Monday, November 05, 2007

Análise às notas dos exames do Secundário (IX)

Comparando as regressões estimadas nos últimos posts, parece-me que os resutados mais relevantes (em função do valor do R2) são mesmo os que usam a "Idade" como variável explicativa (em lugar de "Para Aprovação" e "Interno") - ou seja, a complicação que eu decidi introduzir não levou a nenhuma alteração dos resultados!

Como eu desconfio da validade da variável "fase", parece-me que o melhor cálculo é este:

R20,31

F64,69





variável:
desviot
Nº de exames0,020,013,56
poder compra0,160,0210,47
Idade-9,830,99-9,94
PubPriv
5,831,783,28
C248,9517,3714,33

No entanto, se não concordarem com as minhas reservas à "Fase", o melhor resultado será este.

[Nota: a correlação entre "Idade" e "poder de compra" é de 0,311; isso talvez possa indicar um problema de "multicolineriedade" - é um valor maior que, digamos, o R2. No entanto, o,31 já me parece uma correlação suficientemente baixa e, de qualquer forma, outros sintomas típicos da multicolineriedade, como um R2 elevado mas "estatisticas t" pouco significativas, não aparecem - pelo contrário, temos um R2 baixo mas estatisticas t significativas. Assim, vou aceitar esta regressão como válida]

Analisando melhor este cálculo, ele parece indicar que, das variáveis consideradas, a mais importante (em termos de estatística t) para os resultados finais é o poder de compra do concelho, depois a idade dos examinados (quanto mais novos, melhores resultados), o número de exames (quanto mais exames, melhores resultados) e, finalmente, a escola ser pública ou privada.

Seja como for, globalmente, esta fórmula explica pouco - estas variáveis apenas explicam 31% do resultado final; os outros 69% serão da responsabilidade de outras variáveis não contabilizadas, das características especificas de cada escola ou de cada aluno, etc.

De qualquer forma, há variáveis que não foram contabilizadas (já que eu não as tinha à mão) e poderiam ser úteis: habilitações dos pais dos alunos (ou, quanto muito, o nivel médio de habilitações dos pais dos alunos dessa escola, mesmo que não necessariamente dos alunos que foram a exame), percentagem de alunos que foram a exame, percentagem de alunos por escola beneficiários da Acção Social Escolar, etc; talvez fosse também boa ideia ter usado duas variáveis distintas para as escolas privadas: uma para as privadas em regime "liberal" e outra para as privadas com contrato de associação.

Finalmente, no que respeita à caracterização do concelho, usei também a "população" e uma espécie de "taxa de urbanização" mas apresentaram menor significância estatística do que o "poder de compra".

Análise às notas dos exames do Secundário (VIII)

Agora os cálculos foram feitos excluindo "Idade" e "Para Aprovação"; as variáveis "Sexo" e "Para Melhoria" foram posteriormente excluidas por terem valores pouco significativos.

Resultados:

R2 0,29

F 39,21





variável: desvio t
Fase -50,45 8,40 -6,01
Nº de exames 0,03 0,01 3,81
poder compra 0,12 0,02 8,15
Interno 21,84 4,10 5,33
PubPriv
8,84 1,74 5,08
ParaIngresso 26,35 13,10 2,01
C 102,76 17,41 5,90

Fazendo a conta excluindo a "Fase", continuam a não ser significativas as variáveis "Sexo" e "Para Melhoria":

R2 0,24

F 37,59







desvio t
Nº de exames 0,03 0,01 3,83
poder compra 0,13 0,02 8,39
Interno 25,98 4,16 6,24
PubPriv
9,25 1,79 5,16
ParaIngresso 23,26 13,47 1,73
C 33,75 13,46 2,51

Estas regressões têm um poder explicativo entre 0,29 e 0,24. O factor "escola privada" terá um efeito de cerca de 9 décimas de valor.

Sunday, November 04, 2007

Análise às notas dos exames do Secundário (VII)

Agora repeti todos os calculos, excluinda as variáveis "Idade" e "Interno"; a variável "Sexo" também foi posteriormente excluida por não se revelar significativa (tinha uma estatistica t de apenas -0,09).

