Thursday, May 08, 2008

Retenções na escola

Eu, à partida, sou a favor das retenções: se um aluno chega ao fim do ano sem saber o fundamental da matéria, tem que a aprender outra vez até ficar a saber (efectivamente, consta que alguns países com sucesso educativo, como a Finlandia, não têm retenções, mas será que têm esse sucesso por não terem retenções?).

Mas já não concordo com Paulo Pinto Mascarenhas, que defende as retenções com o argumento de que não aceitável "desprezar o esforço e o trabalho de uns ou o castigo para a ausência de participação e aproveitamento de outros". Ora, se vamos defender as retenções, não por uma questão de "não aprendeu, tem que ser ensinado outra vez até aprender", mas por uma questão de premiar "o esforço e o trabalho" e castigar " a ausência de participação e aproveitamento" isso teria conclusões que eu acho disparatadas:

Em primeiro lugar, tal significa que um aluno com pouco aproveitamento mas que "se esforce", "seja interessado", mas, coitado, "não consegue", deveria passar de ano (afinal, se a questão é premiar o esforço...). Efectivamente, há muita gente que defende algo desse gênero, mas eu não acho jeito nenhum nisso: qual é a lógica de passar um aluno que não sabe a matéria (e, assim, nunca irá ficar a saber) só porque ele se "esforça"? Pense-se na seguinte analogia: teria alguma lógica um médico dar alta a um doente que ainda não está curado só porque o dente se esforça para curar-se, faz os tratamentos todos, etc.?

Em segundo lugar, tal também implicaria que um aluno que sabe a matéria toda sem fazer esforço nenhum deveria ser retido (embora isso talvez fosse díficil de aplicar na prática, já que não é tão simples distinguir os bons alunos que se esforçam dos que não se esforçam - a principal pista talvez seja o lugar em que se sentam na sala de aula).

Provavelmente, PPM e os outros defensores da ideia de "premiar o esforço" não concordarão com estas ideias (sobretudo com a segunda), mas são a conclusão lógica do pressuposto de partida.

Wednesday, May 07, 2008

Tudo em que tocam (neo-cons) transforma-se em caos e morte

ª Rebel Kurds threaten US: Kurdish rebel group has warned of potential suicide attacks against American. [Quem é que não sabia que era uma questão de tempo?]

Obesidade japonesa e ideologia

O João Miranda e o Daniel Oliveira estão entretidos a discutir se as medidas anti-obesidade do governo japonês são "ultra-liberais" ou uma consequência do "socialismo".

Eu acho que ambos estão mais ou menos certos, em função dos pressupostos que provavelmente cada um adopta.

Se definirmos "liberal" no sentido de "ideologia que acha que o Estado deve-se limitar a ser o guardião dos direitos de propriedade e da liberdade individual «negativa»" (penso que os auto-procçamdos "liberais" - pelo menos os "minarquistas" - adoptam definições parecidas com essa), então as tais medidas não terão muito de "liberal".

Se definirmos "liberal" como "alguêm que defende a redução a eito da despesa pública" (a maior parte dos socialistas, quando classificam alguém como "liberal" ou sobretudo como "neo-liberal", é a isso que se referem), essas medidas serão "liberais", já que se destinam a reduzir as despesas públicas.

E, no fundo, tanto podemos considerar que o combate estatal à obesidade é uma consequência do "socialismo" (já que, de certa maneira, é um resultado da saude paga pelo Estado) como do "liberalismo" (já que, de certa maneira, também é um resultado de se querer reduzir as despesas sociais, os impostos, etc.). Ou talvez seja uma consequência, não do socialismo nem do liberalismo, mas das "terceiras vias" e afins: perante o aumento das despesas do sistema de saúde, um socialista clássico diria "vamos aumentar os impostos sobre os ricos"e um liberal clássico diria "o Estado deve deixar de pagar a saúde"; já um "moderado", em busca de "novas soluções livres de espartilhos ideológicos" dirá "temos que preservar os beneficios da saude pública e ao mesmo tempo reduzir o peso económico de Estado, que está a pôr em causa a nossa competitividade na economia global; assim, a solução ideal é adoptar polticas preventivas que favoreçam comportamentos saudáveis".

