espécie de OPA amigável ao MDP/CDE por parte do Manifesto, que passou a ser largamente dominante na nova encarnação do partido). Em 1999, a Politica XXI, junto com o PSR e a UDP, criou o Bloco de Esquerda; mais tarde (creio que até por imposição da lei dos partidos), PSR, UDP e Politica XXI dissolveram-se como partidos, sendo substituídos respetivamente pela Associação Política Socialista Revolucionária, pela Associação União Democrática Popular (creio que esta manteve a sigla) e pelo Fórum Manifesto. Dentro do Bloco, a Política XXI / Fórum Manifesto é (ou era...) conotada como a ala mais moderada e mais aberta a acordos com o PS; a impressão que tenho é que, a partir de certa altura, passou a ser também a facção mais abertamente eurocética e mais dada a admitir a hipótese da saída do euro (mas admito que esta minha caracterização da evolução recente do Fórum Manifesto seja bastante discutível). Até à ultima convenção, o Fórum Manifesto era parte integrante da "maioria governante" do Bloco (e até era acusado pela Ruptura/FER - a "oposição de esquerda", que veio a dar origem ao MAS - de estar sobre-representada nos orgãos dirigentes), mas em 2012, se alguns dos seus membros continuaram a integrar ou a apoiar a "moção A", muitos outros participaram na "moção B".

Bem, e após esta longa introdução, o que tenho eu a dizer da nova cisão? Pelo menos uma coisa - que no caso da Ana Drago, se ela realmente sair do Bloco, não percebo muito bem como, em seis meses, alguém passa de membro da direção de um partido a ex-aderente do partido (sem sequer passar pela posição intermédia, de se candidatar contra a atual direção); isto é, se alguém se manteve anos na direcção e a apoiar a lista maioritária, parte-se do principio que não tinha diferenças significativas com a direção e as que tinha achava possivel tentar mudar as coisas a partir de dentro, em vez de apoiar uma candidatura alternativa; de repente (ou em seis meses) chega à conclusão que, não só as suas divergências com a direção são muito grandes, como até as divergências com o conjunto do aderentes do partido serão tão grandes que nem sequer vale a pena apresentar uma moção e listas oposicionistas (ainda mais que vai haver uma convenção daqui a quatro meses)? Sinceramente, parece-me a atitude de alguém que está à espera que as coisas lhe caiam no colo já feitas ("Se os órgãos dirigentes não concordam com as minhas ideias, não tento mudar as coisas, vou-me embora"), ou de quem vê a política mais como acordos e negociações de bastidores de que como uma luta aberta pelas suas ideias (o que, confesso, não era nada a ideia que eu tinha da Ana Drago), e portanto acha que, se não consegue convencer a "elite" do partido, então não há nada a fazer... (para falar a verdade, até ontem eu estava convencido que muito provavelmente a Ana Drago iria derrotar a atual direção na próxima convenção do BE).

Em tempos, Albert Hirschman escreveu que os descontentes com uma organização tinham 3 caminhos possíveis: "exit", abandonar a organização; "voice", fazer oposição interna; e "loyalty", permanecer esperando que as coisas melhorem. Dá-me ideia que grande parte do Fórum Manifesto passou diretamente da "loyalty" ao "exit" sem passar pela "voice" (isto é, podem ter feito "voice" nos órgãos dirigentes, mas junto dos militantes de base portaram-se quase sempre como membros leais da maioria).

Para um contraste (e mantendo-nos na área do FM), veja-se o caso de Daniel Oliveira - há muitos anos que expressou posições criticas da direção do Bloco; apoiou uma lista oposicionista; e, finalmente, chegou à conclusão que o melhor era sair. Concorde-se ou não com as posições de DO, é um percurso lógico e coerente. Já a Ana Drago, se realmente sair do Bloco (ainda tenho alguma esperança que ela venha desmentir a notícia), irá ser um percurso sem lógica nenhuma.

Adenda: confirma-se a saída de Ana Drago

Tuesday, July 08, 2014

Os berberes e o Estado

Há pouco mais de um ano, linkei para um post de Daron Acemoglu e James Robinson sobre a inexistência tradicional de Estado entre os berberes do Atlas marroquino.

Os autores voltam a abordar o tema, e daí generalizando para a questão sobre porque é que certos povos não têm (ou não tinham) Estado:

But there are difficulties in interpreting many of these facts and the rich patterns about the state. Why didn’t the Berbers have a state? It could have been that really they wanted a state but couldn’t figure out how to construct it, or perhaps just didn’t have a model of what a state looked like. Many scholars working in development economics, for example, argue that if a society lacks institutions or policies which would promote development then this must be because they don’t really understand how to make the policies or institutions work in their own specific context.

James Scott, on the other hand, would argue that the most plausible explanation for the absence of a Berber state was that the Berbers did not want a state (because the disruptions that the state would inevitably create in their lives) and had managed to create mechanisms to stop it forming. Scott’s general arguments about the state, which we review in the next two posts, are powerful and provocative images of what the state is and does and how people react to it. After we develop his arguments, we will discuss a whole series of empirical examples to interrogate his ideas.

O "James Scott" a que eles se referem é ao autor de "Seeing like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed" (aqui uma discussão no blogue do Cato Institute sobre esse livro).

Thursday, July 03, 2014

"Canídeos e gatídeos"

Quem for às tabelas de taxas das juntas de freguesias, encontra uma curiosa entidade - os "gatídeos"; o que será um "gatídeo"?

Pelo nome, diria que teria algo a ver com gatos, mas os gatos são felídeos, portanto os "gatídeos" devem-se referir a outra coisa qualquer.

Já agora, se eu (ao abrigo da referência aos canídeos) quiser registar, na minha freguesia, um lobo ou um mabeco de estimação terei que pagar 15 euros de licensa?

Atenção que isto não é uma particularidade da minha freguesia - todas as freguesias usam essa terminologia, que está prevista na lei nacional.

O que eu suspeito é que quem fez a lei provavelmente julga que "canídeo" é simplesmente uma forma mais formal de dizer "cão" (e não um conjunto que abarca cães, raposas, lobos, chacais, coiotes, etc.); e o passo seguinte foi concluir que, se os "cães" são "canídeos", então os "gatos" são "gatídeos". Imagino que se se divulgar o hábito de ter furões como animais de estimação, se comece a emitir licenças para furanídeos.

Wednesday, July 02, 2014

Véus

On the evolution of misogyny..., por Simon Cook:

Here is a quotation attributed to a 17th century English sailor:

"The men that are married are given much to jealousy, and will not permit any stranger to come where their wives are, much less to see them, but will keep them out of sight as much as they possibly can...all their women, both married and unmarried, go with a black veil over their heads and reaching down to their legs, all being covered except their eyes."

The sailor wasn't visiting a Muslim country but the very Roman Catholic country of Portugal and the covering of women was cultural rather than religious - the practice was common across all faiths, indeed the quotation was put in the context of how Jewish migrants from Lisbon to Amsterdam were seen by the more 'enlightened' Dutch.

My point in making this observation is to make clear that it is perfectly possible to oppose the practice of requiring women to be fully covered without being 'Islamaphobic' since this practice was widespread in Catholic Europe almost into living memory. Indeed, I remember elderly Spanish and Italian women attending my church wearing a mantissa, the last vestiges of the shrouding of women in Roman Catholicism.

