Sunday, June 22, 2008

Liberais e aquecimento global (II)

André Azevedo Alves escreve "admitindo que há mesmo aquecimento global, o que se deve fazer? Provavelmente muito pouco (ou nada) do que defendem os eco-alarmistas".

Bem, isso pergunto eu, se existir mesmo aquecimento global "antropogénico", o que é que os liberais (insurgentes*, blasfemos, o Carlos Novais, etc.) acham (i.e., o que é que cada um acha) que se deve fazer a esse respeito?

Em principio, nenhum irá responder algo como "talvez nada, já que os custos de combater o aquecimento global podem ultrapassar os custos do aquecimento global", já que essa resposta é do mais colectivista que há: no fundo, seria dizerem que não há mal em violar alguns direitos de propriedade (creio que uma mudança climática provocada pelo aquecimento global pode ser considerada uma "invasão" das propriedades que sejam afectadas por isso), se tal contribuir para o bem geral.

Ou melhor, a resposta do "talvez nada" poderá fazer sentido se acompanhada por "indemnizações por perdas e danos" a quem seja afectado pelo aquecimento global, mas, nesse caso, qual é que acham que devia ser o valor da indemnização? O valor do prejuízo? O dobro do valor do prejuízo? Eu levanto a questão do dobro porque, sobretudo entre os anarco-capitalistas, é muitas vezes defendida a ideia dos roubos serem punidos restituindo o dobro do valor; ora, se se considera justo que a vítima de um roubo receba o dobro do valor roubado, penso que será também justo que a vitima de um dano patrimonial receba o dobro do valor do dano.

Uma nota a respeito do cap-and-trade: o CN citou Rothbard no que me parece uma critica ao cap-and-trade; mas será que, se realmente existir aquecimento global antropogenico, o cap-and-trade até não seria das soluções mais "rothbardianas" (independentemente do que Rothbard himself achasse)?

Porque digo isto - se realmente existir aquecimento global motivado pelas emissões antropogenicas de CO2, isso quer dizer que a atmosfera passou a ser um recurso escasso, logo, para os anarco-capitalistas, seria a altura de estabelecer direitos de propriedade sobre ela; e, pelo principio do homesteading, a maneira de estabelecer direitos de propriedade seria "quem emitiu 1 tonelada/ano de CO2 tem direito a emitir 1 tonelada/ano; quem emitiu meia tonelada/ano tem direito a emitir meia tonelada/ano; etc"; logo, o resultado seria algo muito parecido com o cap-and-trade combinada com a "clausula do avô" (isto é, atribuir os direitos de poluição de acordo com o histórico de poluição) - a única diferença é que, em vez de ser um cap-and-trade para reduzir emissões, seria um cap-and-trade para não aumentar emissões. Noto que eu sou totalmente contra uma distribuição de direitos de emissão dessa maneira (estou apenas dizendo que me parece um dos sistemas mais em acordo com os pressupostos que os rothbardianos costumam defender).

Mas, deixando de lado esta divagação, regresso à minha pergunta: o que é que os liberais acham que deve ser feito acerco do aquecimento global, caso este exista?

E, já agora, uma questão para o "agitador" e para o Tárique: como seria combatido o aquecimento global no socialismo anarquista? Imaginemos que uma federação voluntária de comunas livres e autogeridas decidia estabelecer uma espécie de "protocolo de Kyoto" e atribuir a cada comuna uma dada quota de emissões de CO2; mas, suponhamos que uma dessas comunas recusava-se a aceitar essa quota, abandonava a federação (afinal, é uma federação voluntária de comunas livres e autogeridas) e punha-se a poluir muito mais do que as outras haviam combinado; o que fazer num caso destes?

*Nota: o AAAlves já escreveu algo sobre isso; vou ler e amanhõ ou depois talvez escreva qualquer coisa

3 comments:

agitador said...

tendo em conta o cenario, provavelmente a questao nem se poria.
1- se o mundo chegasse a esse pontoas pessoas seriam certamente mais proactivas, mais informadas e consciencializadas. até pork como os anarquistas entendem o planeta como uma "propriedade comum" tudo seria feito para se minimizar o impacto da actividade humana.

2- a forma de organizaçao da sociedade seria optima para coisas como a microgeraçao generalizada, a diminuiçao do transportes de longuissimo alcance, etc...

provavelmente e por estas razões a quantidade de co2 ou a atomosfera nao se tornaria num bem escasso.

no entanto e respondendo diretamente a pergunta, visto nao ter assinado o tal "protocolo", essa comuna sofreria sançoes a nivel comercial, visto as outras ou a maioria ter assinado e como tal as pessoas individualmente agirem em conformidade, isto é, nao consumindo produtos derivados de tal comuna.
por outro lado, seria estudado o caso, da razao pela qual essa comuna nao aceitar esse x de emissao e dar-se iam icentivos (nao necessariamente monetarios) para resolver a questao.
acho que ninguem simplesmente recusaria a tal diminuiçao da emissao por simples casmurrice.

agitador said...

ah só mais uma coisa,
o combate ao aquecimento dar-se-ia pela prevençao e nao pela comercializaçao de quinhoes de ar limpo. que é uma coisa ridicula. ainda pra mais se formos comprar ar limpo, o que é um absurdo pratico, a paises pobres e assim depauperando ainda mais a hipotese de eles se industrializarem. ao mesmo tempo que os paises ricos s podem dsleixar d procurar novas tecnologias para diminuir a "externalidade" que é o co2 antropogenico.

Tárique said...

Dava pano para mangas esta pergunta. Como resolveria a sociedade anarquista a merda criada pelos outros (aquecimento global causado pelo homem)?

Prefiro pensar em linhas mais gerais nas duas questões:

1 como resolver o dilema do prisioneiro (ou lá como se chamam - aquilo da dissidência de um trazer-lhe benefícios)

2 como resolver crises globais (vou dar um exemplo que me é mais familiar do que o aquecimento global: o impacto iminente de um asteróide)

talvez seja interessante ver como é que pequenos problemas semelhantes a estes foram resolvidos na catalunha anarquista de 1936-39. Se calhar o problema "global" na altura era a luta contra os nacionalistas e pelos vistos não foi resolvido. quanto aos pequenos dilemas do prisioneiro penso que se resolveram da forma como fala o agitador.

Por exemplo, pelo que sei, as comunas anarco-sindicalistas barravam aos proprietários agrários acesso aos bens e serviços provenientes das comunas e acabava por ser de benefício para eles abrirem mão da exclusividade na exploração da terra.

Assim sendo, uma solução seria isolar os dissidentes.


Acho que é muito importante ver isto com a noção que os valores de uma sociedade anarquista seriam muito diferentes da actual. O egoísmo e a visão da felicidade e sua procura como vivência/objectivo individual seria muito diferente, a valorização do trabalho , dos recursos também. A ideia do que é um "direito natural" ou "direito divino" "propriedade" etc. seriam muito diferentes. A uma sociedade anarquista fará tanta confusão o modelo egoísta actual como nos faz a nós a ideia feudal que só algumas pessoas, por direito de nascença, têm direito à exclusividade dos frutos de uma porção de terra.