Thursday, August 22, 2019

Raízes da "nova direita" brasileira

The New Brazilian Right, por Nick Burns (American Affairs*), uma análise aparentemente aprofundada das ideias e percursos de Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo e de um Bruno Tolentino (de que eu nunca tinha ouvido falar).

O artigo apresenta Ernesto Araújo como uma espécie de William F. Buckley brasileiro, tentando unir liberais e conservadores, e isso fez-me lembrar algo que já me tinha passado pela cabeça: embora seja frequente (a começar pelos próprios) apresentar Bolsonaro como parte do mesmo fenómeno que Trump, Salvini ou Orbán, a mim parece-me que Bolsonaro em muito aspetos é mais uma variante, não do trumpismo, mas do conservadorismo norte-americano pré-Trump - o governo Bolsonaro parece uma versão extremada da combinação "fusionista" de liberalismo económico, conservadorismo social e militarismo, enquanto Trump e os seus congéneres europeus parecem (pelo menos na retórica) nem valorizar muito o liberalismo económico. Aliás, a sociologia dos fenómenos parece confirmar isso - enquanto Trump tem o seu maior apoio entre a classe operária branca, no Brasil parece ter sido a elite instruída que mais apoiou Bolsonaro (pelo menos em termos relativos).

*A American Affairs é uma revista mais ou menos nacional-conservadora

Wednesday, August 21, 2019

A questão da fronteira Irlanda do Norte / Irlanda

The Irish Border and Backstop Explained, por  Dmitry Grozoubinski.

Efeitos inesperados da co-gestão

Companies Might Be Smarter With Workers in the Boardroom, por Noah Smith (Bloomberg):

Referred to as co-determination, this policy -- which has been proposed in the U.S. by Senator Elizabeth Warren -- is often touted as a way to give workers more power to demand better wages and benefits. But its primary benefit might be improving corporate productivity.

A number of economic studies have found this surprising effect. For example, there’s evidence that the 1976 reform boosted total factor productivity at companies subject to the new law. Worker board representation also probably improved shareholder value -- an ironic outcome for a policy that reduces shareholder control. Economists generally cite greater worker input as the reason for these improvements.

Now, a new paper by economists Simon Jäger, Benjamin Schoefer and Jörg Heining sheds even morelight on the issue. Studying a 1994 German reform that abolished mandatory worker  representation for some new smaller companies but locked it in permanently for older ones, the authors found that the companies that were forced to keep workers on the board ended up investing more in fixed capital (buildings, machines, etc.), and becoming more capital-intensive. This added capital, they concluded, raised value added per worker.

Interestingly, Jäger et al. did not find that co-determination had much effect on wages. They were unable to detect any change in the difference between the compensation of lower-end workers and top management, or in the division of income between shareholders and labor. In other words, they found that the main effect of worker representation was not to redistribute the corporate pie, but simply to expand it.

Saturday, August 17, 2019

Manifesto Sindical: “Pela Liberdade e pelo Direito à Greve”

Publicado originalmente na edição do Expresso de 17-08-2019, aqui.
 
No preâmbulo da Constituição da República Portuguesa, onde é exaltado que no dia 25 de Abril de 1974 a resistência do povo português representou uma viragem histórica na sociedade portuguesa.
É ainda aí referido que só foi possível elaborar uma Constituição que correspondesse às aspirações do país devido à Revolução que restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais

A finalizar, menciona ainda o seguinte: “A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno”.

Desde o passado dia 12 de Agosto que temos vindo a observar a luta dos motoristas contra o poder da ANTRAM, a qual tem conseguido condicionar as decisões do Governo.

Por tudo o que se tem passado, não aceitamos que o Governo de Portugal restrinja a liberdade dos Trabalhadores quando estes lutam por melhores condições de trabalho, tal como não iremos ficar impávidos e serenos perante a tentativa do Executivo de restringir o direito à greve, protegendo quem tem mais apoios, inclusive estatais, (Entidades patronais) em detrimento daqueles que lutam dia a dia para o seu sustento e da sua família (Trabalhadores).

Acresce que estamos a falar de trabalhadores que ergueram um novo sindicato em 2018, sem experiência sindical ou politica, e que apenas exigem melhores condições de trabalho, para que sejam cumpridos os desígnios da Assembleia Constituinte que escreveu a Constituição da República Portuguesa, nomeadamente, entre outros direitos, que todos os portugueses sejam tratados por igual, que a lei também seja aplicada às entidades privadas, que o direito à resistência seja protegido quando são atacados os seus próprios direitos, que seja garantido o direito à inviolabilidade da integridade moral, física e do domicilio, e à liberdade e segurança individuais.

Por considerarmos que todos estes direitos foram colocados em causa por um Governo que no presente caso demonstrou várias vezes querer impor à força a manutenção dos lucros exorbitantes das entidades privadas, nomeadamente e em particular da empresa de transportes Paulo Duarte, da Galp e da Vinci, em detrimento de melhores condições de trabalho, estamos dispostos a lutar contra todas as forças que recusem os princípios basilares da nossa Constituição acima mencionados.

E tal como nela está previsto, nenhum trabalhador pode aceitar continuar a receber salários que não garantam uma existência condigna e o trabalho tem que ser prestado em condições socialmente dignificantes, por forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da actividade profissional com a vida familiar.

Com certeza a grande maioria dos portugueses se reveem nestas palavras, pois actualmente vivemos numa sociedade onde ganhar o salário mínimo é o normal e caso alguém se revolte contra isso recebe uma resposta do tipo “se não queres, há mais quem queira”, onde não conseguimos ter tempo suficiente e de qualidade para os nossos filhos, para que estes possam receber os nossos valores e princípios, onde quem luta por melhores condições de trabalho é impedido de o fazer por governos totalitários ou por outros cidadãos que, por estarem tão oprimidos, têm medo de lutar pelos seus direitos e acabam por prejudicar quem tem a coragem de o fazer.

Por tudo o acima exposto, queremos  continuar a defender a garantia de liberdade dos trabalhadores e lutaremos contra quem queira restringir o direito à greve e consequentemente o direito de quem quer lutar por melhores condições de trabalho, sociais e familiares.

Vamos continuar a combater as desigualdades sociais que observamos a crescer dia após dia.
Portugal merece melhor e os portugueses não podem continuar adormecidos.

Será caso para dizer, citando Eduardo Galeano “na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”.

António Mariano – Dirigente da SEAL; Aurora Lima – Dirigente do S.T.O.P.; Bruno Fialho – Dirigente do SNPVAC; Carlos Ordaz – Elemento da CT SPdH/Groundforce; Egídio Fernandes – Dirigente do SIEAP; João Reis – Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Sector Automóvel – STASA; Manuel Afonso – Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores de Call-center; João Pascoal – Movimento Mudar Bancários

[Copiado d'O Estivador]

Thursday, August 15, 2019

Há 50 anos, em Woodstock

Wednesday, August 14, 2019

Os filhos dos "Millenials", à beira de comçarem a entrar na adolescência

Meet Generation Alpha, the 9-year-olds shaping our future, por Ursula Perano:

They're tech heavy, extremely connected and the most senior among them is about 9 years old. Say hello to Generation Alpha. (...) According to McCrindle, a social research agency in Australia, Generation Alpha got its start in 2010, at a rate of 2.5 million births per week. They are primarily the children of Gen Y — Millennials born between 1980 and 1995.

Tuesday, August 13, 2019

O fim do direito à greve

A Lei Da Greve Até Pode Continuar A Existir Formalmente…, por Paulo Guinote:

mas na prática morreu. Como naqueles regimes em que existem formalmente eleições, mas em que os resultados calham sempre à casa, neste momento só existirão greves, no sector público ou privado, quando não perturbar quem manda nos cordelinhos dos serviços máximos e da requisição civil (ou dos militares)

Friday, August 09, 2019

O Reino Unido pode sair da UE a 31 de outubro se o parlamento não quiser?

Can Boris Johnson ignore parliament and force a no deal Brexit?, por Meg Russell e Robert Hazell
(Constitution Unit at the Department of Political Science at University College London).

Para uma visão mais cética, Nothing Compares 2 GNU, por "Phil" (A Very Public Sociologist).

Tuesday, August 06, 2019

A suspensão da democracia parlamentar no Reino Unido por uns tempos - post não-sei quantos sobre o assunto

Brexit: Legal bid to prevent Boris Johnson shutting down parliament (BBC):

A group of politicians has started a legal action aimed at preventing Boris Johnson shutting down parliament to force through a no-deal Brexit.
Sinceramente, pelo que tenho lido acerca do Boris Johnson, não parece nada o tipo de pessoa para fazer o que seria um quase-golpe de Estado (parece-me demasiado bonacheirão e inconstante para isso).

A Elsevier versus o Sci-Hub

Elsevier: "It's illegal to Sci-Hub." Also Elsevier: "We link to Sci-Hub all the time", por Cory Doctorow (Boing Boing):

Yesterday, I wrote about science publishing profiteer Elsevier's legal threats against Citationsy, in which the company claimed that the mere act of linking to Sci-Hub (an illegal open-access portal) was itself illegal.

