Wednesday, January 16, 2008

Sobre a expansão monetária


Admito que essa ideia até pode fazer algum sentido - mesmo há uns dias, conversando com alguém, chegámos à conclusão que baixas taxas de juros no crédito à habitação se calhar beneficiam mais quem vende casas do que quem compra casas (se a oferta de habitação for pouco elástica, o efeito de taxas de juros baixas é essencialmente preços altos e não tanto mensalidades baixas).

No entanto, tenha dúvidas que o argumento empírico de Reisman seja válido, pelo menos no que diz respeito aos anos 90.

Temos aqui o crescimento da massa monetária nos EUA nas últimas décadas (clicar nos gráficos para mais informação):











































Se tomarmos como referência o M2 ou o M3, efectivamente, desde meados dos anos 90 que tem havido uma expansão monetária (e mais rápida que nos anos anteriores); pelo contrario,se nos guiarmos pelo M1, parece-me que não tem havida nenhum crescimento por aí além, tendo até havido, a principio, uma retracção.

Basicamente, o M1 são as notas e moedas em circulação mais os depósitos à ordem; o M2 é o M1 mais os depósitos a prazo; o M3 é o M2 mais uns produtos financeiros menos vulgares.

Ora, o que é controlado directamente pelo banco central é o M1: é o banco central que decide quantas notas e moedas há em circulação; e, fixando as reservas que os bancos devem deter, acaba também por controlar a criação de moeda pelos bancos.

Por exemplo, se o banco central puser 1000 euros em notas em circulação e determinar que os bancos comerciais têm que manter reservas de 5% (ou seja, que podem emprestar 95% dos seus depósitos), teremos um M1 de 20.000 euros (assumindo que as pessoas e empresas mantêm todo o seu dinheiro no banco; se mantivessem 90% do dinheiro no banco e andassem com o resto na carteira ou atrás das enciclopédias da sala, teríamos um M1 de 6.897 euros: 690 euros em circulação mais depósitos à ordem de 6.207 euros - dos quais os bancos manteriam 310 euros em reservas, concedendo empréstimos no valor de 5.897 euros).

Portanto, se é o M1 que o banco central (mais ou menos) controla, e é no M1 que se evidencia o fenómeno tão criticado pela "Escola Económica Austríaca" da concessão de crédito não suportado por poupanças (é no M1 que entra em acção, tanto o papel-moeda, como as reservas bancárias fraccionais) , parece-me que é o M1 que deve ser usado como medida da "expansividade" ou não dos bancos centrais.

E, como se vê, usando o M1 como critério não parece ter havido nenhuma expansão monetária relevante por parte do banco central norte-americano de meados dos anos 90 para a frente.

(amanhã ou depois devo postar mais alguma coisa sobre bancos centrais)

Luxemburg and Liebknecht: fallen heroes

Sindicalistas e emprego para a vida

João Miguel Tavares escreve:"Vara é a prova de que mesmo dentro de um administrador milionário bate um coração de sindicalista, desejoso acima de tudo de manter um emprego para a vida."

Se os sindicalistas desejassem, acima de tudo, manter um emprego para a vida, provavelmente não se tornariam sindicalistas (situação que, nas empresas privadas, frequentemente leva ao despedimento na primeira oportunidade).

Tuesday, January 15, 2008

Como as invasões bárbaras criaram a Europa

João César das Neves, argumentando que "a Igreja criou a Europa", desmente (com razão) o mito que a Idade Média foi a Idade das Trevas:

"Os avanços conseguidos na chamada Idade das Trevas são impressionantes, todos dirigidos a melhorar a vida concreta (op. cit. c. II): ferraduras, arado, óculos, aquacultura, afolhamento trienal, chaminé, relógio, carrinho de mão, etc. A notação musical, arquitectura gótica, tintas a óleo, soneto, universidade, além das bases da ciência, a separação Igreja-Estado e a liberdade dos escravos (c. III) são também criações medievais."

E até dá uma boa razão para a persistente ideia do "atraso" medieval:

"As razões desse engano são muito curiosas. Como explica Stark, todas as ditaduras exploram o povo para criar obras grandiosas à magnificência dos tiranos. Foi assim Roma e os reinos orientais. Destroçado o despotismo com a queda do império, a Cristandade gerou um surto de criatividade prática, pois as populações não temiam a pilhagem dos ditadores. Assim as realizações da Idade Média resultaram em melhorias da vida das aldeias, não em monumentos que os renascentistas poderiam admirar. Por isso esses intelectuais posteriores, nos seus gabinetes, desprezaram uma época sem mausoléus, enquanto louvavam as tiranias de que só conheciam a arquitectura e erudição."

Mas, nessa passagem, involuntariamente, deita por terra a sua tese que a Igreja foi a causa do progresso medieval - "Destroçado o despotismo com a queda do império, a Cristandade gerou um surto de criatividade prática, pois as populações não temiam a pilhagem dos ditadores"; ou seja, na mesma passagem em que JCN diz que "a Cristandade gerou um surto de criatividade prática", diz que foi "a queda do império" que criou as condições para esse progresso, pelo que podemos concluir que, afinal, foi esse o factor decisivo, e não "a Cristandade".

Um bom tira-teimas seria comparar o progresso na Europa medieval com o ocorrido, no mesmo período, no Império Bizantino (isto é, a parte da "Cristandade" onde uma espécie de Império Romano continuou a existir); se concluirmos que a Europa progrediu muito mais que Bizancio, a tese das "raízes cristãs" será refutada, em detrimento da tese "a queda do império libertou a Europa".

Convém também lembrar que muitos dos países mais avançados da Europa (como os nórdicos) só se converteram relativamente tarde ao cristianismo (note-se que não estou a dizer que o seu avanço resulta dessa conversão relativamente tardia; provavelmente a conversão tardia e o avanço desses países é que são ambas consequências de um poder real fraco).

Outros posts sobre o assunto:
Os "bárbaros" salvaram a Europa
Já que estou falando de "romanos" e "bárbaros"

Publicidade

Decidi por uns anúncios ali em baixo. Diga-se que, ao contrário, p.ex., de Daniel Oliveira, eu tenho mesmo preconceitos filosóficos contra a publicidade; mas, por outro lado, se alguém me decidisse contratar para escrever num jornal ou para aparecer na televisão, acho eu não iria recusar, embora o dinheiro viesse também, indirectamente, da publicidade - assim, porque haverei de recusar receber dinheiro directamente da publicidade?

Claro que isto não passa de uma racionalização para me justificar perante mim mesmo (e ainda por cima, com as visitas que este blogue tem, o que vou receber em troca da minha alma mortal deve ser para aí um euro por mês).

O caso à esquerda contra os Bancos Centrais e a inflação monetária

... pelo insuspeito George Reisman:

Credit Expansion, Economic Inequality, and Stagnant Wages

"(...) The truth is that credit expansion is responsible not only for the boom-bust cycle but also for another major negative phenomenon for which public opinion mistakenly blames capitalism: namely, sharply increased economic inequality, in which the wealthier strata of the population appear to increase their wealth dramatically relative to the rest of the population and for no good reason.

It is not accidental that the two leading periods of credit expansion in history — the 1920s and the period since the mid-1990s — have been characterized by a major increase in economic inequality. Both in the 1920s and in the more recent period, a major cause of the increased economic inequality is that the new and additional funds created in credit expansion show up very soon in the financial markets, where they drive up the prices of securities, above all, common stocks. (...)"