Resultados:

R2 0,30

F 36,65





variável:
desvio t
Fase -46,49 8,48 -5,48
Nº de exames 0,02 0,01 3,35
poder compra 0,13 0,01 8,50
ParaAprov 32,72 5,23 6,26
PubPriv
8,57 1,71 5,01
ParaIngresso 28,53 13,01 2,19
ParaMelhoria 36,99 8,52 4,34
C 80,84 18,39 4,40

Fazendo a conta excluindo a variável "Fase", a variável "Sexo" continua a não ser estatisticamente relevante, e os resultados são estes:

R2 0,27

F 35,97





variável:

Nº de exames 0,02 0,01 3,34
poder compra 0,13 0,02 8,83
ParaAprov 39,86 5,19 7,69
PubPriv
8,93 1,75 5,10
ParaIngresso 27,34 13,32 2,05
ParaMelhoria 37,14 8,72 4,26
C 12,95 13,93 0,93

Conclusão:

As regressões estimadas usando a variável "ParaAprovação" têm menos qualidade do que as usando a "Idade" (um R2 de 0,30 e 0,27 contra 0,34 e 0,31). O factor "Escola Privada" é mais significativo - cerca de 9 décimas de valor.

Análise às notas dos exames do Secundário (VI)

Em função disto, fui repetir este cálculo excluindo a variável "fase". Ao excluir a "fase", a variável "Para Ingresso", por qualquer razão, perdeu também significância (a sua estatística t baixou de 1,81 para 1,52) pelo que foi também excluida do cálculo.

Os novos resultados:

R2 0,31

F 64,69





variável:
desvio t
Nº de exames 0,02 0,01 3,56
poder compra 0,16 0,02 10,47
Idade -9,83 0,99 -9,94
PubPriv
5,83 1,78 3,28
C 248,95 17,37 14,33

Comparada com a outra regressão, esta tem menos poder explicatório (0,31 em vez de 0,34); no entanto, os coeficientes calculados para cada variável mantêm-se parecidos com os anteriores (p.ex., o efeito de ser uma escola privada passou de 54 para 58 centésimos de valor).

Análise às notas dos exames do Secundário (V)

A outra ressalva é que há uma forte correlação positiva entre as variáveis "Para Aprovação" (percentagem de exames que eram para aprovação) e "Interno" (percentagem de exames como aluno interno) e uma forte correlação negativa entre estas e a variável "Idade". Ora, elevadas correlações entre as variáveis distorce os resultados. Há maneiras de contornar esta situação, mas para quem só tem como instrumento uma folha de Excel, acho que o melhor é mesmo calcular três regressões, uma usando só a variável "Idade" (que já está calculada), outra usando só a variável "ParaAprovação" e mais outra usando só a variável "Interno".


Correlações entre as variáveis:


PAprov Sexo PMelhoria Interno PubPriv
Fase PIngresso Idade poder compra Nº de exames
ParaAprov 1,000 0,339 -0,324 0,530 0,113 -0,258 -0,103 -0,630 -0,245 -0,110
Sexo
1,000 0,004 0,300 -0,052 0,018 -0,034 -0,270 -0,249 -0,082
ParaMelhoria

1,000 0,325 0,098 0,085 0,095 -0,107 -0,006 0,013
Interno


1,000 0,208 -0,165 -0,029 -0,639 -0,293 -0,199
PubPriv (a)



1,000 -0,092 0,107 -0,288 0,236 -0,238
Fase




1,000 0,029 0,170 -0,039 0,015
ParaIngresso





1,000 -0,017 0,101 0,093
Idade






1,000 0,311 0,142
poder compra







1,000 0,145
Nº de exames








1,000


Análise às notas dos exames do Secundário (IV)

Há duas ressalvas aos valores que estimei aqui.

A primeira é que me parece muito suspeito o comportamento da variável "fase" (a fase em que foram feitos os exames): quando analisei o seu efeito sobre as notas de cada exame, o resultado era apenas de uma décima de valor; mas, quando se trata do efeito sobre as notas médias da escola, o efeito passa a ser por volta de 5 valores. Ou seja, se tudo o resto for igual, um exame feito na segunda fase terá uma nota inferior em 0,1 valores a um exame feito na primeira (à partida, se os exames forem bem concebidos, faz sentido que a diferença seja mínima), mas numa escola em que metade dos exames fossem feitos na segunda fase, a média seria 2,5 valores inferior a uma em que todos os exames fossem feitos na primeira (ou seja, o efeito sobre a média de escola é 50 vezes maior do que sobre os exames individuais).

A única explicação que me ocorre para isso é que, nas escolas em que mais exames sejam feitos na segunda fase, as notas da primeira fase sejam mais baixas. Assim, fui calcular a correlação entre a proporção de exames feitos na segunda fase e a nota média dos exames da primeira fase: o resultado foi -0,38. Não é um valor muito alto, mas também não é muito baixo, e comprova a ideia de que, quantos mais exames feitos na segunda fase, mais baixa é a nota dos exames da primeira.

Ora, a mim parece-me muito difícil de acreditar que o facto de muitos exames serem feitos na segunda fase faça baixar as notas dos exames da primeira (sinceramente, não vejo qual possa ser o mecanismo causal); assim parece-me é que, quer as baixas notas na primeira fase, quer a ida de mais alunos à segunda, devem ser causadas por um terceiro factor. Desta forma, acho melhor refazer os cálculos sem incluir a "fase" como variável explicativa (já que suspeito que a "fase" é mais um efeito do que uma causa). No entanto, apresentarei os dois resultados, para os leitores decidirem por eles qual acham melhor.

