Wednesday, November 07, 2007

A propósito da Revolução de Outubro - as "oposições de esquerda"

Hoje, quando se assinala os 90 anos da chamada "Grande Revolução Socialista de Outubro", vou fazer uma pequena resenha dos grupos, dentro e fora do partido bolchevique que, nalgum momento de 1917 até aos anos 30, fizeram "oposição pela esquerda" ao poder instituido. note-se que não pretendo de forma alguma amalgamar tais grupos: na verdade, em cada momento do processo, era frequente grupos "oposicionistas de esquerda" terem como principal alvo individuos que, antes ou depois, viriam também a ser "oposicionistas de esquerda". P.ex., na questão dos sindicatos, a "Oposição Operária" de Shliapnikov e Alexandra Kollontai opôs-se fortemente a Trotsky (entre os trotskistas da facção Mandel-Louçã, a linha dominante parece ser considerar os textos de Trotsky dessa fase como os piores). Poucos anos depois, já Trotsky tinha dado uma volta de quase 180º na sua posição, enquanto Kollontai acabou (talvez sem grande convicção) do lado de Estaline.

A respeito de cada facção, apresento uma salganhada de textos (textos originais do movimento, textos sobre o movimento ou sobre os ideólogos, etc.)

Bolcheviques

- "Comunistas de Esquerda", de Ossinky, Bukharine, Preobraejensky, etc- (eram contra o Tratado de Brest-Litovsk, pela nacionalização da industria e pelo controle operário):

Russian Left Communism (parte de artigo da wikipedia)

- "Oposição Operária" (eram sobretudo, pela gestão da economia pelos sindicatos):

Workers' Opposition, plataforma do movimento, escrito por Kollontai
Workers Opposition (artigo da wikipedia)
Alexander Shliapnikov (idem)
Alexandra Kollontai (idem)
1919-1922: The Workers’ Opposition

- "Centralismo Democrático", de Smirnov e Sapronov - defendia, sobretudo, maior democracia no partido:

Group of Democratic Centralism (artigo da wikipedia)

- "Grupo Operário", de Miasnikov:

Le Manifeste du Groupe Ouvrier du Parti Communiste Russe (Bolchevik)
Bolshevik Opposition to Lenin: G. T. Miasnikov and the Workers' Group
The Communist Left in Russia after 1920
Gavril Myasnikov (artigo da wikipedia)

- "Verdade Operária":

The Communist Left in Russia after 1920

- "Oposição de Esquerda"/"Oposição Unificada"/trotskistas:

The New Course (1923)
Platform of the Joint Opposition
The Revolution Betrayed (1936)
Left Opposition (artigo da wikipedia)
United Opposition (idem)

Uma boa descrição do tom do discurso geral destes grupos (embora já não tão boa nos detalhes) acaba por ser dada por José Valle de Figueiredo (que suponho seja de extrema-direita ou coisa assim...) na POLIS - Enciclopédia Verbo da Sociedade e do Estado: "Instaurado o Estado soviético, logo se desencadeiriam acções que conduziriam à emergência de fortíssima oposição de esquerda dentro do Partido, agravadas depois com a morte de Lenine. O esquerdismo tomou aspectos que haviam de priveligiá-lo como defensor da pureza inicial da Revolução ao reivindicar a supremacia dos sindicatos e da democracia operária de base sob sobre o aparelho politico-administrativo que de dia para dia tentaculizava o Estado. Os esquerdistas acusavam o próprio Lenine, e depois Estaline, de capitulacionismo e de haverem contribuido para o advento de uma nova classe que prosseguia mesmo estatuto «ditatorial» da burguesia, instaurando um opressivo «capitalismo de Estado». A nova politica económica (NEP) lançada por Lenine para enfrentar a gravíssima crise económica emergente da guerra civil foi a pedra-de-toque para o ataque das oposições de esquerda, condenadas violentamente no X Congresso do PCUS, realizado em 1921. Os principais grupos eram a Oposição Operária (...), o Centralismo Democrático (...), o grupo Zinoviev-Kamenev e o formado por Trotsky e os seus partidários. Estes dois últimos surgiriam com maior enfâse sobretudo a partir da morte de Lenine e no processo de luta pelo sucessão, que terminou com a vitória de Estaline em 1926, ano do último grande solavanco da esquerda operária na União Soviética."


Anarquistas

Os anarquistas, a principio, colaboraram com os bolcheviques, mas cedo entraram em conflito, sendo, por vezes, sujeitos a violenta repressão (o "por vezes" refere-se, claro só aos primeiros anos da revolução).

