Saturday, July 29, 2006

Anti-semitismo (III)?

É curioso que os mesmos defensores de Israel que acusam os críticos de anti-semitismo, sejam também dados a levantar o argumento de que "é incorrecto falar em «palestinianos» - os judeus israelitas também são «palestinianos»; o correcto é falar em «palestinianos árabes»".

Ora, se fossemos usar o mesmo formalismo semantico face ao "anti-semitismo", alguêm que criticasse Israel no contexto do conflito israelo-árabe nunca poderia ser um "anti-semita": os árabes são também semitas.

Claro que isto é jogar com as palavras: embora etimologicamente "anti-semita" signifique "aversão aos semitas", o seu significado estabelecido é de "aversão aos judeus" (e não aos árabes, etíopes ou assirios), mas o mesmo se passa com "palestiniano", que, embora etimologicamente signifique "habitante da Palestina", tem o significado estabelecido de "descedente das populações que já habitavam na Palestina aquanda da imigração massiva de judeus".

Anti-semitismo (II)?

Será que não gostar de Noam Chomsky, Harold Pinter ou Paul Krugman é anti-semitismo?

Anti-semitismo (I)?

A respeito da mania de acusar os criticos de Israel de anti-semitismo (que o Hugo Mendesabordou), será que alguém tem alguma dúvida de que se Israel tivesse sido criado por cristãos arianos e não por judeus, a maior parte dos "anti-israelitas" (dentro de aspas, já que a palavra pode significar posições muito diferentes) continuariam a ser "anti-israelitas"? Por exemplo, se Israel tivesse sido fundado, não para os judeus, para alguma das muitas seitas cristãs que há nos EUA, eu tenho 110% de certezas que haveria ainda mais "hostilidade"/"oposição"/"critica" /etc. a Israel da que há actualmente (aliás, note-se que há quase uma correlação de 1:1 entre ser critico da politica israelita e ser crítico da politica norte-americano no Iraque, logo a questão não está nos "judeus").

Além disso, olhe-se para os autores mais apreciados pelos sectores socio-politicos que hoje em dia mais criticam Israel: Noam Chomsky, Harold Pinter, Howard Zinn, Naomi Klein, Norman Finkelstein (ou, já agora, Marx, Trotsky, Ernest Mandel, etc.) ... Não me parece que haja por essas bandas grande "anti-semitismo".

Agora, se me dissessem que, por detrás das criticas a Israel, há algum "anti-ocidentalismo" (e não "anti-semitismo"), aí admito que talvez tivessem por onde pegar...

Friday, July 28, 2006

Afinal foi mesmo muita imaginação

Quando vi o primeiro episódio da série "The Lone Gunmen", na SIC Radical, houve uma passagem em que fiquei a pensar "Os argumentistas desta série, ou têm muita imaginação, ou não têm nenhuma":

A dada altura, descobre-se uma conspiração do "complexo industrial-militar" para ganhar mercado e importância - a ideia é desviar (através de controle remoto, ou coisa assim) um avião e fazé-lo chocar com o World Trade Center. Isso iria levar os EUA a lançarem guerras contra estados suspeitos de apoiarem o terrorismo.

Como disse, quando vi isso, pensei "Conforme isto foi feito antes ou depois do 11 de Setembro e, sobretudo, da guerra do Iraque, os argumentistas, ou tiveram muita imaginação, ou tiveram muito pouca imaginação" (isso era mais uma questão retórica para mim mesmo; na verdade eu assumi automaticamente que a série era posterior aos acontecimentos). Ora qual o meu espanto quando afinal, descobri que o referido episódio foi inicialmente para o ar a... 4 de Março de 2001. É daquelas situações em que "a vida quase imita a arte" (a única diferença entre a ficção e a realidade é que o 11 de Setembro foi levado a efeito por verdadeiros terroristas suicidas) - faz lembrar uma história publicada em 1898, acerca de um transatlantico chamado "Titã", que chocava com um iceberg, morrendo centenas de passageiros...

Israel: defesa ou ataque?

Pacheco Pereira, na Sábado e no Abrupto, escreve que as guerras de Israel foram "sempre de natureza defensiva [e] não adianta explicar aos que estão de má fé que o carácter ofensivo de algumas operações militares nada tem a ver com o carácter defensivo do conflito". Imagino que o que JPP queira dizer seja que, mesmo que tenha sido Israel a iniciar as acções militares nas guerras de 1956, 1967 e em várias invasões do Líbano, essas guerras foram à mesma "defensivas", já que foram feitas no contexto estrutural da oposição dos estados árabes à existência do Estado de Israel (logo, tiveram como objectivo proteger Israel da ameaça árabe).

Esse raciocinio até tem a sua lógica, só que pode facilmente ser virado ao contrário: pode-se também argumentar que, embora tenham sido os árabes a iniciar militarmente as guerras de 1947-49 e de 193, essas acções foram "defensivas" já que a primeira foi feita em resposta à criação de "estado judeu" em território tradicionalmente árabe, e a segunda em resposta à ocupação de mais território árabe seis anos antes.

A questão é que ver se uma guerra é "defensiva" ou "ofensiva" olhando, não para quem começou a guerra, mas para "o contexto mais amplo" tem esse problema: por definição, o lado que achamos que tem razão está sempre à "defesa", mesmo que seja ele a iniciar as hostilidades.

Thursday, July 27, 2006

Wednesday, July 26, 2006

Judeus e Árabes em Israel: igual direito a voto?

Frequentemente argumenta-se que, em Israel, judeus e árabes têm os mesmos direitos, nomeadamente o direito de voto (ver p.ex., Uma opinião que esquece, n'A Arte da Fuga).

Por um lado é verdade: um árabe cidadão israelita tem o mesmo direito a voto que um judeu cidadão israelita; mas por outro não é: em que, nas mesmas circunstâncias, é mais fácil a um judeu do que a um árabe tornar-se cidadão israelita, logo é mais fácil a um judeu do que a um árabe ter direito de voto (ou todos os direitos associados à cidadania).

Dois casos:

Um judeu que imigre para Israel tem automaticamente acesso à cidadania; um árabe (ou um qualquer não-judeu) que imigre para Israel tem que seguir o processo "regular" de nacionalização para obter a cidadania israelita (ou seja, muito provavelmente, se um judeu e um árabe imigrarem para Israel no mesmo dia e haver eleições daí a seis meses, o judeu poderá votar e o árabe não).

Todos os judeus que vivem sob administração israelita têm cidadania e direito a voto, quer vivam em Israel ou nos "territórios"; pelo contrário, os árabes que vivem sob administração israelita têm acesso a cidadania se viveram em Israel (fronteiras de 49-67), em Jerusalém Oriental ou nos Montes Golã (embora a maioria esmagadora dos árabes desses 2 territórios ocupados em 67 recusem a cidadania israelita), mas não se viverem na margem ocidental (excluindo Jerusalém). Por exemplo, se tivermos, lado a lado, na margem ocidental sob controle israelita, uma aldeia árabe e um colonato judeu, os habitantes do segundo terão direito a voto e os da primeira não (a mesma coisa aplicava-se a Gaza, quando esta estava ocupada por Israel).

Já agora, leia-se também "Israel não é um Estado laico", na Esquerda Republicana.

Tuesday, July 25, 2006

Hemingway e a Guerra de Espanha

Lendo os artigos de jornal (e posts de blogs) publicados sobre a Guerra Civil de Espanha, não sei quantas vezes já vi escrito que Hemingway participou na Brigadas Internacionais (a última vez foi num complemento a este post do Abrupto).

Pela énesima vez, HEMINGWAY NÃO PARTICIPOU NA GUERRA CIVIL DE ESPANHA: ele cobriu a guerra como jornalista, e, depois, escreveu um livro ("Por quem os Sinos Dobram") em que o protagonista era um americano combatente nas Brigadas Internacionais - é um bocado diferente "participar numa guerra" e "escrever um livro em que o protagonista participa na guerra" (mas a vida e obra de Hemingway cruzam-se tanto que é capaz de ser uma confusão natural).

Já agora, a outra figura que costuma ser referida quando se fala das Brigadas Internacionais, George Orwell, tecnicamente, também não participou nas Brigadas: ele foi para Espanha e alistou-se na mílicia do POUM mais ou menos a titulo individual, e não integrados nas Brigadas Internacionais (parece um detalhe, mas talvez não seja: as brigadas "organizadas" eram controladas pelos comunistas, e se Orwell tivesse combatido em Espanha sob as ordens do PC - em vez de num grupo de extrema-esquerda - talvez o seu percurso político tivesse sido muito diferente, e o "Triunfo dos Porcos" e "1984" nunca tivessem sido escritos).

Monday, July 24, 2006

Nature vs Nurture: Poverty Matters

No Economist's View, um extracto de um artigo sobre os efeitos da hereditariedade e do ambiente sobre a inteligência.

Tradicionalmente, estudos feitos a partir de casos de irmãos gêmeos, crianças adoptadas, etc. indicavam que a inteligência era predominantemente genética (p.ex., havia muito menos diferenças entre o Q.I. dos gémeos verdadeiros do que dos gémeos falsos). No entanto, o psicólogo Eric Turkheimer concluiu que isso apenas ocorria na classe média (que é normalmente quem se voluntaria para esse género de estudos académicos). Ele e alguns colegas realizaram estudos com irmãos gémeos oriundos de familias pobres e concluiram que, entre esses, as diferenças de Q.I. entre gémeos verdadeiros são similares às entre gémeos falsos. A conclusão a que chegaram é que o binómio ambiente/genes age de forma diferente nas crianças nascidas em meios "favorecidos" ou "desfavorecidos": entre os individuos nascidos nas classes média e alta, o essencial da sua inteligência é determinado pelos seus genes; pelo contrário, entre os individuos nascidos nas classes menos favorecidas, o ambiente tem um peso importante no desenvolvimento da sua inteligência.

