Tuesday, December 24, 2013

Competição e autonomia

Na discussão entre o Hugo Mendes e o Alexandre Homem Cristo sobre a queda dos resultados educativos na Suécia, o segundo aventa a hipótese de que a causa mais provável esteja na autonomia ("não enquadrada") das escolas, e não tanto na competição.

Mas o ponto da competição entre escolas não é exactamente competição entre modelos educativos diferentes? Logo não me parece que faça grande sentido separar a "competição" da "autonomia"; ou melhor, não é muito difícil ter "autonomia" sem "competição" - a escola em que eu cresci (1979-1991) era mais ou menos isso - um sistema de ensino público, em que os alunos iam para a escola da sua área de residência ou do emprego dos pais (a partir do 10º ano, para a escola em que houvesse a área que queriam), e em que as escolas eram largamente auto-geridas (e em que, na sala de aula, cada professor ensinava à sua maneira e muitas vezes escolhia - face à extensão dos programas - qual a matéria a dar).

Mas o oposto, "competição" sem "autonomia" é dificil de perceber o que seria (bem, podemos imaginar um sistema em que uma autoridade central decidisse programas e métodos diferentes para escolas diferentes, e depois essas diferentes escolas fossem competir umas com as outras com base nessas diferenças centralmente determinadas; podemos realmente imaginar isso, mas parece-me um sistema absurdo).

É verdade que AHC não fala em acabar com a autonomia, mas em "enquadrá-la" (ou seja, limitá-la); mas defender a limitação da "autonomia" implica, na prática, defender a limitação da "competição" (mas é interessante como, pelos vistos, na moderna mentalidade liberal, "competição" parece ter uma maior carga positiva que "autonomia", para acharem que o maior problema no "cheque-educação" sueco estar na "autonomia" e não na "competição").

Mas isto chama uma questão mais profundo - é que os chamados defensores da "liberdade na educação" não são realmente nada entusiastas da "autonomia" (e daqui para a frente, neste post, jã não estou a falar especificamente do AHC, nem conheço o seu pensamento acerca de muitos assuntos que vou referir); pelo menos no que se refere à escola pública, muitas vezes essa área politica parece ser a maior defensora da centralização, via mega-agrupamentos, directores nomeados, fim da gestão democrática, guiões hiper-detalhados determinando metas de aprendizagem, (por vezes até vêm com conversas de "livro único"), etc., etc. Na verdade, por vezes até parece que o tal "centralismo burocrático estalinista do Ministério da Educação" tem como problemas fundamentais os concursos nacionais de professores e as regras determinando em que escolas os alunos se podem matricular, e em tudo o resto o centralismo já não faz mal.

O que me leva a pensar que o ponto  fundamental de muitos dos defensores da "liberdade da educação" não é tanto que que numa esquina uma escola tipo Summerhill e noutra uma para "Tiger Moms", mas sobretudo que as escolas possam facilmente expulsar (ou negar a matricula a) alunos e despedir professores.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Friday, December 20, 2013

Omissões

O Rodrigo Moita de Deus e o Afonso Azevedo Neves deixaram de lado vários pontos importantes (ou mesmo vitais) para a compreensão da matéria em apreço:

- o Comité de Apoio à Reconstrução do Partido Marxista-Leninista (CARP-ML) resulta de cisão do Comité Marxista-Leninista de Portugal (CML de P), que é, por sua vez, uma dissidência do CM-LP

- após a fundação da UDP, aderiram a esta (ou ao Partido Comunista Português (Reconstruído) - PCP(R) - que era a mesma coisa) o Partido de Unidade Popular (PUP) e a maior parte da Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa (OCMLP); o Partido de Unidade Popular (PUP) é o resultado de uma cisão no Partido Comunista de Portugal (Marxista-Leninista) (PCP-ML), que foi o novo nome que o CM-LP adoptou para aí a partir de 1970; a Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa (OCMLP) é o resultado da fusão entre os colectivos organizados em torno dos jornais clandestinos "O Grito do Povo" e "O Comunista"; "O Comunista" surgiu também de uma cisão do CM-LP

