Sunday, October 27, 2019

Houve um "milagre chileno"?

There was no “Chilean Miracle”, por "Pseudoerasmus" (atenção que isto é um texto de 2016):

Almost all of the economic growth in the Pinochet years was simply recovery from recession, i.e., closing the output gaps that he himself created. There was no change in trend output growth, which is sort of what we expect from ‘miracles’ in economic development. (...)

But the actually existing Chile is no closer to convergence with the rich countries than it was in 1930. The best you can say for Chile is it has reversed its relative decline a little more than Argentina and Uruguay. (See first chart above.)

Chile’s GDP per capita is somewhat higher than Argentina’s or Uruguay’s, but all three are middle-income countries at more than $20,000 in current international dollars.

However, Chileans work longer hours than Argentines (....)

Argentina has also higher productivity levels than Chile. (See GDP per worker hour and TFP for Argentina, and for Chile.) 

(...) Uruguay, despite having a lower GDP per capita , has a higher mean income than Chile at every quintile of the income distribution, except the top. I suspect something similar prevails for Argentina. (...)

So it’s not at all clear the somewhat higher per capita income in Chile versus Argentina and Uruguay reflects a real difference in welfare.
Como eu já disse várias vezes, o eu linkar para um artigo não indica necessariamente concordância (nomeadamente, neste caso, eu estar a linkar para o post de Pseudoerasmos não implica que eu esteja a concordar com as críticas que lá ele também faz às políticas de Allende).

Já agora, ver Milagre Chileno?, Milagre Chileno (II), (III) e (IV), uma série de posts que escrevi em 2006 sobre o assunto.

As eleições bolivianas foram provavelmente fraudulentas

Pelo menos os indícios são os mesmos que nas eleições hondurenhas de 2017 - a contagem estava a indicar um resultado, depois parou misteriosamente durante para aí um dia, e quando recomeçou a contagem o resultado inverteu-se.

E isto para não falar de Evo Morales (de quem eu já fui uma espécie de defensor - ver aqui ou aqui) se ter recandidatado apesar de ter havido um referendo que rejeitou o fim dos limites à reeleição.

Saturday, October 26, 2019

"Joker" e a gentrificação

Toda a gente julgava que o filme "Joker" ia provocar tiroteios em massa, mas afinal o grande receio agora é que cause gentrificação.

Joker fans, it sounds like the Bronx really doesn't want you to come to those stairs (Time Out):

Not to our surprise, it turns out that you have delightfully strong opinions when it comes to those Joker steps. Yesterday, we posted the tip that the movie's now-iconic staircase wasn't built for the production but is an actual Bronx location. Cue clown-tastrophe: Your responses on Facebook and Twitter were voluminous.

There were those who warned off comics nerds from traveling to a rough neighborhood (you don't know how tenacious comics nerds are).....

But mainly, no one wants to see gentrification arrive
O que seria mesmo uma referência "meta" seria se no filme, a juntar a todos os seus problemas, houvesse uma cena em que protagonista corresse o risco de ser despejado por o bairro estar a ficar muito popular entre turistas que vinham ver uma escadaria que apareceu num filme famoso.

Friday, October 25, 2019

Ainda os telemóveis nas escolas

A respeito da proibição de telemóveis nas escolas, a MAGG publica uma reportagem sobre o assunto em que parece defender entusiasticamente a ideia, dando como exemplos 5 escolas e dizendo que falaram "com 5 pais e a opinião é unânime: os filhos ficam a ganhar"; mas noto que em momento algum da reportagem falaram com os alunos (que em principio seriam os mais indicados para dizer que ficaram a ganhar).

Toda a conversa parece ser que, com a proibição, "os alunos fazem aquilo que se fazia nos tempos pré-touch: correm, saltam, jogam à bola, conversar, interagem", mas isso parece-me mais conservadorismo que outra coisa - quase que imagino facilmente que há uns cento e tal anos alguém poderia querer proibir que se jogasse futebol nas escolas com argumentos do tipo "os alunos fazem aquilo que faziam nos tempos pré-esférico - sobem às árvores, brincam com fisgas, jogam à apanhada...". Isso e mais um preconceito a favor de atividades sociais com pessoas presentes fisicamente, em detrimento, tanto de atividades não-sociais (ex. jogos eletrónicos) como de atividades sociais com pessoas não presentes fisicamente (ex.. estar a trocar mensagens com amigos do bairro ou da escola primária em vez de estar a falar com os colegas de turma*).

Ainda por cima, noto uma coisa - essas escolas que proíbem o uso de telemóveis tendem a proibi-los sobretudo no 5º ao 6º ano, ou eventualmente no 5º ao 9º ano - ou seja, exatamente na faixa etária (pré-adolescência) em que as conversas e atividades no recreio tendem a ser mais idiotas (basicamente, nessa fase já se passou a idade de brincar e ainda não se entrou na idade de falar de coisas sérias, portanto a interação no recreio tende a ser ocupada, na melhor das hipóteses com "small talk", na pior com parvoíces), logo em que até é natural que muita gente prefira ocupar o tempo com o telemóvel.

*Eu, no 5º e no 6º anos, praticamente mal falava com os meus colegas de turma e tentava aproveitar todas as oportunidades para estar era com os meus ex-colegas da primária, logo acho perfeitamente normal que se prefira interagir com outras pessoas que não aquelas que o acaso pôs ao nosso lado na turma (por outro lado, se calhar alguns estão a pensar "ok, já deu para perceber que o Miguel anda perto de ser uma espécie de misantropo, logo é incapaz de perceber a vantagem da proibição dos telemóveis, que é exatamente contribuir para que as novas gerações não sejam como você").

Thursday, October 24, 2019

Análise às situações na Bolívia e no Chile

Latin America Risk Report - 24 October 2019, por James Bosworth, - "Bolivia's protests were expected. Chile's protests were not".

Wednesday, October 23, 2019

Bolivia

Num momento em que se fala bastante do Equador e do Chile, não se esqueçam também da Bolívia.

Tuesday, October 22, 2019

Os zombies no Haiti - mito ou alguma realidade?

When Zora Neale Hurston Studied Zombies in Haiti, por Charles King (Zora.Medium):

Religion depended on categories, Hurston was coming to realize: the sacred and the profane, the ethereal and the earth-bound, the miraculous and the commonplace. In Manhattan and Eatonville, there were only two boxes, the living and the dead. But Haitians had added a third, a way of being neither one nor the other, or perhaps both at the same time: zonbi, or as Seabrook spelled it in The Magic Island: zombie. (...)

At one point during her stay, Hurston visited a Haitian hospital. In the yard near the fence, she found a woman who had just been served dinner. Huddled in a defensive position, the woman had barely touched her food. Seeing Hurston approach, she pulled a branch from a nearby shrub and began to sweep the ground. She kept her head covered with a cloth, wary and fearful, as if expecting to be hit. A doctor pulled the cloth from her face, but she flung her arms up, bending them around her head like a turtle retreating into its shell.

Her name, Hurston learned, was Felicia Felix-Mentor. She had grown up in Ennery, a village on the road between Gonaïves and Cap-Haïtien, where she and her husband had managed a small grocery store. The stunning thing about this woman was that medical records showed that she had died in 1907. Hurston snapped several pictures of Felix-Mentor, one of which she later published in Life magazine. It remains the first known photograph of a person whom her Haitian neighbors knew as a zombie.

What had happened to Felix-Mentor? Twenty-nine years earlier, her funeral had taken place. She had been mourned, but her family quickly moved on with life. Her husband took a new wife. Her son grew into a man. But then, the autumn before Hurston visited, gendarmes had encountered a woman walking naked along a country road.

Sobre o nacional-conservadorismo, comércio livre, política industrial, etc.

What the Hell Is ‘National Conservatism’ Anyway?, por Park MacDougald:

Beyond these flash points, however, there were a few interesting discussions. “National conservatism” was never really defined, but broadly speaking, what unified the participants was a rejection of the small-government, free-market orthodoxy of the Obama-era Republican Party. Many took rhetorical swipes at “globalism” or “cosmopolitanism” or “libertarianism”; most spoke of rebuilding families and promoting a common American culture; a few, including Hillbilly Elegy author J.D. Vance, attacked pornography and spoke of the need for the government to do more to promote the common good. For the most part, these calls for a more activist vision of conservative government were vague; in some cases — as with former American Enterprise Institute president Chris DeMuth’s fulminations against costly regulations and government spending — they seemed like little more than attempts to rebrand small-government fusionism as “nationalist” by making a few token references to the importance of sovereignty. But the rhetorical shift is noteworthy in and of itself, and the energy was with those attempting to tear up the old GOP consensus, not trying to gently modify it.
E, a respeito disso e outros pontos, esta thread no Twitter de Noah Smith:
In the long term, the most important effect of Trump's trade war may be that it broke the dam that was holding back protectionist and industrial-policy ideas.

