Tuesday, October 17, 2006

A pobreza nos EUA (II)

Voltando à famosa questão se os "pobres" nos EUA vivem melhor ou pior que os pobres noutros paises, o insuspeito Insurgente publicou uma tabela aonde consta o rendimento médio dos 10% de familias com menores rendimentos, em vários países. O rendimento está medido em percentagem do rendimento mediano dos EUA (corrigido pelo nivel de preços).

Suiça…………55%
Noruega…………50%
Canadá…………45%
Dinamarca…………43%
Bélgica…………43%
França…………43%
Alemanha…………41%
Holanda…………41%
EUA…………39%
Finlandia…………38%
Suécia…………38%
R.U.…………35%
Austrália…………34%

Pelos vistos, dos países da lista, os EUA são daqueles em que os 10% com menor rendimento tem... menor rendimento. Abaixo só temos (dos países da lista, claro) a Finlandia, a Suécia (com valores quase iguais aos EUA), o Reino Unido e a Austrália. O Canadá e os principais países da Europa continental estão, neste aspecto, melhores que os EUA.

Agora, uns pontos curiosos - os paises nórdicos (que costumam ser apresentados como a "alternativa de sucesso" ao modelo anglo-saxónico) também não parecem ser grande coisa: a Dinamarca tem bons resultados (a Noruega petrolifera não conta), mas a Suécia e Finlandia estão um ponto percentual atrás dos EUA (aliás, o tema do post era exactamente argumentar que os pobre escandinavos não vivem melhor que os norte-americanos).

Por outro lado, se - tirando o Canadá - os paises anglo-saxónicos (normalmente considerados como mais "liberais") estão no fim da tabela, no topo está a Suiça (um país que penso também bastante liberal).

Algumas objecções a estas análises (ver comentários ao post do Insurgente):

Por regra, os norte-americanos trabalham mais horas, têm mais segundos empregos, etc (pelas estatísticas da OIT, parece-me que, em média, um norte-americano trabalha mais 7 horas semanais que um sueco), logo, combinando rendimento e tempo livre, talvez os nórdicos estejam melhor (mas não sei se os 10% de norte-americanos com menos rendimento trabalharão mais que os 10% de suecos ou finlandeses com menos rendimento)

Pelo lado oposto, há quem argumente que a segurança social nos EUA recorre muito a transferências não-monetárias (como senhas de alimentação) que, nas estatisticas do rendimento, não são contabilizadas (pelo que os norte-americanos podem estar melhor do que estes números sugerem)

Saturday, October 14, 2006

Acerca do "Microcrédito"

Após um entusiasmo inicial, os liberais começam a concordar com Daniel Oliveira e a mostrar dúvidas sobre o micro-crédito (na minha opinião, com alguma razão: a ideologia de base do micro-crédito parece-me mais próxima do socialismo autogestionário do que do liberalismo)

P.ex., A.A.Alves, ainda que sem expressar uma opinião definitiva sobre o assunto, faz referência a uma série de artigos a criticar o micro-crédito.

Eu não li os "pdf's" e vou analisar apenas os textos de Jeffrey Tucker. Claro que a critica principal dele é o facto do Grameen Bank ter apoios de Estados e organismos internacionais - como socialista (ainda que com simpatias anarquistas), com essa critica posso eu bem (é mais indicada aos que vêm o Grameen Bank como "a prova da superioridade do capitalismo"). Mas vou abordar algumas outras críticas que ele faz.

No artigo "The Micro-Credit Cult", de Novembro de 1995, Tucker argumenta que os juros relativamente baixos que Grameen Bank cobra só são possíveis graças aos empréstimos internacionais que receberá (a menos de 2% ao ano). Isso talvez fosse verdadeiro em 1995 (não faço a mínima ideia), mas, actualmente (dados de 2003), olhando para o seu balanço e demonstração de resultados, vemos que o GB pagou 1,104,246,307 "takas" de juros, há 14,715,750,609 lá depositados e deve a bancos e outras instituições 4,212,795,182, o que quer dizer que o total das dívidas do banco é de 18,928,545,791; ou seja, o GB paga sobre as suas dívidas cerca 5,83% de juros - talvez não seja muito alto, mas globalmente o banco está a pagar quase o triplo dos tais 2%.