Estudos realizados com crianças adoptadas em França também chegaram a resultados semelhantes.

Sunday, July 23, 2006

Leitura recomendada

De Charley Reese (um conservador anti-Bush), "Disaster in the Making":

"A fourth thing, if you can stand to watch television news, is how casually the talking faces dispense falsehoods because of their ignorance, which is understandable. Middle East history is too complex for a fly-in TV star to avoid the trap of failing to separate fact from propaganda."

"Hezbollah, for example, raided an Israeli military outpost on what Hezbollah considers the Lebanese side of the border. Hezbollah kidnapped two soldiers. It did not fire any rockets at Israel as several television people have said – mimicking, of course, Israeli propaganda. Instead of sending a special-forces team or setting up negotiations for a prisoner exchange, Israel launched an all-out attack, knocking out bridges, roads, airports and fuel facilities, and doing enormous damage to civilians. Only then did Hezbollah respond with rockets, as it certainly had a right to do."

(...)

"By the way, the Israelis never ended their occupation of Gaza. They forced settlers to withdraw because it was too much trouble to guard them. But they retained control of Gaza. Nobody can go in or out without Israeli permission. The airport is closed. They cut off the tax money that is paid by Palestinians and rightfully should have gone to the Palestinian Authority. In other words, they turned Gaza, already one of the most densely populated areas in the world, into a Middle East version of the Warsaw Ghetto. And they regularly bombed it or sprayed it with artillery."

(...)

"One reason Lebanon never disarmed Hezbollah is because its members are considered heroes by the Lebanese Shi'ites. They were the ones who made Israel's occupation of Lebanon so costly that the Israeli people demanded that it be ended. They also provide a wide range of welfare services to the Lebanese people"

Já agora, também relacionado com o Líbano, um artigo já velhinho do israelita Ran HaCohen, "A Case for Hizbollah?".

Saturday, July 22, 2006

O conceito de "animais racionais"

Será que a divisão "digital" entre "animais racionais" e "irracionais", em que o homem é considerado "racional" e tanto os gatos como as anémonas-do-mar são considerados irracionais faz sentido?

Afinal, em termos de desenvovimento intelectual, o gato está muito mais próximo do homem do que da anémona-do-mar, logo não será um pouco absurdo pôr o gato e a anémona num grupo e o homem noutro?

A mim, parece-me que os mais correcto seria, em vez da classificação "digital" (racional/irracional) uma classificação "analógica" em que os animais fossem classificados por graus diferentes de racionalidade (a começar talvez na esponja-do-mar e a acabar no homem); mas, se queremos mesmo (por uma questão de simplificação) ter uma classificação "digital," não seria mais rigoroso uma divisão, digamos entre "animais que tomam decisões" (homens, gatos, jacarés, lampreias, escorpiões, polvos, etc.) e "animais que agem por reflexos pré-programados" (ténias, anémonas-do-mar, esponjas-do-mar, mexilhões, ascidias, etc.)?

Há 60 anos

A 22 de Junho de 1946, a Irgun Zvei Leumi (a antepassada do Likud israelita) mandava pelos ares a sede da administração britânica na Palestina, o Hotel King David, o que provocou 92 mortes.

Respeitando uma conceituada tradição, uns chamaram-lhe “terrorismo” e outros “luta de libertação”.

Wednesday, July 19, 2006

Pelos vistos, vi uma série de culto e nem sabia...

Há dias, lendo um artigo qualquer de jornal sobre séries que sairam em DVD, falavam qualquer coisa do género "Sairam recentemente duas séries de culto, respectivamente dos anos 80 e 70, «Verão Azul» e «Os Pequenos Vagabundos»".

O "Verão Azul" conheço bem. Como sou da colheita de 73, pus-me a pensar que seria isso "Os Pequenos Vagabundos" - se fosse uma série do principio dos anos 70, é claro que pertenceria a um outro universo, mas se fosse do final (79, para aí) até era natural que eu a tivesse visto.

A única série televisiva com imagem real da minha infância que eu me lembrava , e que tivesse como protagonistas crianças ou adolescente, (excluindo aqueles que eu sei perfeitamente quais eram: "Os Cinco", "O Sitio do Picapau Amarelo", etc.) era uma série espanhola em que no genérico até havia uma cena em que um dos protagonistas aparecia pendurado numa cruz, e em que no ultimo episódio os "bandidos" roubavam um carro que ficava todo espatifado, e até fiquei com alguma curiosidade se seria essa.

Bem, fazendo uma pequena pesquisa, conclui que até era - eu não me recordo de quase nada do que parece ser essa série, mas vi o genérico e lá estava a tal imagem de um pendurado numa cruz (imagem que eu nunca percebi o que tinha a ver com a série). Afinal, a série era belga e não espanhola (pronto, lembrava-me que não era em inglês...).

E, fazendo essa tal pesquisa, conclui que essa série até era bastante famosa, mas nunca tinha dado por isso (afinal, nem me lebrava do seu nome) - talvez seja porque os tais fãs devem-na ter visto na adolescência e nos anos 70, enquanto eu a vi na infância e nos anos 80 (pelo sites que vi com os anos em que a série foi emitida - aparentemente, estava sempre a ser reposta - eu devo ter visto a de 81).

P.S. - entretanto, lembrei-me de outra série que também podia perfeitamente ter sido: uma que deu no Verão de 1983 sobre uns irmãos que fogem para a floresta e andam vestidos de pele de coelho; é curioso que eu me tenha lembrado primeiro da série certa (ou se calhar, comoa outra já era de 83, nem pensei nela).

Ainda a respeito de envelhecimento da população e afins

Via Economist's View, um artigo no American Prospect argumentando que a redução da população (e, nomeadamente, da população activa) pode ser positiva (mas não sei se os seus argumentos farão totalmente sentido se transplantados para Portugal).

A "sustentabilidade" da Segurança Social

Hoje, no suplemento de Economia do Diário de Noticias, Bagão Felix (acho) dizia que as reformas introduzidas pelo governo não garantem a sustentabilidade financeira da Segurança Social. Quanto ao Jornal de Negócios, refere (via 19 meses depois e Rabbit's Blog) que as pensões serão 23% mais baixas para quem se reformar daqui a 25 anos (imagino que isso queira dizer "quem se reformar daqui a 25 anos vai receber 23% menos do que receberia pelas regras actuais", não que as pensões vão realmente decrescer 23%).

Independentemente das considerações sobre que o melhor sistema de Segurança Social, há uma coisa que gostava de frisar: nenhum sistema de Segurança Social garante a sustentabilidade financeira; ou melhor, só há um que garante isso - aplicar o dinheiro dos descontos em conservas e congelados para comer depois da reforma.

Primeiro, vamos imaginar um caso extremo de envelhecimento da população: que a população activa se reduzia a... zero. Ai um sistema de repartição deixava obviamente de funcionar: não haveria ninguém para descontar para pagar as reformas; mas um sistema de capitalização também deixa de funcionar: se não há ninguém para trabalhar, as empresas também deixam de funcionar, logo não distribuem rendimentos e os fundos de pensões também não têm receitas para pagar as pensões; quanto ao velho sistema de os filhos sustentarem os pais na velhice também não funcionaria pelas razões óbvias (ou seja, a única forma de os reformados sobreviverem seria se tivessem acumulado as tais conservas e congelados)

Outro exemplo, mais moderado: imaginemos que a população activa se reduz para metade. Um sistema de repartição iria ter problemas, claro: com a população activa reduzida a metade, as contribuições também se reduzem a metade (na verdade, não se reduzem tanto, por razões que vou explicar mais à frente), logo, menos dinheiro para pagar reformas. Mas, e um sistema de capitalização, será que se "safaria"? Não - com menos mão-de-obra, os salários iriam subir (lei da oferta e procura a funcionar), logo (assumindo que tudo o resto se mantém igual) os lucros das empresas diminuir e, portanto, também as receitas dos fundos de pensões (esta é também a razão porque, num sistema de repartição, as contribuições não se iriam reduzir a metade: o decréscimo do numero de contribuinte é parcialmente compensado pelo aumento dos salários).

Claro que se pode argumentar que a produtividade pode aumentar, fazendo assim que os lucros das empresas não caiam, e salvando o sistema de capitalização; mas, nesse caso, o sistema de repartição também está salvo: o aumento da produtividade, possivelmente, levará ao aumento dos salários (que se irá juntar ao aumento criado pela escassez de mão-de-obra), logo, as contribuições também não caiem.

Aonde é que eu quero chegar com isto: que se o sistema de repartição entrar em crise, um sistema de capitalização, nas mesmas situações, também entrará em crise.

Leitua Recomendada

Tuesday, July 18, 2006

Sugestão de Leitura

Ainda a Guerra Civil de Espanha

Agora vou me armar em Marcelo Rebelo de Sousa e recomendar alguns livros e um documentário sobre a guerra de Espanha:

  • "Espanha Abandonada", de "M. Casanova" (Mieczyslaw Bortenstein): panfleto trotskista, redigido logo após o fim da guerra por um militante da IV Internacional que participou nos acontecimentos. Está editado em Portugal pelas Edições Antídoto (editora dos anos 70, ligada à LCI, a organização que deu origem à APSR de F. Louçã)
  • O documentário "A Guerra Civil de Espanha", da Granada Televion. Já passou 2 ou 3 vezes na televisão portuguesa. Acho a melhor série documental que já vi sobre o conflito (mas também foi a única que vi)

[Não sei é se alguêm estará interessado nestas sugestões - vendo bem, que interesse tem algo que se passou à 70 anos?]

