Sunday, September 24, 2006

O "Manifesto Comunista" em bonecos animados

Via Arre Macho.



Já agora, alguêm sabe como fazer para, no Firefox, o filme não começar a correr logo quando se abre o blog?

Friday, September 22, 2006

Insurance Horror Stories

No Economist's View, o resumo de um artigo de Paul Krugman sobre os seguros de saúde nos EUA:

“When Steve and Leslie Shaeffer’s daughter, Selah, was diagnosed at age 4 with a potentially fatal tumor in her jaw, they figured their health insurance would cover the bulk of her treatment costs.” But “shortly after Selah’s medical bills hit $20,000, Blue Cross stopped covering them and eventually canceled her coverage retroactively.”

So begins a recent report in The Los Angeles Times ... which offers a series of similar horror stories and suggests that these stories represent a growing trend: more and more health insurers are finding ways to yank your insurance when you get sick.

This trend helps explain something that has been puzzling me: why is the health insurance industry growing rapidly, even as it covers fewer Americans?

Now we know at least part of the answer: they’re working harder than ever at identifying people who really need medical care, and ensuring that they don’t get it. ... Welcome to the ugly world of American health care economics. ...

Because everyone faces some risk of incurring huge medical costs, only the superrich can afford to be without health insurance. Yet private insurers try to refuse coverage to those most likely to need it, and deny payment whenever they can get away with it.

The point isn’t that they’re evil or greedy (although you do wonder how the people who cut off the Schaeffers can look themselves in the mirror). The fact is that cruelty and injustice are the inevitable result of the current rules of the game. Blue Shield of California is a nonprofit insurance provider, yet as a spokesman put it, if his organization doesn’t follow the for-profit practice of selectively covering only the healthiest people, “we will end up with all the high-risk people.”

Now, before you panic about the state of your own coverage, ... the horror stories in The Los Angeles Times article all involve individual insurance; if your coverage comes via your employer, you’re reasonably secure against sudden cancellation.

But employment-based insurance is in rapid decline, as ... more and more companies adopt Wal-Mart-style minimal-benefit policies. That’s why many people are turning to individual insurance — only to find out, in some cases, that they didn’t get what they thought they paid for.

(...)

Medicare, which is a universal health insurance program for older Americans, spends less than 2 cents of every dollar on administrative costs, leaving 98 cents to pay for medical care. By contrast, private insurance companies spend only around 80 cents of each dollar in premiums on medical care; much of the remaining 20 cents is spent denying insurance to those who need it.

Evolução e Ordem Espontanea


"Não reconhecer que determinados adeptos da teoria da evolução só o são porque aderiram ao dualismo científico: reconhecem que o mundo biológico é uma ordem espontânea, mas não reconhecem outras ordens espontâneas como a mente humana, as línguas naturais ou determinadas instituições sociais (dinheiro, mercados, sistemas legais). Um dos leitores chega mesmo a defender que os seres humanos não estão sujeitos a leis que não as que eles próprios inventam."

Creio que nessa passagem JM está a confundir juizos de facto com juizos de valor: o evolucionismo é um juizo de facto - está-se a dizer que as espécies actualmente existentes resultaram da evolução, não que é "desejável" ou "bom" que tenham resultado da evolução. Ora, a respeito das outras instituições a que JM faz referência, penso que quase ninguêm contesta o facto que elas podem se desenvolver espontaneamente - o que é feito é uma critica valorativa, argumentando-se que algumas dessas "ordens espontaneas" podem não ser as mais desejáveis. P.ex., grande parte dos criticos do capitalismo liberal ou dos costumes tribais pashtuns não negam a existência de uma "ordem espontanea" a nível económico ou juridico, apenas contestam a "bondade" dessa ordem espontanea.

De passagem, diga-se que também é possível aceitar a "espontaneadade" da evolução a nivel dos juizos de facto sem a aceitar a nivel de juizos de valor - p.ex., é perfeitamente possível acreditar na teoria darwiniana e, ao mesmo tempo, ser a favor da engenharia genética como forma de "melhorar" a evolução "espontanea".