No entanto, a ligação entre "politicas anti-obesidade" (ou anti-comportamentos menos saudáveis em geral) e saúde paga pelo Estado não me parece assim tão linear: afinal, nos EUA grande parte dos cuidados de saúde são pagos privadamente e acho que é dos países onde parece haver mais a moda das cruzadas legais pela "saúde" (não com o argumento que a obesidade aumenta as despesas com o Serviço Nacional de Saúde, mas talvez com o argumento que causa um aumento generalizado dos prémios dos seguros de saúde) - aliás, consta (até segundo alguns liberais) que o chamado nanny state começou nos países com menos welfare state.

Tuesday, May 06, 2008

Hayek sobre os neo-conservadores (sort of)

Esta devia interessar a muita gente. Ou talvez não.


"F.A. Hayek commented that the Congress’ strategic agenda was "not to plan the future of freedom, but to write its obituary."

Vamos lá ver o que foi o "Congress" (lembrar as actuais "Fundações pela Democracia" onde se reúne a nata do pró-intervencionismo humanitário-moralista em política externa e militar ... onde a palavra mágica "aliança" é evocada como encantamento... como preparação para a última guerra mundial... eu já tentei apostar com alguém que o queira que a próxima bomba nuclear a ser lançada sobre civis será mais uma vez pelo ocidente... sabem aquela dos "humanitarians with a guilhotine" não nos larga ... bom, desculpem lá a má disposição e passemos à frente):

"Among those involved with the Congress were James Burnham, Irving Kristol, Gertrude Himmelfarb, Daniel Bell, Arthur Schlesinger, Lionel Trilling, and the self-described "life-long Menshevik" Sidney Hook."

Mais atrás:

"(...) After the Hitler-Stalin pact, the neoconservatives moved from cafeteria Trotskyites to apologists for the US warfare state without missing a beat, as Justin Raimondo shows in his 1993 Reclaiming the American Right. The CIA’s role in establishing the influence of the neocons came out in the late 60s, though the revelations were obscured by the primary actors’ denials of knowledge of the covert funding. The premiere organization of the anti-Stalinist left, the Congress for Cultural Freedom, provided a base of operations to launch a left-intellectual crusade against the Soviet Union. The revelation that the Congress was a CIA front destroyed the organization’s credibility, and it went belly up despite the best efforts of the Ford Foundation to keep it afloat. The Congress disappeared, but as Raimondo notes, "the core group later came to be known as the neoconservatives."

The Congress for Cultural Freedom was perhaps the Agency’s most ambitious attempt at control and influence of intellectual life throughout Europe and the world. Affiliates were established in America, Europe, Australia, Japan, Latin America, India, and Africa, although its appeal was limited in the Third World for obvious reasons. It combined concerts, conferences, and publishing efforts, promoting the State Department line on the Cold War. Magazines affiliated with the Congress included, among others, the China Quarterly, the New Leaderand, of course, Encounter. (...)"

Retirado de Neoconservatism: a CIA Front? This article first appeared in 1997 in The Rothbard-Rockwell Report.

Desigualdade e desempenho

Inequality & performance, de Chris Dillow:

Inequality hurts. That's the message of this new paper from Bruno Frey and colleagues. They looked at how US basketball players and German bundesliga footballers' performance is affected by pay inequalities. And they found that players who earn less than their team-mates tend to perform worse, even controlling for ability. Low pay relative to one's peers reduces one's performance, even though rising pay across the board improves it.