[fundamentalmente, as várias cisões e dissidências que o CM-LP e depois o PCP-ML foram tendo entre 1964 e 1974 acabaram por se juntar na UDP]

- A Frente de Esquerda Revolucionária (FER) surgiu da fusão entre a Liga Socialista dos Trabalhadores (LST), a Esquerda Revolucionária (ER) e a Organização Comunista Politica Operária (OCPO), embora esta ultima tenha abandonado a FER cerca de duas semanas após a sua criação; a Liga Socialista dos Trabalhadores (LST) surgiu de uma cisão do PSR (fundamentalmente a partir dos antigos militantes do ex-PRT); embora não pertença à árvore genealógica do BE (porque saiu da FER muito antes desta integrar o BE, ou mesmo de existir BE*), convém notar que a Organização Comunista Politica Operária (OCPO) resulta de uma cisão do Partido Comunista (Reconstruído) - PC(R), que era a mesma coisa que a UDP.

[o fundador e principal ideólogo da Organização Comunista Politica Operária (OCPO), Francisco Martins Rodrigues, foi também o fundador e/ou um dos principais ideólogos do CM-LP, do Comité de Apoio à Reconstrução do Partido Marxista-Leninista (CARP-ML) e da UDP]

*eu ia escrever "antes de alguém sonhar com o BE", mas seria incorrecto, já que a própria criação da FER foi o resultado de alguém ter tentado criar um "BE" 10 anos mais cedo (penso que o PSR também tinha sido convidado para a fusão, mas não se mostrou interessado).

Thursday, December 19, 2013

Portugal com a maior quebra da produtividade da OCDE?

Segundo o Público, "a produtividade do trabalho (medida como o produto por pessoa empregada) também caiu em Portugal de forma muito forte no terceiro trimestre do ano. De acordo com a OCDE, a descida deste indicador foi de 1%. Apenas mais três países registaram quebras: a Suécia, com 0,2%, e a Áustria e a França, com 0,1%."

Confesso que, quando comecei a ler a notícia ("Portugal foi o país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que registou durante o terceiro trimestre deste ano uma descida mais acentuada das remunerações por unidade produzida e da produtividade do trabalho."), pensei que houvesse algum engano; porquê? Porque as "remunerações por unidade produzida" são equivalentes a [total das remunerações]/[total de unidades produzidas]; e a "produtividade" (no contexto deste estudo) é equivalente a [total de unidades produzidas]/[total de trabalhadores].

Isso quer dizer que:

[remuneração por unidade produzida]=[total das remunerações]/[total de unidades produzidas] ↔

↔ [remuneração por unidade produzida]={[total das remunerações]/[total de trabalhadores]}*{(total de trabalhadores]/[total de unidades produzidas]} ↔

↔ [remuneração por unidade produzida]=[remuneração média]/[produtividade]

Ou seja, é muito dificil a "remuneração por unidade produzida" e a "produtividade" descerem ao mesmo tempo (e sobretudo terem ambos uma grande quebra)- tal implica que, não só que a produtividade desça, mas que as remunerações desçam ainda mais (se as remunerações por unidade desceram 1,4% e a produtividade desceu 1%, então os salários terão que ter descido 2,4%); por isso quando li o título até pensei que fosse alguma confusão do jornalista (que o que tivesse descido não tivesse sido "os salários e a produtividade", mas sim os "salários face à produtividade" ou coisa parecida), mas lendo a noticia toda, parece que foi mesmo isso: tanto os custos unitários do trabalho como a produtividade desceram (ver adenda).

Os salários descerem não tem nenhum mistério - é o que e suposto ocorrer durante uma recessão e sob uma politica de austeridade; já a quebra da produtividade é mais misteriosa (talvez a queda dos salários tenha tornado viáveis actividades económicas pouco produtivas - que antes nem se chegavam a realizar - fazendo assim baixar a produtividade média?)

Já agora, seria útil saber se essa queda é comparada com o segundo trimestre deste ano, ou se é com o terceiro trimestre do ano anterior.

Adenda - achei a informação no site da OCDE; aqui temos um PDF com os dados por país.