Why does the Makhnovist movement show there is an alternative to Bolshevism?
What was the Kronstadt Rebellion?
Were any of the Bolshevik oppositions a real alternative? (critica anarquista aos "bolcheviques de esquerda" apresentados lá acima)
Third Russian Revolution (artigo da wikipedia)

Tuesday, November 06, 2007

Análise às.... - "Escola" vs. "Liceu"

Agora, seguindo a sugestão do Tarique, vou tentar analisar os resultados da Escola Secundária Poeta António Aleixo (a.k.a. "o Liceu") e da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes (a.k.a. "a Escola"), e tentar perceber porque a primeira tem melhores resultados nos rankings divulgados do que a segunda

Vou fazer duas análises: uma puramente aritmética, com base nos números divulgados, e outra empírica, já que frequentei as duas (ESPAA: 1985-88; ESMTG: 1988-91).

Vamos à primeira:

Limitando-nos apenas ao exame de Matemática (que é o que eu estive a analisar), vemos que a média da ESPAA é de 100,74 e a da ESMTG é de 91,40 (valores de 0 a 200); numa escala de 20 valores temos que a ESPAA tem mais cerca de 9 décimas.

Agora vamos ver isso à luz da fórmula calculada abaixo:

- A ESPAA realizou mais 66 exames que a ESMTG; de acordo com a regra "cada 100 exames, mais uma décima de valor", temos mais 0,7 décimas de valor (na verdade, mais 0,84 décimas, devido a arredondamentos)

- Os examinados da ESPAA são, em média, 6 meses e meio mais novos; como cada ano adicional de idade tem um efeito de menos 2,33 décimas de valor, temos mais 1,28 décimas de valor

- 53% dos exames na ESPAA foram de raparigas, contra 44% na ESMTG; como as raparigas tendem a ter, em Matemática, menos 1,74 décimas de valor que os rapazes, uma diferença de 9 pontos percentuais originaria uma diferença de 0,16 décimas de valor, a favor da ESMTG

- 98% dos exames na ESPAA foram para ingresso no ensino superior, contra 93% na ESMTG; os exames para ingresso tendem a ter mais 17,37 décimas de valor, logo uma diferença de 5 pontos percentuais originaria uma diferença de cerca de 0,9 décimas de valor

- 74% dos exames na ESPAA foram para aprovação, contra 71% na ESMTG; os exames para aprovação tendem a ter -21,93 décimas de valor, logo uma diferença de 3 pontos percentuais originaria uma diferença de 0,7 décimas de valor, a favor da ESMTG

- 79% dos exames na ESPAA foram de alunos internos, contra 65% na ESMTG; os exames de internos tendem a ter mais 38,21 décimas de valor, logo uma diferença de 14 pontos percentuais originaria uma diferença de 5 décimas de valor

Assim, somando estes valores todos (não esquecer que dois são de sinal negativo) seria de esperar que a ESPAA tivesse mais 7 décimas que a ESMTG; como tem mais 9 décimas, a minha fórmula explica 78% da diferença; e mais concretamente, a diferença entre as percentagens de alunos internos nas duas escolas explica 56% da diferença.

Esta foi a análise "cientifica"; agora vamos à análise empírica.

Começo logo por esclarecer que esta análise empírica tem um grande problema: é dos anos 80, quando ambas as escolas tinham 3º ciclo (o primeiro ano de funcionamento da EB 23 Prof José Buisel, à época simplesmente chamada "C+S", foi quando estava no 12º ano) e quando os alunos de Economia e de Engenharia iam, no 10º, para a Teixeira Gomes, e creio que os de Humanísticas para a António Aleixo (penso que esta divisão por áreas já não existe, ou pelo menos foi alterada).

Diferenças:

Os professores da António Aleixo (ou, pelo menos algumas "figuras" da escola) tinham fama de serem mais exigentes que os da Teixeira Gomes, o que pode subir as notas de duas maneiras - o "bom efeito" é que levará, em principio, os alunos a se aplicarem mais; o "mau efeito" é que, como muitos alunos menos bons nem chegarão a ir a exame, isso fará subir artificialmente a média. No entanto, segundo a SIC [pdf], a diferença entre a classificação interna e a classificação no exame até é menor na Teixeira Gomes (2,86) do que na António Aleixo (3,07), o que quer dizer que essa fama de "exigência" é coisa do passado.

A nivel de composição social, não sei se a Teixeira Gomes não seria mais "operária" (via Pedra Mourinha/Vale Lagar, Aldeia Nova, Boavista, Coca Maravilhas, Cardosas, zona velha...) e "camponesa" (via Mexilhoeira Grande, Senhora do Verde, Monchique...) do que a António Aleixo (que, na franja "proletária", só tinha o Bairro Pontal e arredores e alguns alunos vindos do outro lado do Arade). E, se considerarmos que, nos anos 80, a proporção de "metálicos" poderia ser considerada uma boa proxy para a proporção de alunos da classe operária, aí a Teixeira Gomes ganhava de certeza (já na António Aleixo, penso que a sub-cultura mais visível seriam os "vanguardas"). Essa diferente composição social pode (ou poderia) ter efeitos nas notas.