A respeito do GB ter como fonte de rendimento dinheiro depositado em bancos convencionais, em 2003 tinha 579,544,346 depositados noutros bancos (se eu estou a intrepretar bem a contabilidade bengali...), contra 16,823,709,087 de empréstimos concedidos - se juntarmos 6,059,392 de dinheiro em caixa, temos que apenas 3,4% do capital circulante do GB está empatado em depósitos noutros bancos.

Tucker também afirma que "the 98% repayment figure does not reflect the behavior of actual individual borrowers. Grameen relies on the "peer group" method of repayment. Borrowers are lumped into cells of five. Any future loans — which offer 80% more money than the first one — depend on repayment by the entire cell. If one person doesn't pay, others in the cell "lean" on them to fork over the cash, or pay it themselves. The person in the cell who wants another loan has the incentive to get all the money one way or another. In this way, Grameen does get paid". E, pergunto eu, "E depois?". No fundo, ao que me parece, o resultado é que, nos tais grupos de 5, cada devedor acaba por ser fiador dos outros. Parece-me um óptimo esquema de reduzir o risco de incumprimento (e, portanto, de reduzir o prémio de risco implicito na taxa de juro do empréstimo). Além disso, reduz o trabalho de "filtrar" potenciais "maus clientes", já que estes, em principio, terão logo mais dificuldade em arranjar que se queira associar a eles.

A respeito da ideia de Tucker que o micro-crédito não é assim tão bom negócio para os clientes e que "these borrowers might regret that they ever made the original deal with Yunus" - é possível, mas provavelmente os clientes do GB sabem melhor que eu ou Jeffrey Tucker avaliar os negócios em que se metem.

"The greatest myth of the movement is the idea that conventional banks have overlooked massive profit opportunities that would otherwise present themselves from lending to the very poor in the developing world. Even after a decade of unrelenting propaganda about the glories of microcredit, we are supposed to believe that conventional banks still don't get it: there are profits to be had but the big banks just won't touch them".

Talvez haja uma razão perfeitamente lógica para os bancos convencionais não entrarem no negócio do micro-crédito (ou só entrarem cobrando taxas de juro muito elevadas) - nesta parte vou divagar um bocado, pelo que fica para outro post (talvez terça-feira).

President Bush Discusses the Economy and Budget

Friday, October 13, 2006

Re: A "Esquerda Florida" (II) e o Muro de Berlin

Aonde estavam quando "o muro" caiu (a 09/11/1989)?

A "esquerda florida" (imagino que esta etiqueta seja aplicável ao Neues Forum) estava na ruas a manifestar-se contra o regime.

Os democratas-cristãos estavam no governo, "coligados" (as aspas porque não era uma verdadeira coligação - a CDU não era um aliado, mas um satélite) com os comunistas. Claro que se pode argumentar que não eram "verdadeiros" democratas-cristão, mas o certo é que a CDU alemã-ocidental não teve problema nenhuma em os absorver após a unificação.

Já que estou falando de "romanos" e "bárbaros"

Há tempos li esta passagem do livro de Emil de Laveleye, Primitive Property (1878), sobre os antigos germanos:

"In the eyes of the Germans, as of all primitive nations, the right to occupy a portion of [land] was an indispensable attribute of freedom. Several economists have propounded the same idea. (...) The free man should be able to subsist on the fruits of his labour; and, as the only labour which can procure him the means of living is the cultivation of the land, a portion of land should be assigned to him. To allow him to lose this portion, or to refuse it to a newly-formed family, would be to take away their means of existence, and to condemn them to sell themselves into slavery. The only plan, then, of ensuring a constant means of existence and independence to all the families of the tribe, was to effect a new division of land among them from time to time; and, as all had an equal right, the only mode of assigning to each his portion was by lot."

"Freedom, and, as a consequence, the ownership of an undivided share of the common property, to which the head of every family in the clan was equally entitled, were, then, in the German village originally essential rights, inherent, so to say, in one's personality. This system of (...) equality impressed a remarkable character on the individual, which explains how small bands of barbarians made themselves masters of the Roman empire, in spite of its skilful administration, its perfect centralization, and its civil law, which has received the name of written reason. "

"How great is the difference between a member of one of these village communities and the German peasant, who occupies his place to-day! The former lived on animal food, venison, mutton, beef milk and cheese; while the latter lives on rye-bread and potatoes; meat being too dear, he only eats it very rarely, on great holidays. The former made his body hardy and his limbs supple by continual exercise; he swam rivers, chased the wild ox the whole day through in the vast forests, and trained himself in the management of arms. He considers himself the equal of all, and recognizes no authority above him. He chooses his chiefs as he will, and takes part in the administration of the interest of the community; as juror he decides the differences, the quarrels, and the crimes of his fellows; as warrior, he never lays aside his arms, and by the clash of them signalizes the adoption of any important resolution. His mode of life is barbarous in the sense, that he never thinks of providing for the refined wants begotten by civilization; but he brings into active use, and so develops all the faculties of man; strength of body first, then will, foresight, reflection."