Pelo que vejo na página 4 do PDF, os custos unitários do trabalho desceram 0,4%, a produtividade desceu 1%, e os salários por unidade de trabalho desceram 1,4% (o que faz sentido: 1% + 0,4% = 1,4%). Eu dá-me a ideia que a noticia do público confude os "custos por unidade produzida" (que desceram 0,4%, quando a noticia refere 1,4%) com os "custos por unidade de trabalho" (que, esses sim, desceram 1,4%).

E trata-se de uma comparação trimestre a trimestre, pelo que percebo.

Monday, December 16, 2013

A crise irlandesa foi culpa das agências de rating?

Segundo três economistas suiços, sim [pdf].

[Como já escrevi várias vezes, eu linkar um artigo não implica necessariamente concordância]

Saturday, December 14, 2013

As classes sociais de acordo com a BBC

A BBC tem uma espécie de "modelo" das "classes sociais" no Reino Unido, com um "calculador" para se determinar a que "classe" cada um pertence (via The Heresiarch):

  • Elite: This is the most privileged class in Great Britain who have high levels of all three capitals. Their high amount of economic capital sets them apart from everyone else.


  • Established Middle Class: Members of this class have high levels of all three capitals although not as high as the Elite. They are a gregarious and culturally engaged class.


  • Technical Middle Class: This is a new, small class with high economic capital but seem less culturally engaged. They have relatively few social contacts and so are less socially engaged.


  • New Affluent Workers: This class has medium levels of economic capital and higher levels of cultural and social capital. They are a young and active group.


  • Emergent Service Workers: This new class has low economic capital but has high levels of 'emerging' cultural capital and high social capital. This group are young and often found in urban areas.


  • Traditional Working Class: This class scores low on all forms of the three capitals although they are not the poorest group. The average age of this class is older than the others.


  • Precariat: This is the most deprived class of all with low levels of economic, cultural and social capital. The everyday lives of members of this class are precarious.


  • Agora vou fazer um exercicio que não faz sentido - responder às questões do tal "calculador" (não faz sentido porque tem lá questões sobre ordenados, e os ordenados britânicos são maiores que os portugueses); pelos vistos eu seria "traditional working class" (multiplicando por 3 as respostas nas questões que têm a ver com dinheiro, seria "technical middle class", o que é capaz de ser mais correcto).

    Suspeito também que muitos dos autodesignados "precários" correspondem mais aos "emergente service workers" do que ao "precariat".

    Friday, December 13, 2013

    Macro e micro

    Tem havido, na internet anglófona, uma discussão sobre se, nos cursos de Economia, se se deve começar primeiro pela micro ou se se deveria começar pela macro.

    Provavelmente isto tem a ver com alguma grande diferença entre o sistema univesitário português e norte-americano, mas eu creio que comecei primeiro pela macroeconomia (no ano lectivo de 1991/92, no ISEG, o primeiro semestre da cadeira de Análise Económica I era macroeconomia e o segundo era microeconomia).

    Mas o ponto que quero levantar até é outro - porque não ensinar microeconomia e macroeconomia na mesma altura, em vez de uma ter que ser depois da outra (aliás, olhando para o atual plano de estudos do ISEG - pdf - vejo que, do 2º ano para a frante, macro e micro são ensinadas em paralelo)?

    Monday, December 09, 2013

    O site do Diário da República

    Adenda: afinal, embora esteja sob o título "Serviços por Assinatura", os não-assinantes continuam a poder clicar nos links como "I SÉRIE DO DR"  e fazer lá pesquisas simples.

    Post original:

    Neste momento, o site do Diário da República está reduzido a uma inutilidade.

