Creio que a única razão porque alguém está a dar alguma importância a isso foi a decisão inicial da policia de libertar logo Zimmerman e aceitar como válida a sua versão. Se o caso tivesse seguido logo para o "Ministério Público" (em vez de só após a vaga de indignação) e, após algum tempo, este decidisse arquivar o processo concluindo "dois ex-delinquentes envolveram-se à luta numa noite e um acabou por matar o outro; não há mais testemunhas e não se sabe verdadeiramente quem começou a luta - até é possivel que ambos estivessem sinceramente convencidos que estavam agindo em legitima defesa; assim, e pelo critério da «dúvida razoável», não podemos acusar Zimmerman" (ou se o processo tivesse mesmo indo para tribunal, e este concluísse o mesmo - substituindo "acusar" por "condenar" -, o que, aliás, foi mais ou menos o que acabou por acontecer), se calhar o caso apenas seria falado nalgum jornal local da Florida.
O que lançou o caso para a fama foi a decisão inicial de (pelo que percebi) nem sequer ter havido um processo judicial sobre o ocorrido (e este só ter ocorrido depois).
Uma observação final - às vezes surgem propostas do género "mortes ou danos corporais causados em legitima defesa não devem ser alvo de processos"; mas, se não houver alguma espécie de processo, como é que é possivel determinar realmente que se tratou de "legítima defesa"? A esse respeito, recomendo os pontos 18 e 19 desta critica de Paul Birch ao livro Guns, Crime and Freedom, de Wayne LaPierre.
Sunday, July 21, 2013
O caso Zimmerman
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Miguel Madeira
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O que irá fazer Cavaco?
O meu palpite - manter o governo actualmente existente (e não o governo imaginário em que o Paulo Portas é vice-primeiro-ministro, o Pires de Lima ministro da Economia, etc.).
Porquê? É a maneira de ele sair menos derrotado - se nomeasse o governo "remodelado" (que implicitamente rejeitou há duas semanas) estaria a admitir que fez o pais parar este tempo para nada; se dissolvesse o parlamento (depois de ter dito que era melhor não fazer eleições agora) estaria também a voltar atrás com o que tinha dito.
Claro que se poderá perguntar - e Portas? Irá aceitar o governo actual, depois de o ter quase deitado abaixo para o mudar, e após as longas negociações que foram necessárias para acordar a remodelação alargada? Há duas semanas, claro que não (foi exactamente por isso que tomou a decisão irrevogável). Mas o CDS, junto com o PSD, passou estes últimos dias apresentando-se como o guardião da estabilidade, opondo-se a eleições antecipadas, participando na defesa do governo contra a moção do PEV e acusando o PS de querer a instabilidade. É difícil, depois disto, voltar imediatamente ao modo "temos estas exigências e estamos dispostos a derrubar o governo se não forem aceites".
Outra maneira de ver a coisa - talvez a recomendação presidencial de negociações tripartidas PSD-PS-CDS tenha contribuído para melhor as relações entre o PSD e o CDS: nas negociações bilaterais entre o PSD e o CDS, gerava-se automaticamente uma dinâmica de "eu contra ti", com cada partido a tentar extrair concessões do outro; a partir do momento em que passaram a trilaterais, provavelmente gerou-se uma dinâmica de "nós contra ele", com o PSD e o CDS a fazerem "frente unida" contra o inimigo comum (aliás, a existência de um inimigo externo sempre foi, ao longo da História, uma das melhores receitas para juntar facções até então desavindas)
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Miguel Madeira
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Friday, July 19, 2013
Classes sociais e despedimento disciplinar
What is certainly true, though, is that senior executives are far less likely to get sacked than most other employees – at least, not sacked in the sense that most people would understand the term.
As I have said before, the closer you are to the centre of power, the more the ‘People Like Us‘ factor and the ‘There But For The Grace Of God’ factor come into play. Your peers will want to treat you as they would like to be treated themselves, even if you have seriously messed up.
Therefore, when executives get to a certain level, certain things are beneath their dignity. They don’t have disciplinary hearings, they don’t get formal warnings from their bosses and it is very rare for them to be fired. Instead, they negotiate compromise agreements under which they are paid large amounts of money to resign. They waive their rights to make unfair dismissal claims in return for large payoffs and an agreement to go quietly. That way, everyone saves face and there is a minimum amount of fuss.(...)
Here, then, is Rick’s handy guide to the British class system. (For the benefit of foreign readers, the British upper classes don’t work – or, at least, they are not employed in the way most of us would understand the term. The guide therefore starts with the Upper Middles.)
Class Likelihood of disciplinary action Method of dismissal and severance terms Upper Middle Class (Private Sector) Very unlikely Seven figure payoff Upper Middle Class (Public Sector) Very unlikely, unless a politician is looking for a scapegoat. High six-figure payoff. After a discreet interval, a non-exec role on an obscure public body. Middle Middle Class (Private Sector) Unlikely, unless someone more senior needs a fall guy. Low six-figure payoff (more if long service or in financial services) plus extended period of ‘gardening leave’ Middle Middle Class (Public Sector) As above. High five-figure payoff (more if long service), plus extended period of suspension on full pay while your bosses plead with the finance director to sign off your compromise agreement. Lower Middle Class Moderate – though lazy/cowardly managers more likely to go for compromise agreement or sham redundancy. Working close to senior people is likely to get you a better deal. Low five-figure payoff, if your managers are lazy or cowardly and/or you have a good union. Otherwise, dismissal with pay in lieu of notice. Skilled Working Class High. Disciplinary procedures were designed with people like you in mind. Dismissal with pay in lieu of notice. Union likely to oppose sham redundancy on principle. Militant union may get you a reinstatement deal. Semi-skilled & Unskilled Working Class High. If non-union employer, procedure may be rattled through with unseemly haste. Dismissal. PILON negligible due to short notice period. Precariat Low. What would be the point? You are on a fixed-term, agency or zero-hours contract anyway. Phone call to the agency saying “don’t send Jo Bloggs next week”.
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A direita é maléfica?
Evil Tories?, por Chris Dillow:
Sunny Hundal has caused a stir by calling right-wingers "evil." For me, this raises a distinction between the Marxist and non-Marxist left: whereas the non-Marxist left often claim a moral superiority over the right - see Comment is Free, passim, if you can bear to - Marxists do not.
For us, the problem isn't that Tories are bad, or liars or stupid. Sure, some are - but a glance at Simon Danczuk, Liam Byrne or Siobhan McDonagh will remind us that Tories hardly have a monopoly here. Instead, for Marxists, immorality is an attribute not so much of individual agents but of the capitalist system itself. (...)
You might object here that Tories are "evil" in that austerity is doing real damage. True. But this omits two points. First, they are not pursuing austerity because they want to hurt people, but because they believe it will do good; this is an intellectual error, not a moral failing.
Secondly, austerity is not the only - or even main - cause of our woes. Capitalism was ailing well before Osborne became Chancellor. In this sense, talk of "evil" Tories does capitalism a favour, by deflecting attention away from its systemic shortcomings.
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Thursday, July 18, 2013
Os Verdes nunca foram a eleições?
Nos últimos dias têm surgido frequentemente artigos argumentando que o PEV nunca foi a eleições, não tem qualquer representatividade, etc.
Até é capaz de ser verdade, mas, pelo mesmo raciocinio, também se pode dizer que desde finais de 1976 que o PCP também não vai a eleições.
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Tuesday, July 16, 2013
Ayn Rand e a sociedade industrial-burguesa
Este post de Paul Krugman fez-me lembrar este que escrevi há 2 anos.
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Sunday, July 14, 2013
Babeauf vs. Tom Paine
Elizabeth Anderson: Tom Paine and Social Insurance: Bastille Day Weblogging, publicado por Brad DeLong.
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Thursday, July 11, 2013
Wednesday, July 10, 2013
Portugal é a Grécia
Em Novembro de 2011, era empossado o governo Papademos, baseado numa acordo entre o PASOK, a Nova Democracia e a Aliança Popular Ortodoxa, e com uma prazo de vida predeterminado de 6 meses, após o que se realizariam eleições.
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Tuesday, July 09, 2013
Re: Bullying Ideológico
De acordo com a própria definição de "bullying ideológico" que Rodrigo Constantino dá aqui, o seu artigo é "bullying ideológico". Afinal, o seu artigo consiste essencialmente em "ataques às intenções" e não em discutir ideias.
Ver também "Purgatório", escrito em 2008.
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Saturday, July 06, 2013
Exército, democracia e islamitas no Mediterrâneo oriental
The Egyptian Paradox: Saving Democracy and Setting It Back, em Why Nations Fail:
The first freely elected government of a country, where a large fraction of society is disenfranchised, disempowered and made to feel like second-class citizens, is ousted, in the name of saving democracy, by a military coup supported by former elites and “liberals”.
And the outcome? Three more military coups and more than 50 years later, a deep chasm in society that is still preventing the emergence of truly inclusive politics.No, we are not talking about the future of Egypt (not directly in any case).This is just a description of what happened in Turkey in 1960 as we described previously.
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Thursday, July 04, 2013
"Perderam-se milhões em juros"
Há quem diga que esta espécie de crise, com o aumento dos juros a que deu origem, terá originado um "prejuizo de milhões" (ou qualquer outra unidade) ao país.
A esse respeito, repito o que escrevi aqui:
Já agora, um parentises acerca dos juros - quando se diz "hoje os juros de Portugal atigiram um novo máximo", há que comente "isso não devia ser assim; os juros deveriam ser fixos!"; ora, isso é um equivoco acerca de como funcionam os mercados de dívida - na verdade, o juro que o Estado português paga e os credores recebem é fixo; quando se diz que os juros "chegaram aos 9%", isso não quer dizer que o valor dos juros pagos subiu, mas sim que o preços dos titulos da dívida portuguesa desceu (logo a taxa de juro, medida como [juros a pagar / preço da dívida], subiu).Ou seja, o Estado não perdeu nada com esta "subida" dos juros (o que aconteceu foi que o valor de mercado dos titulos de dívida portuguesa se desvalorizaram, mas quem perdeu com isso foram os nossos credores - ou pelo menos os credores que venderam a dívida nestes dias)
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Miguel Madeira
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Revolução Americana?
