Thursday, May 15, 2014

Keynesianismo e Estatismo

Há uns tempos, correu pela internet uma discussão sobre se o keynesianismo implica um peso elevado do Estado na economia (sobre isso, ver Russ Roberts, Paul Krugman, Chris Dillow , MarkThoma e António Costa Amaral / Steven Horwitz).

Do ponto de vista formal, não - o keynesianismo apenas implica que os deficits do Estado são bons para estimular a economia, nada dizendo acerca do valor total da despesa pública. Um governo que cobre 10% do PIB em impostos e faça despesas no valor de 15% (um deficit de 5%) está a fazer "estímulo" keynesiano; já um governo que cobre 62% de impostos e faça despesas no valor de 60% (um superavit de 2%), em principio não terá nada de keynesiano.

Ou seja, pelo menos em teoria, podemos ter orçamentos expansionistas com despesa pública reduzida, e orçamentos equilibrados com alta despesa pública (na prática, acho que o segundo caso é mais frequente que o primeiro).

Note-se que esta questão não deve ser confundida com outra, que é se o keynesianismo é a favor dos deficits, ou se é "apenas" a favor de uma combinação de deficits durante as recessões e de superavits durante as expansões - são assuntos diferentes: de novo, podemos ter grande despesa pública com orçamentos permanentemente equilibrados ou superavitários, tal como também poderíamos ter sempre deficit, mas uma despesa pública total relativamente pequena (na verdade, parece-me que o artigo de Horwitz falha um bocado a pontaria, porque apresenta-se como um artigo a demonstrar que o keynesianismo real implicará o "big government", mas para aí 95% do texto é dedicado a argumentar que o keynesianismo implica "big deficits", o que é um assunto diferente).

É verdade que o assunto dos deficits não é totalmente independente do volume da despesa pública - os deficits acumulados implicam mais dívida pública, logo mais juros, logo mais despesa (se um Estado tiver regularmente deficits - em percentagem do PIB - de "d" e o PIB crescer a uma taxa "g", suponho que a dívida publica em percentagem do PIB tenderá a convergir para d*(1+g)/g,). No entanto, pelo menos no mundo desenvolvido, penso que o principal motivo de elevadas despesas públicas são as despesas sociais, não os juros da dívida acumulada, pelo que esse efeito será pouco relevante na prática.

Mas, agora, a questão que Chris Dillow levanta é pertinente - se não há ligação lógica entre o keynesianismo e o "big government", porque é que, na discussão politico-económica do dia-a-dia, os defensores do keynesianismo tendem a ser também os defensores do intervencionismo estatal? Isto é, normalmente quem defende menos impostos, privatizações, desregulamentação, etc. são também os que se opõem às politicas keynesianas de gestão do ciclo económico, e vice-versa.

Já agora, eu diria que, na prática, não é raro encontrar "estatistas anti-keynesianos", que aumentam a despesa pública mas reduzindo os deficits, porque aumentam ainda mais os impostos (p.ex., Margaret Thatcher durante a maior parte do seu mandato); da mesma forma, as redução de impostos de G.W. Bush, feitas, a certa altura, com o argumento de "pôr dinheiro na economia", podem talvez ser vistas como uma forma de "liberalismo keynesiano". Mas, no plano dos princípios (não das politicas concretas) é raro ver alguém defender um "liberalismo keynesiano" (algo como "temos que reduzir os impostos durante as crises para as pessoas terem mais dinheiro para gastar" - embora eu tenha a teoria que a "economia do lado da oferta" mais não foi do que uma capa para em prática o "liberalismo keynesiano"); também não é muito frequente (embora seja mais) ver alguém defender o "estatismo anti-keynesiano" (algo como "para salvar o Estado Social - ou a Segurança Nacional - temos que ter finanças sólidas e equilibradas, sem deficits e de preferência com superavits"; no cenário actual, parece-me que uma versão moderada desse "estatismo anti-keynesiano" é típica dos auto-proclamdos "moderados", que por vezes vêm com conversas do género "ao contrário do que a esquerda quer, temos que atacar a sério o problema do déficit, mas, ao contrário do que a direita quer, sem radicalismos de corte nas despesas, mas também com aumentos de impostos").

[Um aparte - se não há defensores relevantes de uma politica orçamental expansionista com um Estado pequeno, há - ou houve, nalguns países no século XX - efectivamente um movimento político que se notabilizou por simultaneamente defender uma politica monetária expansionista e o Estado pequeno: o Crédito Social, sobretudo no Canadá.

Basicamente, o ponto principal do Partido do Crédito Social canadiano era uma expansão monetária constante, feita pelo método de periodicamente o Estado pagar um "dividendo" a cada cidadão - aqui, uma alegoria explicado a doutrina; fora isso, era um partido largamente liberal na economia e conservador nos costumes, por vezes até com algum anti-semitismo ocasional. Ora, como o Crédito Social nunca chegou a ter influência no governo nacional, e as tentativas dos seus governos locais para criar moedas paralelas foram consideradas ilegais, acabou por desempenhar na prática o papel de partido liberal-conservador, tendo sido durante muito tempo provavelmente o mais liberal dos grandes partidos canadianos; em 1973, o anarco-capitalista Samuel Konkin - pdf - descreveu-o como um "free market, pro-American party with a funny money policy they could not legislate because they had only controlled provincial governments"]

Algumas possíveis explicações para na prática haver uma convergência entre keynesianismo e estatismo:

- muita oposição ao intervencionismo estatal baseia-se na ideia de que os governantes não têm a informação (e talvez nem os incentivos) suficiente para tomar boas decisões acerca da economia; ora, a partir do momento em que se considera que o Estado deve estar no ramo de estabilizar a economia (mesmo que o faça com medidas aparentemente "liberais", como reduzir os impostos durante uma recessão) está-se implicitamente a admitir que o Estado tem capacidade para tomar essas decisões, e logo está-se a abrir a porta para outro género de intervenções

- também muita oposição ao intervencionismo baseia-se na ideia que os mercados conduzem a uma afetação eficiente de recursos; ora o keynesianismo acredita que os mercados podem falhar nessa tarefa, o que o torna uma teoria mais atrativa para "estatistas" do que para liberais

- num mundo (ou pelo menos numa civilização - a ocidental) em que grande parte da intervenção do Estado é promovida com o argumento de "tirar aos ricos para dar aos pobres", há uma afinidade entre o keynesianismo e as politicas redistributivas: por um lado, porque a própria existência de impostos progressivos (ou mesmo proporcionais) e de programas de assistência social é intrinsecamente keynesiano, na medida em que gera automaticamente um aumento do deficit durante as recessões (porque a carga fiscal diminui - já que as pessoas baixam de escalão do IRS - e as despesas sociais aumentam - já que há mais pobres) e uma redução durante as expansões, o que é exatamente a receita keynesiana; além disso, o keynesianismo tem implicito um enviesamento a favor do consumo (pelo menos se a economia estiver em recessão, em "armadilha de liquidez", etc., etc.) - ora, se partirmos do principio que as pessoas com menores rendimentos poupam uma menor proporção do seu rendimento (essa permissa é muito discutivel a nível académico, mas faz parte do chamado "senso comum"), isso quer dizer que as politicas redistributivas aumentam o consumo, levando os defensores dessas políticas a simpatizar com a economia keynesiana

- o modelo keynesiano das crises económicas é muito parecido com o modelo marxista dessas mesmas crises (crises de sobre-produção criadas pela escassez da procura e só possíveis num mundo em que exista moeda): pegue-se no modelo keynesiano, ponha-se os capitalistas a terem uma propensão ao consumo muito menor que os trabalhadores; estipule-se que os salários reais (em vez dos nominais) são rigidos no curto/médio prazo; e introduza-se no longo prazo uma tendência para o progresso tecnológico ser capital-intensivo - e temos o modelo marxista. Logo, as pessoas que têm uma formação de base essencialmente marxista tendem a se identificar com o modelo keynesiano (mesmo que digam que precisa de uns ajustes aqui e ali)

- mesmo que o keynesianismo não implique um Estado "grande" em termos quantitativos (isto é, que consuma uma grande percentagem do PIB), implica um Estado "grande" em termos qualitativos (isto é, um Estado que faça mais do que assegurar a justiça, a polícia e a defesa)

Leituras adicionais (mesmo que não sejam diretamente sobre o assunto, acha que acabam por o ser indiretamente):

- Why Are Libertarians Inflation Hawks?, por Timothy Lee

- Ayn Rand Endorses Big Government, por Stephan Kinsella


- Keynesianism, left & right, por Chris Dillow

Inesperadamente?

Segundo o Económico, a "economia portuguesa contraiu inesperadamente no primeiro trimestre do ano, recuando 0,7% face ao trimestre anterior".

A minha objeção é ao "inesperadamente" - desde que, há uma semana, o INE anunciou que o emprego havia diminuido, que havia razões para pensar que o PIB estaria a descer (não é obrigatório que uma redução do emprego esteja associada a uma redução do PIB - se a produtividade aumentar, podemos ter ao mesmo tempo uma redução do emprego e crescimento económico - mas há uma forte probabilidade de estar).