March of Folly


Since those who fail to learn from history are doomed to repeat it — and since the cast of characters making pronouncements on the crisis in the Middle East is very much the same as it was three or four years ago — it seems like a good idea to travel down memory lane. Here’s what they said and when they said it:

“The greatest thing to come out of [invading Iraq] for the world economy .... would be $20 a barrel for oil.” Rupert Murdoch, chairman of News Corporation (which owns Fox News), February 2003

(...)

“Peacekeeping requirements in Iraq might be much lower than historical experience in the Balkans suggests. There’s been none of the ... ethnic militias fighting one another that produced so much bloodshed ... in Bosnia.” Paul Wolfowitz, deputy secretary of defense and now president of the World Bank, Feb. 27, 2003

(...)

“Regime change in Iraq would bring about a number of benefits for the region. ...Extremists in the region would have to rethink their strategy of jihad. Moderates ... would take heart, and our ability to advance the Israeli-Palestinian peace process would be enhanced.” Vice President Cheney, Aug. 26, 2002

Monday, July 17, 2006

Re: A única lição

Na semana passada, Luciano Amaral escrevia no Diário de Noticias sobre a Guerra Civil de Espanha:
"na Guerra Civil de Espanha o lado dito republicano, mas na verdade cada vez mais dominado pelo PCE e a facção leninista do PSOE, acabou por ser propagandisticamente identificado com a democracia. A ambiguidade da II Guerra Mundial resultou na prática entrega de cerca de metade da Europa à tirania comunista. A ambiguidade na Guerra Civil de Espanha resultou na grande mentira histórica segundo a qual a vitória de Franco teria significado a derrota da democracia."
Não sei o que Luciano Amaral entende por "facção leninista do PSOE", mas se se refere à facção radical de Largo Caballero (que chegou a ser chamado o "Lenine espanhol"), isso não faz sentido nenhum: a ala radical do PSOE foi perdendo força no campo republicano ao longo da guerra, e quem foi gradualmente dominando o governo republicano foi a ala moderada de Juan Negrin e Indalecio Prieto (embora o facto de, durante a Guerra de Espanha, os socialistas "moderados" estarem aliados aos Comunistas possa criar confusão em algumas pessoas).
Mesmo a força dos Comunistas no campo republicano é algo que deve ser relativizado: no principio da guerra, as principais forças republicanas eram os socialistas e os anarquistas e o PC era quase insignificante - a partir de certa altura, a classe média começou a aderir ao PC, como reacção ao "radicalismo" dos anarquistas e de parte do PSOE, mas é duvidoso se isso significava um apoio real ou apenas uma manobra táctica (como as pessoas de direita que, em Portugal, iam aos comícios do PS em 1975).
É verdade que o PC parece ter controlado grande parte do aparelho policial e judicial na Espanha republicana, tendo dirigido a repressão contra os anarquistas e o POUM, mas também é verdade que o PC nunca fez nada contra a vontade dos seus aliados liberais e social-democratas: nos processos contra o POUM e, mais tarde, contra os trotskistas, os acusados acabaram por ser absolvidos pelos tribunais, em vez de serem fuzilados em massa (como teria acontecido na URSS) - ou seja, os liberais derem rédea solta aos comunistas para assassinarem opositores, mas só enquanto foi necessário.
Também o "Exército Popular", criado com o apoio entusiástico do PC, acabou por se voltar contra ele, com o golpe de Miaja-Casado (e Miaja, até então, até tinha fama de comunista).
Em suma, parece-me discutível se os comunistas controlavam efectivamente o governo e o aparelho de estado republicano, ou se funcionaram apenas como "tropa de choque" dos "moderados" - utéis para matar anarquistas e poumasistas, mas corridos logo que deixaram de ser necessários.
"Não há dúvidas sobre os procedimentos democráticos da II República. Mas também não há dúvidas de que, dominada pela esquerda republicana e o PSOE (um partido muito diferente do PSOE de hoje), a República viu esses procedimentos sistematicamente atraiçoados pela esquerda: quando a Confederação Espanhola das Direitas Autónomas (CEDA) ganhou as eleições de 1933, a esquerda inicialmente conseguiu impedi-la de governar. E quando a CEDA finalmente entrou no Governo (embora em pastas secundárias), uma coligação do PSOE com anarco-sindicalistas, comunistas e independentistas catalães e bascos juntou-se para desencadear uma revolta em 1934. Acaso esta revolta (de que resultariam cerca de um milhar de mortos) tivesse triunfado, ter-se-ia instaurado em Espanha uma ditadura de esquerda."
A revolta de 1934 tinha um motivo: é que o PSOE tinha tido o dobro dos votos do Partido Radical (de centro-direita, que liderava o governo), mas tinha eleito metade dos deputados que este, devido às leis eleitorais, e a reivindicação proclamada dos rebeldes era a convocação de novas eleições. Note-se que os rebeldes não proclamaram nenhum "governo provisório", "junta revolucionária" ou lá o que fosse, ou seja, não deram qualquer passo para se apossarem do poder de Estado (para quem queria "instaurar uma ditadura de esquerda" não está mal) - no fundo, apenas exigiam a queda do governo. Finalmente, não estou a ver como é que socialistas, anarquistas e nacionalistas catalães poderiam, em conjunto, estabelecer uma "ditadura", com as enormes diferenças programáticas que havia entre eles.

A Guerra Civil de Espanha e a República








A 17 de Julho de 1936, o exército espanhol, dirigido por oficiais conservadores, revoltava-se contra o governo da Frente Popular. No entanto, o que parecia um simples golpe militar revelou-se mais mais complicado: durante os dias 18 e 19, em grande número de cidades, socialistas e anarquistas pegaram em armas e derrotaram o golpe - refira-se que a República teve 3 primeiros-ministros num dia: 2 foram tiveram que se demitiram por se recusarem a distribuir armas à população para enfrenter os sublevados.

Espanha ficou dividida em duas: a zona controlada pela junta militar rebelde, e a zona controlada pelo governo eleito, apoiado pelas milicias populares que se formaram nesses dias. Apesar de, inicialmente, controlar as zonas mais ricas e povoadas de Espanha, a República começou a enfrentar dificuldades: em primeiro lugar, enquanto os "Nacionalistas" tinham o apoio militar de forças regulares alemães e italianas, os Republicanos, em termos de combatentes externos, quase só tinham brigadas de voluntários.

Mais importante ainda, as divisões no campo republicano haveriam de se revelar decisivas: como notou George Orwell em "Homenagem à Catalunha", "a sua [da classe trabalhadora] resistência foi acompanhada por um levantamento - quase se poderia dizer que consistiu num levantamento - definitivamente revolucionário. Os camponeses apoderaram-se de terra; os sindicatos tomaram conta de muitas fábricas e de grande parte dos transportes". Os republicanos dividiram-se a respeito dessa situação: os anarquistas, a ala radical do PSOE (representado por Largo Caballero, primeiro-ministro desde Setembro de 36) e o Partido Operário de Unificação Marxista (partido resultante de uma fusão entre ex-trotskistas e ex-comunistas) apoiavam o processo revolucionário; pelo contrário, os liberais, o Partido Comunista e ala moderada do PSOE defendiam a manutenção do sistema "capitalista" (os liberais pelas razões óbvias, os outros porque achavam que primeiro era preciso ganhar a guerra).

Também a respeito da organização do exército essas duas facções se enfrentavam: os "radicais" pretendiam manter o sistema de milicias, enquanto os "moderados" pretendiam transformá-lo num exército "normal", com um corpo de oficiais, etc.

Inicialmente, os "radicais" dominavam, tendo (como Orwell atrás referiu) áreas significativas da Espanha republicana (nomeadamente na Catalunha e Aragão) sido convertidas ao socialismo libertário. No entanto (segundo alguns, devido à URSS ser o único país importante que apoiava a república, o que dava prestigio ao PC), a república foi virando "à direita" (ou "ao centro", se preferirem) - o primeiro passo foi a criação do Exército Popular que, em teoria, substituia as milícias (na prática, a principio, as mílicias foram simplesmente rebatizadas como "divisões" do Exército - segundo Orwell, a imprensa comunista usava essa ambiguidade para, quando havia uma vitória, noticiá-la como uma vitória de uma divisão do Exército Popular, e quando havia uma derrota, noticiá-la como uma derrota de uma milícia).

Em Maio de 1937, rebenta o que por vezes é chamado "a guerra civil dentro da guerra civil": em Barcelona, a Guarda de Assalto tenta ocupar a Central dos Telefones, controlada pela CNT (o sindicato anarquista). Os anarquistas resistem e a cidade de Barcelona mergulha em combates de rua entre os anarquistas, o POUM e os trotskistas, por um lado, e os comunistas, o exército e a policia, por outro. Apesar de controlarem a maior parte da cidade, os anarquistas e "poumasistas" aceitarão um cessar-fogo, permitindo ao Partido Comunista e à Guarda de Assalto controlarem a situação.

A CNT e o POUM aceitaram o cessar-fogo motivados pela ideia que o principal era derrotar Franco e que o campo republicano tinha de se manter unido, mas os "moderados" não tinham tantos escrupulos "unitários": poucos dias depois os governos da República e da Catalunha são remodelados, sendos os anarquistas e o POUM excluidos (claro, pode-se perguntar o que é que os anarquistas estavam fazendo no governo...) e Caballero substituido por Negrin. Os anarquistas começaram a ser desarmados e, meses mais tarde, o POUM é proibido, sendo grande parte dos seus militantes e dirigentes presos (e alguns assassinados, como Andrés Nin).