Há também outro detalhe, que explicarei a seguir.

Saturday, November 03, 2007

Estado e Povo - parte II

Rui Albuquerque escreve o "Estado, ensinam-no os manuais mais rudimentares, é a organização política de um povo". Não sei que manuais o Rui leu, mas os meus dizem-me que "O Estado é a organização que reclama o monopólio da violência num determinado território" (e penso que é essa a definição padrão de Estado), ou seja, não tem nada a ver com "povo".

Friday, November 02, 2007

Análise às notas dos exames do Secundário (III)

[Este post foi ligeiramente alterado]

Agora vou introduzir duas novas variáveis - o número de exames por escola e o poder de compra concelhio (de acordo com as estatísticas territoriais do INE). Nenhuma destas variáveis me parece muito boa: o número absoluto de exames pouco interessa - o que era um dado a olhar com atenção seria o número de exames comparado com o número de alunos; e o poder de compra concelhio pode ser relevante em pequenos concelhos, mas em Lisboa não distingue entre uma escola em Chelas ou no Restelo.

Ainda andei no "Portal da Educação" a ver se encontrava dados sobre o número de alunos com Acção Social Escolar por escola ou coisa assim, mas não achei nada. Assim, vão ser mesmo aqueles dados.

Resultados:

R2 0,34

F 51,12





variável: desvio t
Nº de exames 0,02 0,01 3,43
poder compra 0,15 0,02 10,10
Idade -8,85 0,98 -9,05
ParaIngresso 22,80 12,56 1,81
Fase -45,25 8,07 -5,61
PubPriv (a) 5,42 1,74 3,12
C 271,49 22,20 12,23


Conclusões:

A introdução do número de exames e do poder de compra concelhio aumenta o poder explicativo da regressão de 20 para 34%.

Ao contrário do que se poderia pensar, a relação entre o número de exames realizados e a nota média por escola é positiva: cada 100 exames realizados a mais numa escola tendem a significar mais 2 décimas de valor na média.

A relação entre o poder de compra e a média também é positiva: cada 100 unidades de poder de compra representam 1 valor e meio a mais na média (para termos uma referência, Portimão tem 124,36 unidade de poder de compra e Monchique 56,22; assim, se Monchique tivesse secundário, essa diferença de poder de compra originaria uma diferença de 1 valor na média).

O efeito "escola privada" baixa para cerca de 6 décimas de valor.

[A alteração no post foi porque, inicialmente, tinha considerado para o concelho de Lisboa um poder de compra de 137,32; ora, isso é o poder de compra para a NUT de Lisboa - no concelho, o poder de compra é de 216,04, o que mudou os resultados das contas]

Análise às notas dos exames do Secundário (II)

Continuando com o meu estudo, vou agora estimar uma função, não para a nota de cada exame, mas para a média de cada escola (ou seja, em vez de tratar 65.491 observações, serão apenas 593). As variáveis "ParaAprovação", "Sexo", "Interno", "ParaMelhoria" e "ParaIngresso" deixam de ser dummies e passam a representar a proporção de exames em cada escola nessas situações.

Ao longo dos cálculos, as variáveis "Sexo", "ParaAprovação", "Interno" e "ParaMelhoria" revelaram estatísticas t muito baixas e, por isso, exclui-as.

Resultados:

R2 0,20

F 35,79





variável:
desvio t
Idade -4,41 0,98 -4,49
ParaIngresso 38,88 13,75 2,83
Fase -53,53 8,87 -6,03
PubPriv 10,16 1,73 5,87
C 204,58 23,63 8,66

Conclusões:

Esta análise por escolas é ligeiramente mais explicativa que a anterior análise por exames - explica 20% do resultado em vez de 18%. O efeito de a escola ser privada é maior: enquanto um exame feito numa escola privada tinha, em média (e, claro, controlando para as outras variáveis), mais 7 décimas de valor do que numa pública, agora a média dos exames numa escola privada tende a ser 1 valor mais elevado do que numa escola pública.

Povo e Estado

Rui Albuquerque escreve "Não deixa, contudo, de ser interessante constatar que as reacções mais violentas aos «post» «anti-semitas» do Pedro Arroja venham precisamente de quem frequentemente invectiva, sobretudo à esquerda, o «Estado de Israel» e o «Sionismo», equiparando-os aos nazis no comportamento que têm para com os palestinianos. Como se eles fossem coisas distintas desse mesmo agregado sociológico – o Povo Judeu – que Arroja tanto censura e como se essa mesma generalização não partisse do mesmo preconceito."