Wednesday, May 14, 2014

Sugestão de leitura

The Anti-Reactionary FAQ

Pelo menos duas objeções:

a) apesar de tudo, penso que as monarquias autoritárias (ou "tradicionais") tendem a ser melhores que as ditaduras temporárias (veja-se que as poucas que sobrevivem hoje em dia não têm no seu historias os banhos de sangue que muitas ditaduras temporárias cometeram no século XX) - bem, isto não é exatamente uma objeção já que autor não diz o contrário (ele critica é o truque de comparar "monarquias tradicionais" com "ditaturas temporárias + democracias" e dizer que o segundo grupo é pior que o primeiro)

b) o exemplo coreano parece-me um bocado forçado (facilmente se poderia arranjar argumentos - a começar pelas raizes ideológicas da fundação de cada Estado - para identificar o "progressismo" com o Norte e a "reacção" com o Sul em vez de o oposto)

Saturday, May 10, 2014

Ode to "Anarchy"

http://wetheindividuals.org/2014/05/09/ode-to-anarchy/

“Anarcho”-communists and “anarcho”-socialists out there are really pissed that I call myself an anarchist. I understand your concern, I really do. You have an identity to protect. That identity is intimately tied to the collectives you have chosen to let yourself be subsumed into. It’s an identity with a long history and tradition of luminous figures, lavish with tales of past glory. I understand how it must look to you, “anarcho”-capitalists coming in and wantonly appropriating your cherished terminology. It must seem like a real threat to that identity.

I do understand. I just don’t give a shit.

I use the word “anarchist” descriptively. It’s a wonderlfully useful word. Just like “atheist” is one without theism, “anarchist” is one without… archy. Honestly, if the word had never been used before, or even if I had just thought it up on my own, I’d still use it.

You and I, we have different definitions of that “archy” part, but, really, I don’t give a shit about that, either. Words are to facilitate communication, and the word “anarchist” in all its forms does work in that regard. Sure, I have to go on to qualify it, pin it down, tease out the precise meaning I intend, when I use it with people not familiar with the broad landscape of anarchist thought. But that’s fine. It’s more than fine, it’s a plus.

Good words are ones that start conversations, not end them. I’m happy, eager even, to have the conversation that comes after I tell someone “I am an anarchist”. If I used a more technical and precise term – which in fact would have to be a long string of terms unintelligible to most people – it would be no more informative to the uninitiated. In fact, it would be less informative, and the sheer weight of jargon that would need to be digested would not facilitate communication, it would shut it down. “Anarchist” has just enough familiarity, just enough baggage, that my conversational partner becomes curious rather than intimidated.

I certainly don’t use the word because I want to muscle in on your collective, to appropriate for my own purposes the cachet of your history and tradition. In fact, the usual immediate consequence of beginning that conversation is that I have to distance myself from all that. People who know me, even a little bit, and know that history, even a little bit, see a disconnect between the two. That makes them curious. It starts a conversation.

I usually go on to explain that, no, I’m not anti-capitalism, I am enthusiastically in favor of it, but that I am anti-corporatist (another conversation starter all by itself). I have to tell them no, I’m not out there vandalizing things every chance I get in order to destroy society (and I usually mention that most left-anarchists I know aren’t either), but that I have peaceful means in mind. I tell them that no, the people the media calls anarchists are not really anarchists, they’re just run of the mill socialists or communists who want the state on their side, which is hardly an anarchist position. I explain to them how I am not interested in taking over the government, nor really in even destroying it per se, but rather in abandoning it, being free of it, and letting it wither on the vine when enough people decide they’ve had enough of it and see those of us who preceded them living better than they do.

So don’t worry, I’m not trying to hijack your history. I wouldn’t if I could, because it is of no use to me – except maybe as a foil in conversation. I don’t want your traditions, though some bits and pieces of the intellectual work done in it are useful. Most of all, I don’t want to be part of your collective identity. I want nothing to do with it, I want no association with it, aside from a few friends who have at least one foot in it.

You can keep it. You just don’t get to keep the word all to yourselves. It’s a useful word, and I am damn well going to use it. And I’ll use it despite, not because of, its historical baggage. I don’t want to forge a collective identity, even with other anarcho-capitalists. We’re not a club or an identity group, just a bunch of individuals who share some, not all, of the same values and like the idea of cooperating wherever there is overlap. Most of us care about your collective history far, far less than you do. Your little collectives are safe from incursion by us.

So stop your whining… or don’t. Far be it from me to tell you what to do.

Jeff Peterson II

We the Individuals

 

 


Thursday, May 08, 2014

Qual o partido mais parecido consigo?

Um site para vermos qual o partido cujas posições são mais parecidas com as nossas, tanto a nível português como europeu (via Luís Aguiar-Conraria).


Outro site do mesmo género, mas que dá resultados ligeiramente diferentes (e creio ainda não permitir a comparação com todos os países da UE).

Métodos "humanos" de execução

A Lethal Injection of Reality, por Jacob Sullum (Reason):

[L]ethal injection, first adopted by Oklahoma in 1977, is supposed to be "the most humane form" of capital punishment, as New Jersey Gov. Tom Kean called it when he signed a bill reinstating the death penalty in 1982. But in this context, "humane" really means "acceptable." The point is not to make condemned murderers comfortable; the point is to make us comfortable.

But if preventing unnecessary pain is the goal, it is hard to improve on the firing squad or the guillotine. Such old-fashioned methods were abandoned not because they were too painful but because they were too bloody.

As Lockett's execution vividly demonstrated, those two concerns are distinct. One has to do with how a condemned prisoner feels as we kill him; the other has to do with how we feel about killing him. Medicalizing executions helps us avoid the latter question.





Wednesday, May 07, 2014

A opinião socialmente correta sobre os jogos de computador

A opinião dominante sobre os jogos de computador (pelo menos entre as pessoas que não os jogam e não tem idade para começarem a jogá-los) parece ser globalmente negativa, normalmente com os argumentos que:

- as crianças e jovem acabam por ficar muito tempo imersas num "mundo" que não é o mundo real

- não fazem exercicio

- tornam-se socialmente isoladas; mesmo quando estão a jogar on-line com amigos, é um relacionamente diferente do que existiria se estivessem a interagir diretamente com o amigo ao lado

Outra opinião dominante (largamente promovida por pais, professores e o establishmente educacional em geral) é que se deve incentivar nas crianças e jovens o gosto pela leitura.

"PMEs"?

Uma coisa que há muito ando a pensar é se o conceito de PMEs ("pequenas e médias empresas") faz sentido - nomeadamente se há alguma razão para tratar as "pequenas" e as "médias" empresas como se, em conjunto, constituissem uma espécie de agrupamento natural, e as "grandes" empresas um outro agrupamento.

Vamos pensar em possiveis pontos da dimensão de uma empresa em que se possa considerar que se estabelece uma diferença qualitativa.

Empresas em que só o proprietário e os seus familiares lá trabalham, vs empresas que recorrem a assalariados - essa diferença é fundamental, p.ex., para se averiguar do impacto das leis laborais sobre as empresas: para uma empresa que não tenha empregados, em principio o efeito de maior ou menor rigidez laboral é nula. Por vezes há quem diga que leis laborais "rigidas" afetam sobretudo as pequenas empresas; mas se for assim o efeito provavelmente não é monotónico: mesmo que admitamos que as pequenas empresas com empregados tem mais problemas por causa das leis laborais do que as grandes empresas, suponho que as pequenas empresas que nem chegam a ter empregados terão menos problemas com essas leis dos que as grandes e as pequenas com empregados. Outra diferença é que uma empresa sem empregados pode (em certas circunstâncias) nem ter uma sede, e funcionar em casa ou na garagem do empresário, ou ter o equipamento numa carrinha (isto só funciona para uma empresa que não tenha loja aberta ao público); já uma empresa com empregados de certeza necessita de instalações próprias.

Empresas em que os assalariados constituem uma minoria do total dos trabalhadores, vs. empresas que em que são uma maioria - esta é uma variante da anterior (e até se pode argumentar que agora estamos a tratar mais de uma diferença quantitativa do que a tal diferença qualitativa que falei inicialmente) e talvez se possa argumentar que a diferença não está bem na "maioria", mas continua a ter diferença sobre o impacto das leis laborais se a força de trabalho é ou não composta maioritariamente (ou essencialmente) por assalariados ou não.

Empresas em que todos estão sob a supervisão directa do patrão vs. empresas em que há chefes a mandar em chefes - creio que cada empregado trabalhar junto com o patrão gera um relacionamento social dentro da empresa diferente de quando os trabalhadores "de base" têm supervisores, gerentes, diretores, etc., entre eles e o patrão. Isso faz diferença tanto a nivel do que pode ocorrer em conflitos laborais, como em termos de facilidade com que um trabalhador pode, p.ex., apresentar uma sugestão para melhorar o funcionamento da empresa. É também o ponto em que passa a existir problemas "de agência", com o patrão a ficar sempre na dúvida se os empregados estão a trabalhar bem.

Empresas em que o patrão passa a maior parte do tempo em funções técnicas na produção do produto da empresa, vs. empresas em que o patrão passa a maior parte do tempo em funções de gestão - ou seja, um dono de um restaurante que é essencialmente um cozinheiro, em comparação com um dono de um restaurante que tem pessoas contratadas para serem cozinheiros e que passa a maior parte do tempo em reuniões com clientes, bancos ou fornecedores e a gerir as contas. Há tempos, numa das múltiplas discussões que costuma surgir na internet sobre o que é empreendedorismo, alguém expôs a teoria que a diferença entre um "empreendedor" e um "trabalhador por conta própria" é "se a empresa pára quando não está, não és um empreendedor, és um trabalhador por conta própria" (suspeito que era mais ou menos nesta diferença que ele estaria a pensar).

Empresas que operam num só país vs. empresas que operam em vários países - de novo, há aqui uma diferença qualitativa, entre que ter que trabalhar sob um único sistema legal, versus ter que gerir leis diferentes, provavelmente ter que registar filiais nos vários países (e também o lado positivo de por vezes poder fazer o lucro aparecer no país em que dá mais jeito).

Bem, e alguém vê aqui uma linha divisória entre "PMEs" e grandes empresas? Eu não. As duas primeiras parecem-me o que faz a diferença entre uma micro-empresa e pequena/média/grande empresa; a terceira e a quarta parecem-me ser a diferença entre uma pequena e uma média/grande empresas; a quinta não me parece muito relevante, porque tanto médias como grandes empresas podem trabalhar em vários países ou só num.