Há fortes razões para argumentar que a politica "direitista" da Frente Popular (e do PC em particular) pode ter enfraquecido a causa republicana: nos primeiros tempos, o governo foi salvo pelo heroismo da classe operária (nomeadamene, dos anarquistas) - mas, a partir do momento em que o governo começa a reprimir os operários, porque é que estes haveriam de continuar a lutar pela República? Além disso, essa politica levou a Frente Popular a descurar oportunidades estratégicas - p.ex., um dos corpos de elite do exército franquista era a cavalaria moura (do então Marrocos Espanhol). Ora, se a República tivesse um governo de esquerda radical, que proclamasse o direito à autodeterminação do Marrocos Espanhol, talvez isso tivesse levado os "mouros" a mudarem de campo (recorde-se que a revolta de Abd el Krim tinha ocorrido há pouco mais de 10 anos).

Os comunistas também não se preocupavam muita com considerações de ordem militar na sua repressão contra os anarquistas e o POUM: durante os combates de Maio, estavam prontos a retirar unidades da frente para combater em Barcelona (enquanto as milicias do POUM e da CNT praticamente ignoraram os combates); aquando da ilegalização do POUM e da vaga de prisões que se seguiu, também ocorreu responsáveis que levavam ordens ou informações importantes serem detidos e os documentos que levavam simplesmente atirados para os arquivos da policia.

Finalmente, a 4 de Março de 1939, o "Exército Popular" (que, segundo um anarquista, "de popular só tinha o ser recrutado entre o povo, e isso acontece sempre") dá o seu proprio golpe de Estado (pelo vistos, confirmando as suspeitas dos anarquistas e poumasistas face aos corpos de oficiais...) e o novo "Conselho de Defesa Nacional" tenta negociar a rendição, mas Franco limita-se a ignorá-lo e a avançar com o seu exército pelo território republicano adentro. A 1 de Abril de 39, a guerra termina.

Teoricamente, a República Espanhola continuou a existir no exílio, até se ter auto-dissolvido em 21 de Junho de 1977, mas no final só era reconhecida pelo México e pela Jugoslávia.

Friday, July 14, 2006

Left Behind Economics

No Economist's View, um excerto de um artigo de Paul Krugman acerca da distribuição do rendimento nos EUA:

I’d like to say that there’s a real dialogue taking place about the state of the U.S. economy, but the discussion leaves a lot to be desired. In general, the conversation sounds like this:

Bush supporter: «Why doesn’t President Bush get credit for a great economy? I blame liberal media bias.»

Informed economist: «But it’s not a great economy for most Americans. Many families are actually losing ground, and only a very few affluent people are doing really well.»

Bush supporter: “Why doesn’t President Bush get credit for a great economy? I blame liberal media bias.” ...

(...)

Here’s what happened... The U.S. economy grew 4.2 percent, a very good number. Yet ... real median family income — the purchasing power of the typical family — actually fell. Meanwhile, poverty increased, as did the number of Americans without health insurance. So where did the growth go?

The answer comes from the economists Thomas Piketty and Emmanuel Saez... They show that even if you exclude capital gains from a rising stock market, in 2004 the real income of the richest 1 percent of Americans surged by almost 12.5 percent. Meanwhile, the average real income of the bottom 99 percent of the population rose only 1.5 percent. In other words, a relative handful of people received most of the benefits of growth.

(...)

In short, it’s a great economy if you’re a high-level corporate executive or someone who owns a lot of stock. For most other Americans, economic growth is a spectator sport.

Thursday, July 13, 2006

Ainda sobre CO2

Há uns tempos, Luis Pedro apresentava uma série de posições que o "espaço à direita do PS" poderia tomar. Uma delas, até a mim (aqui no "espaço à esquerda do PS") me pareceu uma boa ideia: que as licenças para emissão de CO2 deveriam ser leiloadas e não distribuidas por decisão politica.

À partida, parece daquelas medidas inatacáveis, já que até atinge dois objectivos muitas vezes em conflito: maior equidade e maior eficiência.

Essa medida aumentaria a equidade por duas razões: por um lado, as empresas mais poluidoras teriam que pagar (ou pagar mais - não sei se actualmente pagam alguma coisa) para poderem poluir, o que, em principio, até significaria que os "ricos" iriam contribuir mais para o Orçamento (claro que as receitas desse leilão poderiam ser usadas de muitas formas distintas: para reduzir os impostos, ou para financiar mais serviços públicos, ou serem distribuidas por toda a gente como um "dividendo do cidadão", etc.); além disso, também seria mais "equitativa" por outra razão - os "candidatos a poluidores", de certa forma, ficariam em mais "igualdade" entre eles, já que as licenças de poluição já não seriam atribuidas por decisões arbitrárias do governo (digamos que nos aproximavamos tanto da "equidade socialista" - igualdade de rendimentos - como da "equidade liberal" - igualdade apenas perante a lei)

Em termos de eficiência, essa medida também seria positiva: por leilão, é muito mais provavel que as licenças sejam concedidas ao projectos mais eficientes (já que os projectos de investimento que consigam produzir mais rendimento por cada unidade de CO2 emitido serão os que estão dispostos a pagar mais pelas licenças).

Só vejo um problema possível no sistema de leilão: é que uma empresa com muito dinheiro poderia comprar as licenças de emissão todas para asfixiar (quase literalmente) a concorrência e obter um poder de monopólio, mas duvido que este cenário seja realista actualmente.

Portanto, uma medida que estimularia tanto a eficiência como a equidade (e esta, tanto no sentido "socialista" como "liberal") deveria ter montes de defensores por todo o espectro politico. Porque é que isso não acontece? Tenho uma teoria: é que quando se fala em "pôr as empresas a pagar" ou em "substituir decisões politicas por mecanismos de mercado" há muita gente (à direita e à esquerda, respectivamente) que automaticamente "puxa de uma pistola".

Momento pluralista no Vento Sueste

Às vezes, até concordo com o Blasfémias.

[versão corrigida, face às chamadas de atenção de André Carvalho e aLaíde Costa]

Reforma agrária "confiscatória"


Eu até concordo com alguns pontos do artigo - nomeadamente, também acho que as medidas contra o alcool e a obesidade são uma parvoice, já que estes (ao contrário do fumo) não afectam terceiros.

No entanto, há um ponto (completamente marginal ao conjunto do artigo) que me suscitou a atenção: o autor fala nas "oppressive and confiscatory land «reform» laws". Ora, até à pouco tempo, a propriedade rural na Escócia ainda era feudal, pelo que os "direitos de propriedade" que estão a ser postos em causa pela reforma são direitos que surgiram (directa ou ou directamente) por concessão por parte da "Coroa". Ora, acho que mesmo para os anti-socialistas, é dificil negar que, se se aceita que o Estado/"Coroa" tenha legitimidade para conceder "direitos de propriedade", então também a tem para os retirar ou limitar; por outro lado, se considerarmos que o Estado não tem legitimidade para conceder "direitos de propriedade", então ainda menos base têm os supostos "direitos" dos proprietários rurais da Escócia (os tais que estarão a ser "oprimidos" e "confiscados").

Palestina/Israel

Afinal, a paz pode estar próxima!

Wednesday, July 12, 2006

Confissão pública

Hoje cometi um acto criminoso que ultrapassou todos os limites imagináveis de baixeza: tomei banho com bandeira vermelha (bem, na verdade tomei banho entre uma bandeira vermelha e uma amarela).

José Castillo (1901-1936)



A 12 de Julho de 1936, em Madrid, José Castillo, tenente da Guardia de Assalto e militante socialista, era assassinado por activistas de extrema-direita (provavelmente da Falange). Em retaliação, alguns dos seus colegas, horas depois, assassinam o politico conservador Calvo Sotelo.

Os dois foram sepultados no mesmo dia, com punhos erguidos no funeral de Castillo e braços estendidos no de Sotelo.

Cinco dias depois, o exército tentava um golpe e começava a Guerra Civil de Espanha (o golpe já estava marcado, mas a morte de Calvo Sotelo contribuiu para apressar os planos e convencer alguns oficiais que estavam indecisos).

Tuesday, July 11, 2006

O meu Simplex

Será que seria uma boa ideia abolir o imposto do carro, o imposto de selo, os impostos imobiliários e o IVA e incluir tudo no IRS?

Imagino que isto iria contra muitas regras da UE, mas facilitaria muito o processo de cobrança de impostos (tanto para o Estado como para os contribuintes). É verdade que alguns deste impostos são receita dos municipios, mas era só uma questão de o fim dessas receitas ser compensado com uma participação no IRS.

Saturday, July 08, 2006

Porque será que as mulheres portugueses são das que trabalham mais fora de casa?

O Economist's View fez referência a um artigo de Helen Mees, Europe Leisure Trap, aonde entre outras coisas, se adianta a hipotese de que o "estado social" europeu fazer com que as mulheres europeias tenham mais tendência a "ficar em casa" do que as norte-americanas. Primeiro, ao ler isso, pensei "Esta mulher está doida - nos EUA é que continua a haver mulheres a ficar em casa (veja-se séries com Desperate Housewifes). Pelo contrário, na Europa a ordem quase "natural" das coisas é as mulheres trabalharam - eu não conheço nenhuma «doméstica» com menos de 50 anos!".