É surpreendente que um liberal identifique "Povo" e "Estado" como equivalentes. Mas, mesmo que identifiquemos um Estado com os seus súbditos, a maioria do "povo judeu" não vive em Israel, logo não vejo o que é que Israel tem a ver com "os judeus" (se definirmos "judeu" no sentido religioso, até há quem argumente que um judeu, por definição, tem que ser contra Israel).

E, já agora, também é curioso como os defensores de Israel não se entendem: uns dizem que é um estado laico e multiétnico, e outros equivalem Israel com o "povo judeu".

Análise às notas dos exames do Secundário (I)

Decidi fazer uma análise econométrica às notas dos exames do secundário (como agora anoitece mais cedo, é um passatempo melhor do que ir fotografar vermes aquáticos).

Pegando na base de dados com os resultados dos exames ao 12º ano, foi buscar as notas dos exames de Matemática A (analisar só uma disciplina ultrapassa o problema referido pelo Luís Aguiar-Conraria e pelo Tarique, de diferentes disciplinas terem normalmente notas diferentes).

Retirei os exames feitos em escolas no estrangeiro, não só por espelharem uma realidade muito diferente da portuguesa, mas por uma razão mais prosaica: com eles teria 65.767 resultados, e uma folha de Excel só tem 65.536 linhas (limitando-me ao território nacional, temos 65.492 resultados, que já cabem na folha).

Numa primeira abordagem, vamos analisar o impacto das seguintes variáveis:

- Público/Privado
- Se o aluno é interno ou externo
- De que fase é o exame (1ª ou 2ª)
- Se o exame é para aprovação na cadeira
- Se o exame é para melhoria de nota
- Se o exame é para ingresso na universidade
- Sexo do aluno
- Idade

Outras variáveis, nº de exames por estabelecimento, caracterização social do concelho, etc., ficarão para próximos posts (quanto à origem social dos alunos, não poderá ser contabilizada, já que, como bem notou Francisco Louçã, essa informação não é disponibilizada).

Houve um exame (externo) na Escola Secundária Fontes Pereira de Melo, para ingresso no ensino superior, que não foi contabilizado, já que a idade do examinado (que teve zero valores) não consta dos dados.

Resultados:

R2 0,18

F 1844,73





variável

desvio t
Idade -1,99 0,09 -22,90
Sexo -2,23 0,34 -6,62
ParaIngresso 18,73 1,05 17,82
ParaMelhoria 6,17 0,74 8,31
ParaAprov -18,28 0,63 -29,23
Fase -1,30 0,37 -3,49
Interno 35,99 0,42 86,60
PubPriv
7,25 0,53 13,70
C 102,24 2,25 45,49

Conclusões:

A fórmula, no seu conjunto, tem pouco valor explicativo (um R2 de apenas 0,18); num entanto, cada uma das variáveis parece ser significante, a avaliar pelas estatísticas t (muito elevadas para todas elas).

Assim, conclui-se que:

- Os examinados tendem a ter menos 2 décimas no exame por cada ano de idade adicional
- As raparigas tendem a ter também menos 2 décimas que os rapazes (Matemática parece ser um caso bizarro nesse aspecto)
- Nos exames para ingresso, as notas tendem a ser mais elevadas 1 valor e 9 décimas do que nos outros (resultado previsível - são os melhores alunos que concorrem ao ensino superior)
- Nos exames para melhoria de nota, os resultados tendem a ser 6 décimas de valor mais altos (penso que também é um resultado previsível)
- Nos exames para aprovação, os resultados tendem a ser 1 valor e 8 décimas mais baixos (mais um resultado que não surpreende)
- Na segunda fase, os resultados tendem a ser 1 décima de valor mais baixos
- Nos exames internos, os resultados são 3 valores e 6 décimas mais altos (como seria de esperar)
- As escolas privadas tendem a ter mais 7 décimas de valor que as públicas (curiosamente, um valor muito próximo da diferença verificada nos "rankings" globais)

Tuesday, October 30, 2007

Ainda os rankings(III)

A respeito dos bons resultados de um dado colégio privado nos tais rankings, ouvi dizer que uma professora de outro colégio terá dito que esse tal colégio tinha esses bons resultados porque só mandava os alunos a exame quando achava que eles tinham condições para ter "altas notas".

Bem, se isso for verdade, e se for prática geral no conjunto nas escolas privadas (ou, pelo menos, nas escolas privadas "de elite"), pode ser lido de duas maneiras: uns podem argumentar "afinal essas escolas não são tão boas a ensinar assim - a única razão porque têm essas notas nos exames é apenas porque só os «melhores» é que vão a exame"; outros podem argumentar "assim é que deve ser:altos padrões de exigência! Não é mandarem toda a gente a exame sem saberem nada!".