Ou seja, em vez de se falar em PMEs por um lado e grandes empresas por outro, talvez fizesse mais sentido falar em GMEs por um lado e pequenas empresas por outro.

Tuesday, May 06, 2014

Keynes contra Hayek?

Está na moda, sejam em debates ou em videoclips, a oposição entre Keynes e Hayek (e suponho que ambos concordariam com essa oposição).

Mas será que muito do anti-keynesianismo actual não será ainda mais anti-hayekiano do que o próprio keynesianismo?

Primeiro, uma recapitulação das opiniões dos protagonistas:

a) Keynes achava que as recessões eram provocadas por uma escassez de procura, e que portanto a solução para isso era o Estado aumentar o deficit (aumentando as despesas e/ou reduzindo os impostos); para Keynes, nem sequer era necessário que o Estado fizesse despesa em coisas úteis - mesmo que o dinheiro fosse gasto a abrir a tapar buracos, as pessoas contratadas para fazer esse trabalho iriam depois gastar o ordenado a comprar bens que fossem úteis para eles, e as pessoas a quem eles fizessem compras iriam também comprar coisas úteis noutros sitios, e assim por diante... de forma que mesmo a despesa inútil iria estimular a produção de bens úteis

b) Hayek escreveu muita coisa, sobre vários assuntos; mas penso que o aspecto mais marcante do seu pensamento é a ideia de que é impossivel os decisores centrais conseguirem ter acesso a toda a informação que está dispersa pelos milhões de individuos na sociedade, logo o planeamento centralizado (ou tudo o que se aproximasse disso) estaria condenado ao fracasso

Agora, há pelo menos duas possiveis maneiras de não ser keynesiano - uma é defender que não se deve fazer politica nenhuma para combater as crises económicas e que o mercado resolverá o problema por si; a outra é achar que, já que as crises têm a sua raiz em problemas de oferta e não da procura, então se o Estado intervir deve ser no sentido de solucionar esses problemas do lado da oferta (exemplo clássico: formação profissional / "qualificações").

O primeiro tipo de não-keynesianismo (vamos chamar-lhe "não-keynesianismo liberal") é típico da direita mais "conservative"/"libertarian" norte-americana e de alguns circulos intelectuais na Europa; já o segundo tipo (vamos chamar-lhe "não-keynesianismo intervencionista") é típico tanto da esquerda "responsável e não-dogmática" como da direita "responsável e não-dogmática" (o discurso típico é "não acreditamos nas velhas ideias de gastar dinheiro a torto e a direito para resolver os problemas, mas também não somos nenhuns neo-liberais; achamos que o Estado tem um papel importante, mas em sectores especificos - educação, infra-estruturas, promoção do «empreendedorismo», etc.- necesários para sustentar o crescimento económico a longo prazo").Penso que o "não-keynesianismo intervencionista" é mais frequente na Europa, mas também aparece nos EUA (p.ex., por vezes alguns artigos do David Brooks, que se calhar é mais um "conservador europeu que por acaso é americano" do que um "conservador americano", parecem-me um pouco nessa linha).

Aliás, arrisco-me a dizer que a única variante de "não-keynesianismo" que é politicamente vendável na Europa é a "intervencionista" - basicamente, os eleitores europeus nunca votariam num partido que, perante uma recessão, dissesse "não vamos fazer nada".

Bem, agora vamos ao que é suposto ser o ponto central deste post: é que, a partir do momento que se aceita que o Estado deve fazer alguma coisa para combater as crises, a visão keynesiana acaba por ser também a mais "hayekiana" - a tradicional politica keynesiana de estimular a economia via aumento da procura (nem que seja gastando dinheiro em coisas inúteis, como bunkers contra uma invasão extra-terrestre imaginária) requer muito menos "conhecimento" por parte dos decisores politicos do que as politicas não-keynesianas de estimular a economia resolvendo os supostos problemas do lado da oferta (que normalmente implicam muito maior micro-gestão por parte do governantes, para descobir quais são esses problemas e como resolvê-los), logo acaba por sofrer menos com o problema hayekiano de os planificadores centrais não terem acesso a toda a informação (o não-keynesianismo intervencionista até pode, em termos quantitativos, interver menos - p.ex., no sentido de a despesa pública representar uma menor percentagem do PIB - mas essa intervenção, nos setores em que ocorre, tem o potencial para ser muito mais detalhada e minuciosa).

Um exemplo do que escrevo é a famosa ideia do "Banco de Fomento" - não acho que este governo seja "o mais neo-liberal de sempre" (provavelmente esse terá sido o de Cavaco Silva - se considerarmos que os seus três governos foram na prática um governo prolongado por 10 anos), mas é seguramente o mais anti-keynesiano de sempre; e mesmo as suas políticas não-liberais (como o tal banco) têm essa marca anti-keynesiana: como bons anti-keynesianos, chegaram à conclusão que o problema fundamental que as empresas portuguesas enfrentavam não poderia ser um problema de falta de procura, mas teria que ser um problema do lado da oferta (que outra coisa poderia ser?), neste caso uma dificuldade das empresas em obter crédito (por uma qualquer razão misteriosa, os bancos privados não estariam a conceder empréstimos a projetos de investimento perfeitamente viáveis e com uma excelente relação rentabilidade/risco); logo, a solução para esse problema foi criar mais um banco público (ou qualquer coisa que não é bem um banco, mas será como um banco) para apoiar as empresas.

Monday, May 05, 2014

O massacre de Odessa

Lendo e ouvido muitas notícias sobre o que se passou em Odessa na última sexta-feira, parece que o resumo é "cerca de 40 pessoas não identificadas morreram num fogo que se ateou por combustão espontânea"; porque é que quase nenhuma notícia refere que um grupo de ultranacionalistas ucranianos incendiou um acampamento de manifestantes pró-russos?

É que nem é uma questão de tal ser polémico - penso que os poucos jornais que relataram a versão identificando a facção que ateou o incêndio não receberam qualquer desmentido.

Razão antes do tempo?

Transfusões de sangue jovem podem inverter envelhecimento (Expresso)

Elizabeth Báthory (Wikipedia)

Thomas Piketty

Se percebi bem o que tenho lido sobre o livro de Thomes Piketty, a sua tese central é que a riqueza acumulada pelas principais famílias capitalistas irá ser cada vez maior face ao conjunto da economia (se a taxa de remuneração do capital for maior que a taxa de crescimento da economia).

A minha dúvida é se essa compraração em que de um lado temos um stock (a riqueza dos capitalistas) e do outro um fluxo (o rendimento total da economia) fará sentido.

Tuesday, April 29, 2014

Preferência temporal (II)

Isto fez-me lembrar disto.

Preferência temporal

Grande parte da teoria económica parte do pressuposto que as pessoas preferem o consumo presente ao consumo futuro (e que têm que ter algum prémio - nomeadamente receber um juro - para estarem dispostas a adiar o consumo).

No entanto (largamente sobre a influência dos comentários neste post), ocorre-me se não será ao contrário - isto é, se o mais normal até não é preferir o consumo futuro ao atual.

Mais exatamente, o que eu suponho é que a maior parte das pessoas prefere ter um consumo equilibrado ao longo da vida (comer todos os dias em vez de passar alguns dias em jezum e outros a empanturrar-se; viver numa casa boa a vida toda em vez de metade da vida num palácio e a outra metade a dormir na rua, etc.). No entanto, se confrontados forçosamente com a opção entre "ter uma coisa hoje e não ter amanhã" e "não ter uma coisa hoje e já ter amanhã", muita gente (talvez a maioria?) preferirá a segunda, até pelo efeito psicológico da antecipação (no primeiro caso, o sabermos que amanhã já não teremos a coisa que estamos a usufruir hoje até diminui o prazer de termos esse bem; já no segundo caso, o sabermos que amanhã já vamos ter o tal bem até nos ajuda a suportar a privação hoje).

Note-se que isto que estou a dizer não invalida que continue (como sustenta a teoria tradicional) que é melhor ter 1000 euros hoje do que recebê-los só amanhã; mas a razão porque é melhor não é porque seja melhor gastar 1000 euros hoje do que só gastá-los amanhã - é porque recebendo os 1000 euros hoje posso gastá-los hoje, amanhã ou mais tarde, enquanto se os receber amanhã só os posso gastar amanhã ou mais tarde (ou seja, tenho menos possibilidades de escolha).

E isto também não invalida que seja mais desejável adquirir bens duradouros o mais cedo possivel - porque se eu comprar uma casa hoje em vez de só daqui a um mês, beneficio da casa já e continuo a beneficiar dela daqui a um mês (ou seja, quanto mais cedo eu comprar um bem duradouro, em principio mais tempo beneficio dele - aqui a opção já não é entre "ter uma coisa hoje e não ter amanhã" vs. "ter uma coisa amanhã e não ter hoje", mas sim entre "ter uma coisa só amanhã" vs. "ter uma coisa hoje e amanhã"). A minha tese aplica-se apenas a bens que se "gastam".

Mas, mesmo que isto que estou a dizer seja verdade, não sei se terá alguma implicação.

Thursday, April 24, 2014

O Direito Natural à luz de Deus, de Kant e de Henrique Raposo

Na sexta-feira passada, Henrique Raposo narrou no Expresso a evolução das suas convicções sobre a fonte do "direito natural".

Conta Raposo que durante muito tempo a sua base filosófica para defender o direito natural era Kant. No entanto, a dada altura concluiu que faltava algo a Kant - nomeadamente a que a sua ideia de direitos naturais derivadas da razão deixava de fora aquelas pessoas que, por qualquer motivo, não têm (ou ainda não têm, ou já não têm...) pleno uso da razão: crianças pequenas, deficiententes mentais, alguns idosos, etc.