You'll never guess what happens next.

Elsevier's own journals turn out to be full of links to Sci-Hub.

Monday, August 05, 2019

Voar de avião prejudica necessariamente o ambiente?

Greta, It’s OK to Fly, por Tyler Cowen (Bloomberg):

Greta Thunberg, the 16-year-old Swedish climate activist, recently announced that she will cross the Atlantic Ocean by boat to attend a United Nations global warming summit in New York. She does not believe in flying in airplanes, for the obvious reason that air travel is a contributor to the carbon emissions problem.

I am here with a simple message: Greta, it is OK to fly. Indeed, I encourage you to fly. (...)

But flying isn’t the worst offender when it comes to sources of carbon emissions. Some critics suggest flying accounts for 5% of the world’s carbon emissions, but most estimates put aviation’s share at closer to 2%. Whatever the exact number may be, it is hardly the major problem. (...)

If that isn’t enough for Thunberg, she could ask the airline to let her fly only if there are extra seats on the flight.  (...)

Or think more broadly about how to choose one’s symbolic commitments to combat climate change. Buying a carbon offset, verifiable by an independent third party, seems like a good practical step.
[Eu linkar um artigo não indica necessariamente concordância]

Saturday, August 03, 2019

Causa-efeito entre problemas económicos e estilos de vida desestruturados (II)

Stop Blaming America’s Poor for Their Poverty, por Noah Smith (Bloomberg):

In Japan, people work hard, few abuse drugs, crime is minimal and single mothers are rare. The country still has lots of poverty.
What Noah Smith Gets Wrong about Poverty, por Kevin Williamson (National Review):
Noah Smith has offered a stale slab of conventional wisdom under the hectoring headline: “Stop Blaming America’s Poor for Their Poverty.” The essay compounds sloppy thinking with tedious writing, but it reflects a common line of thinking, the defects of which are worth taking the time to understand.
Why Kevin Williamson is wrong about poverty and bad behavior, por Noah Smith (Noahpinion):
Kevin Williamson of the National Review took issue with my post. In a strongly worded rebuttal, he calls my piece "a stale slab of conventional wisdom", "sloppy thinking", "tedious writing", a "mishmash of tendentious platitudes and misunderstood truisms", and "sloppy analysis, if it counts as analysis at all." Yet despite this vitriol, Williamson fails to substantively rebut any of the points I made. In some cases, his arguments contain logical errors; in others, he simply misunderstands my argument.
Beyond victims and villains, por Scott Sumner (Econlog):
I would suggest replacing the victims and villains approach to poverty with a utilitarian approach. One implication might be to adopt low wage subsidies, which both encourage people to work and also boost the welfare of those who do work. This type of economic policy can make the economy more productive by encouraging employment, and also make it more equitable by boosting the incomes of the poor. I believe that both the US and Japan could benefit from this approach.

Friday, August 02, 2019

Re: Identidade: uma palavra incontornável e perigosa


N' A Destreza das Dúvidas, José Carlos Alexandre escreve sobre as chamadas "políticas da identidade"; alguns comentários meus (pegando nos que fiz no post e desenvolvendo nalguns pontos):

No ocidente,durante quase todo o século XX, os partidos situaram-se num espectro daesquerda à direita – comunistas, socialistas, social-democratas,democratas-cristão, liberais, conservadores. O desejado grau de intervenção do Estado e o empenho na igualdade ou na liberdade individual serviam para situar os partidos (e as pessoas) mais à esquerda ou mais à direita.

O próprio facto de os conservadores estarem à direita dos liberais [e mesmo os democratas-cristãos por vezes são considerados como estando à direita dos liberais – no PE o grupo Liberal e o grupo do PPE foram trocando de lugares ao longo dos anos], apesar dos primeiros serem mais estatistas e (sobretudo) menos individualistas de que os segundos parece demonstrar que não era o “desejado grau de intervenção do Estado e o empenho na igualdade ou na liberdade individual” que distinguia a direita da esquerda, mas sim outra coisa qualquer (se quisermos um critério em que consigamos pôr anarquistas, comunistas e socialistas de um lado e democratas-cristãos, conservadores e fascistas do outro, com liberais no meio, para mim o mais certeiro será mesmo “a culpa é da sociedade” versus “a vida - pelo menos nesta existência terrena - é dura”; Rousseau contra Hobbes; já essa tal conversa de “igualdade versus liberdade” , e sobretudo a parte da “liberdade” não faz grande sentido porque só é válida no sub-intervalo que vai de comunistas a liberais, mas não nem à esquerda desse intervalo – os anarquistas são mais libertários que os comunistas – nem à direita – democratas-cristãos, conservadores e fascistas são menos libertários que os liberais).

Poderá se dizer que a conversa da igualdade versus liberdade é uma "simplificação", mas a mim parece-me uma "simplificação" que complica mais do que simplifica: numa cultura anglo-saxónica, talvez passe como simplificação (e dá-me a ideia que há realmente uma fração desproporcionada de pessoas com uma formação anglo-saxónica entre quem vem com essa ideia), mas numa cultura latina só gera uma enorme confusão, porque na tradição política dos países latinos (e/ou de dominação cultural francesa) a palavra "direita" evoca sobretudo Salazar, Franco (e o "campo nacional" da Guerra de Espanha), os "absolutistas" do século XIX, a Action Française, o catolicismo ultramontano, os fascismos e autoritarismos do período entre guerras, as juntas militares da América Latina do tempo da Guerra Fria, a defesa da "Argélia Francesa" ou do "Portugal do Minho a Timor", etc. ou na melhor das hipóteses alguns políticos democráticos que apresentavam como principal cartão de visita serem "líderes fortes acima de partidos e ideologias" e que eram frequentemente acusados pela oposição de serem "autoritários" (como De Gaulle ou mesmo o nosso Cavaco Silva). Basicamente, se formos pegar na tipologia que divide a direita entre "legitimista" (tradicionalista, monárquica, católica...), "bonapartista" (populista, culto do líder carismático...) e "orleanista" (liberal), eu diria que as tradições dominantes no mundo latino são (ou pelo menos eram até há muito pouco tempo) a "legitimista" e a "bonapartista", enquanto a "orleanista" era secundária; logo, uma definição de "direita" que usa como referência a menos relevante das direitas (a liberal) acaba por gerar é confusão (definir direita de uma certa maneira e depois dizer que quase todas as direitas que existiram são exceções é tudo menos simplificar).

A credibilidade do socialismo marxista caiu nas ruas da amargura quando deixou de ser possívelignorar ou disfarçar o que se passava em regimes grotescos como a UniãoSoviética. Há muito que a própria social-democracia começou a ser questionada. (…)A esquerda começou então a voltar-se para as reivindicações identitárias.”

Se alguma coisa, acho que foi ao contrário – quanto questões como os direitos das mulheres, dos jovens ou das minorias étnicas ou sexuais começaram a entrar na moda foi naquele período que vai basicamente do assassinato de Kennedy à queda de Saígão (e que é muitas vezes chamado de “anos 60”, embora seja mais 63-75) , um período em que o “estado social” parecia estar de pedra e cal e mesmo o comunismo soviético, apesar de Praga, estava a ganhar terreno pelo mundo inteiro, com os “dominós” a caírem sucessivamente, e mesmo os esquerdistas dissidentes andavam embeiçados por Cuba, China ou Vietname em vez de rejeitarem mesmo o “socialismo realmente existente”; suspeito que até foi a força (e não a crise) do estado social nessa altura que levou a esquerda mais radical a se virar para as “políticas identitárias”/”causas fraturantes”: como a classe operária* estava aparentemente contente, e de qualquer maneira até De Gaulle e Nixon eram uma espécie de “social-democratas”, tiveram que ir à procura de outros nichos de mercado.

A identidade é um conceito moderno.

As dúvidas sobre a identidade serão um conceito moderno; mas “identidade” no sentido de pertença a grupos específicos (que é o sentido usado em “políticas de identidade”) até me parece do mais pré-moderno que há, em que as pessoas viam-se largamente em função de coisas como a aldeia, a família alargada, o clã, a tribo, a profissão, etc; em larga medida, as revoluções industrial e francesa o que fizeram foi quebrar essas micro-comunidades para deixar só o individuo (ou quando muito a família nuclear) e a humanidade (ou quando muito o Estado-Nação).

Martin Luther King lutava por uma sociedade que tratasse os negros exactamente da mesma forma que tratava os brancos, em que a cor da pele não contasse. Não foi essa a corrente que prevaleceu.

Não sei se nessa suposta diferença entre correntes não haverá uma certa confusão entre juízos de valor e juízos de facto. Basicamente, há quatro opiniões possíveis sobre esses assuntos relacionados com discriminação de grupos:

a) As pessoas X [mulheres, negros, LGBT, neurodiversos, etc] não são tratadas como as outras e deviam ser

b) As pessoas X não são tratadas como as outras nem devem ser

c) As pessoas X são tratadas como as outras e devem ser

d) As pessoas X são tratadas como as outras e não deviam ser

(a + b) e (c + d) concordam nos juízos de facto e (a + c) e (b + d) concordam nos juízos de valor.