Mas, afinal, lendo os comentários ao post, sobretudo os de Isabel (creio que uma portuguesa a viver nos EUA), cheguei à conclusão que eu estava a confundir a "Europa" com Portugal - Portugal, afinal, é dos paises europeus em que as mulheres trabalham mais. Nos seus comentários, Isabel levanta a hipotese de ser por razões económicas, mas nota que isso também se aplicaria à Grécia. Também fala do papel da familia alargada no apoia às mães que trabalham, mas isso se calhar valia para todos os paises mediterrãneos.

Realmente, é uma questão curiosa.

O DDT e a malária

N'O Insurgente, BrainstormZ, num post sobre a malária, cita um artigo do Ludwing von Mises Institute argumentando que a luta contra a malária falhou devido à proibição do uso de DDT, pesticida usada para combater o mosquito que transmite a malária (ou paludismo).

Só que o que foi proibido, nos anos 70, foi o uso do DDT como pesticida agricola - o seu uso para combate a doenças (nomeadamente a malária) continuou, o que parece deitar por terra o argumento de Lew Rockwell (o autor do tal artigo).

Na verdade, até há algumas razões para crer que o uso agricola do DDT terá contribuído para a expansão da malária. Porquê? Porque, quanto mais se usa o DDT na agricultura, mais DDT existirá no ecosistema em geral. Ora, a existência de DDT "difuso" no ambiente contribui para o aparecimento, entre as várias espécies animais, de estripes resistentes ao pesticida, nomeadamente de mosquitos Anopheles resistentes. Ou seja, quanto mais DDT é utilizado, menor é a eficiência de uma dose de DDT, o que leva a que, quanto mais o DDT for utilizado na agricultura, menor será a eficiência do DDT utilizado na luta contra a malária.

Nada que não conheçamos da vida quotidiana - se uma pessoa toma um dado medicamento muitas vezes, ele acaba por fazer menos efeito do que faria se tomado só nos casos de maior necessidade.

Wednesday, July 05, 2006

Who owns Bolivia?


"Morales’ nationalization of Bolivia’s oil and gas fields sent shock waves through the international community. During his campaign, Morales made clear his intention to increase state control over national gas and oil. But he had made it equally clear that he did not intend to expropriate the property of energy firms – he wanted foreign investors to stay. (Nationalization does not, of course, necessarily mean expropriation without appropriate compensation.) Perhaps surprising for modern politicians, Morales took his words seriously."

(...)

"Morales’ actions are widely supported by Bolivians, who see the so-called privatizations (or “capitalizations”) under former President Gonzalo “Goni” Sanchez de Lozada as a rip-off: Bolivia received only 18% of the proceeds! Bolivians wonder why investments of some $3 billion should entitle foreign investors to 82% of the country’s vast gas reserves, now estimated to be worth $250 billion. While there has not yet been full disclosure of returns, or an audit of the true value of investments, it appears that investors would, at the old terms, have recouped all their money within just four years."

(...)

"Moreover, many deals were apparently done in secret by previous governments – and apparently without the approval of Congress. Indeed, because Bolivia’s Constitution requires the approval of Congress for such sales, it isn’t clear that Morales is nationalizing anything: the assets were never properly sold. When a country is robbed of a national art treasure, we don’t call its return “re-nationalization,” because it belonged to the country all along."

Tuesday, July 04, 2006

Resposta a questões sobre o aborto

N'O Amigo do Povo, Fernando Martins põe algumas questões aos defensores da legalização do aborto. Estas são as minhas respostas pessoais a algumas dessas questões.

"Em primeiro lugar gostava de saber se alguém pode garantir que no dia em que a "IVG" seja despenalizada acaba o "aborto" clandestino em Portugal. Se não acabar, e não vai acabar, o que é que os defensores da sua despenalização propõem que se faça? Prendem-se as mulheres que o façam "clandestinamente" – fora do sistema de saúde reconhecido por lei – ainda que dentro dos prazos previstos na lei?"

Não. Se alguém não quer beneficiar do direito a ter um aborto em condições e, em vez disso, prefere uma parteira do bairro, isso é problema dela.

"Ou indiciam-se e julgam-se apenas os médicos, enfermeiros ou parteiras que pratiquem o acto? Ou talvez apenas o senhorio do imóvel em que tão triste acontecimento tenha lugar…"

Desde que os médicos, enfermeiros ou parteiras não recorram a fraude ou publicidade enganosa e declarem o rendimento obtido nessa actividade, não vejo porque se há de indiciar alguém. No entanto, caso a sua actuação cause danos físicos (ou mesmo a morte) às suas clientes, em principio deverão ser responsabilizados por isso.

"E o que é que se vai fazer às mulheres que abortem fora do prazo, clandestinamente? Um dia, uma semana, um mês depois de ter expirado o prazo previsto por lei para uma situação em concreto. O que é que se faz? Essas mulheres seguem em liberdade? Pagam uma multa? Dá-se-lhes uma carta com pontos? Ao quinto aborto clandestino vai dentro?"

Em vez de prisão, como é actualmente, devem pagar uma multa (eventualmente substituida por trabalho).

"Ou aqueles que hoje defendem a despenalização do aborto por motivos sociais, económicos, ideológicos e culturais certamente louváveis consideram afinal que o aborto deve ser livre até ao dia do parto?"

Não. Defendo que, regra geral, o aborto deve ser legal até às 12 semanas (este artigo de Carl Sagan dá uma boa justificação para isso). Ás vezes, até tenho algumas dúvidas sobre a alinea da lei actual que autoriza o aborto até às 16 semanas caso "a gravidez tenha resultado de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual" (até faria mais sentido esse alargamento para "os casos de perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida").

"Legalizando-se a IVG, por razões sócio-económicas, até às 16 semanas acaba o aborto clandestino em Portugal e nunca ninguém mais será julgado e condenado por causa de tão sinistro tema?"

Creio que esta pergunta já está respondida nas respostas anteriores.

"[D]igam-me por favor ao fim de quantos abortos legais será uma mulher obrigada a alterar o seu comportamento ou até, e pelo menos, a ser civilmente responsabilizada. Presumo que nunca."

A minha resposta - pode ser chocante para algumas pessoas - é exactamente essa: nunca (porque é que alguém deve ser obrigado a alterar um comportamente que é - ou seria - legal?).

Sunday, July 02, 2006

Saturday, July 01, 2006

Reflexões sobre a expressão "extrema-esquerda"

Nos comentários a este post do Insurgente, eu e o A.A.Alves estivemos a discutir o que se entende por "extrema-esquerda".

Eu costumo seguir a definição tradicional - "extrema-esquerda" é o que estiver à esquerda do PC: é a definição usada, p.ex., na Wikipedia francesa, nas sub-categorias do blog Estudos sobre o comunismo (de Pacheco Pereira), quando se diz que "em 75, a extrema-esquerda só elegeu um deputado" (ou quando, em 91, na noite eleitoral, se falava "na possível eleição de um deputado da extrema-esquerda"), etc.

Mas, realmente, será que este definição ainda fará sentido nos dias de hoje? Nos anos 60/70 (aonde creio que surgiu este uso da expressão) fazia todo o sentido atribui uma designação própria às correntes à esquerda do PC: nesse tempo a ideologia comunista "ortodoxa" era uma corrente importante no plano das ideias (importância que ultrapassava os seus apologistas - os livros e ensaios escritos a criticar o comunismo soviético também faziam parte dessa "importância"), e a URSS o segundo país mais poderoso do mundo (além disso, nos paises latinos, o PC tinha um papel quase mitológico - se num livro ou filme italiano, francês ou português cuja acção se passe entre 1930 e 1970 se falar no "Partido", sem mais, já se sabe qual é). Assim, a atitude face ao PC e à URSS era um ponto fundamental para classificar as correntes politicas, pelo que os movimentos que se lhe opunham "pela esquerda" constituiam como que um "agrupamento natural": por maiores que fossem as diferenças e incompatibilidades mútuas entre maoistas, trotskistas, "comunistas de conselhos", anarquistas, etc. até fazia algum sentido pô-los todos nesse "saco" - e já que era preciso dar um nome ao "saco", o que fazia mais sentido até era "extrema-esquerda".

Facilmente se vê que não fazia sentido agrupar o PC com esses movimentos: aplicar a mesma etiqueta aos que diziam que a URSS e os seus multiplos satélites eram "o sal da terra e o sol da terra" e aos que diziam que eram "social-fascistas", "estados burocráticamente degenerados", "capitalistas de estado", etc. seria um absurdo (o facto de, dentro daquilo a que se convencionou chamar "extrema-esquerda", existirem as mesmas contradições a respeito da China, da Albânia, ou da Nicarágua não era tão relevante, devido exactamente a esses regimes serem menos relevantes).

Além disso, creio que também havia outra boa razão para chamar "extrema-esquerda" ao conjunto "movimentos à esquerda do PC" em vez de ao conjunto "PC e movimentos à sua esquerda" - uma diferença de estratégia politica. Independentemente do tipo de regime que pretendiam construir, os movimentos usualmente considerados como de "extrema-esquerda" tinham todos uma certa tendência para usarem meios de "acção directa" (nomeadamente ocupações); pelo contrário, os PC ortodoxos usualmente preferiam o método de infiltração no aparelho de estado, para fazeram a revolução "a partir de cima" (note-se, p.ex., que as ocupações no Alentejo começaram no Alto Alentejo, aonde a influência do PC era mais fraca).