The intellectual hegemony of free trade is over, and won't be coming back again soon.

Saturday, October 19, 2019

Vaga de agitação no planete Terra (II)

- Líbano
- Chile
- Catalunha

E estes são só os que começaram nos últimos dias

Friday, October 18, 2019

O acordo do Brexit como a rendição britânica na Irlanda do Norte

Johnson’s Suez (Flip Chart Fairy Tales):

Brexit was always going to destroy the delicate balance achieved by the peace process and the Good Friday agreement. Even if the suggested technological solutions had delivered all they promised it still wouldn’t have been enough. Identity and symbolism can’t be wished away. Even a completely invisible border policed by magic robots would be too much. Just knowing there is a border between you and the rest of your country is enough to rekindle the old hostilities.

Someone, then, was always going to lose out. In the event, it was the unionists. According to the deal negotiated by Boris Johnson there will be a trade border in the Irish Sea between Great Britain and Northern Ireland. There is an attempt to fudge this by saying that Northern Ireland will be part of the UK for customs purposes but this is a face-saving formula. The customs and regulatory checks will take place in Irish Sea ports not on the Irish border. Our British businessman in Belfast will be the one completing the paperwork to trade with his country. We’ve ended up at Point A on the Brexit Trilemma.

Vaga de agitação no planeta Terra

From Baghdad to Kyiv to Haiti, people everywhere are rising up. The U.S. is a big part of the problem, por Will Bunch (The Philadelphia Inquirer):

Heard about Baghdad? Heard about Haiti? Heard about Kyiv, Ukraine?

It’s life during a wartime, of sorts, against the 21st century rot of corrupt governance, inequality and injustice, and in accelerating fashion over the course of 2019 it’s been spreading across every time zone and every major continent, from the now-bloodied streets of Iraq to the faded capitals of South America to the vast central squares of Eastern Europe. (...)

The autumn of 2019 is fast becoming the most revolutionary season on Planet Earth since 1989 (with 2011 in the argument) when the Berlin Wall fell and it took a dictator’s tanks to subdue protesters at Tiananmen Square. This time, the fires burn differently from place to place, but the sparks are pretty much the same everywhere.

Vaga de agitação na América Latina

Why political turmoil is erupting across Latin America, por Mary Beth Sheridan (Washington Post):

In Peru, the president dissolved Congress.

In Honduras, the president is battling U.S. allegations he received bribes from drug lords.

In Haiti, demonstrations threaten to topple the government. And in Ecuador, protests grew so chaotic that the administration high-tailed it out of the capital city.
Não sei se alguma vez tinha visto chamar "América Latina" ao Haiti, mas faz sentido (ainda mais porque acho que o termo "América Latina" até foi promovido pelos franceses por altura da intervenção no México, para dar a entender que haveria algo em comum entre a França e o México, logo as colónias e ex-colónias francesas serão definitivamente "latinas" - embora duvido que alguém chame "América Latina" ao Quebec).

Ainda a "classe operária"

A respeito disto, ocorre-me que mesmo alguns exemplos ficcionais de "classe operária" conservadora já estão na transição entre "classe operária" e outra coisa qualquer - o mais célebre de todos, o Archie Bunker de "Uma Família às Direitas" durante a maior parte da série era encarregado na fábrica onde trabalhava e nas horas vagas conduzia um taxi (não é muito claro o regime laboral em que ele conduzia o táxi, que creio era de um amigo - , mas suspeito que fosse algo do tipo "ficas com o que fizeres [ou uma fração]"), ou seja, alguém que já estaria na transição entre proletariado e a pequena-burguesa (assalariado mas com funções de chefia, e com um segundo trabalho quase por conta própria)*.

Já a Roseanne Conner de "Roseanne" (em que aí foi mais a atriz que fez ela uma viragem da esquerda radical para a direita; confesso que não sei se isso se refletia na série em si - de que só vi a primeira época, e já há quase 30 anos - mas pelo menos refletia-se na imagem pública da série) era uma proletária típica, mas o marido era um micro-empresário.

* É verdade que por este critério arrisco-me a excluir da "classe operária" toda a gente que faça biscates ao fim de semana, ou mesmo que vá à pesca

A "classe operária branca" é na verdade muita "pequena-burguesia branca"

Pelo menos nos EUA, mas suspeito que não só: We Aren’t Seeing White Support for Trump for What It Is, por Thomas B. Edsall (New York Times):

This movement of white voters has been evolving over the past 60 years. A paper published earlier this month, “Secular Partisan Realignment in the United States: The Socioeconomic Reconfiguration of White Partisan Support since the New Deal Era,” provides fresh insight into that transformation. (...)

Perhaps most significant, [the authors] Kitschelt and Rehm found that the common assumption that the contemporary Republican Party has become crucially dependent on the white working class — defined as whites without college degrees — is overly simplistic.

Instead, Kitschelt and Rehm find that the surge of whites into the Republican Party has been led by whites with relatively high incomes — in the top two quintiles of the income distribution — but without college degrees, a constituency that is now decisively committed to the Republican Party. (...)

Kitschelt and Rehm write:
Individuals in the low-education/high-income group tend to endorse authoritarian noneconomic policies and tend to oppose progressive economic policies. Small business owners and shopkeepers — particularly in construction, crafts, retail, and personal services — as well as some of their salaried associates populate this group.
In an email, Kitschelt elaborated:
Unlike much of the current debate, the ‘white working class’ — concentrated in the low-education/low-income sector of the white population — is not the category that has most ardently realigned toward Republicans. It’s higher income/low education whites
Um dos problemas dos tais estudos eleitorais e sondagens que frequentemente dizem que a "classe operária" (ou "working class", o que não é necessariamente a mesma coisa) está-se a voltar para a direita e extrema-direita é que frequentemente usam as habilitações académicas como proxy para a classe social; mas ao chamarmos "classe operária" a toda a gente sem frequência universitária, estamos a incluir não apenas a "classe operária" tradicional (conceito já de si muito ambíguo [pdf]) mas também muita gente que desde o século XX (ou mesmo até antes) tem sido quase sempre um bastião da direita - agricultores, pequenos comerciantes e empresários, taxistas, gerentes de lojas, vendedores à comissão, etc. (em Portugal, essas classes têm sido a coluna vertebral do PSD); é verdade que a outra maneira de definir "classe operária" (pelo rendimento) tem o problema oposto - apanha muitos professores, assistentes sociais, quadros intermédios, etc. em principio de carreira, e que por isso têm rendimentos baixos (já agora, será essa a coluna vertebral do BE?). Ainda por cima, ambas as variáveis têm um problema muito similar - acabam frequentemente por ser proxys, não para a classe social, mas para a idade: definindo "classe operária" como "pessoas sem formação universitária", acabamos por incluir muita gente simplesmente por ser relativamente idosa (e provavelmente fazendo a "classe operária" parecer mais de direita do que efetivamente é); e definindo "classe operária" como "pessoas que ganham menos que Z", acabamos por incluir muita gente simplesmente por ser relativamente jovem (e provavelmente fazendo a "classe operária" parecer mais de esquerda do que efetivamente é).

Ainda sobre isto (mas escrito há 7 anos), The white working class, por John Quiggin, no Crooked Timber:  
US political discussion uses two very different (though correlated) concepts of “working class”. The first is the more or less standard one – people who depend on wage labor (normally in manual or low-status service occupations) for their income. The second, specific to the US, and standard in most political polling, is “people without a 4-year college degree”, a class which includes such horny-handed sons and daughters of toil as Bill Gates and Paris Hilton. More prosaically, it includes lots of small business owners, and (since college graduation rates were rising until relative recently), over-represents the old.
E (também de há 7 anos - basicamente estes artigos foram escritos aquando da campanha pela reeleição de Obama, em 2012), The Working White Working Class Really Is Leaving the Democrats, de Jonathan Haidt, que usa a definição "classe operária = pessoa com menos que 4 anos de formação universitária" (e que tem a vantagem, para quem se queira entreter com esta polémica, de referir montes de artigos sobre o tema, de um lado e do outro - incluindo, aliás, um artigo de Thomas Edsall, o autor do artigo que inspira este post, com, pelos vistos, uma posição oposta à que tem agora..).

