Saturday, July 28, 2007

Os "amigos de Israel" nos EUA



Rapture Ready: The Unauthorized Christians United for Israel Tour from huffpost and Vimeo.

Via Antiwar.com Blog.

Nota: a "rapture" de que alguns falam entusiasmadamente é isto.

Israel - o segundo maior fracasso do século XX

Esta discussão no blogue atlântico relembrou-me uma opinião que tenho há muito tempo - Israel foi o segundo maior fracasso do século XX (o maior foi o comunismo).

Poderão perguntar "Israel, um fracasso? É o pais mais próspero da zona, ganhou todas as guerras (algumas contra inimigos muito mais fortes), é uma potência nuclear! Como é que Israel pode ser um fracasso?". Mas é que a ideia da criação do Estado de Israel foi criar um território aonde os judeus (por serem a maioria) estivessem protegidos de perseguições. Ora, se existe um país no mundo aonde os judeus não vivem em segurança, é exactamente em Israel.

Tuesday, July 24, 2007

Gastar muito vs. gastar mal


"Correndo o risco de voltar a comentar em duplicado, mas não querendo deixá-lo sem resposta à sua questão, digo-lhe que não é por os autarcas encostarem as inaugurações à época das eleições que os munícipes são lesados. Se fosse só essa a questão de algum modo cumpria-se a lei de A. Smith: Os interesses dos autarcas (de preservar ou conquistar o poder) conjugavam-se com os interesses dos munícipes através de realizações vantajosas para eles. O período de inaugurações não influencia, por si, a qualidade da obra

Acontece que, como se refere no "post" de L-AC “os aumentos da despesa servem para construir obras de forte visibilidade, como mercados municipais, estradas e rotundas. Simultaneamente, despesas em maquinaria e outros equipamentos diminuem "

Se os munícipes tivessem a real percepção que o dinheiro gasto em obras de fachada também era deles, formariam a sua opinião ao longo do mandato e, na altura da caça ao voto, votariam em conformidade com a apreciação que tinham feito durante o período todo.

Seguramente que muitos não apoiariam obras de rotundas e estatuárias que manifestamente não lhes interessam."

Há duas formas de despesismo - gastar muito e gastar mal. Se os municípios fossem financiados por impostos fixados localmente, haveria menos incentivo a "gastar muito" (já que mais despesas significariam mais impostos para os contribuintes), mas acho que não afectaria o incentivo para "gastar mal" (que parece-me ser o que se discute aqui): afinal, mesmo hoje em dia os autarcas não têm nenhuma razão para gastar dinheiro em coisas que os eleitores achem pouco úteis (os autarcas fazem rotundas, mercados, etc. porque os eleitores gostam disso), já que os eleitores já sabem que o dinheiro gasto em obras de fachada é dinheiro que deixa de ser gasto em coisas mais úteis.

E se, por outro lado, admitirmos que os eleitores não têm a real percepção de onde é necessário gastar dinheiro, o problema dos autarcas preferirem investir em obras de grande visibilidade em vez de em maquinaria e equipamento manter-se-ia exactamente na mesma - se houvesse pressão popular para reduzir os impostos, os autarcas prefeririam "pagar" essa redução com reduções na despesa invisível (como as máquinas e equipamentos) no que na despesa que ganha votos (como as rotundas).

Monday, July 23, 2007

Mugabe

Pensando bem, porque é que há tanta polémica acerca de Mugabe vir ou não à conferencia entre a União Europeia e a União Africana? Em que é que Mugabe é pior que grande parte dos outros governantes africanos?

Mugabe é um ditador que manda espancar opositores? Muitos outros o são, e alguns nem se dão ao trabalho de fingir que são "democratas".

Mugabe é um racista, que fomenta o ódio contra a minoria branca (e contra os matabele)? Violência inter-étnica (frequentemente com patrocínio governamental) é o que mais há por essa África.

Mugabe está a arrasar a economia do Zimbabwe? A maior parte dos países africanos são um desgraça pegada em termos de resultados económicos.

Mugabe é um corrupto? Imagino que os outros chefes de estado africanos que venham à conferência seja insuspeitos a esse respeito...