Outro exemplo de desigualdade induzida: é o sistema financeiro e as grandes empresas "consumidoras" de crédito, dois grupos "perto" da criação de moeda que tem lugar com a concessão/expansão do crédito, que primeiro utilizam essas novas quantidades de dinheiro na economia, ou seja, com grande parte do seu poder aquisitivo intacto porque os preços ainda não reflectiram a existência de moeda adicional. Prejudicados? Aqueles que estarão em último lugar na cadeia de utilização dessas novas quantidades de moeda, sendo um exemplo, o sector primário (agricultura, etc).

Sunday, January 13, 2008

Mais um teste sobre as eleições norte-americanas

Via Goodnight Moon, achei o Electoral Compass USA, mais um dos tais testes que parecem inúteis para os não-norte-americanos mas sempre são um entretenha gira.

Os meus resultados:

Your position in comparison with the candidates.

You have responded to 36 propositions. Based on the responses you provided, you are the closest to Barack Obama and you are the furthest away from Fred Thompson

Barack Obama
You are 9% economic left
You are 3% more progressive
You have a substantive agreement of 76%
John Edwards
You are 5% economic left
You are 14% more progressive
You have a substantive agreement of 75%
Hillary Clinton
You are as economic right as economic left
You are 19% more progressive
You have a substantive agreement of 73%
Bill Richardson
You are 3% economic left
You are 20% more progressive
You have a substantive agreement of 76%
Ron Paul
You are 53% economic left
You are 35% more progressive
You have a substantive agreement of 56%
Rudy Giuliani
You are 58% economic left
You are 54% more progressive
You have a substantive agreement of 39%
John McCain
You are 50% economic left
You are 68% more progressive
You have a substantive agreement of 38%
Mitt Romney
You are 59% economic left
You are 68% more progressive
You have a substantive agreement of 31%
Mike Huckabee
You are 55% economic left
You are 74% more progressive
You have a substantive agreement of 33%
Fred Thompson
You are 58% economic left
You are 83% more progressive
You have a substantive agreement of 28%

Comentários:

Os autores do teste esqueceram-se do Kucinich e do Gravel?

Parece que em questões económicas, eu estou, no eixo esquerda-direita, na mesma posição que Hillary Clinton (será que ela também defende a autogestão, ou haverá algum problema no teste?).

Nos primeiros candidatos (excluindo os que foram excluidos, passe a redundância), a ordem acaba por ser a mesma que neste outro teste (inclusive no único candidato republicano com "nota positiva").

É curioso que, pelo menos nos 7 primeiros lugares, a minha hierarquia de semelhanças seja igual à do Goodnight Moon.

Não é muito claro como a hierarquia de semelhanças é calculada - p.ex., eu terei mais "substantive agreement" com Richardson do que com Clinton, ou com Huckabee do que com Romney, mas no geral, o teste considera-me mais próximo de Clinton do que de Richardson, ou de Romney do que de Huckabee. Imagino que a proximidade com os candidatos seja calculada em função do gráfico bi-dimensional esquerda/direita e progressista/tradicional, e não de cada resposta individual.

Saturday, January 12, 2008

Sugestão de leitura

Scratching By: How Government Creates Poverty as We Know It de Charles Johnson.

Embora esteja a sugerir a leitura deste artigo, não quer dizer que concorde com ele (de qualquer forma, este foi escrito a pensar nos Estados Unidos) - no essencial discordo da sua tese central, de que é a intervenção estatal (nomeadamente a regulamentação) que cria a pobreza, sobretudo por tornar mais difícil aos pobres lançarem-se em "negóciozinhos", estilo fazer bolos em casa para vender.

Eu duvido que isso seja "a causa" da pobreza (nem que seja porque não é raro os bairros pobres terem uma tradição de economia paralela, passando por cima dessa regulamentação); no entanto, às vezes será um factor agravante.

Ainda as primárias no New Hampshire

Did Hillary Really Win New Hampshire?, na Counterpunch:

In New Hampshire, 81 per cent of the voting was done in towns and cities that had purchased optical scan machines from the Diebold Election Systems (now called Premiere Election Solutions), a division of Diebold Corp., a company founded by and still linked to wealthy right-wing investors. In those towns, all voting was done on the devices, called Accuvote machines, which read paper ballots completed by voters who use pens or pencils to fill in little ovals next to the candidate of their choice. The ballots are then fed into, read, and tallied by the machines. The other 19 per cent of voting was done in towns that had opted not to use the machine, and to use hand-counted paper ballots instead.

The machine tally was Clinton 39.6 per cent, Obama 36.3 per cent - fairly close to the final outcome. But the hand-counted ballot count broke significantly differently: Clinton 34.9 per cent, Obama 38.6 per cent.

Friday, January 11, 2008

A cabidela que jantei hoje

Wednesday, January 09, 2008

Re: Incentivos

A respeito do estudo recentemente divulgado que demonstra que Portugal é um dos países em que é maior a diferença entre os ordenados dos trabalhadores "normais" e o dos burocratas empresariais de topo, João Miranda escreve:"Para alem de ser um incentivo ao estudo e ao trabalho...".

Em primeiro lugar, não sei se será um incentivo ao trabalho - como a probabilidade de um não-gestor ser promovido a gestor (e, sobretudo, gestor de topo) é relativamente baixa (devido à própria escassez de cargos de gestão vagos), trabalhar muito a pensar "se trabalhar bastante, posso ir para o Conselho de Administração na próxima remodelação" não é uma atitude muito racional para a maioria dos trabalhadores; além disso, como as qualidades necessárias para ser um bom caixa de supermercado podem não ser as mesmas que para ser um bom gestor de supermercado, também é de esperar que o critério de uma empresa de supermercados para nomear um gestor não seja "quem é o melhor caixa", logo, um alto ordenado para o gestor não será um grande incentivo a ser um bom caixa.

Além do efeito sobre os incentivos, uma grande diferença salarial entre os gestores e os outros empregados pode ter outro efeito psicológico, com consequências claramente negativas: pode gerar nos outros trabalhadores um atitude de "ele que resolva o problema, que é para isso que ganha aquele dinheiro todo" (nomeadamente perante situações não previstas); e, nomeadamente, quando os gestores tomam alguma decisão sem sentido, menor será a tendência dos outros trabalhadores para lhes tentarem explicar que a decisão está errada; ora, quanto mais elevado o nível hierárquico de alguém, menos informação esse alguém tem, logo maior a probabilidade de tomar decisões erradas, pelo que, quanto mais uma organização estiver dependente dos gestores de topo, pior será o seu desempenho. Assim, se efectivamente os altos ordenados dos gestores levarem os outros trabalhadores a terem a tal atitude de "eles que se desenrasquem", terão um efeito negativo sobre o desempenho da organização.

China's Pollution Revolution

Eleições nos EUA - Previsão

Em 2009, um homem nascido em Hope, Arkansas vai estar na Casa Branca.

Tuesday, January 08, 2008

Barack Obama e os racismos americano e europeu

Há quem diga que, enquanto nos EUA, um negro tem fortes probabilidades de ser eleito presidente, na Europa os imigrantes continuam a ter pouco poder politico.

Talvez, mas vamos tentar fazer umas contas, e comparar os negros norte-americanos com os magrebinos em França, p.ex.

Nos EUA, os negros são 12% da população; em França, segundo um estudo de 2004[pdf], a população de origem magrebina seria de 3 milhões de pessoas, o que dá cerca de 5%.