Diga-se que, em termos de coerência meios-fins, tanto os PCs como alguma "extrema-esquerda" eram coerentes - os primeiros defendiam uma sociedade totalmente dirigida pelo governo e pretendiam atingi-lo pela "revolução a partir de cima", enquanto parte da "extrema-esquerda" (no caso português de 75, basicamente o MES, o PRP, a LUAR e as várias facções trotskistas) defendia o "poder popular de base" e pretendia atingi-lo pela "revolução a partir de baixo"; já a "extrema-esquerda" maoista e/ou pró-albanesa que pretendia usar a "revolução a partir de baixo" para construir um regime à maneira de Pequim ou Tirana (que eram, fundamentalmente, cópias a papel quimico de Moscovo) não me parece tão logicamente coerente. No entanto, refira-se que, sobretudo, os pró-albaneses eram melhores - na minha prespectiva pessoal de "melhores", bem entendido - na prática do que na teoria: apesar da sua adesão ao centralismo estalinista, a UDP, em Portugal, foi talvez quem mais dinamizou as Comissões de Moradores; também na Etiópia, a Frente Popular de Libertação do Tigré/Frente Democrática Popular Revolucionária de Etiópia (hoje em dia talvez o principal aliado dos EUA na zona, mas, nos anos 70/80, seguia a linha albanesa), desde a guerra civil contra o regime pró-soviético que fez uma politica de descentralização do poder a favor das comunidades locais.

Mas, após este preambulo, vamos ao que interessa: será que, nos dias de hoje, fará sentido continuar-se a considerar "extrema-esquerda" como "aquilo que está à esquerda do PC"? O primeira motivo, desde 1989 que perdeu a razão de ser: o bloco soviético desapareceu e o comunismo "tradicional" tornou-se uma ideologia em vias de extinção, logo usar a atitude face a eles como critério de delimitição torna-se um bocado anacrónico. Além disso, grande parte da chamada "extrema-esquerda" também abandonou a sua tendência para recorrer à acção extra-parlamentar como método de luta politica (hoje em dia, praticamente só os anarquistas e os "autonomistas"- e grupos como os "okupas", frequentemente integrados com os referidos - se dedicam a ocupações, actos de "desobediência civil", etc.).

Mas, independentemente aonde pusermos a fronteira da "extrema-esquerda", creio que eu (sendo as minhas ideias inspiradas por uma salganhada de anarquismo, "comunismo de conselhos" e trotskismo) devo ficar lá...

[Os meus leitores devem estar a pensar "o que é que esta simples questão de nome interessa?"; provavelmente nada, mas é o que me deu inspiração para escrever]

Friday, June 30, 2006

A praia de Gaza

A respeito do alegado "massacre" de uma familia palestiniana pelo exército israelita numa praia da faixa de Gaza, Fernando C. Gabriel escreveu o post "Histeria":

"Perante o sólido e detalhado relatório apresentado pelas Forças Armadas israelitas, precisando o número e natureza das munições usadas na resposta a um dos inúmeros ataques palestinianos lançados a partir dos territórios de Gaza, a HRW reconhece a credibilidade do dito relatório. Ou seja: reconhece, tarde e a más horas, que participou activamente em mais uma operação de propaganda terrorista contra um Estado de direito."

O que a Humans Rights Watch disse acerca do relatório israelita:

"The Israel Defense Forces’ (IDF) investigation of the Gaza beach explosion that killed eight Palestinian civilians and wounded dozens is incomplete because it excludes important evidence"

(...)

"The meeting revealed that the IDF’s conclusion that it was not responsible for the deaths on the beach was based exclusively on information gathered by the IDF and excluded all evidence gathered by other sources"

(...)

"«An investigation that refuses to look at contradictory evidence can hardly be considered credible,» said Marc Garlasco, senior military analyst at Human Rights Watch."

Será a isto que FCG se refere com "reconheceu da credibilidade do dito relatório"?

Nunca houve uma guerra entre dois paises...

... democráticos / com MacDonalds / praticantes de golf / etc.

Há muitas teorias destas. Há dias, foi Rui Albuquerque do Blasfémias a repetir a tese que "permanece como uma das poucas leis universais das Relações Internacionais o facto de, até à data, não se ter registado nenhuma guerra entre dois países com restaurantes Mcdonald's".

Esta tese ("The Golden Arches Theory of Conflict Prevention") foi lançada em 1996 por Thomas Friedman - claro que a ideia não era de que os MacDonalds tornavam as pessoas pacificas: era que só era rentável para a MacDonalds abrir restaurantes em paises que tivessem um mínimo de desenvolvimento económico (e, sobretudo, uma classe média com algum poder de compra), e que era esse grau de desenvolvimento que tornava improvável uma guerra entre países desse tipo.

No entanto, 3 anos depois, em 1999, ocorreu o que foi considerada a primeira "McGuerra" - NATO vs. Sérvia (ainda que o McDonalds em Belgrado tenha fechado no 2º dia da guerra); nesse ano houve também uma espécie de guerra entra a India e o Paquistão, ambos com MacDonalds (embora deva ser referido que Friedman, quando elaborou essa teoria, excluiu explicitamente atritos fronteiriços do género que houve em Caxemira, que não chegarão a ser bem guerras).

Mas, mesmo em 1996, a teoria já tinha nascido falsa - o McDonalds está no Panamá desde 1971 (lembram-se disto?).

Outras dessas teorias também têm muitas excepções (note-se que os seus proponentes não dizem "é raro haver guerras entre dois paises que ...", dizem "nunca houve uma guerra entre dois paises que..."); meio a satirizar estes teorias, Matthew White diz que nunca houve uma guerra entre dois paises com mais de 160 automóveis por mil habitantes (avisando desde logo que, caso alguêm descubra alguma excepção, ele simplesmente sobe a fasquia até a observação estar certa) - no fundo, o que ele diz é que é díficil 2 paises ricos entrarem em guerra, já que têm muito a perder e pouco a ganhar.

Mas o meu ponto é que toda esta especulação interessa muito pouco - estar a dizer "nunca 2 paises que... entraram em guerra" significa quase nada, pelo simples facto que é bastante raro 2 paises (democráticos ou não, com ou sem Mcdonalds, com muitos ou poucos campos de golf, ricos ou pobres...) entrarem em guerra. Na verdade, as relações internacionais funcionam num "estado de natureza" muito pouco hobbesiano - as guerras entre estados são raras comparadas com as guerras civis, pelo que adianta pouco estar a discutir maneiras de evitar as guerras entre estados (o facto de as guerras civis serem mais frequentes que as guerras entre estados também indicia que criar um "Estado Mundial" talvez não seja um bom caminho para a "paz mundial"...).

Monday, June 26, 2006

Re: Comentários Finais

Dos Santos escreveu os seus comentários finais sobre esta discussão. Vamos lá ver se estes são os meus.

"As teorias anarco-socialistas andam às voltas para explicar que a propriedade é comunitária mas pode ser gerida individualmente. É importante referir que mesmo que isto fosse verdade, haveria uma entidade em representação da comunidade que estaria responsável por fazer a distribuição da propriedade. Isto é uma forma de governo. Não é uma anarquia. Sugerir que tudo pode ser resolvido em assembleia geral, para além de muito criativamente fértil e romântico, constitui uma forma de democracia e não uma anarquia."

(...)

"O Miguel diz que há "soluções propostas" para os casos de distribuição da propriedade mas acontece que numa sociedade anarquista não há "soluções" desse género, há processos descentralizados. As pessoas agem por si mesmas. Estar a querer inventar soluções para a distribuição de terrenos é o mesmo que ter uma agencia central (novamente, leiam os mais confusos qualquer palavra mais eufemística) a decidir quem tem direitos a explorar que terreno. Ao passo que num regime de propriedade privada há um reconhecimento mútuo feito pelas pessoas, nessa situação, essa agencia não tem legitimidade para fazer tal coisa a menos que seja reconhecida pelos envolvidos (o que é praticamente impossível)."

Aqui já dei um exemplo de como a propriedade comunitária pode ser gerida sem um autoridade centralizada.

Essas "soluções" (como a que referi acima, que não implica nenhuma "agência central") podem ser implementadas com base no "reconhecimento mútuo feito pelas pessoas". Se, quando Dos Santos diz que tal é "praticamente impossível", se está referir a ser impossivel todos os individuos envolvidos concordarem com isso, tem razão, mas o seu raciocionio pode ser virado ao contrário - também é praticamente impossível todos os individuos envolvidos concordarem com um dado sistema de propriedade privada.

P.ex., mesmo numa sociedade povoada exclusivamente por anarco-capitalistas, continua a haver questões como "O usucapião acontece ao fim de 25 ou de 50 anos? Para sobrevoar um terreno a menos de 2 Kms de altura, um avião tem que pedir autorização ao dono do terreno, ou apenas se for a menos de 100 metros? Quantos décibeis de ruido eu posso fazer na minha propriedade sem se considerar que estou a invadir a propriedade do meu vizinho? A propriedade intelectual não deve existir, deve durar 15 anos após a morte do autor, ou 50 anos? Que penas para quem infringir as regras fixadas para as questões anteriores (ou melhor dito, que compensação têm direito as vítimas dessas infracções)?" (o ancap David Friedman - filho do Milton - tem um texto em que, entre outras coisas, aborda algumas questões que podem surgir numa sociedade anarco-capitalista) e isso implica normas gerais, que só por milagre serão aceites por todos os individuos envolvidos.

Além disso, se, como diz o Dos Santos, a propriedade existe graças ao "reconhecimento mútuo", então sistemas de propriedade mais igualitários terão mais possibilidade de sobreviverem do que sistemas mais desigualitários: quanto mais desigualmente estiver distribuida a riqueza, menor é a probabilidade do tal "reconhecimento mútuo" (estilo "eu respeito a tua propriedade, e tu respeitas a minha") funcionar. Aliás, até anarco-capitalistas como Bruce Benson são da opinião que uma sociedade sem estado pode funcionar melhor se tiver alguns mecanismos de resdistribuição.