Saturday, September 16, 2006

O que significa "responsabilidade"?

Na armadilhaparaursosconformistas, cãorafeiro escreve sobre "Liberdade e Responsabilidade".

O que eu vou escrever aqui pode não ter, directamente, muito a ver com isso, mas creio que, indirectamente, acaba por ter.

Um grande problema com palavras como "responsabilidade", "responsável", etc. é que não se sabe muito bem o que querem dizer. Nomeadamente, essas palavras têm dois sentidos que não têm quase nada a ver um com o outro, mas que por vezes são misturados:

Por um lado, "responsabilidade" significa "suportar as consequências dos seus actos"; por exemplo, quando cai uma ponte e se diz "alguêm tem que ser responsabilizado por isso", estamos a falar de "responsabilidade" neste sentido.

Por outro lado, "responsabilidade" (e, sobretudo, "responsável") tem também uma conotação de "espirito de dever" e "obrigação", de fazer o que tenho que fazer e não o que me apetece fazer. P.ex., quando se diz que um jovem que é um aluno aplicado e que tem o seu quarto arrumado é "responsável", é neste sentido.

Os dois sentidos não têm grande ligação: uma pessoa pode não ter grande sentido de "dever" e "obrigação" e no entanto assumir as consequências dos seus actos. Um exemplo extremo: um individuo que recuse a ideia de ter um trabalho regular, optando por uma vida errante, ganhando dinheiro tocando guitarra na rua e/ou fazendo trabalhos ocasionais e dormindo em estações de comboios nos dias frios e ao relento nos dias quentes (nos dias em que os transeuntes apreciaram a sua música e lhe deram muitas moedas, talvez exprimente o conforto de uma pensão). Esse comportamento não é o que frequentemente se chama "responsável", mas encaixa perfeitamente na primeira definição de responsabilidade - o individuo assume as consequências dos seus actos.

Um exemplo mais frequente: muitas vezes, são os jovens mais "irresponsáveis" (no sentido de priveligiarem mais a "satisfação imediata") que decidem deixar os estudos e ir trabalhar (frequentemente a contra-gosto dos pais) - ora, de acordo com a definição "responsabilide = assumir as consequências dos seus actos", esse comportamento é totalmente "responsável" ("irresponsáveis" serão os que - como fez o autor destas linhas - vão tirar um curso, vivendo 4 anos à custa dos seus pais).

Podemos também imaginar o caso oposto: alguêm pode ser uma pessoa "responsável", no sentido de ter uma mentalidade "primeiro as obrigações, depois as diversões" e, no entanto, querer que os outros suportem as consequências dos seus actos e decisões. P.ex., um estudante esforçado e aplicado que ache que, por causa disso, tem direito a uma mesada mais elevada.

Na questão da "liberdade" e da "responsabilidade", creio que frequentemente se mistura estes dois sentidos da palavra "responsabilidade". A "responsabilidade" que está ligada à liberdade é a primeira - se eu decido livremente agir de determindada maneira, devo aceitar os resultados dessa acção. P.ex., se eu decido não fazer a cama, tenho de aceitar o fato de ter uma cama não feita e, de na noite seguinte, ter os lençóis todos enrugados*. No entanto, muitas vezes joga-se com a ambiguidade do conceito de "responsabilidade" para argumentar que as pessoas têm que ser "responsáveis" no segundo sentido para poderem ser livres - ou seja, passa-se do "pessoas livres devem arcar com as consequências de decidirem fazer ou não a cama" para "só as pessoas que fazem a cama todos os dias têm condições para serem livres".

* algo abusivamente, há também quem use esta ligação entre "liberdade" e "responsabilidade" para argumentar que os individuos devem arcar com as consequências, não apenas dos seus actos, mas também com as dos actos de outras pessoas - p.ex, alguns opositores às politicas redistributivas usam esse argumento, esquecendo-se que, a partir do momento em que deixamos de viver em familias auto-suficientes, a nossa riqueza e rendimento são afectados, não apenas pelos nossos actos, mas pelos actos de todas as pessoas com quem interagimos, e pelos actos das pessoas com que elas interagem, e pelos das pessoas que interagem com essas, etc.