    Poderá ser apenas um problema técnica, mas há algo que me parece "ter água no bico" - veja-se a secção dizendo "Serviços por assinatura", onde parece incluir montes de coisas que até agora não necessitavam de assinatura (até agora, qualquer pessoa podia fazer uma busca por diploma especifico, ou por um diário de qualquer dia das últimas décadas, e a assinatura só era necessária se quisesse procurar por diplomas sobre um assunto especifico, como decretos-leis contendo a expressão "Barlavento Algarvio")



    Os vários Mandelas

    Mandela the Revolutionary, por "Phil":

    As I write, the obituary portraits are being updated and given the requisite spin. For official politics it will be Saint Mandela, the liberal hero. For the hard right it will be Mandela the terrorist, the man who waged a brutal war against the authorities. And for the far left, it's Mandela the sell-out - the leader who oversaw neoliberalism in South Africa and the supplying of arms to anyone who could pay. The figure of Mandela is contested because he is, perhaps, all these things. And more.

    Friday, December 06, 2013

    8 anos de Vento Sueste

    Hoje, este blog faz 8 anos.

    A titulo comemorativo, relembro alguns posts que publiquei neste último ano:

    Um Estado ou o inverso de um Estado?, sobre a definição de "Estado" e a organização social das tribos do Atlas marroquino

    O bitcoin e concorrência entre várias moedas

    Direita e Esquerda (post N+1 sobre o assunto), mais um post sobre a diferença entre direita e esquerda

    Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism, Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism (II) e Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism (III), uma análise ao artigo Impossibility of anarcho-capitalism [pdf], de Tony Hollick
     
    Re: dicionário elementar, Exemplos de conservadores defendendo a intervenção do Estado na moral social e Ainda a esquerda anarquista pró(?)-propriedade privada, em resposta ao post de Rui Albuquerque n'O Insurgente, esquerda e direita: dicionário elementar (2)
     
    Os economistas e a crise, sobre o papel que os economistas tiveram (ou não...) na crise financeira de 2008 

    Thursday, December 05, 2013

    Asimbonanga (Johny Clegg & Savuka, 1987)

    Senhas para refeições (ou "RSI em gêneros") e controle de capitais

    Food stamps are just capital controls for poor people (New Statesman):

    The Guardian's Patrick Butler reports that food stamps are to replace the cash payments currently received by vulnerable people in short-term financial crisis (...).

    In classic economics-blogging style, here's another news story. Cyprus is to impose capital controls (...)

    The link is that both measures won't have the absolute effect that their promotors might hope; rather, they impose a huge, uncontrollable and grey-market tariff on attempts to do what people are used to being able to do freely.

    The Cypriot capital controls are the more obvious example of this. For the next week, a euro in Cyprus is worth less than a euro elsewhere. How much less, we don't know, and there will probably never be a clear market rate – especially if the controls are lifted in early April, which the people of Cyprus will surely be hoping will happen.

    Nonetheless, if a Cypriot finds themselves urgently needing to get a large number of euros out of the country – say, to close a purchase on a house in the French Riviera – it's relatively obvious what they have to do. Offer someone in the "real" eurozone a quantity of euros in Cyprus to spend the money for them. The premium offered depends on the risk that the capital controls will not be lifted, as well as the value our outsider places on euros which can only be spent in Cyprus, but it's fairly doable from a technical point of view. (...)

    Those effects are basically the same as what we will see if food stamps become widespread. It's best to think of food stamps as a separate currency; one which can only be used buy a certain list of items. Just like the Cypriot euro, it has "capital controls" – you can't just walk up to a bureau d'exchange and hand food stamps in and get pound sterling in return. But just like the Cypriot euro, there are ways – easy ways – of getting around them.

    The legal way – analogous to the complicated deal to hand over money in two nations – is as simple here as offering someone a £20 food stamp for a £12 bottle of gin. Given most people buy food, that's a relatively good deal for the person who ends up with £8 profit; they essentially get a portion of their groceries paid for by someone in crippling financial need. (...)

    In the end, then, what is the outcome of food stamps? All things considered, they don't force people in financial difficulty to spend their money on "necessities" rather than "luxuries" (with the two categories odiously defined by government, rather than the individuals themselves). Instead, they impose a tariff on purchases of "luxuries" for those people.

    The same economic effect could be had more directly by requiring shops to display two prices for booze and fags: a regular price, and a higher price for "poor people".



    http://www.newstatesman.com/economics/2013/03/food-stamps-are-just-capital-controls-poor-people

    Tuesday, December 03, 2013

    Luta de classes vs. "causas fracturantes"?