Um problema aqui é que os “c” tendem a achar que os “a” são “d” disfarçados (“Só eles é que ligam alguma coisa a raças; dizem que são anti-racistas mas eles é que estão a querer dividir as pessoas em raças”) e os “a” acharão que os “c” são “b” disfarçados (“Vêm com essa conversa que são colorblind para terem uma desculpa para fingir que não vêm o racismo que domina a nossa sociedade”). Ora, muita dessa conversa de que o MLK queria uma coisa e os atuais anti-racistas, feministas, etc. querem outra não será uma ilusão? Isto é, se forem todos “a” mas um observador externo achar que havia muito racismo há umas décadas mas não tanto hoje em dia (ou seja, esse observador se se considerar “a” em respeito a 1965 mas “c” no mundo atual), ele achará que os anti-racistas de 1965 eram “a” e os atuais são “d”, vendo uma diferença ideológica onde ela não existe realmente.

E parece-me que grande parte dos movimentos anti-racistas, feministas, atuais, mesmo os mais radicais, não apresentam as diferenças entre raças, sexos, etc. como algo normativamente desejável (veja-se a popularidade recente nesses meios da expressão “pessoas racializadas”, que me parece ter implícito reforçar a ideia que a raça é algo que é imposto pela sociedade e não algo de natural), mas sim como algo que existe, e que para ser combatido implica mobilizar o lado oprimido contra o opressor (tal e qual como no marxismo tradicional se defende a “consciência de classe”, apela-se à mobilização dos trabalhadores e se criam organizações com “Operário/Proletário/dos Trabalhadores” no nome, não porque se queira perpetuar a divisão da sociedade em classes, mas como um meio para acabar com ela*).

a esquerda deixou de pensar em políticas sociais ambiciosas que pudessem ajudar os pobres, pobres que incluem milhões de “homens brancos”, a antiga “classe trabalhadora”, gente considerada agora “deplorável” e que, muitas vezes em desespero, vota em Trump e quejandos. O Affordable Care Act de Obama – susceptível de muitas críticas, é certo - foi uma excepção neste cenário.”

E (ficando nos EUA) o Medicare 4 All, o aumento do salário mínimo, a universidade gratuita, as propostas de co-gestão e de reforço dos sindicatos, a job gurantee, etc, etc, etc, mesmo o Green New Deal, pelo que tenho lido, é mais um programa de “subornos” destinado a obter clientela eleitoral para as políticas ambientais do que um programa ambiental em sentido estrito. Indo para a Europa, quais são as principais bandeiras da esquerda? A principal é o “combate à austeridade”, e outra quem tem vindo a ganhar tração é o Rendimento Básico Incondicional.

Eu até diria que hoje em dia a esquerda internacional quase que só fala de duas coisas: economia e ambiente (nem que seja porque nas chamadas “políticas da identidade” se calhar já foi atingido quase tudo o que era para se atingir); já a direita é que vive obcecada pelas guerras culturais; eu vejo isso na internet – os sites de esquerda que eu costumo ler falam principalmente de economia ou da luta de classes tradicional; os de direita vivem quase completamente obcecados por assuntos como “revista académica feminista publicou artigo sobre a masculinidade dos icebergs”, casas de banho, “boas festas” vs. “feliz natal”, “ideologia do género”, etc. (claro que isso racionalmente faz sentido: o programa económico da esquerda é popular, o cultural nem tanto – logo é natural que a esquerda tenda a enfatizar a economia e a direita a cultura).

Mas admito que pode haver aqui um problema cronológico – talvez o Fukuyama tenha escrito o seu livro largamente antes da projeção atual de Bernie Sanders, Corbyin, Elizabeth Warren, Alejandra Ocasio-Cortez, e já agora da “geringonça” em Portugal (e, mesmo que na prática tenha sido só por 9 meses, da vitória do Syriza na Grécia), que, cada qual à sua maneira, representaram um regresso de uma esquerda socialista ou quase na economia e não apenas progressista nos costumes (mas de qualquer maneira dá-me a ideia que desde a crise de 2008 que houve um regresso à infra-estrutura na esquerda, ou até antes disso)

E também pode ser idiossincrasia da minha parte - como as minhas leituras de esquerda na internet são largamente uma combinação de economistas de centro-esquerda (Krugman, Chris Dillow, Noah Smith, Simon Wren-Lewis, etc.) e de organizações ou sites de extrema-esquerda (International Viewpoint / IV Internacional, Libcom, Corrente Comunista Internacional, etc.) que (por mais importância que dêem às "causas fraturantes") acham que em última instância será sempre a luta do proletariado que vai derrubar o capitalismo, é natural que tanto uns como os outros (ainda que por razões completamente diferentes) falem bastante de economia e/ou de luta de classes. Se eu costumasse ler regularmente o Everyday Feminism ou o Bully Bloggers se calhar poderia ter uma opinião diferente (nota - de qualquer maneira, dando uma volta pelo Everyday Feminism, encontro logo um artigo dizendo "Because race shouldn’t matter, but it does matter", que era exatamente o que disse ali atrás sobre o que me parece ser a posição dominante nos meios anti-racistas, feministas, etc. mais radicais).

[Um aparte acerca dos “deploráveis” – achar que não se deve considerar machistas, racistas e homofóbicos como “deploráveis” porque alguns podem pertencer à classe trabalhadora parece-me não fazer grande sentido; por essa ordem de ideias não se podia qualificar negativamente nada, porque corríamos sempre o risco de apanhar alguém da classe trabalhadora nessa qualificação negativa; p.ex., aposto que na Europa os pais que mandam mutilar genitalmente as filhas também pertencem largamente à classe trabalhadora]

* Um dia alguém há de me explicar porque é que o “obreirismo” da esquerda tradicional também não conta como “política de identidade”

Thursday, August 01, 2019

A praga dos podcasts

Have We Hit Peak Podcast?, por Jennifer Miller (New York Times):

It’s no wonder that the phrase “everyone has a podcast” has become a Twitter punch line. Like the blogs of yore, podcasts — with their combination of sleek high tech and cozy, retro low — are today’s de rigueur medium, seemingly adopted by every entrepreneur, freelancer, self-proclaimed marketing guru and even corporation. (Who doesn’t want branded content by Home Depot and Goldman Sachs piped into their ears on the morning commute?) There are now upward of 700,000 podcasts, according to the podcast production and hosting service Blubrry, with between 2,000 and 3,000 new shows launching each month. In August William Morrow will publish a book by Kristen Meinzer, a co-host of the popular “By the Book” podcast. Its title: “So You Want to Start a Podcast.”
E para uma visão (que me parece) oposta, Peak Podcast and the Purpose of Online Publishing, por Robert Sharp.

Tuesday, July 30, 2019

Causa-efeito entre problemas económicos e estilos de vida desestruturados

Paul Krugman:

What Wilson argued, however, was that social dysfunction was an effect, not a cause. His work, culminating in the justly celebratedbook “When Work Disappears,” made the case that declining job opportunities for urban workers, rather than some underlying cultural or racial disposition, explained the decline in prime-age employment, the decline of the traditional family, and more.

How might one test Wilson’s hypothesis? Well, you could destroy job opportunities for a number of white people, and see if they experienced a decline in propensity to work, stopped forming stable families, and so on. And sure enough, that’s exactly what has happened to parts of nonmetropolitan America effectively stranded by a changing economy.

Friday, July 26, 2019

Comparando AOC com Trump

AOC explained: A digital performer enters the political stage, por Martin Gurri:

From one perspective, Alexandria Ocasio-Cortez is the second coming of Donald Trump.  By this I mean that she surfed the same structural forces to Congress that swept Trump into the White House.  These forces can be characterized, very roughly, as the escape of information from institutional control and the desire of an angry public to overturn the established order.  AOC, like Trump, communicates digitally, and thus directly, with the public, somersaulting over institutional gate-keepers like the media and Democratic Party elders.  And as with Trump, AOC’s digital voice has struck a chord with the millions who follow her online.

Politically, of course, she’s the anti-Trump

Taxas de juro negativas e positivas

Joe Weisenthal: "People saying that negative rates aren't natural. I'd argue that in the state of nature, negative rates are the norm (paying people to store and preserve your stuff). Positive rates are the weird deviation."

Thursday, July 25, 2019

Wednesday, July 24, 2019

Entretanto, no Brasil

Policiais interrompem reunião que planejava ato contra Bolsonaro em Manaus (Folha de São Paulo, cópia aberta aqui):

Três agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) entraram na sede do Sinteam (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Amazonas) durante reunião de movimentos sociais que organizam um protesto na visita do presidente Jair Bolsonaro (PSL) nesta quinta-feira (...)