This has implications outside of sport. It suggests that a firm that pays a big bonus to a "star" performer - or just gives him a pay rise to try and keep him - might see its overall performance worsen, as its less well paid employees work less well in response. This effect could outweigh the tendency for the well-paid employee to respond positively to the higher incentive.

Ver também este meu post Re: Incentivos.

Aqui tenho que discordar dos meus camaradas bloquistas





Monday, May 05, 2008

London Trades Antiwar Leftist for Antiwar Rightist

Via antiwarblog: "(...) I don’t like Boris Johnson’s statements about Muslims, and I know I will get criticism from some of our readers for saying something nice about him, but here goes:

Johnson is not a neocon. In fact, he comes from the same sort of paleo-conservative roots as Pat Buchanan. He is opposed to British imperial dreams, and is in direct conflict with much of the UK Conservative Party.

In the last few years, he has been a strong opponent of the Iraq War, the rush to war with Iran, and Blair’s crackdown on civil liberties. Here are a few examples that we have run on Antiwar.com:

We must not let Bush wage war against Iran

I’ll go to jail to print the truth about Bush and al-Jazeera

Blair’s crackdown on freedom is an inspiration to tyrants

The war in Iraq was based on a lie - and policing Basra is an illusion

I remember the quiet day we lost the war in Iraq"

Autonomias bolivianas

A minha opinião sobre o que o governo boliviano deveria fazer face a uma eventual secessão de Santa Cruz: deixá-los ir (infelizmente, duvido que o faça se a situação se colocar).

É verdade que Santa Cruz é a região mais rica da Bolívia, mas isso deve ser relativizado - Santa Cruz representa 30% do PIB boliviano e 26% da população, ou seja, é cerca de 22% mais rica que o resto da Bolívia; num pais com enormes desigualdades (a Bolívia é um dos 3 países do mundo com um indíce de Gini maior que 0,6), provavelmente a desigualdade dentro de cada região será muito maior do que isso. Além disso, não sei se as estatísticas do PIB boliviano incluem correctamente o valor das produções agrícolas das zonas indígenas ocidentais (algumas são bastante procuradas no mundo desenvolvido, até em sectores da alta sociedade, mas o seu duvidoso estatuto legal pode dificultar a sua correcta contabilização económica).

Agora, há aqui duas questões:

1º) Qual foi a taxa de participação no referendo (como os apoiantes do governo apelaram ao boicote, não é de estranhar que 85% dos votantes tenha apoiado o "Sim")?

2º) Para já, não se fala em independência mas em autonomia. Eu sou a favor do direito de uma região proclamar a independência se for essa a vontade dos seus habitantes. Mas a "autonomia" levanta questões mais complicadas: por um lado, pode argumentar-se que "quem pode o mais, pode o menos" (isto é, se se admite que uma região deve ter o direito de proclamar a independência, por maioria de razão deve ter o direito de proclamar a autonomia); mas, por outro lado, uma coisa é o direito de deixar um clube, outra é o direito de, permanecendo num clube, dizer que só passo a aceitar algumas das suas regras (ou seja, é possível reconhecer-se o direito de secessão unilateral mas considerar-se que uma região que não seceda não tem direito a alterar unilateralmente os termos da sua relação com o governo central - uma lógica de "ou sais ou entras"*)

*pelo que me lembro foi o caso do fim da Checoslováquia - a Eslováquia queria mais autonomia, e posição daquilo-que-veio-a-ser-a-República-Checa (Boémia-Morávia? Países Checos? Chéquia?) foi "Ou fica como está, ou passam a ser independentes a 100%"; claro que esta situação não é minimamente comparável, já que a Eslováquia era a região mais pobre da Checoslováquia (exactamente o oposto do que se passa na Bolívia).

Armas químicas e incineração de mulheres, idosos e crianças

Vi finalmente  WACO: The Rules of Engagement (1/2) e devo dizer que fiquei em estado de fúria.