"Já podem ir de autocarro sozinhos"

Ontem, no Diário de Noticias, numa reportagem sobre a escola pública e privada, era entrevistada uma família que tinha os filhos no "privado", mas dizia que, depois do 9º ano, iriam para o "público" e explicavam "Nessa altura já são autónomos e podem ir sozinhos no autocarro".

Espero não ter percebido bem o artigo (eu li-o só de raspão), porque, se tiver percebido bem, é de entrar em choque - só a partir do 9º ano (i.e. aos 14/15 anos) é que os adolescentes têm autonomia para andarem sozinhos no autocarro??? No meu tempo (n. 1973), as crianças de Alvor, Montes de Alvor, Ferragudo, Parchal, Mexilhoeira, etc., a partir do momento em que iam para o "ciclo" (aos 10 anos), iam e vinham de autocarro para Portimão todos os dias!

Será que as C+S ao pé da porta, o facto de todas as familias terem carro e a mania de porem os filhos em tudo o que é "actividade" (na música, na natação, no inglês, no futebol, etc.) está a destruir a capacidade das crianças para agirem autonomamente? Ou (suspeito que será isso) serão os pais que subestimam as capacidades dos seus filhos?

The Joys of Prison Labor

[Via Economist's View]

Bradford Plumer escreve o recurso aos prisioneiros como mão-de-obra pelo "complexo industrial-prisional":

The prison-industrial complex, now employs some 80,000 prisoners, and the number's rapidly growing. A large number of those workers earn less than minimum wage:
For the tycoons who have invested in the prison industry, it has been like finding a pot of gold. They don't have to worry about strikes or paying unemployment, health or worker's comp insurance, vacation or comp time. All of their workers are full time, and never arrive late or are absent because of family problems; moreover, if prisoners refuse to work, they are moved to disciplinary housing and lose canteen privileges. Most importantly, they lose "good time" credit that reduces their sentence.
Bonanza! Now one might reasonably wonder whether this captive, ultra-cheap labor force might be pulling down wages and standards for everyone else. After all, while inmates making goods for domestic consumption must be paid a "prevailing wage," that law doesn't apply to exports. So companies can outsource production to the local penitentiary and pay their "workers" next to nothing:
Prisoners now manufacture everything from blue jeans, to auto parts, to electronics and furniture. Honda has paid inmates $2 an hour for doing the same work an auto worker would get paid $20 to $30 an hour to do. Konica has used prisoners to repair copiers for less than 50 cents an hour. … Clothing made in California and Oregon prisons competes so successfully with apparel made in Latin America and Asia that it is exported to other countries.
(...)

There are currently two million prisoners in the United States, and "some experts believe that the number of people locked up in the U.S. could double in the next 10 years"—many for minor, non-violent drug crimes and the like. The War on Drugs: truly the gift that keeps giving. But now that businesses are finding it so lucrative, what are the odds of that changing anytime soon? I wonder if corporations have ever lobbied for "tough on crime" policies because they need the cheap labor. Seems a bit paranoid, but hardly impossible.

Thursday, September 14, 2006

Chavez: presidente vitalicio?

Há uma coisa que ainda não percebi na proposta que se fala de um referendo na Venezuela para acabar com as limitação ao mandato de Chavez: a proposta é no sentido de Chavez passar a ser presidente vitalício (como lhe chama Pacheco Pereira), ou é apenas no sentido de ele poder, de sete em sete anos, recandidatar-se infinitas vezes?

Eu não acho saudável nenhuma das situações (e se fosse venezuelano votaria "não" a qualquer delas) mas são substancialmente diferentes. A primeira significará o estabelecimento de uma ditadura; a segunda não - recorde-se que, até 1951, os presidentes norte-americanos podiam recandidatar-se ad eternum e ninguém chamou aos EUA uma "ditadura" por causa disso ( o único que se recandidatou mais que uma vez foi F.D. Roosevelt, mas o que interessa é que não havia obstáculos consitucionais a isso); inversamente, no México do PRI ou no Brasil pós-1964 os presidentes só exerciam um mandato, mas não era isso que os tornava democracias a sério.