Ou seja, mesmo que o grau de racismo em França e nos EUA fosse igual, a hipótese de um negro ser eleito presidente dos EUA seria mais de o dobro de um magrebino ser eleito presidente francês.

Para agravar a questão, realce-se que os negros estão há muito mais tempo nos EUA que os magrebinos em França (como os minorias étnicas tendem a subir no "sistema" aos poucos, o tempo há que se está no pais é relevante.

Poder-se-à argumentar "porquê contar só os magrebinos? Porque não todos os imigrantes - ou, pelos menos, os não-europeus - em França?"; poderíamos, mas aí teríamos que contar também o conjunto das "minorias" nos EUA (como os hispânicos).

Será verdade?


A WHISTLEBLOWER has made a series of extraordinary claims about how corrupt government officials allowed Pakistan and other states to steal nuclear weapons secrets.

Sibel Edmonds, a 37-year-old former Turkish language translator for the FBI, listened into hundreds of sensitive intercepted conversations while based at the agency’s Washington field office.

She approached The Sunday Times last month after reading about an Al-Qaeda terrorist who had revealed his role in training some of the 9/11 hijackers while he was in Turkey.

Edmonds described how foreign intelligence agents had enlisted the support of US officials to acquire a network of moles in sensitive military and nuclear institutions.

Among the hours of covert tape recordings, she says she heard evidence that one well-known senior official in the US State Department was being paid by Turkish agents in Washington who were selling the information on to black market buyers, including Pakistan.

The name of the official – who has held a series of top government posts – is known to The Sunday Times. He strongly denies the claims.

Ver também:

Emprego na Europa e nos EUA

Another jobs picture Europe vs. US (updated) de Paul Krugman:

This chart shows the employment-population ratio for the United States (blue) and the EU-15 — the 15 earlier, rich members of the European Union (red). It’s annual data 1993 to 2006, so it doesn’t get the recent decline. The numbers, from the OECD, aren’t quite comparable with the BLS version of the ratio, because they’re based on population aged 15-64, not all adults.

What the chart shows is that European countries have lower employment compared with population than the US; that’s a mixture of higher unemployment, lower female participation, and earlier retirement. But since 2000 the US employment record has been weak, while Europe has done much better at creating jobs. As a result, the gap has narrowed substantially.

This gets at a theme I’ve written about in the past, and will surely return to: a lot of the American image of Europe as a moribund economy is, like, so 1990s. They’re doing better now — and we’re doing worse.

INSERT DESCRIPTION
US versus European employment-population ratios

Update: A correspondent asks about how this looks if we just look at prime-working-age adults. Good question. Here’s the employment-population ratio for people aged 25-54, for the United States (blue), the EU-15 (red), and, just for good measure, France (green). Like I said, tales of moribund Europe are a bit out of date.

INSERT DESCRIPTION

Sunday, January 06, 2008

Moção Por Salas de Fumo nos Aeroportos

http://www.petitiononline.com/SalaFumo/petition.html

"Os signatários desta moção sublinham à autoridade que tutela a gestão dos aeroportos portugueses - a qual, em última análise, emana dessa Assembleia - a justeza da instalação nesses equipamentos públicos, em especial nas proximidades dos locais de embarque e desembarque de passageiros, de espaços destinados ao consumo de tabaco. Estes deverão ter ventilação, higiene e conforto condignos à integridade e dignidade dos clientes e dos funcionários que decidam frequentá-los."

Saturday, January 05, 2008

Ensino Religioso em Espanha

Vasco Pulido Valente escreve que o "Governo socialista de José Luis Zapatero resolveu suprimir o ensino religioso, facilitar o divórcio e permitir o casamento de homossexuais" (texto no Portugal4RonPaul).

Zapataro suprimiu mesmo o ensino religioso? A ideia (muito vaga) que eu tenho era de que o que ele fez foi passar as aulas de "religião católica" de obrigatórias a opcionais e que teria acabado com subsídios às escolas católicas.

De qualquer forma, o Colégio Diocesano Sacrado Corazon de Jesus, em Huelva, continua a ter a página na Internet activa, pelo que deduzo que não tenha sido suprimido (não fui experimentar aos sites destas escolas todas).

Emigração nórdica e impostos

Barack Obama

Obama parece ter o apoio de Henrique Raposo, Pedro Marques Lopes, Daniel Oliveira, Carlos G. Pinto e mais uma carrada de gente.

Não haverá ninguém enganado neste melting pot?

Friday, January 04, 2008

Ainda o Lisboa-Dakar: Revelações em primeira mão!

Afinal Manuel da Luz tem razão quando diz que a verdadeira causa do cancelamento não foi a ameaça terrorista - o Vento Sueste apurou que a verdadeira razão foram informações que os organizadores receberam indicando que um milionário excêntrico se preparava para inundar o deserto durante a prova.

Um "erro"?

O Presidente da Camara de Portimão, Manuel da Luz afirmou que o cancelamento do "Rally Lisboa*-Dakar" é "um erro", porque irá prejuducar bastante o Algarve, e Portimão em particular.

Até deve ser verdade que o cancelamento vai prejudicar Portimão e o Algarve, mas em que medida é que isso significa que o cancelamento seja um "erro"? Uma decisão não é certa ou errada por ser boa ou má para o Algarve, é certa ou errada por os seus pressupostos estarem certos ou errados.

E Manuel da Luz até diz que os motivos para cancelar a prova devem ter sido outros que não os apresentados oficialmente; ora, se ele diz que os motivos devem ter sido outros (provavelmente desconhecidos), como é que ele pode dizer que a organização cometeu ou deixou de cometer um erro, se ele próprio está a dizer (implicitamente) que não conhece as verdadeiras razões da decisão?

* consta que, tirando os portugueses, toda a gente lhe chama, simplesmente, "Rally Dakar" (e essa é a designação adoptada nos artigos da wikipedia sobre o evento, tirando alguns que ainda dizem Paris-Dakar )

Fascismos (II)

Há tempos falei sobre o livro do conservador norte-americano Jonah Goldberg sobre o que ele chama "Liberal Fascism" ("liberal" no sentido americano).

Um artigo sobre esse livro (ou melhor, sobre a discussão à volta do livro), no Crooked Timber (via Brad DeLong):

(...)

What explicit definition of ‘fascism’ is Goldberg operating with, if any? To judge from reviews, the author’s own comments, his ‘results’, he must be applying the term to any sort of ‘statist’ or ‘collectivist’ political rhetoric, policy proposal, or legislative act, especially such of these as entangle the state in coercive action on behalf of ‘communitarian’ values or ‘identity’ politics: values that subordinate the individual to the whole. The trouble is: pretty much the only sort of conservative who is not going to come out fascist, under this umbrella, is (maybe) the likes of F. Hayek, when penning essays with titles like “Why I Am Not A Conservative”. Otherwise, the whole tradition of conservative thought, from Burke to Kirk and beyond, is ‘fascist’. Hillary says it takes a village, but Burke would never have settled for small-time socialism. He thundered about “the great primeval contract of eternal society.” No doubt ‘it takes a village’ is pretty weak, qua anti-fascist vaccine. But switching to the belief that you would do best to unquestioningly submit yourself to some sort of primordial, vaguely mystical, hierarchical social order is not going to inoculate you either.