"O Miguel acha que o resultado final da "anarquia" é semelhante ao da democracia"

Não sou só eu - o Dos Santos também acha que "A sugestão de que numa sociedade sem Estado, o sistema de direitos de propriedade seria o reconhecido pela generalidade das pessoas nessa área é a correcta" (o que era a base da minha ideia de que a anarquia acabaria por ser parecida com uma democracia).

Mas vendo as coisas de outra maneira (e volto a lembrar que não sou anarquista) talvez possamos considerar que o anarco-socialismo é, na realidade, uma micro-democracia (decisões tomadas democraticamemente à menor escala possível), o "nacional-anarquismo" (i.e., fascismo em versão "small is beutifall") será uma "microcracia" ("estados" geograficamente minúsculos, independentemente do seu regime interno), e o anarco-capitalismo uma forma de feudalismo (governo exercido pelos proprietários fundiários) - note-se que no anarco-capitalismo não pus nenhum "micro": nada impede uma propriedade "anarco-capitalista" de ser maior que um Estado actual.

"Quando disse, e digo, que as pessoas defendem naturalmente a propriedade privada não me refiro em termos políticos. O exemplo prático na política é sempre muito bonito de argumentar porque parece mostrar que as pessoas gostam de propriedade, mas bem regulada ou limitada, quando na realidade esta projecção idealizada se aplica quase exclusivamente sempre à propriedade alheia"

Irrelevante. Claro que a maior parte das pessoas preferiria ter poder absoluto sobre a sua propriedade e que a propriedade alheia fosse limitada. E depois? O facto de a maioria esmagadora das pessoas votarem em partidos marxistas, social-democratas, (ou mesmo democratas-cristãos), etc. indica que consideram que as vantagens de limitar a propriedade alheia são maiores que as desvantagens de ver a sua própria propriedade limitada, logo, se o Estado desaparecesse, continuaria a haver, pelo menos, um sistema de propriedade limitada (recorde-se que um dos poucos pontos em que houve acordo entre mim e Dos Santos foi que "o sistema de direitos de propriedade seria o reconhecido pela generalidade das pessoas numa determinada área").

"não sei porque foi dito na altura que «parece (...) implicito que há "sociedades sem estado" que "não reconhecem propriedade privada além dos bens de consumo imediatos", o que (...) corta pela raiz a tese que o anarco-socialismo é "impossivel" e "absurdo"» uma vez que nunca disse aqui que não poderiam existir bens geridos de forma voluntária colectivamente (comunidades, cooperativas, etc.)"

A propriedade colectiva existente nessas sociedades não é "voluntária" (no sentido de ser uma associação entre proprietários privados). P. ex. uma forma quase universal de propriedade comunitária é uma aldeia, de tantos em tantos anos, dividir a sua terra pelas familias; ora, num sistema desses, alguêm que, na nova distribuição fique com um lote mais pequeno do que tinha antes, não pode "voluntariamente" recusar a redistribuição.

Já agora, diga-se que os "voluntarly establish[ed] (...) mutual insurance arrangements" que Benson fala no texto que citei também são de "voluntariedade" muito duvidosa: afinal, se esses sistemas se mantêm atravês do ostracismo social dos não-contribuintes, e numa sociedade em que a segurança do individuo é garantida pelo apoio dos outros individuos, isso é quase a mesma coisa que ser obrigatório contribuir.

"Tanto os exemplos dados (de coisas completamente descabidas) como reclamar propriedade sobre um deserto ou sobre praias consideradas públicas dão-me a ideia de que o Miguel Madeira ou está muito confuso sobre o que é a propriedade privada ou simplesmente se lembra de uns exemplos bons e propagandísticos para confundir os seus leitores."

Os exemplos têm a ver com a questão da aquisição original da propriedade (que é a questão que está por detrás de todos os debates sobre a propriedade) - claro que os exemplos teriam de ser de coisas fora do usual: a "aquisição original" é algo raro, que só acontece em casos muito especiais. E o exemplo da lagoa no deserto não é meu - limitei-me a roubar o exemplo dado pelo liberal Kirzner.

"Não sei onde é que o Miguel conclui que a propriedade natural é proudhoniana em vez de capitalista. Retirar exemplos de animais, crianças (ou mesma a situação extrema de um naufrágio -- ler esta entrada que se aplica) para extrapolar posteriormente que assim é entre humanos adultos é um raciocínio indutivo, não dedutivo."

Em primeiro lugar, é curioso que, mais atrás, no 2ª parágrafo, Dos Santos tenha criticado o anarco-socialismo por estar destacado "do realismo e do empirismo" e depois criticar o meu raciocinio por ser "indutivo, não dedutivo" (creio que o empirismo pressupõe o raciocinio indutivo).

Os exemplos ideias são mesmo os de crianças e casos como naufrágios - a "propriedade natural" é aquela que emerge "naturalmente", ou seja, é aquela que os individuos estabelecem "instintivamente" quando colocados num estado pré-"sociedade organizada", em que ainda não há leis, propriedade atribuida, etc. Ora, os humanos adultos em situações "normais" vivem num mundo em que a propriedade já está atribuida, logo não podemos observá-los a estabelecerem direitos de propriedade. Quanto aos exemplos tirados dos animais, fazem todo o sentido - afinal, grande parte da nossa herança genética é pré-humana, logo, se queremos ver qual é o sistema de propriedade "instintivo", observar os animais é capaz de não ser má ideia.

Já agora, também não vejo aonde é que o Dos Santos foi buscar a ideia de que a propriedade natural é capitalista em vez de proudhoniana (bem, ele não disse isso, mas parece-me implicito): eu dei exemplos (talvez maus) da propriedade "proudhoniana" a estabelecer-se espontaneamente, mas ele não deu exemplos nenhuns da propriedade "clássica" a estabelecer-se espontaneamente.

"A propriedade proudhoniana refere um direito de ocupação proveniente do "uso regular", mas este uso regular está por definição dependente de um intervalo de tempo a ele associado que ninguém tem a legitimidade de definir arbitrariamente contra a vontade dos indivíduos que ocupam os locais em questão."

Mas é isso que está em questão (criticar a propriedade "proudhoniana" com o argumento de que esta é ilegitima à luz das regras da propriedade "clássica", realmente é andar às voltas numa rotunda...).

"O Miguel está constantemente a referir que eu não uso argumentos sobre a eficácia/eficiência ou apetibilidade do sistema para avaliar negativamente as formas de anarco-socialismo. Como não estou, por princípio, interessado em maximizar o "bem-estar" do colectivo (impossível de definir) em detrimento do bem-estar individual de cada elemento do colectivo, não vejo qual a relevância do assunto"

A razão porque eu estou constantemente a referir isso é porque a mim também não me apetece entrar nessa discussão (esta já dá pano para mangas, como se viu...), e portanto, era mesmo para centrar a discussão nos pontos que discutimos.

Sunday, June 25, 2006

A propriedade "natural"

Por vezes argumenta-se que a propriedade privada é algo que faz parte da natureza humana (p.ex., o Dos Santos nesta discussão com o agitador).

Mas o que é "espontâneo" e "natural" não é a propriedade "capitalista", é a propriedade "proudhoniana" (i.e., definida por "ocupação e uso", à maneira dos "anarquistas individualistas").

Para começar, olhemos para os animais - o território de caça de um gato, o ninho de um casal de cegonhas, a toca de um grupo de coelhos, etc. são "deles" enquanto eles os usarem regularmente. Se eles deixarem de os usar (por morte, por se mudarem para outra área, por deixarem de necessitar deles, etc.), em breve outro animal se apossará deles sem pedir autorização a ninguém.

Olhe-se também para a "propriedade" que surge espontaneamente entre as crianças - no recreio da escola ou na rua. É natural que cada grupo de crianças se estabeleça num dado território e por vezes até reaja com hostilidade se outro grupo ocupar o seu espaço de brincadeira (embora diga-se que as lutas violentas entre grupos de crianças - ou mesmo de jovens - normalmente são mais pela "diversão" do que motivadas por qualquer conflito real de territórios ou coisa assim...). Mas é outra vez a mesma coisa - o território só "é deles" enquanto eles ocuparem regularmente esse território: se eles mudarem para outra escola, ninguém lhes vai pedir autorização para brincar no seu antigo "território"; mais, até é provavel que a mesma área seje "propriedade" de um grupo no turno da manhã e de outro à tarde.

Imagine-se agora um grupo de naúfragos que chega a uma ilha deserta. Claro que ninguém faz ideia do que eles farão exactamente, mas há certas hipoteses mais prováveis que outras.

P.ex, se um dos naufragos chegar morto à costa, e se tiver objectos úteis (digamos, um canivete) de certeza que os outros, mesmo que conheçam a familia do morto, vão utilizar esses objectos sem se preocuparem minimamente com a vontade do proprietário. Porque é que eu faço a referência a "mesmo que conheçam a familia do morto"? Porque, muitas vezes, os liberais/ancaps tentam contornar esta questão respondendo "bens de propriedade desconhecida podem ser livremente apropriados" - ora, se conhecerem os familiares, o proprietário não é "desconhecido": os naúfragos sabem quem são os herdeiros do morto. Até é provável que, se regressarem à civilização, devolvam os seus objectos pessoais à familia, mas de certeza que não lhe irão pagar uma renda, ou uma indemnização por "uso indevido de propriedade".