    Class vs. “Identity Politics,” Intersectionality, Etc.: Some General Observations, por Kevin Carson (Center for a Stateless Society):

    Those of us involved in various justice movements of the Left sometimes argue among ourselves as though the struggles for class, racial and gender justice existed in a zero-sum relationship.

    Many people in the workers’ and economic justice movements complain — rightly so in my view — that “identity politics” in far too many cases became a substitute for class struggle, with racial and gender justice movements led by upper middle-class managerial-professional types focusing almost entirely on equal representation in the professions and boardrooms at the expense of economic justice. This approach is commonly derided as “black, female, etc., faces in high places.”

    We can see this in the recent high profile coverage of the version of feminism promoted by Yahoo CEO Marissa Mayer and Facebook COO Sheryl Sandberg. Mayer, notably, was hailed as a triumph of feminism at the very time when she’d been showing her contempt for working mothers by eliminating Yahoo’s work-at-home arrangements.

    On the CNN special “Black in America” several years ago, Soledad O’Brien cited, as evidence of the fulfilment of MLK’s dream, the fact that “Some are Secretary of State; some are CEO” — a source of some dismay for those of us whose fondest dream is to strangle the last Secretary of State with the entrails of the last CEO

    But some of the above-mentioned critics from the economic justice movement go even further, blaming gender and racial “identity politics” as a distraction from the class struggle. The struggle for labor rights and economic justice should take precedence over racial and gender justice, they say, because racism and sexism have been subsumed to a large extent within the class struggle. And to the extent that structural racism and sexism, homophobia and transphobia continue to be real problems, the victims of such oppression should throw in with the economic justice movement and treat winning the class struggle as their immediate priority — after which the working class will return the favor by shifting its fraternal efforts to the racial and gender justice fronts.

    This goes too far — way too far. First of all, it’s not just a question of priority. It’s a matter of people not being actively horrible to one another. The most radical members of one social justice movement are frequently the most bigoted and hateful voices against victims of other forms of oppression. A good example is the slew of radical feminist writers at The Guardian, the American RadFem (and, ahem, corporate trademark lawyer) Cathy “Bug” Brennan, and Rosanne Barr — all of whom have assaulted transgender people with the most vile, toxic abuse imaginable. RadFems also commonly take a dismissive and patronizing attitude toward sex workers, ignoring their own agency and preferences in the quest to criminalize sex work “for their own good.”

    Second, for those who mercifully do at least recognize in principle the validity of other struggles against oppression, it’s important to recognize that these struggles are not in a zero-sum relationship with one another. They are complementary and cumulative. (...)

    Differential levels of oppression and exploitation are a lever for maintaining the system of exploitation by the privileged classes. An economic justice movement that fights for the rights and empowerment of workers, without specifically addressing the special needs of the victims of racial and gender oppression in its ranks, is a gravely weakened and divided movement.

    Access to underpaid and exploited minority, female and unskilled labor undermines the bargaining power of white, male, skilled labor. Industrial managers in early 20th century labor struggles, who deliberately chose unemployed blacks as scabs to break strikes, understood this. So did big farmers in the South who exploited racial divisions to break the tenant farmers’ union. So, on the other side, did the Wobblies and CIO, who eschewed the racial segregation that so weakened the AFL’s craft unions.

    Intersectionality undermines the ruling class’s “divide and conquer” strategies of labor market segmentation as a strategy for weakening the bargaining power of labor. The workers’ movement, as such, by giving additional aid to the most disadvantaged and oppressed segment of the labor force, increases the power of labor as a whole.

    Meanwhile, there is a sense in which the struggle for economic and material justice, for everyone’s control over the means of livelihood, is of central importance to racial and gender justice movements. The reason is that even primarily non-economic forms of injustice, like racial and gender oppression, depends to a considerable extent on control over access to the means of material subsistence.

    Much of the leverage not only for class and economic oppression, for oppression on the basis of race, gender, sexual preference and gender identity as well, comes from the ability to obstruct access to the means of independent livelihood, and to withhold or take away the prerequisites of comfortable subsistence. the extent to which they are in what Friedrich Engels called the “realm of necessity,” as opposed to the “realm of freedom.” (...)