Monday, September 11, 2006

Sunday, September 10, 2006

Já agora...

Ainda a respeito da Administrácio, este post do Critiques of Libertarianism.

Administrácio

O elemento mais pesado conhecido pela ciência foi descoberta no centro de investigação de uma das principais unversidades norte-americanas.

O elemento, que foi designado com “Administrácio”, não tem protões nem electrões, e portanto, tem um número atómico de 0. No entanto, ele tem 1 neutrão, 125 neutrões assistentes, 75 vice-neutrões e 111 vice-neutrões assistentes, dando-lhe uma massa atómica de 312. Essas 312 partículas são mantidas unidas no núcleo por uma força que envolve a continua troca de partículas (semelhantes aos mesões) chamadas “morons” (os cientistas são norte-americanos; ainda não há tradução portuguesa).

Como não tem electrões, o Administrácio é inerte. No entanto, pode ser detectado quimicamente porque impede qualquer reacção com que entre em contacto. De acordo com os descobridores, uma pequena dose de Administrácio originou que uma reacção, que normalmente ocorre em menos de 1 segundo) demorasse 4 dias a ser completada.

Administrácio tem uma vida média de aproximadamente 3 anos. Ao fim deste tempo, ele não se desintegra, mas, em vez disso, tem uma transmutação interna, em que os neutrões assistentes, vice-neutrões e vice-neutrões assistentes trocam de posições. Alguns estudos têm mostrado que a massa atómica, na realidade, aumenta após cada reorganização.

Investigadores de outros laboratórios indicam que o Administrácio surge naturalmente na atmosfera. Tende a concentrar-se em certos locais, tais como agencias governamentais, grandes empresas, etc. O elemento pode ser encontrado nos edifícios mais novos, melhor desenhados e com melhor manutenção.

Friday, September 08, 2006

As FARC, as recolhas de assinaturas, etc.

Ainda a respeito da participação de apoiantes das FARC na Festa do Avante, um grupo de cidadãos decidiu dinamizar vários documentos. Na caixa de comentários do Tugir, escrevi que «Eu poderia subscrever as missivas "Aos Presidentes dos Grupos Parlamentares", "Ao Secretário-Geral do PCP" e "Ao Director da Festa do Avante", mas não as outras».

Vou aqui expôr as razões dessa atitude, que pode parecer um bocado estranha.

Não dou o meu apoio ao documento "Ao Ministro de Estado e da Administração Interna", porque acho que isto é essencialmente uma questão politica e moral, não uma questão de polícia.

Não dou o meu apoio ao documento "Ao Embaixador da Colômbia em Lisboa", porque o Estado colombiano também não tem sido propriamente "flôr que se cheire" - os grupos paramilitares agem quase impunemente, com a cumplicidade da policia e do exército, assassinando tanto opositores violentos como não-violentos; e, em termos de ligações ao narco-tráfico, duvido que haja muitas "mãos limpas" em qualquer dos lados do conflito colombiano. Eu admito que a itenção dos promotores seja dirigir-se ao Embaixador na sua condição de representante do Povo colombiano (1), mas ele é, em primeiro lugar, o representante do Estado.

Também não dou o meu apoio ao documento "Ao grupo defensor da Liberdade de Ingrid Betancourt", já que nesse texto faz referência às outras missivas, logo, penso que só tem sentido ser subscrito por alguêm que tenha subscrito os outros documentos.


(1) Como, aliás, nota CMC

O "7 de Setembro"

Miguel Castelo Branco evoca o "7 de Setembro". Eu tinha 1 ano e 1 mês nessa data, logo não tenho grande autoridade para confirmar ou desmentir o que ele diz. No entanto, nalguns pontos a descrição de MCB difere do que sempre ouvi os meus pais contar:

"Divulgado o acordo para a transmissão de poderes, realizou-se nos arrabaldes de Lourenço Marques um ajuntamento da FRELIMO, no termo do qual se deram largas ao ódio anti-português. Pontificaram nas arruaças membros do grupo "Democratas de Moçambique", maioritariamente ligados ao advogado milionário Almeida Santos. A bandeira portuguesa arrastada pelas ruas perante a população gerou, de imediato, uma enérgica reacção de repúdio, sobretudo quando deram entrada no hospital central de LM feridos brancos...pintados de negro !"