Cessar-fogo em Rojava? Ou simplesmente "luz verde" à Turquia?

Pence And Pompeo ‘Ceasefire’ Benefits Turks, Syria, And Russia, Screws Kurds, por Doug Mataconis (Outside the Beltway):

After meeting with Turkish President Recep Tayyip Erdogan for four hours in Ankara, Vice-President Pence and Secretary of State Pompeo announced a ceasefire in the ongoing Turkish offensive in northern Syria that, if successful, will give the Turks essentially everything they want while completing what many have called the betrayal of the Syrian Kurds (...)

It’s worth noting that the Turks are most emphatically not calling this a ceasefire (...)

Whether you call this agreement a “cease=fire” or not is immaterial, what matters are the details, and those details leave much to be desired. Essentially what is happening here is that the Turkish military will halt its current advance for five days. During that five day period, at least two things must happen.

First, the American forces that remain in northern Syria will withdraw completely from the region. This is something that President Trump had already agreed to, of course, but the rapid advance of the Turkish forces, combined with the speed with which Syrian forces have rushed in to fill the vacuum pursuant to their new agreement with the Kurds, have placed Americans in the middle of a potential clash between the Turks and the Syrians. This agreement gives the Americans time to complete their withdrawal. Oh, and one more thing, the agreement requires us to lift the very minimal sanctions that we imposed against Turkey in the wake of the invasion.

The second thing that must happen over the next five days is the complete withdrawal of Kurdish forces from the so-called “safe zone” declared by the Turks as part of their invasion. Exactly where the Kurds are supposed to go is unclear, but possibilities include the idea that they may withdraw into Iraqi territory where the Kurds have a nearly de facto autonomous region. Whatever the case, it means that the Syrian Kurds will be forced to give up th gains they have made over the past nearly ten years of civil war, and will get nothing in return for it except for the privilege of not getting killed by Turkish forces.
Como já escrevi noutro sítio,não se interprete este post como estar a defender que os EUA devessem intervir ao lado dos curdos contra  a Turquia.

Thursday, October 17, 2019

O acordo do Brexit

Pelo que tenho lido, é a "rendição":


Diga-se que estou convencido que este acordo vai ser chumbado no parlamento e que o mais provável ainda é mesmo um hard brexit sem acordo nenhum.

A democracia boliviana a enfraquecer?

How Evo Morales running again — and again — undermines Bolivia’s democracy, por  Ben Raderstorf e Michael J. Camilleri (Washington Post):

Unlike with Morales’s counterparts in Latin America’s three consolidated dictatorships — Venezuela, Cuba and Nicaragua — his past elections have been democratic and his governance style autocratic but not authoritarian. Members of Bolivia’s long-suppressed indigenous majority felt vindicated by the election of an Aymara president, and many analysts now see Morales’s 13 years in office as successful on economic merits, with consistent growth (real GDP per capita has almost doubled) alongside fairly ambitious socialist redistributive efforts. (...)

[I]t is difficult to predict how this election will go. For Bolivians, the stakes go far beyond control of the presidency. Morales has shown a growing willingness to use state institutions and resources to secure his hold in power. If he is reelected, he will govern from a position of political and economic weakness, a reality he has yet to confront. A government that is politically vulnerable today might be unelectable by 2024. Morales, who will turn 60 later this month, might have burnished his reputation by quitting while he was ahead. Instead, it is difficult to see him walking away. Having eliminated the formal constraint of term limits, he might find that extending his rule under less accommodating conditions requires a more decisive break with democratic checks and balances. If so, Bolivia risks following the paths of Venezuela and Nicaragua, where authoritarian consolidation became the only alternative to surrendering power.

Novo acordo do Brexit

Brexit: European Commission recommends the European Council (Article 50) to endorse the agreement reached on the revised Protocol on Ireland / Northern Ireland and revised Political Declaration


A morte dos académicos favorece o progresso intelectual?

Does Science Advance One Funeral at a Time? (NBER)

In Does Science Advance One Funeral at a Time? (NBER Working Paper No.21788), Pierre Azoulay, Christian Fons-Rosen, and Joshua S. Graff Zivin explore the famous quip by physicist Max Planck. They show that the premature deaths of elite scientists affect the dynamics of scientific discovery. Following such deaths, scientists who were not collaborators with the deceased stars become more visible, and they advance novel ideas through increased publications within the field of the deceased star. These "emerging stars" are often scientists who were not previously active within that field. The results suggest that outsiders to a specific scientific field are reluctant to challenge a research star who is viewed as a leader within that field.

Wednesday, October 16, 2019

Finalmente Brexit?

The latest Brexit plan may stand a chance but unanswered questions remain, por David Henig:

If you’re confused by the latest Brexit plan, which seems to involve Northern Ireland being simultaneously both in and out of both the EU and UK customs zones, then fear not, you are far from alone. For in obscure corners of social media and face-to-face at various trade events in the last few days, specialists have been asking various questions, trying to understand what it is the UK government seems to be proposing.

The outline plan was enough to persuade the EU to enter serious talks, unlike the previous ideas of alternative border arrangements based around technology. It was enough for Leo Varadkar to join Boris Johnson in seeing a pathway to a Brexit summit. There’s obviously something to it, so let’s examine what that could be.

Joseph Schumpeter e o corporativismo

Beyond the Business Cycle and Socialism: The Late Schumpeter's Corporatist View, por Sergio Noto (SSRN):

The paper discusses the late endorsement by J. Schumpeter of the corporatist theory. The corporatist view was definitely enunciated by him during a well known conference held in Montreal on November 19th 1945, but this was probably the end of more antique process, the consequence of a cultural network, to which Schumpeter attended since the beginning of his American experience.
Uma coisa que me ocorre é se Schumpeter não terá sido uma espécie de Pedro Arroja do século passado (um economista liberal que chegou à conclusão que o liberalismo não tinha grande futuro - por motivos mais culturais do que económicos - e voltou-se para outros lados*).

* diga-se que dando agora uma olhada pelo blogue do Pedro Arroja, não sei se ele não terá entretanto regressado ao liberalismo.

O Vento Sueste no Facebook

O blogue agora tem uma página no Facebook, que em princípio só servirá para linkar para os posts (como já ninguém usa o RSS, é um substituto).

Tuesday, October 15, 2019

A valorização das empresas em bolsa é sobretudo resultado da exploração dos trabalhadores

Too Many Companies Drain Value From the Economy, por Noah Smith (Bloomberg):

This is an important and timely debate, since during the past 15 years, corporate profits have taken in a historically large share of the value produced by the U.S. economy (...).

And in recent years, stock valuations have increased faster than either profits or the economy itself (...).

How much of this increase in market value was due to rent extraction, or to the expectation of future rent extraction? Economists Daniel Greenwald, Martin Lettau and Sydney Ludvigson believe they have an answer: Most of it. In a recent paper, they built a model of the economy in which the value created by businesses could be arbitrarily reallocated between shareholders and workers. They found that redistribution from workers to shareholders accounted for 54% of increased stock wealth. Falling interest rates, rising investor appetites for risk and economic growth comprised the remaining 46%.
O tal paper - How the Wealth Was Won: Factors Shares as Market Fundamentals, por Daniel L. Greenwald, Martin Lettau e Sydney C. Ludvigson:
We provide novel evidence on the driving forces behind the sharp increase in equity values over the post-war era. From the beginning of 1989 to the end of 2017, 23 trillion dollars of real equity wealth was created by the nonfinancial corporate sector. We estimate that 54% of this increase was attributable to a reallocation of rents to shareholders in a decelerating economy. Economic growth accounts for just 24%, followed by lower interest rates (11%) and a lower risk premium (11%). From 1952 to 1988 less than half as much wealth was created, but economic growth accounted for 92% of it.

Saturday, October 12, 2019

Condenado à morte por aprovar livros

‘There’s no hope for the rest of us.’ Uyghur scientists swept up in China’s massive detentions (Science):

No one outside the Chinese government knows where Tashpolat Tiyip is. No one knows exactly what charges have been filed against him. The only thing that anyone really knows is that in April 2017, as the geographer and former president of Xinjiang University in Ürümqi prepared to fly from Beijing to Berlin for a scientific conference and the launch of a research center, he disappeared without even a phone call to colleagues or family.