Há uma escola de pensamento que defende que a chamada "Revolução Americana" não foi revolução nenhuma, foi apenas uma guerra de independência que manteve o essencial das instituições sociais e politicas pre-existentes nas "colónias", apenas substituindo, no topo, a autoridade britânica pela do Congresso e do Presidente.
Nomeadamente, durante a "guerra fria", creio que tal posição era bastante popular tanto entre os conservadores e liberais-conservadores como entre os marxistas. Os primeiros apoiavam a sua tese de que os grandes projectos de transformação social conduzem ao "Terror" nos exemplos das revoluções Russa e Francesa, e dava-lhes jeito poder tirar a Revolução Americana da equação; os segundos porque, sendo os EUA os lideres do mundo capitalista, também gostavam de ter um argumento para não por a Revolução Americana no mesmo patamar que as "gloriosas" Francesa e Russa.
Mas, será que a Revolução Americana não foi mesmo uma revolução? Sobre isso Robert Nisbet apresentou uma versão que talvez possa ser considerada "dissidente" - Was there an American Revolution?
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Miguel Madeira
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Friday, June 28, 2013
O paradoxo
"The big divide in politics is between the majority who want the country to be run by a few people and the minority who want it to be run by everyone." (dos comentários a este post de Stumbling and Mumbling)
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Miguel Madeira
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Daqui a uns meses, vamos ouvir dizer que a Irlanda já saiu da crise
Irlanda em recessão pelo terceiro trimestre consecutivo (Expresso).
As constantes saídas da Irlanda da crise fazem lembrar a tese de Mark Twain sobre deixar de fumar ("É facílímo deixar de fumar; eu já deixei de fumar montes de vezes").
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Miguel Madeira
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Funções do Estado
Há pouco, na "Quadratura do Circulo", Daniel Bessa falava de uma proposta que tinha ouvido numa reunião em que tinha participado: dividir o orçamento em dois - um referente às funções de soberania do Estado (defesa, promoção da competitividade, etc.) e outro referente às funções sociais (segurança social, saúde, educação, etc.); a ideia era que o orçamento "de soberania" poderia ter deficits, mas o "social" teria que ser equilibrado.
Eu consigo imaginar muitas criticas possíveis a essa proposta, mas há logo um ponto que salta à vista - a que propósito a "promoção da competitividade" (na pratica, assistência estatal às empresas) entra nas funções "de soberania"?
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Wednesday, June 26, 2013
Thursday, June 20, 2013
Esquerda versus Esquerda
Establishment Lapdog Media vs. Edward Snowden
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CN
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Tuesday, June 18, 2013
Os economistas e a crise
No contexto desta discussão n'O Insurgente, alguém comentou que " Na crise americana do sub-prime o que não faltava era génios em econonomia a tomar decisões que levaram à ruina de muita gente que não foi tida nem achada no processo."
Mas antes de comentar esse ponto, vou primeiro fazer duas outras observações relacionadas com essa discussão.
Em primeiro lugar, penso que algum Miguel (o Madeira ou o Noronha) estará enganado na interpretação do juízo de valor que Pacheco Pereira dá à "popularização da economia"; pelo menos eu quando li os posts fiquei com a ideia (até por este post) que JPP considerava isso como uma das consequências positivas da crise; já o Miguel Noronha parece-me que terá ficado com a ideia que JPP estava contra essa "popularização" (já agora, este comentário do lucklucky só me parece fazer sentido se a interpretação de M. Noronha for a correcta). Normalmente, essa dúvida seria resolvida com o recurso à "interpretação autêntica" - o próprio autor esclarecer a sua posição; mas como JPP não participa de forma bilateral nas discussões na blogosfera, temos que nos dedicar a essa discussão exegética para tentarmos perceber o sentido do seu texto.
Em segundo lugar, tenho algumas dúvidas sobre o que outro comentador escreve, de que "a História mostra-nos que muitos génios da Literatura, Filosofia ou das Artes nunca foram gestores responsáveis das suas contas"; posso estar totalmente errado nisto que vou escrever, mas pelo menos no caso dos "génios" da literatura e da filosofia (as artes são provavelmente um caso à parte), tenho a ideia que, nos casos em que passaram grande parte da vida e/ou acabaram na miséria foi menos por não gerirem bem as contas (aliás, em tempos até havia a teoria de que o jeito para a filosofia andaria ligado ao para a matemática, que alguma base deve ter tido) e mais por, pura e simplesmente, entrar pouco dinheiro por o seu produto ter pouco mercado (isto ponto vai ser relembrado mais para a frente no post).
Mas vamos regressar ao ponto central - os economistas (ou economistas, sem "os") serão assim tão responsáveis pelas decisões que levaram à presente crise?
Duas instituições podem ser vistas como emblemáticas da crise de 2008 - o Lehman Brothers, que faliu, e o Citigroup, que precisou (e penso que continua a precisar) do apoio do governo norte-americano.
Assim, fui à procura de quem eram os administradores de um e do outro na altura (bem, os do Citigroup são de fevereiro de 2009, mas suponho que fossem os mesmos) e tentar ver qual a sua "área"; nalguns casos não consegui e o sistema académico anglo-saxónico parece-me ter peculiaridades (comparada com o português) que tornam difícil o exercício; e em certos casos não é claro o que deverá ser exactamente a área (a área acadêmica? o ramo em que estiveram quase toda a sua vida?). De qualquer maneira, foi isto que apurei:
- Richard S. Fuld, Jr, administração de empresas
- Michael L. Ainsli, ???
- John F. Akers, administração industrial
- Roger S. Berlind, produtor teatral (!!)
- Thomas Cruikshank, gestão
- Marsha Johnson Evan, direito/diplomacia, militar
- Sir Christopher Gen, ? (imagino que apenas tenha o secundário)
- Roland A. Hernandez, direito?
- Henry Kaufman, economia/finanças
- John D. Macomber, gestão?
- C. Michael Armstrong, engenharia
- Alain J.P. Belda, economia
- Sir Winfried F.W. Bischoff, comércio
- Kenneth T. Derr, engenharia/gestão
- John M. Deutch, física/química
- Roberto Hernández Ramírez, gestão
- Andrew N. Liveris, engenharia química
- Anne Mulcahy, inglês/jornalismo
- Vikram Pandit, engenharia electrónica/gestão/finanças
- Richard D. Parsons, direito
- Lawrence R. Ricciardi, gestão?
- Judith Rodin, psicologia
- Robert E. Rubin, economia/direito
- Robert L. Ryan, engenharia eléctrica/gestão
- Franklin A. Thomas, direito?
[o "board of directors" do Citigroup parece - ou parecia - um Who's Who cruzado das empresas, das "instituições sem fins lucrativos" e da administração pública]
E nestas 25 pessoas, teremos para aí... uns 5 economistas (penso que "finanças" é metodologicamente muito parecida com economia para podermos juntar tudo). Alguns poderão perguntar "e todos esses formados em gestão, com MBAs e afins?"; mas (pelo menos pela minha experiência) "gestão" e "economia" têm muito pouco em comum - os assuntos são diferentes, as bases teóricas são bastante diferentes (e por vezes quase opostas - no mundo da micro-economia neo-clássica mal há lugar para o próprio conceito de "gestão"), aposto que a própria personalidade das pessoas que vão para cada área é diferente (p.ex., quase que aposto que as as pessoas de gestão acreditam mais em coisas como "pensamento positivo" e "força de vontade", enquanto que as pessoas de economia confiam mais no raciocínio lógico e analítico - se for assim, é de esperar que o pessoal de gestão seja mais dado a "optimism bias" e a falências monumentais ocasionais).
Aliás, a minha teoria de que os escritores e filósofos pobres o são, não por gerirem mal o dinheiro, mas sobretudo por ganharem pouco dinheiro à partida até pode ser interpretada à luz do binómio economia/gestão - bem, é de supor que alguém da área de gestão saiba gerir bem o dinheiro, mas penso que ainda mais alguém de economia (tão habituados que estão a resolver problemas matemáticos de maximização de utilidade ou de minimização de custos); já o conseguir vender o seu produto (neste caso, os livros) depende essencialmente de ramos da área de gestão (marketing, prospecção de clientes, hbilidade negocial, etc).
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Miguel Madeira
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Sunday, June 16, 2013
Vestuário e "personalidades imaginativas"
N'O Insurgente, Maria João Marques dedica-se a analisar o guarda-roupa da meia-lider do BE Catarina Martins.
Confesso que grande parte do post versa sobre temas sobre os quais eu (e se calhar metade da humanidade) me sinto incapaz de comentar. No entanto, vou comentar esta passagem:
E já que estamos na imagem da Catarina Martins, deixe-me que lhe diga que a imagem atual, ui, que sensaborona, indicia uma personalidade pouco imaginativa e também não é lá muito apelativa.Eu diria que tradicionalmente um vestuário descuidado até costuma vir associado ao estereotipo do "génio excêntrico" (veja-se as lendas que correm de que [X] - inserir famoso pensador ou cientista, acho que a lenda corre para vários - teria uma carrada de roupas todas iguais no armário para não perder tempo de manhã a pensar em qual vestir), ou seja até seria um indicio de uma "personalidade imaginativa" (ainda que é verdade que este parágrafo de Maria Marques já não se refere a um suposto anterior estilo "descuidado" de CM, mas a um alegado novo estilo, que pelos vistos será diferente...).
