Tuesday, December 04, 2007

Re: A atitude racional


A mim parece-me que a "atitude racional em relação à homossexualidade" seria:

- Por parte dos homens, aceitarem (ou até estimularem) a homossexualidade masculina e terem repulsa pela feminina

- Por parte das mulheres, serem indiferentes à homossexualidade (antes que me perguntem se não seria de esperar que as mulheres tivessem uma atitude simétrica à dos homens, relembro que o recurso escasso no processo de acasalmento e procriação são as femêas, não os machos)

A mim até me parece que os preconceitos sociais tradicionais até são um bocado inversos do que seria racional.

Será Chavez um ditador (II)?

Lendo e ouvindo inúmeneras discussões sobre isso (inclusive o que li num comentário de um blogue, em que alguém escreveu "A Venezuela é uma democracia, mas Chávez é um ditador"), chego à conclusão que há aqui uma grande ambiguidade no termo "ditador".

É que a palavra pode ser (e é) usada em dois sentidos - o sentido "objectivo" ("governante com poderes ditatoriais") e o sentido "subjectivo" ("pessoa autoritária e intolerante").

Exemplos: tanto Cavaco como Socrátes, nas conversas de café, já foram muitas vezes chamados de "ditadores", não por terem poderes ditatoriais, mas pelo seu estilo de governação (alegadamente "autoritário" - esclareço desde já que não estou a compará-los a Chavez). Pelo contrário, o rei Juan Carlos de Espanha, quando subiu ao trono, era objectivamente um "ditador" (seria provavelmente o rei de Espanha com mais poderes desde o principio do século XIX), mas não governou de maneira autoritária (muito pelo contrário - restaurou a democracia).

O que eu concluo deste processo - nomeadamente do referendo - é que Chavez é, "subjectivamente", um "ditador" (isto é, um individuo autoritário), mas, "objetivamente", não o é (ele, mesmo que queira, não pode dizer "posso, quero e mando" - viu-se no domingo passado).

O que é "populismo"

Há várias definições para o fenómeno, mas, na prática, quando se diz que alguém (i.e., um politico) é um "populista", isso costuma querer dizer uma de duas coisas:

a) "politico de direita europeu de que não gosto"

b) "politico de esquerda sul-americano de que não gosto".

Monday, December 03, 2007

Toda a gente? (II)

Lá abaixo, Filipe Abrantes comenta "o BE acusou os americanos de esconderem as facturas. Ou foi só para brilhar no parlamento?".

Imagino que Filipe Abrantes esteja a evocar o já clássico argumento "até o BE acreditiva nas armas de destruição maciça - se eles até diziam que eram os americanos que tinham a factura".

Vamos então ver o que foi dito a 4 de Fevereiro de 2003 (umas semanas antes do começo da guerra), na Assembleia da Republica (como lá chegar - ir aqui e procurar por "IX Legislatura", "1ª sessão legislativa" e diário nº 084; depois ir às páginas 3523 e 3524):

O Sr. Presidente: - Para uma declaração política, tem a palavra o Sr. Deputado João Teixeira Lopes.

O Sr. João Teixeira Lopes (BE): - Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Assistimos ontem a um dos episódios mais confrangedores da história das relações internacionais.
Conversas vagas entre guardas-republicanos, acusações sem qualquer base material, mistura de factos passados com factos presentes, fotografias inconclusivas e acusações desmentidas pelos próprios serviços secretos americanos e britânicos ainda antes mesmo de serem feitas. Para acusar um país de intenções belicistas em larga escala, convenhamos que é muito pouco. Para quem procurava um arsenal de armas de destruição massiva, deve ser frustrante não encontrar nem um exemplar, nada que dê o mínimo de credibilidade às acusações feitas. De resto, Colin Powell nada sabia. O que tinham a dizer ao mundo era nada.
Mas Colin Powell merece ser elogiado: conseguiu mostrar as "poderosas" provas dos Estados Unidos sem nunca se rir. Merece aplauso! Uma coisa é certa: na história da manipulação de informação, nunca se viu trabalho tão desajeitado.

O Sr. Luís Fazenda (BE): - Muito bem!

O Orador: - Os Estados Unidos estão, definitivamente, a perder qualidades.

