Wednesday, October 11, 2006

Re: A "Esquerda Florida"

Bernardo Pires de Lima, no blogue da Atlântico, fala do que ele chama malta da esquerda florida que vibrou com os guinchos do Daniel Cohn-Bendit nos anos 60, que viu ruir os "sonhos da igualdade" por esse mundo fora, que se recusou a assistir ao descalabro do mundo soviético e que dorme ao lado de Fidel na cama do hospital em Havana, [mas que] encontrou um novo rumo, uma nova paternidade, [deixando] (...) a orfandade pós-89».

Ainda gostava de saber de quem é que o BPL está a falar: estará a falar da malta da esquerda que chamava a Daniel Cohn-Bendit "anarquista alemão", que no Maio de 68 francês mandava os seus militantes impedir os estudantes falarem com os operários, cujos poetas oficiais cantavam louvores à policia, que se recusou a assistir ao descalabro do mundo soviético e que vive numa ofandande pós-89?

Ou estará a falar da esquerda que gritava "somos todos judeus alemães" (em relação a Cohn-Bendit), que ouvia Rudi Dutschke falar contra "um mundo que que fala de paz, mas tolera a guerra, um mundo que fala de liberdade, mas que aceita as hipocrisias do capitalismo, que fala de progresso, mas que sofre a sufocação da burocracia comunista" e que discutia se os paises de Leste eram "capitalismo de Estado", "colectivismo burocrático" ou "Estados operários degenerados" (e que desde 1989 perdeu esse tema de debate)?

Diga-se que nunca ouvi a expressão "esquerda florida", mas expressões similares ("folclórica", "festiva", etc.) costuma aplicar-se à segunda. No entanto, toda a argumentação de BPL acerca de "orfandande" faz sentido é se se estiver a referir à primeira.

[E depois a direita queixa-se de, por exemplo, por vezes confundirmos os liberais com os neo-conservadores... Regra geral, a falar da esquerda eles fazem confusões ainda maiores]

Já agora, mais um ponto:

"Que tal pedir a esta esquerdalhada que vá viver para a Palestina, o Laos, a Venezuela, Cuba ou restantes paraísos e nos deixe, aqueles que amam a democracia Ocidental com todos os seus defeitos, em paz e sossego??"

lmagino que o mesmo conselho (com pequenas variações) se aplique a todos os "camaradas de revista" de BPL que se fartam de elogiar os EUA e de dizer que a Europa está decadente .

Tuesday, October 10, 2006

O meu site ressuscitou

Afinal, após algumas semanas de ausência, o meu site voltou a estar "no ar".

Portanto, se alguêm procurar links sobre as tribos prussianas da Idade Média ou quiser ver os meus desenhos, já sabe aonde ir.

Monday, October 09, 2006

As minhas receitas

Já que agora há um blogue de receitas (até deve haver vários, mas pronto...), talvez alguma das autoras ache interessante algumas das minhas 15 receitas (será que eu deverei abrir um restaurante?):

  1. bife de vaca com batatas fritas
  2. bife de vaca com arroz
  3. bife de vaca com esparguete
  4. bifanas de porco com batatas fritas
  5. bifanas de porco com arroz
  6. bifanas de porco com esparguete
  7. costeletas de porco (do cachaço) com batatas fritas
  8. costeletas de porco (do cachaço) com arroz
  9. costeletas de porco (do cachaço) com esparguete
  10. costeletas de porco (do lombo) com batatas fritas
  11. costeletas de porco (do lombo) com arroz
  12. costeletas de porco (do lombo) com esparguete
  13. bife de peru com batatas fritas
  14. bife de peru com arroz
  15. bife de peru com esparguete

Thursday, October 05, 2006

Lulismos, bushismos ou o quê?

Na edição desta semana do Sol, na "Tabu" havia um artigo acerca de um livro sobre gaffes do presidente brasileiro Lula da Silva. Nas margens do artigo, havia várias frases que (pelo contexto) parecem ser algumas dessas gaffes (embora tal não seja dito explicitamente):

"Se não formos bem sucedidos corremos o risco de fracassar"

"Uma baixa participação nas eleições é sinal que poucas pessoas estão indo votar"

"Há uma palavra que define a responsabilidade que um politico deve ter e essa palavra é «estar preparado»"

Pelos vistos há mais alguêm que cometeu essas mesmas gaffes (ainda que noutra lingua) - GW Bush; ou será que, afinal, foi John Kerry? Ou Dan Quayle? Ou ninguêm (em que lingua fôr)?

