Thursday, June 13, 2019

O parlamentarismo e o Brexit (isto ainda vai dar muitos posts)

Rory Stewart threatens 'alternative parliament' to avoid no-deal Brexit (The Guardian):

The Conservative leadership outsider Rory Stewart, who has been unexpectedly catapulted into the next round of the contest, vowed that he would set up “an alternative parliament” if the frontrunner, Boris Johnson, suspends parliament to pursue a no-deal Brexit. (...)

He said if Johnson attempted to prorogue parliament, he and other MPs would be prepared to “bring him down”. “If he were to try, I and every other member of parliament, will sit across the road in Methodist Central Hall and we will hold our own session of parliament,” he said.

Wednesday, June 12, 2019

O parlamentarismo e o Brexit, novos episódios

Opposition parties launch bid to block the UK's next prime minister from forcing a no-deal Brexit (Business Insider):

Britain's next prime minister could be blocked from forcing a no-deal Brexit after a cross-party group of MPs announced plans to introduce legislation later this month, designed to prevent the next prime minister leaving without a deal. (...)

However, the opposition Labour party said it would on Wednesday force a Commons vote which would allow MPs to seize control of the parliamentary agenda, normally controlled by the executive, on Tuesday 25 June. (...)

Two of the 10 candidates for leader, Dominic Raab and Esther McVey, have said they would be willing to suspend parliament in order to force through their preferred outcome, something leadership rival Rory Stewart, the international development secretary, said would be unconstitutional and illegal. (...)

Critics have also warned it would drag the Queen into politics because she would be required to play a formal role in the act of dissolving parliament.

Saturday, June 08, 2019

Documentário da BBC, de 2002, sobre o ataque israelita ao navio norte-americano USS Liberty, a 8 de junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias:

Friday, June 07, 2019

A ideia do Brexit era qualquer coisa de restaurar a soberania do Parlamento britânico, não era?

Can Parliament stop a no-deal Brexit?, por Daniel Kraemer (BBC):

Even though most MPs oppose a no-deal strategy, some argue the next government could go ahead without the consent of Parliament.

A row broke out on Wednesday after Conservative leadership candidate Dominic Raab said he would be prepared to prorogue Parliament to make sure the UK leaves the EU on 31 October. (...)

At the end of every parliamentary session - which usually lasts around a year and starts with the State Opening of Parliament and a Queen's Speech - Parliament is "prorogued" by the Queen.

It essentially closes Parliament and ends the process of current legislation until a new session begins. Although it is technically at the Queen's "command", in practice it is the government's decision.

How could it be used to stop MPs forcing the government's hand?


If a new prime minister is concerned about MPs blocking the UK's exit from the EU, they could advise the Queen to prorogue Parliament, therefore sending MPs away so that they can't do anything to scupper Brexit.

It would be unprecedented in modern times to use this power for political reasons, rather than to end a session in preparation for a new Queen's Speech.

One leadership candidate, Rory Stewart, has said to do so would be "illegal, unconstitutional, undemocratic and it wouldn't work".

Tuesday, June 04, 2019

As propostas de Bernie Sanders para alterar as relações de poder nas empresas

Bernie Sanders backs 2 policies to dramatically shift corporate power to U.S. workers, por Jeff Stein (publicado originalmente no Washington Post):

Sen. Bernie Sanders (I-Vt.) will push new policies aimed at giving workers a greater ownership stake in companies, moves the 2020 presidential candidate is pitching as a dramatic transfer of power in the U.S. economy. (...)

Sanders said his campaign is working on a plan to require large businesses to regularly contribute a portion of their stocks to a fund controlled by employees, which would pay out a regular dividend to the workers. Some models of this fund increase employees’ ownership stake in the company, making the workers a powerful voting shareholder. The idea is in its formative stages and a spokesman did not share further details.

Sanders also said he will introduce a plan to force corporations to give workers a share of the seats on their boards of directors. Sen. Elizabeth Warren (D-Mass.), another 2020 presidential candidate, proposed a similar idea last year.  (...)

Sanders on Friday also reintroduced in the Senate a series of measures to increase the percentage of the American workforce in “employee-owned” ownership models. Those policies include a $500 million bank to finance company transitions to worker cooperatives, new legal requirements that owners give their workers an opportunity to purchase firms that are closing and federal funding to create centers in all 50 states that would encourage employee-owned businesses. These ideas are not gaining traction in the Republican-controlled Senate.
 Ver também: O "Accountable Capitalism Act " e Labour propôe participação dos trabalhadores na propriedade das empresas

O que são extamente "conservadores nos costumes"?

É frequente (nomeadamente em discussões políticas) pessoas classificarem-se ou serem classificadas como "conservadores nos costumes". Mas o que é que isso quer dizer exatamente?

Consigo imaginar pelo menos 3 maneiras diferentes e não necessariamente associadas entre si (na verdade, até suspeito que uma delas terá uma correlação negativa com as outras duas) em que se pode ser "conservador nos costumes" (inicialmente até pensei em 5 maneiras, mas as duas adicionais parecem-me pouco mais que variante de uma das outras 3).

1) "Conservador nos costumes" na vida pessoal - alguém levar uma via pessoal convencional e tradicional.

2) "Conservador nos costumes" na moral - alguém achar que os estilos de vida tradicionais são moralmente "bons" e que os estilos de vida "alternativos" são moralmente maus. Não há necessariamente uma ligação entre "conservador nos costumes" do tipo 2 e do tipo 1: alguém pode levar uma vida perfeitamente "quadrada" mas considerar isso como uma simples preferência individual, não como uma escolha moralmente melhor que as outras; e inversamente alguém pode levar uma vida dissoluta e desregrada mas achar ("reconhecer", dirá ele) que está no mau caminho e que deveria "entrar nos eixos" (provavelmente fazendo resoluções "Para o próximo mês é que é; vou dar uma volta a sério na minha vida e passar a ser uma pessoa como deve ser").

Não só não há uma ligação necessária entre estes dois tipos de "conservadorismo nos costumes", como não me admiraria que, a existir uma correlação entre os dois, hoje em dia até seja negativa, no sentido das pessoas que levam vidas pessoais mais "conservadoras" tenderem a ser menos defensoras explicitas de valores conservadores e vice-versa. Mais exatamente, o que eu suspeito é que pessoas com um temperamento cerebral e analítico tendem a ser conservadoras na vida pessoal e pouco conservadoras na moral, enquanto pessoas mais espontâneas e impulsivas tenderão a ser pouco conservadoras na vida pessoal e relativamente mais conservadoras nos valores morais (mais à frente explico melhor o raciocínio que estou a fazer).

3) "Conservador nos costumes" na política - defender políticas públicas que protejam os costumes tradicionais e/ou sejam inspiradas por estes.

Também aqui acho que alguém pode ser "conservador" no tipo 1) ou 2) sem o ser no tipo 3). Já mais complicado me parecer ser no tipo 3) sem o ser no tipo 2) - isto é, ser politicamente "conservador nos costumes" sem o ser moralmente. Inicialmente até pensei que um possivel exemplo seria o de alguém que defendesse políticas conservadores nos costumes não por motivos moralistas mas por razões utilitárias, como achar que os estilos de vida tradicionais têm externalidades positivas e por isso devem ser incentivados; mas pensando melhor, acho que isso continua a ser uma posição moral (neste caso, uma moral utilitarista)

Quando alguém, a meio de uma conversa sobre política, diz que é um "conservador nos costumes", penso que faz sentido assumir (se nada for dito explicitamente em contrário) que é neste sentido, já que é de política que se está a falar; ainda mais quando se trata de partidos e não de pessoas a se definirem assim (afinal, em principio a missão de um partido é influenciar a vida política, não dar lições de moral ou sugestões de "lifestyle"); também a famosa expressão "liberal na economia, conservador nos costumes" parece-me (caso nada seja dito em contrário) ter implícito o sentido 3: afinal, em 99,9% dos casos, quando alguém se define como "liberal na economia" está a falar das suas opiniões a respeito de política económica: que é a favor de baixos impostos, de privatizações, de menos despesa pública, etc. (não a dizer que, p.ex., dá mesadas grandes aos filhos), pelo que assumo que se junta logo a seguir um "conservador no costumes" continua a falar de política (uma história diferente é quando as pessoas se auto-identificam como "liberais na política, conservadores nos costumes": aí já assumo que não é na política que são "conservadores nos costumes").