Mas, será que isso acontece mesmo assim? Pelos dados fornecidos pelo Jornal de Noticias (xls), houve 129.970 exames no ensino público e 17.860 no privado. Não sei onde encontrar o número de alunos que frequentaram o 12º ano no público e no privado em 2006/2007, mas aqui podemos encontrar o número de alunos que frequentavam o secundário o público e privado em 2005/2006: 280.398 no público e 64.060 no privado. Se esses números se repetissem em 2007, poderíamos concluir que no público houve um exame por cada 2,16 alunos e no privado um exame por cada 3,39 alunos - ou seja, no privado parecem ir, proporcionalmente, menos alunos a exame, o que confirmará a hipótese em análise (agora, se isso é bom ou mau, é, como já disse, uma questão a discutir).

Monday, October 29, 2007

Ainda os rankings(II)

A metodologia de trabalho do Externato As Descobertas, que ficou em primeiro no ranking do Diário de Noticias para as escolas do 9º ano:

Se entrar numa sala de Infantil ou de Primária, verá alunos trabalhando simultaneamente em áreas diferentes: um pequeno grupo trabalha em Matemática, outro em Actividades Plásticas, outro constrói "Legos" e outro ainda trabalha em Português. Verá ainda o professor circulando e apoiando estes vários grupos. A este método, de origem anglo-saxónica, chama-se Open Classroom.

Fácil é de ver, que com este método, é o aluno que faz o seu próprio horário e que os alunos aprendem a dosear ao longo do dia os seus tempos e trabalhos. Também assim o professor pode dar respostas individualizadas, ou seja, dar a cada aluno o que ele necessita. Esta é, quanto a nós, a verdadeira igualdade.

Eu gostaria de apresentar isso como prova das vantagens das "pedagogias não-directivas", mas não posso: o externato apresenta-se a si mesmo como "criado em 1973 para dar resposta a crianças que, bem dotadas, tinham insucesso escolar". Ou seja, o público alvo desse colégio parecem ser "crianças bem dotadas", o que pode ser a explicação para os seus bons resultados nos exames do 9º ano (tal como também não são surpreendentes os bons resultados obtidos no 12º ano por escolas ligadas a uma congregação religiosa que recruta sobretudo entre quadros superiores e afins).

Saturday, October 27, 2007

Ainda os rankings

O Diário de Noticias publicou ontem um ranking das escolas pelos exames do 9º ano (a única coisa que está on-line dessa matéria é um artigo sobre a escola que teve piores resultados).

No entanto, o lugar cimeiro desse ranking é ocupado por um colégio, privado, mas que, a avaliar pelo artigo sobre ele, parece funcionar de acordo com as tão criticadas "pedagogias centradas no aluno", ou, de acordo com uma certa tradição semântica, o "eduquês" (eu não me lembro do nome da escola, mas quem tiver em casa o DN de ontem pode ler o artigos e ver se eu não tenho razão).

Thursday, October 25, 2007

Wednesday, October 24, 2007

Escolas públicas e privadas

A respeito dos rankings das escolas, comenta-se que "o ensino privado funciona muito melhor que o público". Será?

Pegando no ranking da SIC (pdf), fui calcular a média ponderada das notas de exame das escolas públicas e privadas, isto é, para cada sector, peguei na nota média de cada escola, multipliquei pelo número de alunos que foram a exame nessa escola, somei os valores de todas as escolas e dividi pelo número total de alunos do conjunto das escolas. Resultados:

Nota média no ensino privado: 10,84
Nota média no ensino público: 10,01 (a título de curiosidade, a minha "alma mater" teve 9,73)

Ou seja, uma diferença inferior a um valor (é verdade que, ao não incluir todas as escolas, os dados da SIC podem ter distorcido o resultado, para um lado ou outro). Efectivamente o ensino privado tem melhores resultados que o público, mas serão significativos?

[Quem quiser ver as minhas contas, em MS Excel, pode ir aqui]

Tuesday, October 23, 2007

Alguêm me sabe dizer que bicho é este? (alterado)


Estes vermes verdes no meio dos mexilhões.

[Alterei o post porque arranjei uma fotografia melhor dos animais]

23 de Outubro de 1957

Há 50 anos atrás, Albert Camus fazia o seu discurso "Le sang des Hongrois", a propósito da revolução húngara do ano anterior:

Eu não sou daqueles que desejam ver o povo da Hungria pegar de novo em armas num levantamento que seria de certeza esmagado, debaixo dos olhos das nações do mundo, que não poupariam nem aplausos nem lágrimas piedosas, mas que regressariam às suas pantufas como espectadores de futebol numa tarde de Domingo após o final da Taça.