Afinal, qual é a grande diferença entre Mugabe e vários dos outros?

Ligações à Internet nos EUA vs. "resto do mundo"

The French Connections, artigo de Paul Krugman transcrito no Economist's View

Digital Robber Barons?, outro artigo de Paul Krugman (de 2002)

Subscritores (por mil habitantes) da Internet de banda larga, em Dezembro de 2006:

Denmark 31,9
Netherlands 31,8
Iceland 29,7
Korea 29,1
Switzerland 28,5
Norway 27,5
Finland 27,2
Sweden 26,0
Canada 23,8
Belgium 22,5
United Kingdom 21,6
Luxembourg 20,4
France 20,3
Japan 20,2
United States 19,6
Australia 19,2
Austria 17,3
Germany 17,1
Spain 15,3
Italy 14,8
New Zealand 14,0
Portugal 13,8
Ireland 12,5
Hungary 11,9
Czech Republic 10,6
Poland 6,9
Slovak Republic 5,7
Greece 4,6
Turkey 3,8
Mexico 3,5

Velocidade, em mbps, das ligações de banda larga, em 2007 (estes dados não são totalmente conjugáveis com os anteriores, devido a diferentes metodologias e altura a que se referem):

Japan 61,0
Korea 45,6
Finland 21,7
Sweden 18,2
France 17,6
Netherlands 8,8
Portugal 8,1
Canada 7,6
Norway 7,4
Austria 7,3
Belgium 6,2
Iceland 6,0
Germany 6,0
US 4,8
Denmark 4,6
Italy 4,2
Luxembourg 3,1
UK 2,6
Switzerland 2,3
Australia 1,7

Saturday, July 21, 2007

Ainda acerca de livros (II)

Os tais livros aqui referidos foram muito viajados. Em 1998 muitos foram levados de Lisboa (do terceiro andar de um prédio na Av. da Igreja sem elevador) para Portimão e os que sobraram (nomeadamente, claro, os de inspiração trotskista mas também alguns "conselhistas") foram de metro até à sede do então PSR na Rua da Palma, aonde encontraram acolhimento na respectiva biblioteca.

Mais tarde, em Portimão, no ano de 2004, foram levados (uns de carro, outros a pé) da casa dos meus pais para a minha casa.

E (mistérios do capitalismo moderno), fui eu que os carreguei, sem recurso aos proletários de nenhuma empresa de mudanças.

Thursday, July 19, 2007

Os empresários/gestores e a política (II)

Ainda a respeito da participação ou não de empresários/gestores na politica, ocorreu-me uma coisa: porque é que, tirando Berlusconi, os empresários que se metem na politica frequentemente o fazem com um programa nacionalista/proteccionista? Veja-se Ross Perot, James Goldsmith, Cem Uzan...

Ocorrem-me três explicações:

a) Os empresários tendem a ver o país como uma empresa (é exactamente por isso que eles se metem na politica: porque acham que "o país tem que ser gerido como uma empresa!") - como as empresas estão em competição umas com as outras e têm por objectivo venderem mais do que compram (em matérias-primas, serviços, mão-de-obra, etc.), um empresário tenderá a ver o país como estando em competição com os outros países e com o objectivo de ter o maior saldo positivo possível da balança comercial (Exportações, bom! Importações, mau!)

b) Os empresários que querem ser políticos não são bem vistos, nem pela esquerda (pelas razões óbvias), nem pela direita "instalada" (porque nos partidos da "direita instalada" já lá estão os políticos de carreira), logo o único nicho de mercado que sobra para os empresários-políticos é a direita "não-instalada" (que, normalmente, coincide com o nacionalismo)

c) Toda a gente, excluindo os economistas (bem, eu não sou grande entusiasta do "comércio livre", mas 99% dos economistas são-no), é a favor do proteccionismo (ou, pelo menos, contra o livre-cambismo unilateral) e os empresários não são excepção.

Há também a hipótese, claro, da minha observação que os empresários-politicos tendem para o proteccionismo estar errada.