De qualquer maneira, acho que ninguém ou quase ninguém se identifica como "socialista autogestionário que gosta de jogos de computador do tipo ação/aventura" ou como "neofascista fã de ficção científica" ou como "social-democrata motard", o que me parece mais um ponto a favor de se considerar que a auto-identificação como "conservador nos costumes", no contexto de uma descrição ideológica, se refere a posições políticas e não a estilos de vida pessoais.

Uma complicação adicional é o que me parece se o "conservador nos costumes de Schrödinger", que é quase impossível perceber se é apenas conservador no sentido 2) ou também no sentido 3), tão ambíguas que são as suas explicações (normalmente são conservadores tipo 3 mas que defendem só benefícios fiscais aos estilos de vida tradicionais ou algo parecido, não proibições ou imposições absolutas, e começam por dizer algo como "sou um conservador nos costumes, mas não acho que o Estado deva impor os meus valores", o que parece a posição 2-mas-não-3, e só quando e se a  conversa continua e acaba por entrar em detalhes se percebe que realmente querem que o Estado faça alguma coisa - obrigar não, mas dar um empurrãozinho...).

Ainda pensei se o "conservador nos costumes" político não poderia ter dois subtipos - o que defende políticas de proteção aos estilos de vida tradicionais, e o que apenas defende que o estado não os hostilize, mas o segundo acaba sempre por, das duas uma: a) ou defende que o Estado não deve promover/proteger nem estilos de vida progressistas nem tradicionais, e aí acho que nem faz sentido chamá-lo "conservador" (afinal, é tão "conservador" como "progressista"); ou b) é contra o Estado promover estilos de vida progressistas mas não é totalmente contra que promova estilos de vida conservadores, e aí acho que acaba por ser uma variante soft dos tais conservadores que acham que o Estado deve proteger os estilos de vida tradicionais.

[O outro tipo de conservador no costumes em que pensei foi o tal utilitário, que acha que os estilos de vida tradicionais têm externalidades positivas, mas como já disse, isso acaba por ser um subtipo do conservador moral]

Já agora, explicando melhor a minha suspeita da correlação negativa entre conservadorismo pessoal e conservadorismo moral (de que alguns exemplos - todos a respeito dos EUA, mas não me admirava que haja similares em Portugal - podem ser vistos aqui, aqui e aqui) - paradoxalmente, tanto o desejo de ter comportamentos desviantes como o repúdio por comportamentos desviantes são coisas que vêm mais dos impulsos viscerais do que do raciocinio (exceção - os tais conservadores utilitaristas), pelo que por isso desconfio que as tais pessoas espontâneas e impulsivas tendem a ser pouco conservadoras na vida pessoal e mais conservadoras nas atitudes morais, e o contrário para as pessoas cerebrais e analíticas (embora haja muitas maneiras de ser não-conservador na vida pessoal: alcoolismo, drogas, gravidezes precoces, andar sempre a mudar de mulher/marido, trabalho irregular, etc acho que será mais comum entre as tais pessoas espontâneas/impulsivas; mas há efetivamente outros estilos de vida não-convencionais que se calhar são mais comuns entre as pessoas cerebrais/analíticas, como chegar aos 40 e tal anos solteiro/a, sem filhos e com a casa cheia de animais de estimação).

Wednesday, May 22, 2019

Trump e Netanyahu a abrir o caminho para a destruição de Israel?

Why some Palestinians are backing Trump’s peace push, por Nahal Toosi:

A growing number of Palestinians want a ‘one state, equal rights’ model and think Trump may unwittingly pave the way for it.
Algo que já tinha pensado há uns dias, quando vi uma notícia sobre a campanha eleitoral israelita dizendo que Netanyahu prentendia anexar a Cisjordânia - que a longo prazo,se calhar é mais provável que o "estado palestiniano" surja, não pelo "dois estados para dois povos", mas com Israel a anexar os territórios ocupados e a ficar com tantos árabes dentro das suas fronteiras que mais cedo ou mais deixará de poder continuar a ser o "estado judeu".

Monday, May 20, 2019

O estranho partido que é o "Brexit Party"

Nigel Farage’s startup politics:

It was only then that “The Brexit Party Limited” — the company behind the party that was created in November last year — gave notice that Farage had taken “significant control” of the business, with the right to remove and replace a majority of the board of directors.

The company documents reveal a unique structure for a U.K. political party which gives almost total control to its leader, front of shop — and back. (...)

There are only two directors of the company — Farage and his friend, the Brexiteer businessman Richard Tice. The company secretary is Phillip Basey, a former UKIP activist, who was appointed in March. And there are five undisclosed shareholders, with each share worth £1.

Official government guidance suggests anyone with “significant control” is likely to have more than 25 percent of the company’s shares, which in this case, means that Farage owns at least two of the shares. (...)

But despite a support base that is close in size to the membership of the ruling Conservative Party, the Brexit Party has no "members" itself, a party spokesperson said — just registered supporters. (...)

he Brexit Party's structure is highly unusual in British politics. Theresa May, for example, is answerable to more than 300 MPs, hundreds of Conservative associations and a 1922 committee of backbenchers, which guards the rules that govern leadership challenges. (...)

His other influence is the far-right Dutch populist Geert Wilders, who is the only member of his party. This allows Wilders to dictate the party's finances and political course.

Friday, May 17, 2019

O Brexit vai acontecer?

Is Brexit still possible?, por Simon Wren-Lewis:

There is always a blocking group of MPs made up of a combination of Brexiters and uncompromising Remainers, and if the deal ever squeezed through parliament there would always be a large majority of voters who would hate it and take their anger out on the government. (...)

This all suggests that Brexit in any form based on Article 50 is just not possible. A May-Corbyn deal was the best shot, but I don’t think either side are prepared to do it at the end of the day. Yet no one will admit that Brexit is stuck with no obvious way forward. It may require a new Prime Minister to admit the inevitable. They have a big incentive to do so, as at the moment Brexit has brought normal government to a halt.

What about the EU - will they want to go on extending Article 50 again and again? At some point they will issue an ultimatum: no more extensions so agree a deal, revoke or leave without a deal.
Wren-Lewis parece achar que o Brexit é impossível, mas há outra hipótese - saída sem acordo (e, face à mais que provável vitória do Partido Brexit nas eleições europeias da próxima semana, parece-me mais provável do que não haver Brexit*); e para isso nem é preciso que da aparte dos britânicos haja uma decisão deliberada de sair sem acordo: basta que não cheguem a decisão nenhuma e o prazo finalmente termine.

* E, a ser assim, será dos raros casos em que numas eleições para o Parlamento Europeu se decide realmente algo relevante para a União Europeia, em vez de funcionarem como se fossem apenas umas vinte e tal sondagens sincronizadas para aferir as intenções de voto para os respetivos parlamentos nacionais.

Thursday, May 16, 2019

Um espectro assombra o mundo, o espectro das greves (II)

Cerca de 60 voos cancelados no aeroporto de Bruxelas devido a greve de controladores - "Greve surpresa de controladores aéreos belgas está a afetar os aeroportos de Bruxelas e Charleroi, a sul da capital."

Estive a tentar perceber como é que uma greve é proclamada de repente - parece que tudo começou com reuniões em que a administração is explicar o novo acordo de empresa aos trablhadores; como grande parte das pessoas estaria a trabalhar à hora da reunião, os sindicatos proclamaram um greve para essa hora para todos os empregados poderem assistir; em resposta a empresa cancelou a reunião (e de qualquer maneira a greve continiou).

Esta greve, pelos vistos, até foi convocada pelos sindicatos convencionais, mas mesmo assim acho que se enquadra (tal como as que têm havido em Portugal) no padrão de greves não-convencionais (até porque parece que está a ser considerada como uma greve selvagem).

Thursday, May 09, 2019

O Trumpismo descrito 3 anos antes?

É o que quase me parece este artigo do 2013 do neoconservador American Enterprise Institute, "Setting the Record Straight About the White Working Class", que encontrei por acaso quando estava fazendo uma busca por outra coisa.

Wednesday, May 08, 2019

Um espectro assombra o mundo, o espectro das greves

Noah Smith sobre a vaga de greves nos EUA, sobretudo no sector dos serviços:

In some ways, service workers may have more potential bargaining power than the manufacturing workers of a hundred years ago. Manufacturing is relatively easy to relocate: The movement of factories to other countries and to less union-friendly states played a big role in undermining unions. But you can’t move a restaurant or a school or a hotel or a taxi service to China or Kentucky. At least in theory, this means local service workers could wield great power if they figured out how to unionize a large percentage of the workers in an area.