"The modern peasant is lazy; he is overwhelmed by the powerful hierarchies, political, judicial, administrative, and ecclesiastical, which tower above him; he is not his own master, he is an appanage of society, which disposes of him as of its other property. He is seized by the state for its brigades; he trembles before his pastor, or the rural guard; on all sides are authorities, which command him and which he must obey, seeing that they arrange all the strength of the nation so as to enforce his obedience. Modern societies possess a collective power incomparably greater than that of primitive societies; but in the latter, when they escaped conquest, the individual was endowed with far superior energy."

Refira-se que, quando o autor fala dos "camponeses alemães dos nossos dias", obviamente está-se a referir aos camponeses alemães de 1878.

[Eu fiz algumas alterações no texto (sobretudo para contornar as ambiguidades da palavra "propriedade" e também para facilitar a leitura) mas penso que não afectam o pensamento do autor]

Wednesday, October 11, 2006

Os "bárbaros" salvaram a Europa

No blogue da Atlantico, Henrique Raposo fala de um livro, "A Queda de Roma e o Fim da Civilização", argumentando que "a queda de Roma foi violenta e marcou mesmo o fim da civilização [, que] só voltou 1000 anos depois ao sabor de um tipo romano que chocou o seu tempo cristão: Maquiavel".

Que a queda de Roma foi violenta não contesto (mas terá sido mais violenta que as lutas intestinas do Império Romano?), mas terá sido o "fim da civilização"?

Uma primeira observação - é curioso que entre os paises mais desenvolvidos da Europa estejam fortemente representados paises que não pertenceram ao Império: Noruega, Islândia, Alemanha, Dinamarca, Suécia, etc. Claro que julgar factos de há mais de mil anos com base no mundo actual é um prefeito anacronismo, mas já é um ponto para desconfiar quando se fala das "origens romanas" da "civilização ocidental".

Mas será que o que há de bom no mundo "ocidental", como o progresso técnológico ou a democracia parlamentar (sistema a que eu faço muitas críticas, mas que é preferivel a ditaduras ou monarquias absolutas) derivam de alguma herança romana? Muito discutivel.

Quanto à democracia, provavelmente deve muito mais às assembleias tribais germânicas que a qualquer herança "clássica" (apesar da raiz grega da palavra) - veja-se a origem dos regimes parlamentares mais antigos da Europa: na Suiça, o sistema parlamentar surgiu quase por evolução "natural" da "democracia de aldeia" dos povos germânicos; em Inglaterra, o parlamentarismo também terá tido forte influência do hábito dos primeiros reis saxões serem apenas primus inter pares, eleitos pela assembleia dos guerreiros (aliás, Montesquieu falava da "liberdade inglesa nascida nas florestas da Germânia"); as cortes que havia nos vários estados medievais (e que tiveram uma certa inflûencia mitológica nas primeiras revoluções liberais) também têm em parte origem longinqua na tradição "bárbara" da monarquia electiva (que se manteve mais tempo, exactamente, na Europa do Norte).

Fazendo uma terceira concessão à "civilização romana" (a segunda foi a expressão "primus inter pares" atrás usada, e a primeira é este post estar escrito numa lingua latina), a esse respeito, recomendo a leitura da "Germania", de Tacitus (aquele link é só uma "versão condensada"; a obra completa está aqui).

Quanto ao progresso técnico, cientifico, cultural, etc., Roma foi um verdadeira deserto, quer a comparemos com a Grécia antiga, quer mesmo com a Idade Média (aliás, há muito tempo que estou para fazer um post "Roma - A verdadeira Idade das Trevas"; pode ser que eu algum dia o faça).