Os empresários/gestores e a política

O "atlântico" Tiago Mendes pergunta-se porque "é que pessoas como Carrapatoso e outros gestores/empresários com algum traquejo político não se chegam mais à frente na política".

Há várias razões para os empresários/gestores não terem jeito para a politica (algumas são expostas aqui por Chris Dillow). No caso especifico dos gestores (os empresários são outra história), tenho uma teoria porque é que eles raramente dão bons políticos:

Numa hierarquia empresarial, um gestor precisa: a) de garantia de apoio seguro dos seus superiores (ninguém vai respeitar um gestor que se arrisque a ser desautorizado pelos seus superiores); e b) ser "duro" com os seus subordinados quando necessário - por melhor que se dê com eles, é nos momentos em que tem que se dar mal que as suas capacidades como gestor são mais postas à prova.

Por seu lado, um bom politico precisa de: a) um grupo de apoiantes quase incondicionais nas bases; e b) de vez em quando, de entrar em luta aberta com os seus "superiores" (no partido e/ou no Estado) - os políticos que vão subindo porque alguém "em cima" os puxa costumam ser umas nulidades (p.ex., Fernando Nogueira): é na luta para conquistar o poder a quem o detêm (seja numa concelhia de partido ou no governo da nação) que as capacidades de um politico são mais postas à prova.

Ou seja, o mundo da politica e dos organogramas empresariais é quase oposto - o segundo é um mundo aonde o poder se recebe "de cima"; o primeiro é um mundo aonde o poder se conquista, apelando aos "de baixo" (eleitores, militantes de base) contra os que (de momento) estão "por cima". Em suma, a politica é um mundo de heroísmo individual, pouco confortável para quem esteja habituado ao mundo das hierarquias organizacionais.

Há uns tempos, quando tinha uma coluna no DN, Vasco Pulido Valente escreveu, a respeito dos "técnicos independentes" na política (e dos ministros independentes não fazerem nada de jeito), algo como "para um médico ou mesmo um gestor, o poder é um dado (...) Só a guerra civil permanente que se vive dentro dos partidos políticos é que dá a preparação necessária para ser um bom ministro" (isto é de memória, mas a ideia era esta).

Um exemplo - porque é que aquele vendedor, ou gestor de clientes, ou lá o que é, da Goldmann-Sachs passa a vida a fazer-se a altos cargos no PSD e depois, nos congressos, nunca avança? Há quem diga que é por arrogância, por estar à espera que o vão buscar; provavelmente também será, mas não será, sobretudo, por reflexo do "modo de vida" nas organizações empresariais, aonde não fica bem dizer abertamente "Quero o lugar de fulano!" (tirando os casos de conflitos entre gestores de topo, estilo BCP)?

[Recordo que tudo o que escrevi acima se refere apenas aos gestores, não aos empresários]

Além disso, se formos ver bem, porque razão os gestores (e agora também os empresários) haveriam de dar bons políticos? Afinal, alguém ganhar um campeonato de surf não o torna necessariamente um bom apanhador de figos. No fundo, quais são as competências da actividade empresarial que são "transferíveis" para a politica? Vamos admitir que os empresários e gestores se caracterizam por saber identificar bons negócios e entrar neles antes dos outros; bem, e o que é que isso interessa para um politico? Ter ministros com jeito para os negócios pode interessar para um Estado que pratique uma politica industrial dirigista (para identificar os sectores a que o Ministério da Economia vai incentivar as empresas a investir), mas, tanto para o "Estado mínimo" dos liberais, como para o "Estado social" dos socialistas (moderados), não vejo grande utilidade em ter gestores/empresários "de sucesso" em cargos políticos de topo.

Wednesday, July 18, 2007

The Waiting Game

No Economist's View, um extracto de um artigo de Paul Krugman sobre, entre outras coisas, o tempo que os doentes nos EUA esperam para serem tratados:

The claim that the uninsured can get all the care they need in emergency rooms is just the beginning. Beyond that is the myth that Americans ... lucky enough to have insurance never face long waits...