Não é que isso, textualmente, seja diferente do que me contaram, mas o que sempre ouvi dizer é que quem andou a arrastar a bandeira portuguesa pelas ruas foram os adversários da independência, a fim de provocar uma reação adversa (como a que veio a ocorrer) - e bate certo com os autores terem sido "brancos pintados de negro".

"a revolta foi colectiva, cobrindo a quase totalidade das minorias branca e asiática, a quase totalidade dos miscigenados e vastos sectores da população negra"

O que eu posso dizer é que, da minoria branca, os meus pais não apoiaram essa revolta, e creio que grande parte dos seus amigos e conhecidos também não (claro que isso é capaz de não ser estatisticamente relevante). Quando ocorreram os massacres em Timor, nos dias a seguir ao referendo, o meu pai comentou "Eu estive para ver isto em África. Isto é o que queriam fazer aos negros, e aos brancos que eram a favor dos negros. A diferença é que lá a nossa tropa não deixou", o que destoa da visão tão positiva que MCB dá dos rebeldes.

A titulo um bocado bizarro, mas revelador do estado de espírito de alguns rebeldes, tenho uma vaga ideia que uma pocilga(!) na nossa rua foi atacada, mataram os porcos pretos e deixaram os porcos brancos. Como mensagem simbólica é revelador...

Refira-se que meu pai não é nenhum "esquerdista" - é um eleitor "típico" (umas vezes PS, outras PSD) e que até é bastante crítico da descolonização.

Finalmente, noto que, neste post, não estou a pôr em causa as críticas que MCB faz à Frelimo, apenas os elogios que faz aos rebeldes do "7 de Setembro".

Foto nocturna

Thursday, September 07, 2006

O Indíce de "Liberdade Económica"


Ou seja, a carga fiscal é medida com base na taxa mais alta do imposto sobre o rendimento, na taxa mais alta do imposto sobre os lucros, e na variação da despesa pública em percentagem do PIB. Ou seja, se um governo decidir baixar as taxas mais altas de imposto e subir as mais baixas, aumentando a carga fiscal na sua globalidade, segundo a Heritage Fundation, a sua carga fiscal diminui. No extremo, um pais que, em vez de cobrar impostos de acordo com uma taxa percentual, cobrasse a cada individuo - rico ou pobre - 300 euros por mês, não teria carga fiscal (já que a taxa marginal seria 0%).

Aliás, até me dá a impressão que um país que, em vez de imposto sobre o rendimento, só tivesse um imposto sobre as vendas (estilo IVA), também não teria carga fiscal. Indo ainda mais longe, um país que tivesse uma taxa de IVA de 400% (e apenas essa) e em que, no ultimo ano, a despesa pública tivesse baixado de 85 para 80% do PIB seria talvez o pais mais "liberal" do mundo em termos de carga fiscal - afinal, não tem impostos sobre o rendimento nem sobre as empresas e a despesa pública está a descer.

O curioso é que, umas linhas abaixo, o estudo diz que "government expenditures are the most complete measure of a state's burden on the economy"; ora se é assim, porque a base de calculo (em vez das taxas máximas do imposto) não foi simplesmente a despesa pública em percentagem do PIB (ou, ainda mais correcto, a receita fiscal total em percentagem do PIB)? Nem é uma questão de não terem esse valor disponivel - têm-no, já que um dos itens do calculo é a tal variação da despesa pública (vou voltar a abordar essa da "variação").