Assim Henrique Raposo acabou por chegar à conclusão que a filosofia de Kant não serve como base para o direito natural, e que só Deus pode ser essa base.

Poderia-se discutir se Deus também serve para base do direito natural - afinal, com tantas versões diferentes do que é a palavra de Deus, ou mesmo sobre quem é o verdadeiro Deus, defender uma dada versão do direito natural baseada em Deus está em última instância dependente do que se escolhe acreditar sobre o que é a palavra divina.

Mas o meu ponto é outro - basicamente, HR trocou Kant por Deus porque acha que com Kant não era possível chegar às conclusões a que ele (HR) queria chegar. Mas então isso quer dizer que HR primeiro definiu a sua visão do que deve ser o direito natural (neste caso, um direito natural em que recêm-nascidos, idosos dementes, etc. tâm direitos) e depois foi à procura de um sistema de pensamento que permitisse justificar esse direito natural. Mas, se é assim, isso quer dizer que HR não vai verdadeiramente buscar o direito natural nem a Deus e nem a Kant (ele escolheu, primeiro Kant, e depois Deus, como justificativos de um direito natural em que ele já acreditava previamente). Não - a verdadeira fonte justificativa do direito natural para Henrique Raposo é... Henrique Raposo ele próprio: se ele anda - ou andou - a escolher e rejeitar justificações para o direito natural até encontrar uma que as conclusões batessem certo com a sua visão do justo e do injusto, isso quer dizer que ele foi buscar o direito natural à sua consciência, não a Kant ou Deus.

Generalizando, podemos concluir que o conceito de um "direito natural" provavelmente tem a sua origem num sentimento intuitivo do que é justo ou injusto, certo ou errado, quase de certeza derivado da nossa programação genética como animais sociais (aliás, estudos parecem indicar que os chimpanzés também terão algo parecido com um sentido de justiça).

Tuesday, April 22, 2014

Friday, April 18, 2014

Mobilidade social

Ontem à noite, a SIC (se não estou em erro) passou uma espécie de cruzamento de dois documentários - por um lado, uma série de entrevistas que em 1974 Maria Filomena Mónica fez a crianças da escola primária, de várias classes sociais, onde lhes perguntava sobre a família, sobre o que queriam ser quando fossem grandes, etc (penso que a ideia base desse documentário era comparar  estilo de vida e as aspirações de crianças de meios distintos e a partir daí fazer um reflexão sobre a igualdade de oportunidades); por outro, em 2004, a sua filha Sofia Pinto Coelho foi entrevistar essas ex-crianças com mais 40 anos em cima e ver qual tinha sido o seu percurso - uns saíram da sua classe de origem (para cima ou para baixo), outros ficaram mais ou menos no mesmo meio.

Para começar, houve uma coisa que me chocou - depois de mostraram a entrevista de um aluno do Colégio Francês, filho de médico e que queria ser médico, referiram que ele agora era vendedor de automóveis e que se recusou a ser entrevistado. MFM comentou que a mobilidade também pode ser para baixo e depois disse o que eu achei chocante - que nem todos conseguiam manter o estatuto dos país, porque, apesar de tudo, não eram só os país que contavam; era sempre preciso "esforço e determinação". Mas quem é ela para insinuar que o senhor foi para vendedor de automóveis e não para médico por não ter "esforço e determinação"? Ainda mais que nem sequer houve entrevistas "adultas" com ele (logo não é possivel saber o seu percurso). P.ex., eu quando andava na primária queria ser detective, militar, garimpeiro e alguma coisa na área da zoologia (já não me lembro bem, mas acho que tudo ao mesmo tempo) - não fui nenhuma coisa dessas, mas não foi porque me tivesse faltado o "esforço" e a "determinação"; foi porque me comecei a interessar por outras coisas. Da mesma maneira, o referido senhor pode não ter ido para médico simplesmente porque perdeu o interesse em ser médico, não porque não tivesse "conseguido". Não sei porque motivo ele foi para vendedor de automóveis em vez de para médico, e MFM também não sabe, logo deveria abster-se de fazer comentários que juízos de valor implícitos.

Mas não era aí que eu queria chegar - só só eu que acho irónico que, para um documentário à volta do tema da igualdade de oportunidades e da mobilidade social, a primeira parte tenha sido feita pela mãe e, quarenta anos depois, a parte final pela filha?

Wednesday, April 16, 2014

Previsões para as eleições europeias

Atualizadas semanalmente, com base nas sondagens:

Wenn an diesem Sonntag Europawahl wäre: Prognose für das Europäische Parlament, no Der (europäische) Föderalist

Sim, a página e o blogue são em alemão, mas os quadros com as previsões conseguem-se perceber em qualquer língua (até porque os grupos parlamentares são identificados pela sigla inglesa).

O gato Orlando

Investments: Orlando is the cat's whiskers of stock picking (Observer/Guardian, janeiro de 2013):

The Observer's panel of stock-picking professionals has been undone in our 2012 investment challenge by a ginger feline called Orlando who spent time paw-ing over the FT.

The Observer portfolio challenge pitted professionals Justin Urquhart Stewart of wealth managers Seven Investment Management, Paul Kavanagh of stockbrokers Killick & Co, and Schroders fund manager Andy Brough against students from John Warner School in Hoddesdon, Hertfordshire – and Orlando.

Each team invested a notional £5,000 in five companies from the FTSE All-Share index at the start of the year. After every three months, they could exchange any stocks, replacing them with others from the index.

By the end of September the professionals had generated £497 of profit compared with £292 managed by Orlando. But an unexpected turnaround in the final quarter has resulted in the cat's portfolio increasing by an average of 4.2% to end the year at £5,542.60, compared with the professionals' £5,176.60.

While the professionals used their decades of investment knowledge and traditional stock-picking methods, the cat selected stocks by throwing his favourite toy mouse on a grid of numbers allocated to different companies.

[Via Jacob Goldstein e Noah Smith]

Aproveito para relembrar uns posts antigos, de 2008:

- Kika, gestora de ativos financeiros
- Mercados financeiros - informação intercalar
- Balanço dos investimentos da Kika

O caso Brendan Eich (II)

Brendan Eich and the New Moral Majority, por William Saleton (Slate):

Many self-styled liberals are celebrating Brendan Eich’s resignation as CEO of Mozilla. They say the company had every right to remove Eich for supporting a 2008 referendum campaign against gay marriage. It’s a matter of free enterprise and community standards, they argue. (...)

That’s the argument: Each company has a right—indeed, it has a market-driven obligation—to make hiring and firing decisions based on “values” and “community standards.” It’s entitled to oust anyone whose conduct, with regard to sexual orientation, is “bad for business” or for employee morale.

The argument should sound familiar. It has been used for decades to justify anti-gay workplace discrimination. (...)

[T]he rationales for getting rid of Eich bear a disturbing resemblance to the rationales for getting rid of gay managers and employees. He caused dissension. He made colleagues uncomfortable. He scared off customers. He created a distraction. He didn’t fit.

It used to be social conservatives who stood for the idea that companies could and should fire employees based on the “values” and “community standards” of their “employees, business partners and customers.” Now it’s liberals. Or, rather, it’s people on the left (...) in their exhilaration at finally wielding corporate power...

Tuesday, April 15, 2014

Friday, April 04, 2014

O caso Brendan Eich

Recentemente houve uma espécie de polémica por a Mozilla Corporation ter nomeado Brendan Eich (o inventor do Javascript e colaborador desde sempre dos projetos Mozilla) como CEO, que, há uns anos, apoiou uma campanha para revogar o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia; nomeadamente, o "site de encontros" OKCupid (usando, aliás, alguns argumentos que me parecem disparatados) tornou mais dificil aos utilizadores do Firefox acederem ao site, como forma de protesto. Em função da polémica, Eich acabou pr pedir a demissão.

O que dizer disto?

É tentador falar em "tirania do politicamente correto", mas tal tem dois problemas:

Em primeiro lugar, muitas das pessoas que adoram queixar-se da "tirania do politicamente correto" são defensores do direito à discriminação privada; ora, é um bocado contraditório defender o direito à discriminação privada e depois queixar-se de "tirania" quando essa discriminação privada é exercida num caso particular (possível contra-argumento: ser a favor do direito à discriminação privada não significa necessariamente ser a favor da discriminação privada). Claro que se pode argumentar que isso vale para os dois lados...

Em segundo lugar, não há particularmente nada de novo em alguém ser prejudicado na sua vida profissional pelas suas posições políticas - desde que eu me entendo, que sei que é comum os pais aconselharem os filhos a não se meterem em política porque "isso pode prejudicar-te no futuro"; conheço uma pessoa que foi do PCP nos seus vinte anos, e dizia que, por causa dessa passado, dificilmente alguma vez poderia ir trabalhar para um banco norte-americano; e naqueles livrinhos de "Como elaborar um Curriculum Vitae" costuma ser recomendado que se evite referências a atividades políticas. Ou seja, desde sempre que as pessoas com ideias controversas são prejudicadas a nivel de empregos, promoções, etc., pelas suas ideias. Por outras palavras, a "tirania do politicamente correcto" sempre existiu, e suspeito que até é muito mais leve hoje em dia do que era há umas décadas atrás (o que mudou foi que algumas ideias que antes eram "politicamente correctas" agora são "incorrectas" e vice-versa).

Mas será que a polémica à volta de Eich fez algum sentido? Acho que não - exatamente que mal Eich fez? Defendeu uma dada opinião? E depois - não têm direito a defender as suas opiniões, por mais impopulares que possa ser (e os defensores das minorias sexuais deveriam ser os primeiros a reconhecer isso)?