In Oshinsky’s review we read: “To [Goldberg’s] mind, it is liberalism, not conservatism, that embraces what he claims is the fascist ideal of perfecting society through a powerful state run by omniscient leaders.” But the obvious examples of believers in the possibility of guidance by omniscient beings are theocrats (admixers of church into state in substantial proportion.) Goldberg is trying to target liberal technocrats and hubristic social engineers. But he can hardly get religion out of the target zone. In general, belief in hierarchy, hence the need to establish and maintain a socially superior class of natural leaders is eminently conservative – from Burke to Kirk and beyond, once again. Furthermore, ‘omniscient’, badly as it serves Goldberg’s purpose, is only there because the word you really want would be even more embarrassing to his case. Fascists believe in Great Leaders. Heroic leaders. It is quite obvious, from Carlyle to Gerson and beyond, that hero-worship is not inimical to conservatism. Of course, conservatives have their rugged individualist sides. They aren’t pure statists or collectivists or slavish self-subordinators. But, then again, neither are liberals. This is all pretty obvious.

(...)

You want to restrict ‘potential fascist’ to cases where there are not only shared values, in a weak ‘we are all fascists now’ sense, but some evidence that – due to those shared values – the person might turn into a sort of fascist, in a more full-blooded (blood and soil) sense. At the very least, you want to be on the lookout for people looking at actually existing fascism and thinking it’s sort of fascinating or attractive. Maybe they express sympathy with, or peddle apologetics on behalf of, actually existing fascism. Jeet Heer (whose anthology, Arguing Comics, is really good!) has been doing some digging through the archives:


Since its founding in 1955, National Review has been a haven for writers who are, if not fascists tout court, certainly fascist fellow travellers.

Let’s put it this way: if Woodrow Wilson and Hillary Clinton are fascists then what word do we have for those who admired Francisco Franco? When the Spanish tyrant died in 1975, National Review published two effusive obituaries. F.R. Buckley (brother to National Review founder William F. Buckley) hailed Franco as “a Spaniard out of the heroic annals of the nation, a giant. He will be truly mourned by Spain because with all his heart and might and soul, he loved his country, and in the vast context of Spanish history, did well by it.” James Burnham simply argued that “Francisco Franco was our century’s most successful ruler.” (Both quotes are from the November 21, 1975 issue). Aside from F.R. Buckley and Burnham, many of the early National Reviewers were ardent admirers of Franco’s Spain, which they saw as an authentically Catholic nation free from the vices supposedly gripping the United States and the northern European countries. National Review stalwarts like Frederick Wilhelmsen, Arnold Lunn, and L. Brent Bozell, Jr. made pilgrimages to Spain, finding spiritual nourishment in the dictatorship’s seemingly steadfast Catholicism.

The really twisted side National Review’s philo-fascism came through in 1961 when Israel captured Adolph Eichmann, a leading Nazi, and tried him for crimes against humanity. National Review did everything they could editorially to offer extenuating arguments against the prosecution of Eichmann, arguing that he was being subjected to a “show trial”, that this was post facto justice, that pursuing Nazi crimes would weaken the Western alliance and further the cause of communism. As the magazine editorialized on April 22, 1961, the trial of Eichmann was a “lurid extravaganza” leading to “bitterness, distrust, the refusal to forgive, the advancement of Communist aims, [and] the cultivation of pacifism.” (The editors didn’t consider that a mere 16 years after the death camps were liberated, a “refusal to forgive” the architects of genocide might be understandable).

Pena de morte e equivalência

Ali em baixo, Filipe Abrantes escreve:

Há dias li nos arquivos do blogue um post contra a pena de morte. Citava umas linhas de Camus onde se dizia que na pena de morte não há proporcionalidade.

http://ventosueste.blogspot.com/2005/12/acerca-da-pena-de-morte.html

É dito que para haver equivalência o assassino teria de ter avisado a vítima e fazê-la esperar com angústia pela morte. Implicaria que nunca houvesse situações de justiça, dando "vantagem" aos criminosos. Se assim fosse nunca poderia haver punição de um assassinato visto serem irrepetíveis as condições (iguais) em que este aconteceu. A não ser claro que se ache que pode haver justiça sem equivalência... (eu penso que Camus entende que deve haver equivalência)

"Equivalência" não significa "identidade" - é dificil aplicar a um assassino uma punição idêntica ao crime que ele infligiu*, mas talvez seja possivel aplicar uma punição equivalente, que imponha ao assassino um incómodo equivalente ao de ser assassinado (note-se que eu próprio não me inclino muito para a teoria da equivalência - citei Camus mais porque o argumento da equivalência, ou do "olho por olho, dente por dente", costuma ser evocado pelos defensores da pena de morte).

*na "vendetta" privada talvez possamos considerar que, nos casos de homicidio, há identidade entre o crime e a punição.

Thursday, January 03, 2008

Desculpas pela escravatura

No estado norte-americano de Nova Jérsia fala-se em pedir desculpa pela escravatura. Um dos argumentos contra a ideia é de que "os actuais residentes de Nova Jérsia, mesmo os que podem encontrar na sua linhagem escravos ou proprietários de escravos, não têm qualquer culpa ou responsabilidade colectiva em acontecimentos injustos em que não tiveram qualquer participação". É um bom argumento; mas será que quem faz esse argumento também acha que os actuais residentes dos EUA não têm qualquer razão para se orgulhar de acontecimentos meritórios (ou que eles considerem meritórios) em que os EUA tenham estado envolvidos?

É que, muitas vezes, aqueles que dizem "não temos culpa nenhuma das coisas más que os nossos antepassados fizeram" são os mesmo que dizem "devemos ter orgulho nas coisas boas que os nossos antepassados fizeram".

Já agora, um post que Chris Dillow escreveu há uns tempos sobre essa matéria (no contexto britânico):

Should Britain apologize for its role in the slave trade? There's something about this that puzzles me.

Put it this way. Crudely speaking, there are two conceptions of society.


1. We're just a collection of atomized individuals. Though associated with libertarianism, this is also the Rawlsian view.

2. Society is an organism with a history. It's a "
partnership not only between those who are living, but between those who are living, those who are dead, and those who are to be born." The quote is Edmund Burke's, but this position seems also that of Gordon Brown, who speaks of a "golden thread" running through history.

Now, you'd expect adherents of position 1 to think it absurd to apologize for slavery, as
Longrider does. But supporters of position 2 would be more likely to apologize, because they regard slave traders as a part of British society and tradition.

However, when we look at who's apologizing and who isn't, we see no such correlation. I'd guess that Ken Livingstone would favour the atomized conception over the organic one, but he's
apologized. But Simon Jenkins, who I'd expect to have more sympathy with the Burkean view, rejects the apology.

This isn't, I suspect, a mere quirk of these two men. I suspect Rawlsian liberals are more likely to want to apologize than Burkean conservatives.


Sadly, I suspect there might be an easy explanation for this. Livingstone (and other "liberals") wants to curry favour with ethnic minorities. Tories don't want to draw attention to the fact that their inherited wealth is dirty money.


Crude self-interest beats intellectual consistency.

Como ganhar dinheiro acreditando nos jornais de referência


Hoje (03/01/2008), os futuros do petróleo para Dezembro de 2001 estão a US$88,25, logo o nosso investidor teria tido uma valorização total de 28%, e um rendimento anualizado de aproximadamente 16% (o que, à partida, não é mau de todo).

Se ele deveria manter o investimento ou vender já, penso que seria melhor vender agora: mesmo que o preço do petróleo fosse de US$100 em 2010, isso representaria um rendimento de apenas 6% ao ano, que provavelmente não compensaria o risco.