Por outro lado, realmente há quem diga que, na época, a António Aleixo tinha mais ambiente de "destroxo", mas creio que esse "destroxo" era, essencialmente, um "destroxo festivo" de classe média, não um "destroxo" sério. Além disso, acho que essa percepção era ampliada por três factores: a estrutura física da Antonio Aleixo favorece mais um ambiente de "tudo ao molho" (com o que isso tem de bom e de mau), enquanto a estrutura física da Teixeira Gomes favorece mais um agrupamento por grupos de afinidade (com o que isso tem de bom e de mau); as paredes da António Aleixo estavam muito mais grafitadas que as da Teixeira Gomes; e o ponto de encontro do "pessoal da pesada" (o pátio da frente, junto à estátua) era muito mais visível que o lugar equivalente na Teixeira Gomes (as traseiras do Pavilhão B).

Se eu fosse caracterizar as duas escolas com a terminologia "high school USA", diria que a António Aleixo era um lugar de "cools" e a Teixeira Gomes uma mistura de "freaks" e "geeks" (em termos de notas, os freaks e geeks anulam-se, pelo que estas diferenças de "estilos de vida" não deveriam afectar muito as notas médias).

P.S. no caso de Matemática, não nego que a diferença nas notas possa também ser influenciada por diferenças na qualidade do corpo docente (sem entrar em detalhes para não ferir susceptibilidades...), mas acho que já não será o caso para as outras disciplinas. Outra coisa que reparo é que, embora a diferença entre as escolas seja parecida com o previsto pelo modelo, ambas têm, em valor absoluto, notas inferiores ao previsto. Haverá algum factor comum a Portimão que faça baixar as notas (se calhar algo "a partir do meio de Maio já não apetece ir às aulas")?

Monday, November 05, 2007

Análise às notas dos exames do Secundário (XII)

[Já começam a ficar fartos?]

Vamos recapitular os resultados estimados aqui em baixo:

  • Cada 100 exames realizados na escola fazem a classificações serem 1 décima de valor mais alta
  • Como anteriormente, cada 100 unidades de poder de compra representam cerca de 1 valor e meio a mais nas classificações (para termos uma referência, Portimão tem 124,36 unidade de poder de compra e Monchique 56,22; assim, se Monchique tivesse secundário, essa diferença de poder de compra originaria uma diferença de pouco mais de 1 valor)
  • Cada ano adicional de idade representa menos 2-3 décimas de valor
  • As raparigas tendem a ter menos 1,75 décimas que os rapazes (recorde-se que estou a analisar o exame de Matemática)
  • Os exames para ingresso no Ensino Superior tendem a ter mais 1 valor e 7 décimas
  • Os exames para aprovação tendem a ter menos 2 valor e 2 décimas
  • Os exames de alunos internos tendem a ter mais 3 valores e 8 décimas (agora um mea culpa: além da variável "aluno interno", a base de dados do ME tem também a variável "aluno interno a pelos menos uma disciplina"; quando passei os dados para a folha de cálculo, ignorei essa variável que talvez podesse ser relevante)
  • Os exames das escolas privadas tendem a ter mais 6 décimas de valor
  • A fase em que foi feito o exame não parece ter importância
Comparada com as dos posts anteriores, esta regressão parece-me mais confiável, na medida em que tem menos resultados contra-intuitivos:

- Variáveis que é de esperar que tenham pouca influência (nº de exames, fase a que os alunos foram a exame) têm efectivamente pouca ou nenhuma importância

- Variáveis como "Idade" e "Sexo" têm alguma importância mas não tanta como "Publico/Privado", "Interno", "poder de compra concelhio", etc. De novo, parecem-me resultados "normais"

Efectivamente, esta última regressão têm um R2 de 0,2, enquanto nas anteriores andava por 0,3. Mas convêm lembrar que esta equação pretende "prever" os resultados dos exames individuais, não a média da escola - como é óbvio, a dispersão de valores nos exames é maior, logo também o será a margem de erro da regressão (portanto, mais baixo será o R2 - noto que um R2 de 1 corresponderia a uma situação em que os resultados fossem fielmente explicados pela fórmula, sem desvios nenhum).

No entanto, aplicando esta fórmula aos dados médios de cada escola (e não a cada exame individual) e comparando o resultado com o valor real, temos uma correlação de 0,46, o que não me parece muito mau.

