Friday, February 16, 2018

Lei da oferta e da procura

Acima temos a estilização de uma das chamadas "leis" da economia - supostamente, quanto maior o preço de um bem, menos desejo de comprar esse bem haverá (por razões óbvias - é caro), e também mais oferta desse bem haverá (também por razões quase tão óbvias - mais há a ganhar em produzir esse bem). Claro que há muitas exceções, como os bens de Veblen e de Giffen, em que a procura é suposto aumentar com o preço; e, sobretudo no mercado de trabalho, não é raro a oferta aumentar quando diminui o preço: como os salários são mais baixos, os trabalhadores têm que trabalhar mais para atingirem o nível de vida que pretendem (aliás, como o desenvolvimento do meu post vai ser sobre o mercado de trabalho, até pensei inicialmente em representar a oferta como uma reta vertical).

De qualquer maneira, independentemente da posição exata das retas ou curvas da oferta e da procura em situações concretas, o postulado subjacente é que o mercado tende a equilibrar a oferta e a procura - se há mais gente a querer comprar um bem do que a querer vendê-lo, o preço aumenta, levando a oferta a aumentar e a procura a diminuir até se equilibrarem.

Vamos ao exemplo concreto do mercado de trabalho - será de esperar que haja falta involuntária de trabalhadores? À partida, num mercado livre funcionando de acordo com os pressupostos neoclássico mais simplistas, não - se as empresas não contratam mais trabalhadores, é porque não querem (atendendo às condições do mercado, nomeadamente salários) contratar mais trabalhadores.

Note-se que mesmo assumindo que a oferta de trabalho (como de costume quando falo destes assunto, volto a lembrar que "oferta de trabalho" são os trabalhadores que querem vender o seu trabalho e "procura de trabalho" são as empresas que querem comprar trabalho, ainda que na linguagem coloquial frequentemente se use os termos ao contrário) não aumentasse ou até diminuísse com o aumento do salário, o sistema tenderia a equilibrar-se através da procura: com o aumento dos salários, deixaria de ser economicamente viável para as empresas preencher determinados postos de trabalho, e portanto deixariam de procurar contratar pessoas para esses cargos (e no final atingia-se o ponto em que para todos os lugares que as empresas querem preencher, conseguem contratar alguém).

Também não se pode dizer que a culpa é do subsidio de desemprego, do RSI ou até de algumas pessoas já estarem a mandriar por conta do RBI que esperam vir a ser implantado: isso reduziria a oferta de trabalho, mas não o principio geral que a oferta e a procura tendem a se equilibrar (apenas faria que o salário de equilíbrio fosse mais alto, mas não que deixasse de haver equilíbrio)

Portanto como é que se pode explicar esse mistério de as empresas, como alega Ferraz da costa, não conseguirem arranjar trabalhadores? Possíveis explicações:

a) Poderíamos ter um cenário parecido com a Venezuela: o governo venezuelano impõe (ou impôs?) preços máximos para muitos produtos, e por causa disso há mais procura que oferta porque os preços não sobem e portanto o mercado não se equilibra; o equivalente no mercado laboral seria haver leis (ou talvez acordos negociados com os sindicatos) tabelando os salários e assim impedindo as empresas de subir os salários para atrair trabalhadores - mas não há nenhumas leis limitando os salários para cima; a legislação que existe só estabelece salários mínimos, não máximos (da mesma maneira, penso que as empresas abrangidas por um ACT podem sempre pagar mais do que o estipulado, menos é que não pode ser).

b) Pode ser sinal que existe concorrência imperfeita no mercado de trabalho, e que os empregadores têm poder de monopsónio; em vez de estar a explicar isto, que é um pouco complexo, limito-me a linkar para o Luís Aguiar-Conraria.

c) Talvez seja simplesmente linguagem em código, e que quando um empregador diz que não encontra ninguém para trabalhar, o que quer dizer é que os salários são muito elevados e não compensa contratar (ou seja, o mercado está realmente equilibrado, mas ele preferia que o preço de equilíbrio fosse menor), e acha que é mais politicamente correto dizer "ninguém quer trabalhar" do que "muitas empresas não são suficientemente produtivas para conseguirem pagar os salários que se praticam no mercado" (ainda que noutro contexto, ver este post de Noah Smith sobre a questão da "falta de trabalhadores qualificados", que segundo ele pode significar 8 coisas diferentes - para o caso que estou a falar neste post, será fundamentalmente a diferença entre 1º e o 2º possíveis significados, até porque os outros são muito específicos)

d) Há efetivamente uma quarta hipótese, perfeitamente compatível com o tal modelo dos gráficos - era imaginarmos uma situação em que a curva da oferta de trabalho fosse decrescente face aos salários, e que a inclinação fosse mais pronunciada que a curva da procura; num modelo destes a economia poderia facilmente cair num cenário em que o mercado nunca se equilibrava - se houvesse falta de trabalhadores, os salários subiam, mas esta subida de salários, se reduzia a procura de trabalho (o tal efeito de deixar de ser viável contratar alguns trabalhadores), reduzia ainda mais a oferta (pelo tal efeito de já não ser preciso trabalhar tanto para atingir um dado vencimento), criando ainda mais falta de trabalhadores, num ciclo sem fim. Mas esta hipótese (em que basta um desvio milimétrico, face ao salário de equilíbrio,para a economia mergulhar numa espiral em que os salários ou sobem até ao infinito ou descem até zero) parece-me completamente irreal na prática.