Diga-se que o meu conhecimento de Catarina Martins é muito superficial, logo não faço ideia se é imaginativa ou não, e nem nunca reparei bem no seu estilo (ou estilos?) de vestir.
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Miguel Madeira
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Friday, June 14, 2013
Privatização sui generis? (II)
A respeito disto, ocorreu-me que um governo maquiavélico poderia usar essa estratégia como uma forma convuluta de privatizar a televisão.
Passos a seguir:
1 - Anunciar que vai fechar a televisão pública esta noite; como reação, os jornalistas fecham-se lá dentro e uma multidão junta-se à porta
2 - Anunciar que a policia vai evacuar o edificio; por carros da policia de choque sempre lá ao pé, mas não fazer nada, apenas para manter a tensão
3 - A emissão continua, sobre auto-gestão dos trabalhadores; no entanto, quando chegar o fim do mês, não há dinheiro para ordenados (já que as contas bancárias devem estar sob autoridade governamental)
4 - Os sindicatos e os "media alternativos" lançam uma campanha (talvez mundial) de solidariedade com os trabalhadores da televisão, com recolhas de fundos para apoiar a sua luta; isso seria uma desenvolvimento provável por duas razões: uma tradição sindical de realmente fazer recolhas de fundos (inclusive a nível internacional) em solidariedade com lutas badaladas; e existirem hoje em dia muitos "media alternativos", com uma orientação de esquerda, que realmente se financiam via "crowdfunding. Assim, seria uma saltinho de cobra (sem praticamente nenhuma grande mudança de paradigma) financiar a "luta dos trabalhadores" da estação de televisão dessa maneira
5 - E pronto, sem ninguém dar por isso, a televisão do estado foi efectivamente privatizada, transformando-se numa espécie de sociedade de jornalistas financiada por contribuições voluntárias dos espectadores (e já não por impostos ou taxas coercivos); e ainda por cima que na prática fez a privatização não foi o governo, mas as forças que em teoria são mais hostis à ideia de privaizar seja o que for.
O fecho da ETR tem sido apresentado por toda a gente como um tiro no pé do governo grego; mas será que estamos a ver mal a coisa e na verdade foi um golpe de génio de Samaras?
[Ou será que eu estou a delirar?]
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Privatização sui generis?
Comentário de alguém no twitter: "Greek govt has turned the state run broadcaster #ERT into a pirate channel".
[De forma completamente involutária para todos os actores envolvidos, faz-me lembrar isto]
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Miguel Madeira
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Thursday, June 13, 2013
Acerca do "E depois do Adeus"
Agora que a série já praticamente chegou ao fim, ocorrem-me algumas reflexões.
Alguns leitores estarão pensado "Chegou ao fim? Como? Ainda há um episódio marcado para o próximo domingo; e mesmo esse não vi nada dizendo que era o último"; bem, eu não faço ideia de quantos episódios ainda haverão, mas no essencial a série já acabou - a família protagonista já tem casa e emprego (e a situação política do país - que funcionava como pano de fundo e muitos vezes como motor da narrativa - já está estabilizada); agora é encher chouriços com fait-divers como gravidezes indesejadas, filhos ilegítimos, etc. (nomeadamente pondo os espectadores na dúvida "qual das duas será filha do protagonista? A mãe ou a filha?").
Mas o ponto que me chama a atenção é este: mas toda aquela gente tinha firmas?? Nesse aspecto a série parece um reflexo dos estereótipos rivais (mas muito similares a nível de juízos de facto) do "retornado que tinha lá uma boa vida e perdeu tudo" e do "retornado capitalista que estava lá a explorar os pretos". Porque não, p.ex., um casal que ela fosse professora primária e ele electricista do ramo local dos CTT? Ok, a professora não é lá bom exemplo porque os funcionários públicos foram para o "Quadro Geral de Adidos" e à medida que iam surgido vagas em Portugal foram sendo recolocados (logo não tiveram grande problema de emprego), mas pronto, uma enfermeira ou uma telefonista (ou então professora numa escola privada)...
Uma explicação possivel é que talvez houvesse efectivamente uma proporção significativa de empresários entre os brancos que estavam nas então "províncias ultramarinas"; mas ocorre-me outra ideia - é que talvez seja mais fácil apresentar o "retorno" como uma experiência especial no caso de pessoas que ficaram sem bens de valor considerável. Afinal, para pessoas como os meus pais, trabalhadores assalariados que nem tinham casa própria em Moçambique, a descolonização significou perderem os seus empregos (bem, creio que não no caso da minha mãe pelas razões já indicadas), terem que se mudar com os filhos para um lugar de certa forma do outro lado do mundo, ficar a viver em casas de familiares em que não havia espaço para todos até arranjarem um casa, terem que procurar emprego, etc. Mas, se pensarmos bem, não é isso que a ideologia dominante apregoa que todos temos que estar preparados? Que já não há "empregos para a vida", que temos que estar prontos a sair da "zona de conforto", que a emigração é a solução, que o arrendamento é melhor que a casa própria exactamente porque permite às pessoas mudarem de terra à procura de trabalho, etc., etc. Ora, se o drama do retorno for "simplesmente" ter que, de repente, ir para uma terra diferente, e procurar um novo emprego e uma nova casa, então é difícil apresentar tal como algo de especialmente dramático (afinal, se dizem que o futuro é isso...). Assim, para dar algo de único à experiência, foi necessário meter personagens com firmas que foram obrigados a abandonar.
Diga-se que, embora não faça ideia de se os argumentistas têm alguma inclinação política e qual (se a "consultora histórica" é esta, parece-me uma espécie de liberal mas mais focada em criticar os adversários do que em propor seja o que for), a série tem um tom claramente "de direita" (inclusivamente com um aparente terrorista do ELP a desempenhar o papel de "jerk with a heart of gold"); mas não me posso queixar muito, já que se alguma área tem sido dominante no campo da ficção-audiovisual-com-tonalidade-política até tem sido de longe a esquerda (veja-se por exemplo a antecessora do "E depois do Adeus" na categoria "série das noites de fim de semana de ficção histórica sobre o Portugal de há umas décadas atrás", "Conta-me como foi", que me parece - quando entrava em temas mais políticos - ter dado essencialmente a versão da esquerda desses tempos)..
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Miguel Madeira
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Monday, June 10, 2013
RSI e vouchers escolares
Este artigo de Vitor Cunha no Blasfémias fez-me lembrar deste post que escrevi há quatro anos, nomeadamente desta passagem "não deixa de ser curioso que as pessoas que defendem o RSI pago géneros sejam, muitas vezes, as mesmas que defendem a "liberdade de escolha" na educação e na saúde, quando o principio em causa é, fundamentalmente, o mesmo (o Estado fornecer bens/serviços, ou permitir aos beneficiários decidir onde gastar o dinheiro). Claro que este meu último argumento pode ser virado ao contrário - afinal, as pessoas que defendem o RSI em dinheiro são, muitas vezes, também as mesmas que são contra os cheques-educação e afins".
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Miguel Madeira
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O assassinio na Amadora
O caso do jovem assassinado na Amadora só está a ter a atenção que está a ter por a vítima, já ferida de morte, se ter refugiado numa escola.
Apesar da vitima não ser um aluno da escola (pelo que li, foi, mas já não era), a facada não ter ocorrido na escola e se calhar o assassino também não ser (pode ser ou não, mas até agora não há nenhum motivo para assumirmos que é) da escola, o facto da morte ter ocorrido dentro de uma escola faz com que, lendo e ouvindo as noticias, o nosso subconsciente pense automaticamente em algo do género "estudante assassinado numa escola" (embora não tenha sido isso que se passou); se a noticia fosse simplesmente "rixa entre gangues da linha de Sintra causa um morto" (sem escola pelo meio) apareceria durante um dia nas páginas dos jornais da especialidade e nunca mais se falaria nisso.
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Sunday, June 09, 2013
Fruta feia?
O "Público" pergunta "se estamos dispostos a comer fruta feia para reduzir o desperdício".
O essencial pode ser invisível aos olhos, mas, a acreditar na expressão popular, é com eles que comemos. Quando foi a última vez que, na zona dos frescos de um supermercado, pegámos numa peça de fruta sem avaliar se essa era a mais bem-parecida do caixote? E se, querendo maçãs, só encontramos exemplares sem o aspecto regular e o brilho a que já nos habituámos, compramos na mesma? É um pequeno gesto, mas com grande impacto em cadeia.Os jornalistas têm mesmo certeza que são os consumidores que têm um problema com a "fruta feia"? Eu, entre as pessoas das minhas relações, nunca notei que houvesse alguma preferência por "fruta bonita" - sim, as pessoas não querem fruta com ar de estar a começar a apodrecer ou de ter sido picada pelos pássaros, mas isso são coisas que têm a ver com a qualidade intrínseca do produto, não a preocupação puramente estética descrita no artigo. A mim parece-me que quem tem a "pancada" da fruta bonita são mais os distribuidores (e não sei se os regulamentos da UE e os programas de certificação ISO-9000 e coisas do género não terão algo a ver com isso) do que propriamente os clientes (mas, como eu já escrevi várias vezes, eu sou uma pessoa estranha; talvez seja a minha opinião sobre as preferências dos consumidores que esteja errada?).
Como os consumidores preferem frutas e hortaliças perfeitas, os grandes canais de distribuição transferem essa preferência para os agricultores, que só conseguem vender para os supermercados as peças com melhor aspecto. O resultado é um desperdício produtivo de 30%, o que em Portugal significa mandar para o lixo ou para a alimentação do gado uma tonelada de produtos fruto-hortícolas com qualidade para estarem à nossa mesa, mas não com o aspecto desejado.