Como é óbvio, mantêm-se as observações que fiz mais abaixo:

"De qualquer forma, há variáveis que não foram contabilizadas (já que eu não as tinha à mão) e poderiam ser úteis: habilitações dos pais dos alunos (ou, quanto muito, o nível médio de habilitações dos pais dos alunos dessa escola, mesmo que não necessariamente dos alunos que foram a exame), percentagem de alunos que foram a exame, percentagem de alunos por escola beneficiários da Acção Social Escolar, etc; talvez fosse também boa ideia ter usado duas variáveis distintas para as escolas privadas: uma para as privadas em regime "liberal" e outra para as privadas com contrato de associação." (Gasel também apresenta mais algumas sugestões).

Eu pus os dados que recolhi e utilizei (acerca dos exames, das escolas e da caracterização dos concelhos) numa folha de excel zipada aqui (aviso que, deszipada, são 14 MB).

Quanta à analise das diferenças entre a "Escola" e o "Liceu", fica para amanhã...

Análise às notas dos exames do Secundário (XI)

Com referi no post anterior, há uma grande correlação entre as variáveis "Para Aprovação" e "Para Melhoria". Assim, como de costume, vou calcular duas regressões, uma usando cada uma das variáveis (nota: apesar de isto ser uma análise a partir dos exames individuais, variáveis como "nº de exames" e "poder de compra" referem-se à escola e ao concelho, respectivamente, não ao aluno individual).

Usando a variável "Para Melhoria", temos os seguintes resultados:

R2 0,187

F 1674,2





variável:
desvio t
Nº de exames 0,01 0,00 8,22
poder compra 0,16 0,01 29,66
Idade -1,19 0,08 -14,77
Sexo -2,92 0,34 -8,71
ParaIngresso 20,41 1,05 19,51
ParaMelhoria 22,18 0,49 45,33
Fase -0,76 0,37 -2,03
Interno 32,36 0,39 83,89
PubPriv
6,07 0,55 11,09
C 53,68 2,02 26,60

Fazendo o cálculo usando a variável "Para Aprovação", a variável "Fase" revelou-se pouco significativa e exclui-a (já neste cálculo que fiz antes andou perto de ser excluida). O resultado final foi:

R2 0,197

F 2009,5





variável:
desvio t
Nº de exames 0,01 0,00 8,33
poder compra 0,16 0,01 30,16
Idade -2,33 0,08 -28,15
Sexo -1,74 0,33 -5,22
ParaIngresso 17,37 1,04 16,67
ParaAprov -21,93 0,39 -56,07
Interno 38,21 0,38 100,59
PubPriv (a) 5,90 0,54 10,83
C 90,70 2,05 44,34

Esta segunda regressão parece-me melhor que a anterior, já que tanto o R2 como a estatística F são mais elevados

Análise às notas dos exames do Secundário (X)

Na verdade, as regressões que estimei nos posts anteriores parecem-me de validade muito duvidosa. Veja-se:

- Casos em que mudar uma variável altera bastante os resultados para as outras variáveis (p.ex., usar a "Idade" ao o "Para Aproveitamento" altera logo o efeito da escola privada de 5 décimas para 8 décimas de valor)

- Variáveis que parecem significativas, mas que têm que ser excluidas "à mão" porque a lógica diz que é impossível essas variáveis serem significativas (o caso da "Fase")

- Variáveis que, intuitivamente, é de esperar que tenham pouca importância ("Nº de Exames", "Idade") revelarem-se mais significativas do que variáveis que, à partida era de esperar que tivessem importância (p.ex. "Interno").

Acho que a causa destes estranhos fenómenos deve ser a mudança de método do primeiro para o segundo post - deixei de tentar explicar os resultados de cada exame para passar a tentar explicar os resultados de cada escola (agrupando todos os exames e fazendo a média), nomeadamente porque era mais simples tratar 593 observações do que 65.491. Isso pode ter tido dois efeitos:

Dá, no cálculo, o mesmo peso a uma escola que tenha realizado 50 exames e a uma que tenha realizado 200 (por outras palavras, amplia por 4 os efeitos que possam ocorrer nos exames na pequena escola)

Ao reduzir e agregar o número de observações, pode aumentar a correlação entre as variáveis (sobretudo ser elas já forem correlacionadas), dando origem aos problemas referidos aqui.

Se, em vez das médias por escola, tomar como base os resultados por exame, a maior parte das correlações entre as variáveis reduz-se bastante - a única correlação significativa passa a ser a entre "Para Aprovação" e "Para Melhoria" (-0,68), o que até é de esperar, já que nenhum teste que é "Para Aprovação" é "Para Melhoria" e vice-versa (a matriz de correlações está no fim do post)

Assim, vou voltar a estimar a regressão, mas agora fazendo o cálculo para os exames e não para as escolas.