Continuando a seguir os nossos naúfragos, como é que eles irão gerir os recursos da ilha? O mais provável é que, para os bens abundantes, usem a regra do "cada um serve-se à vontade", e para bens raros adoptem uma divisão igualitária entre os interessados (note-se que estou apenas a falar dos bens pre-existentes - não estou a dizer que eles irão repartir igualitáriamente o peixe que pesquem). De certeza que, para bens escassos, não irão adoptar a regra de "o primeiro a usá-los passa a ser o dono" (que é a regra que os liberais - pelo menos os mais preocupados com questões de principio - defendem).

Se eles se dedicarem à agricultura, é natural que reconheçam o terreno que cada um cultiva como sua propriedade, mas quase que apostava que se um dos naúfragos decidisse, todos os anos, cultivar um terreno diferente do que havia cultivado no ano anterior, apenas lhe seria reconhecida a propriedade do terreno que cultivava em cada momento (ou seja, é duvidoso que alguêm fosse reconhecido como proprietário de quase toda a ilha através desse expediente).

Ora, todos estes actos, que parecem simples bom-senso, mais não são que a propriedade proudhoniana ("o dono é quem usa regularmente o bem em questão" - ou qualquer coisa como "possession is ten tenths of the law") a funcionar.

Claro que o facto de a propriedade "proudhoniana" ser natural e espontânea e a "capitalista" artificial não significa que o sistema proudhoniano seja "bom" por isso (eu até acho um sistema que pode ser muito complicado na prática, sobretudo numa sociedade em que a economia assente bastante nos "bens produzidos", em vez de em recursos naturais) - afinal, há muitas coisas artificias boas (computadores, óculos, vacinas, guarda-chuvas, etc.). Mas a questão é que quem está constantemente a invocar o argumento "o nosso sistema é que é natural" são os defensores da propriedade "capitalista".

A polémica Carson-Reisman

Pelos vistos, há uma acesa polémica entre Kevin Carson e George Reisman acerca do mutualismo:

George Reisman's Double Standard, de Carson,
Mutualism's Support for Exploitation of Labour and State Coercion, de Reisman, 23/06/2006
There He Goes Again, de Carson, 20/06/2006
Mutualism, a Philosophy for Thieves, de Reisman, 18/06/2006

Espero que ainda tenham paciência para me aturarem com este assunto...

No seu post "No comunismo não há voluntários", Dos Santos escreve:

"Numa sociedade livre, as pessoas podem fazer valer os seus direitos quando bem entenderem enquanto numa sociedade anarco-comunista ninguém pode fazer nada porque é forçado a "partilhar" por defeito. Deixa de ser uma sociedade livre onde as coisas são partilhadas por necessidade ou vontade própria para se tornar numa em que nem se pode dizer que haja realmente partilha, mas sim uma obrigação de manter a sua propriedade como colectiva ou comunitária. Não tem outro nome senão o de totalitarismo."

Naquilo a que Dos Santos chama "sociedades livres", as pessoas também não "podem fazer valer os seus direitos quando bem entenderem". Como Dos Santos considera que o exemplo que dei da praia é infeliz, vou dar um exemplo da autoria de um liberal, o economista Israel Kirzner:

"Consider . . . the case . . . of the unheld sole water hole in the desert (which everyone in a group of travellers knows about), which one of the travellers, by racing ahead of the others, succeeds in appropriating . . . We notice that the energetic traveller who appropriated all the water was not doing anything which ... the other travellers were not equally free to do."["Entrepreneurship, Entitlement, and Economic Justice", citação extraída daqui]

Segundo Kirzner, o primeiro membro de um grupo de viajantes no deserto que chegue a um lago de água pode legitimamente proclamar-se seu proprietário (imagino que isso requeira alguma forma de uso, como beber água). Ora, isto significa que, no que Kirzner (e se calhar também Dos Santos) considera uma "sociedade livre", os outros viajantes não "podem fazer valer os seus direitos quando bem entendem" - eles só podem beber água se o novo proprietário autorizar (os liberais - sobretudo os ancaps - tentarão contornar este ponto argumentando que os outros viajantes não têm nenhum direito a beber água, mas isso é um raciocinio totalmente circular).

Dos Santos argumenta que a implementação de um regime anarco-socialista só seria legítima se tivesse a concordãncia de 100% dos individuos afectados por essa implementação. Mas, por essa ordem de ideias, a proclamação de um determidado bem como propriedade privada também só seria legitima se tivesse a concordãncia de 100% dos individuos afectados por essa proclamação (o que inclui não apenas o individuo que faz essa proclamação, mas todos os individuos das redondezas - no exemplo, todos os viajantes são potencialmente afectados pela proclamação da lagoa como propriedade privada).

Já agora, diga-se que na vida real (e sobretudo numa sociedade em que o Estado estivesse ausente - como, aliás, é o mais provável no meio do deserto) esta apropriação de propriedade dificilmente ocorreria: quando o primeiro viajante dissesse "Esta lagoa é minha!", os outros provavelmente pensariam "Já apanhou Sol de mais." e iriam à mesma beber água. E, caso o proprietário imaginário tentasse fazer algo para obrigar os outros respeitar a sua propriedade imaginária, provavelmente iria (parafraseando Salvador) levar uma valente chapada na tromba. Não hando juízes nem notários o que aconteceria a essa pessoa era apanhar uma grande malha, para nunca mais se lembrar de vir aplicar o conceito de propriedade quando ele não faz sentido. Porque é assim que funcionam os humanos.

Saturday, June 24, 2006

Continuando...

Dos Santos:

"Não creio ter dito que o anarco-comunismo era «impossível»"

Eu tinha ficado com essa impressão. Nesse caso, vamos pôr a questão de outra maneira - o Dos Santos acha que é possivel uma sociedade que seja, simultaneamente:

a) uma sociedade sem Estado, isto é, sem uma entidade centralizada que reclame o monopólio da violência legítimo num dado território?

b) uma sociedade em que a propriedade (ou parte substancial dela) seja comunitária (eventualmente com usufruto privado)?

Se a resposta fôr "sim", era esse o meu ponto principal com esta série de posts (claro que, se a resposta fôr "sim", não me parece fazer grande sentido Dos Santos continuar a falar em "pseudo-anarquistas").

"Preocupante mesmo é que os exemplos com que o Miguel tenta refutar a necessidade da propriedade privada sejam de sociedades classificadas como primitivas. Talvez fosse boa ideia ter-se isso em consideração."

O objectivo do exemplo não era refutar a necessidade de propriedade privada; era refutar a necessidade de um Estado para impedir o aparecimento de propriedade privada (ou seja, provar que, mesmo sem Estado, pode haver sociedades em que os principais recursos sejam propriedade comunitária).

Claro que o exemplo teria que ser de sociedades primitivas - não há outros exemplos de "sociedades sem Estado".

Ou melhor, há o exemplo da "anarquia internacional", que até me parece mais parecido com o anarco-socialismo do que com o anarco-capitalismo (embora seja, acima de tudo, uma "anarquia sem adjectivos") Porquê? Porque normalmente considera-se que os "soberanos legítimos" de um país são os seus habitantes (o que corresponde ao conceito anarquista clássico de "ocupação e uso"), não quem tenha adquirido adquirido esse pais no mercado (como seria de acordo com os principios anarco-capitalistas).

Friday, June 23, 2006

O iPod, a China, etc.

O Arrastão e o Blasfêmias estão em polêmica por causa das condições de trabalho na China.

A linha da argumentação é conhecida: no Arrastão fala-se da exploração a que as multinacionais submetem os trabalhadores na China; no Blasfêmias argumenta-se que, sem essas multinacionais, os chineses estariam muito pior.

Provavelmente, têm ambos razão. Mas vamos ver outra questão? Imagine-se um boicote nos paises desenvolvidos às empresas que não respeitam um determinado padrão minimo de direitos laborais (como aconteceu, p.ex., no caso da Nike). Isso será bom ou mau para os trabalhadores dos paises pobres? Pode ser bom ou mau, já que pode ter três efeitos : pode levar a empresa a fechar as suas fábricas lá (efeito mau); pode levá-la a aumentar os direitos laborais (efeito bom); ou pode, pura e somplesmente, não ter efeito nenhum e ninguêm ligar a esses boicotes.

O diferencial de ordenados entre abrir uma fábrica nesses paises ou no "Primeiro Mundo" é tal, que mesmo aumentando os direitos dos trabalhadores, provavelmente continuará a ser rentável manter lá as fábricas (mas pode haver excepções). Há uma situação em que eu não tenho dúvidas que os boicotes são uma estratégia legítima - quando são feitos em ligação com activistas sindicais locais (como acontecia no caso da Nike): afinal, se as próprias pessoas que trabalham nessas empresas apoiam os boicotes, isso quer dizer que elas próprias acham que a possibilidade de terem melhores condições de trabalho (se as coisas correrem bem) compensa o risco de a empresa se ir embora (se as coisas correrem mal).

No caso da China, é verdade, não parece ser esse o caso, já que penso que não há lá nada comparável a sindicatos independentes, mesmo que clandestinos (como havia, p.ex., na Indónesia de Suharto), logo não podemos ter uma ideia (mesmo que aproximada) se os trabalhadores chineses são contra ou a favor desse gênero de boicotes (ou seja, a decisão de alguêm deixar ou não de comprar um iPod por causa da situação dos trabalhadores chineses é mesmo uma decisão que tem que se tomar "às cegas", sem fazer a mínima ideia do que as pessoas que pretendemos ajudar acham disso).