The strikes at Uber and Lyft are one sign that a new wave of labor activism is finally taking hold among service workers. Another is the wave of teacher strikes that swept the country in 2018. In San Francisco, 2500 hotel workers staged a successful strike in 2018, winning raises, pensions and better worker protections. Overall, 2018 saw 485,000 workers involved in stoppages of some sort. That’s almost 20 times the level of 2017, and the most since 1986
Em Portugal também temos sinais de uma vaga grevista que ultrapassa os limites habituais - em vez de greves no setor público convocadas por sindicatos ligados às centrais sindicais, nos últimos meses temos tido greves importantes no sector privado (motoristas de matérias perigosas e a Central de Cervejas) ou convocadas por sindicatos independentes (como os enfermeiros, em parte os professores - onde as greves têm sido largamente impulsionadas pelo Sindicato de Todos Os Professores, apesar da Fenprof alinhar nelas - e de novo os motoristas de matérias perigosas) - tirando a das cervejas, também são todas dos serviços, mas pode-se argumentar que isso é simplesmente um reflexo da economia portuguesa ser mais centrada nos serviços.

Tuesday, May 07, 2019

A tirania do politicamente correto em ação

Cartazes da Virgem Maria com auréola com as cores do arco-íris causam uma detenção na Polónia (Visão):

Uma mulher foi detida na sequência do aparecimento de vários posters da Virgem Maria com a auréola pintada com as cores do arco-íris na cidade de Plock, na Polónia. A detenção foi feita com base em suspeitas de ofensa ao sentimento religioso. (...)

Segundo um porta-voz da polícia, a detida tem 51 anos de idade e tinha regressado há pouco tempo do estrangeiro quando as autoridades realizaram buscas ao apartamento e encontraram dezenas de cartazes iguais aos espalhados pela cidade.

Friday, May 03, 2019

Énesima discussão sobre o que é "socialismo"

Sequência no Twitter do jornalista venezuelano Francisco Toro:

My advice, which nobody asked for and nobody will take, is to learn to think politically without using the word "socialism". (...)

A word that can be used to refer both to the Khmer Rouge's torture-and-extermination camps and France's 35-hour work week is a word that doesn't have any fixed center of meaning. (...)

So, a modest proposal: whenever you find yourself about to use the word "socialism," stop.

Really, stop.

Ask yourself what definition of socialism you have in mind.

Then, say *that* instead.

If you equate socialism with government ownership over the means of production, and think that's terrible, then be specific.

Instead of saying "socialism never works", say "government ownership of the means of production never works."

Is that so hard?

If you equate socialism with a much more generous social safety net funded by general tax revenue, that's great.

Instead of saying "we need to move towards socialism" say "we need to move toward a much more generous social safety net funded by general tax revenue."

Simple!
O meu maior problema com a exposição de Toro - a opção "control of the means of production by self-managed workers collectives" nem sequer é referida.

Thursday, May 02, 2019

O conformismo social causa o cancro?

Cancer, Disease and Society, artigo de 1969 de Bernie Sanders (imagino que atualmente ele já não subscreva estas posições).

A teoria, basicamente, era que o cancro tinha uma componente psicossomática resultante da submissão às imposições sociais (como os individuos não descarregavam naturalmente as suas emoções, elas manifestavam-se pelo desenvolvimento do cancro, ou coisa parecida).

Isso pode parecer absurdo, mas com tanta teoria que há por aí sobre o que causa ou não o cancro, com estudos contraditórios sobre que alimentos, tintas, perfumes, etc, etc, são ou não cancerígenos, seria uma teoria muito pior do que muitas das teorias desenvolvidas pela ciência "oficial"?

Wednesday, May 01, 2019

O que se está a passar na Venezuela é um "golpe"?

A Coup in Venezuela? That Word Is Best Avoided in This Situation, por David Papadopoulos (Bloomberg):

As Juan Guaido, Venezuela’s National Assembly leader, calls soldiers and civilians to the streets today to back his push to take control of the country, the word coup is being tossed around freely.

But it’s a tricky one to use in a case like this. Look it up online and the most prominent definition that pops up is this, courtesy of Oxford Dictionaries: “a sudden, violent, and illegal seizure of power from a government.”

It’s the “illegal” part of the definition that’s problematic.

Tuesday, April 30, 2019

"Sequelas"

Há dias, a respeito da sequela (ou não-sequela) do filme da "Mulher Maravilha" (no meu tempo era Supermulher, mas enfim...), alguém escrevia "Mulher-Maravilha é como James Bond: próximo filme com Gal Gadot não será uma sequela":

"É um filme independente da mesma forma que são os filmes de Indiana Jones ou James Bond, em vez de ser uma história contínua que precisa de muitos capítulos"
Veja-se como a definição de "sequela" mudou no século XXI:

No século passado quase todas as "sequelas" eram assim - filmes que podiam funcionar uns sem os outros (a única continuidade que havia era o primeiro filme apresentar os personagens e a sua história, e mesmo aí em muitos casos mesmo o primeiro filme pouco diferia dos outros - só nos de super-heróis é que tinha a parte de mostrar o aparecimento do herói) - não apenas no Indiana Jones ou no James Bond, mas também no Exterminador Implacável, Super-Homem, Batman, Rambo, Star Trek (os filmes), Alien, Karaté Kid, etc, etc Nalguns casos, nem os personagens se mantinham, sendo a sequela uma sequela porque a situação era parecida à do primeiro filme - Tubarão, Aeroplano, Poseidon, etc (e mais aqueles filmes de terror em que o personagem que passava de filme para filme era o monstro, como Pesadelo em Elm Street). E uma das razões para essa ausência de continuidade necessária até era porque frequentemente só se decidia fazer uma sequela depois do sucesso do primeiro filme. Filmes com continuidade necessária eram tão raros que um dos raros exemplos, "O Tigre de Eschnapur" + "O Túmulo Índiano", quando passava na televisão, passavam logo os dois "episódios" em dias ou pelo menos semanas seguidos, tão raro era para os espetadores a ideia de um filme que não começava e acabava no próprio filme.


Duas exceções, dos anos 80 - a Guerra das Estrelas e o Regresso ao Futuro (mas mesmo neste último a continuidade foi um bocado metida a martelo, de tal forma que tiveram que arranjar uma atriz à pressa para o segundo episódio).

No século XXI, pelo contrário, entrou-se na moda das sequelas com uma história continua - houve a ressuscitação da Guerra das Estrelas, e mais o Senhor dos Anéis, e mais o Hobbitt, e mais os Jogos da Fome, e mais o Insurgente/Divergente/Qualquercoisaente, etc. Os Piratas das Caraíbas parecem-me que, de episódio para episódio, também se estão a tornar cada vez mais contínuos, em vez de histórias largamente autónomas (já o Harry Potter parece-me que quase até ao fim foi compostos por episódios autónomos, e só nos 3 últimos episódios - correspondentes aos 2 últimos livros - começou a haver uma continuidade necessária).

Pegando nesta escala, antigamente por regra as sequelas eram tipo 0 ou 2 (penso que o tipo 1 - episódios com os mesmo personagens mas contraditórias umas com as outras - sempre foi muito raro); ultimamente tem estado na moda mais os tipos 4 e 5 (bem, o Exterminador Implacável e o Alien já eram tipo 4) - um raro exemplo de tipo 3 parece-me (já neste século, mas em relação a uma série do século passado) Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (em que o filme funciona bem sozinho, mas funciona melhor para quem tenha visto Os Salteadores da Arca Perdida e saiba da relação prévia entre "Indiana" Jones e Marion Ravenwood).

Outro post que escrevi vagamente sobre isto - Porque é que a "fantasia" tem sagas?.

Monday, April 29, 2019

Greta Thunberg e James Damore

Ainda sobre isso, Greta Thunberg, Autism and the Media, por Penny Andrews, em The Social Review

Friday, April 26, 2019

O centro e a direita como inimigos da liberdade

Who'll Defend Freedom?, por Chris Dillow:

In the last few days we’ve seen rightists attempt to bully Greta Thunberg out of the public sphere rather than engage with her arguments; Tony Blair’s demand for ID cards and that immigrants have a duty to integrate; and rightists (backfiring) efforts to shame Diane Abbott for drinking on a train. These all have something in common. They show that the right and centre are enemies of freedom*.