Friday, June 20, 2014

"Populistas e extremistas"

The real story in the European elections wasn’t the rise of ‘populists and extremists’, but the return of the left-right divide, por Jonathan White (London School of Economics):

The elections have been widely narrated as the triumph of ‘anti-establishment’ parties – or as The Economist likes to call them, ‘populists and extremists’. Such categories mask major differences. Though dissent is the common denominator, the questions raised by the Front National, UKIP and the Danish People’s Party sharply diverge from those posed by SYRIZA, Podemos, the Dutch Socialists and the Portuguese Left Bloc, to name just some of the parties successful in these elections. How they articulate the causes of economic stress is essentially different.

On the one side, the analysis of economic hardship has tended to focus on the moral failings of outsider groups. Be it immigrants, welfare dependants, lazy southerners, greedy bankers, mindless bureaucrats or the political class, someone somewhere is behaving badly. These accounts are stories of transgression – of offences against morality and common sense. On the other side, the origins of hardship lie rather in the failure of a template. A critique of adhesion forms the basis of such accounts – be it adhesion to an erroneous doctrine (neoliberalism, austerity) or to an unworkable economic system (capitalism, growth-led development). Seen from this angle, the politics of UKIP and SYRIZA could hardly be more contrasting.

Such differences express a left-right division. Historically, suggest political thinkers, this division has centred on attitudes to inequality, with the left defined by its inclination to seek the rectification of inequality and the Right by its scepticism on grounds of feasibility or desirability. In the twentieth century, this distinction often overlapped with diverging attitudes towards the institutions of state and market. If we take these elements to be at the core of the left-right divide, today’s disagreements are consistent with it.

Accounts of economic hardship centred on transgression tend towards underwriting the order whose standards they claim have been violated: these positions generally display a fairly sympathetic view of the market (even if there is concern at how certain groups have ‘distorted’ it) and a quite limited concern with inequality (extending at most to the thought that certain inequalities are ‘excessive’). Accounts centred on adhesion to problematic doctrines and practices by contrast generally place the pre-crisis order in question, including the market economy and the inequalities systematically generated by it.
Nota - não vejo a que propósito o autor inclui o BE nos "partidos que tiveram sucesso nas eleições" (suspeito que ele olhou para os resultados, viu 1 deputado do BE eleito em Portugal e, sem grandes conhecimentos da politica local, assumiu que deveria ser um grupusculo extra-parlamentar que finalmente tinha eleito um deputado)

Monday, June 16, 2014

Guerras e crescimento económico

Militarism and growth, por Chris Dillow:

There's one big omission in Tyler Cowen's argument that peace is bad for growth - opportunity cost.

The conventional neoclassical view is that £1 spent on the military is £1 not spent on something else, and that something else might well involve more productive activity than having soldiers sitting in barracks. This was the point made by Frederic Bastiat in his 1850 essay, That Which is Seen, and That Which is Not Seen (...)

And whilst he is right to point to some innovations that arose from militarism, doing so runs into Bastiat's injunction to consider the unseen. From a neoclassical viewpoint, military spending diverts resources from cilivian spending, some of which would have produced other innovations. It's possible that a bigger civilian economy would generate faster growth by "learning by doing effects", or simply because the private sector is on average better at innovating than the government.

All of these objections, however, rest upon a questionable assumption - that resources are fully employed so that higher military spending means lower civilian spending. If resources are unemployed, the opportunity cost argument fails so Tyler might be right: for this reason, he is too hasty to dismiss Keynesian considerations.

In this context, Tyler has some interesting predecessors - Marxian underconsumptionists such as Paul Baran and Paul Sweezy. Back in 1966 they argued that capitalist economies tend to stagnate because capitalism's massive potential to produce was not matched by growth in potential demand. Military spending, they argued, helped fill this gap and thus boost growth (...)

Keynesians might object that civilian public spending would also boost aggregate demand. But, said Baran and Sweezy, from a capitalist point of view military spending was superior. It gave fat, reliable profits to government contractors in a way that, say, paying teachers doesn't. And a militaristic society fosters a culture amenable to capitalists, of conformity to authority.

So, who's right - Tyler and the Marxian underconsumptionists or the neoclassicals? Personally, I think this is another area where there are no universal truths in economics. Militarism might well have been bad for economies in the full-employment late 60s and inflationary 70s. But it's plausible that it helped in the deflationary 30s. And it could be that today has more in common with the 30s than the late 60s.

Wednesday, June 11, 2014

O "Podemos" (II)

El voto a Podemos en cuatro gráficos (El Diario):

Sin duda, la gran sorpresa electoral del pasado domingo fue la irrupción en el escenario político de Podemos. Los resultados son espectaculares: más allá del millón doscientos cincuenta mil votos que convirtieron a Podemos en el cuarto partido del país (tercero en cinco comunidades autónomas, entre ellas Madrid), a mí me ha sorprendido la capacidad de penetrar de forma exitosa en todo el territorio a sólo unos meses de su fundación. Es cierto que obtiene resultados espectaculares en lugares como Asturias o Madrid (¡o un 19% en la ciudad de Soria!), y algo peores en otros: en Andalucía y Extremadura (donde PSOE e IU obtienen mejores resultados que en resto del país), en Cataluña y el País Vasco (donde hay un sistema de partidos completamente diferente), y en general en lugares donde hay más oferta partidista. Pero incluso en estos lugares Podemos no deja de ser competitivo: logra superar el 5% de voto en Barcelona, el 6% en el País Vasco, y supera a Compromís en Valencia y al BNG en Galicia.

Lo que sigue es un ejercicio informado aunque especulativo (la premura y la naturaleza de los datos obligan a ello) sobre la naturaleza del voto a Podemos. Usaré fundamentalmente datos de la distribución del voto por distritos en la ciudad de Madrid, aunque datos procedentes de otros lugares parecen confirman muchas de las intuiciones que aquí se presentan, y las interpretaciones que se hacen aspiran a ser generalizables a todo el país.

O "Podemos" (I)

How economic despair pushed Spain to embrace a new party, por Sofia Perez, no Monkey Cage:

Events over the last few weeks in Spain have surprised many observers. A new party – Podemos  (“We can”) – got an unexpectedly high vote in elections to the European Parliament. This has shaken up the party system, long dominated by two large national parties (the Socialist PSOE and the ruling conservative Popular Party (PP)) along with a number of established local nationalist parties important in Catalonia and elsewhere. (...)

There is now an intense debate going on about the “Podemos” phenomenon. Should Podemos be seen as a “populist” party  (as critics have labeled it);  is it a party of economically disenfranchised youth pitted against a privileged older generation; a formation of opportunist political entrepreneurs capitalizing on the discontent caused by the economic crisis that offers no real alternative; or a legitimate “citizens defense platform” trying to put a stop to the economic hardship imposed in Spain through austerity measures demanded by Brussels and Berlin? Initial evidence suggests that Podemos is an anti-establishment party that has successfully tapped the discontent and despair of a significant segment of the population (see data below) and that  it draws its vote from non-voters and voters of other Left parties. Its rise seems to mark a leftward shift in the electorate in reaction to the crisis.  It does not seem to be a generationally defined party but draws support from all age groups. (...)

Another Metroscopia survey suggests that 60 percent of Podemos voters had not made up their mind three days prior to the election. But if Podemos has managed to articulate and mobilize a vote of despair, that is likely to give it a different role from traditional protest parties (such as the Eurosceptics and nationalist far Right that did well elsewhere in Europe). The Podemos phenomenon is more in line with the success of Syriza in Greece. Although the parties are organizationally different, they both seek a Europe that follows very different economic policies rather than wanting to limit the idea of Europe.

Os "nossos hábitos"

Este post de Chris Dillow sobre os "valores britânicos" fez-me lembrar algo que há algum tempo estava a pensar em escrever, sobre aquela questão "os imigrantes devem adoptar os nossos hábitos?" que aparecia em vários dos testes para selecionar o "nosso" partido nas eleições para o PE.