Uma comunidade multi-racial cristã é dizimada por um monstro frio que mente, distorce, é cinico e ainda por cima que se acha virtuoso e moderno (sempre os piores). O defensor das agências federais (ATF e FBI) não podia ser mais cheio de si mesmo, convencido que representa a civilização.

O único sinal de honra é dado pelos advogados locais, tipicamente texanos, que fizeram o que puderam para expor um crime de Estado e e note-se, os Texas Rangers (assom como o Xerife local que dizia que era uma comunidade simpática e que gostava deles), que disseram nas audições que tudo podia ter sido resolvido sem nenhuma tragédia (eu chamo-lhe chacina pura e simples) e chamaram mesmo mentirosos às agências federais.

Claro que ninguém foi culpado de nada depois de morrerem mais de 80 pessoas com bebés, crianças e mulheres.

Como costuma dizer Ralph Raico, o estado moderno é muito humanitário, mas cuidado se o encontras pela frente e não te desvias.

Foi na administração de Clinton, não esquecer.

Secessão (à direita)

Bolivia's Richest Region Votes 'Yes' on Autonomy

Adam Smith anti-war

“Wealth of Nations” :

“In great empires the people who live in the capital, and in the provinces remote from the scene of action, feel, many of them, scarce any inconveniency from the war; but enjoy, at their ease, the amusement of reading in the newspapers the exploits of their own fleets and armies. To them this amusement compensates the small difference between the taxes which they pay on account of the war, and those which they had been accustomed to pay in time of peace. They are commonly dissatisfied with the return of peace, which puts an end to their amusement, and to a thousand visionary hopes of conquest and national glory from a longer continuance of the war.”

Estivadores norte-americanos contra a guerra

Western ports return to normal after workers' war protest

LOS ANGELES (AP) -- West Coast cargo traffic came to a halt Thursday as port workers ditched the day shift, saying they wanted to commemorate May Day and call on the U.S. to end the war in Iraq.

Worker stayed off the job for about 10 hours before returning for evening shifts.

Thousands of dockworkers at 29 ports in California, Oregon and Washington were no-shows for the morning shift, leaving ships and trucks idle at ports from Long Beach to Seattle, said Pacific Maritime Association spokesman Steve Getzug.

Some longshore workers in San Francisco and Seattle joined rallies with other anti-war protesters. But no longshore workers could be found protesting at the giant Long Beach-Los Angeles port complex.

The work stoppage came during ongoing contract talks between the union and shippers that began in March. The current six-year contract expires on July 1.

(...)

Union members voted during a caucus in February to take May 1 off to protest the war. Employers raised objections with an arbitrator, who ruled in favor of the employers and ordered the union to tell members to show up for work.

Comunidades voluntárias

http://justfortheloveofit.org/

Freeconomy is about sharing the skills you've learnt throughout your life and learning those you haven't. It's about helping others and providing an opportunity for others to help you. Freeconomy allows people to make the transition from a money based communityless society to more of a community based moneyless society, and to share the land they don't need or can't use to facilitate a local food community. In essence, freeconomy is about making dinner for a friend who was yesterday a stranger"

Bom comentário

Este de Zé Bonito ao post "Liberais e estatistas em Portugal: uma questão de idade?" de José Pedro Lopes Nunes:

Os que têm memória recordam-se de há não muitos anos se dizer que “quando se é jovem é natural ser-se de esquerda. À medida que se vai envelhecendo, colocamo-nos mais à direita”. Dois conceitos diferentes (Esquerda/Direita), bem mais amplos e complexos do que os simples “liberais” e “estatistas” (se é que isto existe). Neste dualismo, onde é que entram, por exemplo, os libertários e os marxistas que defendem a transitoriedade do aparelho de estado? E, sobretudo, onde é que entram aqueles liberais que, mal a crise lhes bate à porta, vão de mão estendida para a porta do Estado?