Já agora, a referência (essa feita explicitamente no artigo) a Lula ter dito que gostava de ter aprendido latim para comunicar melhor com os países da América Latina também me parece suspeita.

Pacheco Pereira, as televisões e o Darfour

Numa critica ao que considera a parcialidade da nossa comunicação social, a dada altura Pacheco Pereira escreve "Exemplos: silêncios sobre o que se passa e é necessário fazer no Darfur, resultado de não se querer integrar o noticiário sudanês no contexto dos conflitos de origem islâmica".

Pacheco Pereira ainda há de explicar como é que uma guerra entre muçulmanos e muçulmanos é um "conflito de origem islâmica" (será que a II Guerra Mundial foi um "conflito de origem cristã"?).

O crescimento económico sueco

Ultimamente, tem sido moda (veja-se as discussões em muitas caixas de comentários) dizer-se que o alto nível de vida da Suécia é uma herança do seu passado liberal e que o seu Estado Social foi feito à custa dessa riqueza previamente acumulada (o argumento é mais ou menos assim "Em 1940, ou 50, a Suécia era o país mais rico do mundo, mas, a partir daí, com a adopção do Estado Social, o crescimento económico reduziu-se a sua posição relativa foi descendo"). Um exemplo é este texto, republicado em vários sitios (além da atenção que terá tido dos motores de busca).

Será que isso é mesmo assim?O livro Dynamic Forces in Capitalist Development: A Long-Run Comparative View, de Angus Maddison tem algumas tabelas comparando o crecimento económico de vários países.

Por exemplo, para o PIB p.c. em 1950 (a preços de 1985) tem os seguintes valores:

EUA.................... 8,611 US$
Reino Unido........5,651 US$
Canadá.................6,113 US$
Suécia...................5,331 US$

Logo, em 1950 a Suécia não era o país mais rico do mundo, como já li algures (não se deduza que era o 4º mais rico - eu não pus todos os países referidos).

Agora, vamos ver as taxas de crescimento anual do PIB p.c., de 1913 a 1950, 50 a 73, e 73 a 89:

País...................[1913-50].....[1950-73]........[1973-89]

EUA........................1,6%...............2,2%................1,6%
Reino Unido..........0,8%...............2,5%.................1,8%
Canadá...................1,5%...............2,9%.................2,5%
Suécia.....................2.1%...............3.3%.................1.8%

Ou seja, o periodo de maior crescimento económico da Suécia foi exactamente em 50-73, talvez a epoca em que o Estado Social atingiu o seu apogeu (atenção - não confundir correlação com causa: afinal, esse foi também o periodo de maior crescimento dos outros países). Em termos de crescimento relativo, esse periodo também não foi mau: em 50-73, a Suécia cresceu ao ano mais 1,1 pontos que os EUA, enquanto em 13-50 tinha crescido apenas mais 0,5 pontos; comparada com o Reino Unido é ao contrário: em 50-73 cresceu mais 0,8 p.p, contra um crescimento de mais 1,3 p.p. em 13-50. Seja como fôr, o periodo 50-73 foi o de maior crescimento em termos absolutos, e não particularmente melhor ou pior em termos de crescimento comparado com os outros países.

Agora vamos ver a produtividade comparada (100 representa a produtividade/hora dos EUA):

País........................1913.....1950........1973

EUA........................100.......100..........100
Reino Unido..............78.........57.............67
Canadá......................75..........75............83
Suécia........................44..........49...........76

Ou seja, em 37 anos, de 1913 a 1950, a produtividade sueca passou de 44 para 49% da norte-americana, enquanto nos 23 anos de 1950 a 73 passou de 49% para 76% (já face à do Reino Unido, o crescimento foi ligeiramente menor em 50-73 do que em 13-50).

Em conclusão, tudo aponta para que a Suécia tenha tido melhores resultados económicos durante o periodo do "Estado Social" do que antes.

Já agora, diga-se que, se em 1940 (ano não contemplado nestas estatistas) a Suécia (ou a sua quase homónima alpina) fosse realmente o país mais rico do mundo isso também pouco quereria dizer - afinal, os outros países da Europa desenvolvida estavam a invadir-se e bombardear-se uns aos outros (se, nos quadros acima, eu tivesse feito a comparação com a Alemanha ou a França não me admirava nada que estas, em 50-73, tivessem crescido muito mais do que Suécia: como é que elas estavam em 1950?!).