Correlações verificadas entre os exames


Pub Priv
Interno Fase Para Aprov Para Melhoria Para Ingresso Sexo Idade poder compra Nº de exames
PubPriv
1,00 0,07 0,00 0,02 0,02 0,02 -0,01 -0,09 0,13 -0,20
Interno
1,00 -0,16 0,28 0,12 0,03 0,17 -0,38 -0,08 -0,07
Fase

1,00 -0,31 0,34 -0,01 -0,01 0,07 -0,01 0,00
ParaAprov


1,00 -0,68 -0,08 0,15 -0,32 -0,04 -0,03
ParaMelhoria



1,00 0,04 -0,01 -0,05 0,00 0,00
ParaIngresso




1,00 -0,07 0,00 0,02 0,04
Sexo





1,00 -0,15 -0,05 -0,02
Idade






1,00 0,07 0,06
poder compra







1,00 0,20
Nº de exames








1,00

Análise às notas dos exames do Secundário (IX)

Comparando as regressões estimadas nos últimos posts, parece-me que os resutados mais relevantes (em função do valor do R2) são mesmo os que usam a "Idade" como variável explicativa (em lugar de "Para Aprovação" e "Interno") - ou seja, a complicação que eu decidi introduzir não levou a nenhuma alteração dos resultados!

Como eu desconfio da validade da variável "fase", parece-me que o melhor cálculo é este:

R20,31

F64,69





variável:
desviot
Nº de exames0,020,013,56
poder compra0,160,0210,47
Idade-9,830,99-9,94
PubPriv
5,831,783,28
C248,9517,3714,33

No entanto, se não concordarem com as minhas reservas à "Fase", o melhor resultado será este.

[Nota: a correlação entre "Idade" e "poder de compra" é de 0,311; isso talvez possa indicar um problema de "multicolineriedade" - é um valor maior que, digamos, o R2. No entanto, o,31 já me parece uma correlação suficientemente baixa e, de qualquer forma, outros sintomas típicos da multicolineriedade, como um R2 elevado mas "estatisticas t" pouco significativas, não aparecem - pelo contrário, temos um R2 baixo mas estatisticas t significativas. Assim, vou aceitar esta regressão como válida]

Analisando melhor este cálculo, ele parece indicar que, das variáveis consideradas, a mais importante (em termos de estatística t) para os resultados finais é o poder de compra do concelho, depois a idade dos examinados (quanto mais novos, melhores resultados), o número de exames (quanto mais exames, melhores resultados) e, finalmente, a escola ser pública ou privada.

Seja como for, globalmente, esta fórmula explica pouco - estas variáveis apenas explicam 31% do resultado final; os outros 69% serão da responsabilidade de outras variáveis não contabilizadas, das características especificas de cada escola ou de cada aluno, etc.

De qualquer forma, há variáveis que não foram contabilizadas (já que eu não as tinha à mão) e poderiam ser úteis: habilitações dos pais dos alunos (ou, quanto muito, o nivel médio de habilitações dos pais dos alunos dessa escola, mesmo que não necessariamente dos alunos que foram a exame), percentagem de alunos que foram a exame, percentagem de alunos por escola beneficiários da Acção Social Escolar, etc; talvez fosse também boa ideia ter usado duas variáveis distintas para as escolas privadas: uma para as privadas em regime "liberal" e outra para as privadas com contrato de associação.

Finalmente, no que respeita à caracterização do concelho, usei também a "população" e uma espécie de "taxa de urbanização" mas apresentaram menor significância estatística do que o "poder de compra".

Análise às notas dos exames do Secundário (VIII)

Agora os cálculos foram feitos excluindo "Idade" e "Para Aprovação"; as variáveis "Sexo" e "Para Melhoria" foram posteriormente excluidas por terem valores pouco significativos.

Resultados:

R2 0,29

F 39,21





variável: desvio t
Fase -50,45 8,40 -6,01
Nº de exames 0,03 0,01 3,81
poder compra 0,12 0,02 8,15
Interno 21,84 4,10 5,33
PubPriv
8,84 1,74 5,08
ParaIngresso 26,35 13,10 2,01
C 102,76 17,41 5,90

Fazendo a conta excluindo a "Fase", continuam a não ser significativas as variáveis "Sexo" e "Para Melhoria":

R2 0,24

F 37,59







desvio t
Nº de exames 0,03 0,01 3,83
poder compra 0,13 0,02 8,39
Interno 25,98 4,16 6,24
PubPriv
9,25 1,79 5,16
ParaIngresso 23,26 13,47 1,73
C 33,75 13,46 2,51

Estas regressões têm um poder explicativo entre 0,29 e 0,24. O factor "escola privada" terá um efeito de cerca de 9 décimas de valor.