Portugal não pode ter nada a ver com esta encenação, até porque ela foi de tal forma desastrosa que não deu espaço de manobra a nenhum dos aliados dos Estados Unidos para recuar um centímetro que fosse nas suas posições. Os Estados Unidos não conseguiram o apoio de ninguém, a não ser do sempre diligente Reino Unido. A posição do Governo português está, assim, ao lado de uma minoria isolada e extremista. As ditas provas não mereceram sequer comentários dos diplomatas nas Nações Unidas.

Aznar, ontem, e Blair, antes de ontem, tiveram dificuldades em explicar o inexplicável nos seus parlamentos nacionais: para quê, afinal, esta guerra?

Já discutimos aqui o facto de o Primeiro-Ministro português ter assinado um texto de opinião, da autoria de Blair e Aznar, sobre a guerra, oficializando a posição de Portugal sobre o assunto. O método desta autêntica declaração de guerra está errado: esquece o Presidente da República e o Parlament; institui que, hoje, a guerra, por aqui, se decide pelo telefone entre amigos. Bastou ver o Primeiro-Ministro esta semana a levar pancadas amigas do Sr. Berlusconi e a rir-se em conjunto de piadas de mau gosto sobre outros dirigentes europeus para se perceber a dimensão do disparate. Mas o método é só a menor parte da asneira, o problema está na substância: a guerra é um erro e a opinião pública de todo o Mundo tem sido clara em condená-la. O manifesto dava como adquirida a existência de armas de destruição massiva, por isso o mínimo que se pode dizer é houve uma manobra de prestidigitação.

Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O Sr. Primeiro-Ministro acusou todos os que estão contra a guerra de serem "advogados de Saddam", como Nelson Mandela, o Papa, o Parlamento Europeu, Schröeder, Mário Soares, Freitas do Amaral, quarenta prémios Nobel, centenas de escritores, dezenas de bispos. Se assim fosse, Sr.as e Srs. Deputados, Saddam teria o maior escritório de advogados do mundo!... Mas não é!!

Saddam é um ditador e um sanguinário; é-o agora como era no tempo em que os Estados Unidos o armavam contra os curdos e contra os iranianos. Não ficou nem melhor nem pior, apenas deixou de servir.

Saddam era um ditador quando Portugal lhe vendeu urânio e armas para que melhor matasse os seus opositores. Nós, a quem o Sr. Primeiro-Ministro chama de advogados de Saddam, manifestávamo-nos contra ele e pelo povo curdo. Onde estavam, então, todos os que eram coniventes com a chacina? E onde estão hoje? Onde estão hoje quando o povo curdo é reprimido pelo aliado turco? Onde estão os sentimentos humanitários neste caso? Terão os princípios fronteiras e bandeiras de conveniência? Para nós não!! Entre o Rei Fahd, da Arábia Saudita, e Saddam Hussein, do Iraque, não escolhemos; entre Saddam e Musharraf, do Paquistão, não escolhemos;…

O Sr. Luís Fazenda (BE): - Muito bem!

O Orador: - … entre as ditaduras pró-americanas e as ditaduras antiamericanas, não escolhemos. Condenamos todas elas, sem qualquer dúvida. Possam todos dizer o mesmo!

Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Esta guerra, sejamos claros, é um crime. Ao associar-se a ela, Portugal será cúmplice de um crime. Não podemos assistir parados a este seguidismo sem critério, que contraria a posição largamente maioritária da opinião portuguesa. Os assuntos da guerra e da paz são os mais importantes em qualquer Estado. Não assistiremos, sem reacção, à participação de Portugal nesta guerra injusta.

Por isso mesmo, no exacto dia em que o Governo português decidir participar em acções militares ou de ocupação - insisto, ou de ocupação - contra o Iraque, o Bloco de Esquerda apresentará aqui, no Parlamento, uma moção de censura ao Governo.

Risos do PSD e do CDS-PP.

A gravidade da participação de um país numa guerra exige uma reacção da mesma dimensão. A moção de censura é a única figura institucional que pode transmitir a nossa indignação e a nossa oposição frontal a este seguidismo cego. Traremos para este Parlamento a indignação que, em todo o País, se opõe a esta guerra. Participaremos tanto aqui como nos movimentos populares num larguíssimo movimento de opinião pela paz.

E de nada valem os argumentos do Governo português: um a um vão sendo desmentidos pelos factos. O que era seguro ontem, já todos sabemos que não o é hoje. Para o Primeiro-Ministro português era "indesmentível" a ligação entre o Iraque e a Al-Qaeda. Pois bem, esta ligação foi desmentida pelas próprias agências de informação americanas e britânicas.