Nota final - estes valores foram extraídos da passagem do livro constante da sebenta de Macroeconomia II da AE do ISEG, de 93/94.

O que foi feito do meu site?

Há vários dias que estava a pensar porque será que os comandos da música não funcionavam - estava convencido que era algum problema do QuickPlayer instalado no browser (até tentei mudar para o Windows Media Player para ver se funcionava).

Finalmente, descobri o que se passou: todo o meu site (aonde a música estava alojada) foi à vida!!

Antes que perguntem "Como é que este levou semanas a perceber que o site dele fugiu?", tenham em atenção que eu já sei o que está(va) lá escrito, logo raramente o consulto (a única coisa que uso é a página dos links, que tenho gravada off-line).

O que é que o SAPO fez do meu site?? Terá-o achado com cara de mosca?

Wednesday, October 04, 2006

A escravatura, a redistribuição, etc.

Fernanda Câncio argumenta que os escravos que o facto de no século XIX, aparentemente, os escravos do Sul dos EUA viverem melhor que os operários do Norte representa "uma crítica ao sistema capitalista selvagem que vigorava nos eua em relação aos trabalhadores assalariados à época da escravatura. o mercado 'livre' era pior que o pior dos sistemas totalitários, é o que [se] conclui".

João Miranda responde de duas maneiras: por um lado, pergunta como "é que o operário do início do século XIX poderia ter o nível de vida do escravo sul-carolinês do séc XIX" (nota: provavelmente devido à confusão resultante de querer imitar o estilo ortográfico de Fernanda Cancio, JM não escreveu bem isso, mas penso que era isso que ele queria escrever - afinal, é dessa comparação que se está a falar).

Além disso, afirma
"os escravos recebiam de volta sob a forma de bens e serviços quase tudo o que produziam (90%) sendo o nível de exploração estimado bastante baixo". Acho que, com esta, o tiro saiu-lhe pela culatra: o facto de o nivel de exploração do escravo ser baixo só reforça a tese de Fernanda Câncio de que os operários eram mais explorados que os escravos.

Diga-se de passagem que a ideia que os escravos eram melhor tratados que os operários assalariados não é nova: no século XIX, os defensores da escravatura (p.ex. os conservadores ingleses pró-Confederação) argumentavam isso, e com uma certa lógica - como o patrão era o dono do escravo, tinha interesse em que ele tivesse boa saúde (logo, boa alimentação, boas condições de trabalho, etc.), já que a morte ou incapacitação de um escravo era uma perda de capital investido; pelo contrário, para o patrão do assalariado, se ele morresse de fome ou ficásse inválido, não havia problema, era só contratar outro.

A visão marxista do anti-esclavazismo da burguesia industrial seguia mais ou menos na mesma linha - os industriais seriam contra a escravatura exactamente pelos seus custos.

Um exemplo engraçado desse argumentação pode ser uma passagem do filme Queimada (um típico filme "de esquerda" dos anos 60) em que o protagonista (Marlon Brando), um agente inglês tentando convencer os comerciantes de uma ilha das Caraíbas a apoiarem uma revolta anti-portuguesa/pró-inglesa, diz:

Gentlemen, let me ask you a question. Now, my metaphor may seem a trifle impertinent, but I think it's very much to the point. Which do you prefer - or should I say, which do you find more convenient - a wife, or one of these mulatto girls? No, no, please don't misunderstand: I am talking strictly in terms of economics. What is the cost of the product? What is the product yield? The product, in this case, being love - uh, purely physical love, since sentiments obviously play no part in economics.

Quite. Now, a wife must be provided with a home, with food, with dresses, with medical attention, etc, etc. You're obliged to keep her a whole lifetime even when she's grown old and perhaps a trifle unproductive. And then, of course, if you have the bad luck to survive her, you have to pay for the funeral!

It's true, isn't it? Gentlemen, I know it's amusing, but those are the facts, aren't they? Now with a prostitute, on the other hand, it's quite a different matter, isn't it? You see, there's no need to lodge her or feed her, certainly no need to dress her or to bury her, thank God. She's yours only when you need her, you pay her only for that service, and you pay her by the hour! Which, gentlemen, is more important - and more convenient: a slave or a paid worker?