These are not the only examples, nor the worst. New Labour created thousands of new criminal offences, a trend continued by the Tory government such as in itsban on legal highs, its counterproductive porn block and its "hostile environment" policy. Very many Tories and Cuks voted last year against legalizing cannabis. Chuka Umunna, following the centrist Emmanuel Macron, wants to reintroduceforced labour. And of course demands to end freedom of movement and restrict immigration are by definition demands to curb freedom. (...)

Of course, rightists are quick to claim to value free speech. But Dawn Foster has a point: the infringements of freedom of which they complain are often no such thing but are instead the hitherto voiceless merely answering back.

Wednesday, April 24, 2019

Cooperação entre ratazanas

High mutual cooperation rates in rats learning reciprocal altruism: The role of payoff matrix, por Guillermo E. Delmas, Sergio E. Lew e B. Silvano Zanutto:

In this work, we trained rats in iPD against an opponent playing a Tit for Tat strategy, using a payoff matrix with positive and negative reinforcements, that is food and timeout respectively. We showed for the first time, that experimental rats were able to learn reciprocal altruism with a high average cooperation rate, where the most probable state was mutual cooperation (85%). Although when subjects defected, the most probable behavior was to go back to mutual cooperation. When we modified the matrix by increasing temptation rewards (T) or by increasing cooperation rewards (R), the cooperation rate decreased. In conclusion, we observe that an iPD matrix with large positive reward improves less cooperation than one with small rewards, shown that satisfying the relationship among iPD reinforcement was not enough to achieve high mutual cooperation behavior. Therefore, using positive and negative reinforcements and an appropriate contrast between rewards, rats have cognitive capacity to learn reciprocal altruism.

Saturday, April 13, 2019

O leite faz mal?

Regressou à ribalta a discussão se beber leite em adulto faz mal ou não.

O problema dessa discussão é que ninguém diz claramente as coisas como elas são:

a) a maioria dos seres humanos não consegue digerir a lactose em adultos

b) a minoria de humanos que consegue digerir a lactose é maioritária em Portugal (e de uma maneira geral entre povos que descendem largamente de pastores nómadas ou seminómadas, como os antepassados dos celtas)

A discussão sobre o leite normalmente ocorre com as pessoas que dizem "o leite faz mal" a referir-se aos dados mundiais (e sem explicarem que esses dados não são uniformes de país para país e não se aplicam a Portugal) e as que dizem que o "leite faz bem" a referirem-se aos dados portugueses ou no máximo europeus (e sem explicarem abertamente que esses dados não se referem ao conjunto da população mundial mas apenas a um subgrupo - é verdade que, quando querem dar um tom mais científico, explicam que tal se deve a uma mutação ocorrida há uns 6 ou 7 mil anos na Europa central, o que implicitamente exclui a maioria esmagadora dos humanos cujos antepassados não viviam há 7 mil anos na Europa central, mas tal não costuma ser dito explicitamente), dando a ilusão que há uma polémica onde não há nenhuma.

Wednesday, April 10, 2019

Direitos dos denisovanos?

Há mais de 10 anos, eu perguntava:

Imagine-se que se descobria, algures numa floresta ou num vale perdido, uma colónia sobrevivente de Homo erectus; qual deveria ser o seu estatuto? Deveriam ter os mesmos direitos que o Homo sapiens sapiens? Deveria ser considerados "animais", como os gatos e as cabras (o H. s. sapiens também é um animal, mas pronto)? Deveriam ter um estatuto intermédio?
Isto pode tornar-se mais relevante agora:
Os denisovanos podem ter sobrevivido até hoje (e podem estar escondidos numa ilha do Pacífico) (...)

Evidências arqueológicas sugerem que a migração para as ilhas ocorreu há 30 mil anos. Mas ao comparar os genomas dos “continentais” e dos ilhéus, a equipa de Cox adia a data até 15 mil. A única explicação para os dados genéticos encontrados é ter havido cruzamentos adicionais entre “continentais” e denisovanos.

Seria possível que em algumas dessas ilhas remotas ainda houvesse uma população que descenda diretamente dos denisovanos? O próprio Cox diz que não acredita nessa possibilidade, já que “até as ilhas mais isoladas têm demasiado contacto para que algo não seja notado”. Improvável sim, mas não impossível.
Já agora, esta minha passagem no post de 2008 entretanto ficou desatualizada:
Nomeadamente, as pessoas que dizem que "apenas o Homem tem direitos" não costumam ser muito claros no que querem dizer com "Homem" - a familia Hominidae? o género Homo? a espécie Homo sapiens? a subespécie Homo sapiens sapiens (se considerarmos que é uma subespécie)? Claro que o facto de apenas a última existir hoje em dia evita ter que pensar no assunto.
De há uns anos para cá que os chimpanzés, bonobos, gorilas e orongotangos são também incluídos na família dos hominídeos, o que já de si poderia levantar muitas questões e já obriga a pensar no assunto (fazendo lembrar um pouco o exemplo hipotético que Roderick T. Long deu há uns anos sobre  a questão se a lei significa o que está lá escrito ou o que os autores da lei julgavam que lá estava escrito: " If the law says that fishermen may not hunt mammals, then in fact the law says they may not hunt dolphins, even if the lawmakers had thought dolphins were fish. Likewise, if the law says that involuntary servitude is forbidden, then the government may not conscript soldiers, since military conscription is in fact involuntary servitude, even if those who wrote the law did not recognize this").

Thursday, April 04, 2019

Imagino que a coligação trumpista possa ter diferentes opiniões sobre isto

The U.S. Is Tracking Migrant Girls' Periods to Stop Them From Getting Abortions, por  Jennifer Wright (Harpers Bazzar):

We still don’t know where 1,488 migrant children are. The U.S. government lost them. They admit as much. Even though the court ordered a halt to the policy of family separation, 245 more children have been taken from their parents. So they can’t figure out where children separated from their parents are, but by God, they can keep track of teenage migrant girls' menstrual cycles.

There are 28 pages detailing the periods, pregnancies and reason for the pregnancy (whether by rape or not) of teen girls in custody, some of whom are as young as 12. There may well be reasons for the government to track whether or not a woman is pregnant, and how far along in her pregnancy she is, but there’s no reason to track the cause of her pregnancy. It’s pretty fair to assume that they’re not doing this because they want to ensure women know all the options regarding their pregnancy. It’s almost certainly an attempt to bar them from getting abortions.

We know that, because the tracking was done by the anti-abortion advocate Scott Lloyd, the head of refugee resettlement at the height of the children separation (he has since been removed from that post). Lloyd declared he needed to sign off on all abortion requests (this was previously not the case) and in one instance, attempted to use a migrant girl as a way to test an “abortion reversal” method. (...)

And what happens when these children are born? Well, that’s hard to say. However, we know that many migrant children have gone to Bethany Christian Services, an organization that has received hundreds of thousands of dollars from Trump’s education secretary, Betsy DeVos. It is also an agency that allegedly won’t place children with LGBTQ couples. Asylum-seekers are separated from their children, and then told by officials that if they don’t “behave” they will put their children up for adoption. (...)

And now, here we are again, with pregnant women being tracked to ensure they’ll give birth to babies that a 13-year-old mother may not find themselves equipped to raise. We have plenty of reason to suspect where the babies will end up.

If the government can compel marginalized women to have children to give to the government’s preferred people, then you don’t need to make jokes about how America is turning into The Handmaid’s Tale anymore. We’re already there. We just don’t have the bonnets.
Isto é um assunto em que os conservadores religiosos e os nativistas (ou pelo menos a ala mais biológica do que cultural do nativismo) poderão ter sentimentos diferentes - imagino que os últimos adorariam a ideia das raparigas imigrantes terem acesso fácil a abortos.

Monday, March 25, 2019

Evolução tecnológica

Ontem, um amigo pediu-me ajuda para saber quem informar a respeito de uma ave morta com anilhas que ele encontrou; fui a um grupo do facebook sobre o assunto, deram-me algumas respostas, das quais noto sobretudo esta:

«A anilha de alumínio geralmente tem uma morada, se escrever os dados dessa anilha, e da outra numa carta e enviar para lá, é possível que resulte. Eu há uns 35 anos fiz isso para a Noruega, passados uns meses recebi uma carta com todos os dados da ave, onde e quando tinha sido anilhadas, quantos km tinha feito na migração, etc....»