Se a questão fosse "os imigrantes devem cumprir as nossas leis?", aposto que quase toda a gente responderia "sim" (mesmo as propostas que têm aparecido no sentido de a sharia ou de a halakha poderem ser aplicadas entres as comunidades muçulmanas ou judias na Europa referem-se aos contratos de direito privado).

Se a questão fosse "os imigrantes devem abster-se de fazer coisas perfeitamente legais, mas que não sejam comuns no nosso país?", suspeito que uma maioria esmagadora (ainda que não tanto como na resposta anterior) responda ou "não vejo porquê" (o que nos tais testes deve corresponder a escolher uma resposta no meio) ou "não".

No entanto, penso que a pergunta "os imigrantes devem adoptar os nossos hábitos?" tenha respostas com muito mais equilíbrio entre "sins" e "nãos" do que as duas perguntas hipotéticas que apresentei; suspeito que o que se passa é que muitas pessoas que respondem "sim" respondem como se estivessem a responder à pergunta "os imigrantes devem cumprir as nossas leis?" e muitas que respondem "não" (pelo menos foi o meu caso) respondem como se estivessem a responder à pergunta "os imigrantes devem abster-se de fazer coisas perfeitamente legais, mas que não sejam comuns no nosso país?" (também me ocorre que provavelmente haverá pessoas que colocadas perante a questão "os imigrantes devem abster-se de fazer coisas perfeitamente legais, mas que não sejam comuns no nosso país?" sentiriam um impulso emocional para responder "sim" mas que racionalmente achassem uma resposta sem grande jeito, e que perante a questão mais vaga "os imigrantes devem adotar os nossos hábitos?" se sintam mais "soltos" para responder "sim").

Monday, June 02, 2014

Primárias "abertas" e "fechadas"

Já há algum tempo que estava para escrever este post, nomeadamente a respeito das primárias "abertas" do LIVRE; mas até porque não queira misturar este assunto com discussões de campanha eleitoral, deixei para mais tarde. Agora que no PS também se fala em "primárias", é capaz de ser uma boa altura para abordar o tema.

Para começar, o que são primárias "abertas" e "fechadas"? Nos EUA (o país onde este conceito teve origem), quando alguém se recenseia para votar pode indicar o partido de que é simpatizante - isso não implique que vote nesse partido: até há algum tempo, havia zonas do Sul dos EUA em que o partido de Reagan ganhava com votações esmagadores mas em que não havia quase ninguém registado como simpatizante do partido de Lincoln.

Diga-se que, ao que sei, não existe propriamente a figura do "militante", pelo menos nos grandes partidos - creio que a única coisa similar a alguém se filiar no Partido Democrático ou no Republicano é declarar-se no recenseamento como simpatizante Democrata ou Republicano.

A diferença entre primárias "abertas" e "fechadas" - nas primárias "fechadas" apenas os eleitores registados como simpatizantes de um dado partido podem votar nas primárias desse partido; nas primárias "abertas" todos os eleitores podem votar, mesmo registados como simpatizantes de outros partidos (o que por vezes dá isto) - de qualquer forma penso que, mesmo nos estados que fazem primárias abertas, cada eleitor só pode votar nas primárias de um partido (até porque muitas vezes as primárias dos vários partidos são realizadas em simultâneo e uma pessoa chega à mesa de voto, identifica-se e pede um boletim para uma das várias primárias partidárias a decorrer nesse dia)

Para começar, dá-me a ideia que, se usarmos esta terminologia, o que o LIVRE realmente fez foram primárias... fechadas ; pelo que li, quem podia votar nessas primárias eram as pessoas que se tinham registado num sitio qualquer como se identificando com o programa do LIVRE (mas talvez alguns militantes e ou simpatizantes do LIVRE que são leitores regulares deste blogue possam dar um esclarecimento mais informado). Esta discussão não é puramente semantica, porque, p.ex., a crítica que, há uns meses, o Francisco Louçã fez às primárias abertas (que iriam fazer os partidos minoritários perder a sua especificidade, já que os eleitores dos grandes partidos poderiam inlfuenciar a escolha dos seus candidatos votando nas primárias) já não se aplica às primárias fechadas (em que o universo eleitoral está, em principio, restrito as pessoas alinhadas ideologicamente com o partido).

Quanto às primárias propostas para PS parece-me que ainda não se percebeu muito bem se são primárias abertas (em que qualquer pessoa pode votar) ou se irão ser primárias fechadas (em que vai ser criado um registo de simpatizantes do PS, e em que só esses e mais os militantes poderão votar).

Para falar a verdade, eu tenho uma forte suspeita que quando, em Portugal, muitas pessoas falam em "primárias abertas", o que querem dizer é primárias em que não apenas os militantes mas também outras pessoas podem votar - o que na verdade cobre tanto as "primárias abertas" como as "fechadas".

Mais uns pontos:

No caso de "primárias fechadas" em que votam não apenas os militantes, mas também simpatizantes que se inscrevem como simpatizantes, será que a diferença entre o conceito de "militante" e o de "simpatizante" (a partir do momento em que o simpatizante tem que ir a uma sede do partido inscrever-se) é assim tão grande?

Atendendo a que nos sistemas parlamentaristas (dominantes na Europa) a regra é o líder do partido ser o candidato a chefe do governo, dá-me a ideia que eleições directas para líder do partido ou eleições primárias (se forem "fechadas") para candidato a primeiro-ministro são ideias virtualmente idênticas.

Thursday, May 29, 2014

Cientistas contra a classificação dos "cigarros electrônicos" como "tabaco"

Top scientists warn WHO not to stub out e-cigarettes (Reuters):

LONDON, May 29 (Reuters) - A group of 53 leading scientists has warned the World Health Organisation not to classify e-cigarettes as tobacco products, arguing that doing so would jeopardise a major opportunity to slash disease and deaths caused by smoking.

The UN agency, which is currently assessing its position on the matter, has previously indicated it would favour applying similar restrictions to all nicotine-containing products.

In an open letter to WHO Director General Margaret Chan, the scientists from Europe, North America, Asia and Australia argued that low-risk products like e-cigarettes were "part of the solution" in the fight against smoking, not part of the problem.

"These products could be among the most significant health innovations of the 21st century - perhaps saving hundreds of millions of lives. The urge to control and suppress them as tobacco products should be resisted," the experts wrote.

Leaked documents from a meeting last November suggest the WHO views e-cigarettes as a "threat" and wants them classified the same way as regular tobacco products under the Framework Convention on Tobacco Control (FCTC). (link.reuters.com/muq69v)

That has set alarm bells ringing among a number of medical experts - and in the booming e-cigarette industry. A total of 178 countries are parties to the international convention and are obliged to implement its measures, with the United States the one notable non-signatory.

A move to classify e-cigarettes alongside regular cigarettes would push countries into taking similar tough measures to restrict demand, including raising taxes, banning advertising, introducing health warnings and curbing use in public places.

Notícia a seguir?

"The president of the breakaway Georgian region of Abkhazia is said to have fled the capital Sukhumi after opposition protesters seized his office." (BBC)

Alexander Ankvab reportedly retreated to his home town Gudauta, 40km (25 miles) away, when talks with the opposition broke down.

Many people in the Russian-backed region are unhappy with the ailing economy and lack of reforms.

But Abkhazian nationalist feeling is also fuelling the unrest. (...)

Opinion among the opposition is said to be divided between those who want Abkhazia to rely less on Russia and those who instead want it to become part of Russia.