As primárias Democratas nos EUA

Saturday, May 03, 2008

Leituras

Its most common usage in this context is as a counter to the commonsense argument that revolutions simply cannot happen in advanced capitalist countries. May 1968 proves they can, we are told. Well, almost, anyway. But how valid is this case?
When Blue Collars Are a Tight Fit (via Economist's View):
Centered on blue-collar whites, Latinos, and seniors, Clinton's coalition resembles those of previous "beer track" candidates such as Walter Mondale and her husband, Bill Clinton. Obama's coalition of young voters, independents, and well-educated whites resembles the following of earlier "wine track" candidates such as Gary Hart and Bill Bradley, with one key difference. While previous "wine track" candidates struggled with African-Americans, Obama is dominating among black voters.
Fruits of globalization, de Paul Krugman:
[G]lobalization as a profound source of change is nothing new. In fact, the combination of things that made the widespread consumption of bananas in America possible — railroads, steamships, refrigeration, and, not least, regime change often backed by American military might — where do you think banana republics came from? — makes containerization and the Washington Consensus look low-key by comparison.
An Open Letter to Michael Moore on Obama, de Bill Kaufman, na Counterpunch:
So you [Michael Moore] do not seriously examine a single political issue. My conjecture on the reason for this omission is that once you begin to list the issues that are of greatest concern to you, you will be forced to acknowledge that Obama does not agree with you on even one of them.
Embedded with the Tupamaros, também na Counterpuch:
It was in this context of repression [em 1989] that the Venezuelan popular militia movement was born. Neither entirely clandestine nor fully open, small groups began to spring up to defend local barrios from both the state and the burgeoning parallel violence of narcotrafficking. Small groups, masked and armed, began to make semi-public appearances, giving an ultimatum to local drug-dealers: either you stop selling drugs or you’ll be killed. The police, too, found themselves all the more frequently victims of armed ambushes and shootouts with masked militias. In order to explain this phenomenon, the police, government officials, and even more appreciative local residents adopted a single moniker, derived from the Uruguayan urban guerrilla struggle: in mythical fashion, these militias were deemed “Tupamaros.”

(...)

Despite the fact that the collectives issue their communiqués to “our commander-in-chief Hugo Chávez Frías,” the tone among some is bitter when the President’s name arises. “Chávez is calling us terrorists!” But they are quick to add the crucial caveat that things are far different than they had been under forty years of elite bipartisan rule: “At least he isn’t coming after us… yet.” Another member chimes in: “We’re not Chavistas, we’re not Marxists, we’re not socialists, we’re not anarchists or anything. We’re just Venezuelans who want to open up a little space so that the people have a little access to power.”

Discografia do GAC (Grupo de Acção Cultural)

Quem quiser, pode ouvir aqui.

A nota de rodapé anterior...

...lembrou-me os comentários a este post da antiga versão d' O Insurgente (por razões politicas e/ou biográficas, são capazes de interessar ao CN e ao Filipe Abrantes) evocando o economista (duplamente) austríaco Carl Menger:

Miguel Noronha: Espero que agora não venha ninguém dizer que o Menger afinal pertence aos anarco-conservadores de esquerda desde o sec. XIV.

Eu: Aproveito para celebrar a memória de Hans Menger, um anónimo camponês suíço do princípio do século XIV (tão anónimo que ninguém tinha ouvido falar nele até hoje – os media da época só deram atenção ao Guilherme Tell), um dos muitos habitantes dos cantões das montanhas que pegaram em armas contra os Habsburgos. Este heróico defensor das velhas tradições de independência local e de democracia popular de base dos camponeses suíços contra a aristocracia austríaca era claramente um anarco-conservador de esquerda e é inaceitável que o seu apelido tenha sido apropriado por um lacaio das classes exploradoras austríacas.