    Let’s consider a few examples. When the price of land falls precipitously as a result of vacant land no longer being held out of use by artificial land titles, and vernacular building technologies like cheap, snap-together, modular housing designs become widely available without obstruction from local building codes, discrimination in rental housing will likely be significantly less important than it is now. The larger the share of our necessities of life that can be met through self-provisioning in the informal and household sector rather than paying for them with money earned through wage employment, the less will be the proportional effect of job discrimination on our access to the means of subsistence. If freed slaves after the Civil War had received “forty acres and a mule” from broken up plantations, and had been in widespread possession of the means of armed self-defense, the material balance of power would have been far different from that which allowed the reimposition of white rule after 1877. (...)

    The less a person’s material dependence on others for survival, the more it becomes feasible for her to pick and choose her interactions with others, and interact only on terms of dignity and equality. When the majority of people in a society — including oppressed racial and gender groups — obtain the lion’s share of their material subsistence needs independently of the will or whim of others, and are in the habit of seeing themselves as free economic agents in independent control of their own means of livelihood, the spillover effects will color their relations with one another in other areas of life as well.

    Monday, December 02, 2013

    Leis e magia

    The Magic of the Law, um artigo no Overthinking It expondo a tese de que a magia na ficção acaba por ser muito semelhante ao Direito (nos comentários, a conversa depois evoluiu para uma discussão sobre o padrão-ouro e a economia no mundo do Harry Potter).

    Já agora diga-se que, na minha opinião, a personagem "Rumplestiltskin/Gold" na série Era uma vez... parece feita de propósito para ilustrar a tese do artigo...

    Saturday, November 30, 2013

    Re: Mais que um jogo

    Há dias, o Vitor Cunha do Blafémias publicou um texto que, sinceramente, me pareceu um bocado bizarro (ao contrário das reflexões perfeitamente normais que eu costumo publicar aqui).

    No clube de futebol local, a equipa de crianças dos 6 aos 9 anos apenas aparenta a idade fora de campo; quando delimitados pelo rectângulo tornam-se mártires voluntários por uma causa que não articulam. Transcendendo o frio, a dor, o cansaço e a sua própria incapacidade para perceberem o jogo, correm com o objectivo único da sublime visão de uma bola a entrar na baliza. Nestas idades é pouco importante a baliza onde o golo ocorre, desde que ocorra. É primário, instintivo, tão bélico como sexual – inerentemente masculino – completamente biológico, completamente individualista. O resultado da equipa é irrelevante: importante é que a criança vença o jogo, bastando para isso um golo mais que qualquer um dos outros, seja em que baliza for, seja de que equipa for. As crianças não querem saber do “bem comum”, não fazem ideia do que isso seja e não é claro o momento em que os adultos de uma dada geração os transformam para assimilarem a dialéctica de comunidade enquanto mantêm o primarismo biológico da individualidade.

    O treinador – mister na adoptada nomenclatura anglo-saxónica – torna-se no absolutista de Hobbes, garantido o contrato social através do poder absoluto da punição pela recolha ao banco de suplentes. O resultado expande-se sem que o diferencial da satisfação pelo golo se dilate: golo é golo. No fim vencem todos, mesmo os derrotados, os que marcaram menos ou nenhum golo: venceram o objectivo (goal) de no próximo jogo transcenderem novamente a sinédoque da vida que os espera quando o estatismo os aglutinar.
     Não sei se se o Vitor Cunha queria chegar a alguma conclusão mais geral aqui ou se era uma simples comentário sobre o futebol infantil, mas de qualquer maneira, basta pensar num simples situação para todo o seu argumento deixar de fazer sentido - e se, em vez de um jogo de futebol no clube local, com um mister, estivermos a falar de um jogo autorganizado no recreio da escola (nos meus tempos de escola primária, costumava haver jogos de futebol durante o intervalo; imagino que ainda os haja)? Aliás, imagino que a maior parte das crianças da idade 6-9 passem muito mais tempo a jogar no recreio do que em clubes.