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Miguel Madeira
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Ainda a esquerda anarquista pró(?)-propriedade privada
A respeito da minha passagem referindo que "também nem toda a esquerda anarquista é contra a propriedade privada - algumas facções defendem uma sociedade de pequenos proprietários em que cada um seja uma espécie de micro-empresário", um leitor responde que "Isto por si já é impossível, visto que nem todas as pessoas têm a capacidade de gerir bens de produção, e além disso, este arranjo impossibilitaria vendas de propriedade. Se eu quiser vender a minha propriedade, será que posso? Mas assim, ao longo do tempo, uns iriam ficar com mais propriedade e outros até sem propriedade de produção (bens de produção). Seria proibido vender a propriedade? Mas isso não é iniciação de violência?..".
Em primeiro lugar, para quem esteja menos dentro destas questiúnculas, convém explicar a quem me referia - basicamente estava a pensar na corrente umas vezes designada por "anarquismo individualista" e outras vezes por "mutualismo" (os conceitos não são exactamente idênticos, mas há uma grande sobreposição): Proudhon, Josiah Warren, Lysander Spooner, Ben Tucker ou, modernamente, Kevin Carson.
Como é que estes autores acham que surgirá essa tal sociedade de pequenos proprietários?
a) Em primeiro lugar (e talvez seja esse o aspecto mais importante do seu pensamento), acham que numa sociedade em que não haja limites legais à criação de bancos, eventualmente com a sua própria moeda, a taxa de juro irá descer para valores muito próximos do zero, através da criação de "bancos mútuos"; com juros próximos do zero, segundo eles seria relativamente fácil toda a gente se tornar proprietário - mesmo quem não tivesse dinheiro para adquirir os seus meios de produção poderia obter um empréstimo e depressa o amortizaria; nesse aspecto, parecem-me em directa oposição aos anarco-capitalistas ligados à "Escola Austríaca", que penso acharem que numa sociedade anarquista sem banco central os juros serão mais altos.
b) Sobretudo nas variantes mais modernas, tendem também a argumentar que as mesmas razões que fazem com que o planeamento central seja menos eficiente que o mercado (informação reduzida da parte dos decisores, distorção de incentivos, etc.), também farão com que as grandes empresas sejam menos eficientes que as pequenas, e que o trabalho assalariado seja menos eficiente que o trabalho por conta própria, e que portanto, num mercado "verdadeiramente livre", as pequenas empresas tenderiam a "vencer" as grandes. Um exemplo desta posição pode ser encontrada na obra de Carson "Organization Theory: A Libertarian Perspective" [pdf]. No meu post "Re: Os limites naturais à dimensão das empresas" abordo um tema parecido com este
c) Agora o ponto que o leitor abordou - seria proibido vender a propriedade? Pondo a questão nestes termos, a primeira resposta seria "não"; mas, de certa forma, e pensando bem, anda próxima do "sim", pelo menos para certos tipos de propriedade: por regra, os autores desta corrente tendem a considerar que no caso dos recursos naturais, nomeadamente do solo, a propriedade só será legitima se associada à "ocupação e uso"; p.ex., possuir um terreno e cultivá-lo eu seria legitimo; arrendá-lo (ou provavelmente mesmo recorrer a assalariados) já não (e aí os meus rendeiros ou empregados teriam o direito de se proclamarem como os "legítimos proprietários"). Em termos práticos, isso acaba por se materializar numa posição de "as nossas agências de protecção só irão reconhecer os direitos de propriedade sobre o solo até à dimensão X". Um exemplo deste pensamento surge no texto de Tucker "Property under Anarchism":
Mr. Herbert, as I understand him, believes in voluntary association, voluntarily supported, for the defence of person and property. Very well; let us suppose that he has won his battle, and that such a state of things exists. Suppose that all municipalities have adopted the voluntary principle, and that compulsory taxation has been abolished. Now, after this, let us suppose further that the Anarchistic view that occupancy and use should condition and limit landholding becomes the prevailing view. Evidently then these municipalities will proceed to formulate and enforce this view. What the formula will be no one can foresee. But continuing with our suppositions, we will say that they decide to protect no one in the possession of more than ten acres. In execution of this decision, they, on October 1, notify all holders of more than ten acres within their limits that, on and after the following January 1, they will cease to protect them in the possession of more than ten acres, and that, as a condition of receiving even that protection, each must make formal declaration on or before December 1 of the specific ten-acre plot within his present holding which he proposes to personally occupy and use after January 31. These declarations having been made, the municipalities publish them and at the same time notify landless persons that out of the lands thus set free each may secure protection in the possession of any amount up to ten acres after January 1 by appearing on December 15, at a certain hour, and making declaration of his choice and intention of occupancyDeixando de lado a questão de se um sistema desses poderia ser transplantado por um universo urbano e/ou industrial (em que a posse do solo me parece inseparável da posse dos edifícios lá implementados, complicando a distinção que esta corrente tende a fazer entre recursos naturais e bens produzidos), vamos voltar ao ponto levantado pelo leitor - são proibidas as vendas de propriedade? Bem, a partir do momento em que os "direitos de propriedade" de quem possuir mais que "X" m2 é suposto serem ignorados, realmente isso na prática é como proibir as vendas de terrenos a quem esteja perto do limite máximo - é verdade que não há ninguém a proibir a venda em sí, mas é como se esta fosse nula.
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Friday, June 07, 2013
Exemplos de conservadores defendendo a intervenção do Estado na moral social
Ainda a respeito disto, a dada altura o Rui Albuquerque pediu exemplos de "exemplos de autores conservadores ingleses que defendam" a "intervenção do Estado na manutenção (e promoção) de princípios morais e organizativos da Sociedade".
Ingleses não me ocorre nenhuns (mas a associação histórica do Partido Conservador ao "antidisestablishmentarianism" não contará?), mas não é difícil encontrar norte-americanos (e o conservadorismo norte-americano até tem fama de anti-estatista comparado com o britânico).
Exemplos:
Robert Bork:
The nature of the liberal and libertarian errors is easily seen in discussions of pornography. The leader of the explosion of pornographic videos, described admiringly by a competitor as the Ted Turner of the business, offers the usual defenses of decadence: 'Adults have the right to see [pornography] if they want to. If it offends you, don't buy it.' Those statements neatly sum up both the errors and the (unintended) perniciousness of the alliance between libertarians and modern liberals with respect to popular culture.Irving Kristol:
Modern liberals employ the rhetoric of 'rights' incessantly, not only to delegitimate the idea of restraints on individuals by communities but to prevent discussion of the topic. Once something is announced, usually flatly or stridently, to be a right --whether pornography or abortion or what have you-- discussion becomes difficult to impossible. Rights inhere in the person, are claimed to be absolute, and cannot be deminished or taken away by reason; in fact, reason that suggests the non-existence of an asserted right is viewed as a moral evil by the claimant. If there is to be anything that can be called a community, rather than an agglomeration of hedonists, the case for previously unrecognized individual freedoms (as well as some that have been previously recognized) must be thought through and argued, and "rights" cannot win every time. Why there is a right for adults to enjoy pornography remains unexplained and unexplainable.
The second bit of advice --'If it offends you, don't buy it' -- is both lulling and destructive. Whether you buy it or not, you will be greatly affected by those who do. The aesthetic and moral environment in which you and your family live will be coarsened and degraded. Economists call the effects an activity has on others 'externalities'; why so many of them do not understand the externalities here is a mystery. They understand quite well that a person who decides not to run a smelter will nevertheless be seriously affected if someone else runs one nearby.(...)
Can there be any doubt that as pornography and depictions of violence become increasingly popular and increasingly accessible, attitudes about marriage, fidelity, divorce, obligations to children, the use of force, and permissible public behavior and language will change? Or that with the changes in attitudes will come changes in conduct, both public and private? We have seen those changes already and they are continuing. Advocates of liberal arts education assure us that those studies improve character. Can it be that only uplifting reading affects character and the most degrading reading has no effects whatever? 'Don't buy it' and 'change the channel,' however intended, are effectively advice to accept a degenerating culture and its consequences
The obstacles to censorship of pornographic and viloence-filled materials are, of course, enormous. Radical individualism in such matters is now pervasive even among sedate, upper middle-class people. At a dinner I sat next to a retired Army general who was no a senior corporate executive. The subject of Robert Mapplethorpe's photographs came up. This most conventional of dinner companions said casually that people ought to be allowed to see whatever they wanted to see. It would seem to follow that others ought to be allowed to do whatever some want to see.... Any serious attempt to root out the worst in our popular culture may be doomed unless the judiciary comes to understand that the First Amendment was adopted for good reasons, and those reasons did not include the furtherance of radical personal autonomy.
For the plain fact is that we all believe that there is a point at which the public authorities ought to step in to limit the "self-expression" of an individual or a group. A theatrical director might find someone willing to commit suicide on the stage. We would not allow that. And I know of no one who argues that we ought to permit public gladiatorial contests, even between consenting adults.E,já agora, a defesa por Willmore Kendall da condenação de Sócrates (o grego), que me parece basear-se em princípios similares.
No society can be utterly indifferent to the ways its citizens publicly entertain themselves. Bearbaiting and cockfighting are prohibited only in part out of compassion for the animals; the main reason is that such spectacles, were felt to debase and brutalize the citizenry who flocked to witness them. The question with regard to pornography and obscenity is whether they will brutalize and debase our citizenry. We are, after all, not dealing with one book or one movie. We are dealing with a general tendency that is suffusing our entire culture. (...)
I'll put it bluntly: if you care for the quality of life in our American democracy, then you have to be for censorship.