Já há demasiados mortos no campo, e não podemos ser generosos com sangue que não o nosso. O sangue da Hungria revelou-se demasiado precioso para a Europa e para a liberdade para que não sejamos avaros dele até à ultima gota.

Mas eu não sou daqueles que pensam que pode haver compromisso, mesmo que resignado, mesmo que provisório, com um regime de terror que tem tanto direito a dizer-se socialista como os carrascos da Inquisição tinham de dizer-se cristãos.

E neste aniversário da liberdade, eu espero com todo o meu coração que a resistência silenciosa do povo da Hungria irá prevalecer, irá tornar-se mais forte e, reforçada por todas as vozes que podemos erguer em seu apoio, obtendo da opinião internacional unânime o boicote aos seus opressores.

E se a opinião mundial for demasiada fraca ou egoísta para fazer justiça a um povo martirizado, e se as nossas vozes forem também demasiado fracas, eu espero que a resistência húngara se mantenha até que o Estado contra-revolucionário desabe por todo o Leste sob o peso das suas mentiras e contradições.

A Hungria conquistada e acorrentada fez mais pela liberdade e justiça que qualquer outro povo nestes 20 anos. Mas para que esta lição perdurar e persuadir aqueles no Ocidente que fecham os olhos e ouvidos foi necessário, e não podemos estar confortáveis com isso, para o povo da Hungria derramar muito sangue que já está secando nas nossas memórias.

Na solidão que se sente na Europa de hoje, temos apenas uma maneira se sermos verdadeiros para com a Hungria, que é nunca trair, entre nós e em todo o lado, o que os heróis húngaros fizeram e nunca perdoar, entre nós e em todo o lado, mesmo que indirectamente, aqueles que os mataram.

Será difícil para nós sermos merecedores de tais sacrifícios, mas podemos tentá-lo, numa Europa em fim unida, esquecendo as nossas querelas, corrigindo os nossos erros, aumentando a nossa criatividade e a nossa solidariedade. Temos fé que está em marcha no mundo, paralela às forças de opressão e morte que escurecem a nossa história, um força de convicção e vida, um imenso movimento de emancipação que é a cultura e que se faz ao mesmo tempo pela criação livre e pelo trabalho livre.

Aqueles operários e intelectuais húngaros, perante os quais nós estamos hoje com um lamento impotente, compreenderem isso e fizeram-nos a nós compreender isso. É por isso que, se o seu sofrimento é nosso, a sua esperança também é nossa. Apesar da sua miséria, dos seus grilhões, do seu exílio, deixaram-nos uma herança gloriosa que devemos merecer: liberdade, que eles não ganharam, mas que num único dia nos deram a nós.

Poder-se-á perguntar qual o interesse de postar um texto escrito há 50 anos, num contexto geopolítico completamente diferente do actual - se calhar nenhum, mas enfim...

Monday, October 22, 2007

Eleições polacas (II)

Parece que o Partido Trabalhista subiu de 0,8 para 1% - a forma pessimista de ver a coisa é que subiu apenas 2 décimas de ponto percentual; a forma optimista é que subiu 25%.

Já a substituição dos conservadores pelos liberais na chefia do governo não sei se será tão boa noticia como parece - em termos de contágio além-fronteiras, o liberalismo económico costuma ser mais "perigoso" do que o conservadorismo social.

Saturday, October 20, 2007

Eleições polacas

O meu "endorsement" (que, com certeza, há de valer milhares de votos):



O Partido Trabalhista Polaco é o "braço politico" da central sindical "Agosto 80", criada em 1993 por uma cisão do "Solidariedade 80" (que, por sua vez, resultou de uma cisão do Solidariedade, após o fim da ditadura). Mais detalhes aqui. Nas últimas eleições teve 0,8% dos votos.

Friday, October 19, 2007

Coincidência? Ou algo digno da Twilight Zone?

No preciso momento em que acabei este post, recebem spam dizendo:

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Ainda a propósito de televisão

Agora, um momento intimista, chamemos-lhe assim - as séries de televisão que eu via na minha infância e adolescência (mais ou menos por ordem cronológica inversa, e com muitas lacunas - de memória e de vídeos).

Ou então, poderemos ver este post como um tratado sociológico sobre as influências televisivas da geração de 73.

Atenção, que o browser pode bloquear se virem muitos vídeos de seguida (e acho que só se vê com o flash instalado).



































































Este video acima parece que foi retirado, mas ainda podem vê-lo aqui

























Algumas observações:

- O símbolo dos Jogos Olímpicos de Moscovo ficou mesmo ao pé de um símbolo do capitalismo americano - podermos concluir daqui uma identidade essencial entre os capitalistas do Ocidente e os (extintos) burocratas de Leste? Ou será um simples acaso cronológico?

