Saturday, January 03, 2009

Os benefícios da poupança II

Vou tentar esclarecer um ponto que me parece determinante analisando aquilo que boa parte da doutrina económica teme: aquele que não consome e apenas poupa, ainda por cima guarda todo o dinheiro recebido debaixo do colchão.

Imaginemos que por tara passava a acumular (podia até destruir) toda a moeda que recebo em salário, nunca chegando a fazer despesa com ela em toda a vida. Isso significa que toda a vida produzi algo para os outros mas não pedi nada em troca. É verdade que recebi dinheiro mas sendo a moeda um meio de troca, se nunca a chego a utilizar nunca cheguei a reclamar aos outros que posteriormente produzam algo para mim. 

(Reparar como ter moeda como que significa um direito a reclamar que outros produzam algo para nós. A moeda pode ser vista como um meio de troca de horas de trabalho. Eu trabalho hoje N horas e amanhã vou pedir a alguém que o faça para mim.)

Será isto equivalente a trabalhar de graça? Bem, sim e não, ao trabalhar de graça o benefício é colhido directamente por quem o recebe sem ter de pagar (as actividades de caridade directa por exemplo), ao receber um salário monetário igual aos outros mas não o utilizando o benefício é colhido a um nível  geral (até se poderá dizer, de forma mais igualitária) dada a diminuição geral dos preços  (visão monetária) dado que alguém produz algo que os outros vêm como útil mas não exige que os outros produzam para si (visão "economia real").

Assim uma parte da população tenha este comportamento e todo o resto da população normal (digamos assim) beneficiará dado que pode manter o mesmo nível de consumo mas produzindo menos do que teria de fazer se os primeiros quisessem depois consumir (em vez de se limitarem a acumular moeda) com o fruto do seu rendimento ou trabalho. É como se os segundos pudessem cortar horas de trabalho (aumentando as de lazer) já que passam a ter de produzir menos, ou então, assim as mantivessem e pudessem passar a produzir outras coisas ("crescimento económico").

Isto é tanto verdade numa economia de moeda, como numa comunidade voluntária de propriedade comum e sem moeda. Pensemos em esquemas de horas de trabalho comunitário. 

Os primeiros fariam N horas de trabalho para a comunidade, mas os segundos nunca veriam exigido pelos primeiros que de forma igual trabalhassem também as mesmas N horas de trabalho. 

Assim, numa situação em que o número dos primeiros esteja a aumentar, os segundos podem diminuir o número de horas de trabalho ou então dedicar-se a fazer outras actividades com essas horas (o que significa "crescimento económico" para o resto da comunidade já que fica agora capaz de produzir para si mais do mesmo ou coisas adicionais diferentes).

3 comments:

rui fonseca said...

Em conclusão...? O que é que conclui?

CN said...

Não somos prejudicados, nem a economia entra em recessão, porque alguém produz, poupa e acumula moeda. Pelo contrário.

É mau sinal é se deixar de produzir ou produzir menos.

CN

rui fonseca said...

CN,

Sabem que não é assim.

Como v. disse, e bem, a moeda não é mais do que um intermediário nas trocas. Se alguém se recusa a trocar (colocando a moeda debaixo do colchão ou triturando-a) retira do mercado força animadora do crescimento se houver espaço (hiato) para crescer.

Há um aspecto que v. referiu e que as estatísticas não referem: o trabalho para o próprio. O GNP cresce com o salário das empregadas de limpeza mas não bule com o mesmo serviço prestado pelas "donas de casa". E pelo "donos de casa", evidentemente.