A presidente do Sinteam, Ana Cristina Rodrigues, disse que "na história do movimento sindical do Amazonas, em que um presidente visita o estado, é a primeira vez que agentes federais vêm para interromper uma reunião e tomar informações a respeito do que está ocorrendo nela".

O trilema do Brexit

"Exame de Português confrontou alunos com excerto de Os Lusíadas que não consta do programa"

E depois? É o que eu penso quando vejo noticias destas; se considerarmos que o objetivo é ensinar as pessoas a interpreta textos, até poderiam por no exame um autor que não constasse do programa.

Tuesday, July 23, 2019

O nacionalismo húngaro e a romantização da Ásia Central

Hungarian Nationalism And The Ghosts Of Turan, por Razib Khan

Hungary is unique in Europe because the people speak a language that is only related to two groups in western Siberia, the Mansi, and Khanty. Most linguists place these Ugric languages as a distant sister clade to the Finno-Permic group. But it seems incontrovertible that the modern Magyar people are culturally descended from a group of people who were in close association with various Turkic nomads (e.g., the Khazars) in the lower Volga region. Their migration westward seems to have recapitulated the movement of the ancient Huns, who were likely Turkic. Additionally, not only did the Magyar tribes absorb Turkic tribes as they moved out of Khazar territory but in later centuries gave they refuge to Turkic groups fleeing the Mongols.

The Turanism described in the article is a real thing, but much of it seems to consist of the co-option of the lifestyle of the Altaic nomadic peoples, Turks, and Mongols, to add glamor to Hungarian history. In fact, the inclusion of groups such as Scythians and Sarmatians (Indo-European Iranians) indicates that what is common is not descent or ethnolinguistic affinity, but a lifestyle. It’s the lifestyle and ethos that Christopher Beckwith writes about in Empires of the Silk Road. (...)

This reality, that what Turanism celebrates is the idealization of brutal martial past, mitigates the fact that genetically modern Magyars descend overwhelmingly from the conquered, not the conquerors. The conquest elites did have an eastern affinity. But the best recent data indicates that modern Hungarians are only a few percent enriched for this ancestry. Rather, the ancestors of modern Hungarians probably are Slavic peasants as well as the post-Roman peoples of Pannonia.
The Call of the Drums - Hungary’s far right discovers its inner barbarian, por  Jacob Mikanowski (Harper's Magazine):
The Great Kurultáj, an event held annually outside the town of Bugac, Hungary, is billed as both the “Tribal Assembly of the Hun-­Turkic Nations” and “Europe’s Largest Equestrian Event.” When I arrived last August, I was fittingly greeted by a variety of riders on horseback: some dressed as Huns, others as Parthian cavalrymen, Scythian archers, Magyar warriors, csikós cowboys, and betyár bandits. In total there were representatives from twenty-­seven “tribes,” all members of the “Hun-­Turkic” fraternity. The festival’s entrance was marked by a sixty-­foot-­tall portrait of Attila himself, wielding an immense broadsword and standing in front of what was either a bonfire or a sky illuminated by the baleful glow of war. He sported a goatee in the style of Steven Seagal and, shorn of his war braids and helmet, might have been someone you could find in a Budapest cellar bar. A slight smirk suggested that great mirth and great violence together mingled in his soul.

Inside, I watched a procession of riders—Azeris, Avars, Bashkirs, Chuvashes, Karakalpaks—take turns galloping around the amphitheater, a vast oval of trampled earth. Then, after each brother nation had been announced, the Battle of Pozsony began. Four hundred and fifty-four years after Attila’s death, in 907, a Frankish army came charging out of Bavaria into the heart of the nascent Hungarian kingdom. The Hungarians beat them with an old nomad trick: they fooled the Franks into thinking they were on the retreat, wheeled around at the last second to spring a trap on their unsuspecting foes, and showered them with arrows when they were too close to escape. The original bloodbath took place over the course of three days, but that day at the festival the Hungarian troops needed to wrap things up in thirty-five minutes. (...)

This is the key to the political message behind the Kurultáj: that the truth of the Hungarian past has been suppressed, obscuring the Hungarian people’s origins as a nomadic race of pagan warriors, born for conquest but forced into submission by treacherous neighbors, liberal ideologues, even Christianity itself. Given its nationalist orientation, it’s no surprise that the Kurultáj was established in close association with Jobbik, Hungary’s one­time ultra-nationalist political party. (It has since slightly tempered its message.) Today, the festival’s patron is Fidesz, the party of Prime Minister Viktor Orbán, which now occupies the rightmost spot on the political spectrum. Fidesz gives the event around a million euros a year, which is the reason admission is free and why, in the absolute middle of nowhere, it takes an hour of waiting in traffic to get in. (...)

By the end of the nineteenth century, the search for Hungary’s Hunnic past had gradually coalesced into a theory called Turanism. (The name ultimately derives from Old Persian, in which Turan meant something like “the land of darkness” and designated a fringe region of the Sassanid Empire inhabited by unruly nomads.) Part political movement and part religious revival, Turanism was big-­tent nationalism in the style of pan-­Slavism and pan-­Germanism, born of Hungary’s nineteenth-­century imperial ambitions. It held that the Hungarian people hailed from Asia, were related to Turks and other Central Asian peoples, and that their nomadic and pagan history should serve as the basis for Hungary’s cultural life and foreign policy, rather than being subordinate to the concerns of their nominal Austrian Hapsburg overlords.

After Austria-­Hungary’s defeat in World War I, Turanism became an ideology of resentment, serving as inspiration to Hungarian fascist movements. It offered a way for Hungarians to become equal competitors in the racialized violence of the inter­war years—in a world in which Nazis were proclaiming their historic mission as leader of the Aryan nations, it made sense for Hungary to cast a wide net in search of friends. In the Turanist imaginary, Bulgaria, Turkey, and Japan were all possible allies whose support could be used to claw back the greatness (and territory) that had slipped away after Hungary’s defeat. Beginning with the postwar communist takeover of Hungary, however, Turanism was banned. (...)

Since Orbán and Fidesz came to power for a second time, in 2010, Turanism has been made into something of an official ruling ideology, with little room for dissent.(...)

Under Orbán, Hungary has also pursued something like a Turanist foreign policy, seeking strategic partnerships with the governments of Kazakhstan, Turkey, and Azerbaijan. At a meeting of Turkic-­speaking states held in Kyrgyzstan last fall, the prime minister declared that “Hungarians consider themselves late descendants of Attila, of Hun-­Turkic origin.” That same day, Zsolt Bíró, the Kurultáj founder and head of the Hungarian Turan Foundation, was on hand to lead Hungary’s delegation at the World Nomad Games in Kyrgyzstan. (The Hungarian team, whose specialty is mounted archery, won 12 medals—an impressive showing, though far behind Kyrgyzstan’s 103.)
Aparentemente, esse festival (o "Kurultáj")[1] teve a participação de azeris, avares, basquires, búlgaros, bálcaros, buriates, chuvaches, gagaúzes, cabardinos, carachais, caracalpaques, cazaques, madjars, quirguizes, cumiques, mongóis, nogais, uzbeques, madzsares[2], tártaros, turcos, tuvanos, uigures, iacutos e, claro, húngaros. .

Uma coisa que me desperta a atenção nisto é que se por um lado o governo húngaro até gosta de cultivar a imagem de defensor da Europa e da Cristandade contra uma suposta invasão islâmica, por outro parece ter adotado uma ideologia que até vê a Hungria como mais asiática do que europeia e que considera como aliados naturais muitos povos que até são atualmente muçulmanos.

Um aparte - nomeadamente nas redes sociais, há quem diga que a Hungria é contra a imigração islâmica porque terá a memória da dominação pelos turcos muçulmanos; mas Viktor Orbán não deve ter nenhuma memória da opressão turca - ele é protestante, e os protestantes húngaros eram aliados dos turcos nos tempos das guerras entre o Império Otomano e a Aústria (em compensação os tártáros muçulmanos da Polónia - os antepessados do Charles Bronson... - combatiam ao lado da Aústria católica).

Diga-se que em praticamente todos os livros que falam do assunto que passei os olhos é apresentado como um facto que existirá um grupo linguístico chamado "uralo-altaico", que se subdividiria em "línguas urálicas" (que se sub-subdividiria em línguas fino-úgricas - finlandês, húngaro, estónio, lapão, etc. - e samoiedo) e "altaicas" (línguas turcas, mongóis e tungúsicas, e talvez até mesmo o coreano e o japonês); em compensação, na internet (nomeadamente na wikipédia) o "uralo-altaico" é apresentado como uma hipótese totalmente abandonada e mesmo o "altaico" como algo largamente abandonado; o que concluo disso é que no século XX (quando os livros foram escritos) era considerado ponto assente um "parentesco" (se não biológico - a ideia de que os finlandeses seriam mongóis louros de olhos azuis nunca deve ter sido muito levada a sério - pelo menos cultural) entre húngaros, finlandeses, turcos, mongóis e mais uma carrada de povos da Ásia central e da Sibéria, e que no século XXI terá sido abandonada (abandono esse que já se vê na internet); de qualquer maneira, isso significa que a teoria dos nacionalistas húngaros de que serão parentes dos turcos e dos mongóis não será assim tão exótica como o artigo da Harper's dá a entender, já que isso seria quase o consenso no século passado.