- Pelo menos 3 das séries apresentadas deram origem, anos mais tarde, a filmes (bem, num caso, a série era já uma sequela de uma série dos anos 60 - talvez tenha sido essa que deu origem aos filmes): os que vi, achei melhor a série que o filme (num caso, achei o filme uma perfeita porcaria)

- Uma das séries apresentadas, quem era mesmo fã era a Duquesa - a bisavó do Cinza e da Blackie e n-avó e (n+1)-avó da Marta e da Chiquita, respectivamente (entretanto, a Chiquita foi rebaptizada Tareca e a Marta foi passear há 2 meses e ainda não voltou); no entanto a Duquesa só prestava atenção às cenas de imagem real e ia caçar moscas quando passava para as cenas de desenhos animados

- Qual é a utilidade deste post? Provavelmente nenhuma (além de eu me ter divertido a fazé-lo).

Thursday, October 18, 2007

The leadership illusion


This highlights one of the paradoxes of our political culture: that as the real world has become increasingly sceptical in recent years about the power of leadership, political parties have become more obsessed with it.

Outside of politics, we've learnt since the around the mid-80s that decentralized decision-making often works best - this is the lesson of the collapse of the Soviet Union; that individuals lack the knowledge or cognitive power to control big organizations; that there's wisdom in crowds rather than in centralized organizations; that self-managed structures are more flexible than top-down ones; and that network governance deals better than hierarchy with complexity.

(...)

But when we look at political parties, we see the opposite development - an increasing obsession with leadership and centralism; just look how party conferences have declined from policy-making bodies to mere rallies.

Wednesday, October 17, 2007

Isto é apenas uma experiencia

Este texto é suposto ler-se na janela principal do blog.

Este aqui não.



Sunday, October 14, 2007

A TV pública (II)

Já que a questão está na berra, chamo a atenção para o que escrevi há 8 meses:

[C]omo, durante muito tempo, achei que deveria funcionar a televisão pública.

[A] televisão pública não deveria ser "do Estado", mas "do povo", e deveria ser usada para difundir programas feitos (ou escolhidos) pelos cidadãos. Com 2 canais, a emitir 24 horas durante 365 dias por ano, cada um dos 10 milhões de portugueses teria direito a 5 segundos de emissão anual. Parece minúsculo, mas, através da criação de associações de pessoas que quisessem ver emitido determinado programa, já daria para os cidadãos terem uma influência real na programação.

PS, PSD e TV privada

Milho transgénico (VI)

Vamos lá ver o que irá dizer este estudo (apresentação aqui).

[Via Sardera e InGENEa]

Saturday, October 13, 2007

Baldios

Fala-se que, "pela primeira vez em 100 anos", vai haver um plano de gestão dos baldios.

Eu não conheço bem a questão dos baldios, mas parece-me que, atendendo que os baldios têm comissões de gestão, eleitos pelas populações (os "compartes") que os utilizam, quere dizer que há muito tempo que são geridos - as comissões podem não chamar às decisões que tomam "plano de gestão", mas, no fundo, é isso que se trata, não?

E, mesmo que estejamos a falar de um "plano de gestão" centralizado, também já houve - até foi escrito um livro e feita uma série de televisão sobre isso.

Finalmente, na reportagem da RTP sobre o assunto, falava-se muito na "falta de controle" sobre as receitas dos baldios, de contabilidade deficiente, etc. (a mim, pareceu-me que, nas entrelinhas se estava a defender "gestão profissionalizada", estatal ou empresarial). Mas o certo é que não vi nenhum "comparte" a queixar-se de "má gestão" das comissões de baldios (nem sequer em contraluz e com voz distorcida); quem vi com essa conversa foram autarcas e técnicos do Ministério da Agricultura - pelo que concluo que as pessoas que seriam lesadas por uma eventual gestão deficiente e/ou pouco clara dos baldios não dão sinais de estarem descontentes, e são os políticos e burocratas que, na sua infinita benevolência, pretendem levar às massas os elevados padrões de gestão rigorosa que, com certeza, praticam nas suas autarquias e ministérios (ou será que a ideia é a gestão empresarial que, essa sim, nunca tem manobras nem jogadas esquisitas na contabilidade?).

Friday, October 12, 2007

Sistema eleitoral "alemão" e bipolarização

Há tempos, Ana Rita Ferreira sugeria um sistema eleitoral de tipo "alemão". Nos comentários, gerou-se um debate, com Daniel Oliveira dizendo que tal ia levar à bipolarização eleitoral, com os votos a serem concentrados nos grandes partidos, e Luís Lavoura a dizer que não.