Six months later, a Chinese propaganda video emerged saying Tiyip was one of 88 scholars who had “deeply poisoned the minds” of students by approving textbooks with too much content from Uyghur sources—the ethnic group that makes up about half of Xinjiang province’s 24 million people. The video calls Tiyip and three other Uyghurs “two-faced” separatists before announcing their sentence: death, with a 2-year reprieve.


Friday, October 11, 2019

Dos IWW às lutas na Google e na Uber

The Radical Guidebook Embraced by Google Workers and Uber Drivers (New York Times):

Just before 20,000 Google employees left their desks last fall to protest the company’s handling of sexual harassment, a debate broke out among the hundreds of workers involved in formulating a list of demands. (...)

But the argument that gained the upper hand, especially as the debate escalated in the weeks after the walkout, held that those approaches would be futile, according to two people involved. Those who felt this way contended that only a less formal, worker-led organization could succeed, by waging mass resistance or implicitly threatening to do so.

This view, based on century-old ideas, did not emerge in a vacuum. It can be traced in part to a book called “Labor Law for the Rank and Filer,” which many Googlers had read and discussed.

Its authors are a longtime labor historian, Staughton Lynd, and an organizer, Daniel Gross. They identify with a strain of unionism popularized in the early 1900s by the Industrial Workers of the World (...)

And Googlers aren’t the only ones who have drawn inspiration from the book. Workers at the crowdfunding company Kickstarter, the site of a recent union campaign, have studied it. Organizers with one of the largest Uber driver groups say the ideas have influenced them as well.

Ares Geovanos, a longtime volunteer for the Tech Workers Coalition, which seeks to organize workers across the industry, said the book’s key contention — that a dedicated group of employees can accomplish more through actions like strikes than by formal efforts to certify a union — had gained traction partly because it reflects reality: Most tech workers have traditionally been reluctant to organize.
A situação nos EUA é bastante diferente da portuguesa (p.ex., lá os sindicatos são certificados oficialmente, por votação, como representantes legais dos trabalhadores de dada profissão e/ou empresa), mas apesar de tudo essas organizações informais não-certificadas parecem-me ter algum paralelismo com o aparecimento cá de sindicatos não alinhados com as centrais sindicais (como os motoristas de matérias perigosas, os enfermeiros ou o Sindicato de Todos Os Professores), e que nalguns casos (nomeadamente os enfermeiros e o STOP) parecem por vezes funcionar menos como organizações estruturadas e mais como simples siglas para dar cobertura jurídica a greves largamente self-service feitas por trabalhadores quem nem sequer estão neles filiados.

Ver o meu post de maio,Um espectro assombra o mundo, o espectro das greves.

Wednesday, October 09, 2019

Os problemas de não ter bem uma constituição

BORIS Johnson is planning to tell the Queen she cannot sack him as Prime Minister even if he loses a no confidence vote and MPs choose a caretaker replacement. (The Sun)

Poderão perguntar - acabou de haver eleições em Portugal, um assunto susceptível de montes de análises, e o Miguel continua obcecado com a situação política no Reino Unido? Mas a verdade é que a atual crise institucional britânica (nomedamente como desporto de espetador) é muito mais divertida.

Thursday, October 03, 2019

A aliança entre a Amazon e a polícia

Amazon Has Already Roped 200 Police Departments Into Its Ring Doorbell Surveillance/Promotional Scheme, por Tim Cushing (Techdirt): 

If I've learned anything from the past 20 years of J-horror remakes, these documents are the last thing Motherboard's Caroline Haskins will see before she dies.
At least 200 law enforcement agencies around the country have entered into partnerships with Amazon’s home surveillance company Ring, according to an email obtained by Motherboard via public record request.
Ring has never disclosed the exact number of partnerships that it maintains with law enforcement. However, the company has partnered with at least 200 law enforcement agencies, according to notes taken by a police officer during a Ring webinar, which he emailed to himself in April. It’s possible that the number of partnerships has changed since the day the email was sent.
Amazon is slowly but steadily building a surveillance network. It's not just building it for itself. It has Alexa for that. It's building a new one for US law enforcement agencies, free of charge, in exchange for free promotion and future long-term buy-in

Ring's doorbell cameras are a consumer device, but many, many people are getting them for free from local PDs. The incentives work for everyone… except for those concerned about a private company turning people's houses into de facto police cameras.

Wednesday, October 02, 2019

Como a lei protege o capital

The Code of Capital by Katharina Pistor, por David Murphy (Open Letters Review):

So much discussion around wealth and inequality involves gawking at statistics people don’t understand. Katharina Pistor offers a fascinating argument as to why inequality is increasing, and does so “without having to construct class identities, as Marxists feel compelled to do, or to make heroic assumptions about the rationality of human beings, as rational choice theorists would have it.”  She does not dispute these paradigms (although it isn’t hard to discern where her sympathies lie when you notice her presentation of the concept of capital is informed by people with last names like Polanyi, Harvey, Hobsbawn, Veblen and Stiglitz), rather she argues that “they ignore the central role of law in the making of capital and its protection as private wealth. . . the key to understanding the basis of power and the resulting distribution of wealth lies instead in the process of bestowing legal protection on select assets and to do so as a matter of private, not public, choice.”

Tuesday, October 01, 2019

Os dois pesos e duas medidas da Organização dos Estados Americanos

Losing Legitimacy? The Organization of American States and its inconsistent defense of democracy, por Adam Ratzlaff (Global Americans):

Luis Almagro, the Secretary General of the Organization of American States (OAS), has been an outspoken proponent for democracy in Venezuela. Even before Juan Guaidó invoked the country’s Constitution and declared the Venezuelan presidency vacant, under Almagro’s direction the OAS has become a fierce promoter of democracy in the Americas and the defender of free and fair elections. But although Almagro has championed the cause of democracy in Venezuela and Honduras, he has failed to protect democracy in other countries in the region and, in so doing, has threatened the legitimacy of the OAS to respond to democratic crises like the one currently occurring in Venezuela.

Monday, September 30, 2019

Quando a polícia secreta soviética foi atrás dos espíritas

Soviet Seances: When The Chekists Came For The Spiritists, por Eduard Andryushchenko:

Aside from Lenin, the court heard from a number of early Soviet A-listers, some of whom might have cause to slander Stalin.

There was archrival Leon Trotsky, who was assassinated in Mexico City in 1940 on the Soviet leader's orders. And Nadezhda Alliluyeva, Stalin's second wife, who died under mysterious circumstances after a public argument with her husband in 1932.

Others speaking from the grave included the writers Maxim Gorky and Aleksandr Kuprin, as well as famed rocket scientist Konstantin Tsiolkovsky.

Their questioners were not members of the Bolshevik inner circle, but ordinary residents of the north-central Ukrainian town of Bila Tserkva who had never even belonged to the Communist Party.

For their role in conjuring up voices from the past, Ilya Gorban, his sister Vera Sorokina, and his lover Olga Rozova were arrested and accused of anti-Soviet acts and the "creation of an illegal religious-mystical group of spiritists."


Sunday, September 29, 2019

É tempo de acabar com o franco CFA?

In Africa: Understanding the CFA Franc and its Foreign Exchange Rate Impact, por Frances Coppola (American Express)

It’s time to end the CFA franc, por Ndongo Samba Sylla (Africa is a Country).

The CFA Franc: French Monetary Imperialism in Africa, por Ndongo Samba Sylla (Review of African Political Economy, via o blogue da LSE).

Acho que isto acaba por ter semelhanças com a questão do euro.

Para quem não saiba, o franco CFA são duas moedas usadas nas antigas colónias francesas em África, que têm um câmbio fixo com o euro (e antes com o franco francês), o que significa que a politica cambial e monetária desses países é na prática determinada na Europa.

Friday, September 27, 2019

Nem toda a esquerda dos EUA é anti-armas

I’m a left-wing anarchist. Guns aren’t just for right-wingers., por Kim Kelly:

I’m of the firm opinion that it’s time to not only arm the left but challenge the narrative that all leftists are anti-gun. Many are, and that’s a position I can understand and respect. But there is also a long history of armed community self-defense among the radical left that is often glossed over or forgotten entirely in favor of the Fox News-friendly narrative that all liberals hate guns. That’s simply not the case — though as history has proven, the only thing that scares the reactionary right more than the idea of losing their guns is the thought of us having them.

Thursday, September 26, 2019

O Vermont vermelho de Bernie Sanders

Bernie’s Red Vermont, por Matthew Zeitlin (The New Republic):

How Sanders’s brand of American socialism emerged from the crucible of the Green Mountain State’s squabbling counterculture (...)