Actually, the persistence of that myth puzzles me. ...Fred Thompson ... declared recently that “the poorest Americans are getting far better service” than Canadians or the British... [H]ow can they get away with pretending that insured Americans always get prompt care...?

A recent article in Business Week put it bluntly: “In reality,... the American people are already waiting as long or longer than patients living with universal health-care systems.”...

[T]he Commonwealth Fund found that America ranks near the bottom among advanced countries in terms of how hard it is to get medical attention on short notice... [and] is the worst place ... if you need care after hours or on a weekend.

We look better when it comes to seeing a specialist or receiving elective surgery. But Germany outperforms us even on those measures...

In Canada and Britain, delays are caused by doctors trying to devote limited medical resources to the most urgent cases. In the United States, they’re often caused by insurance companies trying to save money.

This can lead to ordeals like the one recently described by Mark Kleiman, a professor at U.C.L.A., who nearly died of cancer because his insurer kept delaying approval for a necessary biopsy. ... [T]here’s no question that some Americans who seemingly have good insurance nonetheless die because insurers are trying to hold down their “medical losses” — the industry term for actually having to pay for care.

On the other hand, it’s true that Americans get hip replacements faster than Canadians. But there’s a funny thing about that example, which is used constantly as an argument for the superiority of private health insurance over a government-run system: the large majority of hip replacements in the United States are paid for by, um, Medicare.

That’s right: the hip-replacement gap is actually a comparison of two government health insurance systems. American Medicare has shorter waits than Canadian Medicare (yes, that’s what they call their system) because it has more lavish funding — end of story. The alleged virtues of private insurance have nothing to do with it.

The bottom line is that the opponents of universal health care appear to have run out of honest arguments. All they have left are fantasies: horror fiction about health care in other countries, and fairy tales about health care here in America.

Os leitores poderão perguntar "E o que é que isso nos interessa?". Afinal, em Portugal não há ninguém a propor um sistema de saúde de estilo norte-americano - dá-me a impressão que, mesmo os liberais portugueses o que propõem é mais o menos o mesmo que a "esquerda" norte-americana (que lá também se chamam "liberais"...) propõe (o sistema single-payer). Mas, como a respeito do Sicko apareceram montes de artigos a elogiar o actual sistema norte-americano e a criticar os sistemas europeus e canadiano...

Saturday, July 14, 2007

Sobre a Revolução Francesa e o Terror

[porque hoje é 14 de Julho]

Há a mania de dizer que a Revolução Francesa o que fez foi substituir um regime repressivo por outro tão ou mais repressivo e apresentar o "Terror" como evidência.

Mas, será que o Terror foi tão repressivo como todo isso? Claro que responderão - "então não foi! 40.000 mortes em 10 meses!". Mas o meu ponto é que muitas dessas pessoas foram executadas por "crimes" (aliança com países inimigos, conspirar contra o governo, colaboração com um governo deposto considerado opressivo, etc.) que, à época, eram punidos com a pena de morte em qualquer pais da Europa. Ou seja, o regime que governou a França durante o Terror seria particularmente repressivo (pelos padrões da altura), ou será que a diferença era apenas quem em França havia muito mais gente a cometer "crimes políticos" do que no resto da Europa?

Já agora, os anglófilos que simpatizam com a Revolução Inglesa de 1688 e criticam a Francesa parecem esquecer-se que o governo "whig" inglês também foi bastante repressivo sobre os bastiões "jacobitas" da Escócia e a Irlanda.

Falando em termos mais gerais, usar o número de mortos ou de presos políticos como medida da "repressividade" de um regime pode ser enganador, devido ao que poderemos chamar "a curva de Laffer da repressão politica"- tal como taxas de impostos muito altas podem reduzir a receita total (porque as pessoas evitam fazer coisas que sejam sujeitas a imposto), um regime fortemente repressivo pode ter relativamente poucos presos políticos (porque as pessoas evitam actos que os possam levar à cadeia). Por exemplo, já li algures que em Portugal havia mais presos politicos em 1975 do que em 1973; mas, mesmo que isso seja verdade, podermos negar que havia mais liberdade politica, mesmo durante o PREC, do que no pré-25 de Abril?