Agora, uma questão paralela: nos comentários ao post de JM, surgiu uma discussão se deveria ter havido redistribuição da riqueza nessa altura, com uns a argumentarem que isso iria melhor a situação dos operários da altura, e os blasfemos a dizerem que isso iria reduzir o crescimento económico.

Independentemente do lado que tomemos nessa disputa (eu tendo mais para os primeiros), há um detalhe que está a ser esquecido: nos EUA do século XIX havia redistribuição da riqueza - redistribuição dos pobres para os ricos.

Como assim? Nos EUA do século XIX, várias administrações seguiram politicas protecionistas (essas politicas intensificaram-se após a guerra, mas já haviam antes) - a questão das "tarifas" era talvez a segunda questão mais debatida na altura (a par com a escravatura). Ora, num pais com escassez relativa de capital, uma politica protecionista faz subir a rentabilidade do capital em relação à dos outros factores de produção, como o trabalho ou a terra. Assim, esse protecionismo - à época chamado "sistema americano" - significava uma redistribuição da riqueza dos agricultores e operários para os industriais. Aliás, isso via-se nos alinhamentos partidários da época: as classes baixas (e também os latifundiários esclavagistas) apoiavam o (então) livre-cambista Partido Democrata, enquanto que industriais, banqueiros e grandes comerciantes apoiavam os partidos protecionistas (Federalistas, Whigs e Republicanos).

Juizos de Valor

Tuesday, October 03, 2006

A pobreza nos EUA

Quando se fala na pobreza nos EUA, é frequente contra-argumentar-se que os pobres norte-americanos seriam considerados "classe média" noutros países do mundo (li alguns textos, p.ex., do Rodrigo Adão Fonseca ou do Luis Pedro que me parecem ir nessa linha).

Se por outros países, nos estivermos a referir ao México, ao Haiti ou a Cuba, deve ser verdade; no entanto, se fizermos a comparação com a Europa (e essas polémicos sobre a pobreza costumam surgir em discussões sobre as virtudes comparadas dos "modelos" norte-americano e europeu), não sei se os "pobres" norte-americanos serão assim tão abonados.

Vamos fazer umas contas - nos EUA, uma familia de 4 pessoas é considerada "pobre" se tiver um rendimento global inferior a 20.000 dólares (refira-se que, para as estatísticas de "pobreza" nos censos, o que conta é o rendimento antes de impostos). O dolár vale cerca de 80 cêntimos de euro, o que pôe o nível de pobreza em 16.000 euros.

Agora, vamos comparar com os preços - o que eu ouço dizer de pessoas que vão aos EUA é que comprar comida na praça ou no supermercado custa o mesmo que em Portugal; ir ao café já é muito mais caro; e que a habitação pode ser muito mais cara, mas varia conforme as regiões (aliás, faz sentido que na habitação ou nos serviços haja diferenças de preço muito maiores entre os paises do que nos produtos que podem ser levados de um lado para outro).

Segundo a CIA, o PNB português avaliado pela taxa de cambio é de 170,3 mil milhões de dólares e avaliado em termos de "paridade de poder de compra" é de 204,4 mil milhões de dólares; ora, se, aos preços portugueses, 170 dólares permitem comprar o equivalente a 204 dólares, isso quer dizer que os preços em Portugal serão cerca de 83% de nos EUA; fazendo a conta ao contrário, podemos concluir que os preços nos EUA serão cerca de 20% mais altos que em Portugal.

Assim, a tal família de 4 pessoas com um rendimento de 16.000 euros corresponderá, a preços portugueses, a um rendimento de 13.330 euros. Assumindo uma familia em que marido e mulher trabalhem, teremos um rendimento mensal de 555 euros. Ora, 555 euros (sobretudo antes de impostos) não é o que, mesmo em Portugal, se considera um rendimento de "classe média" - será, quanto muito, um rendimento de classe média-baixa. Imagine-se agora comparado com os outros países da Europa

Mais uns pontos:

  • os norte-americanos, em média, têm menos férias, trabalham mais em "segundos empregos", etc. do que os europeus, logo, se tomarmos em atenção, não apenas o rendimento, mas o conjunto "rendimento + tempo livre", a superioridade económica norte-americana ainda mais discutível se torna
  • o "pobre europeu" típico (embora talvez não o português) é um desempregado, enquanto o norte-americano é um trabalhador com baixo salário (confesso que não tenho nenhuma estatística que me confirme isto; é apenas o que tenho lido aqui e alí...); sinceramente, não sei dizer qual das situações é a pior - numa análise puramente economicista, para o mesmo nível de rendimento, é "melhor" ser um desempregado a receber um subsidio do que um trabalhador mal pago; num entanto, numa prespectiva e auto-estima e realização pessoal, talvez ser um working poor seja melhor
No entanto, é conveniente fazer umas ressalvas:

  • a pobreza nos EUA talvez seja um fenómeno regional, concentrado no Sul e nos Apalaches; ora, é possível que os preços nessas regiões sejam mais baixos do que no geral, o que deitará por terra o cálculo que eu estive a fazer há uns parágrafos atrás
  • a situação dos pobres nos EUA versus Europa costuma surgir no contexto dos debates "mercado livre" vs. "intervenção estatal"; mas há quem argumente que (nos EUA como noutros países) quer a pobreza de muitos pobres, quer a riqueza de muitos ricos, não terá nascido do "mercado" mas de intervenções estatais (presentes ou passadas)

Sunday, October 01, 2006

Joint Ventures: Venezuela’s Faustian Pact with Foreign Capital

Artigo em Venezuelanalysis.com:

The following statement may come as a bit of a shock to those who have listened to one of President Chávez’s anti-imperialist speeches: PDVSA, the Venezuelan state oil company and renowned source of riches—riches that fund the famous social missions at that—has recently gone into partnership with the forces of imperialism. Shell, Chevron, BP, and other equally infamous trans-national oil corporations have formed joint ventures (empresas mixtas in Spanish) with PDVSA. Even more shocking, this has been sold to the people as a radical recapture of national sovereignty and a victory against imperialism. George Orwell and his novel 1984 spring to mind. But the Minister of Energy and Oil, Rafael Ramírez, said so himself regarding the new joint ventures: “We have done nothing more than reclaim the biggest oil reserves in the world from the jaws of imperialism.”

Iraque à beira da pacificação

Ver Insurgente (ironia por ironia, acho que esta é melhor).

Se fosse brasileiro

Provavelmente a minha candidata seria Heloisa Helena - não tem qualquer hipótese de ganhar, mas eu também passei a maior parte da minha vida eleitoral votando em candidatos sem hipótese de ganhar (e, seja como fôr, eu concordo muito com o que dizia uma minha ex-colega de trabalho - "o que faz um bom governo é uma boa oposição")

Já agora, no Expresso, Daniel Oliveira escreve que "não votaria em Heloisa Helena (...) porque ela representa o ressentimento daqueles que nunca acreditaram na mudança e que no fim nos recordam: em bem te avisei". Ora, Helena é uma ex-militante do PT que entretanto foi expulsa; o seu Partido Socialismo e Liberdade é composto por antigos militantes do PT; um dos outros partidos que a apoia, o Partido Comunista Brasileiro*, também apoiou Lula na última eleição (apenas outro partido que a apoia, o PSTU - o equivalente brasileiro da Ruptura/FER - foi contra Lula desde o inicio). Ou seja, Heloisa parece-me representar, não "o ressentimento daqueles que nunca acreditaram na mudança", mas o daqueles que chegaram a acreditar.

Já agora, alguns posts noutros blogs sobre o assunto:

Brasil, eleições, no xatoo
Uma clarificação à esquerda, no foi um ar que se lhe deu


* não confundir com o Partido Comunista do Brasil (mais ou menos o equivalente à UDP), que continua a integrar o governo; também não confundir com o antigo Partido Comunista Brasileiro, o actual Partido Popular Socialista (o novo PCB é uma cisão da "linha dura" que rejeitou a "renovação" do PCB/PPS)

Já que estou falando de Roma e dos EUA

Temos aqui um artigo de Matthew Whithe, em que o autor, meio a sério, meio a brincar, traça um paralelo entre o EUA e Roma antiga (diga-se que as suas previsões para 2005 já falharam - a Síria ainda não foi conquistada).

