Wednesday, March 15, 2006

Já que falei no "unschooling"...

Como é meu hábito, tenho andado a folhear o livro Freakonomics na livraria e no hipermercado ao pé da minha casa (pode ser que um dia destes o compre).

Num dos capítulos, fazem referência a um estudo que foi feito, no EUA, comparando certas variáveis familiares (rendimento dos pais, familia "estruturada" ou não, etc.) com os resultados dos filhos nos testes escolares. Uma das conclusões desse estudo era de que os pais terem muitos livros em casa tinha uma correleção forte com os bons resultados nos testes, mas que os pais costumarem ler em voz alta aos filhos não tinha influência.

Os autores até apontam isso como um indicio de que os bons resultados terão causas genéticas (ter muitos livros seria um sintoma de pertencer a um meio socio-cultural elevado, o que por sua vez seria indicativo de um alto QI genético, que seria transmitido aos filhos, explicando assim os bons resultados). No entanto, eu venho propôr uma explicação alternativa: aprende-se melhor quando estudamos os assuntos que nos interessam e quando nos interessam. Assim, as crianças que têm muitos livros em casa têm uma maior possibilidade (e, portanto, probabilidade) de se porem a aprender coisas por sua iniciativa e por gosto pessoal, o que contribuirá para se terem um melhor desempenho escolar (e mesmo que os testes não tenham directamente a ver com os assuntos que eles auto-aprendem, há sempre efeitos indirectos: p.ex., alguém que saiba alguma coisa sobre os piratas das Caraíbas - o Morgan, o Barba-Roxa e essa malta - terá logo uma maior facilidade em aprender a história das guerras entre as potências europeias da época).

3 comments:

aL said...

uma boa explicação alternativa.

Filipe Alves Moreira said...

Se não me engano, esta é a explicação do Pierre Bordieu. E, embora não explique tudo, explica, sem dúvida, muita coisa.

Anonymous said...

as pessoas estão incessantemente à procura de um factor para explicar a ordem actual das coisas. e claro que o factor preferido é o genetico, pois torna de mais facil aceitação a mentalidade reinante.

um dos dois cientistas que radiografou pela primeira vez a molecula helicoidal de DNA, afirmou que a burrice é uma defeito genetico e que devia ser erradicado. já o outro não concordava com essa afirmação.

isto aconteceu quando se pensava que a panaceia para a explicação da forma de ser de cada individuo eram os genes. tempos loucos...

o cerebro é como um musculo, treina-se, cresce e desenvolve-se.

afirmar que é genetico é uma falacia, pois:

1- gente que vem de familias pobres ou "de individuos vencidos", tornam-se "vencedores". de certo que este caso é familiar para alguns, eu conheço.

2- a explicação dada, e muito bem, pelo miguel.

se por um lado, o cerebro é um musculo.
por outro lado, a curiosidade e a espontaniedade (caracteristicas comuns a todos os mortais) podem ser castradas ou desenvolvidas, e aqui o ambiente vai ditar se ele se desenvolve ou não.

como dizia um anarquista, é preciso acabar com a erudição bacoca e dar espaço para o que ele chamava de eros-dição.

finalmente, entram os livros e a comunicação. No fundo a linguagem, o meio da compreensão e da razão, é a unica forma de estruturação do pensamento.