Analysis - Unrest in Abkhazia:

However, even this is only a part of the story. The opposition has certainly cited economic conditions as a major grievance, but the chief point of contention is President Alexander Ankvab's more liberal (relatively speaking) policy towards ethnic Georgians in Abkhazia, primarily concentrated in the Gali region. Mr Ankvab has advocated more fully integrating them into Abkhazian society, which includes giving them passports and Abkhazian "citizenship". The opposition, led by Raul Khadzhimba, has painted this as a purely political ploy by Mr Ankvab to expand his electoral base (they accused the late former President, Sergei Bagapsh, of the same) and say these policies could endanger Abkhazia's ethnic Abkhazian identity.

Mr Khadzhimba has also accused the Ankvab government of kowtowing to Moscow. Though there is a political consensus in favour of a security alliance with Russia, Mr Khadzhimba's opposition does not wish to allow Russians to buy Abkhazian property or to see Sukhumi integrate too closely within Russia. It is unclear just how much of a believer Mr Khadzhimba is - he is a former KGB officer and was once seen as Moscow's favoured politician. His political transformation suggests that his ideals are rather pliable, but he also may feel spurned by his former patrons. All we really know is that Mr Khadzhimba truly believes he should be in power. As for Mr Ankvab, his political longevity depends largely on Russia. If they see abandoning him as politically expedient, he will face a much more difficult time regaining power.

O presidente abkhaz estar a ser criticado por ser, pelos vistos, demasiado alinhado com a Rússia e ao mesmo tempo por estar a dar muitos direitos aos georgianos pode confundir um bocado as "narrativas" sobre os conflitos no Cáucaso...

"Estado encaixa 31 milhões com aumento do salário mínimo"

Segundo a Rádio Renascença e o bastonário dos Técnicos Oficiais de Contas:

Com apenas 15 euros a mais por mês no ordenado dos 600 mil trabalhadores que recebem o salário mínimo em Portugal, os cofres dos impostos encaixam mais de 31 milhões de euros por ano, valor que inclui os impostos dos trabalhadores e dos patrões.

"O trabalhador no final de cada mês, por efeito de um aumento de 15 euros, vai ter um aumento de impostos em IRS e Segurança Social de 3,825 euros. Ou seja, dito de outra maneira, o aumento acaba por ser só de 11,2 euros por cada mês", explica à Renascença o bastonário dos Técnicos Oficiais de Contas.

Com este possível aumento no salário mínimo, que será discutido esta quinta-feira em sede de concertação social, vão cair nos cofres do estado dois milhões de euros por ano, em IRS e contribuições para a Segurança Social.

Do lado dos patrões os gastos são mais significativos: quase 30 milhões de euros. Sobem os ordenados, logo sobem os impostos.

"A entidade patronal, no final do ano, vai pagar mais 210 euros de salários aos seus colaboradores. Mais 49,88, que são os 23,75% para a Segurança Social. Mais 10,5 euros que são os 5% do seguro de trabalho. Dá um total de 270,38 por ano, o que, dividido por 14 meses, dá um encargo todos os meses de 19,31 euros [por trabalhador]", refere Domingos Azevedo.

"Do lado das entidades patronais, o Estado vai receber o aumento da Segurança Social no valor de 49,88, o que, a multiplicar por 600 mil [número de pessoas que recebem o salário mínimo em Portugal], dá 29 milhões e 929 mil euros", diz,

Sinceramente, essas contas (nomeadamente pelo lado da entidade patronal) não me parecem fazer grande sentido. Para começar, duvido um pouco dos "5% do seguro do trabalho" - tenho a ideia quie o custo com os seguros custuma andar à volta de 0,6%-0,7% da remuneração, quase dez vezes menos (mas talvez algum comentador que tenha uma empresa possa me esclarecer sobre qual a taxa mais vulgar).

Mas a minha maior objeção até não é essa - é mesmo com o "sobem os ordenados, logo sobem os impostos": as contribuições para a segurança social (que, realmente, podem ser vistos como impostos com outro nome) sobem, mas se sobem os ordenados, em principio os lucros irão descer, logo menos imposto sobre os lucros.

Vamos imaginar uma empresa que pague 17% de IRC - vai pagar mais 210 euros de salários e mais 49,88 euros para a segurança social (vou ignorar o seguro, porque é dinheiro que passa de uma empresa para outra); logo vai ter menos 259,88 euros de lucro, e portanto vai pagar menos 44,17 euros de IRC: ou seja, o Estado (da parte do empregador) vai encaixar, por ano e por trabalhador, 5,71 euros (no total, a multiplicar por 600 mil, irá dar 3 milhões e 426 mil euros, não os tais "29 milhões e 929 mil").

A conta feita pelo tal TOC parece-me estar a assumir uma de duas coisas - ou que as empresas que pagam o SMN dão prejuizo, e assim não pagam IRC; ou que o aumento do SMN vais ser compensado por um aumento dos preços e não por uma redução dos lucros (o que poderá ser o caso para algumas empresas, mas duvido que seja uma norma geral).

Friday, May 23, 2014

Fora do consenso?

José Manuel Fernandes fala da "esquerda que está fora do consenso europeu".

Mas, pensando bem no assunto, será que faz sentido dizer que alguém, ou sobretudo um dado movimento, está fora do "consenso"? Afinal, se há pessoas que discordem desse "consenso", isso não significa que esse "consenso", afinal, não é "consenso"?

No fundo, dizer que as ideias de alguém estão "fora do consenso" equivale a um raciocínio circular do género "as tuas ideias não contam porque estão fora do consenso, e o facto de estares contra o chamado consenso não invalida a existência desse consenso, porque as tuas ideias não contam".

Thursday, May 22, 2014

E o não-golpe passa a golpe

Exército assume poder na Tailândia.

Sugestão para o livro de estilo da comunicação social

Quando a palavra "girls" se refere a alunas do ensino secundário, a tradução mais apropriada é "raparigas" e não "meninas".

Tuesday, May 20, 2014

Tempestade perfeita?

Imagine-se esta série de resultados nas eleições do próximo domingo (cada um destes resultados, individualmente, está perfeitamente dentro do possível):

- Syriza em primeiro lugar na Grécia
- UKIP, Frente Nacional, PVV, Partido do Povo Dinamarquês e Verdadeiros Finlandeses em primeiro lugar na Grã-Bretanha, França, Holanda, Dinamarca e Finlândia
- Sinn Fein e Partido Socialista nos dois primeiros lugares na Irlanda e na Holanda
- Aliança para a Alemanha com mais de 5% dos votos (nas eleições para o PE não há a regra dos 5%, mas há o efeito simbólico)
- NPD alemão elegar um eurodeputado (isso só irá acontecer por causa de uma mudança acidental da lei eleitoral, mas de novo há o efeito simbólico)
- Movimento 5 Estrelas em Itália com mais do que 25,5% (o resultado das últimas legislativas)

Se esta combinação de resultados (uns bons, outros maus, para o meu ponto de vista...) acontecesse (e o facto de cada um deles, individualmente, ser provável, não que dizer que seja provável os onze acontecerem), imagino que as noticias de segunda-feira, dia 26, fossem "Europa em choque" (e talvez, no caso da imprensa on-line, "bolsas em queda" e/ou "juros em alta")

Mas já não havia duas linguas estrangeiras obrigatórias?

O "Ministro da Educação admite segunda língua estrangeira obrigatória nas escolas". Mas no meu tempo, eu tive, do 7º ao 9º ano, duas línguas estrangeiras (inglês e francês).