É verdade que talvez não seja fácil explicar porquê, mas é um facto que a centralização politica costuma ir de mão dada com a estagnação cientifica e cultural (compare-se o dinamismo das cidades-estado da Grécia Antiga e do Renascimento Italiano com a inércia romana, estando a Europa medieval a meio caminho). Ora, ao destruirem o Império e substituirem-no por uma Europa de múltiplos reinos, principados e cidades (mais ou menos) autónomas, os bárbaros podem ter sido os verdadeiros fundadores da "civilização". Sem eles, talvez a Europa se tivesse tornado naquilo a que antigamente se chamava uma "monarquia asiática" (ou seja, um dominio feudal em tamanho gigante) e, hoje em dia, nem sequer teriamos o nível de vida da China, já que não teriamos um "mundo desenvolvido" para exportar (bem, neste ultimo ponto talvez esteja a exagerar - afinal, a "Europa Romana" poderia sempre exportar para os "território bárbaros" da Europa do Norte).

Um ultimo ponto: não precisamos de especular para ver como teria sido a evolução se Roma não tivesse caido - afinal, o Império Romano não foi todo destruido. O Imperio do Oriente (Bizancio) sobreviveu para aí mais mil anos, e a verdade é que os bizantinos fizeram muito pouco que se visse.

Re: A "Esquerda Florida"

Bernardo Pires de Lima, no blogue da Atlântico, fala do que ele chama malta da esquerda florida que vibrou com os guinchos do Daniel Cohn-Bendit nos anos 60, que viu ruir os "sonhos da igualdade" por esse mundo fora, que se recusou a assistir ao descalabro do mundo soviético e que dorme ao lado de Fidel na cama do hospital em Havana, [mas que] encontrou um novo rumo, uma nova paternidade, [deixando] (...) a orfandade pós-89».

Ainda gostava de saber de quem é que o BPL está a falar: estará a falar da malta da esquerda que chamava a Daniel Cohn-Bendit "anarquista alemão", que no Maio de 68 francês mandava os seus militantes impedir os estudantes falarem com os operários, cujos poetas oficiais cantavam louvores à policia, que se recusou a assistir ao descalabro do mundo soviético e que vive numa ofandande pós-89?

Ou estará a falar da esquerda que gritava "somos todos judeus alemães" (em relação a Cohn-Bendit), que ouvia Rudi Dutschke falar contra "um mundo que que fala de paz, mas tolera a guerra, um mundo que fala de liberdade, mas que aceita as hipocrisias do capitalismo, que fala de progresso, mas que sofre a sufocação da burocracia comunista" e que discutia se os paises de Leste eram "capitalismo de Estado", "colectivismo burocrático" ou "Estados operários degenerados" (e que desde 1989 perdeu esse tema de debate)?

Diga-se que nunca ouvi a expressão "esquerda florida", mas expressões similares ("folclórica", "festiva", etc.) costuma aplicar-se à segunda. No entanto, toda a argumentação de BPL acerca de "orfandande" faz sentido é se se estiver a referir à primeira.

[E depois a direita queixa-se de, por exemplo, por vezes confundirmos os liberais com os neo-conservadores... Regra geral, a falar da esquerda eles fazem confusões ainda maiores]

Já agora, mais um ponto:

"Que tal pedir a esta esquerdalhada que vá viver para a Palestina, o Laos, a Venezuela, Cuba ou restantes paraísos e nos deixe, aqueles que amam a democracia Ocidental com todos os seus defeitos, em paz e sossego??"

lmagino que o mesmo conselho (com pequenas variações) se aplique a todos os "camaradas de revista" de BPL que se fartam de elogiar os EUA e de dizer que a Europa está decadente .

Tuesday, October 10, 2006

O meu site ressuscitou

Afinal, após algumas semanas de ausência, o meu site voltou a estar "no ar".

Portanto, se alguêm procurar links sobre as tribos prussianas da Idade Média ou quiser ver os meus desenhos, já sabe aonde ir.

Monday, October 09, 2006

As minhas receitas

Já que agora há um blogue de receitas (até deve haver vários, mas pronto...), talvez alguma das autoras ache interessante algumas das minhas 15 receitas (será que eu deverei abrir um restaurante?):

  1. bife de vaca com batatas fritas
  2. bife de vaca com arroz
  3. bife de vaca com esparguete
  4. bifanas de porco com batatas fritas
  5. bifanas de porco com arroz
  6. bifanas de porco com esparguete
  7. costeletas de porco (do cachaço) com batatas fritas
  8. costeletas de porco (do cachaço) com arroz
  9. costeletas de porco (do cachaço) com esparguete
  10. costeletas de porco (do lombo) com batatas fritas
  11. costeletas de porco (do lombo) com arroz
  12. costeletas de porco (do lombo) com esparguete
  13. bife de peru com batatas fritas
  14. bife de peru com arroz
  15. bife de peru com esparguete

Thursday, October 05, 2006

Lulismos, bushismos ou o quê?