Já agora, ver também Os nazis mongóis - combinação absurda?

[1] enquanto escrevia este post estava-me a a tentar lembrar de onde conhecia este nome; entretanto lembrei-me: foi (com uma grafia ligeiramente diferente) num livro sobre o Gengis Khan, em referência à assembleia dos chefes tribais mongóis

[2] parece ser uma tribo do Usbequistão tão obscura que mal se encontra referências a ela além desse festival; provavelmente é convidada por causa do nome (tal como os madjars do Casaquistão), que sendo parecido com "magiar" serve para dar apoio à teoria de que os húngaros são parentes dos povos turcos e mongóis

EUA alarga deportações sumárias

De acordo com novos regulamentos[pdf], o ICE (o SEF norte-americano) vai passar a ter poder para deter e expulsar dos EUA (sem ter que ir a tribunal nem nada) qualquer estrangeiro que tenha entrado nos EUA nos últimos dois anos e em qualquer área do país (até agora, isso só se aplicava a quem tivesse entrado nas últimas duas semanas e estivesse a menos de 100 milhas da fronteira). Sim, supostamente isso só se aplica a quem tenha entrado ilegalmente, mas é o acusado que tem que provar que entrou legalmente (ou que está nos EUA há mais de dois anos), num processo em que os agentes do ICE são ao mesmo tempo acusadores e juizes, sem intervenção dos tribunais, e em que alguém pode ser expulso dos EUA antes que tenha tempo de provar que o novo decreto não se aplica a ele. Como alguém escreveu no Twitter, "[f]or those of you that have brown, black, mocha, olive, or yellow skin, now you'll need ID to buy groceries. Those from Norway, Finland, or carrying a Tiki Torch need not be concerned".

Há quem diga que isso pode permitir até deportar cidadãos norte-americanos que não consigam rapidamente provar que são cidadãos, ainda mais tendo em consideração casos como este.

A esquerda armada dos EUA

‘If others have rifles, we’ll have rifles’: why US leftist groups are taking up arms (The Guardian):

Armed antifascists groups say they want to protect events from malicious and potentially armed groups – an increasingly common phenomenon

Monday, July 22, 2019

Socialistas, liberais e fascistas


- "Vocês não passam todos de materialistas decadentes que só falam em direitos e não em deveres"
- "Vocês não passam todos de defensores dos ricos, em busca de desculpas para justificar a desigualdade e os privilégios"
- "Vocês não passam todos de coletivistas que querem acabar com o carácter único de cada individuo"

Ou, numa versão com mais referências bibliográficas:


Ainda a respeito disso, Re: Pequeno esclarecimento.

Friday, July 19, 2019

Trump vai ser reeleito, mesmo voltando a ficar em segundo lugar

How Trump could lose by 5 million votes and still win in 2020, por David Wasserman (NBC).

Trump’s Electoral College Edge Could Grow in 2020, Rewarding Polarizing Campaign ("Re-election looks plausible even with a bigger loss in the national popular vote"), por Nate Cohn (New York Times)

Trump’s Electoral College Advantage Growing ("He could lose the popular vote by an even larger margin in 2020---and still coast to re-election"), por James Joyner (Outside the Beltway).

O "conservadorismo nacional"

The New Conservative Nationalism Is About Subverting Individual Liberty, por Stephan Slade (Reason):

The several hundred attendees of this week's National Conservatism conference have a different vision for American politics. The event brought together a variety of speakers to discuss and defend, in explicit terms, the need for a new nationalism. (...)

Practically speaking, the nationalist agenda is largely focused on the need for a federal "industrial policy." For Breitbart's John Carney, that means tariffs, and lots of them. Americans need to be willing to pay higher prices to protect the jobs of their fellow citizens, according to Brog. For American Affairs founder Julius Krein, "protectionism is not sufficient….It's not radical enough." The Manhattan Institute's Oren Cass laid out a plan involving research and development subsidies, infrastructure investments, preferential tax rates for favored firms, punitive taxes on companies that move jobs overseas, "trade enforcement" to make other countries play according to our rules, and more. "We should have a National Institutes of Manufacturing just as we have a National Institutes of Health," he said.

What do all of these proposals—and the many others offered at the conference, from censoring porn to cracking down on opioids to preventing trans girls from playing on girls' sports teams—have in common? There is a tendency among the new nationalists to frame their movement as standing in opposition to supranationalism. Yoram Hazony, author of The Virtue of Nationalism, laments in particular what he sees as a push toward a homogenous "new world order" in which umbrella institutions such as the European Union and the United Nations override the rightful sovereignty of states.

Yet the true object of the nationalists' ire is much closer to home: They cannot abide individual Americans making social and economic choices they do not like. For consumers, the question might be whether to buy foreign or domestic. For a business owner, it might be where to open a factory. For a parent, it might be whether or not to attend drag queen story hour at the local library. Regardless, the new nationalists have decided not only that there is a right answer from a moral perspective but that government should force you to choose correctly.

"Today we declare independence," Hazony said, "from neoliberalism, from libertarianism, from what they call classical liberalism. From the set of ideas that sees the atomic individual, the free and equal individual, as the only thing that matters in politics."
Eu diria que este programa (dirigismo económico para apoiar algumas empresas nacionais contra a concorrência estrangeira + dirigismo em questões de "moral e bons costumes") é o que em Portugal (e provavelmente em grande parte da Europa continental) grande parte das pessoas associariam quase instintivamente com "conservadorismo"; em larga medida eram os EUA (e em menor escala o Reino Unido) que, nos significados atribuídos tanto a "conservadorismo" como a "liberalismo", eram os outliers.

Thursday, July 18, 2019

Mais difícil suspender a democracia parlamentar no Reino Unido

Brexit: MPs back bid to block Parliament suspension (BBC):

MPs have backed a bid to stop a new prime minister suspending Parliament to force through a no-deal Brexit.

A majority of 41 approved an amendment that blocks suspension between 9 October and 18 December unless a Northern Ireland executive is formed.

Wednesday, July 17, 2019

O budismo não é fofinho

Buddhism Has Never Been Pacifistic, por Razib Khan. Já agora ver também A Radical Realist View of Tibetan Buddhism at the Rubin, por Ian Johnson.

Eu em tempos (por culpa de Aldous Huxley) cheguei a acreditar na ideia que o budismo teria sido a única religião sem guerras santas.

Tuesday, July 16, 2019

A direita e a esquerda da New Age / Pensamento Positivo

Jesse Walker: "The long American spiritual tradition that gave us Marianne Williamson—and Donald Trump"

Já agora, o texto (embora só de raspão fale no assunto) faz-me pensar que nestas primárias Democratas há uma espécie de bloco pós-hippie - Sanders, Williamson e Gabbard (esta última mais por nascimento do que por escolha).

Monday, July 15, 2019

Quem tem poder para suspender a democracia parlamentar no Reino Unido? O primeiro-ministro ou a rainha?

The Queen Is the Reason Boris Johnson Would Struggle to Suspend Parliament, por Robert Hutton and Kitty Donaldson (Bloomberg):

Boris Johnson is threatening to suspend Britain’s Parliament to force through a no-deal Brexit if he becomes prime minister -- and some politicians are planning to fight him in court.

But he would face a bigger problem: Queen Elizabeth II could stop him first. (...)

The power to prorogue -- as it is formally called -- lies not with the prime minister but with the monarch. As with her other powers, it is usually deployed at the request of the prime minister. That’s why some academics, such as Vernon Bogdanor of King’s College London, think the Queen “would follow the advice of her prime minister.”

But others disagree.

“The question constitutional experts are all debating is whether the Palace could say ‘No,’” said Catherine Haddon of the Institute for Government. “It’s all something of a gray area in our system.”

Friday, July 12, 2019

Gestão democrática dos serviços públicos

We must trust the public to run their own utilities, por Gareth Thomas (deputado do Partido Trabalhista britânico):

‘We Own It’ published an interesting proposal earlier this week for the future democratic public ownership of the water industry. I share their critique of the current ownership of the industry, which is failing to invest at the speed necessary to tackle leakage. Customers currently have little power and there are few signs that the industry has grasped the scale of the climate crisis. Water bills have rocketed since privatisation, while there have been huge dividend payments to the often remote and unaccountable owners.

But I support a different method for securing genuine democratic public ownership. I want employees, John Lewi-style or consumers co-op style, to directly own the water business in their area. I don’t see why consumers should only be regularly consulted and stay once or twice removed from control of water firms.
Vagamente relacionado, um post meu de há dez anos, Os "monopólios naturais".

Friday, July 05, 2019

Declaração de interesses

Eu em princípio vou ser candidato (como penúltimo da lista dos suplentes do círculo de Faro) pelo Bloco de Esquerda às próximas eleições. Portanto, se já antes tudo o que eu escrevia tinha um claro enviesamento, agora ainda mais.

