Tuesday, June 18, 2013

Os economistas e a crise

No contexto desta discussão n'O Insurgente, alguém comentou que " Na crise americana do sub-prime o que não faltava era génios em econonomia a tomar decisões que levaram à ruina de muita gente que não foi tida nem achada no processo."

Mas antes de comentar esse ponto, vou primeiro fazer duas outras observações relacionadas com essa discussão.

Em primeiro lugar, penso que algum Miguel (o Madeira ou o Noronha) estará enganado na interpretação do juízo de valor que Pacheco Pereira dá à "popularização da economia"; pelo menos eu quando li os posts fiquei com a ideia (até por este post) que JPP considerava isso como uma das consequências positivas da crise; já o Miguel Noronha parece-me que terá ficado com a ideia que JPP estava contra essa "popularização" (já agora, este comentário do lucklucky só me parece fazer sentido se a interpretação de M. Noronha for a correcta). Normalmente, essa dúvida seria resolvida com o recurso à "interpretação autêntica" - o próprio autor esclarecer a sua posição; mas como JPP não participa de forma bilateral nas discussões na blogosfera, temos que nos dedicar a essa discussão exegética para tentarmos perceber o sentido do seu texto.

Em segundo lugar, tenho algumas dúvidas sobre o que outro comentador escreve, de que "a História mostra-nos que muitos génios da Literatura, Filosofia ou das Artes nunca foram gestores responsáveis das suas contas"; posso estar totalmente errado nisto que vou escrever, mas pelo menos no caso dos "génios" da literatura e da filosofia (as artes são provavelmente um caso à parte), tenho a ideia que, nos casos em que passaram grande parte da vida e/ou acabaram na miséria foi menos por não gerirem bem as contas (aliás, em tempos até havia a teoria de que o jeito para a filosofia andaria ligado ao para a matemática, que alguma base deve ter tido) e mais por, pura e simplesmente, entrar pouco dinheiro por o seu produto ter pouco mercado (isto ponto vai ser relembrado mais para a frente no post).

Mas vamos regressar ao ponto central - os economistas (ou economistas, sem "os") serão assim tão responsáveis pelas decisões que levaram à presente crise?

Duas instituições podem ser vistas como emblemáticas da crise de 2008 - o Lehman Brothers, que faliu, e o Citigroup, que precisou (e penso que continua a precisar) do apoio do governo norte-americano.

Assim, fui à procura de quem eram os administradores de um e do outro na altura (bem, os do Citigroup são de fevereiro de 2009, mas suponho que fossem os mesmos) e tentar ver qual a sua "área"; nalguns casos não consegui e o sistema académico anglo-saxónico parece-me ter peculiaridades (comparada com o português) que tornam difícil o exercício; e em certos casos não é claro o que deverá ser exactamente a área (a área acadêmica? o ramo em que estiveram quase toda a sua vida?). De qualquer maneira, foi isto que apurei:


[o "board of directors" do Citigroup parece - ou parecia - um Who's Who cruzado das empresas, das "instituições sem fins lucrativos" e da administração pública]

E nestas 25 pessoas, teremos para aí... uns 5 economistas (penso que "finanças" é metodologicamente muito parecida com economia para podermos juntar tudo). Alguns poderão perguntar "e todos esses formados em gestão, com MBAs e afins?"; mas (pelo menos pela minha experiência) "gestão" e "economia" têm muito pouco em comum - os assuntos são diferentes, as bases teóricas são bastante diferentes (e por vezes quase opostas - no mundo da micro-economia neo-clássica mal há lugar para o próprio conceito de "gestão"), aposto que a própria personalidade das pessoas que vão para cada área é diferente (p.ex., quase que aposto que as as pessoas de gestão acreditam mais em coisas como "pensamento positivo" e "força de vontade", enquanto que as pessoas de economia confiam mais no raciocínio lógico e analítico - se for assim, é de esperar que o pessoal de gestão seja mais dado a "optimism bias" e a falências monumentais ocasionais).

Aliás, a minha teoria de que os escritores e filósofos pobres o são, não por gerirem mal o dinheiro, mas sobretudo por ganharem pouco dinheiro à partida até pode ser interpretada à luz do binómio economia/gestão - bem, é de supor que alguém da área de gestão saiba gerir bem o dinheiro, mas penso que ainda mais alguém de economia (tão habituados que estão a resolver problemas matemáticos de maximização de utilidade ou de minimização de custos); já o conseguir vender o seu produto (neste caso, os livros) depende essencialmente de ramos da área de gestão (marketing, prospecção de clientes, hbilidade negocial, etc).

6 comments:

miguel said...

Esta discussão deixa um gajo exasperado :)

Vamos concordar que género humano tem uma certa tendência para se comportar de uma maneira individualista e que maximize os seus ganhos pessoais, mesmo que isso vá contra um interesse geral social. Vamos concordar que esta característica manifesta-se mais nuns indivíduos que noutros, e que esta distribuição é independente da ocupação e interesses intelectuais dos individuos. Vamos concordar que, com probabilidade semelhante ao de qualquer outra profissão, existem indivíduos ocupando altos cargos no mundo financeiro, que não são modelos em aspectos morais e de ética. Vamos concordar que potenciais acções de alguns destes indivíduos podem levar a danosas consequências a nível social, mesmo que estes estejam conscientes desse risco. Se este último caso acontece, discutir o papel que uma hipotética formação académica teve na tomada de decisões socialmente arriscadas, não é confundir um bocado as coisas?

João Vasco said...

«Vamos concordar que género humano tem uma certa tendência para se comportar de uma maneira individualista e que maximize os seus ganhos pessoais, mesmo que isso vá contra um interesse geral social.»

