Saturday, September 16, 2006

O que significa "responsabilidade"?

Na armadilhaparaursosconformistas, cãorafeiro escreve sobre "Liberdade e Responsabilidade".

O que eu vou escrever aqui pode não ter, directamente, muito a ver com isso, mas creio que, indirectamente, acaba por ter.

Um grande problema com palavras como "responsabilidade", "responsável", etc. é que não se sabe muito bem o que querem dizer. Nomeadamente, essas palavras têm dois sentidos que não têm quase nada a ver um com o outro, mas que por vezes são misturados:

Por um lado, "responsabilidade" significa "suportar as consequências dos seus actos"; por exemplo, quando cai uma ponte e se diz "alguêm tem que ser responsabilizado por isso", estamos a falar de "responsabilidade" neste sentido.

Por outro lado, "responsabilidade" (e, sobretudo, "responsável") tem também uma conotação de "espirito de dever" e "obrigação", de fazer o que tenho que fazer e não o que me apetece fazer. P.ex., quando se diz que um jovem que é um aluno aplicado e que tem o seu quarto arrumado é "responsável", é neste sentido.

Os dois sentidos não têm grande ligação: uma pessoa pode não ter grande sentido de "dever" e "obrigação" e no entanto assumir as consequências dos seus actos. Um exemplo extremo: um individuo que recuse a ideia de ter um trabalho regular, optando por uma vida errante, ganhando dinheiro tocando guitarra na rua e/ou fazendo trabalhos ocasionais e dormindo em estações de comboios nos dias frios e ao relento nos dias quentes (nos dias em que os transeuntes apreciaram a sua música e lhe deram muitas moedas, talvez exprimente o conforto de uma pensão). Esse comportamento não é o que frequentemente se chama "responsável", mas encaixa perfeitamente na primeira definição de responsabilidade - o individuo assume as consequências dos seus actos.

Um exemplo mais frequente: muitas vezes, são os jovens mais "irresponsáveis" (no sentido de priveligiarem mais a "satisfação imediata") que decidem deixar os estudos e ir trabalhar (frequentemente a contra-gosto dos pais) - ora, de acordo com a definição "responsabilide = assumir as consequências dos seus actos", esse comportamento é totalmente "responsável" ("irresponsáveis" serão os que - como fez o autor destas linhas - vão tirar um curso, vivendo 4 anos à custa dos seus pais).

Podemos também imaginar o caso oposto: alguêm pode ser uma pessoa "responsável", no sentido de ter uma mentalidade "primeiro as obrigações, depois as diversões" e, no entanto, querer que os outros suportem as consequências dos seus actos e decisões. P.ex., um estudante esforçado e aplicado que ache que, por causa disso, tem direito a uma mesada mais elevada.

Na questão da "liberdade" e da "responsabilidade", creio que frequentemente se mistura estes dois sentidos da palavra "responsabilidade". A "responsabilidade" que está ligada à liberdade é a primeira - se eu decido livremente agir de determindada maneira, devo aceitar os resultados dessa acção. P.ex., se eu decido não fazer a cama, tenho de aceitar o fato de ter uma cama não feita e, de na noite seguinte, ter os lençóis todos enrugados*. No entanto, muitas vezes joga-se com a ambiguidade do conceito de "responsabilidade" para argumentar que as pessoas têm que ser "responsáveis" no segundo sentido para poderem ser livres - ou seja, passa-se do "pessoas livres devem arcar com as consequências de decidirem fazer ou não a cama" para "só as pessoas que fazem a cama todos os dias têm condições para serem livres".

* algo abusivamente, há também quem use esta ligação entre "liberdade" e "responsabilidade" para argumentar que os individuos devem arcar com as consequências, não apenas dos seus actos, mas também com as dos actos de outras pessoas - p.ex, alguns opositores às politicas redistributivas usam esse argumento, esquecendo-se que, a partir do momento em que deixamos de viver em familias auto-suficientes, a nossa riqueza e rendimento são afectados, não apenas pelos nossos actos, mas pelos actos de todas as pessoas com quem interagimos, e pelos actos das pessoas com que elas interagem, e pelos das pessoas que interagem com essas, etc.

5 comments:

agitador said...

"pessoas livres devem arcar com as consequências de decidirem fazer ou não a cama"
concordo inteiramente com o que disse em relação ao primeiro sentido.

"só as pessoas que fazem a cama todos os dias têm condições para serem livres".
o segundo sentido não pode ser visto neste exemplo, pois fazer a cama é algo que o afecta individualmente.
e este tipo de responsabilidade é mais de caracter social.

Miguel Madeira said...

Seja bem regressado, agitador.

agitador said...

obrigado, é bom estar de volta.

agitador said...

enquanto estive ausente, deparei-me com o conceito de "gift economy".
a noção que tenho é um pouco difusa, mas li na wikipedia sobre isso. o que acha? realista? ou não?

sei que bob black é defensor.

Miguel Madeira said...

«enquanto estive ausente, deparei-me com o conceito de "gift economy".»

Um dia destes, sou capaz de escrever qualquer coisa sobre isso.