Wednesday, October 15, 2008

"Institucionalismo" e "Individualismo"

Ainda a respeito disto, ocorre-me uma coisa: aquilo a que os "institucionalistas" chamam "instituições" e aquilo a que os "individualistas metodológicos" chamam "profecias auto-cumpridas" não serão mais ou menos a mesma coisa? Isto é, talvez grande parte das "profecias auto-cumpridas" não sejam "instituições", mas as "instituições" (ou a sua existência/manutenção) podem ser explicadas como "profecias auto-cumpridas".

[O que é que, p.ex., o João Rodrigues, o João Galamba ou o André Azevedo Alves acharão desta teoria?]

4 comments:

Joao Galamba said...

Miguel,

Para mim, instituições são prácticas sociais e normativas que enquadram orientam a acção dos individuos. Basicamente, sem práticas não há individuos, o que torna o individualismo metodológico impossível de sustentar. Mas elas estão muito longe de serem realidades estáticas que transcendem os indivíduos (elas não os determinam). A relação entre os dois é basicamente dialéctica: elas tornam os individuos possíveis e são também apropriadas e transformadas por eles. Isto permite-nos transformar a noção de liberdade. Em vez da liberdade negativa dos liberais, temos uma liberdade situada (e que foi fundada por Aristoteles há 2500 anos, tendo sido 'modernizada' —abandonou a noção de natureza estática que ele defendia— por autores como Hegel,Marx, Gadamer, Ricoeur, Charles Taylor, Alasdair MacIntyre...)

A Lógica das práticas (também conhecida como tradição) é narrativa e não causal, pois ela não pode ser reduzida a entidades ou categorias estáticas que a fundamentem (a vontade individual ou o sistema capitalista,...)

Para pensarmos nestes termos temos de abandonar as categorias metafísicas de substância ("ousia" em Grego) que moldaram o pensamento do Ocidente. O primeiro a criticar esta tradição metafísica foi Hegel. E é na tradição que ele 'fundou' que eu baseiam todo o meu pensamento.

Um abraço,
Joao

Joao Galamba said...

A sociedade é algo a que Hegel chama de Espírito Objectivo (prácticas que tornam os individuos possivies). Mas este, apesar de não se poder reduzir aos individuos que o constituem, não é uma entidade que se sobreponha a esses individuos. Para perceber como podemos afirmar individualismo e comunitarismo sem dar prioridade a um ou a outro, precisamos de uma ontologia não estática, ou seja: dialéctica ou, o que é algo diferente, hermeneutica.

O problema das discussões individuo vs. sociedade é o facto de eles se basearem em categorias ontológicas que distorcem a nossa forma de abordar estes temas.

Não quero parecer chato ou professoral mas isto parece-me mesmo importantes. A alternativa é o debate individuo vs. colectiva que é totalmente estéril (quando colocado em termos absolutos e dicotómicos)

Charles Taylor dedicou toda a sua obra a debater isto (e mais uma scoisas). Num dos seus artigos (the liberal communitarian debate) ele tentou separar questões normativas (liberalismo vs. socialismo vs. ....) de questões ontológicas. Os liberais tendem a achar que a filosofia é apenas uma disciplina normativa e esquecem debates sobre ontologia. Fazem-no porque não percebem que existem categorias ontologicas diferentes daqueles que eles tomam como auto-evidentes


No post que escrevi intitulado "Prelecções Alternativas' clarificar o que entendo por uma ontologia diferente.

um abraço e peço desculpa pelos lençois

Diogo said...

Jon Stewart, do Daily Show - 700 mil milhões de dólares para os Bancos

Jon Stewart, do Daily Show, fala-nos do plano do secretário das Finanças, Henry Paulson, no valor de 700 mil milhões de dólares, para salvar a finança americana. Pelo meio, uma breve mas brilhante análise da situação por George Bush. Um curto vídeo que nos arranca um bom par de gargalhadas e que termina numa toada arrepiante:


Stewart: Com Wall Street em ruínas, o secretário Frankensteiniano das Finanças, Henry Paulson, correu a ajudar com um plano brilhante. Um plano governamental de 700 mil milhões de dólares para resgatar a indústria financeira. 700 mil milhões do vosso dinheiro.

Bem, 700 mil milhões de dólares é imenso dinheiro, será que o Paulson vai aceitar? Sim ele aceita mas só sob certas condições. Para o secretário Paulson aceitar o nosso dinheiro, as decisões dele têm de ser, e passo a citar:

- Não consultáveis e mantidas em sigilo, e não podem ser analisadas por qualquer tribunal ou organismo administrativo.

Ouçam, antes de darmos a um funcionário sinistro que nem sequer foi a votos 700 mil milhões de dólares para fazer o que lhe apetecer, há uma coisa que devem saber. Este guru financeiro foi apanhado de surpresa.

(Entrevista de Paulson na Fox News a 16 de Março deste ano - 2008):

Paulson: tenho imensa confiança no nosso mercado financeiro, nas nossas instituições financeiras, os nossos mercados são resistentes, são flexíveis. As nossas instituições e os bancos de investimento são fortes.

Stewart: Isto é que é ter visão! É a cabeça de Aquiles dele. Para mais informações vamos falar com o nosso analista John Oliver. Oliver, obrigado por estares connosco. Isto é espantoso... Um exemplo espantoso... Para esta Administração depois do Katrina, depois do Iraque...

Oliver: A prisão de Guantánamo?

Stewart: Sim, isso também nos colocou numa situação difícil…

Oliver: E a politização do sistema judicial?

Stewart: Sim, preocupante.

Oliver: O secretismo draconiano?

Stewart: Sim, está bem. Onde quero chegar é ao seguinte, nunca pensei que houvesse outra área onde estes tipos conseguissem dar barraca.

Oliver: Eu sei. E não foi fácil. Foi como tentar encontrar a veia num viciado em falhanços.

Stewart: Então... Isto é... Eu compreendo, quando a veia morre é difícil... Então esta crise económica é, digamos assim, a cobertura de bosta no bolo de merda desta administração?

Oliver: Muito bem… Duas coisas: primeiro, essa metáfora teve classe. E, segundo, não os dês por acabados, Jon. Ainda falta muito até Janeiro (de 2009).

Stewart: Então achas que ainda há mais para vir? O que é que resta para eles... desconseguirem, digamos assim?

Oliver: Bem, vejamos... Ainda tens casa? Sim? Bem, então aí tens. Os teus filhos tomaram o pequeno-almoço hoje de manhã?

Stewart: Tomaram, tomaram um bom pequeno-almoço.

Oliver: E foi alguma coisa que encontraram na rua?

Stewart: Estás a dizer que o Presidente só vai ficar satisfeito quando os miúdos americanos comerem animais atropelados?

Oliver: Quando lutarem entre si pelos animais atropelados. Quando os animais atropelados forem o prémio para os mais fortes.

Stewart: Mas... Porquê?

Oliver: O legado Jon. Ouve, todos sabemos que ele nunca será lembrado como o melhor Presidente. Mas ainda pode, se se esforçar bastante...

Stewart: Ser o pior?

Oliver: Ser o último!


Vídeo legendado em português:

Anonymous said...

"sem práticas não há individuos, o que torna o individualismo metodológico impossível de sustentar"

Sustentar que sem indivíduos não há práticas (ex: planeta Marte) é errado em que sentido?