Mas entretanto pus a tal morada no Google, que indicou logo um site, onde às 22:40 de ontem preenchi um form indicando os códigos das anilhas e onde a ex-ave tinha sido achada - às 6:36 da manhã de hoje já tinha recebido um mail com a tal biografia da ave (era uma gaivota-de-Audouin, anilhada no ninho em 2017 em Amposta, Tarragona, e que pelos vistos veio morrer em Portimão, em 2019).

As várias esquerdas nos EUA

The US Left Has Only Four Tendencies e What Is The Left?, por Sophia Burns.

Friday, March 22, 2019

EUA: hospedeira "dreamer" detida depois do seu avião ir e voltar do México

Airline Assured Flight Attendant She’d Be Safe to Fly to Mexico. When She Returned, ICE Detained Her ():

Selene Saavedra Roman, 28, a resident of College Station, Texas, had been a crew member for Phoenix-based Mesa Airlines for less than a month in February when she was scheduled for a flight to Mexico out of Houston’s George Bush Intercontinental Airport (IAH), even though she’d already made it clear that she didn’t want to work any flights outside the US. (...)

Saavedra immediately told her supervisors she was worried — she was, after all, a so-called Dreamer, one of an estimated 700,000 immigrants to the US who fall under the Deferred Action for Childhood Arrivals policy. Saavedra came illegally to the US from Peru when she was 3 years old, grew up in Dallas, went to college in Texas, and married a US citizen. She has a Social Security number and pays taxes, and was halfway through the process of getting her official citizenship. Leaving the country, she feared, could jeopardize her DACA status.

But Mesa Airlines insisted she was legally all right to fly to Mexico and back. (...)

Saavedra flew to Mexico out of Houston on February 12, using a Peruvian passport, then got on a return flight for an immediate turnaround. It was the first time she’d left the States since she’d entered it as a child. When she went through customs, officials told her her paperwork wasn’t in order and pulled her aside.

She ended up being held at the Houston airport for 24 hours, then Immigrations and Customs Enforcement transferred her to a privately run immigration detention facility in Conroe, Texas, one of several that have sprouted up in the past couple of years to cope with the administration’s restrictive border policies. (...)

Worse, Arroyo said that she learned recently that ICE has actively pushed to revoke Saavedra’s DACA status and deport her to Peru. Saavedra’s scheduled for an April 4 hearing where she will have to convince a federal immigration judge that she shouldn’t be sent to a country she hasn’t seen since she was a toddler.
Esta história, aliás faz duvidar do que Bryan Caplan escrevia há um ano (A Deal on Immigration is Most Unwise), onde argumentava que dificilmente "dreamers" seriam deportados.

Tuesday, March 12, 2019

O debate sobre a "teoria monetária moderna"

O que acho que percebi sobre a "teoria monetária moderna" - na melhor das hipótese, é apenas uma variante da economia mainstream (nomeadamente keynesiana) com outro nome, e fazendo as contas ao contrário (imprimir moeda para financiar a despesa pública e cobrar impostos para controlar a inflação), mas provavelmente dando o mesmo resultado; na pior é uma receita para uma hiperinflação de estilo sul-americano.

A discussão que tem havido sobre o assunto:

Reverse-engineering the MMT model, por Nick Rowe (2011/04/15), 8 anos antes da discussão começar mas pode ser considerado um membro honorário da conversa

Nonsense economics: the rise of modern monetary theory, por Jonathan Portes (2019/01/30)

The Wealthy Are Victims of Their Own Propaganda, por Stephanie Kelton (2019/02/01)

Why the left and Labour really do need to adopt the core ideas of modern monetary theory, por Richard Murphy (2019/02/02)


Modern monetary theory in a nutshell, por Richard Murphy (2019/02/06)

Misunderstanding MMT, por Jo Michell (2019/02/06)

What’s Wrong With Functional Finance? (Wonkish), por Paul Krugman (2019/02/12)

Modern Monetary Theory Is Not a Recipe for Doom, por Stephanie Kelton (2019/02/21)

Modern Monetary Theory Isn’t Helping, por Doug Henwood (2019/02/21)

Uma terceira via para a Venezuela

A Call for Clear Heads on Venezuela: How To Criticize Maduro While Opposing U.S. Regime Change, por Alejandro Velasco:

Amid crippling sanctions and threats of military intervention in Venezuela, many have put forward two options: support regime change or support the government of Nicolás Maduro. But this is a false choice. Instead, the U.S. Left can follow the lead of the popular, working-class sectors in Venezuela who have long maintained a complicated relationship to the chavista government. These movements show that criticism of the government—leftist in name but increasingly prone to corruption and repression—doesn’t mean support for the right-wing U.S.-backed opposition. In fact, healthy critique has been necessary to advance the socialist project. (...)

Yet popular support for chavismo was never uncomplicated or automatic. Anyone who has spent more than passing time with residents of Venezuela’s sprawling urban barrios can confirm that stinging criticism of the government has long been common. In chavismo’s early years, popular sectors inspired by Chávez’s rhetoric of empowerment demanded follow-through in the form of greater control over state resources, often taking to the streets against state institutions and officials deemed weakly committed to the kind of radical change Chavez increasingly promised. At other times they took to the polls, helping hand Chávez his only electoral defeat in 2007 in a failed constitutional reform that sought to concentrate rather than delegate power. (...)

Even if the record of U.S. involvement in the region were not sufficiently sordid to sound alarms, the fact that war hawks such as Marco Rubio, John Bolton and Elliott Abrams are helming U.S. policy on Venezuela should confirm that democracy, human rights and humanitarianism are no priority. Military options would prove catastrophic in the short term, as even some opposition sectors begrudgingly admit. They would also scuttle any effort to generate stability in the medium term, laying the grounds for a puppet regime with little credibility beyond its backers domestically and abroad.

But rejecting U.S. intervention must also mean rejecting Nicolás Maduro—lifting up critical popular-sector voices and refusing to feed into discourse that paints him as democratically legitimate, or a true leftist. Not as an empty gesture to “fairness,” but because Maduro’s government has long proven an obstacle to social justice in Venezuela. 

Monday, March 11, 2019

Desfechos para o Brexit

Brexit: Where do we go from here?, no Flip Chart Fairy Tales (via The Brexit Blog):

O que realmente se passa com a eletricidade venezuelana?

Uma sucessão de posts no Twitter por Anatoly Kurmanaev, condensados aqui:

I went to the heart of Venezuela’s transmission system in Guarico to try to find out what’s going on with the grid. Here’s why partial blackouts are unfortunately likely to persist for a while. I sincerely hope I’m wrong. (...)

San Geronimo B is not working because it’s not getting sufficient (if any) current from Guri. That’s the scariest part. It provides evidence that the government is far from successfully restarting its turbines.

What caused the Guri failure? Corpoelec union leader Ali Briceño said it was brush fire under the 765 KV trunkline which caused a surge in the system and caused Guri to shut down. There are no skilled operators left there to restart it. (...)

Briceno’s theory is “possible but not probably,” said one of the people who built that trunkline. Fire would’ve had to occur in a relatively small stretch, between Guri & the first 765 KV substation, Malena, for that to happen. (...)

Most people I talked to say the problem had to occur inside Guri’s turbines themselves. And that’s a scary thought. If they are damaged, they will be very hard to replace or repair. No money or skilled people.

One Corpoelec manager said after the blackout a Guri operator told him “the turbines are failing,” before hanging up. He hasn’t been able to reach anyone there since. Sebin is a constant menace.

And without Guri, it’s Mad Max.

The government’s failure to present a coherent explanation is only raising my fears that something really bad has happened.
Eu confesso que li a thread toda e fiquei sem perceber o que era exatamente esse "Guri" que tinha falhado e cujo falhança fazia que a sub-estação San Gerónimo B também não funcionasse (imaginei que fosse alguma central elétrica com turbinas), mas indo ao Google rapaidamente percebi que é uma central hidroelétrica (imagino que isso fosse conhecimento comum para qualquer pessoa interessada em assuntos venezuelanos e por isso Kurmanaev não achou necessário explicar).

Ainda sobre isso, Venezuela's electrical collapse, por James Bosworth:
The electrical outage in Venezuela is almost certainly caused by a lack of maintenance and personnel. The system has been on the verge of collapse for years. The fact this collapse didn’t happen sooner says something about the resilience of certain legacy systems and the ingenuity of a few brilliant workers who sometimes duct taped stuff together to keep it running. (...)