Como disse nos comentários, a melhor maneira é ir ver os resultados eleitorais nos países que têm o sistema "alemão" (o "sistema proporcional misto") e conferir se há efectivamente essa tendência para os votos se concentrarem nos grandes partidos.

Assim, vamos ver os países/regiões que usam esse sistema - Alemanha, Nova Zelândia, Pais de Gales e Escócia (também é usado na Bolívia, Lesoto e Venezuela, mas acho que a situação politica desses países é pouco comparável com a nossa; Ontário também esteve para o usar, mas a ideia foi rejeitada anteontem), e comparar com Portugal (onde os 2 maiores partidos tiverem, em conjunto, 73,8% dos votos).

Na Alemanha, em 2005, a CDU/CSU e o SPD tiveram, na votação nacional, 69,4% dos votos; na Nova Zelandia, em 2005, Trabalhistas e Nacionais tiveram 80,2%; em Gales, em 2007, os Trabalhistas e o Playd Cymru (regionalista) tiveram 51%; e na Escócia, em 2007, o SNP e os Trabalhistas tiveram 60,2%.

É verdade que a baixa bipolarização em Gales e na Escócia pode ser explicada por aí, além da divisão esquerda-direita, haver a divisão regionalistas/partidos nacionais; no entanto, olhando só para a Alemanha (menos bipartidária que Portugal) e para a Nova Zelândia (mais bipartidária), não me parece que o "sistema proporcional misto", comparado com o português, só por si, leve a mais bipolarização - e convém lembrar que a Nova Zelândia teve um sistema maioritário durante quase século e meio, até 1996, o que, concerteza é uma das razões para a concentração de votos nos grandes partidos.

Mas, não haverá tendência, como o Daniel Oliveira sugeria, para as eleições uninominais levarem a uma concentração de votos nos candidatos locais dos grandes partidos e que, por arrastamento, haja também essa concentração no voto nacional?

Acho que não, mas antes vou explicar um mal-entendido frequente.

É usual dizer-se que, no "sistema alemão", metade dos deputados são eleitos por sistema maioritário em círculos uninominais, e que a outra metade é eleita num circulo nacional, proporcionalmente à votação - e, aliás, parece-me que Ana Rita Ferreira escreveu o seu post nessa premissa.

Não é assim (isso é no chamado "sistema russo" - que já foi abandonado pela Rússia - ou "sistema maioritário misto") - efectivamente, no "sistema alemão", metade dos deputados são eleitos por sistema maioritário uninominal, mas a outra metade não é eleita proporcionalmente - os deputados do circulo nacional são distribuidos de forma a que o total dos deputados seja proporcional.

P.ex, imaginemos que Portugal estava dividido em 115 circulos uninominais e um circulo nacional de 115 deputados, e que o PS, com 45% dos votos, tinha ganho em 75 círculos uninominais. Nesse cenário, o PS não iria eleger 52 deputados (= 45% * 115) no circulo nacional, mas sim 29 ( 45% * 230 - 75).

Ora, num sistema desses, quase não há incentivo ao "voto útil" - porque razão é que, nos círculos locais, os eleitores de esquerda iriam concentrar os seus votos no PS ou os de direita no PSD, se isso nada afecta o resultado final? Um deputado do PS (ou do PSD) eleito no circulo local apenas significa menos um deputado do PS (ou do PSD) eleito no circulo nacional!

Só vejo duas razões para o "voto útil", e nenhuma me parece causadora de bipolarização - por um lado, um eleitor até pode ter uma grande simpatia pelo candidato de um grande partido no seu circulo e votar nele para ser esse candidato (e não outro do mesmo partido) a ir para o parlamento, mas esse tipo de razão não me parece que vá contaminar o voto para a lista "nacional". Por outro lado, efectivamente, é possível que um deputado de dado partido eleito no circulo local não signifique menos um deputado no circulo nacional - no caso de ser de esperar que esse partido eleja tantos deputados nos círculos locais que não tenha direito a nenhuns no circulo nacional; no entanto, nesse caso é que não há mesmo razão para votar igual nos dois votos - se há fortes probabilidades do partido em que votei no circulo local não ter direito a deputados no circulo nacional, aí o "voto útil" é, exactamente, partir o voto e dar cada qual ao seu partido (já que dar ao voto nacional ao mesmo partido que o local era desperdiçar um voto, já que não iria eleger nenhum deputado adicional).

Teste de personalidade Dilbert

Enquanto, estava à procura daquela tira, encontrei este teste. O meu resultado:

NerdTests.com User Test: The Dilbert Personality Test.


Nota: acho que na questão 13 a minha resposta deve ter tido mais a ver com as minhas "fantasias" do que com o que eu faria na realidade, mas enfim (e, de qualquer forma, não deve ter afectado o resultado final).