Monday, June 04, 2012

Desemprego e salários

João Miranda argumenta que "se o [des]emprego é elevado os salários têm que baixar" (pelo menos, acho que era isso que ele queria dizer) e que o "desemprego não é um problema de falta de investimento, ou de impostos elevados, ou de falta de consumo. É um problema de preço. É sempre possível conciliar baixo investimento, impostos elevados e consumo baixo com desemprego baixo desde que o preço do trabalho seja baixo".

Isso fará sentido?

De certa forma, até pode fazer. Se, numa economia aberta, os salários nominais baixarem, as empresas podem também praticar preços mais baixos, logo podem a) exportar mais; e b) fazer mais concorrência às importações no mercado interno. Assim, se as empresas passam a vender mais produtos, irão contratar mais gente e o desemprego vai diminuir (note-se que falo de uma economia aberta; numa economia fechada - ou relativamente fechada - também há um mecanismo pelo que a redução dos salários pode reduzir o desemprego, mas é mais complicado).

Mas, na prática, essa solução tem 3 grandes problemas:

- Num país fortemente endividado, uma redução dos salários (e provavelmente dos preços) vai implicar um aumento do valor real da dívida (se a dívida em euros se mantém igual mas os salários e preços baixam, a divida em termos reais - e o esforço para a pagar - aumenta).

- Nem é certo que o desemprego diminua: sim, a redução dos salários faz aumentar as exportações e diminuir as importações; mas pelas razões expostas acima, o rendimento real do país vai provavelmente diminuir (já que uma proporção maior da riqueza gerada vai para fora sob a forma de juros e amortizações de dívidas). Ora, com um rendimento final mais baixo, a procura interna vai-se reduzir ainda mais, e não é liquido que esse efeito - para baixo - seja  mais fraco que o efeito - para cima - de aumento das exportações/redução das importações.

- Finalmente, há vasta experiência empírica demonstrando que é díficil baixar salários nominais - até porque, mesmo que, colectivamente, os assalariados em conjunto até pudessem pensar "bem, se os salários baixarem 30%, os preços também hão de baixar alguma coisa - talvez uns 15%? - logo talvez nem percamos assim tanto como parece", para cada assalariado individual uma redução de 30% no seu salário nominal significa que o seu salário real será sempre 30% menos do que seria se ele não tivesse aceite a redução, pelo que os trabalhadores muito dificilmente aceitam grandes redução do seu salário. Na prática (pelo menos em sociedades com sistemas políticos e económicos como o nosso) a única maneira de forçar a descidas significativas dos salários nominais é ter massas de desempregados significativas (o famoso "exército de reserva") que possam ser usados como ameaça para forçar os empregados a aceitar grandes reduções salariais ("há 20 prontos a ocuparem o teu lugar") - ora, uma estratégia para reduzir o desemprego que, para conseguir ser implementada, está dependente que haja muito desemprego, é potencialmente problemática (mas atenção à referência que fiz a "sistemas políticos e económicos como o nosso" - se, em vez disso, estivermos a falar de um regime autoritário e em que os salários sejam fixados por arbitragem obrigatória entre o Estado, o sindicato oficial e a associação patronal oficial, aí baixar salários - e mantê-los baixos mesmo que o desemprego baixe - é mais simples; mas, felizmente, não é essa a nossa situação).

2 comments:

José Freitas said...

«A Censura anda muito activa nos comentários dos blogs. Espero que deixe passar este comentário.
Em www.anticolonial21.blogspot.com está a verdade inconveniente sobre a cópia de partes de «Cette nuit la liberté» por Miguel Sousa Tavares para o livro «Equador».

Miguel Madeira said...

Eu escrevi em tempos algo sobre isso:

http://ventosueste.blogspot.pt/2006/10/as-acusaes-de-plgio-mst.html