Talvez o que ele queira dizer seja duas linguas estrangeiras obrigatórias durante mais que os 3 anos em que eram obrigatórias; o talvez seja haver duas linguas estrangeiras especificas obrigatórias (em vez de ser obrigatório ter duas línguas, mas essas línguas serem à escolha); mas esta é daquelas notícias que está escrita de uma maneira que é quase impossível perceber o que querem dizer efetivamente.

Não-golpe militar na Tailândia

Num golpe militar o exército toma o poder, expulsa os anteriores governantes dos seus gabinetes e retira-lhes os títulos (os ministros passam a ex-ministros).

Num não-golpe militar, o exército toma o poder, passa a governar a partir dos gabinetes do Estado Maior e os anteriores governantes continuam a manter o título e a passar os dias nos gabinetes de onde antes governavam.

Antes que alguém diga que o exército tailandês não "tomou o poder", noto que o exército (não o governo, o parlamento ou o rei) proclamou a lei marcial e estabeleceu a censura à comunicação social; haverá maior exercicio de poder do que proclamar a lei marcial?

Friday, May 16, 2014

Inteligência, personalidade e rendimentos

The Effects of Education, Personality, and IQ on Earnings of High-Ability Men [PDF], um estudo de 2011 sobre os efeitos da inteligência, escolaridade, traços psicológicos, etc., sobre o total de rendimentos ao longo da vida dos individuos do chamado "grupo Terman" (um conjunto de pessoas com um QI medido maior que 135 e que foram seguidos entre 1922 e 1991, sendo sujeitos a inquéritos periódicos.

Uma das conclusões do estudo (Tabela 5, página 44):


O que eu acho curioso nesses resultados - é que o rendimento tem uma correlação positiva com a inteligência (medida pelo QI), mas tem também uma correlação positiva com a extroversão e uma correlação negativa (ainda que não significativa) com "openness" (conceito que largamente corresponde a "curiosidade intelectual"); ou seja, o rendimento ao longo da vida será positivamente relacionado com inteligência, mas negativamente relacionado com traços de personalidade (como introversão e curiosidade intelectual) que, pelo menos a nível dos estereótipos populares, até costumam ser associados a inteligência.

Outro aspeto é que, pelo menos no contexto deste estudo, a extroversão parece ter mais efeito sobre o rendimento que a inteligência (ver também isto[PDF]); porque é que isto é digno de nota? Porque há décadas (quase séculos) que há uma enorma disputa intelectual sobre a inteligência: é mais genética ou mais resultado do ambiente? É um único fator ou é uma combinação entre vários fatores? Os testes de QI são ou não eficazes a medir a inteligência? Há diferenças relevantes a nível de inteligência entre populações distintas? Etc., etc. etc. (as polémicas à volta do conceito de inteligência são infindas). Ora, porque é que não há polémicas similares à volta da extroversão, que até parece ser um fator tão ou mais importante para o sucesso pessoal?

Eu tenho uma teoria sobre isso - é que é mais fácil extrapolar do "descritivo" para o "normativo" no caso da inteligência do que da extroversão: a tese de que as desigualdades sociais são justas porque são um resultado de diferenças de inteligência, e essas por sua vez são o resultado de diferenças genéticas tem alguma lógica (embora não tanto como pareça); afinal, é de esperar que pessoas mais inteligentes sejam mais "úteis à sociedade" (nomedamente descobrindo soluções para problemas), e portanto até poderá haver alguma justiça em ganharem mais. Já no caso da extroversão é mais díficil achar uma justiça intrinseca em pessoas extrovertidas ganharem mais (pode-se imaginar razões para em certos trabalhos pessoas extrovertidas serem mais produtivas, mas também se pode imaginar razões para serem menos noutros), e até é muito provável que um estudo indicando uma relação entre extroversão e altos rendimentos seja interpretado, não como justificando essa distribuição de rendimentos, mas, pelo contrário, como indicando que o sucesso depende de "cunhas", "contactos" e "redes de influências" (coisas em que é de supor que os extrovertidos estejam mais à vontade, até porque normalmente conhecem mais gente) e não do "mérito" pessoal.

Thursday, May 15, 2014

Keynesianismo e Estatismo

Há uns tempos, correu pela internet uma discussão sobre se o keynesianismo implica um peso elevado do Estado na economia (sobre isso, ver Russ Roberts, Paul Krugman, Chris Dillow , MarkThoma e António Costa Amaral / Steven Horwitz).

Do ponto de vista formal, não - o keynesianismo apenas implica que os deficits do Estado são bons para estimular a economia, nada dizendo acerca do valor total da despesa pública. Um governo que cobre 10% do PIB em impostos e faça despesas no valor de 15% (um deficit de 5%) está a fazer "estímulo" keynesiano; já um governo que cobre 62% de impostos e faça despesas no valor de 60% (um superavit de 2%), em principio não terá nada de keynesiano.

Ou seja, pelo menos em teoria, podemos ter orçamentos expansionistas com despesa pública reduzida, e orçamentos equilibrados com alta despesa pública (na prática, acho que o segundo caso é mais frequente que o primeiro).

Note-se que esta questão não deve ser confundida com outra, que é se o keynesianismo é a favor dos deficits, ou se é "apenas" a favor de uma combinação de deficits durante as recessões e de superavits durante as expansões - são assuntos diferentes: de novo, podemos ter grande despesa pública com orçamentos permanentemente equilibrados ou superavitários, tal como também poderíamos ter sempre deficit, mas uma despesa pública total relativamente pequena (na verdade, parece-me que o artigo de Horwitz falha um bocado a pontaria, porque apresenta-se como um artigo a demonstrar que o keynesianismo real implicará o "big government", mas para aí 95% do texto é dedicado a argumentar que o keynesianismo implica "big deficits", o que é um assunto diferente).

É verdade que o assunto dos deficits não é totalmente independente do volume da despesa pública - os deficits acumulados implicam mais dívida pública, logo mais juros, logo mais despesa (se um Estado tiver regularmente deficits - em percentagem do PIB - de "d" e o PIB crescer a uma taxa "g", suponho que a dívida publica em percentagem do PIB tenderá a convergir para d*(1+g)/g,). No entanto, pelo menos no mundo desenvolvido, penso que o principal motivo de elevadas despesas públicas são as despesas sociais, não os juros da dívida acumulada, pelo que esse efeito será pouco relevante na prática.

Mas, agora, a questão que Chris Dillow levanta é pertinente - se não há ligação lógica entre o keynesianismo e o "big government", porque é que, na discussão politico-económica do dia-a-dia, os defensores do keynesianismo tendem a ser também os defensores do intervencionismo estatal? Isto é, normalmente quem defende menos impostos, privatizações, desregulamentação, etc. são também os que se opõem às politicas keynesianas de gestão do ciclo económico, e vice-versa.

Já agora, eu diria que, na prática, não é raro encontrar "estatistas anti-keynesianos", que aumentam a despesa pública mas reduzindo os deficits, porque aumentam ainda mais os impostos (p.ex., Margaret Thatcher durante a maior parte do seu mandato); da mesma forma, as redução de impostos de G.W. Bush, feitas, a certa altura, com o argumento de "pôr dinheiro na economia", podem talvez ser vistas como uma forma de "liberalismo keynesiano". Mas, no plano dos princípios (não das politicas concretas) é raro ver alguém defender um "liberalismo keynesiano" (algo como "temos que reduzir os impostos durante as crises para as pessoas terem mais dinheiro para gastar" - embora eu tenha a teoria que a "economia do lado da oferta" mais não foi do que uma capa para em prática o "liberalismo keynesiano"); também não é muito frequente (embora seja mais) ver alguém defender o "estatismo anti-keynesiano" (algo como "para salvar o Estado Social - ou a Segurança Nacional - temos que ter finanças sólidas e equilibradas, sem deficits e de preferência com superavits"; no cenário actual, parece-me que uma versão moderada desse "estatismo anti-keynesiano" é típica dos auto-proclamdos "moderados", que por vezes vêm com conversas do género "ao contrário do que a esquerda quer, temos que atacar a sério o problema do déficit, mas, ao contrário do que a direita quer, sem radicalismos de corte nas despesas, mas também com aumentos de impostos").