The Citizens Party was just one of the left-wing groups partially populated by former members of Sanders’s old Liberty Union Party, which he had joined in 1971, after first moving to the state in 1968. Vermont, despite being one of the most Republican states in the country at the time, had seen its demographics and culture shift in the 1960s and ’70s, opening up the space for more radical political movements at the high tide of protests against the Vietnam War.

What was radical then, in some respects, might sound all too familiar to big-city lifestyle liberals or residents of the Hudson Valley. “A counterculture population has emerged in Vermont, consisting of ex-urbanites who have chosen the rustic life, busying themselves with gardening, chopping wood, baking bread, weaving, doing yoga and astrology, smoking pot, and eating organic foods,” Michael Parenti, a Liberty Union member who had been denied tenure at the University of Vermont because of his radical politics, wrote in a 1975 essay.

But Liberty Union was, at its core, a left-wing, antiwar, anti-establishment grouping. It was able, as Parenti wrote, to garner the support of “many low-income, working class people,” and its support was “as high as 25 percent” in poor parts of Burlington. In 1974, at the height of the party’s influence, it ran 43 candidates locally and statewide and was getting between 5 and 7 percent of vote. It was able to peel off a few union locals traditionally allied with the Democratic Party, and even got a union worker, at the urging of Sanders, to run for lieutenant governor. 

Wednesday, September 25, 2019

Monday, September 23, 2019

Drones, o equalizador?

The drone attacks in Saudi Arabia have changed the nature of global warfare, por Patrick Cockburn (The Independent):

[T]he military playing field will be a lot more level in future in a conflict between a country with a sophisticated air force and air defence system and one without. The trump card for the US, Nato powers and Israel has long been their overwhelming superiority in airpower over any likely enemy. Suddenly this calculus has been undermined because almost anybody can be a player on the cheap when it comes to airpower. (...)

Cost and simplicity are important because they mean that Iran, the Houthis, Hezbollah and almost any country can produce drones and missiles in numbers large enough to overwhelm any defences they are likely to meet.

Táxis

Depois fazer este comentário (sobre um assunto muito relacionado com táxis) no blogue Economia das Pessoas, não é que a caption que me apareceu para eu provar que era uma pessoa era para indicar quais as imagens em que apareciam táxis?

Dois autoritarismos em confronto no Reino Unido

Ambos os lados da divisão política no Reino Unido parecem-me ter um pendor autoritário - do lado dos brexiters, claro, há toda aquela posição de fechar o parlamento e admitir seriamente que o governo comece a agir à margem da lei (basicamente, uma espécie de "bonapartismo" - um governo com em última instância com legitimidade democrática, mas que governa de forma quase absolutista).

Mas, do outro lado, os remainers (nomeadamente os Liberais ditos Democratas) não me parecem melhores, pelo modo como cada vez mais abertamente se dispõem a deitar para o lixo os resultados de um referendo, atacam o Cameron por o ter convocado, e até parece que já nem um segundo referendo acham necessário - ou, no máximo, apenas um referendo em que as únicas escolhas sejam remain e soft brexit (em vez de um referendo com 3 opções, que me parece a hipótese mais lógica), nem levando a votos a opção "brexit sem acordo" (ou seja, a opção que tudo indica ter o apoio de cerca de metade de população, se somarmos os resultados nas sondagens dos Conservadores, do Brexit Party e do UKIP).

O fim da democracia parlamentar no Reino Unido?

Amanhã, às 10:30, o Supremo Tribunal britânico vai anunciar a decisão sobre a prorrogação do parlamento.

Se for decidido que o primeiro-ministro tem realmente o direito a suspender o parlamento (ou recomendar à rainha que o suspenda) nas condições em que o fez, isso representará uma redução significativa dos poderes do parlamento britânico (quase um regresso a 1687?). A respeito disso, Simon Wren-Lewis escreve "If the executive can suspend parliament whenever it likes, for purely political reasons (it doesn’t like what parliament is doing), then the executive have the power to end our parliamentary democracy. First it is for a few weeks, and then it is for a few years. It is simply nonsense to say that this is a political matter, because politics has been shut down. Parliament cannot even vote no confidence in the Executive because parliament has been suspended".

Saturday, September 21, 2019

Alguns conservadores estão a começar a perceber que os liberais só são contra a concentração de poder quando os poderosos usam o título de "governantes"

E, inversamente, alguns liberais estão a começar a perceber que os conservadores só são contra o "estatismo" quando esse é usado para promover causas progressistas.

Josh Hawley Says Libertarians Who Defend Tech Are Enamored with Power. He Should Look in the Mirror, por Robby Soave (Reason):

It is discouraging that an ostensible conservative would make it his personal crusade to destroy the Big Tech boogeyman by ceaselessly threatening government intervention. But this is the path Hawley has chosen. Oddly, he thinks libertarians should be applauding him for it.

"I don't understand why those who call themselves libertarians are so enamored with this incredible concentration of power in the hands of a few," he told The Hill's Saagar Enjeti in a recent interview. "I thought the whole libertarian tradition was about standing up to power. It was about checking concentrated power on behalf of the people."

Friday, September 20, 2019

As quotas ocultas de Harvard

Legacy and Athlete Preferences at Harvard[pdf], por Peter Arcidiacono, Josh Kinsler e Tyler Ransom:

The lawsuit Students For Fair Admissions v. Harvard University provided an unprecedented look at how an elite school makes admissions decisions. Using publicly released reports, we examine the preferences Harvard gives for recruited athletes, legacies, those on the dean’s interest list, and children of faculty and staff (ALDCs). Among white admits, over 43% are ALDC. Among admits who are African American, Asian American, and Hispanic, the share is less than 16% each. Our model of admissions shows that roughly three quarters of white ALDC admits would have been rejected if they had been treated as white non-ALDCs. Removing preferences for athletes and legacies would significantly alter the racial distribution of admitted students, with the share of white admits falling and all other groups rising or remaining unchanged.

Wednesday, September 18, 2019

O consumo de carne e o aquecimento global - realidade ou mito?

Debunking the meat/climate change myth, por Eliot Coleman (Grist):

The UN report shows either great ignorance or possibly the influence of the fossil fuel lobby with the intent of confusing the public. It is obviously to someone’s benefit to make meat eating and livestock raising an easily attacked straw man (with the enthusiastic help of vegetarian groups) in order to cover up the singular contribution of the only new sources of carbon — burning the stored carbon in fossil fuels and to a small extent making cement (both of which release carbon from long term storage) — as the reason for increased greenhouse gasses in the modern era. (...)

If I butcher a steer for my food, and that steer has been raised on grass on my farm, I am not responsible for any increased CO2. The pasture-raised animal eating grass in my field is not producing CO2, merely recycling it (short term carbon cycle) as grazing animals (and human beings) have since they evolved. It is not meat eating that is responsible for increased greenhouse gasses; it is the corn/ soybean/ chemical fertilizer/ feedlot/ transportation system under which industrial animals are raised.
Duas observações:

Primeiro, perguntei a um amigo meu com formação em biologia e que percebe mais disto que eu, e ele é da opinião que o texto está correto mas acaba por não estar: a tese a produção e consumo de carne só por si não produz nenhum poluição (a pastagem absorve CO2 e as vacas expiram-no e fica tudo na mesma) e o mal é a sua produção em moldes industriais (com a alimentação a soja que leva as vacas a arrotarem metano e à destruição das florestas naturais, os combustiveis necessários para o transporte, os óxidos de azoto libertados pelos adubos sintéticos, etc.) está correta; mas acaba por estar incorreto na medida em que não será possível produzir as quantidades de carne atualmente consumidas sem ser através dos tais métodos industriais.

Outro amigo meu, que acho que é vegetariano ou coisa parecida, há uns anos começou por falar muito nos efeitos sobre o clima da produção de carne, e que seriam muito mais graves do que os da poluição por causa dos combustíveis; ao fim de alguns meses já andava a partilhar na internet textos a negar o aquecimento global - esta evolução parece-me representativa da tal confluência entre os vegetarianos e a indústria petrolífera: provavelmente a posição "os combustíveis fósseis são menos maus que a criação de gado" deve ter sido a porta de entrada para a escalada que acabou em "o aquecimento global é uma fraude" (a posição inicial com certeza levou-o a frequentar recantos da internet dominados pelos defensores da indústria petrolífera, que começam primeiro com a mensagem "temos antes que reduzir a pecuária" e depois começam com a mensagem negacionista).

Tuesday, September 17, 2019

Cancelando definitivamente a cultura do cancelamento?