Sobre o 25 de Abril

Filipe Abrantes comentou "[s]ubstitui-se uma ditadura por uma ditadura". Em certo sentido, é certo: em termos estritamente formais, o regime implementado a 25/04/1974 era uma ditadura militar (Fernando Rosas chamou-lhe uma "ditadura militar policêntrica" - i.e., quem mandava era o exército, mas havia vários centros de poder que rivalizavam uns com os outros), que várias vezes usou (com ou sem razão...) da repressão contra opositores, sobretudo da direita (Partido do Progresso, Partido Liberal, PDC...) mas também da esquerda (MRPP, Aliança Operária e Camponesa...; e já em 1976, o Conselho da Revolução tentou suspender os tempos de antena da Liga Comunista Internacionalista); e a actual lei de manifestação que permite situações destas foi aprovada pelo poder do MFA.

Mas por outro lado, a partir de certa altura, o(s) governo(s) não mandava(m) quase nada - de um lado tínhamos as ocupações "selvagens", as faculdades (e liceus) governadas pelas RGAs, o exército onde "primeiro faziam-se plenários e depois cumpriam-se as ordens"; do outro, o PCP a ser expulso do Norte.

E desde o principio que (contra os desejos tanto do PC como da direita - ambos achavam que um "Estado forte" podia vir a dar jeito) que o poder começou a "cair na rua": logo no primeiro dia, a Junta de Salvação Nacional queria manter na cadeia 2 presos da extrema-esquerda que haviam morto um informador; todos os outros presos políticos (com a excepção dos do PCP) recusaram-se a abandonar a prisão, até que foram todos libertados; pouco depois, os ministros comunistas e conservadores aprovam (com a oposição do PS) uma lei de greve restritiva, mas pouco depois eclodem greves em violação dessa lei, etc.

Claro que, quando se chama "ditadura" aos pós-25 de Abril (já agora, convém distinguir os que dizem que "o PREC foi uma ditadura" dos que dizem que "no PREC tentou-se implementar uma ditadura"; são duas coisas diferentes), muitos até estão mais a pensar nesse aspecto de "poder na rua" do que nos poderes formalmente ditatoriais que os orgãos do MFA dispunham, mas na minha opinião, o "poder na rua" é o mais parecido com uma verdadeira democracia (claro que é uma opinião bastante discutível)

De certa forma, acho que se pode dizer que havia 3 poderes rivais durante o PREC e que o processo politico resultava do equilíbrio dinâmico entre eles: o MFA, a Assembleia Constituinte (a partir da sua eleição) e as movimentações populares de base (de moradores, trabalhadores, estudantes, soldados, etc.), ou seja, uma mistura de ditadura militar, democracia representativa e democracia directa. E os blocos politico-militares representavam essa tricotomia (esta palavra existe?): os gonçalvistas e o PCP apoiavam o poder do MFA (até que o MFA os mandou passear), os Nove e o PS (a que se juntou a direita, depois do falhanço das tentativas presidencialistas de Spinola) apoiavam a "democracia parlamentar", e o COPCON/Otelo e a extrema-esquerda o "poder popular de base" (isto não tem nada a ver, mas não deixa de ser uma reflexão interessante).

Já agora, aproveito para fazer a minha critica a uma tendência nas análises "modernas" do PREC para se falar em militares "radicais" e "moderados"; se lermos textos mais antigos, a divisão é feita em três grupos: "otelistas", "gonçalvistas" e "moderados"; "otelistas" e "gonçalvistas" eram facções diferentes, com objectos diferentes - Vasco Gonçalves caiu, em larga medida, pela confluência contra ele entre "otelistas" e "moderados".

Outra questão será se após o 25 de Abril se poderia ter instaurado uma ditadura; se os "moderados" tivessem perdido, o que teríamos tido? Um regime militar pró-soviético (como os que, na mesma altura, se implementaram na Etiópia ou no Benin)? Ou a "democracia de base" da esquerda revolucionária (que, é verdade, nunca se implementou de forma duradoura em lado nenhum, pelo menos nos últimos séculos*)? Acho que é impossível responder, já que tal (a derrota dos "moderados") implicaria que a relação de forças na sociedade portuguesas fosse diferente da que era, e, se estamos a imaginar uma relação de forças diferente da que realmente existiu, podemos imaginar quer uma relação de forças favorável ao PCP/gonçalvistas, quer uma favorável à extrema-esquerda.