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Re: dicionário elementar
N'O Insurgente, Rui Albuquerque apresenta uma espécie de dicionário expondo a forma como várias correntes políticas vêem cada conceito. Em "Estado", RA considera que este é visto pelos anarquistas de esquerda como:
o estado é um instrumento de opressão, que é necessário extinguir pela violência. A propriedade privada é a origem de todas as desigualdades humanas e é para a preservar que o estado existe. Logo, o caminho da extinção do estado é o da abolição da propriedade privadaParece-me que aqui o RA mistura um pouco a visão anarquista (social) do Estado com a marxista - tudo o que vem a seguir de "violência." é a visão marxista do Estado, não a anarquista. A esse respeito, recomendo a RA a leitura de "Resposta de um anarquista aos últimos moicanos do marxismo e do leninismo, assim como aos inúmeros pintainhos da democracia", de Júlio Carrapato. As primeiras páginas do livro são exactamente a desmontar a tese marxista (que RA atribui aqui ao anarquismo) de que o principal é a distribuição da propriedade, contra-argumentado Carrapato que a questão fundamental é a da autoridade, nomeadamente citando Daherendorf (que argumentava que a propriedade implica autoridade, mas que há outras autoridades além das derivadas da propriedade) e também referindo que as listas de "mais ricos do mundo" estão cheios de reis, rainhas, xeques, sultões, etc (o que demonstraria que muitas vezes é a partir do controlo do Estado que se geram os privilégios económicos, em vez de - como sustentam os marxistas - serem os privilegiados a criar o Estado para defender uma riqueza previamente existente). Aliás, toda a critica anarquista ao socialismo de Estado marxista gira à volta da ideia de que não adianta suprimir a propriedade privada se se mantiver a distinção entre dirigentes e dirigidos, o que penso demonstrar que os anarquistas de esquerda não acham que "propriedade privada é a origem de todas as desigualdades humanas".
Há mais uns detalhes, mas admito que não são muito relevantes - nem todos os anarquistas de esquerda advogam o derrube do Estado "pela violência": provavelmente o anarquismo até será a área política onde há mais defensores do pacifismo radical, recusando todas as formas de violência (e, nesse caso, pretendendo derrubar o poder do Estado pelo método da desobediência civil não violenta: as pessoas simplesmente recusarem-se a obedecer às ordem do Estado, e este cair por si ao se tornar incapaz de governar); também nem toda a esquerda anarquista é contra a propriedade privada - algumas facções defendem uma sociedade de pequenos proprietários em que cada um seja uma espécie de micro-empresário (mas, como escrevi atrás, esta parte já são detalhes - de facto o anarquista de esquerda típico é provavelmente contra a propriedade privada e está disposto a usar a violência contra o Estado e o Capital).
Diga-se que a sua defnição da visão anarco-capitalista do Estado também me parece muito discutível (ou ainda pior):
Para os anarquistas de direita, o estado existe? Não, não existe. Ele é apenas um sonho mau saído de cabeças minarquistas, que, quando acordarmos, não existirá mais. Entretanto, se recairmos no pesadelo, bastará fechar os olhos com força e invocar o princípio da não agressão para que tudo se componha.Não sei o Carlos Novais, o Rui Botelho Rodrigues ou o Pedro Bandeira se identificarão com esta descrição de como supostamente eles verão o Estado (embora o CN nos comentários até pareça ter simpatizado com essa descrição de definição do estado).
Já agora, até face à sua definição da visão conservadora do Estado eu tenho reservas. Porquê? Porque, pelo menos segundo o Robert Nisbet a essência do conservadorismo é a defesa dos agrupamentos sociais intermédios (família, comunidade local, etc.) contra os excessos tanto do "estatismo" como do "individualismo" (pelo menos o seu livro sobre o conservadorismo anda todo à volta disso); ora, como na sua descrição da visão conservadora do Estado, RA consegue só usar as palavras "Estado" e "indivíduos" e em momento algum "corpos intermédios", "poderes intermédios", "famílias", "grupos sociais", "estamentos", "comunidades" ou algo com um significado parecido, não me parece que pelo menos a sua forma de descrever a visão conservadora do Estado seja a forma que um conservador tradicional usaria (mas admito que seja apenas uma diferença semântica e que, usando palavras diferentes, o conteúdo talvez seja o mesmo).
Ainda sobre este assunto, em tempo o American Conservative tinha um interessante artigo de Daniel McCarthy explicando a forma como as várias correntes políticas viam a relação entre o Estado e a Sociedade; o artigo (penso que de Fevereiro de 2010) já não está disponível, mas pelo que me lembro a ideia era a seguinte:
Em primeiro lugar, haveria uma discórdia entre os que acham que a sociedade a) é dominada por uma luta entre "privilegiados" e "explorados" ; b) é um lugar fundamentalmente pacifico, com alguns conflitos ocasionais; ou c) é um lugar de luta potencial de todos contra todos.
Dentro do primeiro grupo, haverá um subdivisão entre os que acham que o Estado é sempre o instrumento dos privilegiados (devendo por isso ser abolido) e os que acham que o Estado tanto pode ser o instrumento dos privilegiados como dos explorados (devendo os representantes dos explorados twntar conquistar o poder político); a primeira posição corresponderá ao anarquismo tradicional, a segundo à esquerda moderada e ao "liberalismo" americano (eu dã-me a ideia que haveria um terceiro sub-grupo, correspondente ao marxismo, mas já não me lembro como McCarthy o definia).
O segundo grupo corresponderá ao liberalismo clássico, considerando que o Estado não é necessário para muita coisa - na maior parte dos assuntos a cooperação voluntária funciona.
Dentro do terceiro grupo, haverá 3 sub-grupos: os que defendem que é necessário um Estado todo-poderoso para manter a ordem social (os fascistas); os que defendem um Estado autoritário, em que as decisão do governante não são para ser discutidas ou postas em causa, mas em que os grupos sociais (províncias, municípios, associações profissionais, universidades, etc.) têm autonomia para gerir os seus assuntos internos (o tradicionalismo europeu, sendo apresentado o exemplo de Charles Maurras); e os defensores de um Estado constitucional liberal em que o conflitos entre os vários indivíduos e grupos seja contido/regulado através do equilíbrio dos poderes e do pluralismo político (a versão liberal do conservadorismo, de que Nisbet é apresentado como exemplo) - ao que me lembro, uma das conclusões de McCarthy era de que os liberais tradicionais e os conservadores-liberais, apesar de terem uma visão diferente do funcionamento da sociedade, acabam por defender modelos políticos parecidos.
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Thursday, May 30, 2013
Karl Hess: The Role of Community in the Commitment to Liberty
Karl Hess was a noted speechwriter (for Barry Goldwater among others) and author, and later in his life was a prominent tax resister, market anarchist, and welder.
In this video from a 1984 Libertarian Party of Maryland meeting, Hess remarks on the importance of community in the commitment to liberty. At the time of this recording, Hess was living in West Virginia with his wife and surviving entirely on bartered goods and services thanks to a 100% lien placed on his future earnings by the Internal Revenue Service a decade earlier. Hess speaks on many topics including his distinction between two types of libertarians (rational and romantic), how to be a good neighbor, and what he saw as useful professions for libertarians to take advantage of.
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Monday, May 27, 2013
nota sobre Reihart e Rogoff e o seu "Desta vez é diferente. Oito séculos de loucura financeira"
1. A primeira é que Reihart e Rogoff mostram o quanto instável são os sistemas monetários que convivem com a dívida dos estados de uma forma outra monetizados pela criação de moeda. De resto, foi o interesse do soberano, que conduziu ao longo de séculos, a que os bancos começassem a conceder crédito com os depósitos à ordem e com isso, abrir o caminho à sua criação do nada (sem que moeda base existisse: ouro e prata física antes e as ditas "reservas do banco central" agora) para fornecer o soberano prmeiro, e os estados modernos depois, de capacidade aquisitiva (a maior parte das vezes para cobrir despesas sobre disputas de monopólios territoriais da violência: as guerras), pondo essa moeda a circular como se fosse igual, homogénea e fungível aos verdadeiros depósitos em conta corrente. O que deveria constituir uma fraude que devia ser punido como qualquer outro crime. Mas como se sabe, quis custodiet ipsos custodes?
2. Mas deixando de lado esse (não pequeno) aspecto, usando a edição em língua inglesa e fazendo uma procura (vantagem do Kindle) por bubble :
- encontra-se 30 menções à palavra bubble (asset bubble, equity, bubble, debt bubble, dot-com bubble, real estate bubble, housing bubble, IT bubble, etc.)
- e só uma vez se menciona credit bubble-fueled ainda que seja precisamente na frase final do livro.O que quero dizer com isto é que o objecto de investigação foca-se (e jã não é mau) na materialização das aplicações das novas quantidades de dinheiro mas não na sua origem.
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Friday, May 24, 2013
O que as pessoas querem dizer com "multiculturalismo"?
A respeito deste post de Vitor Cunha no Blasfémias, e da tese que os motins em Estocolmo são o sinal do "fracasso" do "multiculturalismo", ainda não percebi exactamente o que querem dizer com "multiculturalismo".
Mais exactamente, quando se diz que o "multiculturalismo" falhou, o que é que falhou exactamente?
Com "multiculturalismo" referem-se ao facto de, nos países ocidentais, existirem comunidades étnicas com tradições diferentes das dominantes no Ocidente?
Referem-se a uma alegada tendência para não aplicar as leis oficiais às comunidades imigrantes, com o argumento de que "é outra cultura"?
Referem-se a uma alegada atitude intelectual que tenderá a considerar as várias culturas como moralmente equivalentes?
Mais concretamente, qual é a política que os críticos do "multiculturalismo" acham que deve ser adoptada para que deixe de haver esse género de tumultos?
Limitar a imigração de países com tradições culturais significativamente diferentes?
Impor as leis do Estado de forma uniforme a toda a gente, sem abrir alegadas excepções para "minorias étnicas"?
Estabelecer um ambiente de repúdio social e moral face aos hábitos marcadamente desviantes face à cultura ocidental?