[Um aparte - se não há defensores relevantes de uma politica orçamental expansionista com um Estado pequeno, há - ou houve, nalguns países no século XX - efectivamente um movimento político que se notabilizou por simultaneamente defender uma politica monetária expansionista e o Estado pequeno: o Crédito Social, sobretudo no Canadá.

Basicamente, o ponto principal do Partido do Crédito Social canadiano era uma expansão monetária constante, feita pelo método de periodicamente o Estado pagar um "dividendo" a cada cidadão - aqui, uma alegoria explicado a doutrina; fora isso, era um partido largamente liberal na economia e conservador nos costumes, por vezes até com algum anti-semitismo ocasional. Ora, como o Crédito Social nunca chegou a ter influência no governo nacional, e as tentativas dos seus governos locais para criar moedas paralelas foram consideradas ilegais, acabou por desempenhar na prática o papel de partido liberal-conservador, tendo sido durante muito tempo provavelmente o mais liberal dos grandes partidos canadianos; em 1973, o anarco-capitalista Samuel Konkin - pdf - descreveu-o como um "free market, pro-American party with a funny money policy they could not legislate because they had only controlled provincial governments"]

Algumas possíveis explicações para na prática haver uma convergência entre keynesianismo e estatismo:

- muita oposição ao intervencionismo estatal baseia-se na ideia de que os governantes não têm a informação (e talvez nem os incentivos) suficiente para tomar boas decisões acerca da economia; ora, a partir do momento em que se considera que o Estado deve estar no ramo de estabilizar a economia (mesmo que o faça com medidas aparentemente "liberais", como reduzir os impostos durante uma recessão) está-se implicitamente a admitir que o Estado tem capacidade para tomar essas decisões, e logo está-se a abrir a porta para outro género de intervenções

- também muita oposição ao intervencionismo baseia-se na ideia que os mercados conduzem a uma afetação eficiente de recursos; ora o keynesianismo acredita que os mercados podem falhar nessa tarefa, o que o torna uma teoria mais atrativa para "estatistas" do que para liberais

- num mundo (ou pelo menos numa civilização - a ocidental) em que grande parte da intervenção do Estado é promovida com o argumento de "tirar aos ricos para dar aos pobres", há uma afinidade entre o keynesianismo e as politicas redistributivas: por um lado, porque a própria existência de impostos progressivos (ou mesmo proporcionais) e de programas de assistência social é intrinsecamente keynesiano, na medida em que gera automaticamente um aumento do deficit durante as recessões (porque a carga fiscal diminui - já que as pessoas baixam de escalão do IRS - e as despesas sociais aumentam - já que há mais pobres) e uma redução durante as expansões, o que é exatamente a receita keynesiana; além disso, o keynesianismo tem implicito um enviesamento a favor do consumo (pelo menos se a economia estiver em recessão, em "armadilha de liquidez", etc., etc.) - ora, se partirmos do principio que as pessoas com menores rendimentos poupam uma menor proporção do seu rendimento (essa permissa é muito discutivel a nível académico, mas faz parte do chamado "senso comum"), isso quer dizer que as politicas redistributivas aumentam o consumo, levando os defensores dessas políticas a simpatizar com a economia keynesiana

- o modelo keynesiano das crises económicas é muito parecido com o modelo marxista dessas mesmas crises (crises de sobre-produção criadas pela escassez da procura e só possíveis num mundo em que exista moeda): pegue-se no modelo keynesiano, ponha-se os capitalistas a terem uma propensão ao consumo muito menor que os trabalhadores; estipule-se que os salários reais (em vez dos nominais) são rigidos no curto/médio prazo; e introduza-se no longo prazo uma tendência para o progresso tecnológico ser capital-intensivo - e temos o modelo marxista. Logo, as pessoas que têm uma formação de base essencialmente marxista tendem a se identificar com o modelo keynesiano (mesmo que digam que precisa de uns ajustes aqui e ali)

- mesmo que o keynesianismo não implique um Estado "grande" em termos quantitativos (isto é, que consuma uma grande percentagem do PIB), implica um Estado "grande" em termos qualitativos (isto é, um Estado que faça mais do que assegurar a justiça, a polícia e a defesa)

Leituras adicionais (mesmo que não sejam diretamente sobre o assunto, acha que acabam por o ser indiretamente):

- Why Are Libertarians Inflation Hawks?, por Timothy Lee

- Ayn Rand Endorses Big Government, por Stephan Kinsella


- Keynesianism, left & right, por Chris Dillow

Inesperadamente?

Segundo o Económico, a "economia portuguesa contraiu inesperadamente no primeiro trimestre do ano, recuando 0,7% face ao trimestre anterior".

A minha objeção é ao "inesperadamente" - desde que, há uma semana, o INE anunciou que o emprego havia diminuido, que havia razões para pensar que o PIB estaria a descer (não é obrigatório que uma redução do emprego esteja associada a uma redução do PIB - se a produtividade aumentar, podemos ter ao mesmo tempo uma redução do emprego e crescimento económico - mas há uma forte probabilidade de estar).

Wednesday, May 14, 2014

Sugestão de leitura

The Anti-Reactionary FAQ

Pelo menos duas objeções:

a) apesar de tudo, penso que as monarquias autoritárias (ou "tradicionais") tendem a ser melhores que as ditaduras temporárias (veja-se que as poucas que sobrevivem hoje em dia não têm no seu historias os banhos de sangue que muitas ditaduras temporárias cometeram no século XX) - bem, isto não é exatamente uma objeção já que autor não diz o contrário (ele critica é o truque de comparar "monarquias tradicionais" com "ditaturas temporárias + democracias" e dizer que o segundo grupo é pior que o primeiro)

b) o exemplo coreano parece-me um bocado forçado (facilmente se poderia arranjar argumentos - a começar pelas raizes ideológicas da fundação de cada Estado - para identificar o "progressismo" com o Norte e a "reacção" com o Sul em vez de o oposto)

Saturday, May 10, 2014

Ode to "Anarchy"

http://wetheindividuals.org/2014/05/09/ode-to-anarchy/

“Anarcho”-communists and “anarcho”-socialists out there are really pissed that I call myself an anarchist. I understand your concern, I really do. You have an identity to protect. That identity is intimately tied to the collectives you have chosen to let yourself be subsumed into. It’s an identity with a long history and tradition of luminous figures, lavish with tales of past glory. I understand how it must look to you, “anarcho”-capitalists coming in and wantonly appropriating your cherished terminology. It must seem like a real threat to that identity.

I do understand. I just don’t give a shit.

I use the word “anarchist” descriptively. It’s a wonderlfully useful word. Just like “atheist” is one without theism, “anarchist” is one without… archy. Honestly, if the word had never been used before, or even if I had just thought it up on my own, I’d still use it.

You and I, we have different definitions of that “archy” part, but, really, I don’t give a shit about that, either. Words are to facilitate communication, and the word “anarchist” in all its forms does work in that regard. Sure, I have to go on to qualify it, pin it down, tease out the precise meaning I intend, when I use it with people not familiar with the broad landscape of anarchist thought. But that’s fine. It’s more than fine, it’s a plus.