Na edição desta semana do Sol, na "Tabu" havia um artigo acerca de um livro sobre gaffes do presidente brasileiro Lula da Silva. Nas margens do artigo, havia várias frases que (pelo contexto) parecem ser algumas dessas gaffes (embora tal não seja dito explicitamente):

"Se não formos bem sucedidos corremos o risco de fracassar"

"Uma baixa participação nas eleições é sinal que poucas pessoas estão indo votar"

"Há uma palavra que define a responsabilidade que um politico deve ter e essa palavra é «estar preparado»"

Pelos vistos há mais alguêm que cometeu essas mesmas gaffes (ainda que noutra lingua) - GW Bush; ou será que, afinal, foi John Kerry? Ou Dan Quayle? Ou ninguêm (em que lingua fôr)?

Já agora, a referência (essa feita explicitamente no artigo) a Lula ter dito que gostava de ter aprendido latim para comunicar melhor com os países da América Latina também me parece suspeita.

Pacheco Pereira, as televisões e o Darfour

Numa critica ao que considera a parcialidade da nossa comunicação social, a dada altura Pacheco Pereira escreve "Exemplos: silêncios sobre o que se passa e é necessário fazer no Darfur, resultado de não se querer integrar o noticiário sudanês no contexto dos conflitos de origem islâmica".

Pacheco Pereira ainda há de explicar como é que uma guerra entre muçulmanos e muçulmanos é um "conflito de origem islâmica" (será que a II Guerra Mundial foi um "conflito de origem cristã"?).

O crescimento económico sueco

Ultimamente, tem sido moda (veja-se as discussões em muitas caixas de comentários) dizer-se que o alto nível de vida da Suécia é uma herança do seu passado liberal e que o seu Estado Social foi feito à custa dessa riqueza previamente acumulada (o argumento é mais ou menos assim "Em 1940, ou 50, a Suécia era o país mais rico do mundo, mas, a partir daí, com a adopção do Estado Social, o crescimento económico reduziu-se a sua posição relativa foi descendo"). Um exemplo é este texto, republicado em vários sitios (além da atenção que terá tido dos motores de busca).

Será que isso é mesmo assim?O livro Dynamic Forces in Capitalist Development: A Long-Run Comparative View, de Angus Maddison tem algumas tabelas comparando o crecimento económico de vários países.

Por exemplo, para o PIB p.c. em 1950 (a preços de 1985) tem os seguintes valores:

EUA.................... 8,611 US$
Reino Unido........5,651 US$
Canadá.................6,113 US$
Suécia...................5,331 US$

Logo, em 1950 a Suécia não era o país mais rico do mundo, como já li algures (não se deduza que era o 4º mais rico - eu não pus todos os países referidos).

Agora, vamos ver as taxas de crescimento anual do PIB p.c., de 1913 a 1950, 50 a 73, e 73 a 89:

País...................[1913-50].....[1950-73]........[1973-89]

EUA........................1,6%...............2,2%................1,6%
Reino Unido..........0,8%...............2,5%.................1,8%
Canadá...................1,5%...............2,9%.................2,5%
Suécia.....................2.1%...............3.3%.................1.8%

Ou seja, o periodo de maior crescimento económico da Suécia foi exactamente em 50-73, talvez a epoca em que o Estado Social atingiu o seu apogeu (atenção - não confundir correlação com causa: afinal, esse foi também o periodo de maior crescimento dos outros países). Em termos de crescimento relativo, esse periodo também não foi mau: em 50-73, a Suécia cresceu ao ano mais 1,1 pontos que os EUA, enquanto em 13-50 tinha crescido apenas mais 0,5 pontos; comparada com o Reino Unido é ao contrário: em 50-73 cresceu mais 0,8 p.p, contra um crescimento de mais 1,3 p.p. em 13-50. Seja como fôr, o periodo 50-73 foi o de maior crescimento em termos absolutos, e não particularmente melhor ou pior em termos de crescimento comparado com os outros países.

Agora vamos ver a produtividade comparada (100 representa a produtividade/hora dos EUA):

País........................1913.....1950........1973

EUA........................100.......100..........100
Reino Unido..............78.........57.............67
Canadá......................75..........75............83
Suécia........................44..........49...........76

Ou seja, em 37 anos, de 1913 a 1950, a produtividade sueca passou de 44 para 49% da norte-americana, enquanto nos 23 anos de 1950 a 73 passou de 49% para 76% (já face à do Reino Unido, o crescimento foi ligeiramente menor em 50-73 do que em 13-50).