The economics of cats

Texto no Marginal Revolution:

Many people have been clamoring for this topic over at the secret blog.

My views are simple: we have too few cats in the world, relative to dogs. Dogs, for reasons of temperament, can in essence precommit to being our slaves. (As long as they are not Irish Setters.) That makes us more willing to create or support an additional dog. The quantity of dogs is nearly Pareto optimal, although their emotional slavery to us raises ethical questions about the distribution of power in the relationship.

A cat cannot "promise," genetically or otherwise, that her kittens will become your (or anyone's) slaves, if only you don't neuter her. The kittens never come about, or they meet a cruel fate rather quickly.

If you must support the life of either a cat or a dog, choose the undervalued cat. This argument requires only that the cat gets some value out of being alive, and that value should carry some weight in our all-things-considered moral calculations.

More generally, you should go around helping the (undervalued) people who insult you, or the people who otherwise signal their independence from you. The craven are already being served quite a bit.

Uma nota: a "cruel fate" dos gatinhos será consequência da menor procura por gatos, ou será uma questão de excesso de oferta? Afinal, as gatas podem ter quatro ninhadas por ano, e acho que as cadelas apenas duas.

[É curioso que nos comentários tenham aparecido muitas mais vozes pró-cão do que pró-gato]

Re: Pequeno esclarecimento


Estou-me a convencer que este questão de quem está mais perto dos fascistas - se os socialistas se os liberais (na verdade, se calhar os liberais e socialistas estão mais próximos uns dos outros do que qualquer deles dos fascistas...) deriva muito de uma questão de prespectiva.

Imagine-se que disponhamos as várias ideologias politicas por dois eixos - um eixo igualdade-hierarquia e um eixo individualismo-colectivismo (em rigor, um eixo individualismo-anti-individualismo, já que se pode ser contra o individualismo, não em nome do colectivo, mas duma entidade transcendente). Se o primeiro for representado da esquerda para a direita e o segundo de baixo para cima, poderemos ter um esquema assim:

















(poderá haver alguma discordancia quanto à posição exacta de cada ideologia, mas penso que no geral está aceitável)

Ora, alguem para quem a questão da igualdade-hierarquia é a fundamental e o individualismo-colectivismo é apenas um detalhe tenderá a ver as coisas como ali abaixo, e, claro, achará que o fascismo está muito mais perto do liberalismo de que dos socialismos.






Pelo contrario, alguém que considere a questão individualismo-colectivismo como a fundamental e não ligue muito à igualdade-hierarquia (p.ex., por considerar que todas as sociedades acabam por ser hierárquicas) irá achar que o fascismo está mais perto do socialismo do que do liberalismo:




Wednesday, July 11, 2007

Morangos e Ananases


Pois, a mim parece-me que, se passarmos a chamar ananás ao morango, tal não estaria errado - afinal, se se passasse a usar a palavra "ananás" para designar a planta/fruto correntemente designada por "morango", isso significaria que essa planta passava a ser, efectivamente, um ananás. Da mesma forma, se começássemos a chamar "gato", não apenas ao "gato" (felis sylvestris) mas a todos os felinos, ou "doninha", não apenas à "doninha" (mustela nivalis) mas também aos furões e visons, isso quer dizer os leopardos passariam a ser, efectivamente, "gatos" e os visons "doninhas". Não, não estou a inventar - em inglês, a palavra "cat" pode ser aplicada a leões e leopardos, e a palavra "weasel", que em Inglaterra só se aplica à mustela nivalis, nos EUA também se pode aplicar a visons ou furões. Ou seja, as palavras significam aquilo que se convenciona que significam; da mesma forma, se a palavra "casamento" for usada para incluir também as "parcerias bilaterais entre homossexuais com direitos e deveres equivalentes aos previstos no casamento clássico", essas parcerias passarão a ser casamentos.