Sunday, November 04, 2007

Análise às notas dos exames do Secundário (VII)

Agora repeti todos os calculos, excluinda as variáveis "Idade" e "Interno"; a variável "Sexo" também foi posteriormente excluida por não se revelar significativa (tinha uma estatistica t de apenas -0,09).

Resultados:

R2 0,30

F 36,65





variável:
desvio t
Fase -46,49 8,48 -5,48
Nº de exames 0,02 0,01 3,35
poder compra 0,13 0,01 8,50
ParaAprov 32,72 5,23 6,26
PubPriv
8,57 1,71 5,01
ParaIngresso 28,53 13,01 2,19
ParaMelhoria 36,99 8,52 4,34
C 80,84 18,39 4,40

Fazendo a conta excluindo a variável "Fase", a variável "Sexo" continua a não ser estatisticamente relevante, e os resultados são estes:

R2 0,27

F 35,97





variável:

Nº de exames 0,02 0,01 3,34
poder compra 0,13 0,02 8,83
ParaAprov 39,86 5,19 7,69
PubPriv
8,93 1,75 5,10
ParaIngresso 27,34 13,32 2,05
ParaMelhoria 37,14 8,72 4,26
C 12,95 13,93 0,93

Conclusão:

As regressões estimadas usando a variável "ParaAprovação" têm menos qualidade do que as usando a "Idade" (um R2 de 0,30 e 0,27 contra 0,34 e 0,31). O factor "Escola Privada" é mais significativo - cerca de 9 décimas de valor.

Análise às notas dos exames do Secundário (VI)

Em função disto, fui repetir este cálculo excluindo a variável "fase". Ao excluir a "fase", a variável "Para Ingresso", por qualquer razão, perdeu também significância (a sua estatística t baixou de 1,81 para 1,52) pelo que foi também excluida do cálculo.

Os novos resultados:

R2 0,31

F 64,69





variável:
desvio t
Nº de exames 0,02 0,01 3,56
poder compra 0,16 0,02 10,47
Idade -9,83 0,99 -9,94
PubPriv
5,83 1,78 3,28
C 248,95 17,37 14,33

Comparada com a outra regressão, esta tem menos poder explicatório (0,31 em vez de 0,34); no entanto, os coeficientes calculados para cada variável mantêm-se parecidos com os anteriores (p.ex., o efeito de ser uma escola privada passou de 54 para 58 centésimos de valor).

Análise às notas dos exames do Secundário (V)

A outra ressalva é que há uma forte correlação positiva entre as variáveis "Para Aprovação" (percentagem de exames que eram para aprovação) e "Interno" (percentagem de exames como aluno interno) e uma forte correlação negativa entre estas e a variável "Idade". Ora, elevadas correlações entre as variáveis distorce os resultados. Há maneiras de contornar esta situação, mas para quem só tem como instrumento uma folha de Excel, acho que o melhor é mesmo calcular três regressões, uma usando só a variável "Idade" (que já está calculada), outra usando só a variável "ParaAprovação" e mais outra usando só a variável "Interno".


Correlações entre as variáveis:


PAprov Sexo PMelhoria Interno PubPriv
Fase PIngresso Idade poder compra Nº de exames
ParaAprov 1,000 0,339 -0,324 0,530 0,113 -0,258 -0,103 -0,630 -0,245 -0,110
Sexo
1,000 0,004 0,300 -0,052 0,018 -0,034 -0,270 -0,249 -0,082
ParaMelhoria

1,000 0,325 0,098 0,085 0,095 -0,107 -0,006 0,013
Interno


1,000 0,208 -0,165 -0,029 -0,639 -0,293 -0,199
PubPriv (a)



1,000 -0,092 0,107 -0,288 0,236 -0,238
Fase




1,000 0,029 0,170 -0,039 0,015
ParaIngresso





1,000 -0,017 0,101 0,093
Idade






1,000 0,311 0,142
poder compra







1,000 0,145
Nº de exames








1,000


Análise às notas dos exames do Secundário (IV)

Há duas ressalvas aos valores que estimei aqui.

A primeira é que me parece muito suspeito o comportamento da variável "fase" (a fase em que foram feitos os exames): quando analisei o seu efeito sobre as notas de cada exame, o resultado era apenas de uma décima de valor; mas, quando se trata do efeito sobre as notas médias da escola, o efeito passa a ser por volta de 5 valores. Ou seja, se tudo o resto for igual, um exame feito na segunda fase terá uma nota inferior em 0,1 valores a um exame feito na primeira (à partida, se os exames forem bem concebidos, faz sentido que a diferença seja mínima), mas numa escola em que metade dos exames fossem feitos na segunda fase, a média seria 2,5 valores inferior a uma em que todos os exames fossem feitos na primeira (ou seja, o efeito sobre a média de escola é 50 vezes maior do que sobre os exames individuais).