Independetemente de não concordar, a única forma de "anti-multiculturalismo" que ainda me parece fazer algum sentido é o primeiro (limitar a imigração oriunda de outras culturas); o segundo (aplicar leis uniformes a toda a gente) parece-me uma guerra contra moinhos de vento - tirando um ou dois casos isolados (que quando acontecem são logo propagados nos jornais e sites da "especialidade), duvido que exista uma prática regular de não aplicar as leis do Estado às minorias étnicas (sim, toda a gente sabe que nas grandes cidades há bairros aonde a polícia não entra, mas isso sempre aconteceu, mesmo quando o "lupenproletariado" era da mesma matriz cultural que o resto da população - ou seja, não é uma questão de "culturas"); finalmente, quanto à terceira forma de "anti-multiculturalismo", não me parece fazer sentido algum: duvido que os individuos das minorias étnicas deiem muito importância ao que os "fazedores de opinião" das sociedades ocidentais acham dos seus hábitos culturais (e é de esperar que sejam os individuos potencialmente mais problemáticos e violentos das "minorias" que menos importância darão).
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Keneth Rogoff sobre a crise europeia
The eurozone’s difficulties, I have long argued, stem from European financial and monetary integration having gotten too far ahead of actual political, fiscal, and banking union. This is not a problem with which Keynes was familiar, much less one that he sought to address.
Above all, any realistic strategy for dealing with the eurozone crisis must involve massive write-downs (forgiveness) of peripheral countries’ debt. These countries’ massive combined bank and government debt – the distinction everywhere in Europe has become blurred – makes rapid sustained growth a dream. (...)
This is hardly the first time I have stressed the need for wholesale debt write-downs. Two years ago, in a commentary called “ The Euro’s Pig-Headed Masters,” I wrote that “Europe is in constitutional crisis. No one seems to have the power to impose a sensible resolution of its peripheral countries’ debt crisis. Instead of restructuring the manifestly unsustainable debt burdens of Portugal, Ireland, and Greece (the PIGs), politicians and policymakers are pushing for ever-larger bailout packages with ever-less realistic austerity conditions.” (...)
In a debt restructuring, the northern eurozone countries (including France) will see hundreds of billions of euros go up in smoke. Northern taxpayers will be forced to inject massive amounts of capital into banks, even if the authorities impose significant losses on banks’ large and wholesale creditors, as well they should. These hundreds of billions of euros are already lost, and the game of pretending otherwise cannot continue indefinitely (...)
Debt write-downs and guarantees will inevitably bloat Germany’s government debt, as the authorities are forced to bail out German banks (and probably some neighboring countries’ banks). But the sooner the underlying reality is made transparent and becomes widely recognized, the lower the long-run cost will be.
CommentsView/Create comment on this paragraphTo my mind, using Germany’s balance sheet to help its neighbors directly is far more likely to work than is the presumed “trickle-down” effect of a German-led fiscal expansion. This, unfortunately, is what has been lost in the debate about Europe of late: However loud and aggressive the anti-austerity movement becomes, there still will be no simple Keynesian cure for the single currency’s debt and growth woes.
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Wednesday, May 22, 2013
Rendimento Universal Garantido Extraordinário
Not Too Late For The Helicopters, por Duncan Black "Atrios" (via Brad DeLong):
A big tragedy of the last few years is the failure to recognize that being in a low inflation world at the zero lower bound was a tremendous opportunity to massively enhance human welfare in this country. Mailing out 10 grand checks to everyone would have been an egalitarian massive boost to the economic well-being of huge numbers of people. Instead, the Fed has goosed asset prices, mostly benefiting the rich. Trickle down through another means, but still trickle down. Better than doing nothing, probably, but there were other ways.
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Monday, May 20, 2013
a impossibilidade do direito civil?
O que podemos perguntar é: será a ordem social incompatível com um direito civil pleno (contratos civis, relações de troca voluntárias, propriedade honesta, etc.)? E poderá a capacidade de secessão territorial aplicado à ordem política resolver uma parte da questão?
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Loose Change - parte II
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Tuesday, May 14, 2013
Tirem as devidas ilações
Vitor Gaspar - "Depósitos abaixo de 100 mil euros são sagrados"
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"-Que é aquilo? - Sei lá; é um homem a andar"
Conversa entre o meu sobrinho de 8 anos e um amigo sobre o anúncio ao programa do Marques Mendes.
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Thursday, May 09, 2013
Os depósitos com mais de 100.000 euros
Anda por aí um grande clamor acerca da possibilidade de, em caso de um banco estar em dificuldades, ser aplicada a solução "cipriota" - taxar os depositantes com mais de 100.000 euros.
Mas, não é exactamente isso que diz a lei? Se um banco falir, o Estado garante os depósitos com menos de 100.000 euros, e os outros... seja o que deus quiser.
Basicamente, esta indignação consiste em haver uma lei, quase toda a gente dizer que essa lei não é para cumprir, e como alguém, a dada altura, não excluiu totalmente a hipótese de a lei ser cumprida, ficou tudo indignado (mas ainda não vi ninguém propor que a lei do fundo de garantia de depósitos seja mudada para todos os depósitos sejam segurados).
Pode-se argumentar que a aplicação da lei (e das normas usuais quando uma empresa vai à falência) seria, primeiro, ir-se ao capital próprio dos bancos (ou seja, os accionistas), e só se isso não fosse suficiente, é que se iria ao dinheiro dos depositantes (como numa empresa falida, em que os credores só ficam a "arder" se o capital da empresa não der para cumprir as suas obrigações). Mas suspeito que na prática não faria grande diferença (penso que os bancos têm um volume reduzido de capitais próprios em comparação com o total das suas dividas e depósitos).
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Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism (III)
Como provavelmente notaram, estes dois posts referem-se a uma discussão com mais de um ano. Quando li o texto de Hollick [pdf], ocorreu-me fazer um comentário em 3 partes; nos meus rascunhos fiz a primeira e a segunda parte do comentário, e depois apareceram-me outras coisas para fazer (tanto a nivel de blog, como sobretudo no mundo físico).
Entretanto, eu já não me lembro o que pretendia escrever na terceira parte do comentário, pelo que decidi simplesmente publicar a primeira a e segunda parte (podendo eventualmente vir um dia a ser publicado um "Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism (IV)", se eu alguma vez me lembrar o que pretendia escrever).
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Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism (II)
Continuando a minha análise deste texto[pdf]:
Thirdly, if present states are viewed as land-holding companies, it is hard to see what quarrel anarcho-capitalists can have with their governments' actions, except to desire to abrogate the underlying extant land titles for their own (and perhaps others') benefit, a song they can sing in the company of socialists, anarchist and otherwise. And that song can be sung forever, as long as anyone perceives a benefit in singing it.Um excelente ponto; se um proprietário imobiliário tem, na sua propriedade poderes muitos semelhantes aos de um Estado sobre o seu território (impõe regras, e quem lá vive, ou vai-se embora, ou aceita essas regras; e, tanto num caso como noutro, esse poder é garantido pela possibilidade de uso, em última instância, da violência), qual é a grande diferença entre o anarco-capitalismo (e se calhar também o anarco-sindicalismo...) e o "estatismo"?
O argumento anarco-capitalista tradicional é de que o Estado não é o proprietário legitimo do seu território, enquanto os proprietários privados o são; mas isso acaba por se resumir a mais uma versão da velha discussão sobre quem é o governo legitimo sobre um dado território. Além que não é muito claro porque é que a propriedade dos proprietários particulares há de ser mais legitima que a do Estado.
A maior parte (todos?) dos Estados adquiriram o seu território pela conquista? Se seguirmos a cadeia de transferências de propriedade um pedaço de terra, provavelmente mais cedo ou mais tarde também vamos encontrar alguém que se apossou dela pela força.
A maior parte dos proprietários actuais não adquiriram os seus terrenos pela força (mesmo que os tenham adquirido via alguém que os adquiriu via alguém que os adquiriu pela força)? Mas se ignorarmos a ficção de que o Estado é uma pessoa colectiva com existência intemporal, e o vermos como um simples conjunto de indivíduos (seja na versão optimista - "o Estado somo nós" - seja na pessimista - "O Estado é um bando de salteadores"), então, na maioria dos casos, os indivíduos que constituem os Estados actuais também não os conquistaram pela força (essa conquista frequentemente ocorreu há séculos atrás). No fundo, podemos comparar o Estado a uma empresa que possui terrenos que, realmente, obteve à força, mas cujos actuais sócios/accionistas obtiveram pacificamente as suas quotas/acções e não têm nada a ver com as conquistas do passado.
Além de que, em certos casos, não sei se não poderemos legitimar alguns estados mesmo pelo critério anarco-capitalista. Por exemplo, alguns estados norte-americanos, como Massachusetts ou Rhode Island, têm a sua origem quando seitas religiosas se instalaram em territórios e fizeram lá comunidades regidas pelas seus princípios, numa mistura de democracia e teocracia - de acordo com os princípios anarco-capitalistas, a soberania dessas comunidades sobre os territórios onde se instalaram seria legitima (quer porque os terrenos eram frequentemente compradas às tribos índias vizinhas, quer porque os fundadores cultivavam essas terras, o que contaria como "homesteading"); e como os membros da seita haviam-se juntado voluntariamente a esse projecto, a autoridade da comunidade sobre as famílias individuais seria também legitima (no fundo, seria algo parecido com os tais condomínios que Hans-Hermann Hoppe defende). Esses "covenants" deram organicamente origem às colónias, que após a revolução americana se tornaram estados independentes. Depois esses estados entraram voluntariamente na entidade "Estados Unidos da América", e na Guerra da Secessão tomaram partido pelo lado que considerava a União indivisível (o que quer dizer que aceitaram essa indivisibilidade). Ou seja, a autoridade dos EUA sobre o Massachussets, Rhode Island, e provavelmente outras zonas da Nova Inglaterra com uma historia parecida, pode ser traçada a uma série de transferências voluntárias de soberanias pelos proprietários originais.