Saturday, September 30, 2006

Pirates of the Mediterranean

No Economist's View, um extracto de um artigo de opinião do New York Times:

In the autumn of 68 B.C. the world’s only military superpower was dealt a profound psychological blow by a daring terrorist attack on its very heart. Rome’s port at Ostia was set on fire, the consular war fleet destroyed, and two prominent senators, together with their bodyguards and staff, kidnapped. ... [I]n the panicky aftermath of the attack, the Roman people made decisions that set them on the path to the destruction of their Constitution, their democracy and their liberty. One cannot help wondering if history is repeating itself.

Consider the parallels. The perpetrators of this spectacular assault were not in the pay of any foreign power: no nation would have dared to attack Rome so provocatively. They were, rather, the disaffected of the earth: “The ruined men of all nations,” in the words of the great 19th-century German historian Theodor Mommsen, “a piratical state with a peculiar esprit de corps.”

Like Al Qaeda, these pirates were loosely organized, but able to spread a disproportionate amount of fear among citizens who had believed themselves immune from attack. To quote Mommsen again: “The Latin husbandman, the traveler on the Appian highway, the genteel bathing visitor at the terrestrial paradise of Baiae were no longer secure of their property or their life for a single moment.”

What was to be done? Over the preceding centuries, the Constitution of ancient Rome had developed an intricate series of checks and balances intended to prevent the concentration of power in the hands of a single individual. The consulship, elected annually, was jointly held by two men. Military commands were of limited duration and subject to regular renewal. Ordinary citizens were accustomed to a remarkable degree of liberty: the cry of “Civis Romanus sum” — “I am a Roman citizen” — was a guarantee of safety throughout the world.

But such was the panic that ensued after Ostia that the people were willing to compromise these rights. The greatest soldier in Rome, the 38-year-old Gnaeus Pompeius Magnus (better known to posterity as Pompey the Great) arranged for a lieutenant of his, the tribune Aulus Gabinius, to rise in the Roman Forum and propose an astonishing new law.

“Pompey was to be given not only the supreme naval command but what amounted in fact to an absolute authority and uncontrolled power over everyone,” the Greek historian Plutarch wrote. “There were not many places in the Roman world that were not included within these limits.”

Pompey eventually received almost the entire contents of the Roman Treasury — 144 million sesterces — to pay for his “war on terror,” which included building a fleet of 500 ships and raising an army of 120,000 infantry and 5,000 cavalry. Such an accumulation of power was unprecedented, and there was literally a riot in the Senate when the bill was debated.

Nevertheless, at a tumultuous mass meeting in the center of Rome, Pompey’s opponents were cowed into submission, the Lex Gabinia passed (illegally), and he was given his power....

But it was too late to raise such questions. By the oldest trick in the political book — the whipping up of a panic, in which any dissenting voice could be dismissed as “soft” or even “traitorous” — powers had been ceded by the people that would never be returned. Pompey stayed in the Middle East for six years, establishing puppet regimes throughout the region, and turning himself into the richest man in the empire.

Those of us who are not Americans can only look on in wonder at the similar ease with which the ancient rights and liberties of the individual are being surrendered in the United States in the wake of 9/11. The vote by the Senate on Thursday to suspend the right of habeas corpus for terrorism detainees, denying them their right to challenge their detention in court; the careful wording about torture...; the admissibility of evidence obtained in the United States without a search warrant; the licensing of the president to declare a legal resident of the United States an enemy combatant — all this represents an historic shift in the balance of power between the citizen and the executive.

An intelligent, skeptical American would no doubt scoff at the thought that what has happened since 9/11 could presage the destruction of a centuries-old constitution; but then, I suppose, an intelligent, skeptical Roman in 68 B.C. might well have done the same.

In truth, however, the Lex Gabinia was the beginning of the end of the Roman republic. It set a precedent. Less than a decade later, Julius Caesar — the only man, according to Plutarch, who spoke out in favor of Pompey’s special command during the Senate debate — was awarded similar, extended military sovereignty in Gaul. Previously, the state, through the Senate, largely had direction of its armed forces; now the armed forces began to assume direction of the state.

It also brought a flood of money into an electoral system that had been designed for a simpler, non-imperial era. Caesar, like Pompey, with all the resources of Gaul at his disposal, became immensely wealthy, and used his treasure to fund his own political faction. Henceforth, the result of elections was determined largely by which candidate had the most money to bribe the electorate. In 49 B.C., the system collapsed completely, Caesar crossed the Rubicon — and the rest, as they say, is ancient history.