    A própria existência de jogos infantis sem mister deita por terra a tese que é a sua autoridade que obriga as crianças a se sujeitarem ao "bem comum"; claro que há um contra-argumento - é que nos jogos autogestionários continua a haver um mister, um "mister colectivo" constituído pelo resto da equipa, com o seu equivalente a "ficar no banco" ("não jogas mais connosco"); mas o próprio facto de, nesses jogos, as crianças preferirem jogar com uns (normalmente os melhores) em vez de com outros (por regras os mais azelhas) demonstra que, mesmo para as crianças, a equipa é importante - afinal, se cada um se estivesse a lixar para o resultado da equipa e só quisesse marcar os "seus" golos, pouca diferença lhe faria que os seus colegas de equipa jogassem bem ou mal.

    Agora uma nota pessoal - entre os 6 e os 9 anos, só me lembre de ter jogado futebol no recreio uma vez; a nossa brincadeira favorita era mesmo andar à pedrada (na primeira e na segunda classe, era a nossa turma contra a outra turma da primeira/segunda classe; na terceira/quarta classe era contra a turma da segunda/terceira - que, embora andassem um ano atrás, eram quase todos mais velhos que nós); mas a dinâmica colectiva de uma batalha de pedras é mais ou menos a mesma que a de um jogo de futebol, logo penso que a minha experiência de vida algo idiosincrática em nada põe em causa o que escrevi acima.

    Para falar a verdade, até suspeito que as crianças no escalão 6-aos-9, se alguma coisa, até são mais dadas que o "público em geral" a desenvolverem lealdades a pequenos grupos (por alguma razão isto tem artigo na wikipedia). Mas se quisermos extrapolar daqui para uma reflexão mais geral sobre a natureza humana, suspeito que corremos o risco de chegar à conclusão que os humanos serão institivamente "tribais" e que tanto o individualismo como o colectivismo-universalismo serão algo contranatura (uma conclusão que talvez não agrade nem a esquerdistas nem a liberais...).

    Monday, November 18, 2013

    O RBI pode fazer baixar os salários? (II)

    Na Rubra, Rivania Moura publica o artigo "Defendemos que as pessoas vivam com o mínimo possível?" (via Raquel Varela), em resposta ao meu post anterior sobre o RBI.

    A respeito dos pontos 1, 2 e 5 (sobretudo do 2), parece-me que Rivania Moura está a argumentar que o RBI é pior para os interesses dos trabalhadores (e dos que gostariam de ser trabalhadores mas não conseguem...) do que outras politicas que poderiam ser seguidas. Mas o meu ponto é que, se tudo o resto for igual, o RBI fará subir (ou não minimo, não fará descer) os salários. Claro que se formos comparar um mundo com RBI e uma politica orçamental de austeridade e contração da economia com um mundo alternativo sem RBI com uma politica orçamental expansionista visando o pleno emprego, provavelmente os trabalhadores viverão melhor e os salários acabarão por ser mais altos no segundo do que no primeiro; mas acho que o que faz sentido é analisar os méritos de uma proposta politica comparando-a com o que aconteceria se essa proposta não fosse implementada, não tanto com o que aconteceria se, em vez dessa proposta, fosse implementada outra (ainda mais tratando-se de propostas que não são incompativeis entre si).

    É verdade que, de certa forma, há um potencial conflito entre o RBI e outras politicas alternativas - o tempo dos militantes e ativistas de esquerda é um recurso limitado, e portanto cada minuto, post, manifestação, conferência, panfleto, etc., feita a defender o RBI poderá significar menos um feito a defender politicas melhores. Logo, por esse caminho, a defesa do RBI poderia levar a uma má situação para os trabalhadores (pelo efeito da "energia" gasta pelos ativistas pró-RBI deixar de ser utilizada na luta por causas mais vantajosas). Mas duvido que na prática esse efeito seja significativo.