Na verdade, com essa opção de medirem a carga fiscal com base na taxa marginal mais alta do imposto sobre o rendimento, até parece que os conservadores (e os seus aliados liberais) nos querem facilitar o trabalho de os apresentar como defensores apenas dos interesses dos "ricos"... E estes cálculos, realmente, são promovidos por pessoas e organização que são contra os impostos progressivos, a favor da substituição do imposto sobre o rendimento por um imposto sobre a vendas, etc.

O ataque à progressividade do sistema fiscal que está implicito nesse cálculo (e, de uma maneira geral, o entusiasmo liberal por "flat taxes" e afins) levanta outra questão: muitas vezes, os liberais argumentam que "impostos são trabalhos forçados", que ter que pagar 25% do rendimento em impostos é o mesmo que trabalhar como escravo para o Estado 25% do tempo, etc. Claro que essa analogia não faz sentido (mesmo que eu tenha que pagar 25% de impostos, não tenho, durante 25% do tempo, o Estado a ordenar-me que trabalho fazer, aonde o fazer, quando o fazer, como o fazer e com quem o fazer - as caracteristicas distintivas do "trabalho forçado" e da "escravatura"), mas, se fizesse, isso até era um bom argumento para concentrar os impostos nos altos rendimentos: afinal, se cobrar 100 euros a quem ganhe 1.000 euros é escravizá-lo 10% do tempo e cobrá-los a quem ganhe 500 euros é escravizá-lo 20% do tempo, a conclusão lógica é que - para obter a mesma receita fiscal - o imposto progressivo é menos "escravizador".

Uma ultima nota a respeito de, para medir a carga fiscal, ter sido usada, não a despesa pública em percentagem do PIB, mas a variação. Isso é obviamente absurdo - dessa maneira (se tudo o resto fosse igual), um país cuja despesa pública tenha baixado de 60 para 50% teria uma carga fiscal inferior a um cuja despesa tivesse subido de 1 para 2%. No entanto, suspeito que percebo a motivação desse disparate matemático: os paises nórdicos, que têm tido bons resultados económicos e sociais, têm um nivel elevado de despesa pública, mas têm-no vindo a reduzir. Assim, ao usar como critério, não a despesa, mas a variação da despesa, esses países são "empurrados" para o topo da lista dos países com mais "liberdade económica" (para desespero dos liberais nativos), permitindo argumentar que os países mais prósperos são os que mais seguem o "mercado livre".

As FARC


Tuesday, September 05, 2006

Espuma de barbear: uma perda de tempo?

Há uns tempo, li algures na net que não valia a pena usar espuma de barbear: que, usando só água quente, ao fim de alguns dias para a pele se habituar, era a mesma coisa (ou melhor, era mais rápido e fazia menos cortes).

Eu não liguei muito, mas, a dada altura, decidi exprimentar - já há quinze dias que não uso espuma e parece que resulta.

Debate - A esquerda o islamismo

A respeito da atitude que a Esquerda deve ter face aos movimentos islamicos, dois debates no site da revista International Viewpoint (a International Viewpoint é o orgão em inglês da corrente representada em Portugal pelo ex-PSR):

Saturday, September 02, 2006

O Rendimento Social de Inserção

O PND decidiu lançar uma petição exigindo que os beneficiários do Rendimento Social de Inserção sejam obrigados a prestar serviços como “limpar matas, ruas ou jardins”.

Será que o PND inclui nisso os beneficiários do RSI que têm emprego (não sei a percentagem actual, mas cerca de 40% dos beneficiários do antigo RMG tinham emprego)? É que, se incluir, isso, entre outras coisas, vai aumentar as despesas: para poder ir "limpar matas", provavelmente os benificiários do RSI terão que deixar os seus empregos, logo passarão a ganhar menos, logo o valor que irão receber de RSI será maior (recorde-se que o RSI é calculado pela diferença entre o valor da pensão social e o valor dos outros rendimentos auferidos pelo agregado familiar - assim, uma redução nos "outros rendimentos" implica um aumento do RSI).

Já agora, e os beneficiários que estão em cursos de formação profissional, também terão que ir "limpar ruas" (e, nesse caso, o horário das limpezas será ajustado ao horário dos cursos)?