Objecções que se podem fazer ao meu raciocinio:

O petróleo tem subido, mas podia não ter (ou ter subido, mas menos) - os tais 16% de rendimento anual serão suficientes para compensar os riscos corridos?

Isto são valores em dólares - para um investidor europeu (que use euros como moeda) o lucro seria menor (já que o petróleo em euros tem subido menos do que em dólares; ou, o que é a mesma coisa, o d´lar tem desvalorizado face ao euro).

Wednesday, January 02, 2008

Nomes de escolas

Mesmo que fosse verdade o boato de que o governo teria dado ordens para retirar os nomes de santos às escolas, haverá alguma escola com nome de santo em Portugal? Provavelmente até haverá, mas não sei de nenhuma (Padre António Vieira acho que não conta).

Já que toda a gente se mete nas eleições dos EUA...

Os meus preferidos (dentro dos partidos do sistema):

Re: Secessão e consentimento

A respeito deste post de Carlos Novais, uma questão: e se, no momento fundador de uma comunidade politica, os membros fundadores decidirem, unanimamente, não haver direito de secessão?

A resposta poderia ser que um contrato desses não seria válido, pelas mesmas razões porque o individuo não se pode vender como escravo; no entanto, convêm lembrar que as comunidades politicamente organizadas (para simplificar, vamos chamá-las de "Estados") não exercem verdadeiramente a sua soberania sobre individuos, mas sobre territórios (e os individuos "apanham" com a soberania de um Estado por estarem no seu território).

Portanto, um acordo em que todos os habitantes de Portugal (ou de Portimão) se submetessem, a titulo definitivo e irrevogável, à autoridade da "República Portuguesa" (ou do "Municipio de Portimão") não seria válido; mas, e um acordo em que todos as pessoas que possuissem terrenos (ou outros imóveis) em Portugal submetessem, a titulo definitivo e irrevogável, as suas propriedades à autoridade do "Estado" (passando o Estado a deter a autoridade suprema sobre o conjunto de terrenos, casas e afins que constituem "Portugal")?

Afinal, se um proprietário pode alienar definitivamente a sua propriedade*, dando-a ou vendendo-a (e não apenas emprestando-a ou alugando-a), tambem poderá alienar definitivamente a soberania sobre a propriedade, não?

Poder-se-á argumentar que é pouco provável que a unanimidade, quer dos habitantes, quer dos proprietários, pudesse ser atingida, mas vamos supor que era.

*Estou assumindo, claro, que o proprietário pode alienar a propriedade (deixando de lado, p.ex., sociedades em que grande parte das terras são propriedade inalianável de familias ou clãs)

Sugestões de leitura


Tuesday, January 01, 2008

"Beneficiários sem emprego"

Era este o titulo do artigo do Expresso de Sábado, sobre o facto de "apenas 1% dos beneficiários do RSI [deixarem] de receber a prestação por encontrarem colocação no mercado de trabalho".

Para começar, logo esses 1% são de dúbia interpretação: é 1% dos total dos beneficiários do RSI, ou 1% dos beneficiários do RSI que deixarem de ser beneficiários?E, se for 1% do total dos beneficiários, isso refere-se a que periodo de tempo: um ano, desde que o RSI existe, qual?

Assim, vou assumir que se trata de 1% dos beneficiários do RSI que deixarem de ser beneficiários.

Mas, vamos ler melhor o artigo:

"Há, no entanto, dois factores que ajudam a explicar o reduzido número de pessoas a conseguir entrar no mercado de trabalho. É que, por um lado, cerca de um terço dos beneficiários são menores, para os quais o que se pretende não é encontrar uma colocação profissional, mas antes garantir que permanecem no ensino"

Evidentemente, se numa família de, p.ex. 4 pessoas (pai, mãe e dois filhos), a mãe arranjar emprego e com isso a família deixar de receber RSI, teríamos que "apenas 25% dos beneficiários deixam de receber RSI por arranjarem emprego" (sim, 25% não é 1%, mas já explica alguma coisa); e, sobretudo, a expressão "conseguir entrar no mercado de trabalho" não faz sentido neste contexto: não se trata das crianças e jovens das famílias beneficiárias do RSI "não conseguirem" entrar no mercado de trabalho - trata-se mesmo de não ser suposto entrarem no mercado de trabalho.

"Por outro lado, há uma grande percentagem de beneficiários com outros rendimentos, como salários e pensões".

Ou seja, grande parte das famílias que recebem o RSI, ou já têm elementos a trabalhar, ou recebem pensões (pelo que se supõe que, por razões de idade ou saúde, não estarão em condições de trabalhar), logo o título "beneficiários sem emprego" ainda mais enganoso se torna (há uns anos atrás, cerca de 40% dos titulares do RSI - penso que esta percentagem se referia só aos em idade de trabalhar - tinha emprego; não sei qual é a percentagem actual).

Só há uma coisa que não percebo - se 56% dos beneficiários deixarem de o ser porque o seu rendimento ou o da família aumentou, 1% porque conseguirem trabalho, 16% por fraude ou recusarem-se a seguir os "planos de inserção" e 7% por ter terminado o prazo de atribuição, o que foi feito dos outros 20%?

Secessão e consentimento - somos todos anarquistas

Todas as formas de governo estabelecidas numa comunidade política têm de ser consentidas. E a única forma de poder presumir esse consentimento é a existência de cláusulas de secessão.

Este principio antecede até qualquer tipo de regra de maioria. Uma regra de maioria para ser estabelecida com legitimidade tem necessáriamente de.

1. Conseguir o acordo (ou de forma prática, ser possível presumir-se que) unânime das partes em submeter-se à vontade desse processo de decisão colectivo (ex: um dado regime constitucional de voto universal).

2. Conferir um mecanismo pelo qual uma parte pode pedir a secessão desse processo, deixando assim de estar obrigado a submeter-se a esse processo maioritário. Só assim é possível certificarmos a permanente revalidação de unanimidade.

Adicionalmente, e comum a qualquer forma de governo:

3. Parece ser desejável que também estejam estabelecidas as regras segundo os quais novos participantes podem passar a comungar das regras dessa comunidade (dado que potencialmente se pode alterar a homogeneidade que suportou a comunidade inicial), ou seja, os princípios de inclusão (ex: todos os nascidos num dado território, etc).

4. Parece também ser desejável que fiquem claras as formas (como punição de algo, por exemplo) que podem assumir um processo de exclusão/ostracismo.

Concluindo: unanimidade, secessão, inclusão , exclusão. Os 4 elementos que de uma forma ou outra estão presentes numa dada comunidade ou até de uma qualquer organização.

Mas o direito de secessão será o único mecanismo prático pelo qual se pode inferir legitimidade de uma dada forma de governo estabelecido numa comunidade. Assim esteja estabelecida uma forma prática de exercer o direito de secessão e todas as formas de regime podem ser legítimas. Sejam regimes sociais-democratas, como monarquias abstolutas ou até comunismo, ou ainda pequenas comunidades comunitárias.

Da mesma forma, a um dado regime de maioria (ex: democrático constitucional), pode ser inferida ilegitimidade se esse direito de secessão está completamente ausente.

Monday, December 31, 2007

A "eficiência" da banca portuguesa (III)

Em comentário ali em baixo, Carlos G. Pinto escreve que a "a funcao economica dos bancos e' dar lucro".

Vamos ver isto por outro ângulo: qual é a função de um bancário? Claro que a questão pode ter várias resposta, conforme a perspectiva: para o bancário, em principio, a sua "função" é ganhar um ordenado; para o banco que o contrata, a "função" do bancário é desempenhar um certo conjunto de tarefas, etc.