Em conclusão, tudo aponta para que a Suécia tenha tido melhores resultados económicos durante o periodo do "Estado Social" do que antes.

Já agora, diga-se que, se em 1940 (ano não contemplado nestas estatistas) a Suécia (ou a sua quase homónima alpina) fosse realmente o país mais rico do mundo isso também pouco quereria dizer - afinal, os outros países da Europa desenvolvida estavam a invadir-se e bombardear-se uns aos outros (se, nos quadros acima, eu tivesse feito a comparação com a Alemanha ou a França não me admirava nada que estas, em 50-73, tivessem crescido muito mais do que Suécia: como é que elas estavam em 1950?!).

Nota final - estes valores foram extraídos da passagem do livro constante da sebenta de Macroeconomia II da AE do ISEG, de 93/94.

O que foi feito do meu site?

Há vários dias que estava a pensar porque será que os comandos da música não funcionavam - estava convencido que era algum problema do QuickPlayer instalado no browser (até tentei mudar para o Windows Media Player para ver se funcionava).

Finalmente, descobri o que se passou: todo o meu site (aonde a música estava alojada) foi à vida!!

Antes que perguntem "Como é que este levou semanas a perceber que o site dele fugiu?", tenham em atenção que eu já sei o que está(va) lá escrito, logo raramente o consulto (a única coisa que uso é a página dos links, que tenho gravada off-line).

O que é que o SAPO fez do meu site?? Terá-o achado com cara de mosca?

Wednesday, October 04, 2006

A escravatura, a redistribuição, etc.

Fernanda Câncio argumenta que os escravos que o facto de no século XIX, aparentemente, os escravos do Sul dos EUA viverem melhor que os operários do Norte representa "uma crítica ao sistema capitalista selvagem que vigorava nos eua em relação aos trabalhadores assalariados à época da escravatura. o mercado 'livre' era pior que o pior dos sistemas totalitários, é o que [se] conclui".

João Miranda responde de duas maneiras: por um lado, pergunta como "é que o operário do início do século XIX poderia ter o nível de vida do escravo sul-carolinês do séc XIX" (nota: provavelmente devido à confusão resultante de querer imitar o estilo ortográfico de Fernanda Cancio, JM não escreveu bem isso, mas penso que era isso que ele queria escrever - afinal, é dessa comparação que se está a falar).

Além disso, afirma
"os escravos recebiam de volta sob a forma de bens e serviços quase tudo o que produziam (90%) sendo o nível de exploração estimado bastante baixo". Acho que, com esta, o tiro saiu-lhe pela culatra: o facto de o nivel de exploração do escravo ser baixo só reforça a tese de Fernanda Câncio de que os operários eram mais explorados que os escravos.

Diga-se de passagem que a ideia que os escravos eram melhor tratados que os operários assalariados não é nova: no século XIX, os defensores da escravatura (p.ex. os conservadores ingleses pró-Confederação) argumentavam isso, e com uma certa lógica - como o patrão era o dono do escravo, tinha interesse em que ele tivesse boa saúde (logo, boa alimentação, boas condições de trabalho, etc.), já que a morte ou incapacitação de um escravo era uma perda de capital investido; pelo contrário, para o patrão do assalariado, se ele morresse de fome ou ficásse inválido, não havia problema, era só contratar outro.

A visão marxista do anti-esclavazismo da burguesia industrial seguia mais ou menos na mesma linha - os industriais seriam contra a escravatura exactamente pelos seus custos.

Um exemplo engraçado desse argumentação pode ser uma passagem do filme Queimada (um típico filme "de esquerda" dos anos 60) em que o protagonista (Marlon Brando), um agente inglês tentando convencer os comerciantes de uma ilha das Caraíbas a apoiarem uma revolta anti-portuguesa/pró-inglesa, diz:

Gentlemen, let me ask you a question. Now, my metaphor may seem a trifle impertinent, but I think it's very much to the point. Which do you prefer - or should I say, which do you find more convenient - a wife, or one of these mulatto girls? No, no, please don't misunderstand: I am talking strictly in terms of economics. What is the cost of the product? What is the product yield? The product, in this case, being love - uh, purely physical love, since sentiments obviously play no part in economics.