Uma coisa é protestar ou até fazer boicotes contra uma organização devido a práticas dessa organização: p.ex., se a Mozilla Corporation desse aos seus empregados casados com pessoas de outro sexo mais direitos do que os casados com pessoas do mesmo sexo, poderia fazer sentido uma campanha contra a Mozilla. Mas não é esse o caso - a polémica tinha a ver, unicamente, com as opiniões políticas do (por escassos dias) CEO, não com qualquer prática da organização.

Pondo as coisas de outra maneira, uma campanha ou um boicote é suposto terem por objetivo tornarem o mundo mais parecido com a nossa ideia de como seria um mundo ideal (não é - ou não deve ser - algo que se faz por simples expressão emocional...). Ora, qual era o objectivo social a atingir com a mini-campanha que foi esboçada contra a Mozilla?

- Uma sociedade em que os casais homossexuais não sejam discriminados? - mas a Mozilla não faz (nem ninguém alegou que fizesse) qualquer discriminação contra os homossexuais

- Uma sociedade sem preconceitos "homofóbicos"? - talvez, mas ninguém muda de ideias e opiniões por ser alvo de boicotes (pode mudar de comportamentos, mas não de ideias)

- Uma sociedade em que existem pessoas com posições socialmente conservadores, mas em que essas pessoas sejam discriminadas nos empregos e consideradas excluidas da "boa sociedade"? - parece-me que o objectivo era mesmo esse, mas não me parece um objetivo muito meritório (além de que me parece uma receita para um "backlash")

E, se se vai fazer campanhas contra empresas por causa de opiniões políticas dos seus funcionários, onde se pára? No CEO? Nos membros da administração? No porteiro? Imagino que os anti-Eich achem que o problema é só o CEO, já que nunca se incomodaram com os altos cargos que ele sempre teve na Mozilla, mas é díficil perceber uma linha lógica nisso.

Tuesday, April 01, 2014

Traduções na wikipedia

Qual se percebe melhor - este artigo em galego ou a versão em "português"?

Friday, March 28, 2014

Quem possui os clubes de futebol?

Football as a workers cooperative - or lack thereof, por Paul Walker, discutindo a ausência de cooperativas de futebolistas como modo de organização dos clubes de futebeol

But football clubs are already effectively owned by the players, por Tim Worstall, contra-argumentando que os clubes de futebol, independentemente da sua forma jurídica (empresas capitalistas, cooperativas de adeptos, etc.) são na prática cooperativas de futebolistas

Thursday, March 27, 2014

Bitcoin Battle: Warren Buffett vs. Marc Andreessen

“A value of a BTC is not arbitrary, in fact it’s the opposite of arbitrary,” he says. “It equals the value of a single slot in a finite sized public cryptographic ledger through which value can move. The total Bitcoin ledger has value corresponding to the volume and velocity of transactions that will run through it in the future; by extension, each slot in the ledger has fractional value determined by the total number of slots (which, in Bitcoin’s case, are limited to 11 million today and 21 million ever).”

 “So saying what Warren is saying is like saying ‘a car is great technology but it’ll never actually get anyone from point A to point B,” he continued. “Bitcoin is great technology BECAUSE it lets people get value from point A to point B through the public ledger; that functional use creates the value of the ledger, and a single BTC has a corresponding fractional value of the ledger.”

 

"Repúblicas das bananas"

The American Conservative publicou um artigo com algum interesse sobre Airey Neave, um militar e político conservador inglês, assassinado (provavelmente por uma das cisões do IRA) em 1979.

No essencial, parece-me a biografia típica de um politico conservador inglês da velha guarda (de família aristocrática, aluno de Eton e Oxford, passou pelo exécito e foi uma espécie de herói de guerra da II Guerra Mundial, usualmente vestido a rigor, etc.).

No entanto há uma passagem que me despertou particular interesse, sobre os anos imediatamente anteriores à sua morte (e à subida de Thatcher ao poder):

Neave saw socialism as destroying Britain and didn’t see the Tory party of Harold Macmillan, Alec Douglas-Home, and Edward Heath as much of a bulwark against the tide. By the early 1970s the country had reached a state it is now difficult to imagine. In the final days of the Heath government inflation was running at more than 30 percent and rising fast. The pound had lost 70 percent of its value on the international exchanges in just three years. Basic living standards were deteriorating badly. Thanks to a protracted miners’ strike, at one point the entire country went onto a three-day work week in order to conserve electricity, and even then we all too often sat up at night in frigid rooms eating tinned Spam and reading flimsily printed newspapers by candlelight. There may have been no village in the Carpathians more primitive than London in the hangover years following the Swinging Sixties.



Airey Neave was not one to embrace the view that there was anything inevitable about Britain’s decline to banana republic status. Although a certain amount of educated guesswork has to apply here, it’s reasonably safe to say that he never fully abandoned his connections to the intelligence services, and he actively explored with a few like-minded individuals the possibility of engineering a limited right-wing coup in the years immediately before the Thatcher revolution. This went under the codename “Northern Command,” and Neave once allowed that there had been “some talk” of raising a private militia in order to enforce a “patriotic agenda … something to kick the political elites up the arse.”

Isso faz-me pensar o que é que as pessoas querem dizer quando usam a expressão "república das bananas", porque na verdade (pelo menos, de acordo com o significado original do termo) um "limitado" golpe de direita (mesmo que feito com o objetivo de travar o "Britain’s decline to banana republic status") seria exatamente a consagração da Grã-Bretanha como uma "república das bananas" (ou um "monarquia das bananas"...).

Wednesday, March 26, 2014

Economia Comportamental (III)

Voltando a pegar no post de Chris Dillow que referi ali em baixo, nomeadamente nesta passagem:

One is that politicians themselves might be as prone to cognitive biases as the public. Indeed, it's possible that they are selected for such biases - because the overconfident are disproportionately likely to enter politics and because irrational consumers are likely to make irrational voters. The image promoted by behavioural economics (or its users) - of rational policy-makers operating upon irrational subjects - is therefore questionable.

Esse é um argumento muito usado contra a tendência para utilizar a chamada "economia comportamental" (isto é, a constatação que as pessoas nem sempre se comportam como os computadores humanos maximizadores de utilidade previstos nos primeiros semestres dos aulas de micro-economia) para justificar politicas intervencionistas - e parece fazer um certo sentido: afinal, se as pessoas são muitas vezes irracionais, os decisores politicos também serão muitas vezes irracionais, logo não faz sentido estar à espera que o Estado corrija a irracionalidade dos individuos.

O problema nesse raciocinio é que esquece que a "economia comportamental" pode ser usada para justificar o estatismo de duas maneiras:

a) "Se as pessoas fossem totalmente racionais, o mercado funcionaria perfeitamente. Como infelizmente as pessoas não são totalmente racionais, a regulação estatal é necessária"

ou

b) "Se as pessoas fossem totalmente racionais, a política que estamos a propor não funcionaria. Mas como felizmente as pessoas não são totalmente racionais, esta política vai à mesma funcionar"

Um exemplo do caso b) é a chamada "equivalência ricardiana": segundo muitos economistas, uma redução permanente de impostos ou um aumento permanente da despesa pública não aumenta a procura interna - os contribuintes, ao verem o deficit e a dívida a se acumular, vão assumir que mais cedo ou mais tarde a dívida vai ter que ser paga e vão começar logo a poupar dinheiro para quando chegar essa altura. Assim, o aumento do deficit público vai ser anulado pelo aumento da poupança privada. Os críticos da "equivalência ricardiana" contrapõem que a maior parte das pessoas não toma em conta o valor da dívida pública na altura de programar as suas despesas mensais (recorrendo simplesmente a regras empiricas do género "pôr metade do ordenado no banco e gastar a outra metade") , e portanto essa redução de impostos/aumento da despesa vai realmente aumentar a procura.

Ora, o argumento "se os individuos são irracionais, os políticos também são" faz sentido nas situações do tipo a), mas creio que não faz sentido nas situações do tipo b) - o caso b) apenas requer que os indíviduos não sejam racionais, não requer que os governantes sejam mais racionais que as pessoas comuns (na verdade, eu suspeito que uma política que, para funcionar, necessite que os individuos não sejam racionais, funciona ainda melhor se os governantes também não forem racionais, já que assim pôem a política em prática com mais convicção).

Tuesday, March 25, 2014

O "precedente do Kosovo"

Os países ocidentais têm alegado a que secessão crimeia e a sua posterior anexação pela Rússia vão contra o "direito internacional".

O "direito internacional" é como a "constituição inglesa" - parte não está escrita e é uma coleção de precedentes, tradições, etc., e a parte que está escrita não está toda escrita no mesmo sítio, mas sim dispersa por vários documentos, actos, tratados, protocolos, etc.

Creio que o que está em dúvida na questão da Crimeia é mesmo a sua secessão da Ucrânia (penso que ninguém contesta que dois estados soberanos se podem integrar se assim o decidirem; a integração da Crimeia na Rússia só é contestada porque a independência da Crimeia é contestada); ora, não me parece que seja liquido que vá contra o "direito internacional" que um território proclame a sua independência, ainda mais na sequência de um referendo. Desde pelo menos o século XIX (ou talvez sobretudo desde o fim da I Guerra Mundial e os 14 pontos de Wilson) que me parece haver duas tendências potencialmente contraditórias no pensamento (e na retórica) dominante: por um lado, há o principio da soberania dos estados; por outra, há o principio do direito dos povos à auto-determinação (esses dois principios contraditórios são frequentemente englobados na designação "soberania nacional", o que ainda aumenta a confusão).