Mais um ponto - suspeito que as medidas mais polémicas do pós-25 de Abril (nacionalizações, reforma agrária, descolonização), que efectivamente foram decididas pelo poder do MFA, teriam à mesma ocorrido pela via "democrática-parlamentar": PS e PCP (que tiveram sempre a maioria dos votos até 1987) concordavam com as nacionalizações e a reforma agrária (e, se 1975 se tivesse passado de outra maneira, talvez tivéssemos tido um governo PS/PCP); quanto à descolonização, se tivesse sido feita uma auto-determinação, o resultado teria sido diferente? Não podemos saber (penso que ninguém fez sondagens nas colónias para saber a opinião dos habitantes), mas o exemplo francês dá que pensar: entre 1958 e 1960, realizaram-se referendos nas colónias francesas de África e a independência ganhou em todos (e em pouco tempo cairam no partido único, tal qual como as portuguesas)

Um último ponto - por vezes evoca-se que em 1975 havia mais presos por motivos políticos que em 1973; é verdade, mas é preciso ter em atenção o que eu chamo a "curva de Laffer da repressão política": o número de presos políticos não é medida da regressividade de um regime, já que a partir de um certo nível de repressão as pessoas nem chegam a cometer actos que os levem para a cadeia.

*pelo menos a nível superior ao de uma aldeia (p.ex., penso que até finais do século XIX, muitas aldeias suiças tinham democracia directa - que ainda têm - e alguma propriedade comunitária da terra; mas acho que no século XX não se viu nenhum radical de esquerda apresentar tal como modelo)

Friday, May 02, 2008

A ineficiência dos programas de luta contra o desemprego

Aparentemente, os programas do governo para reduzir o desemprego poucos efeitos tiveram ("A análise revelou que, só no ano de 1999, o Estado gastou mais de 90 milhões de euros para conseguir uma redução média de 12 dias de desemprego. Os dois programas previam a ajuda na elaboração de currículos, aconselhamento, formação profissional, elaboração de um plano pessoal de emprego, visitas regulares aos centros de emprego e o fim do subsídio em situações de recusa de trabalho ou incumprimento de obrigações.") *

A minha visão do problema - o desemprego, muitas vezes, não é causado por qualquer inadaptação pessoal do trabalhador: é a própria lógica do sistema económico que cria algum desemprego. Assim, em vez de gastar dinheiro a "aconselhar" os desempregados, a ensiná-los a fazer curriculos, etc., talvez o melhor seja gastar esse dinheiro mesmo a pagar-lhes subsidios de desemprego.

Além disso, mesmo quando o desemprego resulta da alguma inadaptação do trabalhador, talvez isso não possa ser resolvido por programas governamentais: se o trabalhador - que é o primeiro interessado - não sabe o que fazer para conseguir arranjar emprego, ainda menos o saberão os burocratas dos ministérios (admito uma excepção para a formação profissional - não que o Ministério do Emprego saiba melhor que os desempregos que formação eles precisam, mas tem dinheiro para subsidiar formações a que os desempregados não teriam acesso se tivesse que as pagar), logo a melhor maneira de ajudar os desempregados continua a ser pagar-lhes SD ou RSI [talvez se aplique isto que Chris Dillow escreveu noutro contexto: "there might be a limit to what even experts can know about the causes of poverty. The Stupid Party’s [o Partido conservador] only had one good idea in its history – Burke’s recognition that the stock of reason in any man is small. It’s just arrogant to believe that we know enough to develop optimum solutions to each cause of poverty. Maybe handing over money - through simple methods - is a good second-best solution" - substituir "pobreza" por "desemprego"].