Aliás, eu suspeito que, se as tais "parcerias" fossem legalizadas com outro nome que não "casamento", teriam o mesmo destino que o bolo-república (a que toda a gente chama "bolo-rei") e toda a gente as chamaria "casamentos" (até porque um nome que fosse inventado pelo legislador seria com certeza tão "burocrático" - estilo "parceria civil solidária" ou coisa assim - que seria quase impronunciável numa conversa regular; provavelmente, as únicas pessoas que o iriam usar seriam casais heterossexuais que, quando fossem anunciar aos amigos que se iam casar, na brincadeira iriam dizer "vamos assinar uma parceria civil solidária").

Tuesday, July 10, 2007

Publicidade ao local de trabalho

O Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio (Portimão), o Hospital de Garcia de Orta (Almada) e a Maternidade Alfredo da Costa (Lisboa) já estão a fazer abortos por vontade da mulher até às dez semanas. E já o faziam "dias antes da regulamentação da lei", ou seja, antes de 21 de Junho, afirma Jorge Branco. Estas intervenções são legais desde o dia em que foi publicada a lei e geralmente dizem respeito a situações "em que a gravidez já estava próxima das dez semanas. Não me parece justo que não se fizessem só porque a portaria ia entrar em vigor no dia 15", diz. Foi uma forma de evitar que se realizassem "mais alguns abortos clandestinos".

A maior parte dos pedidos aceites deveu-se à aproximação da data-limite, mas o responsável entende que, agora, "o critério vai ser um pouco mais alargado"

The Most Sophisticated and Successful Criminal Organizations in History

No Economist's View:

Pirate ships as efficient, democratic, incentive compatible business enterprises:

The Pirates’ Code, by James Surowiecki, The New Yorker: ...While pirates were certainly cruel and violent criminals, pirate ships were hardly the floating tyrannies of popular imagination. As a fascinating new paper by Peter Leeson, an economist at George Mason University, and “The Republic of Pirates,” a new book by Colin Woodard, make clear, pirate ships limited the power of captains and guaranteed crew members a say in the ship’s affairs. The surprising thing is that, ... pirates were, in Leeson’s words, among “the most sophisticated and successful criminal organizations in history.”

Leeson is fascinated by pirates because they flourished outside ... the law. They could not count on ... authorities to insure that people would live up to promises or obey rules. Unlike the Mafia, pirates were not bound by ethnic or family ties; crews were ... remarkably diverse... Nor were they held together primarily by violence... [P]irate ships were governed by ... simple constitutions that, in greater or lesser detail, laid out the rights and duties of crewmen, rules for the handling of disputes, and incentive and insurance payments to insure that crewmen would act bravely in battle. ... The Pirates’ Code ... was not, in that sense, a myth, although in effect each ship had its own code.

But rules alone did not suffice. Pirates also needed to limit the risk that their leaders would put individual interests ahead of the interests of the ship... Some pirates had turned to buccaneering after fleeing naval and merchant vessels, where the captain was essentially a dictator... Royal Navy and merchant captains guaranteed themselves full rations while their men went hungry, beat crew members at their whim, and treated dissent as mutinous. So pirates were familiar with the perils of autocracy.

As a result, Leeson argues, pirate ships developed ... democracies. First, pirates ... divided and limited power. Captains had total authority during battle, when debate and disagreement were ... inefficient and dangerous. Outside of battle, the quartermaster ... was in charge—responsible for food rations, discipline, and the allocation of plunder. On most ships, the distribution of booty was set down in writing, and it was relatively equal; pirate captains often received only twice as many shares as crewmen. ... The most powerful check on captains and quartermasters was that ... the crew elected them and could depose them. And when questions arose about the rules..., interpretation was left not to the captain but to a jury of crewmen. ...

Interestingly, ... most corporations since the mid-nineteenth century have behaved more like the Royal Navy, with C.E.O.s who have close to unlimited power and employees who have no say in ... the organization...

This model of C.E.O. leadership is increasingly being questioned, with a greater emphasis being placed, at least rhetorically, on the need for executives to be more responsive to employees and on the value of dividing authority (although no one is seriously considering letting ordinary employees elect the boss). ... You can take this comparison only so far... But it may be only a matter of time before someone publishes “The Management Lessons of Captain Kidd.” I’d read it.