Sheriff helped plot his own deputy’s killing over ‘racially offensive’ tape, prosecutors say (Washington Post):

Granville County Sheriff Brindell Wilkins learned one of his deputies had a tape of him making “racially offensive” comments, prosecutors say. So the North Carolina lawman encouraged another man to kill the officer, according to a felony indictment revealed late Monday night.

“The only way you gonna stop him is kill him,” Wilkins allegedly told the would-be shooter in a 2014 recorded phone call about a plan to kill former deputy Joshua Freeman. The plot was not carried out.

Um espectro assombra o mundo - o espectro das greves (III)

Trabalhadores avançam para a greve na General Motors (Esquerda.net):

As negociações entre sindicato e fabricante automóvel falharam. Pela primeira vez em doze anos, os 49 mil trabalhadores estão em greve esta segunda-feira por melhores salários e menos precariedade.
Kaiser healthcare workers plan for nation's largest strike since 1997 (Salon):
More than 80,000 Kaiser Permanente emergency medical technicians, nurses, respiratory therapists and other staffers are threatening to walk out of work next month, in what could be the nation's largest strike since 1997.
Ver o post de maio, Um espectro assombra o mundo, o espectro das greves.

Textos da esquerda de Hong Kong

Lausan - Sharing decolonial left perspectives on Hong Kong:

Lausan 流傘 is a collective of writers, researchers, activists and artists from Hong Kong and its diasporas, engaging with the city’s political struggle. Through translation, creation, and education, Lausan 流傘 aims to build solidarity on the international left with Hong Kongers’ unfinished fight to imagine emancipatory futures after colonialism, against both Chinese and Western imperialism.

Monday, September 16, 2019

Como escapar da Torre de Londres?

Uma espécie de "jogo" (tipo ficção interativa), via Twitter, inspirado num caso real:


"Lugar de fala" - um conceito quase estritamente lusófono?


Sunday, September 15, 2019

Suspensão do parlamento britânico está para durar? (II)

Government could suspend parliament for a second time if it loses court case (The New European):

The Sunday Times and Mail on Sunday reports that during a meeting of ministerial aides on Friday evening, Cummings warned of a "nuclear" option which means if the courts ruled against the government it "could just prorogue again".

He is alleged to have added: "The constitutional crisis is only just beginning."








Suspensão do parlamento britânico está para durar?

Boris Johnson could still force prorogation for a second time, por Joe Moor (The Telegraph):

[Via Christopher Hope]


Friday, September 13, 2019

Regressando à questão da endogamia

Esta conversa já passou um bocado de moda, mas vou escrever alguma coisa sobre a famosa questão dos familiares de membros do governo. Nomeadamente sobre a questão se a situação atual é similar a outras que aconteceram noutros governos.

Eu diria que isso depende muito de uma coisa - de qual o motivo porque se acha que é mau haver parentes próximos no governo ou órgãos similares; é que há vários motivos possíveis:

a) Conflito de interesses: no Conselho de Ministros discute-se as propostas de cada ministro, e portanto estar lá mulher e marido, ou pai e filha pode perverter a conversa, já que podem ter dificuldade em avaliar objetivamente as ideias dos seus familiares próximos; nesse ponto a situação deste governo parece-me realmente diferente de outros casos (p.ex., os irmãos Miguel e Leonor Beleza) em que os familiares não estiveram ao mesmo tempo no governo; penso que será também diferente de situações em que o tio era ministro e sobrinho secretário de estado (como Diamantino Durão e Durão Barroso), já que suponho que não participavam os dois do conselho de ministros (embora sendo Durão Barroso um secretário de estado com muito peso no governo, se calhar até participava).

b) Possível nepotismo: haverem familiares no governo e zonas próximas pode ser um sintoma que as pessoas estão a ser escolhidas via cunhas e não pelo seu mérito pessoal. Curiosamente, nesse ponto, até acho que a situação inverte-se face ao anterior - é mais preocupante quando familiares são nomeados para cargos subalternos, não quando são todos ministros (ou, generalizando, estão no mesmo nível hierárquico); porque digo isto - uma ministra pode ter influência para conseguir nomear o marido para assessor, diretor-geral, talvez secretário de estado, mas dificilmente conseguiria nomear o marido como ministro; afinal, quem nomeia os ministros é o primeiro-ministro, e em principio uma ministra não terá nenhum ascendente sobre o primeiro-ministro que lhe permita meter uma cunha para o marido ser também ministro (regra geral, é difícil meter cunhas para lugares no mesmo nível que o nosso - é para cargos inferiores que normalmente se metem cunhas). Neste ponto, o que é preocupante serão as vagas de nomeações para assessores, gabinetes, etc. que todos os governos têm feito, não os 4 ministros familiares (o problema específico deste governo). Claro que se pode argumentar que as nomeações para ministros surgem na sequência de uma carreira, e que nos níveis inferiores podem ter beneficiado de cunhas, e que sem esse passado prévio nunca ninguém se teria lembrado deles para ministros; mas ai vamos ao ponto seguinte

c) Sinal que a classe política é um grupo fechado, onde só entram familiares e amigos: este ponto tem algumas semelhanças com o anterior, mas não se refere às pessoas terem sido nomeadas para aquele cargo especifico por nepotismo, refere-se aos privilégios que os familiares de políticos têm no processo de entrada na carreira política. Neste ponto, pouca diferença faz que os familiares sejam todos ministros, ou que estejamos a falar de uma ministra casada com um deputado, nem sequer é relevante que tenham sido ministros no mesmo momento ou em momentos diferentes (como os irmãos Beleza) - mais: se alguma coisa, se calhar ainda mais preocupante será vermos, ao longo de anos ou décadas, familiares a revezarem-se em cargos na política ativa (como se desculpava há dias o Marques Mendes, dizendo que nem o pai nem a irmã ocuparam cargos políticos relevantes na mesma altura que ele), já que será indicativo que o sistema é tão fechado que as mesmas famílias permanecem em cargos de topo durante décadas e por várias gerações.

Poderá perguntar-se porque é que eu publico este post agora, num momento em que o assunto já nem está a ser discutido - bem, a ideia era isto ser o primeiro post de uma série de posts sobre a questão da "igualdade de oportunidades" (iria ter uma continuação que provavelmente iria chamar-se "Contributo para uma teoria geral da endogamia e da discrminação"), e iriam ser publicados todos de seguida (ou seja, estava à espera de escrever o/os outro/os post/s para publicar também este). Mas como afinal esse outro post ainda irá demorar muito a ser escrito, e este em breve quase de certeza perderá muito da sua razão de ser quando for anunciado um novo governo, publico-o já agora.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Thursday, September 12, 2019

"Inteligência Emocional" - quase irrelevante?

Pelo menos no que diz respeito ao desempenho profissional.

Emotional intelligence can predict performance – but not as well as you might think, por Lorenzo Galli:

Have you heard recent claims about the power of emotional intelligence? Are you considering using an emotional intelligence assessment tool? Some say that emotional intelligence (EI) 1 is a good predictor of people’s job performance. The idea is that if you are more emotionally intelligent — which means that you can understand and regulate your emotions, and empathize with others — you will perform better. Many have been skeptical about this statement, which is why independent scientists tried to verify this relationship with a rigorous study. (...)

They found that emotional intelligence correlates moderately (0.29) with job performance as evaluated by supervisors. This means that emotional intelligence can predict only 8.4% of your people’s performance. This moderate degree of correlation between EI and job performance is not as strong, or practically useful, as most EI advocates usually claim. As a comparison, General Mental Ability — which correlates strongly with job performance (0.51) — can predict 26% of one’s performance at work.
O artigo faz mais algumas criticas ao conceito de "inteligência emocional", mas essas outras já não as acho muito relevantes (basicamente os autores também dizem que mesmo o pouco efeito da "inteligência emocional" desaparece totalmente quando se controla para outros traços da personalidade - como estabilidade emocional, responsabilidade e extroversão - mas isso não refuta que há uma conjunto de traços psicológicos que tem influência no desempenho profissional, apenas põe em causa a relevância de os juntar num agregado chamado "inteligência emocional").

Contexto - há dias Josie Cluer publicou um artigo, "Three traits more important than being clever – but we don’t teach them til you get to work", a n-ésima versão da teoria "na vida real a inteligência emocional e outros fatores psicológicos interessa muito mais que a inteligência propriamente dita"; em resposta, Rob Briner publicou uma porção de links para artigos e estudos (incluindo este) desmentindo essa tese.