Quite. Now, a wife must be provided with a home, with food, with dresses, with medical attention, etc, etc. You're obliged to keep her a whole lifetime even when she's grown old and perhaps a trifle unproductive. And then, of course, if you have the bad luck to survive her, you have to pay for the funeral!

It's true, isn't it? Gentlemen, I know it's amusing, but those are the facts, aren't they? Now with a prostitute, on the other hand, it's quite a different matter, isn't it? You see, there's no need to lodge her or feed her, certainly no need to dress her or to bury her, thank God. She's yours only when you need her, you pay her only for that service, and you pay her by the hour! Which, gentlemen, is more important - and more convenient: a slave or a paid worker?

Agora, uma questão paralela: nos comentários ao post de JM, surgiu uma discussão se deveria ter havido redistribuição da riqueza nessa altura, com uns a argumentarem que isso iria melhor a situação dos operários da altura, e os blasfemos a dizerem que isso iria reduzir o crescimento económico.

Independentemente do lado que tomemos nessa disputa (eu tendo mais para os primeiros), há um detalhe que está a ser esquecido: nos EUA do século XIX havia redistribuição da riqueza - redistribuição dos pobres para os ricos.

Como assim? Nos EUA do século XIX, várias administrações seguiram politicas protecionistas (essas politicas intensificaram-se após a guerra, mas já haviam antes) - a questão das "tarifas" era talvez a segunda questão mais debatida na altura (a par com a escravatura). Ora, num pais com escassez relativa de capital, uma politica protecionista faz subir a rentabilidade do capital em relação à dos outros factores de produção, como o trabalho ou a terra. Assim, esse protecionismo - à época chamado "sistema americano" - significava uma redistribuição da riqueza dos agricultores e operários para os industriais. Aliás, isso via-se nos alinhamentos partidários da época: as classes baixas (e também os latifundiários esclavagistas) apoiavam o (então) livre-cambista Partido Democrata, enquanto que industriais, banqueiros e grandes comerciantes apoiavam os partidos protecionistas (Federalistas, Whigs e Republicanos).

Juizos de Valor

Tuesday, October 03, 2006

A pobreza nos EUA

Quando se fala na pobreza nos EUA, é frequente contra-argumentar-se que os pobres norte-americanos seriam considerados "classe média" noutros países do mundo (li alguns textos, p.ex., do Rodrigo Adão Fonseca ou do Luis Pedro que me parecem ir nessa linha).

Se por outros países, nos estivermos a referir ao México, ao Haiti ou a Cuba, deve ser verdade; no entanto, se fizermos a comparação com a Europa (e essas polémicos sobre a pobreza costumam surgir em discussões sobre as virtudes comparadas dos "modelos" norte-americano e europeu), não sei se os "pobres" norte-americanos serão assim tão abonados.

Vamos fazer umas contas - nos EUA, uma familia de 4 pessoas é considerada "pobre" se tiver um rendimento global inferior a 20.000 dólares (refira-se que, para as estatísticas de "pobreza" nos censos, o que conta é o rendimento antes de impostos). O dolár vale cerca de 80 cêntimos de euro, o que pôe o nível de pobreza em 16.000 euros.

Agora, vamos comparar com os preços - o que eu ouço dizer de pessoas que vão aos EUA é que comprar comida na praça ou no supermercado custa o mesmo que em Portugal; ir ao café já é muito mais caro; e que a habitação pode ser muito mais cara, mas varia conforme as regiões (aliás, faz sentido que na habitação ou nos serviços haja diferenças de preço muito maiores entre os paises do que nos produtos que podem ser levados de um lado para outro).

Segundo a CIA, o PNB português avaliado pela taxa de cambio é de 170,3 mil milhões de dólares e avaliado em termos de "paridade de poder de compra" é de 204,4 mil milhões de dólares; ora, se, aos preços portugueses, 170 dólares permitem comprar o equivalente a 204 dólares, isso quer dizer que os preços em Portugal serão cerca de 83% de nos EUA; fazendo a conta ao contrário, podemos concluir que os preços nos EUA serão cerca de 20% mais altos que em Portugal.