Monday, July 01, 2019

Nos EUA, 54% o crescimento da bolsa é devido a transferência de riqueza a favor das acionistas

E apenas 24% devido a crescimento da economia, e isto desde 1989:

How the Wealth Was Won: Factors Shares as Market Fundamentals, por Daniel L. Greenwald, Martin Lettau, Sydney C. Ludvigson (NBER Working Paper No. 25769, doi:10.3386/w25769):

We provide novel evidence on the driving forces behind the sharp increase in equity values over the post-war era. From the beginning of 1989 to the end of 2017, 23 trillion dollars of real equity wealth was created by the nonfinancial corporate sector. We estimate that 54% of this increase was attributable to a reallocation of rents to shareholders in a decelerating economy. Economic growth accounts for just 24%, followed by lower interest rates (11%) and a lower risk premium (11%). From 1952 to 1988 less than half as much wealth was created, but economic growth accounted for 92% of it.

Friday, June 28, 2019

A autoridade do Estado

Quer se esteja a falar do "Prédio Coutinho" ou dos imigrantes detidos nos Estados Unidos, a autoridade do Estado baseia-se em última instância no poder de recorrer à brutalidade contra quem desobedece; essa brutalidade normalmente não é usada porque as pessoas obedecem às leis, decretos, etc. sem levantar grandes problemas, mas existe sempre como pano de fundo - qualquer política do Estado tem sempre como recurso final a violência (letal, se necessário).

Isso não invalidade que se possa ser a favor de demolições de prédios, de restrições à imigração ou de qualquer outra política do Estado, mas é bom ter sempre presente que essas políticas não se implantam por geração espontânea - o punho de ferro está sempre implícito.

Wednesday, June 26, 2019

Os novos economistas da esquerda

The new left economics: how a network of thinkers is transforming capitalism, por Andy Beckett (The Guardian):

The new leftwing economics wants to see the redistribution of economic power, so that it is held by everyone – just as political power is held by everyone in a healthy democracy. This redistribution of power could involve employees taking ownership of part of every company; or local politicians reshaping their city’s economy to favour local, ethical businesses over large corporations; or national politicians making co-operatives a capitalist norm. (...)

In the past, left-of-centre British governments have attempted to reshape the economy by taxation – usually focused on income rather than other forms of economic power – and by nationalisation, which usually meant replacing a private-sector management elite with a state-appointed one. Instead of such limited, patchily successful interventions, the new economists want to see much more systemic and permanent change. They want – at the least – to change how capitalism works. But, crucially, they want this change to be only partially initiated and overseen by the state, not controlled by it. They envisage a transformation that happens almost organically, driven by employees and consumers – a sort of non-violent revolution in slow motion.

Tuesday, June 25, 2019

Divisão entre os juizes de Trump?

Kavanaugh Accuses Gorsuch of Judicial Activism in Criminal Justice Case, por Damon Root (Reason).

Today the U.S. Supreme Court struck down a federal criminal statute on the grounds that its language is so imprecise that it violates the Constitution. "When Congress passes a vague law," declared the majority opinion of Justice Neil Gorsuch, "the role of courts under our Constitution is not to fashion a new, clearer law to take its place, but to treat the law as a nullity and invite Congress to try again."

Writing in dissent, Justice Brett Kavanaugh championed a very different sort of role for the courts. "A decision to strike down a 33-year-old, often-prosecuted federal criminal law because it is all of a sudden unconstitutionally vague is an extraordinary event," Kavanaugh complained. "The Court usually reads statutes with a presumption of rationality and a presumption of constitutionality."

The case is United States v. Davis. At issue is a federal statute which, in the Court's words, "threatens long prison sentences for anyone who uses a firearm in connection with certain other federal crimes. But which other federal crimes?" That is where the debate over vagueness comes in. The law itself calls for enhanced sentencing in cases involving felonies "that by [their] nature, involv[e] a substantial risk that physical force against the person or property of another may be used in the course of committing the offense."
Nisto parece-me haver uma diferença ideológica de fundo entre os dois juízes nomeados por Trump - Gorsuch parece andar perto de ser o que em todos os outros países do mundo se chamaria um "liberal" e Kavanaugh um típico neoconservador.

Monday, June 24, 2019

A divisão no "Comité para uma Internacional dos Trabalhadores"

Anúncio após o III Congresso do Socialismo Revolucionário (comunicado do "Socialismo Revolucionário" - que agora vai-se chamar "Esquerda Revolucionária" - abandonando o CIT, do qual era até agora a secção portuguesa)

Obsolete Politics and the Socialist Party Split, por "Phil" (A Very Public Sociologist -
All That Is Solid ...)



Ao que me parece, a divisão tem, alegadamente, a ver com o Partido Socialista da Inglaterra e País de Gales (apoiado pelo Secretariado Internacional) preferir a concentração na luta operária e considerar que o Partido Socialista da Irlanda  (apoiado pela maioria do Comité Executivo Internacional, composto por representantes das várias secções nacionais) se dedica demasiado às causas fraturantes; entretanto, face à divisão em duas facções, as secção portuguesa, espanhola e algumas sul-americanas apresentaram-se como uma terceira facção.

Saturday, June 22, 2019

Animação nos EUA

Oregon Senate Cancels Saturday Session Amid Reports of Militia Groups Protesting at Capitol:

Oregon Senate Democrats hastily cancelled a planned Saturday floor session late Friday afternoon, citing reports that right-wing militia members were planning to rally at the Capitol.

Sen. Elizabeth Steiner Hayward (D-Portland) posted on social media a text message from Senate leadership, stating that the Saturday session was cancelled. 

"The State Police Superintendent just informed the Senate President of a credible threat from militia groups coming to the Capitol tomorrow," the message says. "The Superintendent strongly recommends that no one come to the Capitol and President [Peter] Courtney heeded that advice minutes ago."

Thursday, June 13, 2019

O parlamentarismo e o Brexit (isto ainda vai dar muitos posts)

Rory Stewart threatens 'alternative parliament' to avoid no-deal Brexit (The Guardian):

The Conservative leadership outsider Rory Stewart, who has been unexpectedly catapulted into the next round of the contest, vowed that he would set up “an alternative parliament” if the frontrunner, Boris Johnson, suspends parliament to pursue a no-deal Brexit. (...)

He said if Johnson attempted to prorogue parliament, he and other MPs would be prepared to “bring him down”. “If he were to try, I and every other member of parliament, will sit across the road in Methodist Central Hall and we will hold our own session of parliament,” he said.

Wednesday, June 12, 2019

O parlamentarismo e o Brexit, novos episódios

Opposition parties launch bid to block the UK's next prime minister from forcing a no-deal Brexit (Business Insider):

Britain's next prime minister could be blocked from forcing a no-deal Brexit after a cross-party group of MPs announced plans to introduce legislation later this month, designed to prevent the next prime minister leaving without a deal. (...)

However, the opposition Labour party said it would on Wednesday force a Commons vote which would allow MPs to seize control of the parliamentary agenda, normally controlled by the executive, on Tuesday 25 June. (...)

Two of the 10 candidates for leader, Dominic Raab and Esther McVey, have said they would be willing to suspend parliament in order to force through their preferred outcome, something leadership rival Rory Stewart, the international development secretary, said would be unconstitutional and illegal. (...)

Critics have also warned it would drag the Queen into politics because she would be required to play a formal role in the act of dissolving parliament.

Saturday, June 08, 2019

Documentário da BBC, de 2002, sobre o ataque israelita ao navio norte-americano USS Liberty, a 8 de junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias:

Friday, June 07, 2019

A ideia do Brexit era qualquer coisa de restaurar a soberania do Parlamento britânico, não era?

Can Parliament stop a no-deal Brexit?, por Daniel Kraemer (BBC):

Even though most MPs oppose a no-deal strategy, some argue the next government could go ahead without the consent of Parliament.

A row broke out on Wednesday after Conservative leadership candidate Dominic Raab said he would be prepared to prorogue Parliament to make sure the UK leaves the EU on 31 October. (...)

At the end of every parliamentary session - which usually lasts around a year and starts with the State Opening of Parliament and a Queen's Speech - Parliament is "prorogued" by the Queen.

It essentially closes Parliament and ends the process of current legislation until a new session begins. Although it is technically at the Queen's "command", in practice it is the government's decision.

How could it be used to stop MPs forcing the government's hand?


If a new prime minister is concerned about MPs blocking the UK's exit from the EU, they could advise the Queen to prorogue Parliament, therefore sending MPs away so that they can't do anything to scupper Brexit.

It would be unprecedented in modern times to use this power for political reasons, rather than to end a session in preparation for a new Queen's Speech.

One leadership candidate, Rory Stewart, has said to do so would be "illegal, unconstitutional, undemocratic and it wouldn't work".