Mas ocorre-me uma possibilidade talvez ainda mais radical - a invocação da "inteligência emocional" costuma vir acompanhada pela conversa de "a escola só se preocupa em desenvolver as capacidades intelectuais dos alunos, quando depois na vida profissional a inteligência emocional interessa mais"; mas, será que não é ao contrário? Será que não acaba por ser na vida real (ou pelo menos no trabalho) que a inteligência tradicional interessa mais, enquanto é exatamente na vida escolar (ou pelo menos na fase da vida associada à frequência da escola) que a "inteligência emocional" é mais necessária?

O meu raciocínio - parece-me que no mundo do trabalho é relativamente fácil trocar aptidões sociais e emocionais por aptidões técnicas, no sentido de, se alguém for bom no seu trabalho, as outras pessoas não se importarem com algumas "excentricidades" comportamentais que ele possa ter (no fundo, isto transposto para o mundo real); um possível exemplo: em tempos trabalhei num serviço em que, uns dias antes de para lá ir um novo trabalhador, a pessoa que o havia escolhido para aquele cargo fez uma espécie de briefing informativo aos seus futuros colegas dizendo "o gajo é um bocado esquisito, mas dá muito jeito para os computadores". Em compensação, na vida escolar um professor não tem grandes incentivos para aceitar as maluquices de um aluno, por mais intelectualmente brilhante que este seja. E, sobretudo se pensarmos, como disse atrás, "na fase da vida associada à frequência da escola" (ou seja, infância e adolescência) e não apenas na escola, a importância da "inteligência emocional" ainda mais relevante se torna - nessa fase da vida, praticamente tudo depende de conseguirmos manipular emocionalmente as outras pessoas (e não apenas pais, professores, educadores, etc. mas provavelmente mesmo os próprios colegas - ver, p.ex., este texto de Paul Graham onde ele refere que a frequente ausência de objetivos reais a serem atingidos torna a vida social dos adolescentes um puro "concurso de popularidade", em que o "ser popular" depende unicamente da habilidade para ser popular, e não de qualquer outra aptidão).

Além disso, a vida escolar frequentemente envolve uma muito maior arregimentação do que a vida profissional: na escola - ou pelo menos no ensino básico; no ensino superior tende a ser ao contrário - temos muito menos liberdade para escolher o que queremos fazer e mesmo a que horas o fazer, enquanto na vida adulta temos algum poder para escolher a nossa profissão ou mesmo o horário de trabalho (sobretudo se o mercado de trabalho estiver numa fase favorável aos trabalhadores) e muitas pessoas até têm horários flexíveis ; assim, sendo, é legítimo supor que as pessoas que ainda andam na escola precisem muito mais de "inteligência emocional", já que terão muito mais necessidade de controlar as suas emocões para se auto-motivarem para coisas como estudar para uma matéria que não os entusiasma ou levantarem-se a uma hora que vá contra o seu ciclo biológico natural (e, já agora, imagino que na vida profissional seja tão mais fácil alguém conseguir escolher a sua profissão, horário de trabalho ou até ter direito a um horário flexível quanto maior forem as suas competências técnicas específicas, o que pode ser mais um exemplo de alguém conseguir compensar com inteligência a baixa "inteligência emocional").

A este respeito, lembrei-me de um post que escrevi há uns nove anos, Há prejuizos sociais na educação (II)?, onde falei dos estudos feitos pela pedopsiquiatra germano-escocesa Sula Wolff acerca de crianças e jovens com inteligência normal (ou até acima do normal) mas com grandes problemas de ajustamento social, em que esta concluía que na maior parte dos casos esses problemas largamente desapareciam quando eles deixavam a escola, e citava a mãe de um dos seus pacientes:
"He didn't really enjoy being at school and trying to learn wahat other people wanted him to learn nor the way they tried to do it. He always wanted to go his own way. He hasn't basically changed. It's just easier when you are not at school. (...) [He] is a non-conformist and if press [him] too far, you'll disturb him." (...)

"[there are] a lot of individuals with basically nothing wrong with them but at the extreme of the personality... school adive to insist and conformity (...) really makes matters worse"
Agora, há aqui um ponto - realmente os tais estudos indicam que a "inteligência emocional" tem pouco impacto na performance dos empregados; mas as pessoas, na sua maioria, não trabalham para serem produtivos para o seu empregador: trabalham para ganhar dinheiro (o ser produtivo é apenas um meio para atingir esse fim). Portanto a grande questão deverá ser "a «inteligência emocional» aumenta a produtividade dos trabalhadores?" mas sim  "a «inteligência emocional» aumenta o salário dos trabalhadores?". Uma visão mais ortodoxa da economia diria que as coisas estão ligadas, e portanto qualquer efeito da "inteligência emocional" sobre a produtividade terá um efeito de nível similar sobre os salários; mas uma visão menos ortodoxa, que tenha em atenção coisas como os salários serem por vezes negociados, poderá ser mais otimista face às vantagens da "inteligência emocional": mesmo que não sejam muito mais produtivas, pessoas "inteligentes emocionalmente" tenderão (quase por definição) a ser melhores a negociar o seu salário do que "burros emocionais"; além disso, se existir um núcleo de empregos que só podem mesmo ser desempenhados por pessoas com alta "inteligência emocional" (p.ex. vendas), isso poderá aumentar os ordenados dessas pessoas mesmo fora desses ramos, já que o facto de terem essa saída profissional alternativa dá-lhes força na negociação de salários; finalmente, como é provável que pessoas com alta "inteligência emocional" tenham redes de contactos sociais maiores, mais facilmente saberão de bons empregos (e/ou melhor pagos) disponíveis.

Este estudo, The Effects of Education, Personality, and IQ on Earnings of High-Ability Men [pdf] (que linkei neste post de 2014 - este blogue está a tornar-se muito recursivo...), indica que (para o grupo restrito de pessoas estudadas) o rendimento tem uma correlação positiva com o "Quociente de Inteligência" mas negativa com traços de personalidade como "introversão" e "abertura (curiosidade intelectual)"; como escrevi no post, "rendimento ao longo da vida será positivamente relacionado com inteligência, mas negativamente relacionado com traços de personalidade (...) que, pelo menos a nível dos estereótipos populares, até costumam ser associados a inteligência". E o efeito positivo da extroversão até é maior do que o da inteligência, o que pode indicar que, quanto se trata de ganhar bem e não apenas de ser produtivo, fatores que podem ser classificados como parte da "inteligência emocional" até valem mais do que a inteligência propriamente dita.

A este respeito, ver também ainda este meu outro post, Contra as "soft skills", que acho que acaba por ser também relevante para isto.

Wednesday, September 11, 2019

Reduzir o horário de trabalho cria ou destrói emprego?

O João Miranda parece achar que destrói - eu diria que há dois fatores de sinal contrário.

Por um lado, efetivamente, se se reduzir o horário de trabalho mantendo o salário (ou seja, se se aumentar o salário por hora), haverá trabalhos que deixam de ser economicamente viáveis do ponto de vista do empregador, e por isso desaparecerão ou não chegarão a ser criados; mas, por outro, no caso dos trabalhos que continuam a ser economicamente viáveis, serão necessárias mais pessoas para os fazer, logo por aí serão criados empregos.

Com um exemplo talvez se perceba melhor - imaginemos uma empresa com 14 trabalhadores, fazendo 40 horas por semana (o seja, no total, trabalhando 560 horas por semana) e recebendo 615 euros cada um (o que dará um custo, contando com férias, subsídios, segurança social, etc, de uns 5,89 euros por hora, se estou a fazer bem as contas).

Agora, vamos supor que o horário de trabalho baixava para 35 horas, o que quer dizer que o custo por hora para a empresa subia para 6,74 euros por trabalhador.

Nesta situação, o empresário pode achar "a este custo hora não vale a pena estar a pagar por 560 horas de trabalho por semana; mais vale reduzir um pouco a atividade - fechar um pouco mais cedo, ou talvez fazer os clientes esperarem um pouco mais nos picos de atividade, ou coisa parecida - e com 455 horas de trabalho por semana isto aguenta-se bem; portanto, como agora cada trabalhador vai trabalhar 35 horas, só preciso de 13 trabalhadores; vou ter que despedir uma pessoa"; mas também pode achar "a este custo hora não vale a pena estar a pagar por 560 horas de trabalho por semana; mais vale reduzir um pouco a atividade - fechar um pouco mais cedo, ou talvez fazer os clientes esperarem um pouco mais nos picos de atividade, ou coisa parecida - e com 525 horas de trabalho por semana isto aguenta-se bem; portanto, como agora cada trabalhador vai trabalhar 35 horas, só preciso de 15 trabalhadores; vou contratar mais uma pessoa mas mesmo assim a produção vai diminuir".