O Sr. Diogo Feio (CDS-PP): - Quando?!

O Orador: - As provas de existência de armas de destruição massiva eram indiscutíveis. Como se pôde ver ontem, elas, pura e simplesmente, não existem!!...

Sabemos que, quando chove em Washington, o Governo português abre o guarda-chuva, mas não seria má ideia arrepiar caminho. O mundo é feito de cidadãos e cidadãs, e boa parte deles estão contra esta guerra. Os portugueses não são excepção. Saiba este Governo compreender os sinais, porque nós saberemos fazer o protesto.

Aplausos do BE.

O que concluimos daqui? Que, a 04/02/2003, a opinião do Bloco de Esquerda (ou, pelo menos, de João Teixeira Lopes) era que não havia provas da existência das AMDs. Sim, ele também diz que os EUA venderam urãnio e armas ao Iraque (durante a guerra Irão-Iraque), mas ninguém contesta que, até à primeira guerra do Golfo, o Iraque tinha um program de desenvolvimento de AMDs (e usou-as) - o que estava em discussão era se o Iraque tinha AMDs em 2003 (e, aí, parece-me que J.T. Lopes não acreditava nelas).

Agora, a respeito das declarações de Louçã acerca do "ele tem a factura" - eu não tenho nem o livro onde ele (junto com o meu ex-vizinho Jorge Costa) escreve isso, nem consigo encontrar a sessão da AR onde isso foi dito (embora me lembre de ter visto na televisão). Assim, não sei se ele acreditava na existência de AMDs em 2002/2003, ou se essa conversa se referia às tais AMDs dos anos 80 (as tais que toda a gente concorda que existiram). A única coisa que posso dizer é que, pelo menos o João Teixeira Lopes (e muito provavelmente o Luis Fazenda, pelos aplausos), em Fevereiro de 2003, não estava convencido da existência das armas.

Filipe Abrantes: "A prova da destruição das mesmas armas seria útil. Mas como provar a destruição de armas?? Que debate mais parvo."

Volto a repetir que o que eu estou a discutir não é a questão "o Iraque tinha AMDs" vs "o Iraque não tinha AMDs"; é a questão "antes da guerra, estava toda a gente convencida que o Iraque tinha AMDs" vs "antes da guerra, havia muita controvérsia sobre se o Iraque teria AMDs" - o Iraque ter ou não, realmente, AMDs é irrelevante para o ponto que estou a levantar.

O referendo na Venezuela - rescaldo

Recordo o que escrevi aqui:

"Por outro lado, se ganhar o "Não", aí a questão está resolvida: a Venezuela é, sem dúvida, uma democracia (já que isso significará que as eleições são suficientemente livres e justas - caso contrário, como poderia o "Não" ganhar?)."

No entanto, nos comentários, Filipe Abrantes pôs uma questão importante: "existem n critérios para distinguir uma democracia de uma ditadura"

Portanto, talvez seja melhor dizer que "a Venezuela é um país em que a oposição tem possibilidade real de ganhar eleições contra o governo do momento" (ou seja, a definição mais minimalista de democracia).

Há outras definições possíveis:

- Poderiamos considerar que "democracia" implica, não apenas a possibilidade de o povo escolher os governantes, mas a possibilidade do povo intervir directamente - nesse caso, a Venezuela está longe de ser uma democracia; é verdade que há uns referendos e uns "conselhos comunais" de base, mas isso é, em larga medida, cosmética: os tão falados "referendos revogatórios" apenas permitem substituir um governante pelo seu sucessor legal (excepção: o Presidente), não permitindo, portanto, alterar a linha politica da governação; quanto aos "conselhos comunais", não têm orçamento próprio, estando dependente de verbas atribuidas caso-a-caso pela Presidência (ou seja, não têm poder de decisão: apenas podem apresentar projectos e esperar que o poder central os financie ou não).

- Poderiamos considerar que (atendendo a que passamos grande parte do dia a trabalhar) "democracia" implica, também, "democracia" no local de trabalho - também aí, a Venezuela não é uma democracia; há um ou outro caso de auto-gestão, mas, no geral, quem manda no sector privado são os patrões e nas empresas públicas são os burocratas estatais. E, sobretudo, o actual Ministro do Trabalho tem apoiado a destruição de experiências de "controlo operário", como a que decorria nos Sanitarios Maracay.