Good words are ones that start conversations, not end them. I’m happy, eager even, to have the conversation that comes after I tell someone “I am an anarchist”. If I used a more technical and precise term – which in fact would have to be a long string of terms unintelligible to most people – it would be no more informative to the uninitiated. In fact, it would be less informative, and the sheer weight of jargon that would need to be digested would not facilitate communication, it would shut it down. “Anarchist” has just enough familiarity, just enough baggage, that my conversational partner becomes curious rather than intimidated.

I certainly don’t use the word because I want to muscle in on your collective, to appropriate for my own purposes the cachet of your history and tradition. In fact, the usual immediate consequence of beginning that conversation is that I have to distance myself from all that. People who know me, even a little bit, and know that history, even a little bit, see a disconnect between the two. That makes them curious. It starts a conversation.

I usually go on to explain that, no, I’m not anti-capitalism, I am enthusiastically in favor of it, but that I am anti-corporatist (another conversation starter all by itself). I have to tell them no, I’m not out there vandalizing things every chance I get in order to destroy society (and I usually mention that most left-anarchists I know aren’t either), but that I have peaceful means in mind. I tell them that no, the people the media calls anarchists are not really anarchists, they’re just run of the mill socialists or communists who want the state on their side, which is hardly an anarchist position. I explain to them how I am not interested in taking over the government, nor really in even destroying it per se, but rather in abandoning it, being free of it, and letting it wither on the vine when enough people decide they’ve had enough of it and see those of us who preceded them living better than they do.

So don’t worry, I’m not trying to hijack your history. I wouldn’t if I could, because it is of no use to me – except maybe as a foil in conversation. I don’t want your traditions, though some bits and pieces of the intellectual work done in it are useful. Most of all, I don’t want to be part of your collective identity. I want nothing to do with it, I want no association with it, aside from a few friends who have at least one foot in it.

You can keep it. You just don’t get to keep the word all to yourselves. It’s a useful word, and I am damn well going to use it. And I’ll use it despite, not because of, its historical baggage. I don’t want to forge a collective identity, even with other anarcho-capitalists. We’re not a club or an identity group, just a bunch of individuals who share some, not all, of the same values and like the idea of cooperating wherever there is overlap. Most of us care about your collective history far, far less than you do. Your little collectives are safe from incursion by us.

So stop your whining… or don’t. Far be it from me to tell you what to do.

Jeff Peterson II

We the Individuals

 

 


Thursday, May 08, 2014

Qual o partido mais parecido consigo?

Um site para vermos qual o partido cujas posições são mais parecidas com as nossas, tanto a nível português como europeu (via Luís Aguiar-Conraria).


Outro site do mesmo género, mas que dá resultados ligeiramente diferentes (e creio ainda não permitir a comparação com todos os países da UE).

Métodos "humanos" de execução

A Lethal Injection of Reality, por Jacob Sullum (Reason):

[L]ethal injection, first adopted by Oklahoma in 1977, is supposed to be "the most humane form" of capital punishment, as New Jersey Gov. Tom Kean called it when he signed a bill reinstating the death penalty in 1982. But in this context, "humane" really means "acceptable." The point is not to make condemned murderers comfortable; the point is to make us comfortable.

But if preventing unnecessary pain is the goal, it is hard to improve on the firing squad or the guillotine. Such old-fashioned methods were abandoned not because they were too painful but because they were too bloody.

As Lockett's execution vividly demonstrated, those two concerns are distinct. One has to do with how a condemned prisoner feels as we kill him; the other has to do with how we feel about killing him. Medicalizing executions helps us avoid the latter question.





Wednesday, May 07, 2014

A opinião socialmente correta sobre os jogos de computador

A opinião dominante sobre os jogos de computador (pelo menos entre as pessoas que não os jogam e não tem idade para começarem a jogá-los) parece ser globalmente negativa, normalmente com os argumentos que:

- as crianças e jovem acabam por ficar muito tempo imersas num "mundo" que não é o mundo real

- não fazem exercicio

- tornam-se socialmente isoladas; mesmo quando estão a jogar on-line com amigos, é um relacionamente diferente do que existiria se estivessem a interagir diretamente com o amigo ao lado

Outra opinião dominante (largamente promovida por pais, professores e o establishmente educacional em geral) é que se deve incentivar nas crianças e jovens o gosto pela leitura.

"PMEs"?

Uma coisa que há muito ando a pensar é se o conceito de PMEs ("pequenas e médias empresas") faz sentido - nomeadamente se há alguma razão para tratar as "pequenas" e as "médias" empresas como se, em conjunto, constituissem uma espécie de agrupamento natural, e as "grandes" empresas um outro agrupamento.

Vamos pensar em possiveis pontos da dimensão de uma empresa em que se possa considerar que se estabelece uma diferença qualitativa.

Empresas em que só o proprietário e os seus familiares lá trabalham, vs empresas que recorrem a assalariados - essa diferença é fundamental, p.ex., para se averiguar do impacto das leis laborais sobre as empresas: para uma empresa que não tenha empregados, em principio o efeito de maior ou menor rigidez laboral é nula. Por vezes há quem diga que leis laborais "rigidas" afetam sobretudo as pequenas empresas; mas se for assim o efeito provavelmente não é monotónico: mesmo que admitamos que as pequenas empresas com empregados tem mais problemas por causa das leis laborais do que as grandes empresas, suponho que as pequenas empresas que nem chegam a ter empregados terão menos problemas com essas leis dos que as grandes e as pequenas com empregados. Outra diferença é que uma empresa sem empregados pode (em certas circunstâncias) nem ter uma sede, e funcionar em casa ou na garagem do empresário, ou ter o equipamento numa carrinha (isto só funciona para uma empresa que não tenha loja aberta ao público); já uma empresa com empregados de certeza necessita de instalações próprias.

Empresas em que os assalariados constituem uma minoria do total dos trabalhadores, vs. empresas que em que são uma maioria - esta é uma variante da anterior (e até se pode argumentar que agora estamos a tratar mais de uma diferença quantitativa do que a tal diferença qualitativa que falei inicialmente) e talvez se possa argumentar que a diferença não está bem na "maioria", mas continua a ter diferença sobre o impacto das leis laborais se a força de trabalho é ou não composta maioritariamente (ou essencialmente) por assalariados ou não.

Empresas em que todos estão sob a supervisão directa do patrão vs. empresas em que há chefes a mandar em chefes - creio que cada empregado trabalhar junto com o patrão gera um relacionamento social dentro da empresa diferente de quando os trabalhadores "de base" têm supervisores, gerentes, diretores, etc., entre eles e o patrão. Isso faz diferença tanto a nivel do que pode ocorrer em conflitos laborais, como em termos de facilidade com que um trabalhador pode, p.ex., apresentar uma sugestão para melhorar o funcionamento da empresa. É também o ponto em que passa a existir problemas "de agência", com o patrão a ficar sempre na dúvida se os empregados estão a trabalhar bem.

Empresas em que o patrão passa a maior parte do tempo em funções técnicas na produção do produto da empresa, vs. empresas em que o patrão passa a maior parte do tempo em funções de gestão - ou seja, um dono de um restaurante que é essencialmente um cozinheiro, em comparação com um dono de um restaurante que tem pessoas contratadas para serem cozinheiros e que passa a maior parte do tempo em reuniões com clientes, bancos ou fornecedores e a gerir as contas. Há tempos, numa das múltiplas discussões que costuma surgir na internet sobre o que é empreendedorismo, alguém expôs a teoria que a diferença entre um "empreendedor" e um "trabalhador por conta própria" é "se a empresa pára quando não está, não és um empreendedor, és um trabalhador por conta própria" (suspeito que era mais ou menos nesta diferença que ele estaria a pensar).