Ou seja, quando eu digo que a "função económica dos bancos é pôr em contacto quem tem dinheiro para aplicar com quem quer pedir dinheiro emprestado" e quando o CGP diz que "a funcao economica dos bancos e' dar lucro" estamos ambos certos e errados: da perspectiva do banco, eu estou errado e o Carlos certo - a função do banco é ter lucro (tal como a do bancário, da sua perspectiva, é receber um ordenado); da perspectiva dos clientes, eu estou certo e o Carlos errado - a função é, ou aplicar as poupanças (da perspectiva de quem deposita), ou conceder empréstimos (da perspectiva de quem pede emprestado).

Assim, da perspectiva do serviço que prestam aos clientes, um banco é tão mais eficiente quanto menor for a diferença entre juros activos e passivos; e penso que também da economia no seu todo, já que uma maior diferença entre taxas activas e passivas significa maiores "custos de transacção" entre quem tem dinheiro para aplicar e quem precisa dele.

Sunday, December 30, 2007

Good dress sense - and poor pay - are in fashion

Um ensaio de 2005 sobre a importância das chamadas "soft skills" ("facilidade de comunicação", "motivação", etc.) no mundo profissional (no contexto do Reino Unido):

There is, though, something more sinister about this attenuation of the term "skill". When we look closely at so-called generic skills, they are not what any reasonable person would regard as skills: they are personal traits that can readily be moulded into the characteristics required by an employer. They are the skills that ensure a subservient workforce that does what it is told and that will work for low pay.

Sociedade infantilizada?

Ontem, no Expresso/Cartaz, vinha uma peça sobre o tema "A grande indústria está a infantilizar a sociedade. As crianças comportam-se como adultos, e os adultos querem divertir-se como crianças."

Talvez um pouco a contra-corrente, recordo o que escrevi aqui:
Estive a ler o "Tudo o que é mau faz bem", de Steven Johnson, aonde se argumenta que os jogos de computador/video, a televisão, etc. estão a contribuir para nos tornar mais inteligentes, em aparente contraste com os que falam da "estupidificação" e "infantilização" da cultura popular (p.ex., George Will, cuja uma passagem a respeito da "infantilização" é referida logo no principio do livro).

Mas será que as duas coisas, o aumento da inteligência e a "infantilização" não serão duas faces da mesma moeda? Afinal, em regra, as espécies animais mais inteligentes são aquelas que demoram mais tempo a atingir a maturidade (compare-se o Homem, que demora, no mínimo, uns 14 anos a se tornar adulto, com a mosca drosofila, que fica adulta em 8 dias). Assim, até faz todo sentido que o aumento da inteligência esteja associado a comportamentos considerados "infantis" (como haver gente na casa dos trinta "viciada" em jogos de computador).
E também este post de Chris Dillow sobre o fenómeno dos "adultos-garotos"(kidults):
Richard Herring's piece on kidulthood omits an important point - that the kidult on his skateboard and the "mature" adult in his suit and tie are equally stupid.

The folly and pathos of the kidult lies in the fact that he wants something - youth, hipness - that is both unattainable and of dubious value. Do you really want to be young again, with your naivete, gaucheness with girls, unformed tastes and insecurities?

But in this, the kidult is little different from the besuited 40-something professional. To be still chasing money, power and authority two decades after leaving university is pathetic, in the proper sense of the word. To have failed to see in 20 years that these are mere trinkets of frivolous utility suggests that one is incapable of learning anything about society or human nature.

In this sense, there's wisdom in kidults. At least they see that conventional professional success means nothing of substance.
[só uma nota a respeito do "gaucheness with girls" - se calhar até haverão "trintões" quase tão desajeitados com as mulheres como na adolescência, com a agravante de terem menos disponíveis]

Enquanto a direita anda entretida com o Lincoln...



A fábula da formiga, da cigarra e de mais uns bichos

Saturday, December 29, 2007

Sugestão de leitura

Genéricos (não, não estou a falar de medicamentos)

Mas também tem a ver com a questão da propriedade intelectual.

Se irem a este meu post das séries televisivas da geração de 73, hão de reparar que muitos dos vídeos foram retirados do youtube. P.ex, indo ao link do genérico dos "Soldados da Fortuna" agora diz "This video is no longer available due to a copyright claim by NBC Universal" (uma curiosidade - na página para que o youtube redirecciona há um item "Videos being watched right now"; não sei se foi puro acaso ou se é sinal de alguma coisa, mas o único vídeo relacionados com as presidenciais norte-americanas - e um dois dois únicos vídeos "sérios" - que apareceu nessa rubrica era do candidato do meu novo colega de blog Carlos Novais e do leitor Filipe Abrantes).

Independentemente da questão sobre a legitimidade da propriedade intelectual (ou da outra, já agora), não me parece nada inteligente para a NBC impedir a exibição do genérico da série (embora isso abra espaço para versões mais criativas): em primeiro lugar, penso que isso não lhe rouba mercado nenhum, já que não há nenhum mercado para ver - a pagar - genéricos de 2 minutos de series de televisão; em segundo, para o mercado que realmente interessa (DVDs com os episódios), haver imagens dos genéricos das séries a circular na net até deve ter um efeito positivo (quem os ver pensar "olha, há quanto tempo não via esta malta; será que há DVDs com os episódios?"); e, em terceiro, se as "cópias perfeitas" são retiradas do youtube, aquelas que têm uma alteraçãozinha qualquer (estilo um logotipo qualquer no canto do ecrã) permanecem, logo isso pouco afecta. Claro, também não sei se o tal genérico foi retirado a pedido da NBC, ou se foi o próprio YouTube a retira-los por medida preventiva (não me admirava nada que tenha sido o segundo caso).

[Antes que alguém comente : "«Os soldados da fortuna»? Isso não é uma série um bocado militarista/reaccionária/etc.?", chamo a atenção para o episódio 22 da 2ª série]

Friday, December 28, 2007

Another Death in Rawalpindi


"However imperfect Benazir and PPP might have been, at least they relied on the ballot box, and not on the Kalashnikov and the Qur'an. However corrupt the PPP might have been, at least they could be booted out in one election or other."

Thursday, December 27, 2007

A "eficiência" da banca portuguesa (II)

Costuma-se também dizer que a banca é um dos sectores em Portugal com maior produtividade (e que isso será um indicador da tal eficiência, dinamismo, etc.).

Bem, eu não faço ideia se a produtividade da banca é alta ou baixa, mas, mesmo que seja alta, isso não é necessariamente sinal de eficiência:

A produtivade da banca é calculada dividindo o "produto bancário" pelo número de trabalhadores; o "produto bancário" tem lá muitas coisas, mas essencialmente é composto pela diferença entre os juros que os bancos cobram ao devedores e os que pagam aos depositiantes e mais o que os bancos cobram pelos serviços que prestam (as chamadas "comissões").

Assim, vamos decompor a produtividade:

produtividade = (produto bancário)/(número de trabalhadores) =
= [(produto bancário)/(volume de negócios)]*[(volume de negócios)/(número de trabalhadores)]

Agora, como é que a produtividade se relaciona com a eficiência? Se uma alta produtividade for causada por um elevado rácio (volume de negócios)/(número de trabalhadores), é um sinal de eficiência, já que quer dizer que os bancos conseguem gerir elevados capitais recorrendo a pouco pessoal. Por outro lado, se o que tivermos for um elevado rácio (produto bancário)/(volume de negócios), então é um sinal de ineficiência, já que quer dizer que os custos de intermediação (as comissões, a diferença entre juros activos e passivos, etc.) têm um elevado peso em função do valor das operações financeiras.