A única explicação que me ocorre para isso é que, nas escolas em que mais exames sejam feitos na segunda fase, as notas da primeira fase sejam mais baixas. Assim, fui calcular a correlação entre a proporção de exames feitos na segunda fase e a nota média dos exames da primeira fase: o resultado foi -0,38. Não é um valor muito alto, mas também não é muito baixo, e comprova a ideia de que, quantos mais exames feitos na segunda fase, mais baixa é a nota dos exames da primeira.

Ora, a mim parece-me muito difícil de acreditar que o facto de muitos exames serem feitos na segunda fase faça baixar as notas dos exames da primeira (sinceramente, não vejo qual possa ser o mecanismo causal); assim parece-me é que, quer as baixas notas na primeira fase, quer a ida de mais alunos à segunda, devem ser causadas por um terceiro factor. Desta forma, acho melhor refazer os cálculos sem incluir a "fase" como variável explicativa (já que suspeito que a "fase" é mais um efeito do que uma causa). No entanto, apresentarei os dois resultados, para os leitores decidirem por eles qual acham melhor.

Há também outro detalhe, que explicarei a seguir.

Saturday, November 03, 2007

Estado e Povo - parte II

Rui Albuquerque escreve o "Estado, ensinam-no os manuais mais rudimentares, é a organização política de um povo". Não sei que manuais o Rui leu, mas os meus dizem-me que "O Estado é a organização que reclama o monopólio da violência num determinado território" (e penso que é essa a definição padrão de Estado), ou seja, não tem nada a ver com "povo".

Friday, November 02, 2007

Análise às notas dos exames do Secundário (III)

[Este post foi ligeiramente alterado]

Agora vou introduzir duas novas variáveis - o número de exames por escola e o poder de compra concelhio (de acordo com as estatísticas territoriais do INE). Nenhuma destas variáveis me parece muito boa: o número absoluto de exames pouco interessa - o que era um dado a olhar com atenção seria o número de exames comparado com o número de alunos; e o poder de compra concelhio pode ser relevante em pequenos concelhos, mas em Lisboa não distingue entre uma escola em Chelas ou no Restelo.

Ainda andei no "Portal da Educação" a ver se encontrava dados sobre o número de alunos com Acção Social Escolar por escola ou coisa assim, mas não achei nada. Assim, vão ser mesmo aqueles dados.

Resultados:

R2 0,34

F 51,12





variável: desvio t
Nº de exames 0,02 0,01 3,43
poder compra 0,15 0,02 10,10
Idade -8,85 0,98 -9,05
ParaIngresso 22,80 12,56 1,81
Fase -45,25 8,07 -5,61
PubPriv (a) 5,42 1,74 3,12
C 271,49 22,20 12,23


Conclusões:

A introdução do número de exames e do poder de compra concelhio aumenta o poder explicativo da regressão de 20 para 34%.

Ao contrário do que se poderia pensar, a relação entre o número de exames realizados e a nota média por escola é positiva: cada 100 exames realizados a mais numa escola tendem a significar mais 2 décimas de valor na média.

A relação entre o poder de compra e a média também é positiva: cada 100 unidades de poder de compra representam 1 valor e meio a mais na média (para termos uma referência, Portimão tem 124,36 unidade de poder de compra e Monchique 56,22; assim, se Monchique tivesse secundário, essa diferença de poder de compra originaria uma diferença de 1 valor na média).

O efeito "escola privada" baixa para cerca de 6 décimas de valor.

[A alteração no post foi porque, inicialmente, tinha considerado para o concelho de Lisboa um poder de compra de 137,32; ora, isso é o poder de compra para a NUT de Lisboa - no concelho, o poder de compra é de 216,04, o que mudou os resultados das contas]

Análise às notas dos exames do Secundário (II)

Continuando com o meu estudo, vou agora estimar uma função, não para a nota de cada exame, mas para a média de cada escola (ou seja, em vez de tratar 65.491 observações, serão apenas 593). As variáveis "ParaAprovação", "Sexo", "Interno", "ParaMelhoria" e "ParaIngresso" deixam de ser dummies e passam a representar a proporção de exames em cada escola nessas situações.

Ao longo dos cálculos, as variáveis "Sexo", "ParaAprovação", "Interno" e "ParaMelhoria" revelaram estatísticas t muito baixas e, por isso, exclui-as.

Resultados:

R2 0,20

F 35,79





variável:
desvio t
Idade -4,41 0,98 -4,49
ParaIngresso 38,88 13,75 2,83
Fase -53,53 8,87 -6,03
PubPriv 10,16 1,73 5,87
C 204,58 23,63 8,66

Conclusões:

Esta análise por escolas é ligeiramente mais explicativa que a anterior análise por exames - explica 20% do resultado em vez de 18%. O efeito de a escola ser privada é maior: enquanto um exame feito numa escola privada tinha, em média (e, claro, controlando para as outras variáveis), mais 7 décimas de valor do que numa pública, agora a média dos exames numa escola privada tende a ser 1 valor mais elevado do que numa escola pública.