Empresas que operam num só país vs. empresas que operam em vários países - de novo, há aqui uma diferença qualitativa, entre que ter que trabalhar sob um único sistema legal, versus ter que gerir leis diferentes, provavelmente ter que registar filiais nos vários países (e também o lado positivo de por vezes poder fazer o lucro aparecer no país em que dá mais jeito).

Bem, e alguém vê aqui uma linha divisória entre "PMEs" e grandes empresas? Eu não. As duas primeiras parecem-me o que faz a diferença entre uma micro-empresa e pequena/média/grande empresa; a terceira e a quarta parecem-me ser a diferença entre uma pequena e uma média/grande empresas; a quinta não me parece muito relevante, porque tanto médias como grandes empresas podem trabalhar em vários países ou só num.

Ou seja, em vez de se falar em PMEs por um lado e grandes empresas por outro, talvez fizesse mais sentido falar em GMEs por um lado e pequenas empresas por outro.

Tuesday, May 06, 2014

Keynes contra Hayek?

Está na moda, sejam em debates ou em videoclips, a oposição entre Keynes e Hayek (e suponho que ambos concordariam com essa oposição).

Mas será que muito do anti-keynesianismo actual não será ainda mais anti-hayekiano do que o próprio keynesianismo?

Primeiro, uma recapitulação das opiniões dos protagonistas:

a) Keynes achava que as recessões eram provocadas por uma escassez de procura, e que portanto a solução para isso era o Estado aumentar o deficit (aumentando as despesas e/ou reduzindo os impostos); para Keynes, nem sequer era necessário que o Estado fizesse despesa em coisas úteis - mesmo que o dinheiro fosse gasto a abrir a tapar buracos, as pessoas contratadas para fazer esse trabalho iriam depois gastar o ordenado a comprar bens que fossem úteis para eles, e as pessoas a quem eles fizessem compras iriam também comprar coisas úteis noutros sitios, e assim por diante... de forma que mesmo a despesa inútil iria estimular a produção de bens úteis

b) Hayek escreveu muita coisa, sobre vários assuntos; mas penso que o aspecto mais marcante do seu pensamento é a ideia de que é impossivel os decisores centrais conseguirem ter acesso a toda a informação que está dispersa pelos milhões de individuos na sociedade, logo o planeamento centralizado (ou tudo o que se aproximasse disso) estaria condenado ao fracasso

Agora, há pelo menos duas possiveis maneiras de não ser keynesiano - uma é defender que não se deve fazer politica nenhuma para combater as crises económicas e que o mercado resolverá o problema por si; a outra é achar que, já que as crises têm a sua raiz em problemas de oferta e não da procura, então se o Estado intervir deve ser no sentido de solucionar esses problemas do lado da oferta (exemplo clássico: formação profissional / "qualificações").

O primeiro tipo de não-keynesianismo (vamos chamar-lhe "não-keynesianismo liberal") é típico da direita mais "conservative"/"libertarian" norte-americana e de alguns circulos intelectuais na Europa; já o segundo tipo (vamos chamar-lhe "não-keynesianismo intervencionista") é típico tanto da esquerda "responsável e não-dogmática" como da direita "responsável e não-dogmática" (o discurso típico é "não acreditamos nas velhas ideias de gastar dinheiro a torto e a direito para resolver os problemas, mas também não somos nenhuns neo-liberais; achamos que o Estado tem um papel importante, mas em sectores especificos - educação, infra-estruturas, promoção do «empreendedorismo», etc.- necesários para sustentar o crescimento económico a longo prazo").Penso que o "não-keynesianismo intervencionista" é mais frequente na Europa, mas também aparece nos EUA (p.ex., por vezes alguns artigos do David Brooks, que se calhar é mais um "conservador europeu que por acaso é americano" do que um "conservador americano", parecem-me um pouco nessa linha).

Aliás, arrisco-me a dizer que a única variante de "não-keynesianismo" que é politicamente vendável na Europa é a "intervencionista" - basicamente, os eleitores europeus nunca votariam num partido que, perante uma recessão, dissesse "não vamos fazer nada".

Bem, agora vamos ao que é suposto ser o ponto central deste post: é que, a partir do momento que se aceita que o Estado deve fazer alguma coisa para combater as crises, a visão keynesiana acaba por ser também a mais "hayekiana" - a tradicional politica keynesiana de estimular a economia via aumento da procura (nem que seja gastando dinheiro em coisas inúteis, como bunkers contra uma invasão extra-terrestre imaginária) requer muito menos "conhecimento" por parte dos decisores politicos do que as politicas não-keynesianas de estimular a economia resolvendo os supostos problemas do lado da oferta (que normalmente implicam muito maior micro-gestão por parte do governantes, para descobir quais são esses problemas e como resolvê-los), logo acaba por sofrer menos com o problema hayekiano de os planificadores centrais não terem acesso a toda a informação (o não-keynesianismo intervencionista até pode, em termos quantitativos, interver menos - p.ex., no sentido de a despesa pública representar uma menor percentagem do PIB - mas essa intervenção, nos setores em que ocorre, tem o potencial para ser muito mais detalhada e minuciosa).

Um exemplo do que escrevo é a famosa ideia do "Banco de Fomento" - não acho que este governo seja "o mais neo-liberal de sempre" (provavelmente esse terá sido o de Cavaco Silva - se considerarmos que os seus três governos foram na prática um governo prolongado por 10 anos), mas é seguramente o mais anti-keynesiano de sempre; e mesmo as suas políticas não-liberais (como o tal banco) têm essa marca anti-keynesiana: como bons anti-keynesianos, chegaram à conclusão que o problema fundamental que as empresas portuguesas enfrentavam não poderia ser um problema de falta de procura, mas teria que ser um problema do lado da oferta (que outra coisa poderia ser?), neste caso uma dificuldade das empresas em obter crédito (por uma qualquer razão misteriosa, os bancos privados não estariam a conceder empréstimos a projetos de investimento perfeitamente viáveis e com uma excelente relação rentabilidade/risco); logo, a solução para esse problema foi criar mais um banco público (ou qualquer coisa que não é bem um banco, mas será como um banco) para apoiar as empresas.

Monday, May 05, 2014

O massacre de Odessa

Lendo e ouvido muitas notícias sobre o que se passou em Odessa na última sexta-feira, parece que o resumo é "cerca de 40 pessoas não identificadas morreram num fogo que se ateou por combustão espontânea"; porque é que quase nenhuma notícia refere que um grupo de ultranacionalistas ucranianos incendiou um acampamento de manifestantes pró-russos?

É que nem é uma questão de tal ser polémico - penso que os poucos jornais que relataram a versão identificando a facção que ateou o incêndio não receberam qualquer desmentido.

Razão antes do tempo?

Transfusões de sangue jovem podem inverter envelhecimento (Expresso)

Elizabeth Báthory (Wikipedia)

Thomas Piketty

Se percebi bem o que tenho lido sobre o livro de Thomes Piketty, a sua tese central é que a riqueza acumulada pelas principais famílias capitalistas irá ser cada vez maior face ao conjunto da economia (se a taxa de remuneração do capital for maior que a taxa de crescimento da economia).

A minha dúvida é se essa compraração em que de um lado temos um stock (a riqueza dos capitalistas) e do outro um fluxo (o rendimento total da economia) fará sentido.