That final point about communications has become absolutely critical to the ongoing political clash. Guaido’s people have lost much of their capabilities to coordinate protests and actions across the country. Maduro has lost his ability to communicate with security forces and the security forces are limited in how they can communicate with each other. The lack of communications increases the potential for mistakes on all sides.. (...)

The failures of the electrical system and all the cross-connected CI systems points at some major challenges for the next Venezuelan government. Maduro’s people may get a temporary fix in place in the coming days, but the fragility and lack of resilience in the system has been laid bare. This is a problem that requires billions in investment, from the turbines at Guri to the generators at hospitals, not a simple fix of a transmission line.

Faced with a full electrical system collapse, the country should try to leapfrog technology and get solar and battery backup systems into microgrids around the country to build something much less centralized and more resilient. That may seem like magical thinking today given the multiple overlapping tragedies that are occurring right this moment, but this is a big problem that needs big and ambitious solutions.

Sunday, March 10, 2019

Elizabeth Warren propõe "partir" gigantes da internet

Senator Elizabeth Warren Announces Plan To Break Up Amazon, Google And Facebook (Huffpost):

In Friday’s post, Warren breaks her proposal down into “two major steps.” The first would be passing legislation that designates tech platforms with annual revenues surpassing $25 billion as utilities that “would be prohibited from owning both the platform utility and any participants on that platform.”

“Amazon Marketplace, Google’s ad exchange, and Google Search would be platform utilities under this law,” she writes. “Therefore, Amazon Marketplace and Basics, and Google’s ad exchange and businesses on the exchange would be split apart. Google Search would have to be spun off as well.”

Additionally, Warren proposes disallowing these so-called “platform utilities” from sharing data with third parties.

The second major proposal of Warren’s plan would be appointing regulators dedicated to using current rules to “unwind anti-competitive mergers,” like those between Amazon and Whole Foods, Facebook and Instagram. “Unwinding these mergers will promote healthy competition in the market ― which will put pressure on big tech companies to be more responsive to user concerns, including about privacy,” she said.
Quando li só o título, pareceu-me dificil partir "gigantes" em ramos que têm grandes economias de escala e/ou de rede - nomeadamente o Facebook, cuja utilidade para cada um dos participantes consiste exatamente em haver muitos outros participantes no Facebook; mas lendo tudo vejo que a ideia é sobretudo combater a concentração vertical (a mesma empresa possuir muitos negócios), não tanto a concentração horizontal (uma empresa dominar um dado negócio).

E também sobre isso, um artigo que li há dias em The American Conservative, The Death of the Internet, por Jonathan Tepper:
Although the architecture of the internet is still decentralized, the ecosystem of the World Wide Web is not. A few giant companies have near-monopolistic control of traffic, personal data, commerce, and the flow of information.

If you had to choose a date for when the internet died, it would be in the year 2014. Before then, traffic to websites came from many sources, and the web was a lively ecosystem. But beginning in 2014, more than half of all traffic began coming from just two sources: Facebook and Google. Today, over 70 percent of traffic is dominated by those two platforms.
[Isto não deve ser muito frequente - linkar uma proposta da Elisabeth Warren e um artigo de The American Conservative no mesmo post]

Friday, March 01, 2019

Qual a função de um RBI?

Universal Basic Income: Preliminary Results from the Finnish Experiment, por Timothy Taylor:

The big selling points for a universal basic income are simplicity and work incentives. The simplicity arises because with a universal basic income, there are no qualifications to satisfy or forms to fill out. People just receive it, regardless of factors like income levels or whether they have a job. There are not bureaucratic costs of determining eligibility, and no stigma of applying for such benefits or in receiving them.

The gains for work incentives arise because many programs aimed at helping the poor have a built-in feature that as you earn more on the job, you receive less in government assistance. From one standpoint, this seems logical and fair. But economists have been quick to point out that if someone loses a dollar of government benefits every time they gain a dollar from working, the implicit tax rate is 100%. When there are a number of different programs aimed at the working poor, all phasing out on their own individual schedules as income rises, the result can be that low-income people face very high implicit tax rates--evenin some situations close to 100%. But a universal basic income does not decline or phase out as someone earns more income.
Um paradoxo do RBI (sobre o qual provavelmente ainda irei escrever mais qualquer coisa) é que, apesar de uma das suas vantagens ser exatamente ser menos desincentivizador do trabalho que quase todos os outros mecanismo de proteção social, grande parte da discussão  sobre ele (tanto da parte de oponentes como de defensores) é feita assumindo que a grande peculiaridade do RBI seja permitir viver sem trabalhar (seja da parte dos defensores que o propõem como uma solução para um suposto problema de desemprego tecnológico, seja da parte dos criticos - um deles, a respeito do aparente fracasso do pseudo-RBI finlandês em aumentar o incentivo a procurar trabalho, até escrevia que "as leis da economia funcionam", o que é um perfeito disparate: as "leis da economia" diriam que uma pessoa que receberá um subsídio de X quer arranje ou não emprego tem mais incentivo do que uma que apenas receberá um subsídio de X enquanto não arranjar emprego; se alguma coisa, o suposto falhanço do RBI finlandês demonstrará os limites ao mundo da economia neoclássica, e talvez sobretudo das teorias que dizem que o desemprego é causado por os desempregados não andarem a sério em busca de emprego).

Mas como já disse noutros sitios, suspeito que o problema é que muita gente associa RBI, não tanto a "subsidio igual para toda a gente, sejam ricos ou miseráveis" mas sim a ""subsídio suficiente para se conseguir viver sem outras fontes de rendimento" (já li pessoas a dizerem que um subsidio universal pequenino é um RSI e não um verdadeiro RBI, e também outras pessoas a dizerem que um subsidio - elevado - para as pessoas de menos rendimentos que existe na Arábia Saudita é um RBI)..

Wednesday, February 27, 2019

Adeus, Pantufa

quase 10 anos, estava-te a treinar na caça aos ratos; hoje foste-te embora.

Os perigos de invadir a Venezuela

With U.S. military action, Venezuela could become the Libya of the Caribbean, por Francisco Toro, no Washington Post:

As a result, vast swaths of Venezuela are controlled not by President Nicolás Maduro’s government but by a baffling proliferation of armed nonstate actors that include powerful prison gangs, Colombian guerrillas from the ELN or from splinter groups of the disbanded FARC, various ideologically infused “colectivos” — in effect, paramilitary groups subscribing to a vaguely Marxist ideology and allied with the government. These groups make a handsome living from any number of illegal activities: trafficking cocaine, illegal gold mining, extortion, human trafficking, smuggling — you name it. (...)

And yet, if the United States does go on the offensive, it’s clear it’s the Venezuelan military they’ll target first. Dysfunctional as it is, the armed forces have fixed installations — radar positions, air force bases, barracks — that could be targeted by a cruise-missile-guidance system.

The paramilitary gangs who actually control the territory, for their part, operate from civilian quarters. No U.S. military plan would be able to target them, even if it set out to do that. (...)

Actual U.S. military action to destroy the Venezuelan military would be a catastrophe. It would remove the one actor that might eventually be able to regain control over the country and deliver it instead into the hands of a wild variety of criminal gangs. Libya in the Caribbean.
[Via Outside the Beltway]

Monday, February 25, 2019

Há muitos ativistas de esquerda a viver em casa dos pais?

Há dias, numa discussão no Facebook regressou à vida a notícia de 2017 de que 92% dos ativistas de esquerda detidos em manifestações em Berlim viviam em casa dos pais. Já na altura a veracidade desses números foi muito posta em causa - ver, por exemplo, estes comentários no Marginal Revolution ("That figure is almost certainly due to bad data. In Germany, you are legally required to register your new place of residence with the municipal authorities when you move, but in practice this requirement is not enforced. For ideological reasons, people on the radical left are unlikely to comply with it (other people, who move often - e.g. students - may not comply with it out of laziness). Since all of them were registered as children with their parents (for schooling, etc.), they will simply remain registered there as long as they don't report their new place of residence to the authorities.") ou este artigo no Tagesspiegel, um jornal que até penso ser bastante para a direita (o artigo está em alemão, e mesmo passando pelo Google Translate não se percebe quase nada, mas parece que a maioria dos casos afinal são pessoas em que não se conseguiu apurar onde moravam, e esses 92% serão 92% da minoria em que se sabe onde moram).