- Acho que também há quem considere que nacionalizações e reforma agrária (pelo menos, a partir de certa escala) são intrinsecamente anti-democráticas; aí, talvez a Venezuela não seja uma democracia (digo "talvez" porque depende de onde pormos a fasquia a partir da qual nacionalizações são anti-democráticas); no entanto, penso que o que é normalmente invocado não é que nacionalizações em larga escala vão contra a "democracia", mas sim que vão contra a "democracia liberal".

Seja como fôr, se adoptarmos a tal definição minimalista de democracia (a que em tempos se chamava "democracia burguesa"), penso que a Venezuela pode ser considerada uma democracia (embora, na minha opinião, se tenha safado por pouco de cair numa ditadura caudilhista).

Palpita-me que o Chavez vai perder o referendo

Nas últimas horas o site esmagadoramente "chavista" Aporrea tem estado muito apático (poucos textos novos, e tudo muito "soft")

Depois* da "Guerra ao Natal", a "Guerra ao Dia das Bruxas"

The Passion of the Pumpkin, artigo de Jesse Walker na Reason.

*ou antes, se pensarmos em termos de cronologia dentro do ano

The electoral path to authoritarianism?

Este post do Fruits and Votes sobre as votações ontem na Rússia e na Venezuela já é "velhinho" (isto é, é de há 4 dias atrás) mas é recomendável assim mesmo.

Sunday, December 02, 2007

A série televisiva que parece que está a fazer sucesso no Irão

Iran Holocaust drama is a big hit

Jackbooted Nazis are rounding up Jews for the concentration camps, while terrified Parisians look on.

It is a familiar plot for a television blockbuster. And this time the formula has been as popular as ever, drawing in massive audiences week after week.

The only difference is that this is a series made for Iranian state TV, and it has been piling up the ratings in the country whose president once questioned the very existence of the Holocaust.

The fact that Zero Degree Turn has been allowed on TV, shows the official sensitivity over the accusations of anti-Semitism that have followed President Mahmoud Ahmadinejad's various comments about Israel and the Holocaust.

(...)

The series has gone a step beyond simply acknowledging the Holocaust.

The central character is an Iranian diplomat, who provides false Iranian passports to enable Jews to flee the Nazi-occupied France, a sort of the Iranian Schindler. He even has a love affair with a Jewish woman.

The writer and director of the series, Hassan Fathi, says he used a true story from World War II to show the outside world they have the wrong impression of Iran.

"In those terrible years there were many people who could help the Jews, but they didn't because they were afraid they would be arrested," Mr Fathi explains.

"But some Iranians, when they saw they could save some Jews, they left their fear behind and did so - because of their character and their culture, their beliefs and their traditions," he adds

Tenho que reconhecer..

Eu critiquei o Pacheco Pereira há umas horas, mas, de vez em quando, ele é brilhante:"numa sociedade em que as dependências e a precariedade são tantas que poucas vozes são efectivamente livres, apoucar os grevistas de hoje é ser parte da pasmaceira colaboracionista em que nos atolamos. É que há mais dignidade cívica nos grevistas do que naqueles que se queixam por tudo o que é recanto discreto ou anónimo dos males da governação Sócrates e não têm coragem para alto e bom som dizer o que pensam e sofrer as consequências."

Já agora, a respeito do comentário de um leitor de JPP (segundo o qual as escolas terão sido proibidas de dar informações à comunicação social sobre a adesão à greve), acho que isto poderia ser mais transparente se a DGAEP, em vez de dar apenas a informação por ministérios [pdf], desse por instituições (para falar a verdade, na sexta-feira fui à procura dessa informação, pensando "Se no mapa não aparecer pelo menos 1 Técnico Superior do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio de greve, vou armar um escândalo nacional", mas a informação não chegava a esse grau de detalhe - instituição e grupo profissional).

2 de Dezembro

1851

Em França, o Presidente Louis Bonaparte (sobrinho do outro), eleito em 1848, havia entrado em conflito com o Parlamento (este era dominado pelo conservador Partido da Ordem, que havia apoiado Bonaparte para a presidência, mas depois zangaram-se): o seu mandato iria terminar em 1852, e Bonaparte queria alterar a constituição para poder ser reeleito, o que a maioria dos deputados recusou.