Muita gente (exemplo) tem escrito que o "precedente do Kosovo" abriu as portas ao referendo da Crimeia e impediu o Ocidente de ter uma posição coerente na questão. O que eu venho disputar é que exista verdadeiramente um "precedente do Kosovo", isto é, que haja alguma diferença significativa entre a independência do Kosovo e muitas outras independências que houve por aí. Também podemos ter:

Monday, March 24, 2014

Economia Comportamental (II)

Ideology  and behavioural economics, por Chris Dillow:

Tim Harford's brilliant essay on behavioural economics highlights an ideological bias in the way the subject is used.

What I mean is that he presents it as "a hot idea for policy makers". This underplays two things.

One is that politicians themselves might be as prone to cognitive biases as the public. Indeed, it's possible that they are selected for such biases - because the overconfident are disproportionately likely to enter politics and because irrational consumers are likely to make irrational voters. The image promoted by behavioural economics (or its users) - of rational policy-makers operating upon irrational subjects - is therefore questionable.

The other is that there's an alternative use of behavioural economics. It could serve an educational function - of telling consumers what errors people commonly make, and of warning them against them. A lot of my day job is just this. 

In this latter context, the complaint some make against behavioural economics - that it is a "patchwork of sometimes-fragile psychological results" rather than general laws of behaviour - loses its force. If you're a policy-maker with a "predict and control" mentality you might want general laws. But if you just want to help others improve their decision-making, the knowledge that some/many people make a particular error in a particular context is useful enough.

Economia Comportamental (I)

A grand unified theory of behavioral economics?, por Noah Smith:

Suppose that there are a whole ton of different behavioral biases, and that these vary across time, across people, and across situations so much that even with a billion lab experiments we couldn't find them all. Only once in a while will the forces be aligned to make one behavioral bias dominate; most of the time, the net effect of all the biases will be unpredictable by the outside observer. When you have an unpredictable mishmash like that, you have to model it as a stochastic process. In other words, if it's too complicated to explain deterministically, then you treat it as randomness.

So what if psychology usually just ends up injecting randomness into our decisions? What would that theory look like? I think it would look like a Random Utility Model. (...)

A Random Utility model treats human decision-making as if it has two components - a predictable, deterministic component, and a random component. But if there are a huge jumble of behavioral effects going on, it seems to me that outside of the lab, that's usually just going to be observationally equivalent to randomness in the objective function. Which is exactly a Random Utility model.

So what if Random Utility models are the grand unified theory of behavioral economics? What if the upshot of all of these psychological effects is simply that the random component of utility is partially irreducible - that there must be a random component of utility in almost any theory if that theory is going to have a chance of predicting human behavior accurately? Maybe sometimes the randomness is so negligible that people act like homo economicus, and sometimes the random part dominated so much that their decisions are completely unpredictable with science?

Sunday, March 23, 2014

Um referendo que passou despercebido

A 2 de fevereiro, a Gagauzia (uma região autónoma da Moldova) também fez um referendo (com, creio, 3 perguntas):

An overwhelming majority of voters in a referendum held in the autonomous Moldovan region of Gagauzia have voted for integration with a Russia-led customs union.

The chairwoman of Gagauzia's election commission, Valentina Lisnic, said on February 3 that 98.4 percent of voters chose closer relations with the CIS Customs Union.

In a separate question, 97.2 percent were against closer EU integration.

In addition, 98.9 percent of voters supported Gagauzia's right to declare independence should Moldova lose or surrender its own independence. (...)

The central government had tried to stop the referendum, which it sees as a challenge to the country's territorial integrity.

 Last month, Moldova's prosecutor-general launched an investigation into Gagauzia's plan to hold the referendum, saying the vote had been rejected earlier by a court in Gagauzia as unconstitutional.

Moldovan Prime Minister Iurie Leanca also told RFE/RL's Moldovan Service on February 3 that the referendum had no legal legitimacy.

[Radio Free Europe]
Pelo que li, a referência, na terceira pergunta, à Moldova perder a sua independência é, basicamente, código para "caso a Moldova adira à UE" (ou seja, por essa interpretação, os gagauzes terão votado no sentido de proclamar a independência se a Moldova entrar na UE).

Os gagauzes são um povo de língua turca e religião ortodoxa (e com muitas teorias sobre a sua origem...), que desde 1990 têm tido uma relação algo conflituosa com o governo da Moldova (embora, ao contrário dos russos e ucranianos da Transdniestria, nunca tenham chegado a proclamar um estado independente).

Mais um possível paralelo com a Crimeia - tal como na Crimeia a população tártara (antigamente maioritária) foi deportada do território por ordem de Estaline após a II Guerra Mundial, o que é hoje a Gagauzia era habitada por nogais (tal como os tártaros, um povo de língua turca e religião muçulmana), que foram expulsos no principio do século XIX, quando a região passou para a Rússia, tendo os gagauzes instalado-se lá depois disso.

Tuesday, March 18, 2014

O segredo da recuperação irlandesa?

Morgan Kelly warns our real economic crisis will begin if ECB credit stops (The Irish Times, via The Irish Economy):

First the boom, now the boomlet. Ireland really is growing again, with employment – the only reliable measure of activity in an economy like ours – up over 3 per cent in the past year. At the same time, the interest rate on Irish government debt has fallen sharply and house prices, in a few places anyway, have started to recover.

Not only do we seem to be recovering modestly, but the economic collapse after the bubble, although pretty horrifying, was a lot smaller than expected. The gigantic building industry imploded but, beyond that, there was surprisingly little contraction in other sectors.

This is all very puzzling. Conventional economic wisdom suggests it takes you about a decade to recover from a big credit bubble like ours. If you are lucky. And if you are like Japan you can still be floundering 25 years on. But here we are, hardly three years on from being cut from the wreckage of the Celtic tiger and requiring huge transfusions of European money, in something less than rude good health admittedly, but unquestionably back from the dead.

The source of Ireland’s seemingly miraculous resurrection lies in two magical syllables. No, not “En-da” but “Dra-ghi”.

Faced with the very real prospect that the euro would collapse under the weight of insolvent banks and governments in the European periphery, ECB president Mario Draghi undertook to do “whatever it takes” to save the euro. In practice, this has involved a policy of low interest rates, and unlimited credit lines for governments and banks.

Since Ireland popped down the green pipe into the world of Super Mario we have found ourselves effortlessly jumping over our crushing national debt, insolvent banks, a massively indebted private sector, and all the other obstacles to recovery.

It is not because anyone believes the Government when it says that our national debt of 125 per cent of GDP is sustainable and that Ireland can now borrow at low rates, but because the market knows that Draghi has underwritten the value of our debt.

In normal circumstances, no sane person would keep their money in banks haemorrhaging capital as fast as Ireland’s through mounting bad loans. But in a world where banks can effectively borrow unlimited amounts at near zero interest rates from the ECB, notions like capital adequacy become anachronistic.

It is not only the Irish Government and banks that have Draghi to thank for hauling their chestnuts out of the fire, but the private sector as well. For households and firms struggling under the huge loans they took on back when we all thought we were rich, low interest rates and banks that can hardly be bothered to chase down bad loans have made the post-bubble hangover a lot less agonising than might have been feared.

Nowhere is Draghi’s wizardry plainer than in our exit from the bailout. The sale in December of €500 million of government bonds at rates slightly above German ones was trumpeted here as national resurrection and in Berlin as vindication of the view that European peripherals can only recover when they start to admit the error of their spendthrift ways. However, behind the narratives of redemption and a triumphant return to the markets, with international financiers vying to lend to a newly creditworthy Ireland, the dismal reality is that these bonds were bought entirely by the State-controlled (or effectively controlled) banks AIB and Bank of Ireland with money slipped into their pockets by the ECB.

"Capital Social" (IV)

Nestas pesquisas, reparei que o país da UE com menor "capital social" é a Roménia.

A Roménia é, se não estou em erro, o país mais pobre da UE, o que poderia ir de acordo com a teoria que o "capital social" é um dos principais determinantes do desenvolvimento. O problema é que a pobreza da Roménia não tem mistério nenhum - é o resultado de terem sido durante décadas governados por um semi-louco (que até insistiu em pagar a dívida externa...) que, mesmo pelos padrões da Europa de Leste, foi um péssimo governante.

E, de uma forma geral, os países de Leste são mais pobres e têm menos "capital social" do que os da Europa Ocidental; mas, de novo, a probreza da Europa de Leste podem ser facilmente explicadas pelas décadas de economia estatizada (que, por sua vez, no caso dos membros da UE, foram simplesmente o resultado da geografia).

Poderemos concluir que esses países têm um grande azar - não só tiveram más políticas, como ainda por cima têm pouco "capital social", tudo a contribuir para o atraso económico (e o que teve piores políticas teve o azar supremo de ser também o com menos "capital social").

Ou poderemos concluir que é uma coincidência muito grande, e que na verdade a associação entre "capital social" e desenvolvimento não é necessariamente no sentido do "capital social" levar ao desenvolvimento, podendo também ser no sentido do desenvolvimento criar "capital social", ou de haver uma causa comum para o "capital social" e para o desenvolvimento (aí sim, já é possível explicar que a relação entre atraso e baixo "capital social" se manifeste mesmo nos países em que o atraso é facilmente explicável por causas políticas).

Se calhar daqui a uns vinte anos vai haver estudos indicado que os distritos do norte da Coreia têm menos "capital social" do que os mais a sul...

"Capital Social" (III)

Tal como havia dito aqui, fui fazer uma comparação entre o grau de "capital social" dos países (medido pelo Legatum Prosperity Index), e os traços psicológicos da população desse país (de acordo com a teoria dos "big five" - Extroversão, Amabilidade, Escrupulosidade, Neuroticismo e Abertura), medidos pelo estudo The Geographic Distribution of Big Five Personality Traits - Patterns and Profiles of Human Self-Description Across 56 Nations (versão aberta em PDF).

