Wednesday, April 05, 2006

Eu sei que já ninguém tem paciência para este assunto...

... mas este artigo publicado numa revista inglesa de extrema-direita sobre o conservador alemão Edgar Jung é bem elucidativo de como, neste caso o nazismo, sendo diferente do conservadorismo "puro e duro", tinha muitos pontos de contacto.

Por um lado, realmente, o destino de Jung prova que há uma oposição ideológica entre nazis e conservadores: sendo o principal ideólogo dos conservadores que integravam o governo de Hitler, passou os anos de 33 e 34 a tentar organizar um golpe contra este e a criticar o nazismo por ser demasiado "democrático" (isto é, por ser um movimento de massas, enquanto que, para Jung, "o objectivo da revolução nacional [deveria] ser a despolitização das massas e a sua exclusão da liderança do Estado"), acabando por ser morto na "Noite das facas longas".

No entanto, aparentemente, até haveria grandes semelhanças entre o seu projecto e o de Hitler:

"Jung called for a new state based on religion and a universalist world- view. Not the masses but a new nobility, or a self-conscious elite, should inform the new government, and Christianity must be the moral force behind the state. Society itself must be organized hierarchically and beyond the confines of nationalism even though it should be based on "an indestructible völkisch foundation from which the völkisch struggle can form". (...) But both the project of the Reich and the emphasis on völkisch foundations were carried out more dramatically, if rashly, by Hitler than any Conservative leaders could do"

Ainda segundo o artigo, "the Conservative project proposed by Jung differed from Hitler's extremist one only in degree and not in kind".

Ou seja, talvez o nazismo e o fascismo sejam a coisa que, no mundo moderno (com a indústria, a "sociedade de massas", etc.), é o mais parecido possível com o conservadorismo tradicional.

2 comments:

sergio said...

Muito, muito interessante e pertinente as origens do fascismo. Apesar de ser anti-estalinista e de considerar que os extremos tocam-se em alguns instrumentos repressivos, há muita coisa que separa Hitler e Estaline.

c. said...

O historicismo está vivo e de boa saúde...

Não é uma questão de paciência para o assunto, mas deveria ser mais cuidadoso na escolha das fontes. E ler mais umas coisas, que associar o Jung ao "conservadorismo tradicional" para depois inferir que "talvez o nazismo e o fascismo sejam a coisa que, no mundo moderno (com a indústria, a "sociedade de massas", etc.), é o mais parecido possível com o conservadorismo tradicional." ou é ignorância ou desonestidade intelectual (ou um emparceiramento de ambas).

Se conhecesse minimamente o pensamento de Jung saberia que tem pouco ou nada de conservador. Resumidamente, era fundado no de nietzsche - e não se pode dizer que Nietzsche seja um guru do conservadorismo. Aliás, o movimento não se intitulava conservador, mas conservador revolucionário, o que para qualquer conservador tradicional é uma contradição em termos. Era um movimento nihlista e marcadamente alemão - irreproduzível fora daquele contexto e daquelas condições históricas. As teses que defendia foram das mais atacadas pelo conservadorismo - são perfeitamente antagónicas às de Oakeshott, Kekes, ou quem quiser.

No entanto, a sua grelha faz algum sentido (embora tema que por mero acaso). Aconselho leitura de Lipset sobre o assunto. Também ele analisou os movimentos radicais nessa perspectiva (de forma mais cuidada, preparada e elaborada). Conclui que algum fascismo é um radicalismo do conservadorismo de direita (por exemplo, salazar em portugal), e o nazismo um radicalismo de centro. Os argumentos de autoridade são abomináveis, mas por favor, pare de fazer estes posts até o ler, sim?