A 02/12/1851, aproveitando a impopularidade do Parlamento (que havia retirado o direito de voto a quem não tivesse residência fixa), o Presidente dá um golpe de Estado - com o apoio do exército, que ocupa os pontos estratégicos de Paris e prende os principais lideres da oposição - e dissolve-o. A 20 de Dezembro, realiza um referendo, que lhe atribui poder para elaborar uma nova Constituição (esta é promulgada a 14/01/1852, concentrando quase todos os poderes no Presidente, que passa a ter um mandato de 10 anos)

1852

A 02/12/1852, Louis Bonaparte é proclamado Imperador hereditário, sob o nome de Napoleão III, na sequencia de outro referendo e de uma alteração constitucional.

Sobre todo o processo, ver, p.ex., O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, de Karl Marx.

[mas o que é que isto interessa?]

Saturday, December 01, 2007

Toda a gente?

Pacheco Pereira escreve "[Durão Barroso] lembrou, e com razão, que na altura toda a gente (incluindo serviços secretos franceses e russos, os inspectores da ONU, e muitos outros insuspeitos geopolíticos) estava convencida de que essas armas existiam".

Isto é frequentemente repetido - que, antes da guerra, "toda a gente" estava convencida que havia" armas de destruição em massa" no Iraque.

Ora, a minha memória não está assim tão má, e lembro-me perfeitamente que, em 2003, havia montes de discussões sobre se havia ou não ADMs do Iraque.

Alguns exemplos:

- Na noite em que começou a guerra, num debate (creio que na SIC Noticias), quando surgiu a noticia que o Iraque havia lançado um míssil, Luís Delgado disse qualquer coisa "Estão a ver? O Iraque sempre tinha armas proibidas pelos tratados", ao que Nuno Rogeiro respondeu que aquele género de míssil não esta proibido (e ficaram uns minutos a discutir isso). Ora, o próprio facto dessa discussão ter ocorrido parece demonstrar que não havia consenso sobre se o Iraque tinha ou não ADMs ou, em geral, armas "ilegais" (se esse consenso existisse, nem valia a pena estarem a discutir aquele lançamento de míssil)

- A 05/02/2003, Collin Powell apresentou-se no conselho de Segurança da ONU, e foi dito que ele ia apresentar as provas que o Iraque tinha AMDs. Após ele ter mostrado várias fotografias de satélite, nos dias a seguir, houve alguma polémica - ver aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui - sobre se essas fotografias provavam alguma coisa ou não (ou seja, isto parece demonstrar que as AMDs não eram, então, algo consensualmente aceite como verdadeiro).

Note-se que, com este post, eu não pretendo discutir se Iraque (em 2002/2003) tinha ADMs ou não; o que pretendo questionar é se, antes da guerra, havia um consenso entre "toda a gente" sobre se o Iraque tinha ADMs (e parece-me que, claramente, não havia).

You Tube suspende conte de activista egipcio

YouTube suspends Egyptian blog activist's account | Newsblog | Guardian Unlimited

Egyptian blogger Wael Abbas has been using YouTube to expose torture in his country, but now his account has been suspended. Bloggers accuse YouTube of double standards.

[Via Lenin's Tomb]

"Politicamente correcto"

A respeito do "caso Tagus", há muita gente a queixar-se de uma suposta tirania do "politicamente correcto".

Sinceramente, não sei se, nesse caso, houve alguma ameaça de processo judicial (e, nesse caso, e concordaria que seria uma restrição sem sentido à liberdade de expressão) ou a única coisa que houve foi reacção públicas de repúdio (e sátiras); de qualquer forma, parece-me que o que está a incomodar os "anti-politicamente correctos" é sobretudo a pressão "social" que surgiu contra o anúncio.

Ora, quando essa conversa vem de "liberais-conservadores" não me parece fazer grande sentido: pelo que tenho lido nos blogues neste anos, os liberais em geral (e os liberais-conservadores em particular) parecem seguir a linha "o racismo, o machismo, a homofobia, o fundamentalismo religioso e a intolerância em geral são perfeitamente compatíveis com uma sociedade livre, desde que quem os pratica não os tente impor pelo Estado".

No entanto, pelos vistos, quando as vitimas do ostracismo e da marginalização social já não são os "pretos", os "maricas" ou as "putas", mas os "xenófobos", os "homófobos" ou os "fundamentalistas" (católicos), já temos um domínio insuportável do "politicamente correcto" e coisas parecidas.