Atenção que os dados desse estudo são discutíveis - em muitos países, a amostragem foi feita com estudantes universitários (que podem não ser representativos do conjunto da população) e, ao basear-se na auto-classificação dos inquiridos, pode transmitir resultados errados; p.ex., os países da Ásia Oriental (que até têm fama de serem bastante organizados, meticulosos, etc.) apresentam indices de "escrupulosidade" ("conscientiousness") muito baixos; isso representará a realidade ou, pelo contrário, significará que os inquiridos desses países têm niveis de exigência perante si mesmos muito elevados (o que os leva a verem-se a si mesmos como desorganizados, irresponsáveis e preguiçosos)? Também me custa a acreditar que os brasileiros sejam dos povos mais introvertidos do estudo.

De qualquer forma, fiz uma regressão linear comparando o "capital social" (agora medido pelos "scores", que são tanto maiores quanto maior o "capital social"), e as concusões são:

ßt
O-0,0670,094-0,714
N0,0200,1370,145
C-0,0300,105-0,284
A-0,1030,109-0,942
E0,2610,1751,490
const-4,01415,041-0,267
R20,092
F0,997df49

Ou seja, não há conclusão nenhuma - o R2 é infimo (0,09) e nenhum dos coeficientes é significativo (o mais significativo parece ser uma associação positiva entre extroversão e "capital social", o que vai exatamente contra a minha teoria original).

Monday, March 17, 2014

??? - Inflação na zona euro

Este é dos artigos mais confusos que li ultimamente:

"Portugal foi um dos países com taxas negativas."

"Em Fevereiro, a inflação homóloga caiu 0,1% em Portugal e na Eslováquia, 0,2% na Croácia, 0,9% na Grécia, 1,3% no Chipre e 2,1% na Bulgária. As taxas mais elevadas registaram-se em Malta e na Finlândia, ambas de 1,6%, e Áustria, de 1,5%."

"Os números do Eurostat apontam para uma nova queda nos preços em Portugal, que em Janeiro registou uma taxa de inflação de 0,1%, depois dos 0,2% de Dezembro do ano passado. Esta evolução reforça o risco de que Portugal possa vir a cair numa situação de deflação, em que são adiadas as decisões de consumo e investimento e a economia entra num longo período de estagnação ou recessão."

"Os dados divulgados na semana passada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) representam um regresso da taxa de inflação para valores negativos, algo que já tinha acontecido em Outubro e Novembro do ano passado."

Afinal, a taxa é negativa, desceu 0,1% (o que pode significar algo como baixar de 0,5% para 0,4995%, mas coloquialmente também pode querer dizer algo como baixar de 0,5% para 0,4%) ou é de 0,1%?

E, na Bulgária a inflação desceu 2,1% ou é de 2,1% (tal como está escrito, parace que desceu 2,1%, mas atendendo ao caso português, podem querer dizer que é de 2,1%)? Se a inflação na Bulgária tiver sido de 2,1%, como é que as "taxas mais elevadas registaram-se em Malta e na Finlândia, ambas de 1,6%, e Áustria, de 1,5%"?

Friday, March 14, 2014

Economia irlandesa em queda? Ou em alta?

Estatísticas irlandesas para 2013:

Preliminary estimates indicate that GDP in volume terms decreased by 0.3 per cent for the year 2013. For the second successive year, GNP showed an increase over the previous year, at a rate of 3.4 per cent in 2013 over 2012.

On a seasonally adjusted basis, constant price GDP for the fourth quarter of 2013 declined by 2.3 per cent compared with the previous quarter while GNP increased by 0.2 per cent over the same period.

A diferença entre o Produto Interno Bruto (Gross Domestic Product) e o Produto Nacional Bruto (Gross National Product): o primeiro é o valor dos bens e serviços produzidos, menos o valor das matérias-primas consumidas; o PNB é o PIB menos os rendimentos de não-residentes mais os rendimentos que os residentes tenham auferido noutros países. No caso irlandês, há uma grande diferença entre os dois (o PIB é maior que o PNB) porque grande parte da economia depende de empresas norte-americanas (penso que sobretudo farmacêuticas e informáticas), cujos lucros entram para o PIB mas não para o PNB.

A respeito disso, no Irish Economy, Kevin O'Rourke comenta: "I guess that a marketing problem the government faces is that if it plays up the GNP numbers too much as being clearly superior, which I suppose we still believe they are (?), someone out there may start dividing our debt by GNP".

Entretanto, a Irlanda (tal como Portugal) parece ter entrado em deflação, o que relativiza um pouco isso dos "juros cada vez mais baixos".


Wednesday, March 12, 2014

"Capital Social" (II)

A respeito disto, andei à procura de algum estudo medindo o "capital social" de vários países para ver se haveria algo mais sólido (ou, inversamente, algo que refutasse) esta minha intuição.

Usando o google é mais fácil achar artigos discutindo a maneira medindo o "capital social" do que artigos efectivamente  medindo-o (e desses,  alguns, como esta[pdf], parecem-me simplesmente medidas de "coisas boas que há num país"). Isso pode levantar a suspeita que se trata de um conceito vago destinado a, nos modelos de desenvolvimento económico, explicar o que as variáveis medíveis não conseguem explicar...

No entanto, o Legatum Prosperity Index tem uma medida de "capital social" por país que parece (pelos tópicos que abrange) fazer algum sentido (o site do LPI não parece funcionar por links especificos para as várias secções, logo não posso linkar para as páginas deles sobre o "capital social" - é preciso ir mesmo clicando).

Se calhar ainda vou comparar esse índice com isto [pdf], mas para já vou só pegar nos países membros da UE, ordenados por "capital social" (números mais baixos indicam maior "capital social"):

Denmark3
Netherlands5
Finland7
Sweden10
Ireland11
United Kingdom12
Austria14
Germany15
Luxembourg17
Malta20
Belgium21
Spain27
Italy29
Poland31
Slovenia37
Estonia40
France42
Portugal43
Czech Republic46
Slovakia47
Lithuania54
Hungary71
Cyprus86
Bulgaria87
Latvia93
Greece107
Romania114

Se não fossem os países do Leste, corresponderia largamente com a minha teoria original (a Irlanda, como um dos países com mais "capital social", e a Espanha, com mais "capital social" que Portugal ou a França, não corresponderiam ao esperado, mas penso que essas excepções estariam na margem de erro aceitável em ciências sociais)

"Capital Social"

Há uma teoria segundo a qual o desenvolvimento (ou não) das sociedades depende bastante do seu "capital social", isto é, da tendência para as pessoas confiarem umas nas outras e estarem dispostas a associarem-se para empreendimentos colectivos.

Essa teoria é algo discutível, mas não é esse ponto que quero abordar nesse post.

É antes uma ideia que me ocorreu, de que talvez se possa deduzir o grau de "capital social" de uma sociedade a partir dos estereótipos culturais sobre essa sociedade.

Concretamente:

a) Se numa sociedade as pessoas têm fama de serem frias, fechadas, distantes e reservadas, muito provavelmente será uma sociedade com alto "capital social", com muita participação cívica e muitas associações voluntárias

b) Pelo contrário, se as pessoas têm fama de serem alegres, simpáticas, sociáveis e comunicativas, muito provavelmente será uma sociedade com baixo "capital social", em que as pessoas têm uma grande dificuldade em se associar para fazer seja o que fôr.

Tuesday, March 11, 2014

Mudança na lei eleitoral alemã (para o PE)

O Tribunal Constitucional alemão considerou inconstitucional a clausula-barreira de 3% nas eleições para o Parlamento Europeu (ou seja, na Alemanha só partidos com mais de 3% dos votos elegiam deputados ao PE).

Pode parecer um assunto insignificante, mas talvez não seja - na Alemanha os eurodeputados são eleitos num círculo nacional de 99 representantes, logo sem uma clausula limite é muito fácil meter deputados.

Eu não sei bem como é que na Alemanha são distribuidos os mandatos, mas parece que são pelo método de St. Lague.

Assim, vamos comparar a distribuição dos mandatos que houve em 2009 com o que haveria sem a clausula-barreira:

Partido%ElegeuElegeriadif
CDU30,73432-2
SPD20,82321-2
GRÜNE12,11412-2
FDP111211-1
DIE LINKE7,5880
CSU7,287-1
FW FREIE WÄHLER????1,722
REPextrema-direita1,311
Die Tierschutzparteidireitos dos animais1,111
FAMILIEconservador111
PIRATEN0,911
RENTNERpensionistas0,811
ödpecologista de direita0,511

[Suspeito que esta tabela na wikipedia alemã tenha por objectivo representar o mesmo que eu estive a tentar calcular aqui; pelo menos os números acho que são iguais]

Despesas do Estado crescem com horário das 40 horas?

É o que diz esta notícial do Económico (que já está cheia de comentários do estilo "que bando de burros é este governo").

Eu não consigo comentar, mas penso que notícia não diz verdadeiramente o que parece que diz (usando termos tão técnicos que a mior parte dos leitores pode não perceber).

Esse aumento da despesa não se refere a um aumento da despesa em dinheiro, refere-se a um truque estatístico: o INE, ao avaliar a evolução da despesa pública, pega na evolução nominal da despesa e divide pela evolução dos preços que o estado paga; como o aumento do horário conta como uma redução do salário/hora, o INE considera que a despesa real do Estado aumento - a despesa nominal com salários manteve-se na mesma, o salário/hora diminuiu, logo a despesa "real" (despesa nominal a dividir por salário/hora) aumentou. Mas é um simples efeito estatístico, não quer dizer que a despesa tenha verdadeiramente aumentado.