Uma resposta que os anarco-capitalistas podem dar é que, mesmo que um Estado seja criado pela adesão voluntária dos seus súbditos, contratos alienando definitivamente a soberania (como os contratos de escravatura voluntária) não são válidos, logo os indivíduos que se puseram voluntariamente sob a autoridade do Estado continuam a ter o direito de recusar essa autoridade. Mas, se isso pode fazer algum sentido se estivermos a falar de autoridade sobre indivíduos, já é mais díficil de justificar se estivermos a falar de autoridade sobre territórios: afinal, os anarco-capitalistas defendem que é perfeitamente válido que um individuo ceda, a titulo definitivo, a propriedade de uma quinta ou de um casa a outro individuo (sem ter direito a receber a quinta de volta se se arrepender); de certeza que também acham que um individuo pode ceder, a título definitivo, a propriedade da tal quinta ou da tal casa a uma associação ou instituição; mas, se ele pode ceder, definitivamente, a sua quinta a uma instituição, porque é que não poderá colocar, definitivamente, a sua quinta sobre a autoridade de uma instituição? Até porque a diferença entre uma coisa e outra é largamente semântica - qual é a grande diferença entre "Esta quinta agora é vossa," e "Esta quinta continua a ser minha, mas de agora em diante vocês têm poder para regulamentar o que eu faço nela e cobrar impostos sobre ela"? Além disso, alguns anarco-capitalistas são grandes fãs de mecanismos como "covenants", defendendo até o direito de estabelecer "covenants" para coisas como garantir a homogeneidade racial de bairros; imagino que a ideia seja esses "covenants" serem definitivos - afinal, se qualquer proprietário pudesse abandonar o "covenant" estipulando "ninguém vende casas a brancos", essa regra não teria valor nenhum (afinal, seria impossível de cumprir o seu objectivo, que é impedir os proprietários do bairro de venderem casas a brancos - quando alguém quisesse vender a casa a um branco, era só dizer que abandonava o "covenant"). Ora, se um "covenant" irrevogável é válido, a submissão voluntária mas irrevogável a um Estado também será válida (no fundo, não passa de um tipo peculiar de "covenant").
Outra abordagem poderá ser, não que a propriedade/soberania do proprietário é legítima e a "propriedade"/soberania do Estado é ilegítima, mas sim que, como as propriedades por norma são mais (ou muito mais) pequenas que os Estados, é mais fácil aos descontentes mudarem-se para uma propriedade/"Estado" com cujas "leis" e normas concordem. Mas aí, mais que um argumento a favor do anarco-capitalismo, seria sobretudo um argumento a favor de pequenas "unidades soberanas", sejam elas condomínios anarco-capitalistas governados pelos proprietários, bairros governados pelo gang local, aldeias comunitários governadas pelo plenário de habitantes e dividindo a terra em partes iguais de 7 em 7 anos, domínios feudais hereditários governados pelo tetraneto do chefe do gang mais poderoso da época, campi universitários independentes governados pelos respectivos senados, zonas industriais governadas por um conselho de delegados (revogáveis a qualquer instante) de assembleias de fábrica, etc. (algo parecido com isto?)
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Re: Impossibity of Anarcho-Capitalism
Nos comentários deste post d'O Insurgente, Samuel de Paiva Pires refere o artigo Impossibility of anarcho-capitalism [pdf], de Tony Hollick, aparentemente publicado por uma das Libertarian Alliance.
Algumas passagens achei que fazem todo o sentido e outras não, pelo que vou fazer uma crítica/análise detalhada do texto.
To avoid for the moment the obvious problems of demarcating and maintaining boundaries between a stateless society and potentially invasive statist neighbours, I propose to imagine a stateless, populated island in an otherwise unpopulated world. A further simplifying assumption is that the island is populated by anarchists. This assumption conceals the rainbow complexity of anarchist differences. Each anarchist may (and in my experience does) have quite different ideas of which actions are permissible and punishable and why this should be so. (To say that someone is entitled to do whatever they like within the boundaries of their own property is to evade the very issues in question: why should the boundaries be recognised, and why should the entitlement to act implicitly exclude another's acts which would circumscribe or impinge upon the first proposed entitlement? Our island anarchists somehow agree upon the notion that each is the sovereign of a micro-kingdom within which he enjoys unlimited powers. The problem then comes to resemble the present situation of relations between nation-states, with propertyless persons in the place of kings without kingdoms. We now have a great number of micro-states, and our "anarchists" are obviously statists of the usual kind, albeit writ small. They assert their powers of subjugation or expulsion over anyone they find within their territory. We can foresee at least two problems with this state of affairs. Firstly, that anarcho-capitalists are in practice bound to seek out and adopt initial conventions of property delineation upon which all agree, so that our island must be populated by only those anarcho-capitalists who accede to a single theory of acquisition of real estate, and jurisdiction therein (but then, there would of course be. no political problems anyway, if everyone agreed on identical solutions).Realmente, suponho que mesmo numa sociedade povoada unicamente por anarco-capitalistas, todos eles concordando em absoluto com o principio abstracto da propriedade privada, haveria discordâncias sobre quem é o legitimo proprietário concreto de cada coisa (nomeadamente de cada bocado de terra, que é o que é relevante para a definição das "fronteiras" entre os vários territórios soberanos). Possíveis razões para isso:
- Diferentes opiniões sobre o principio da aquisição original: mesmo que todos concordem que alguém pode assumir a posse de recursos sem dono "misturando o seu trabalho" com esses recursos, pode haver diferentes opiniões sobre o que conta como "misturar trabalho" (exemplo - penso que nalguns sectores "libertarians" há polémica sobre se os direitos de propriedade das tribos índias da América do Norte - que na sua maioria apenas caçavam e não cultivavam a terra - seriam legítimos)
- Diferentes opiniões sobre o que constitui "abandono" (e, portanto, quando é que um não-proprietário se pode instalar num terreno "abandonado" e proclamar-se "dono"): 20 anos sem cuidar de um bem? 10? 30? Nunca?
- Diferentes opiniões sobre em que circunstancias uma aquisição original ilegítima de propriedade "prescreve" e o direito de propriedade em questão passa a ser legítimo (este texto de Rothbard anda um pouco à volta da questão da "prescrição" de roubos passados de terra)
- Diferentes opiniões sobre qual o valor da reparação a pagar por determinados crimes (mesmo que todos concordem que o acto em questão é um crime); imagine-se que o Joaquim rouba 1000
- Diferentes opiniões sobre se certos direitos de propriedade são legítimos, mesmo em abstracto (exemplo: propriedade intelectual)
- Diferentes opiniões sobre como interpretar cláusulas duvidosas em contratos (há tempos houve uma discussão dessas no campo "minarquista", sobre quem era o legitimo proprietário de 25% do Cato Institute)
- Diferentes versões sobre factos ocorridos (exemplo clássico - as conversas que a minha avó tinha comigo em pequeno, sobre vizinhos que alegadamente teriam mudado a posição de um marco)
Nalguns destes casos, se as partes em disputa aceitarem voluntariamente se submeter a um arbitro (ou, no exemplo da interpretação do contrato, o próprio contrato tiver uma clausula dizendo "dúvidas acerca deste contrato serão resolvidas no Tribunal Arbital X"), provavelmente irá ser considerado que a decisão do arbitro é "legitima", seja ela qual for (já que resultou de um processo livremente aceite pelas partes); mas em casos em que, por qualquer razão, não seja possível uma solução dessas?
Ou seja, de certeza que, mesmo numa sociedade anarco-capitalista haverá discussões sobre quem é o legitimo proprietário do quê, dando razão a Hollick quando diz que "To say that someone is entitled to do whatever they like within the boundaries of their own property is to evade the very issues in question"
Mas será que isso é um grande problema? Vamos seguir a linha de raciocinio de Hollick, segundo a qual, na ilha anarco-capitalista, cada proprietário é um micro-estado. Ora, no mundo real há dezenas de disputas territoriais entre Estados, e a maioria delas não cria nenhum problema significativo; aqui ao lado, Espanha tem disputas com Portugal (Olivença e penso que algum mar territorial para os lados das Selvagens), Reino Unido (Gibraltar) e Marrocos (Ceuta, Melila e uns rochedos) e raramente se ouve falar disso (os maiores problemas territoriais de Espanha parecem-me ser, não com outros estados, mas com não-estados lá dentro).
Ora, se o sistema mundial de estados pode funcionar sem haver um consenso global sobre quem é o legitimo governo de cada pedaço do planeta (sim, ocasionalmente estados entram em guerra por disputas territoriais, mas a guerra entre estados é relativamente rara), porque é que numa ilha anarco-capitalista teria que haver consenso sobre quem é o legitimo proprietário de cada pedaço da ilha? No fundo, podemos aplicar aqui uma regra geral - para um sistema social funcionar, não é preciso que estejam todos contentes; bastam que os descontes, equacionando os custos de tentar mudar o status quo, o que teriam a ganhar em caso de sucesso e o que teriam a perder em caso de insucesso, concluam que mais vale deixar as coisas como estão.
Mas talvez nem anti-anarquistas nem anarco-capitalistas gostem muito desta minha conclusão: os primeiros porque vai contra a ideia que o anarquismo (seja qual for o prefixo ou o sufixo) é impraticável; os segundos porque talvez "desromantize" o anarco-capitalismo: afinal, um dos argumentos legitimadores para o anarco-capitalismo costuma ser o de que está de acordo com a "lei natural" porque não se baseia na violação da propriedade privada; ora, a partir do momento em que se assume que, num sistema anarco-capitalista podem perfeitamente ocorrer violações da propriedade privadas (ou pelo menos situações em que alguém acha que a propriedade privada está a ser violada, mesmo que outros achem que não está), o "valor acrescentado" do anarco-capitalismo face aos outros sistemas sociais diminui um bocado.