Ver também: Os conservadores e o "politicamente correcto"

Friday, November 30, 2007

"Fábrica salva por um euro já factura quase um milhão"

"A fábrica de confecções Afonso-Produção de Vestuário, de Arcos de Valdevez, empresa tomada à força pelas trabalhadoras em Novembro de 2004 para impedir a sua deslocalização para a República Checa, "está de boa saúde e recomenda-se". Actualmente sob a administração de Conceição Pinhão, a funcionária que liderou a luta em prol da permanência da produção em Portugal (e a comprou aos antigos proprietários, simbolicamente, por um euro), a unidade prepara-se para fechar o ano com um volume de negócios de 900 mil euros, quase o dobro do alcançado no primeiro ano de autogestão (500 mil euros em 2005), e com as dívidas liquidadas. "

Há uns tempos falou-se dessa fábrica neste blogue (nomeadamente dos limites em que a acção das trabalhadoras se manteve).

Adenda: ver também os comentários ao post anterior.

The Inheritance of Inequality

Via Brad DeLong, um paper de 2002 sobre a - crescente - hereditariedade de condições sociais nos EUA e sobre as suas possíveis causas (heranças, genes, cultura, etc.).

Tem uma interessante refutação da teoria que a hereditariedade de posição social derivaria fundamentalmente da "inteligência genética" transmitida de pais para filhos - o argumento dos autores é mais ou menos este:

- O efeito observado (directo e indirecto) do QI sobre o rendimento é de 0,27 (parece que há estudos que indicam isso)

- A correlação entre os genes dos filhos e dos pais é algures entre 0,5 e 1 (em principio seria de 0,5, mas facto de pai e mãe terem muitas vezes genes semelhantes - já que tendemos a "acasalar" com pessoas com algumas parecenças connosco - eleva uma bocado o valor)

- A componente genética do QI é menor que 1 (eles assumem, a titulo de exemplo, 0,5, mas há quem diga que é de 0,7)

Assim, se a relação entre o rendimento dos pais e a sua inteligência é de 0,27, se a relação entre a inteligência dos pais e o seu potencial genético for de 0,7, se a relação entre os genes dos pais e dos filhos for de 1 (isto é uma hipótese extrema - andará entre 0,5 e 1), se a relação entre o potencial genético dos filhos e o seu QI for de 0,7 e a relação entre o QI e o rendimento de 0,27, temos que a relação entre o rendimento dos pais e dos filhos (se a transmissão genética da inteligência fosse o único factor explicativo) seria de 0,036 (0,27*0,7*1*0,7*0,27); os autores calcularam 0,01, já que assumiram um efeito genético sobre o QI de 0,5. De qualquer forma, a correlação real entre o rendimento de pais e filhos é muito maior que esse valores, logo a hereditariedade da inteligência explica apenas uma pequena fracção do fenómeno geral da "hereditariedade das desigualdades".

A democracia(?) venezuelana

Penso que a questão "a Venezuela é uma democracia?" está à beira de solução.

Se o "Sim" (não me perguntem qual é a diferença exacta entre o "Sim-Sim" e o "Sim-Não") ganhar, o reforço dos poderes presidenciais equivalerá a uma ditadura virtual (o presidente poderá nomear vice-presidentes para as províncias, ultrapassando os governos eleitos; poderá suspender a liberdade de imprensa e as garantias processuais, se proclamar o estado de emergência, etc.). Ou seja, mesmo que hoje a Venezuela seja uma democracia, dificilmente o continuará a ser na segunda-feira.

Inclusivamente por uma razão: em caso de vitória do "Sim", haverá sempre alas da oposição que irão gritar "fraude!" (haja ou não fraude) e daí aos tumultos de rua será um saltinho; nesse clima de instabilidade, é natural que seja proclamado o estado de emergência, e daí, das duas uma:

- Ou Chavez passa a governar sob uma espécie de lei marcial (ou seja, uma ditadura de facto, ainda que originalmente eleito)

- Ou os sectores conservadores do exército, nessa situação, afastam Chavez e assumem o poder e, aí, temos uma ditadura às claras

Assim, provavelmente a escolha será entre duas ditaduras: ou uma ditadura populista-nacionalista, à maneira de Perón, Velasco Alvarado ou dos primeiros tempos do PRI mexicano, ou uma ditadura oligárquica-reaccionária, à maneira de Pinochet, Castillo Armas ou dos militares brasileiros de 1964.