Agora, como já disse, eu não faço a mínima ideia se a produtividade dos nossos bancos é alta ou baixa e, caso seja alta, também não faço ideia da sua situação face aos dois "sub-racios" que defini (talvez algum leitor do blogue se inspire com este post e decida mergulhar nas demonstrações de resultados e relatórios de actividade dos nossos bancos para ver se chega a alguma conclusão).

A "eficiência" da banca portuguesa

É frequente dizer-se que o sector banvário português é uma ilha de eficiência, de dinamismo, etc., comparado com o resto da economia nacional.

Mas, pelos vistos, segundo um estudo da Arthur D. Little (será o aqui apresentado?), os bancos portugueses são os segundos menos eficientes da Europa (ou será apenas da UE?).

BCP: público ou privado?

João Miranda a 27/12/2007:

Tiago Barbosa Ribeiro está convencido que Carlos Santos Ferreira e Armando Vara foram escolhidos pelo mercado. Mas isso só seria possível se existisse liberdade no sector bancário português. A verdade é que as escolhas dos accionistas foram condicionadas ao que o Estado lhes impôs. Para perceber isso é necessário ter em conta os seguintes dados:

1. Para se fazer negócios em grande escala em Portugal é necessário ter a benção do Estado. Grande parte dos accionistas do BCP têm outros negócios e estão condicionados por essa via.


(...)

4. Os accionistas não escolhem Carlos Santos Ferreira e Armando Vara pelas suas capacidades de gestão numa economia de mercado. Escolhem-nos (se os escolherem) pelas suas ligações políticas pelo simples facto que num mercado condicionado as ligações políticas são mais importantes que as qualidades de gestão.

É por isso uma ilusão pensar que foi o mercado que escolheu Carlos Santos Ferreira e Armando Vara. A escolha destes senhores resulta da eliminação das restantes opções e das suas qualidades políticas.

João Miranda a 12/04/2006:

Lembro ao António Dornelas que numa economia de mercado os salários dependem de 3 factores:

1. Da oferta e da procura de profissionais com um determinado perfil;

2. Da capacidade de um determinado profissional produzir valor para os accionistas;

3. Do gosto dos accionistas para perder dinheiro.

Ora, se os administradores do BCP ganham uma média de 3,5 milhões de euros por ano é porque:


- esse é o seu preço de mercado

- cada administrador consegue produzir um valor que é superior a 3,5 milhões de euros por ano.

Conclusão: quando os accionistas do BCP escolhem dois gestores do PS para dirigir o banco, isso não é o mercado a funcionar, já que o sector é bastante regulamentado e, de qualquer maneira, os accionistas privados do BCP têm outros negócios que dependem de uma boa relação com o Estado. Mas os salários dos administradores do BCP já eram a "economia de mercado".

Note-se que eu não estou a dizer que os altos ordenados dos administradores bancários tenham alguma coisa a ver com o grau de regulação a que o sector está sujeito (ou com os negócios que os accionistas têm com o Estado) - na verdade, pode-se tão facilmente imaginar mecanismos pelos quais a regulamentação possa fazer subir os ordenados dos administradores como outros pelos quais possa fazer descê-los. Mas é interessante que, para os liberais, um sector económico (neste caso, a banca) seja um mercado livre para umas coisas e não o seja para outras.

Wednesday, December 26, 2007

St. Nick in the Big City


St. Nicholas was a super-saint with an immense cult for most of the Christian past. There may be more icons surviving for Nicholas alone than for all the other saints of Christendom put together. So what happened to him? Where’s the fourth-century Anatolian bishop who presided over gift-giving to poor children? And how did we get the new icon of mass consumerism in his place?

Well, it’s a New York story.

In all innocence, the morphing began with the Dutch Christians of New Amsterdam, who remembered St. Nicholas from the old country and called him Sinte Klaas. They had kept alive an old memory — that a kindly old cleric brought little gifts to the poor in the weeks leading up to the Feast of the Nativity. While the gifts were important, they were never meant to overshadow the message of Jesus’s humble birth.

But today’s chubby Santa is not about giving to the poor. He has had his saintly garb stripped away. The filling out of the figure, the loss of the vestments, and his transformation into a beery fellow smoking a pipe combined to form a caricature of Dutch peasant culture. Eventually this Magic Santa (a suitable patron saint if there ever was one for the burgeoning capitalist machinery of the city) was of course popularized by the Manhattanite Clement Clarke Moore published in “A Visit From St. Nicholas,” in The Troy (New York) Sentinel on Dec. 23, 1823.

The newly created deity Santa soon attracted a school of iconographers: notable among them were Thomas Nast, whose 1863 image of a red-suited giant in Harper’s Weekly set the tone, and Haddon Sundblom, who drew up the archetypal image we know today on behalf of the Coca-Cola Company in the 1930s. This Santa was regularly accompanied by the flying reindeer: godlike in his majesty and presiding over the winter darkness like Odin the sky god returned.

The new Santa also acquired a host of Nordic elves to replace the small dark-skinned boy called Black Peter, who in Christian tradition so loved St. Nicholas that he traveled with him everywhere. But, some might say, wasn’t it better to lose this racially stereotyped relic?

Actually, no, considering the real St. Nicholas first came into contact with Peter when he raided the slave market in his hometown and railed against the trade. The story tells us that when the slavers refused to take him seriously, he used the church’s funds to redeem Peter and gave the boy a job in the church.

And what of the throwing of the bags of gold down the chimney, where they landed in the stockings and little shoes that had been hung up to dry by the fireplace? Charming though it sounds, it reflected the deplorable custom, still prevalent in late Roman society when the Byzantine church was struggling to establish the supremacy of its values, of selling surplus daughters into bondage. This was a euphemism for sexual slavery — a trade that still blights our world.

As the tale goes, Nicholas had heard that a father in the town planned to sell his three daughters because his debts had been called in by pitiless creditors. As he did for Black Peter, Nicholas raided his church funds to secure the redemption of the girls. He dropped the gold down the chimney to save face for the impoverished father.

This tale was the origin of a whole subsequent series of efforts among the Christians who celebrated Nicholas to make some effort to redeem the lot of the poor — especially children, who always were, and still are, the world’s front-line victims. Such was the origin of Christmas almsgiving: gifts for the poor, not just gifts for our friends.

Tuesday, December 25, 2007

Viragem à direita neste blogue

Não, não sou eu que vou virar à direita (como escrevi aqui, "não se assustem [sobretudo o José Manuel Faria], não faço tenções de me tornar liberal").

Mas agora, além de um libertário de esquerda, a meio caminho entre o marxismo e anarquismo (eu), este blog vai passar a ter a colaboração de um "anarco-capitalista", o Carlos Novais do Wars4StatusQuo, da Causa Liberal e do Portugal4RonPaul. Ainda por cima, penso que é um simpatizante do que me parece ser a tendência mais à direita do "anarco-capitalismo", a facção do Mises Institute/LewRockwell.com (não sei se o CN concordará com a minha caracterização, quer da suas posições, quer das posições do grupo LRC).

[Hum, se o "vento sueste" virar à direita, passará a ser apenas "sul", ou "suão", não?]