It may be that the Roman republic was doomed in any case. But the disproportionate reaction to the raid on Ostia unquestionably hastened the process, weakening the restraints on military adventurism and corrupting the political process. It was to be more than 1,800 years before anything remotely comparable to Rome’s democracy — imperfect though it was — rose again.

The Lex Gabinia was a classic illustration of the law of unintended consequences: it fatally subverted the institution it was supposed to protect.

Porque os votos não devem ser transacionáveis

[Em 1994] Pedro Arroja defende [defendia?] que os votos devem poder ser vendidos.

Imagine-se que era assim. Vamos supor que alguêm tinha um projecto que implicaria que cada pessoa tivesse que pagar, digamos, 500 euros em impostos para a sua realização (p.ex., um industrial que quisesse construir um complexo de refinarias petroliferas e queria que fosse o Estado a pagar pelos direitos de emissão de CO2). Agora imaginemos que esse alguêm, para conseguir que o Estado fizesse o que ele queria, começava a comprar votos ao preço de 50 euros por voto.

Há primeira vista poderemos pensar que quase ninguém lhe iria vender o seu voto - afinal, se eu recebo 50 euros por vender o meu voto a alguém que o vai usar para me fazer pagar mais 500 euros de impostos, é um prejuizo de 450 euros, logo não lhe iria vender o meu voto.

Mas não é bem assim: afinal, se ele conseguir comprar votos suficientes para que o projecto vá avante e eu tiver vendido o meu voto, perco 450 euros; se eu não tiver vendido o meu voto, perco 500 euros. Por outro lado, se não tiverem sido comprados votos suficientes e eu tiver vendido o meu, tenho um "lucro" de 50 euros; caso eu não tenha vendido o meu voto, não ganho nem perco nada.

Ou seja, vender o voto é sempre a opção mais vantajosa - em qualquer dos casos, ganho sempre mais (ou perco sempre menos) 50 euros se vender o voto do que se não o vender. E, sendo a opção mais vantajosa, provavelmente seriam comprados votos suficientes para conseguir a maioria e o tal projecto iria para a frente, ficando quase todos a perder: os que venderam o voto, iriam perder 450 euros; os que não o venderam, 500 euros. Refira-se que esses ultimos seriam bastantes, já que o comprador de votos tem todo o interesse em, quando tiver votos suficientes, não comprar mais nenhuns, por duas razões: por um lado, uma razão óbvia - sai mais barato comprar 51% dos votos do que 75% e o proveito é o mesmo; além disso, sabendo-se que, a certa altura, ele vai deixar de comprar votos, é um forma de pressionar os eleitores a lhe venderem o voto (já que, se ficarem muito tempo a pensar, podem perder a oportunidade).*

Conclusão: a compra e venda de votos iria facilmente originar situações em que os eleitores, mesmo fazendo o que é racionalmente melhor para eles, iriam (em termos de efeito agregado) produzir resultados prejudiciais a eles próprios (claro que isso também pode acontecer actualmente, mas a transacionabilidade do voto iria reforçar esse problema).

*Imagino que seja para prevenir estes casos que, quando alguêm compra mais de não sei quantos por cento do capital de uma SA, é obrigado a lançar uma OPA sobre 100% do capital.

Thursday, September 28, 2006

O rankingo do WEF

A propósito do relatório do WEF vai uma discussão animada: o Diário de Noticias, o Daniel Oliveira e o Vital Moreira dizem que prova que os gestores privados são mais ineficientes que o Estado, e o Insurgente e o Blasfémias dizem que não.

Pois, eu andei a pesquisar o relatório e concluo que... nada se pode concluir com a informação disponível on-line.

Olhe-se para a composição de alguns items [pdf, pag 48-49]:

1st Pillar: Institutions

A. Public institutions
1. Property rights
1.01 Property rights
2. Ethics and corruption
1.02 Diversion of publics funds
1.03 Public trust of politicians
3. Undue influence
1.04 Judicial independence
1.05 Favoritism in decisions of government officials
4. Government inefficiency (red tape, bureaucracy and waste)
1.06 Wastefulness of government spending
1.07 Burden of government regulation
5. Security
1.08 Business costs of terrorism
1.09 Reliability of police services
1.10 Business costs of crime and violence
1.11 Organized crime

B. Private institutions
1. Corporate ethics
1.12 Ethical behavior of firms
2. Accountability
1.13 Efficacy of corporate boards
1.14 Protection of minority shareholders’ interests
1.15 Strength of auditing and accounting standards

(...)