Tuesday, June 04, 2019

As propostas de Bernie Sanders para alterar as relações de poder nas empresas

Bernie Sanders backs 2 policies to dramatically shift corporate power to U.S. workers, por Jeff Stein (publicado originalmente no Washington Post):

Sen. Bernie Sanders (I-Vt.) will push new policies aimed at giving workers a greater ownership stake in companies, moves the 2020 presidential candidate is pitching as a dramatic transfer of power in the U.S. economy. (...)

Sanders said his campaign is working on a plan to require large businesses to regularly contribute a portion of their stocks to a fund controlled by employees, which would pay out a regular dividend to the workers. Some models of this fund increase employees’ ownership stake in the company, making the workers a powerful voting shareholder. The idea is in its formative stages and a spokesman did not share further details.

Sanders also said he will introduce a plan to force corporations to give workers a share of the seats on their boards of directors. Sen. Elizabeth Warren (D-Mass.), another 2020 presidential candidate, proposed a similar idea last year.  (...)

Sanders on Friday also reintroduced in the Senate a series of measures to increase the percentage of the American workforce in “employee-owned” ownership models. Those policies include a $500 million bank to finance company transitions to worker cooperatives, new legal requirements that owners give their workers an opportunity to purchase firms that are closing and federal funding to create centers in all 50 states that would encourage employee-owned businesses. These ideas are not gaining traction in the Republican-controlled Senate.
 Ver também: O "Accountable Capitalism Act " e Labour propôe participação dos trabalhadores na propriedade das empresas

O que são extamente "conservadores nos costumes"?

É frequente (nomeadamente em discussões políticas) pessoas classificarem-se ou serem classificadas como "conservadores nos costumes". Mas o que é que isso quer dizer exatamente?

Consigo imaginar pelo menos 3 maneiras diferentes e não necessariamente associadas entre si (na verdade, até suspeito que uma delas terá uma correlação negativa com as outras duas) em que se pode ser "conservador nos costumes" (inicialmente até pensei em 5 maneiras, mas as duas adicionais parecem-me pouco mais que variante de uma das outras 3).

1) "Conservador nos costumes" na vida pessoal - alguém levar uma via pessoal convencional e tradicional.

2) "Conservador nos costumes" na moral - alguém achar que os estilos de vida tradicionais são moralmente "bons" e que os estilos de vida "alternativos" são moralmente maus. Não há necessariamente uma ligação entre "conservador nos costumes" do tipo 2 e do tipo 1: alguém pode levar uma vida perfeitamente "quadrada" mas considerar isso como uma simples preferência individual, não como uma escolha moralmente melhor que as outras; e inversamente alguém pode levar uma vida dissoluta e desregrada mas achar ("reconhecer", dirá ele) que está no mau caminho e que deveria "entrar nos eixos" (provavelmente fazendo resoluções "Para o próximo mês é que é; vou dar uma volta a sério na minha vida e passar a ser uma pessoa como deve ser").

Não só não há uma ligação necessária entre estes dois tipos de "conservadorismo nos costumes", como não me admiraria que, a existir uma correlação entre os dois, hoje em dia até seja negativa, no sentido das pessoas que levam vidas pessoais mais "conservadoras" tenderem a ser menos defensoras explicitas de valores conservadores e vice-versa. Mais exatamente, o que eu suspeito é que pessoas com um temperamento cerebral e analítico tendem a ser conservadoras na vida pessoal e pouco conservadoras na moral, enquanto pessoas mais espontâneas e impulsivas tenderão a ser pouco conservadoras na vida pessoal e relativamente mais conservadoras nos valores morais (mais à frente explico melhor o raciocínio que estou a fazer).

3) "Conservador nos costumes" na política - defender políticas públicas que protejam os costumes tradicionais e/ou sejam inspiradas por estes.

Também aqui acho que alguém pode ser "conservador" no tipo 1) ou 2) sem o ser no tipo 3). Já mais complicado me parecer ser no tipo 3) sem o ser no tipo 2) - isto é, ser politicamente "conservador nos costumes" sem o ser moralmente. Inicialmente até pensei que um possivel exemplo seria o de alguém que defendesse políticas conservadores nos costumes não por motivos moralistas mas por razões utilitárias, como achar que os estilos de vida tradicionais têm externalidades positivas e por isso devem ser incentivados; mas pensando melhor, acho que isso continua a ser uma posição moral (neste caso, uma moral utilitarista)

Quando alguém, a meio de uma conversa sobre política, diz que é um "conservador nos costumes", penso que faz sentido assumir (se nada for dito explicitamente em contrário) que é neste sentido, já que é de política que se está a falar; ainda mais quando se trata de partidos e não de pessoas a se definirem assim (afinal, em principio a missão de um partido é influenciar a vida política, não dar lições de moral ou sugestões de "lifestyle"); também a famosa expressão "liberal na economia, conservador nos costumes" parece-me (caso nada seja dito em contrário) ter implícito o sentido 3: afinal, em 99,9% dos casos, quando alguém se define como "liberal na economia" está a falar das suas opiniões a respeito de política económica: que é a favor de baixos impostos, de privatizações, de menos despesa pública, etc. (não a dizer que, p.ex., dá mesadas grandes aos filhos), pelo que assumo que se junta logo a seguir um "conservador no costumes" continua a falar de política (uma história diferente é quando as pessoas se auto-identificam como "liberais na política, conservadores nos costumes": aí já assumo que não é na política que são "conservadores nos costumes").

De qualquer maneira, acho que ninguém ou quase ninguém se identifica como "socialista autogestionário que gosta de jogos de computador do tipo ação/aventura" ou como "neofascista fã de ficção científica" ou como "social-democrata motard", o que me parece mais um ponto a favor de se considerar que a auto-identificação como "conservador nos costumes", no contexto de uma descrição ideológica, se refere a posições políticas e não a estilos de vida pessoais.

Uma complicação adicional é o que me parece se o "conservador nos costumes de Schrödinger", que é quase impossível perceber se é apenas conservador no sentido 2) ou também no sentido 3), tão ambíguas que são as suas explicações (normalmente são conservadores tipo 3 mas que defendem só benefícios fiscais aos estilos de vida tradicionais ou algo parecido, não proibições ou imposições absolutas, e começam por dizer algo como "sou um conservador nos costumes, mas não acho que o Estado deva impor os meus valores", o que parece a posição 2-mas-não-3, e só quando e se a  conversa continua e acaba por entrar em detalhes se percebe que realmente querem que o Estado faça alguma coisa - obrigar não, mas dar um empurrãozinho...).

Ainda pensei se o "conservador nos costumes" político não poderia ter dois subtipos - o que defende políticas de proteção aos estilos de vida tradicionais, e o que apenas defende que o estado não os hostilize, mas o segundo acaba sempre por, das duas uma: a) ou defende que o Estado não deve promover/proteger nem estilos de vida progressistas nem tradicionais, e aí acho que nem faz sentido chamá-lo "conservador" (afinal, é tão "conservador" como "progressista"); ou b) é contra o Estado promover estilos de vida progressistas mas não é totalmente contra que promova estilos de vida conservadores, e aí acho que acaba por ser uma variante soft dos tais conservadores que acham que o Estado deve proteger os estilos de vida tradicionais.

[O outro tipo de conservador no costumes em que pensei foi o tal utilitário, que acha que os estilos de vida tradicionais têm externalidades positivas, mas como já disse, isso acaba por ser um subtipo do conservador moral]

Já agora, explicando melhor a minha suspeita da correlação negativa entre conservadorismo pessoal e conservadorismo moral (de que alguns exemplos - todos a respeito dos EUA, mas não me admirava que haja similares em Portugal - podem ser vistos aqui, aqui e aqui) - paradoxalmente, tanto o desejo de ter comportamentos desviantes como o repúdio por comportamentos desviantes são coisas que vêm mais dos impulsos viscerais do que do raciocinio (exceção - os tais conservadores utilitaristas), pelo que por isso desconfio que as tais pessoas espontâneas e impulsivas tendem a ser pouco conservadoras na vida pessoal e mais conservadoras nas atitudes morais, e o contrário para as pessoas cerebrais e analíticas (embora haja muitas maneiras de ser não-conservador na vida pessoal: alcoolismo, drogas, gravidezes precoces, andar sempre a mudar de mulher/marido, trabalho irregular, etc acho que será mais comum entre as tais pessoas espontâneas/impulsivas; mas há efetivamente outros estilos de vida não-convencionais que se calhar são mais comuns entre as pessoas cerebrais/analíticas, como chegar aos 40 e tal anos solteiro/a, sem filhos e com a casa cheia de animais de estimação).

Wednesday, May 22, 2019

Trump e Netanyahu a abrir o caminho para a destruição de Israel?

Why some Palestinians are backing Trump’s peace push, por Nahal Toosi:

A growing number of Palestinians want a ‘one state, equal rights’ model and think Trump may unwittingly pave the way for it.
Algo que já tinha pensado há uns dias, quando vi uma notícia sobre a campanha eleitoral israelita dizendo que Netanyahu prentendia anexar a Cisjordânia - que a longo prazo,se calhar é mais provável que o "estado palestiniano" surja, não pelo "dois estados para dois povos", mas com Israel a anexar os territórios ocupados e a ficar com tantos árabes dentro das suas fronteiras que mais cedo ou mais deixará de poder continuar a ser o "estado judeu".