Direito de secessão

Sovereignty vs. Self-Rule: Crimea Reignites Battle (New York Times):

They wanted to break away from a country they considered hostile. The central government cried foul, calling it a violation of international law. But with the help of a powerful foreign military, they succeeded in severing ties.

The Kosovars’ secession from Serbia in 1999 drove a deep wedge between the United States and Russia that soured relations for years. Washington supported Kosovo’s bid for independence, culminating in 2008, while Moscow saw it as an infringement of Serbia’s sovereignty.

Now 15 years later, the former Cold War rivals again find themselves at odds, but this time they have effectively switched sides: Russia loudly proclaims Crimea’s right to break off from Ukraine while the United States calls it illegitimate. The showdown in Ukraine has revived a centuries-old debate over the right of self-determination versus the territorial integrity of nation-states. (...)

Consider the different American views of recent bids for independence.

Chechnya? No.

East Timor? Yes.

Abkhazia? No.

South Sudan? Yes.

Palestine? It’s complicated.

It is an acutely delicate subject in the West, where Britain wants to keep Scotland and Spain wants to keep Catalonia. The United States, after all, was born in revolution, breaking away from London without consent of the national government — something that the Obama administration insists Crimea must have. The young American union later fought a civil war to keep the South from breaking away. Even today, there is occasional fringe talk of secession in Texas.

“No state has been consistent in its application of this,” said Samuel Charap, a Russia specialist at the International Institute for Strategic Studies.

Sunday, March 09, 2014

A discussão sobre a fome na Ucrânia

Um artigo que Alexander Solzhenitsyn escreveu em 2008 (versão aberta), sobre a grande fome ucraniana de 1932-33, onde o ex-dissidente recusa que se tenha tratado de um genocídio étnico dirigido aos ucranianos:

FROM AS far back as 1917, we Soviet citizens had to hear and obediently swallow all sorts of shameless, not to say meaningless, lies. That the All-Russian Constituent Assembly was not an attempt at democracy but a counterrevolutionary scheme (and was therefore disbanded). Or that the October coup (this was Trotsky's brilliant maneuver) was not even an uprising, but self-defense from the aggressive Provisional Government (composed of the most intelligent Cadets).

But people in Western countries never became aware of these monstrous distortions of historical events - neither at the time nor later. So they had no chance to immunize themselves to the sheer impudence and scale of these lies.

The Great Famine of 1921 shook our country, from the Urals, across the Volga, and deep into European Russia. It cut down millions of our people. But the word "Holodomor" (death by hunger) was not used at that time. The Communist leadership deemed it sufficient to blame the famine on a natural drought, while failing to mention at all the grain requisitioning that cruelly robbed the peasantry.

In 1932 and 1933, when a similar Great Famine hit Ukraine and the Kuban region, the Communist Party bosses (including quite a few Ukrainians) treated it with the same silence and concealment. And it did not occur to anyone to suggest to the zealous activists of the Communist Party and Young Communist League that what was happening was the planned annihilation of the Ukrainians. The provocative outcry about "genocide" only began to be take shape decades later - at first quietly, inside spiteful, anti-Russian, chauvinistic minds - and now it has spun off into the government circles of modern-day Ukraine. Russia's parliament was correct this week to vote that the famine should not be considered genocide.

Still, defamation is easy to insinuate into Westerners' minds. They have never understood our history: You can sell them any old fairy tale, even one as mindless as this.

Alguns pontos:

- Solzhenitsyn era um ultra-nacionalista russo, logo as suas opiniões devem ter algum desconto

- Creio que ele não tinha nenhuma formação especifica como historiador e suponho que não tenha feito nenhuma investigação especial sobre a fome na Ucrânia

- Eu, Miguel Madeira, ainda menos percebo do assunto (e não faço ideia se a fome ucraniana foi um genocidio ou não)

No entanto, decidi postar este texto (com as ressalvas referidas), até para fazer o contraponto com montes de artigos, posts e comentários que surgem pela net a falar do genocídio ucraniano.

Um ponto acerca do genocídio - "genocidio" significa, mais ou menos, "matar pessoas devido à sua origem étnica", embora na linguagem comum seja frequentemente usado simplesmente com o sentido de "matar muita gente". Palpita-me que esse duplo significado inquina muita da discussão sobre se o Holodomor/Grande Fome da Ucrânia foi um genocidio. Nomeadamente a tese "o Holodomor foi um genocídio" está associada à ideia de que essa fome teve um objectivo deliberado de matar ucranianos, por contraponto à tese que houve uma politica de matar à fome as populações camponesas que se opunham à colectivização, fossem ucranianos, russos, kazaks ou de qualquer etnia. No entanto suspeito que, nos muitos parlamentos a nível mundial que votaram resoluções reconhecendo o Holodomor como um genocídio, algumas (muitas?) pessoas terão votado convencidas que estavam simplesmente a votar uma moção reconhecendo que o Holodomor provocou milhões de mortes (quando a questão não é essa, mas sim o motivo pelo qual essas pessoas foram mortas).

Mais uma nota sobre essa polémica no Ocidente - dá-me a impressão que a esquerda não costuma ligar muito a essa discussão (de vez em quando lá aparece um comunista a dizer que não morreu ninguém e foi tudo propaganda nazi); já na direita tem-se afirmado cada vez mais uma adesão à tese que o Holodomor foi um genocídio (aliás, a própria expressão "Holodomor" está associada a essa escola). O paradoxo aqui é que a tese contrária até é, na sua essência, muito mais anti-comunista: afinal, a teoria "extermínio dos camponeses que se opunham à colectivização" (seja na versão de extermínio deliberado - tirar-lhes as colheitas para morrerem à fome - ou na versão mais soft de extermínio por negligência - tirar-lhes as colheitas e se morrerem de fome, azar...) associa especificamente a fome à aplicação da ideologia comunista; pelo contrário a teoria "genocídio contra os ucranianos" associa a fome a uma perseguição étnica que poderia ocorrer em qualquer regime político (ou, pelo menos, em qualquer regime não-liberal).

Tuesday, March 04, 2014

Os Beatles em 2014

Há pouco, num telejornal, falava-se que uma das celebrações do Carnaval no Rio de Janeiro tinha sido com música dos Beatles.

Vamos fazer uma contas - os Beatles começaram a ser famosos internacionalmente em 1963-64; há 50 anos, portanto. Será que em 1964 haveria quem andasse a fazer festas com música de algum cantor famoso de 1914? Mesmo o jazz, que penso que tinha alguma fama na época, é um género musical divulgado sobretudo a partir dos anos 20, creio eu.

[Possíveis candidatos, não a nível de interpretes mas de compositores - Irving Berlin, que fez a banda sonora de peças e filmes que tinham alguma popularidade até recentemente; e Stravinsky, que ficou famoso em 1913 mas ainda estava em atividade nos anos 60; mas desconfio que é capaz de ser uma analogia um bocado forçada]

Monday, March 03, 2014

Afagados pelo governo?

N'O Insurgente, Daniela Silva, a respeito da quebra da natalidade, refere que "os governos afagam a condição daqueles que adiam descontraidamente as suas obrigações".

Se ela se refere às pessoas que não têm filhos, não vejo muito bem onde é que elas são "afagadas" pelos governos - vamos lá ver: as pessoas com filhos têm direito a escola gratuita; abonos de família; deduções no IRS; licenças de maternidade/paternidade; bonificações no RSI; etc., etc. Que beneficio do Estado têm as sem filhos? Talvez as pensões de reforma, que os dispensa de ter filhos para os sustentar na velhice, mas mesmo aí duvido (mesmo sem pensões de reforma, as pessoas sem filhos poderiam simplesmente poupar enquanto trabalham para depois viveram dessas poupanças sem se reformarem, sem precisarem de arranjar filhos para isso). Até é muito provável que as pessoas sem filhos paguem mais impostos, já que até é possível que ganhem mais (confesso que no caso dos homens não sei, mas há estudos que indicam que as mulheres solteiras sem filhos ganham mais do que as outras, e que a famosa "diferença salarial" entre homens e mulheres praticamente desaparece quando a comparação é só feita com as mulheres solteiras sem filhos).

Atenção que eu não me estou a queixar - o principio de todos os membros da comunidade (tenham ou não filhos) ajudarem, de uma forma ou de outra, a criar os filhotes nascidos nessa comunidade é relativamente comum entre os mamíferos sociais (nos bandos de lobos, mabecos ou suricatas até é normal só um casal se reproduzir mas todos os membros do bando ajudarem na alimentação e defesa das crias). Só me estou a "queixar" (assumindo que estou a perceber bem o que Daniela Silva quer dizer) de as pessoas sem filhos estarem a ser apresentados como beneficiados quando são, em larga medida, o sustentáculo dos benefícios que as com filhos auferem.

Sunday, March 02, 2014

Pãnico moral

No blog da Reason, Jesse Walker fala de um caso de um estudante norte-americano fã de "Masmorras e Dragões" (um jogo que creio largamente desconhecido em Portugal, mas que nos EUA tem muito uma conotação de um jogo para "cromos") que desapareceu em 1979 e a comunicação social propagou a ideia que tinha sido culpa do jogo (que ele teria deixado de distingur a fantasia da realidade e teria ido para o sistema de esgotos); depois ele reapareceu e chegou-se à conclusão que não tinha sido nada a ver com jogos.

Isso faz-me lembrar as especulações sobre as mortes da Praia do Meco e a praxe acadêmica.

Nota: eu acho a praxe uma parvoíce e até suspeito que o caso do Meco possa ter tido algo a ver com praxes (mas também pode ter sido simplesmente o resultado da tendências das pessoas entre os 12 e os 25 anos para fazer disparates); mas as provas concretas que têm dido divulgadas até agora parecem-me muito poucas para se poder fazer uma associação entre o acidente e a praxe ao nível que tem sido feito na comunicação social