No entanto, talvez seja interessante ver se na realidade "ativistas de esquerda" são mais, menos ou igualmente dados a viver com os pais em comparação com a população em geral (o meu primeiro instinto foi assumir "menos", partindo do principio que pessoas de direita terão mais aquela mentalidade de só sair de casa dos pais quando se casam, mas depois lembrei-me que por outro lado provavelmente também se casam mais); não faço a mínima ideia de como ver isso para a Alemanha (a origem da conversa) ou para Portugal, mas nos EUA temos sempre o GSS, portanto vamos lá.

Tuesday, February 12, 2019

Posts que quase por acaso reli esta manhã

Esta manhã, como estava a ver se encontrava um link antigo, ao fazer uma busca aqui no blogue acabei por reler alguns posts antigos que tinha escrito - dois foram estes: A saída do "Fórum Manifesto" do BE (sobre a saída da Ana Drago e mais uns quantos do BE)  e  Aliança PS/BE? (neste o relevante não é post em si, totalmente desatualizado, mas sobretudo a pergunta nos comentários feita pela "Tárique", sobre «o que é que a facção "revolucionária" ainda anda a fazer atrelada ao bloco.»). Quando ao fim da tarde fui ao facebook e vi as notícias, lembrei-me dos posts que tinha estado a ler mesmo de manhã.

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Sobre greves, fundos de greve, etc.

Em defesa do direito à greve dos Enfermeiros, de Jonas Van Vossole (Praxis Magazine):

Que a direita ataque o direito à greve, é natural; faz parte da sua matriz ideológica e do seu interesse de classe. Que o centro político, quando está no poder, ataque o direito à greve; já nos acostumá-mos. Isso faz parte da sua manutenção no poder na gestão da economia capitalista. Mas que a esquerda, e as lideranças sindicais, ataquem os direitos básicos da luta dos trabalhadores, isso já me assustou. (...)

Comecemos pela questão dos fundos de greve e a sua transparência. Na Bélgica todos os sindicatos têm fundos de greve. Os fundos são utilizados para financiar a luta social, as greves e as manifestações. Os fundos de greve cobram as perdas de salários e eventuais custos de transporte e alimentação para manifestações nacionais.

Friday, February 08, 2019

Os saltos na definição de "socialismo"

Trump Versus the Socialist Menace, por Paul Krugman:

What do Trump’s people, or conservatives in general, mean by “socialism”? The answer is, it depends.

Sometimes it means any kind of economic [interventionism]. Thus after the SOTU, Steven Mnuchin, the Treasury secretary, lauded the Trump economy and declared that “we’re not going back to socialism” — i.e., apparently America itself was a socialist hellhole as recently as 2016. Who knew?

Other times, however, it means Soviet-style central planning, or Venezuela-style nationalization of industry, never mind the reality that there is essentially nobody in American political life who advocates such things.

The trick — and “trick” is the right word — involves shuttling between these utterly different meanings, and hoping that people don’t notice. You say you want free college tuition? Think of all the people who died in the Ukraine famine!
Eu até acho que AMBAS as definições estão erradas (e há algum tempo que penso fazer um post sobre isso...), mas de qualquer maneira há anos que me passeio por fóruns e caixas de comentários de blogues liberais e há muito que noto essa ambiguidade: por um lado, chamam a qualquer intervenção estatal na economia de "socialismo" (exceção - quando querem negar que os países nórdicos sejam socialistas), e depois dizem que Mises já demonstrou que o socialismo não funciona (quando me parece que o argumento de Mises sobre a "impossibilidade do cálculo económico num regime socialista" só se aplica a um sistema económico em que os preços sejam fixados pelo Estado, ou em que nem haja preços).

[Post publicado no Vias de Facto; podem comentar lá]

Thursday, February 07, 2019

Redes sociais, esquerda e direita

Há uma teoria de que a internet e as redes sociais (e antes os blogues) estariam a dar força à direita, e seria o responsável pelas recentes vitórias desta (Trump, Brexit, Bolsonaro)  - e essa teoria vem tanto da direita (e aí a variante é qualquer coisa envolvendo o "legacy media" que estaria ao lado da esquerda e que estaria a ser curto-circuitado pelas redes sociais) como da esquerda (e aí o alvo são inevitavelmente as fake news).

Mas isso fará algum sentido? A parte das fake news penso que não tem grande ponta por onde se lhe pegar (pelo menos na variante que terão eleito o Trump); e de qualquer maneira está confirmado que o eleitorado de Trump foram as pesssoas que menos passam na internet. Vamos puxar um bocadinho pela cabeça - é mais ou menos sabido que Trump, o Brexit, o FPOe austríaco, etc., têm tido as suas maiores votações nas pequenas localidades, entre as pessoas mais velhas e com menos instrução (a parte das localidades é sabido - basta ver os resultados; a parte do "pessoas mais velhas e com menos instrução" pode não ser assim tão linear, mas é o que as sondagens indicam); parecem-lhes mesmo o tipo de pessoa que passa o dia no Facebook, talvez com um intervalinho para jogar no Farmville ou para ver um filme no Netflix? Eu imagino-os mais facilmente no café do bairro a queixarem-se que "os miúdos de hoje estão sempre agarrados à máquina e já não fazem desporto nem convivem".

[Atenção que o Bolsonaro parece ser um caso à parte, com os melhores resultados entre a população mais instruída, e com o Nordeste rural - em contracorrente ao Deep South dos EUA e ao norte de Inglaterra no Brexit - a votar PT].

Wednesday, February 06, 2019

O verdadeiro islamo-fascismo?

Dutch former anti-Muslim politician converts to Islam (Politico.eu):

A former member of Geert Wilders’ far-right Dutch party announced Monday that he has converted to Islam.
Joram Van Klaveren said he made the switch from critic to convert while writing a book about Islam.

“During that writing I came across more and more things that made my view on Islam falter,” he told Dutch radio. (...)

Arnoud van Doorn, a former PVV official, was an earlier convert to Islam. Van Doorn congratulated Van Klaveren on his decision via Twitter, writing: “[I] never thought that the PVV would become a breeding ground for converts.”
Far-right AfD member converted to Islam in protest at acceptance of gay marriage in the church (The Telegraph):
A politician from the nationalist Alternative for Germany party (AfD) who shocked colleagues by converting to Islam says he did so because he was unhappy with the church’s acceptance of gay marriage.

Arthur Wagner made headlines around the world last week after it emerged that he had become a Muslim.

The AfD, which last year became the first nationalist party to win seats in the German parliament since the sixties, campaigns on an openly anti-Muslim platform. One of its elections slogans was “Islam has no place in Germany.”
[Ver esta thread no Twitter]

Venezuela e socialismo

Eu não concordo com muito do que o autor (o diretor do jornal oposicionista venezuelano em língua inglesa Caracas Chronicles) escreve aí em baixo (nomeadamente acho que ele está a usar uma definição muito alargada de "socialismo" - note-se que o argumento dele não é "a Venezual não é socialista" mas sim "o Equador, Bolívia, Brasil, etc. também são ou foram socialistas"), mas...

No, Venezuela doesn’t prove anything about socialism, por Francisco Toro, no Washington Post:

Venezuela is clearly having its moment in the American conservative mediasphere. The country’s catastrophic collapse is, we’re told, all we need to know about the terrifying dangers of socialism. (...)

I’ve spent two decades chronicling every agonizing twist and turn in the decay of Venezuela’s democracy, economy and society. You’d think I’d be on board with these takes. Think again. I’m revulsed. It’s appalling to see my country’s suffering leveraged for cheap partisan point-scoring. (...)

It bothers me because it’s lazy. But it bothers me more because it’s wrong.

Since the turn of the century, every big country in South America except Colombia has elected a socialist president at some point. Socialists have taken power in South America’s largest economy (Brazil), in its poorest (Bolivia) and in its most capitalist (Chile). Socialists have led South America’s most stable country (Uruguay) as well as its most unstable (Ecuador). Argentina and Peru elected leftists who, for various reasons, didn’t refer to themselves as socialists — but certainly governed as such.

Mysteriously, the supposedly automatic link between socialism and the zombie apocalypse skipped all of them. Not content with merely not-collapsing, a number of these countries have thrived.

1687?

Ask the Queen to suspend parliament, Rees-Mogg urges May (The Times):

Theresa May should demand that the Queen suspends parliament to halt plans to stop a no-deal Brexit, Jacob Rees-Mogg has said.