    A respeito do ponto 3, de que um subsidio pago por igual a todos não redistribui rendimentos - efetivamente, pode-se dizer que um subsidio igualitário por si só não redistribui rendimento; mas o dinheiro para esse subsídio tem de vir de algum lado. Tem sido propostas várias fontes de financiamento para um RBI, mas o mais provável é que este fosse financiado via impostos - basta esses impostos serem progressivos ou mesmo proporcionais para haver redistribuição (já que os que mais têm vão pagar mais para um bolo que depois vão ser dividido igualitariamente).

    Finalmente vamos ao ponto 4, o mais relevante do meu ponto de vista:

    O RBI fará baixar os salários todos, mesmo não sendo discriminatório como é o RSI (rendimento mínimo actual) ou o Bolsa família, ou o Cesta Básica da Argentina. Vejamos um exemplo. Imaginem que se fixava em Portugal o RBI a 200 euros. Ora, se existem trabalhadores a ganhar um salário de 500 euros e outros trabalhadores desempregados e sem salário, o rendimento acrescido de 200 euros fará que o primeiro passe a ter um rendimento de 700 euros enquanto o segundo terá de viver com 200 euros. Portanto, esse sistema continua a manter a concorrência entre os trabalhadores pelo emprego e continua a pressionar os salários para baixo.
    De novo, não se paercebe qual o mecanismo pelo qual o RBI fará baixar os salários - Rivania Moura escreve (provavelmente com razão) que o RBI continua a manter a concorrência entre os trabalhadores; mas para o RBI fazer os salários baixar (ou seja, fazer com que sejam menores do que seriam se não houvesse RBI), não basta que a concorrência se mantenha; para o RBI originar uma baixa de salários, seria necessário que fizesse aumentar a concorrência entre os trabalhadores. Ora, não estou a ver porque a concorrência para ganhar 700 em vez de 200 há-de ser mais aguerrida do que a concorrência para ganhar 500 em vez de zero (será mais de esperar o contrário, porque 500 euros adicionais fazem mais diferença a quem não tem nada do que a quem já tem 200 euros).

    [Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

    O "elo mais fraco" da zona euro

    A Holanda?

    Sunday, November 17, 2013

    "Bolhas"

    Uma critica por vezes feita a Paul Krugman é à sua passagem em (em tom aparentemente irónico), em 2002, de que para fazer a economia sair do crise motivada pelo fim da bolha das dot-coms, o FED teria que criar uma bolha imobiliária.

    Mas agora, pelos vistos, Krugman vem mesmo, de forma séria e supostamente "aprofundada", defender as bolhas como via para o crescimento:

    2. An economy that needs bubbles?

    We now know that the economic expansion of 2003-2007 was driven by a bubble. You can say the same about the latter part of the 90s expansion; and you can in fact say the same about the later years of the Reagan expansion, which was driven at that point by runaway thrift institutions and a large bubble in commercial real estate.

    So you might be tempted to say that monetary policy has consistently been too loose. After all, haven’t low interest rates been encouraging repeated bubbles?

    But as Larry emphasizes, there’s a big problem with the claim that monetary policy has been too loose: where’s the inflation? Where has the overheated economy been visible?

    So how can you reconcile repeated bubbles with an economy showing no sign of inflationary pressures? Summers’s answer is that we may be an economy that needs bubbles just to achieve something near full employment – that in the absence of bubbles the economy has a negative natural rate of interest. And this hasn’t just been true since the 2008 financial crisis; it has arguably been true, although perhaps with increasing severity, since the 1980s.
     
    Há primeira vista, custa-me a acreditar que possamos estar numa situação em que a taxa de juro de equilibrio entre a poupança e o investimento seja menor que zero: tal significaria que, mesmo sem receber juro nenhum, as pessoas estariam dispostas a poupar mais dinheiro do que as empresas estariam dispostas a pedir emprestado (mesmo sem pagar juros nenhuns). Tal só faria sentido numa economia em que a propensão à poupança fosse muito grande e quase não houvesse oportunidades de investimento lucrativo (nem uma coisa nem outra me parecem corresponder ao estado da economia mundial das últimas décadas).

    Mas, se essa visão estiver correcta, isso não será mais ou menos aquilo a que outra escola do pensamento económico chamaria "o estádio final do capitalismo"?