6th Pillar: Market efficiency

(...)

B. Labor markets: Flexibility and efficiency
1. Flexibility
6.12 Hiring and firing practices
6.13 Flexibility of wage determination
6.14 Cooperation in labor-employer relations
2. Efficiency
6.15 Reliance on professional management
6.16 Pay and productivity
6.17 Brain drain
6.18 Private sector employment of women

Por exemplo, no item "instituições", tem um sub-item para públicas e outro para privadas. No sub-item "mercado de trabalho", tem um sub-sub-item "flexibilidade" e outro "eficiencia". Ora, um bom/mau resultado nos sub-items "instituições públicas" ou "flexibilidade do mercado de trabalho" é sinal de competencia/incompetencia do Estado; um bom/mau resultado nos sub-items "instituições privadas" ou "eficiencia do mercado de trabalho" é sinal de competencia/incompetencia dos gestores privados.

Como na informação que encontra na Internet as classificações não aparecem com esse grau de desagregação - suponho que essa informação esteja na cap. 3.3 "Data tables" - só lendo o relatório na versão papel é que se pode dizer seja o que for (no entanto, creio que o Diário de Noticias fez uma comparação entre os items "instituições privadas" e "públicas", o que indica que devem ter acessso ao relatório completo).

Tuesday, September 26, 2006

Greves

Pelas reacções dos liberais & amigos à greve do Metro, será que o liberalismo significa proibir as greves?

Monday, September 25, 2006

Um poema de Brecht

Via blocoemportimao:

1. Todos os dias os ministros dizem ao povo Como é difícil governar.

Sem os ministros o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.

Nem um pedaço de carvão sairia das minas se o chanceler não fosse tão inteligente.

Sem o ministro da Propaganda mais nenhuma mulher poderia ficar grávida.

Sem o ministro da Guerra nunca mais haveria guerra.

E atrever-se ia a nascer o sol sem a autorização do Führer?

Não é nada provável e se o fosse ele nasceria por certo fora do lugar.

2. E também difícil, ao que nos é dito, dirigir uma fábrica. Sem o patrão as paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.

Se algures fizessem um arado ele nunca chegaria ao campo sem as palavras avisadas do industrial aos camponeses: Quem, de outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que seria da propriedade rural sem o proprietário rural?

Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3. Se governar fosse fácil não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.

Se o operário soubesse usar a sua máquina e se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.

E só porque toda a gente é tão estúpida que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4. Ou será que Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira são coisas que custam a aprender?

[só é pena que, no seu empenhamento politico concreto, Brecht não se tenha sabido demarcar claramente de outros "espiritos tão esclarecidos como o do Fuhrer"]

Sunday, September 24, 2006

Austriacos, marxistas, keynesianos, etc.

Este post de Rodrigo Adão Fonseca fez-me lembrar deste texto de Kevin Carson, "AUSTRIAN AND MARXIST THEORIES OF MONOPOLY-CAPITAL A Mutualist Synthesis".

Mas, na minha opinião, com quem os "austríacos" são mesmo mais parecidos é mesmo com os keynesianos: afinal, a razão porque os keynesianos actuais dizem que são possíveis as depressões económicas é porque, segundo eles, os preços não se ajustam automaticamente de forma aos mercados estarem sempre em equilibrio, mas sim através de um processo gradual, em que as empresas fixam os seus preços muito por tentativa-e-erro, o que levará a que seja possível que, durante periodos prolongados, uma "reduzida" quantidade de moeda em circulação leva, não a baixos preços, mas a uma actividade económica reduzida (que só vai voltando ao normal à medida que ao preços vão, aos poucos, descendo, fazendo a quantidade de moeda aumentar, em termos reais).

Ora, pelo pouco que sei da "Escola Austriaca", creio que eles também partilham essa ideia de que o "equilibrio do mercado" não é espontãneo, mas algo que se atinge aos poucos, à medida que os empresários vão "descobrindo" oportunidades de negócio (e também com alguma tentativa-e-erro à mistura). Ou seja, a visão micro-económica dos "neo-keynesianos" não me parece muito diferente da dos "austriacos" - a diferença é apenas que os keynesianos são mais lógicos nas conclusões macro-económicas que tiram.