Monday, May 20, 2019

O estranho partido que é o "Brexit Party"

Nigel Farage’s startup politics:

It was only then that “The Brexit Party Limited” — the company behind the party that was created in November last year — gave notice that Farage had taken “significant control” of the business, with the right to remove and replace a majority of the board of directors.

The company documents reveal a unique structure for a U.K. political party which gives almost total control to its leader, front of shop — and back. (...)

There are only two directors of the company — Farage and his friend, the Brexiteer businessman Richard Tice. The company secretary is Phillip Basey, a former UKIP activist, who was appointed in March. And there are five undisclosed shareholders, with each share worth £1.

Official government guidance suggests anyone with “significant control” is likely to have more than 25 percent of the company’s shares, which in this case, means that Farage owns at least two of the shares. (...)

But despite a support base that is close in size to the membership of the ruling Conservative Party, the Brexit Party has no "members" itself, a party spokesperson said — just registered supporters. (...)

he Brexit Party's structure is highly unusual in British politics. Theresa May, for example, is answerable to more than 300 MPs, hundreds of Conservative associations and a 1922 committee of backbenchers, which guards the rules that govern leadership challenges. (...)

His other influence is the far-right Dutch populist Geert Wilders, who is the only member of his party. This allows Wilders to dictate the party's finances and political course.

Friday, May 17, 2019

O Brexit vai acontecer?

Is Brexit still possible?, por Simon Wren-Lewis:

There is always a blocking group of MPs made up of a combination of Brexiters and uncompromising Remainers, and if the deal ever squeezed through parliament there would always be a large majority of voters who would hate it and take their anger out on the government. (...)

This all suggests that Brexit in any form based on Article 50 is just not possible. A May-Corbyn deal was the best shot, but I don’t think either side are prepared to do it at the end of the day. Yet no one will admit that Brexit is stuck with no obvious way forward. It may require a new Prime Minister to admit the inevitable. They have a big incentive to do so, as at the moment Brexit has brought normal government to a halt.

What about the EU - will they want to go on extending Article 50 again and again? At some point they will issue an ultimatum: no more extensions so agree a deal, revoke or leave without a deal.
Wren-Lewis parece achar que o Brexit é impossível, mas há outra hipótese - saída sem acordo (e, face à mais que provável vitória do Partido Brexit nas eleições europeias da próxima semana, parece-me mais provável do que não haver Brexit*); e para isso nem é preciso que da aparte dos britânicos haja uma decisão deliberada de sair sem acordo: basta que não cheguem a decisão nenhuma e o prazo finalmente termine.

* E, a ser assim, será dos raros casos em que numas eleições para o Parlamento Europeu se decide realmente algo relevante para a União Europeia, em vez de funcionarem como se fossem apenas umas vinte e tal sondagens sincronizadas para aferir as intenções de voto para os respetivos parlamentos nacionais.

Thursday, May 16, 2019

Um espectro assombra o mundo, o espectro das greves (II)

Cerca de 60 voos cancelados no aeroporto de Bruxelas devido a greve de controladores - "Greve surpresa de controladores aéreos belgas está a afetar os aeroportos de Bruxelas e Charleroi, a sul da capital."

Estive a tentar perceber como é que uma greve é proclamada de repente - parece que tudo começou com reuniões em que a administração is explicar o novo acordo de empresa aos trablhadores; como grande parte das pessoas estaria a trabalhar à hora da reunião, os sindicatos proclamaram um greve para essa hora para todos os empregados poderem assistir; em resposta a empresa cancelou a reunião (e de qualquer maneira a greve continiou).

Esta greve, pelos vistos, até foi convocada pelos sindicatos convencionais, mas mesmo assim acho que se enquadra (tal como as que têm havido em Portugal) no padrão de greves não-convencionais (até porque parece que está a ser considerada como uma greve selvagem).

Thursday, May 09, 2019

O Trumpismo descrito 3 anos antes?

É o que quase me parece este artigo do 2013 do neoconservador American Enterprise Institute, "Setting the Record Straight About the White Working Class", que encontrei por acaso quando estava fazendo uma busca por outra coisa.

Wednesday, May 08, 2019

Um espectro assombra o mundo, o espectro das greves

Noah Smith sobre a vaga de greves nos EUA, sobretudo no sector dos serviços:

In some ways, service workers may have more potential bargaining power than the manufacturing workers of a hundred years ago. Manufacturing is relatively easy to relocate: The movement of factories to other countries and to less union-friendly states played a big role in undermining unions. But you can’t move a restaurant or a school or a hotel or a taxi service to China or Kentucky. At least in theory, this means local service workers could wield great power if they figured out how to unionize a large percentage of the workers in an area.

The strikes at Uber and Lyft are one sign that a new wave of labor activism is finally taking hold among service workers. Another is the wave of teacher strikes that swept the country in 2018. In San Francisco, 2500 hotel workers staged a successful strike in 2018, winning raises, pensions and better worker protections. Overall, 2018 saw 485,000 workers involved in stoppages of some sort. That’s almost 20 times the level of 2017, and the most since 1986
Em Portugal também temos sinais de uma vaga grevista que ultrapassa os limites habituais - em vez de greves no setor público convocadas por sindicatos ligados às centrais sindicais, nos últimos meses temos tido greves importantes no sector privado (motoristas de matérias perigosas e a Central de Cervejas) ou convocadas por sindicatos independentes (como os enfermeiros, em parte os professores - onde as greves têm sido largamente impulsionadas pelo Sindicato de Todos Os Professores, apesar da Fenprof alinhar nelas - e de novo os motoristas de matérias perigosas) - tirando a das cervejas, também são todas dos serviços, mas pode-se argumentar que isso é simplesmente um reflexo da economia portuguesa ser mais centrada nos serviços.

Tuesday, May 07, 2019

A tirania do politicamente correto em ação

Cartazes da Virgem Maria com auréola com as cores do arco-íris causam uma detenção na Polónia (Visão):

Uma mulher foi detida na sequência do aparecimento de vários posters da Virgem Maria com a auréola pintada com as cores do arco-íris na cidade de Plock, na Polónia. A detenção foi feita com base em suspeitas de ofensa ao sentimento religioso. (...)

Segundo um porta-voz da polícia, a detida tem 51 anos de idade e tinha regressado há pouco tempo do estrangeiro quando as autoridades realizaram buscas ao apartamento e encontraram dezenas de cartazes iguais aos espalhados pela cidade.

Friday, May 03, 2019

Énesima discussão sobre o que é "socialismo"

Sequência no Twitter do jornalista venezuelano Francisco Toro:

My advice, which nobody asked for and nobody will take, is to learn to think politically without using the word "socialism". (...)

A word that can be used to refer both to the Khmer Rouge's torture-and-extermination camps and France's 35-hour work week is a word that doesn't have any fixed center of meaning. (...)

So, a modest proposal: whenever you find yourself about to use the word "socialism," stop.

Really, stop.

Ask yourself what definition of socialism you have in mind.

Then, say *that* instead.

If you equate socialism with government ownership over the means of production, and think that's terrible, then be specific.

Instead of saying "socialism never works", say "government ownership of the means of production never works."

Is that so hard?

If you equate socialism with a much more generous social safety net funded by general tax revenue, that's great.

Instead of saying "we need to move towards socialism" say "we need to move toward a much more generous social safety net funded by general tax revenue."

Simple!
O meu maior problema com a exposição de Toro - a opção "control of the means of production by self-managed workers collectives" nem sequer é referida.

Thursday, May 02, 2019

O conformismo social causa o cancro?

Cancer, Disease and Society, artigo de 1969 de Bernie Sanders (imagino que atualmente ele já não subscreva estas posições).

A teoria, basicamente, era que o cancro tinha uma componente psicossomática resultante da submissão às imposições sociais (como os individuos não descarregavam naturalmente as suas emoções, elas manifestavam-se pelo desenvolvimento do cancro, ou coisa parecida).

Isso pode parecer absurdo, mas com tanta teoria que há por aí sobre o que causa ou não o cancro, com estudos contraditórios sobre que alimentos, tintas, perfumes, etc, etc, são ou não cancerígenos, seria uma teoria muito pior do que muitas das teorias desenvolvidas pela ciência "oficial"?

Wednesday, May 01, 2019

O que se está a passar na Venezuela é um "golpe"?

A Coup in Venezuela? That Word Is Best Avoided in This Situation, por David Papadopoulos (Bloomberg):

As Juan Guaido, Venezuela’s National Assembly leader, calls soldiers and civilians to the streets today to back his push to take control of the country, the word coup is being tossed around freely.

But it’s a tricky one to use in a case like this. Look it up online and the most prominent definition that pops up is this, courtesy of Oxford Dictionaries: “a sudden, violent, and illegal seizure of power from a government.”

It’s the “illegal” part of the definition that’s problematic.