Por outro lado, se ganhar o "Não", aí a questão está resolvida: a Venezuela é, sem dúvida, uma democracia (já que isso significará que as eleições são suficientemente livres e justas - caso contrário, como poderia o "Não" ganhar?).

Thursday, November 29, 2007

Democracias iliberais e ditaduras liberais

Há tempos, nos blogues portugueses, houve alguma discussão acerca de "democracias iliberais" vs. "ditaduras liberais" (penso que se originou neste post da Esquerda Republicana).

Independentemente da preferência que se pudesse ter por uma coisa ou outra, acho que é uma falsa opção: parece-me que a única alternativa realista a uma democracia "iliberal" é uma ditadura... iliberal!

Porquê? Porque qualquer ditadura que surja como alternativa a uma "democracia iliberal" terá a oposição de grande parte (ou mesmo da maioria) da população (se não fosse esse o caso, não seria preciso a ditadura, para começar...). Ora, um regime que enfrente uma oposição dessa magnitude só se poderá manter através de uma repressão impiedosa, pelo que dificilmente poderá ser "liberal" (claro, um regime globalmente "iliberal" poderá ser liberal nalgumas coisas, como Pinochet - liberal na economia - ou o governo comunista do Afeganistão - que era "liberal" nos direitos das mulheres).

[desconfio que isto das democracias iliberais e das ditaduras liberais ainda vai dar muito que falar]

Inferno de Dante

Segundo este teste, o círculo do Inferno a que estou destinado (é o sexto, destinado aos heréticos):

The wretched King Minos has decided your fate. His tale wraps around his body 6 times.

The sweet light no longer strikes against your eyes. Your shade has been banished to... the Sixth Level of Hell - The City of Dis!

Sixth Level of Hell - The City of Dis

You approach Satan's wretched city where you behold a wide plain surrounded by iron walls. Before you are fields full of distress and torment terrible. Burning tombs are littered about the landscape. Inside these flaming sepulchers suffer the heretics, failing to believe in God and the afterlife, who make themselves audible by doleful sighs. You will join the wicked that lie here, and will be offered no respite. The three infernal Furies stained with blood, with limbs of women and hair of serpents, dwell in this circle of Hell.

Tuesday, November 27, 2007

Re: Insucesso e abandono escolar

Num comentário, Zé da Burra faz algumas observações sobre "Insucesso e abandono escolar".

Eu até não discordo de todos, mas há dois de que discordo bastante (ou seja, discordo da discordância):

"3) As faltas ocasionalmente dadas pelos alunos às aulas não devem contar para a passagem ou não de ano"

E que mal vem ao mundo se os alunos faltosos passarem de ano, se forem aprovados num exame feito no fim (que, creio, é o que está na mesa neste momento)?

Aliás, até é paradoxal que, em regra, as pessoas que mais reclama dessa medida sejam as mesmas que mais defendem a avaliação por exames em detrimento da avaliação continua. Ou seja, para umas coisas, os exames é que são bons, e para outras já é "facilitismo"?

"6) Reduzir o número de exames a que os jovens estão sujeitos. Dentro de poucos anos pretende-se mesmo eliminá-los, ficando os jovens com a garantia de que ao fim dos 12 anos de escola obtêm o 12.º ano de escolaridade."

Mesmo que os exames fossem eliminados, os jovens não ficariam com "a garantia de que ao fim dos 12 anos de escola obtêm o 12.º ano de escolaridade".

Eu, pessoalmente, entre a 1ª classe e 12º ano, só tive UM exame (a Português do 10º/11 ano, a que tinha reprovado) e grande parte dos meus colegas não tiveram NENHUM (PGA não conta, já que não se destinava à avaliação), e tenho dúvidas que a minha (nossa) formação tenha ficado particularmente prejudicada com isso.

Até seria interessante fazer um exercício: comparar as notas das "provas especificas" do meu tempo com as notas dos exames do 12º ano dos últimos tempos (ou seja, comparar a geração que não fez exames - além dos de entrada na faculdade - com as que passaram a vida a fazer exames). Se, efectivamente, os exames são assim tão bons (face à "avaliação contínua"), será de esperar que os estudantes de agora tenham notas muito melhores das que nós tínhamos... (aviso desde já que não faço ideia de qual seria o resultado desse estudo).