The chairman of the European Research Group of backbench Conservatives warned that “vestigial constitutional means” could be necessary to stop a no-deal Brexit being taken off the table, and that if the government did not use them they will have “connived” in the rebels’ actions.
Esta noticia é de 23 de janeiro e já perdeu a atualidade, mas mesmo assim acho relevante.

Tuesday, February 05, 2019

Venezuela: há alternativa ao madurismo e à direita?

Num comentário ao post anterior, um comentador escreve:

Na medida em que se perguntarem aos cidadãos outrora chavistas que medidas deve o governo tomar, duvido que haja um consenso sobre privatizacoes, fim de servicos gratuitos de saúde e educação e etc que foram as bandeiras do chavismo e que também eram defendidas pelos que derrubaram o muro de Berlim. E no entanto a haver eleições terá de ser esse o programa vencedor, duvido que haja alternativa. E daqui a 5 ou 10 anos haverá mais mercadorias nas prateleiras mas provavelmente haverá uma certa frustração quanto ao resto, e o resto não é coisa pouca.
Caso o regime de Maduro caia (a minha previsão - o mais provável é que caia num mês ou menos, e sem intervenção militar estrangeira direta), haverá alguma alternativa à oposição de direita (onde estou, no contexto venezuelano, a incluir os partidos ligados à Internacional Socialista, como o do proclamado "presidente interino" Guaidó)? Isto é, um movimento político que preserve as políticas sociais lançadas por Chavez e ou mesmo pelo menos parte das nacionalizações mas sem o autoritarismo?

Já agora, a respeito das nacionalizações, convém lembrar que muito do que foi nacionalizado durante o chavismo (sobretudo antes de terem entrado na linha de nacionalizar padarias por venderam acima do preço tabelado) foram empresas que já tinham sido estatais e depois tinham sido privatizadas nos anos 90 (p.ex., a companhia telefónica, e creio que também muitas concessões de exploração petrolífera), o que indicia que o elas estarem nacionalizadas não é só por si razão para haver uma catástrofe económica.

Há efetivamente uma vasta gama de "chavistas críticos", representados nomeadamente pela "Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição", que poderiam servir de pólo a uma terceira via; a questão é saber se terão mesmo um nicho potencial de apoiantes; ou, por outras palavras, será que os sectores da população que apoiavam Chavez e agora estão contra Maduro (e quase de certeza que esses sectores existem, já que tudo indica - até os resultados das eleições parlamentares com um e o outro - que Chavez tinha muito mais popularidade, logo alguma transferência deve ter havida) estarão em modo "o Chavez era bom, o mal é este agora" ou em modo "onde estávamos com a cabeça quando apoiámos o Chavez?"? Se for o primeiro caso, é possível que procurem uma alternativa anti-madurista mas que não rompa totalmente com a herança do chavismo.

Outras possíveis terceiras vias poderiam partir partidos oposicionista, como a Avançada Progressista, de Henri Falcón, ou o Movimento Progressista, que têm origem em partidos da coligação chavista (o Podemos e o Pátria Para Todos) que entretanto romperam com o regime e que acabaram por se dividir em facções pró- e anti-governamentais (com os tribunais a atribuírem o controlo dos partidos aos grupos pró-governo e os oposicionistas a criarem estas novas organizações), mas esses estão muito mais alinhados com a oposição tradicional.

Há também alguns grupos de extrema-esquerda anti-regime, como os trotskistas do Partido Socialismo e Liberdade e da Maré Socialista e os "hoxhaistas" da Bandeira Vermelha, mas duvido que tenham qualquer implantação real (e a Bandeira Vermelha também estará demasiado comprometida com a oposição tradicional).

Wednesday, January 30, 2019

Os bairros populares de Caracas: do chavismo ao anti-madurismo

As Petare Rises Up, FAES Wages War On The Poor, por Gabriela Mesones Rojo (Caracas Chronicle):

By 8:00pm, Joana thought a war had started. A three-hour shootout took hold of the area. “They were using automatic weapons and tear gas. We heard screams, chaos.”

Why? Because of something people in the “formal city” have barely noticed: the barrio turned on Maduro.

The chavista regime can no longer count on the big shantytowns in Caracas for support. What was once the cradle of urban chavismo and colectivos, is now the main focus of protest and violence against Maduro and his government.

 Repression has been fierce in urban areas: the death toll keeps growing, as reports of FAES executions keep people terrified. Reports proliferate of growing numbers of arbitrary and underage detentions, the barrios speak up, but the shadow of repression wants to slience them.

Bernie Sanders sobre a Venezuela

No twitter:

The Maduro government has waged a violent crackdown on Venezuelan civil society, violated the constitution by dissolving the National Assembly and was re-elected last year in an election many observers said was fraudulent. The economy is a disaster and millions are migrating.

The United States should support the rule of law, fair elections and self-determination for the Venezuelan people. We must condemn the use of violence against unarmed protesters and the suppression of dissent.

But we must learn the lessons of the past and not be in the business of regime change or supporting coups—as we have in Chile, Guatemala, Brazil & the DR. The US has a long history of inappropriately intervening in Latin American nations; we must not go down that road again.

Sunday, January 27, 2019

Os erros da esquerda pró-chavista

On Backing Chavez, por Chris Dillow:

I was impressed to see Ian Dunt say he was wrong to have supported Hugo Chavez. Everybody makes mistakes: the difference is that some people have the insight to see that they do and the integrity to admit it.

What’s striking in this context is just how many mistakes many leftists made in supporting Chavez: I’m speaking here of all leftists, not just Ian. 

I don’t just mean the common errors of wishful thinking and the “my enemy’s enemy is my friend” fallacy that results from the tribalism Ian decries.

O que está a acontecer na Venezuela é um "golpe"?

Uma explicação no Twitter, por David Luhnow:

Some politicians and folks on the left in US, Europe and Latam wonder if what is happening in Venezuela is a coup against de facto President Nicolas Maduro. Let’s use an analogy that might help.

Imagine a world where US President Donald Trump stacked the Supreme Court and other institutions with political hacks. The midterms come, and Democrats win a resounding 2/3 majority in Congress. Stunned, Trump gets courts to declare Congress null and void, ignores its decisions.

Trump then creates another Congress, filled with his own supporters, to pass laws. When there are street protests against this, he sends out National Guard to crack down. More than 100 are killed by security forces. Thousands arbitrarily arrested.

Top democratic leaders are arrested or forced into exile. Some are tortured.

Trump then heads for re-election. But his administration bars any top Democrat from running. The Democrats boycott the election. Trump holds it anyway and wins! No credible observers are allowed. Even the guy who set up the electronic voting system says there’s fraud.

Trump is sworn in by his fake congress. The real Congress, meanwhile, says he’s an illegitimate president. And, according to law, they swear in the head of Congress as the legitimate president until new elections can be held. That interim president is recognized by many nations.

Now, is that a coup by the real Congress? Or has the coup already taken place by the president? In a nutshell, that’s what happened in Venezuela.

Saturday, January 26, 2019

Maduro: o princípio do fim?

“Enough already!’ Venezuela’s highest ranking military diplomat breaks with Maduro (Miami Herald):

The military attaché at the Venezuelan Embassy in Washington, Col. José Luis Silva, broke with the Nicolás Maduro regime Saturday and urged other armed forces members to recognize Juan Guaidó as the legitimate interim president of the South American nation.
Poderá-se perguntar - "um diplomata (adido militar), ainda por cima nos EUA, mudou de lado? E o que é que isso interessa? O que interessa é quem têm o poder efetivo de governar na Venezuela", mas é relevante no sentido de indicar que começa a haver divisões entre o que até agora era a eleite do regime.

Friday, January 25, 2019

Sobre o "gender gap"

Thoughts on the gender pay gap, por Chris Dillow:

To cite just two examples from conventional social science, Alison Booth has shown that girls from single-sex schools are as competitive as boys. This, she says, “suggests that observed gender differences might reflect social learning rather than inherent gender traits.” And Marta Favara has shown that girls who go to single-sex schools are more likely to study maths and sciences than others. In both cases, all-girl schools (at the margin) discourage girls from acting girly and so steer them away from stereotyping.

In this sense, two things might both be true. It might be that the gender pay gap is not due to employers discriminating against women. But nevertheless it might also be true that women are the victims of sexism because of (among other things) how they are socialized. (...)

The point here is a simple one. Inequalities are not necessarily due to bad people deliberately doing bad things. They can instead be the result of impersonal mechanisms.