Ou seja, a redução do horário de trabalho (mantendo o salário constante) faz a hora de trabalho ficar mais cara, e em princípio fará as empresas quererem contratar menos horas de trabalho; mas como o que interessa (pelo menos para mim) não é o número de horas de trabalho empregadas, mas o número de pessoas empregadas, e como cada pessoa também vai trabalhar menos horas, não se pode determinar à partida se as empresas contratarem menos horas de trabalho as vai levar a contratarem menos ou mais pessoas (isso é algo que poderá ser estudado empiricamente, mas aprioristicamente nada se pode concluir, num sentido ou no outro).

Em termos mais gerais, uma redução do horário de trabalho das 40 para as 35 horas vai originar um aumento de 14,29% no custo horário do trabalho; se esse aumento do custo originar uma redução da procura de horas de trabalho maior que 12,5%, o desemprego irá aumentar (já que o efeito "menos horas de trabalho total" vai ser maior que o efeito "mais pessoas para o mesmo tempo de trabalho") - se pelo contrário a redução da procura de horas de trabalho for menor que 12,5%, o desemprego vai diminuir (pelo mecanismo inverso). Em "economês", eu diria que se a elasticidade procura-preço do trabalho for menor* que -0,87, uma redução do horário de trabalho vai diminuir o número total de empregos; se for maior que -0,87 (ou seja, se estiver entre -0,87 e zero) vai aumentar o total de empregos.

De qualquer maneira, o facto dos recentes aumentos do salário mínimo não terem, aparentemente, originado desemprego relevante indicia que, na economia portuguesa atual, aumentos dos custos salariais não causam grandes reduções nas contratações, ou seja, que a tal elasticidade procura-preço do trabalho não é muito significativa (exatamente as condições em que uma redução do horário de trabalho cria empregos).

*atenção que é um valor negativo, logo "menor" aqui significa mais significativo (ou "maior" em termos absolutos).

[Declaração de interesses, já que a conversa parece ter começado com uma proposta do BE]

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Suspensão do parlamento britânico anulada?

Scottish judges rule Boris Johnson's suspension of parliament unlawful (The Guardian).

Aparentemente há diferenças entre a lei escocesa e a inglesa que levaram a que um tribunal escocês tenha tomado uma decisão oposta à tomada antes por tribunais londrinos (mas atendendo que o parlamento britânico tem soberania tanto sobre a Inglaterra como sobre a Escócia, isso não será uma enorme confusão? Isto é, a suspensão ter sido legal numa parte da Grã-Bretanha e ilegal noutra?).


Sunday, September 08, 2019

O vento sueste (e sul) em ação


Quando o Reino Unido esteve à beira de estar à beira de uma guerra civil

“Breaking the parliamentary machine”: lessons of the 1914 crisis, por Robert Saunders, no New Statesman:

The crisis of 1914 far eclipsed Brexit, and brought Britain closer to revolution than at any time since the 17th century.

Como disse várias vezes, eu re-postar não indica necessariamente concordância.

Friday, September 06, 2019

Trumpistas adotam centralismo democrático

Republicans to scrap primaries and caucuses as Trump challengers cry foul (Politico):

Four states are poised to cancel their 2020 GOP presidential primaries and caucuses, a move that would cut off oxygen to Donald Trump’s long-shot primary challengers.

Republican parties in South Carolina, Nevada, Arizona and Kansas are expected to finalize the cancellations in meetings this weekend, according to three GOP officials who are familiar with the plans.
[Via Reason]

Thursday, September 05, 2019

Passos seguintes do Brexit

Esquema roubado ao Times (via Britain Elects) e ligeiramente alterado:

As cores são minhas - a amarelo o que já aconteceu, a azul o que suspeito que aconteça.

Wednesday, September 04, 2019

Tuesday, September 03, 2019

Afinal sempre há "manipulação" de sondagens

Eu nunca acreditei muito nessas histórias de sondagens manipuladas, até porque não é muito claro qual é a vantagem de manipular uma sondagem (umas pessoas vêm o partido A à frente e vão votar nele por causa disso, outras vêm o partido B com poucos votos e vão votar nele por causa disso - "Até gostei de algumas coisas que eles disseram; merecem mais que aqueles 2%", outras eram para votar no partido A mas afinal vão à praia porque afinal o voto deles não é necessário, outras eram para votar no partido B mas afinal vão à praia porque não vale a pena, etc. - no final, esse efeitos acabam por se anular).

Mas afinal parece que há efetivamente algo muito similar a manipulação de sondagens - ou pelo menos ocultação de sondagens que dão resultados que não são os esperados:

'Embarrassed' pollster ripped up poll that showed Labor losing election (Sydney Morning Herald):

A leading market research agency tore up a poll showing Labor was in a much worse position than widely believed because it was worried the results did not match other published polls.

In a revelation that sheds light on why the nation's pollsters failed to accurately predict the outcome of the election, Lonergan Research boss Chris Lonergan admitted junking the poll because he was "embarrassed" it was radically different to those of his competitors.
É verdade que não é um caso, aparentemente, que confirme os rumores de que as sondagens são manipuladas por razões políticas; aqui o que se passou foi que uma sondagem deu resultados muito diferentes das sondagens das outras empresas, e a empresa que a fez decidiu escondê-la (pensando algo como "isto deve estar errado e vamos cair no ridículo"). Mas o resultado é o mesmo - as sondagens que são publicadas acabam por não refletir realmente aquilo que as pessoas que respondem às sondagens dizem. Se todas as empresas fizerem isso (e atendendo a que até surgiram pessoas - aparentemente do ramo -  a defender a decisão dessa empresa, quer dizer que muita gente até acha isso o procedimento correto, o que indicia que talvez seja prática comum), podemos acabar com uma situação em que 10 sondagens dizem que o partido A vai ganhar e 15 dizem que o partido B vai ganhar, e só são publicadas as que dizem que o partido A vai ganhar, porque, em cada uma das sondagens que deram vitória ao partido B, os autores da sondagem - que nem sabem das outras 14 - fizeram uma reunião e concluíram "todas as outras sondagens estão a dar a vitória ao partido A; este resultado é impossível - é melhor não o publicarmos e em vez disso fazermos uma séria auditoria aos nossos métodos de trabalho para ver o que está a dar estes resultados malucos; e talvez despedir as pessoas que andaram mesmo a fazer os inquéritos, porque se calhar andaram foi a ver fotografias no Instagram em vez de fazer chamadas telefónicas e inventaram os resultados".

E, ao contrário da manipulação pura e dura, há muito mais um incentivo racional para um cenário destes - na maior parte dos ramos de negócio, é melhor fazer o mesmo que toda a gente e falhar como todos do que fazermos algo muito diferente dos outros só nós falharmos (o primeiro caso indica que fomos vitimas de uma problema sistémico, que afetou toda a gente, e tende a ser desculpado; já o segundo é indicativo de que somos maluquinhos ou incompetentes). Isso é frequentemente referido em questões como investimentos bolsistas (em que haverá uma tendência para investir nos mesmos títulos que toda a gente), mas faz todo o sentido que também influencie a decisão de divulgar ou não sondagens.

Uma versão do "political compass"

Tirado daqui.

Monday, September 02, 2019

A "esquerda comunista" e o Brexit

Para uma visão heterodoxa (face às várias ortodoxias concorrentes) do Brexit e da crise política britânica associada, dois textos da área da chamada "esquerda comunista" - Brexit: a quagmire for all factions of the ruling class, da Corrente Comunista Internacional, e British Bosses' Political Crisis, da Tendência Comunista Internacionalista (Communist Workers' Organization).

Para quem não faça ideia sequer do que eu estou a falar - "esquerda comunista" é o nome usado pelas correntes que se opuseram a Lenine ("O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo") na questão da participação nas eleições "burguesas" e nos sindicatos (basicamente o KAPD alemão e o Partido Comunista de Itália dirigido por Amadeo Bordiga), e pelos seus herdeiros ideológicos atuais. No caso britânico, tanto a secção local da Tendência Comunista Internacionalista (a Communist Workers' Organization) como a da Corrente Comunista Internacional têm a sua origem no grupo Solidarity, o organização-irmã no Reino Unido do grupo da revista Socialism ou Barbarie, em França.