Povo e Estado

Rui Albuquerque escreve "Não deixa, contudo, de ser interessante constatar que as reacções mais violentas aos «post» «anti-semitas» do Pedro Arroja venham precisamente de quem frequentemente invectiva, sobretudo à esquerda, o «Estado de Israel» e o «Sionismo», equiparando-os aos nazis no comportamento que têm para com os palestinianos. Como se eles fossem coisas distintas desse mesmo agregado sociológico – o Povo Judeu – que Arroja tanto censura e como se essa mesma generalização não partisse do mesmo preconceito."

É surpreendente que um liberal identifique "Povo" e "Estado" como equivalentes. Mas, mesmo que identifiquemos um Estado com os seus súbditos, a maioria do "povo judeu" não vive em Israel, logo não vejo o que é que Israel tem a ver com "os judeus" (se definirmos "judeu" no sentido religioso, até há quem argumente que um judeu, por definição, tem que ser contra Israel).

E, já agora, também é curioso como os defensores de Israel não se entendem: uns dizem que é um estado laico e multiétnico, e outros equivalem Israel com o "povo judeu".

Análise às notas dos exames do Secundário (I)

Decidi fazer uma análise econométrica às notas dos exames do secundário (como agora anoitece mais cedo, é um passatempo melhor do que ir fotografar vermes aquáticos).

Pegando na base de dados com os resultados dos exames ao 12º ano, foi buscar as notas dos exames de Matemática A (analisar só uma disciplina ultrapassa o problema referido pelo Luís Aguiar-Conraria e pelo Tarique, de diferentes disciplinas terem normalmente notas diferentes).

Retirei os exames feitos em escolas no estrangeiro, não só por espelharem uma realidade muito diferente da portuguesa, mas por uma razão mais prosaica: com eles teria 65.767 resultados, e uma folha de Excel só tem 65.536 linhas (limitando-me ao território nacional, temos 65.492 resultados, que já cabem na folha).

Numa primeira abordagem, vamos analisar o impacto das seguintes variáveis:

- Público/Privado
- Se o aluno é interno ou externo
- De que fase é o exame (1ª ou 2ª)
- Se o exame é para aprovação na cadeira
- Se o exame é para melhoria de nota
- Se o exame é para ingresso na universidade
- Sexo do aluno
- Idade

Outras variáveis, nº de exames por estabelecimento, caracterização social do concelho, etc., ficarão para próximos posts (quanto à origem social dos alunos, não poderá ser contabilizada, já que, como bem notou Francisco Louçã, essa informação não é disponibilizada).

Houve um exame (externo) na Escola Secundária Fontes Pereira de Melo, para ingresso no ensino superior, que não foi contabilizado, já que a idade do examinado (que teve zero valores) não consta dos dados.

Resultados:

R2 0,18

F 1844,73





variável

desvio t
Idade -1,99 0,09 -22,90
Sexo -2,23 0,34 -6,62
ParaIngresso 18,73 1,05 17,82
ParaMelhoria 6,17 0,74 8,31
ParaAprov -18,28 0,63 -29,23
Fase -1,30 0,37 -3,49
Interno 35,99 0,42 86,60
PubPriv
7,25 0,53 13,70
C 102,24 2,25 45,49

Conclusões:

A fórmula, no seu conjunto, tem pouco valor explicativo (um R2 de apenas 0,18); num entanto, cada uma das variáveis parece ser significante, a avaliar pelas estatísticas t (muito elevadas para todas elas).

Assim, conclui-se que:

- Os examinados tendem a ter menos 2 décimas no exame por cada ano de idade adicional
- As raparigas tendem a ter também menos 2 décimas que os rapazes (Matemática parece ser um caso bizarro nesse aspecto)
- Nos exames para ingresso, as notas tendem a ser mais elevadas 1 valor e 9 décimas do que nos outros (resultado previsível - são os melhores alunos que concorrem ao ensino superior)
- Nos exames para melhoria de nota, os resultados tendem a ser 6 décimas de valor mais altos (penso que também é um resultado previsível)
- Nos exames para aprovação, os resultados tendem a ser 1 valor e 8 décimas mais baixos (mais um resultado que não surpreende)
- Na segunda fase, os resultados tendem a ser 1 décima de valor mais baixos
- Nos exames internos, os resultados são 3 valores e 6 décimas mais altos (como seria de esperar)
- As escolas privadas tendem a ter mais 7 décimas de valor que as públicas (curiosamente, um valor muito próximo da diferença verificada nos "rankings" globais)