Há situações em que sim, existe essa tendência - há situações em que não, existe a tendência oposta (comportar-se de forma gregária, manifestar empatia, estar disposto a aceitar algum prejuízo para manter um sentido de reciprocidade e justiça, comportar-se de forma irracional/emocional contrariando aquilo que seriam os seus interesses pessoais).

«vamos concordar que esta característica manifesta-se mais nuns indivíduos que noutros, e que esta distribuição é independente da ocupação e interesses intelectuais dos individuos»
Não sei porquê.
Sinceramente, imagino que exista alguma relação. Porque seria independente "a priori"?

«Vamos concordar que, com probabilidade semelhante ao de qualquer outra profissão, existem indivíduos ocupando altos cargos no mundo financeiro, que não são modelos em aspectos morais e de ética.»
Ha dados empíricos que sugerem o contrário. Que a probabilidade varia com a profissão (altos quadros dirigentes tendem a ser menos honestos).

«Vamos concordar que potenciais acções de alguns destes indivíduos podem levar a danosas consequências a nível social, mesmo que estes estejam conscientes desse risco. »
De acordo.

«Se este último caso acontece, discutir o papel que uma hipotética formação académica teve na tomada de decisões socialmente arriscadas, não é confundir um bocado as coisas?»
Não é uma confusão, mas sim uma discussão interessante.

Não só não é afirmado em lugar algum que o objectivo dessa discussão é lidar com as ditas "acções nefastas" - pode ser pura curiosidade sobre como o mundo funciona - como até não me parece nada claro que a contribuição para esse objectivo seja nula.


Na verdade, eu já tinha a noção de que a culpa não era "dos economistas" que pensam de forma muito diferente daquilo que as pessoas julgam que pensam.

Como os órgãos de comunicação social são em grande medida controlados pelos poderosos, os economistas que têm "voz" não são muito representativos do debate académico nessa área.

Posto isto, não fazia ideia que entre os dirigentes das maiores instituições envolvidas na crise de 2008 tão poucos tivessem formação nessa área académica.
Isso foi realmente surpreendente, e interessante.

miguel said...

"Ha dados empíricos que sugerem o contrário. Que a probabilidade varia com a profissão (altos quadros dirigentes tendem a ser menos honestos)."

Bom, nesse caso ainda dás mais razão ao meu ponto. A minha assumpção de que a probabilidade de "desonestidade" é independente da ocupação que se tem vale apenas para concluir que existe uma probabilidade de se encontrarem, no mundo financeiro, acções movidas pelo egoismo pessoal - e não pelas regras de uma qualquer teoria económica. O que é óbvio. E que convém identificar as situações onde tal acontece, antes de partir para análises que incorporem as tais teorias economicas.

João Vasco said...

«uma probabilidade de se encontrarem, no mundo financeiro, acções movidas pelo egoismo pessoal - e não pelas regras de uma qualquer teoria económica.»

De acordo.


«E que convém identificar as situações onde tal acontece, antes de partir para análises que incorporem as tais teorias economicas.»

Aqui é que discordo.

Se estivéssemos a falar de um partido, ou de um grupo de acção política, em que importa definir prioridades de acção, para que o que aconteceu não se volte a repetir, e ter eficiência máxima na acção, isso faria sentido.

Mas se estivermos a falar no âmbito de um blogue pessoal, de uma discussão movida pela curiosidade, do interesse - seja académico ou amador - em saber qual o impacto das profissões das pessoas "responsáveis" pelo que aconteceu, das ideias com que foram educadas e acreditam, etc.. Então aí acho que essa sugestão/crítica não tem pertinência.

É interessante conhecer as motivações e mecanismos que levariam a que uma situação destas acontecesse, independentemente das crenças, da formação, das ideias aceites como verdadeiras nesse meio.

Mas não deixa de ser também muito interessante saber o impacto da formação, das crenças, das ideias aceites nesse meio na maior ou menor probabilidade de acontecer aquilo que aconteceu.

E escrever sobre um assunto nada obsta a que se escreva sobre o outro.

miguel said...

mas se coisas como ganância e egoismo individual foram a causa das acções irresponsáveis que foram tomadas no mundo financeiro, isto tem que entrar em consideração. por exemplo: imagina que quem trabalha no mundo financeiro tende a subscrever teoria economica X, e imagina que a natureza desse mundo financeiro tende a potenciar comportamentos de riscos, movidos por uma vontade (necessidade) de lucros cada vez maiores e cada vez mais rápidos. Tentar associar os comportamentos dos jogadores financeiros com a teoria X é procurar uma associação onde ela pode não existir - se a teoria fosse Y em vez de X, os comportamentos seriam diferentes? E pior, é algo que pode ser injusto para a teoria X, que se vê associada a comportamentos humanos reprováveis e que irá tender a ser rejeitada por isso mesmo.

João Vasco said...

Saber mais sobre as correlações que existem é sempre bom. Podem dar pistas sobre relações causais, e nada obriga (pelo contrário) que sejam automaticamente assumidas.
Isto é um ponto geral.

Por outro lado, as crenças e as motivações têm relações bidireccionais: não são apenas as crenças que têm impacto nas motivações, as motivações também têm impacto nas crenças (quem procura a verdade deve esforçar-se para que isto aconteça o mínimo possível).

Por exemplo, alguns poderosos acreditam genuinamente que o mundo seria um lugar melhor se as políticas fossem alteradas num sentido que, se formos a ver, lhes seria favorável. Depois podem promover essas ideias/políticas acreditando que o fazem altruisticamente.