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Miguel Madeira
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Etiquetas: anarquia internacional
Monday, May 06, 2013
Como argumentar pela democracia operária
Framing worker democracy, por Chris Dillow:
Nicola Smith says that predistributionist policies should include greater workplace democracy. I agree. What worries me though is the framing of this issue. I fear there's a danger that the call for workplace democracy will be seen as a demand made by a sectional interest. It shouldn't be.
Instead, it should be a response to the fact that capitalist control of firms has failed. I mean this in three senses:
- The collapse of banks shows that shareholders do not monitor managers well. They lack the incentive to do so, because their share ownership of any firm is typically only a small fraction of their wealth. And they lack the knowledge to do so too, because outsiders normally know less about what's happening in a firm than do insiders such as key workers.
- Capitalists have largely ceased to be providers of capital.For most of the last ten years, non-financial firms, in aggregate, have retained more in profits than they have spent on capital equipment. And except for the recapitalization of banks, net share issuance has been small or negative in recent years.
- Capitalist control of firms might not have solved a problem thought to bedevil coops, that workers have short-term time horizons. Capital can be as short-termist (pdf) as labour - or maybe more so (pdf).
These failings suggest that the case for greater worker control should be framed not as a sectional demand, nor as a case for greater equality, but as one of efficiency. Quite simply capitalist ownership of firms is (often? sometimes?) inefficient; I hesitate to call it capitalist control, because firms' nominal owners exercise pitifully little control.
The case for worker ownership and control is a Blairite one: what matters is what works, and worker democracy works.
I suspect the persistence of capitalist firms is in some cases an example of path dependence. It exists now largely because it existed in the past. Granted, there was a time when capitalist ownership and control made sense: when they did provide capital; when workers were easily monitored; and when capital-owners knew more about the business than workers. But the days of 19th century mill-owners are gone. So why should the ownership structure that made sense then persist?
To put this another way, if we had worker control and ownership today, under what circumstances would the demand for a shift to capitalist control and ownership make sense?
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Miguel Madeira
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Sunday, May 05, 2013
Direita e Esquerda (post N+1 sobre o assunto)
A série de posts n'O Insurgente sobre a definição de direita levou-me a escrever também algo sobre o assunto.
Diga-se que eu não tenho muita certeza de que o que vou escrever neste post faça grande sentido (é mais um exercício especulativo do que outra coisa qualquer) e é provável que contradiga muito do que já escrevi (e possivelmente do que irei escrever) sobre este tema.
Assim, o que distingue a esquerda da direita?
A esquerda talvez se possa definir pela defesa de formas de "acção colectiva para eliminar ou pelo menos reduzir as desigualdades de riqueza e/ou poder".
Alguns leitores irão pensar "«acção colectiva», isso é um eufemismo para «Estado», não é?"; não necessariamente - a intervenção do Estado, realmente, pode ser considerada uma espécie de "ação colectiva", mas há outras coisas que também contam como "acção colectiva" - ocupações, desobediência civil, sindicatos, greves, manifestações, boicotes, cooperativas, "comunidades alternativas experimentais", etc. Aliás, suspeito que a sensibilidade de muita gente de esquerda até se entusiasma muito mais com a ideia de estar numa manifestação de rua e eventualmente a levar porrada da polícia do que com a de estar um dia no governo.
Em certos casos, essas formas de acção colectiva até podem ter por objectivo reduzir a intervenção do Estado (se essa intervenção for promotora de desigualdades) - p.ex., uma campanha de protestos contra uma regime que tenha leis consagrando a discriminação racial; se o objectivo for apenas a revogação dessas leis, o objectivo até será reduzir (nesse assunto especifico) a intervenção do Estado, mas é há mesma uma forma de "acção colectiva".
Diga-se que mesmo na esquerda que se diz "individualista" esse "colectivismo" existe - p.ex., os chamados anarquistas individualistas até podem defender uma sociedade em que cada um seja um trabalhador independente proprietário dos seus "meios de produção", mas o caminho que normalmente propõem para lá chegar é a criação de cooperativas de crédito e afins; também a "contra-cultura" dos anos 60, se defendia muito aquilo do ""não seja mais uma roda na máquina", "se tu mesmo e não ligues às convenções sociais", etc., também tendia a defender que a luta colectiva (ou a criação voluntária de comunidades alternativas à sociedade "normal") era o caminho para chegar a essa sociedade de libertação individual.
Em suma, quer os meios sejam estatistas ou não, violentos ou pacíficos, potencialmente coercivos ou não, querendo mudar por dentro a sociedade existente ou apenas querendo criar outra ao seu lado (estas dicotomias que refiro aqui não são idênticas umas às outras, mas também não são totalmente independentes umas das outras), a mitologia da esquerda tende sempre a girar à volta de juntar muita gente para lutar em conjunto por uma causa comum. No fundo, a divisa da esquerda poderia ser "Egalité, Fraternité" - a luta colectiva para criar uma sociedade igualitária (claro que é uma "fraternité" que exclui os "privilegiados" e os "seus lacaios", mas pronto...).
E a direita? Bem, a direita talvez se possa definir por... não ser de esquerda. Ou seja, "direita" é um conceito largamente definido por exclusão - se alguém, seja porque razão for, não se identificar com essa ideia de luta colectiva para criar uma sociedade igualitária, é de "direita". Uma analogia que me ocorre é que a dicotima esquerda/direita é um bocado como a dicotimia vertebrado/invertebrado - tal como a esquerda, os animais vertebrados definem-se por uma característica especifica: terem um esqueleto interno; já os invertebrados definem-se pela negativa: não terem um esqueleto interno (podendo uns ter conchas, outros um esqueleto externo, outros nem sistema nervoso terem).
Há muitas possíveis razões para alguém recusar a ideia de "acção colectiva para eliminar ou pelo menos reduzir as desigualdades de riqueza e/ou poder"; alguns exemplos:
- alguém até pode não ter especificamente nada contra (ou a favor) de mais igualdade, mas ser contra "colectivismos", sobretudo se estatais ou coercivos
- alguém até pode não ser particularmente individualista e até simpatizar com posições "comunitárias" mas achar que a dinâmica das sociedades humanas é demasiado complexa e imprevisível, pelo que qualquer tentativa voluntarista de fazer a sociedade ser mais isto ou menos aquilo (neste caso, mais igualitária) irá provocar resultados que não têm nada a ver com os pretendidos
- alguém até pode não ter nada contra colectivismos ou mesmo contra querer criar uma "nova ordem", mas ser intrinsecamente a favor das elites, dos "grandes homens", quiçá de raças superiores, e contra o igualitarismo
Se alguém achar alguma semelhança entre estes exemplos de formas possíveis de ser "de direita" e o liberalismo, o conservadorismo e o fascismo, respectivamente, confesso que não foi coincidência; e claro, pode haver muitas combinações possíveis a partir daqui (p.ex., pode-se ser simultaneamente anti-colectivista e anti-projectos voluntaristas, e aí temos razões reforçadas para alguém não ser de esquerda).
Aliás, suspeito que está aqui parte da razão porque nós, na extrema-esquerda, somo considerados mais socialmente respeitáveis do que a extrema-direita: há uma continuidade filosófica entre a extrema-esquerda e o centro-esquerda (entre anarco-sindicalistas, trotskyistas, estalinistas e social-democratas há uma longa árvore genealógica comum, afinal) que não há entre o centro-direita e a extrema-direita (já que estes só são todos "de direita" unicamente porque nenhum é de esquerda, não propriamente por grandes tradições ideológicas partilhadas), o que faz com que a extrema-esquerda esteja mais perto do mainstream ideológico que a extrema-direita.
Algo que provavelmente está também ligado ao facto de "a direita" ser definida por exclusão é a tendência que me parece existir para os movimentos políticos serem classificados no eixo esquerda-direita com base no assunto em que estiverem mais à direita: p.ex., um liberal económico e progressista nos "costumes" é "de direita"; e um conservador nos costumes defensor da economia mista é também "de direita"; e um defensor da democracia popular de base, da autogestão e de comunidades etnicamente puras (isto anda perto) seria provavelmente considerado de "extrema-direita".
Outros posts sobre o assunto - Esquerda e Direita - tentativa de definição, Re: Pequeno esclarecimento e, last but not least, Gatos e Cães, Esquerda e Direita (e também Esquerda, direita e liberalismo, que havia ficado esquecido na versão original do post).
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Miguel Madeira
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Friday, May 03, 2013
O aumento do horário da função pública
O governo anunciou que o horário de trabalho da administração pública vai passar de 35 para 40 horas.
Agora expliquem-me como se resolve a seguinte situação: imagine-se que o Cláudio e a Fernanda trabalham os dois na mesma instituição pública, na carreira de "Assistente Técnico" (i.e., empregado de escritório). O Cláudio tem um horário de 35 horas por semana e recebe 683,13 euros por mês; a Fernanda faz 40 horas e, por isso, recebe 780,72 euros.
Com estas mudanças, o Cláudio vai passar a fazer também 40 horas. Agora, como é que é: o Cláudio vai ganhar 683,13 e a Fernanda 780,72, trabalhando ambos 40 horas? Não faz grande sentido. Vão subir o ordenado do Cláudio para 780,72? Iria completamente contra a o espírito da medida, já que iria aumentar em vez de diminuir despesa. Vão baixar o ordenado da Fernanda para 683,13? Mas isso (baixar, e a título definitivo, o ordenando estabelecido no contrato do trabalhador) vai provavelmente exigir legislação própria (e se calhar também de constitucionalidade duvidosa).
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Miguel Madeira
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