Assim, a tal família de 4 pessoas com um rendimento de 16.000 euros corresponderá, a preços portugueses, a um rendimento de 13.330 euros. Assumindo uma familia em que marido e mulher trabalhem, teremos um rendimento mensal de 555 euros. Ora, 555 euros (sobretudo antes de impostos) não é o que, mesmo em Portugal, se considera um rendimento de "classe média" - será, quanto muito, um rendimento de classe média-baixa. Imagine-se agora comparado com os outros países da Europa

Mais uns pontos:

  • os norte-americanos, em média, têm menos férias, trabalham mais em "segundos empregos", etc. do que os europeus, logo, se tomarmos em atenção, não apenas o rendimento, mas o conjunto "rendimento + tempo livre", a superioridade económica norte-americana ainda mais discutível se torna
  • o "pobre europeu" típico (embora talvez não o português) é um desempregado, enquanto o norte-americano é um trabalhador com baixo salário (confesso que não tenho nenhuma estatística que me confirme isto; é apenas o que tenho lido aqui e alí...); sinceramente, não sei dizer qual das situações é a pior - numa análise puramente economicista, para o mesmo nível de rendimento, é "melhor" ser um desempregado a receber um subsidio do que um trabalhador mal pago; num entanto, numa prespectiva e auto-estima e realização pessoal, talvez ser um working poor seja melhor
No entanto, é conveniente fazer umas ressalvas:

  • a pobreza nos EUA talvez seja um fenómeno regional, concentrado no Sul e nos Apalaches; ora, é possível que os preços nessas regiões sejam mais baixos do que no geral, o que deitará por terra o cálculo que eu estive a fazer há uns parágrafos atrás
  • a situação dos pobres nos EUA versus Europa costuma surgir no contexto dos debates "mercado livre" vs. "intervenção estatal"; mas há quem argumente que (nos EUA como noutros países) quer a pobreza de muitos pobres, quer a riqueza de muitos ricos, não terá nascido do "mercado" mas de intervenções estatais (presentes ou passadas)

Sunday, October 01, 2006

Joint Ventures: Venezuela’s Faustian Pact with Foreign Capital

Artigo em Venezuelanalysis.com:

The following statement may come as a bit of a shock to those who have listened to one of President Chávez’s anti-imperialist speeches: PDVSA, the Venezuelan state oil company and renowned source of riches—riches that fund the famous social missions at that—has recently gone into partnership with the forces of imperialism. Shell, Chevron, BP, and other equally infamous trans-national oil corporations have formed joint ventures (empresas mixtas in Spanish) with PDVSA. Even more shocking, this has been sold to the people as a radical recapture of national sovereignty and a victory against imperialism. George Orwell and his novel 1984 spring to mind. But the Minister of Energy and Oil, Rafael Ramírez, said so himself regarding the new joint ventures: “We have done nothing more than reclaim the biggest oil reserves in the world from the jaws of imperialism.”

Iraque à beira da pacificação

Ver Insurgente (ironia por ironia, acho que esta é melhor).

Se fosse brasileiro

Provavelmente a minha candidata seria Heloisa Helena - não tem qualquer hipótese de ganhar, mas eu também passei a maior parte da minha vida eleitoral votando em candidatos sem hipótese de ganhar (e, seja como fôr, eu concordo muito com o que dizia uma minha ex-colega de trabalho - "o que faz um bom governo é uma boa oposição")

Já agora, no Expresso, Daniel Oliveira escreve que "não votaria em Heloisa Helena (...) porque ela representa o ressentimento daqueles que nunca acreditaram na mudança e que no fim nos recordam: em bem te avisei". Ora, Helena é uma ex-militante do PT que entretanto foi expulsa; o seu Partido Socialismo e Liberdade é composto por antigos militantes do PT; um dos outros partidos que a apoia, o Partido Comunista Brasileiro*, também apoiou Lula na última eleição (apenas outro partido que a apoia, o PSTU - o equivalente brasileiro da Ruptura/FER - foi contra Lula desde o inicio). Ou seja, Heloisa parece-me representar, não "o ressentimento daqueles que nunca acreditaram na mudança", mas o daqueles que chegaram a acreditar.

Já agora, alguns posts noutros blogs sobre o assunto:

Brasil, eleições, no xatoo
Uma clarificação à esquerda, no foi um ar que se lhe deu


* não confundir com o Partido Comunista do Brasil (mais ou menos o equivalente à UDP), que continua a integrar o governo; também não confundir com o antigo Partido Comunista Brasileiro, o actual Partido Popular Socialista (o novo PCB é uma cisão da "linha dura" que rejeitou a "renovação" do PCB/PPS)

Já que estou falando de Roma e dos EUA

Temos aqui um artigo de Matthew Whithe, em que o autor, meio a sério, meio a brincar, traça um paralelo entre o EUA e Roma antiga (diga-se que as suas previsões para 2005 já falharam - a Síria ainda não foi conquistada).