Monday, December 24, 2007

Marroquinos no Algarve

Artigo de Fernando Gregório, no Esquerda.Net:

Nós que vivíamos no litoral algarvio antes dos anos 70, antes da invasão (essa sim, real) do caos urbanístico imposto por um crescimento desregulado e anárquico do sector turístico, lembramo-nos do fluxo migratório dos algarvios que procuravam uma vida melhor em...Marrocos.

Life after Peak Oil

Artigo via Economist's View:

If we had no fossil energy, then we would be forced to rely on an essentially unlimited amount of solar power, available at five times current energy costs. With energy five times as expensive ... we would take a substantial hit to incomes. Our living standard would decline by about 11 percent. But we would still be fantastically rich compared to the pre-industrial world. ... Our [dos EUA] income would still be above the current living standards in Canada, Sweden or England[*]. Oh, the suffering humanity! At current rates of economic growth we would gain back the income losses from having to convert to solar power in less than six years. ...

O artigo refere-se aos efeitos de um hipotético esgotamento dos combustíveis fósseis; no entanto, imagino que o mesmo se aplique a um abandono deliberado do uso de combustíveis fósseis

*o autor fala em "living stadards" do Canadá, Suécia e Inglaterra; imagino que ele se refira ao rendimento médio desses países (esses países têm um rendimento mais baixo que o dos EUA sobretudo porque trabalham menos dias e horas; se, com o esgotamento dos combustiveis fósseis, os EUA passassem a ter um rendimento comparável com o actual rendimento sueco, os norte-americanos continuariam a trabalhar mais do que trabalham os actuais suecos, logo não teriam verdadeiramente o mesmo "nível de vida".

Mudanças no blogue

Depois do Natal, é capaz de haver algumas mudanças neste blogue.

Para já, deixou-os com algumas citações para reflexão:

André Azevedo Alves: "O Miguel Madeira é o único bloquista que eu conheço que revela potencial para vir a ser um liberal (ainda que na variante anarco-capitalista...)"

João Rodrigues (em comentário no Spectrum): "uma provocação irresistível que pretendo desenvolver porque acho que tem elementos de verdade: sabem o que é um anarcocapitalista? um libertário de esquerda depois de ter estudado economia na Nova"

[estava convencido que iria encontrar algum post do Henrique Raposo a acusar os "libertários de direita" de serem parecidos com a esquerda, mas andei à procura e não achei - ou este serve?]

Não se assustem - não faço tenção de me tornar liberal (olhem para os posts sobre o salário mínimo) e muito menos anarco-capitalista. São apenas tópicos para reflexão dos leitores.

Salário mínimo (III)

O modelo que apresentei ali abaixo pode ser explicado de uma forma talvez melhor:

O salário mínimo faz com que, por um lado, alguns postos de trabalho sejam melhor pagos do que seriam sem salário mínimo, e, por outro, faz com que outros nem cheguem a ser criados (até aqui é parte consensual na teoria económica).

Mas, como os trabalhadores que continuaram com emprego agora ganham mais, é possível que façam menos trabalho extraordinário, que alguns deixem de ter dois empregos e passem a ter só um, que outros se reformem mais cedo (já que passam a ter mais poupanças com que complementar a reforma), que os filhos de outros comecem mais tarde a trabalhar nas férias, etc. Assim, há também alguns postos de trabalho que ficam vagos.

Agora, será que os postos de trabalho que o salário mínimo liberta são mais dos que destrói? Sinceramente, acho que não. Mas, se formos fazer uma análise unicamente teórica, sem recurso a empirismos (de que João Miranda parece não ser adepto), então não podemos dizer que "se o salário mínimo tem impacto nos salários, então gera desemprego".

Sunday, December 23, 2007

A ASAE

Não seria uma melhor ideia se, em vez de se fechar os estabelecimentos que não cumprem as normas de higiene estabelecidas, se pusesse à porta um aviso bem visível dizendo "ATENÇÃO - Este estabelecimento não cumpre as normas regulamentares de qualidade e higiene"?

Quem lá continuasse a ir, falo-ia por sua conta e risco.

Exceptuar-se-iam cantinas de empresas e escolas, restaurantes que tivessem a concessão de actividade em locais públicos (p.ex., num pavilhão municipal) e outros estabelecimentos que tivessem uma clientela mais ou menos "cativa" (que continuariam a ser obrigados a cumprir as normas regulamentares).

Nota: eu chamei a este post "A ASAE" apenas para não complicar muito - a ASAE limita-se a aplicar as normas feitas pelo governo (duvido que esses regulamentos tenham ido ao Parlamento...) ou pela "Europa".

Saturday, December 22, 2007

Salário mínimo (II)


Será forçosamente assim? Não. Vejo pelo menos duas situações teóricas em que o salário minimo pode fazer subir os salários sem gerar desemprego.

Primeiro caso:

João Miranda representa a procura de trabalho* como uma curva (na verdade uma recta) decrescente (em que quanto mais alto é o salário, menos trabalhadores as empresas querem ter) e a oferta como uma curva (recta) ascendente (em que quanto mais alto é o salário, maior é a oferta de trabalhadores - ou, pelo menos, de horas trabalhadas).

Ora, se face à procura de trabalho não há grandes dúvidas a esse respeito, já o mesmo não pode ser dito da oferta: na realidade, podemos ter uma curva decrescente, em que, quanto menor o salário, maior a oferta de trabalho, porque haverá mais trabalhadores dispostos a fazer horas extraordinárias, a arranjar segundos empregos, etc.

E, assumindo curvas de oferta diferentes para diferentes trabalhadores (para uns crescente para um dado nivel salarial, para outros crescente), podemos perfeitamente ter uma curva da oferta de trabalho "errática", umas vezes crescente, outras decrescentes:


Neste cenário hipotético, teríamos dois possíveis pontos de equilíbrio no mercado de trabalho - o A e o B (há outro ponto de intersecção entre a oferta e a procura, mas é praticamente impossível haver lá um equilíbrio - basta o salário ser ligeiramente maior que o ponto de intersecção para termos mais procura que oferta, fazendo o salário subir ainda mais, até ao ponto A; se o salário for ligeiramente menor, descerá até ao ponto B).

Ora, num caso destes, estabelecer um salário mínimo até pode, simplesmente, fazer o salário praticado "saltar" do equilíbrio B para o A, sem criar desemprego nenhum.

Também podemos ter outra variante, em que realmente o salário mínimo crie desemprego, mas em que um aumento do salário mínimo reduza o desemprego (isso acontecerá se a oferta de trabalho for decrescente e mais elástica do que a procura):

Claro que há aqui dois pontos - em primeiro lugar, duvido que casos destes sejam muito frequentes; e, em segundo, mesmo que o sejam, é praticamente impossível a um decisor politico identificar uma situação dessas para saber se deve ou não aumentar o salário mínimo; ou seja, mesmo que um aumento do salário mínimo consiga, por esta via, aumentar os salários sem aumentar o desemprego, será por pura sorte.

No entanto, penso que demonstrei que é possível (talvez não provável, mas possível) o salário mínimo ter impacto nos salários sem gerar desemprego (ou um aumento do salário mínimo aumentar os salários sem aumentar o desemprego).

Como escrevi atrás, há mais outra maneira do salário mínimo poder subir os salários sem subir o desemprego - pode ser que nestes dias faça um post sobre isso.

*tenha-se presente que a "procura de trabalho" corresponde à "oferta de emprego" e que a "oferta de trabalho" corresponde à "procura de emprego".