Monday, July 09, 2007

Links

Na "secção" dos blogs estrangeiros (os brasileiros não são bem estrangeiros...) meti vários links novos.

Talvez faça posts a apresentar alguns. Para já, há um que só há pouco tempo comecei a ler regularmente e achei um espectáculo (concorde ou não com o conteúdo): Stumbling and Mumbling, do economista britânico Chris Dillow, um ex-trotskista (facção Ted Grant/Rui Faustino) que agora é uma espécie de "social-liberal", com algumas simpatias autogestionárias.

Sunday, July 08, 2007

A abertura das grandes superfícies no domingo à tarde

Acerca da questão da abertura das grandes superfícies no domingo à tarde, em primeiro lugar, vou repetir o que ouvi uma empregada do Continente Portimão dizer a outra pessoa:"Agora querem abrir isto no domingo à tarde; isto já é uma prisão, uma pessoa não tem tempo para passear com a família. Espero que não consigam".

Um dos argumentos pela abertura das grandes superfícies no domingo à tarde (não haverá maneira mais simples de eu dizer isto?) é de que vai criar postos de trabalho (não é o argumento mais usado, mas é o argumento que eu me apetece abordar). Talvez crie, mas o comentário da tal empregada demonstra que há pessoas que desejam ter, não apenas um posto-de-trabalho, mas um posto-de-trabalho-com-a-tarde-de-domingo-livre. Ora, mesmo que a abertura no domingo à tarde crie postos-de-trabalho, uma coisa é inegável: vai destruir centenas ou milhares de postos-de-trabalho-com-a-tarde-de-domingo-livre (já que vão deixar de ter essa tarde sempre livre).

Mesmo a criação de postos de trabalho não me parece algo tão liquido assim: se as pessoas vão ao Continente fazer compras no domingo à tarde gastam dinheiro aí; a menos que isso se traduza numa redução da poupança (pouco provável, a meu ver), isso quer dizer que vão deixar de gastar dinheiro noutro sitio e/ou dia. Uma hipótese era que, simplesmente, gastassem ao domingo o dinheiro que gastariam, também no Continente, à segunda-feira; se assim fosse, o resultado seria que as grandes superfícies manteriam a mesma receita, mas com despesas operacionais aumentadas. Ora, goste-se ou não do Belmiro de Azevedo ou do Soares dos Santos, eles não são parvos, e se querem abrir as lojas no domingo à tarde, é porque chegaram à conclusão que grande parte do dinheiro que iria ser gasto nessa tarde é dinheiro que, de outro modo, seria gasto no pequeno e médio comércio.

Assim, se o público passa a gastar mais dinheiro no Continente e menos no pequeno comércio, não se pode dizer que se irão criar postos de trabalho - irão-se criar postos de trabalho num sector e perder-se noutro, com um resultado liquido incerto. Até é bastante provável que o saldo final seja negativo: não tenho nenhuma estatística, mas suspeito que o rácio [volume de negócios]/[trabalhadores] seja mais elevado nas grandes superfícies que nas pequenas e médias (ou seja, num dia de trabalho, passará uma maior facturação por um empregado do Continente do que por um da Alisuper). Ora, se assim for, isso quer dizer que 100.000 euros que deixem de ser gastos em pequenas e médias superfícies para passarem a ser gastos em grandes representarão mais perda de postos de trabalho nas primeiras do que criação nas segundas.

Não que isto implique forçosamente ser contra a abertura no domingo à tarde: em primeiro lugar, é possível que, ao contrário da referida empregada, haverá outros que até prefiram trabalhar do domingo à tarde e folgarem num dia útil (se estivesse nessa situação, eu acho que até preferiria - mas eu não tenho mulher nem filhos); e talvez se possa arranjar um sistema em que, em troca da abertura no domingo à tarde, os trabalhadores passem a ter mais dias de folga (a disponibilidade de tempo para "passear com a família" depende de dois factores: quantidade de folgas; e coincidência dessas folgas com o horário "normal" dos familiares - assim, uma redução no segundo factor talvez possa ser compensada por um aumento do primeiro).